{"id":426,"date":"2011-02-16T19:11:43","date_gmt":"2011-02-16T19:11:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=426"},"modified":"2011-02-16T19:11:43","modified_gmt":"2011-02-16T19:11:43","slug":"reflexoes-sobre-o-cristianismo-puro-e-simples-de-c-s-lewis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2011\/02\/16\/reflexoes-sobre-o-cristianismo-puro-e-simples-de-c-s-lewis\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre o Cristianismo Puro e Simples, de C. S. Lewis"},"content":{"rendered":"<p>                                                                                                                              por Janos Biro<br \/>\nFonte: https:\/\/sites.google.com\/site\/janosbirozero\/Antizero\/mini-blog\/reflexoessobreocristianismopuroesimplesdecslewis<\/p>\n<p>           O cristianismo est\u00e1 ao alcance de todos, mas n\u00f3s vivemos numa cultura que n\u00e3o apenas n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3, como investe pesado na constru\u00e7\u00e3o de barreiras para nos impedir de compreender a f\u00e9 crist\u00e3 pelo que ela realmente \u00e9: um caminho verdadeiro para a vida. Todos n\u00f3s temos uma vida espiritual, uma vida que n\u00e3o \u00e9 meramente biol\u00f3gica. Esta cultura nos faz pensar que para ser a favor de uma devemos ser contra a outra. Nenhum sistema de cren\u00e7as \u00e9 t\u00e3o rejeitado pelo mundo moderno quanto o cristianismo puro e simples, e uma das melhores formas de rejeitar a f\u00e9 \u00e9 associ\u00e1-la com o que h\u00e1 de pior no homem.<\/p>\n<p>            Antes de tudo, devemos entender duas coisas sobre C. S. Lewis e seu objetivo com esse livro: 1. Lewis n\u00e3o est\u00e1 pregando para atrair membros para sua igreja, ele est\u00e1 falando de como \u00e9 a vida sob a perspectiva da f\u00e9 crist\u00e3, em contraste com a vida fora da f\u00e9 crist\u00e3. 2. O sentido do termo \u201ccrist\u00e3o\u201d deve ser descritivo e n\u00e3o um simples elogio. No sentido profundo, n\u00e3o podemos julgar quem \u00e9 realmente crist\u00e3o e quem n\u00e3o \u00e9. Voc\u00ea pode ser um n\u00e3o-crist\u00e3o cheio de qualidades, ou um crist\u00e3o com poucas qualidades. O que importa \u00e9 estar disposto a compreender o sentido da f\u00e9 crist\u00e3 para sua vida e a viver de modo consistente com suas cren\u00e7as.<\/p>\n<p>Livro I: O Certo e o Errado como chaves da compreens\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>            Todos n\u00f3s separamos o certo do errado. Algu\u00e9m que diz que n\u00e3o existe certo e errado n\u00e3o consegue viver de acordo com isso. Sem certo e errado, nada do que fazemos tem qualquer sentido. A natureza humana \u00e9 regida por leis naturais espec\u00edficas do homem, que s\u00e3o chamadas de leis morais. A diferen\u00e7a entre as leis morais e as outras leis naturais \u00e9 que elas s\u00f3 podem ser obedecidas voluntariamente. Uma pedra n\u00e3o tem escolha quando a soltamos no ar. Mas uma pessoa tem escolha entre fazer ou n\u00e3o fazer aquilo que a sua pr\u00f3pria moralidade recomenda. Por isso o homem \u00e9 capaz de experimentar a d\u00favida moral.<\/p>\n<p>            No livro Aboli\u00e7\u00e3o do homem, Lewis debate sobres os valores tradicionais, universais e objetivos, que ele chama de Tao. Ele deixa claro que a religi\u00e3o judaico-crist\u00e3 foi apenas uma das culturas que defendeu o Tao, dando sua pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o para ele. As diferen\u00e7as culturais, quando se trata das leis naturais, s\u00e3o superficiais. Em todas as culturas a moralidade humana parece ser regida por algumas leis comuns. Imagine como seria uma cultura que n\u00e3o se aproximasse nem um pouco do Tao. Provavelmente ela seria invi\u00e1vel. Se n\u00e3o existisse lei natural para limitar o comportamento humano, n\u00e3o poder\u00edamos diferenciar o que \u00e9 justo do que \u00e9 injusto. Mesmo quando eu rejeito uma lei, eu a rejeito em vista de outra lei. Nunca consigo rejeitar tudo que faz parte do sistema moral.<\/p>\n<p>            Ningu\u00e9m segue a lei natural \u00e0 risca. Os erros fazem parte do aprendizado, mas s\u00f3 podem ser compreendidos enquanto erros quando h\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o do que n\u00e3o \u00e9 um erro. Eliminar a no\u00e7\u00e3o de erro seria querer eliminar o sentido da a\u00e7\u00e3o humana. Mas o sentido da a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 definido por uma lista de coisas permitidas e uma lista de coisas proibidas. Todas as a\u00e7\u00f5es s\u00e3o geradas por impulsos, e n\u00e3o h\u00e1 impulsos humanos que s\u00e3o bons por si s\u00f3s ou maus por si s\u00f3s. A lei natural indica quando seguir um impulso e quando n\u00e3o segui-lo. Se a lei natural n\u00e3o levasse em conta o contexto, n\u00e3o exigiria pondera\u00e7\u00e3o. Da mesma forma, na m\u00fasica n\u00e3o existem notas que s\u00e3o em si mesmas boas ou m\u00e1s, mas sim notas que formam uma melodia e notas que s\u00e3o dissonantes em rela\u00e7\u00e3o a essa mesma melodia.<\/p>\n<p>            A lei natural n\u00e3o \u00e9 instintiva nem \u00e9 equivalente ao instinto. Os instintos s\u00e3o cegos, competem entre si e precisam de uma for\u00e7a ordenadora. Ao mesmo tempo em que o instinto de preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie nos diz para salvar a vida de algu\u00e9m, o instinto de auto-preserva\u00e7\u00e3o nos diz para deixar outra pessoa fazer isso. N\u00e3o escolhemos com base no instinto mais forte, ou n\u00e3o estar\u00edamos realmente escolhendo. Sem a capacidade de seguir ou n\u00e3o seguir os preceitos morais, n\u00f3s perder\u00edamos nossa liberdade. Se f\u00f4ssemos meramente seres movidos por impulsos ou puls\u00f5es nossa vida perderia o sentido: seria caminhar num espa\u00e7o infinitamente vazio. <\/p>\n<p>            Os instintos podem ser despertados ou adormecidos, ati\u00e7ados ou amortecidos. Se isso \u00e9 verdade, ent\u00e3o aquilo que d\u00e1 vaz\u00e3o ou repreende um instinto n\u00e3o pode ser o pr\u00f3prio instinto, mas uma qualidade moral. O impulso n\u00e3o determina necessariamente o nosso comportamento, mas n\u00f3s criamos dispositivos para facilitar ou dificultar a manifesta\u00e7\u00e3o dos impulsos. Ser equilibrado \u00e9 ter o poder de dizer n\u00e3o a um impulso forte, e sim a um impulso fraco. Por isso o senso moral n\u00e3o \u00e9 a repress\u00e3o dos impulsos malignos, mas a liberdade de escolher sem se sujeitar aos impulsos.<\/p>\n<p>            \u201cA coisa mais perigosa que podemos fazer \u00e9 tomar um impulso de nossa natureza como crit\u00e9rio a ser seguido custe o que custar\u201d, diz Lewis. E muitos vil\u00f5es de hist\u00f3rias em quadrinhos s\u00e3o exatamente aqueles que querem fazer o \u201cbem\u201d a qualquer custo.<\/p>\n<p>            Ser\u00e1 que n\u00f3s tivemos algum avan\u00e7o moral desde o tempo em que queim\u00e1vamos bruxas na fogueira? N\u00f3s s\u00f3 deixamos de fazer isso porque n\u00e3o era mais conveniente. N\u00f3s n\u00e3o deixamos de queimar bruxas por um avan\u00e7o moral ou maior respeito \u00e0 vida humana, mas porque n\u00e3o acreditamos mais em bruxas. N\u00e3o deixamos de escravizar porque passamos a respeitar os seres humanos, mas porque outros modos de explora\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais efetivos.<\/p>\n<p>            Ser maligno \u00e9 diferente de ser inconveniente, assim como ser bom \u00e9 diferente de ser conveniente. Certo e errado transcendem os fatos, se trata de algo que ocorre no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>            Hoje em dia as pessoas acreditam num deus domesticado, que n\u00e3o nos ensina como viver e n\u00e3o interfere com nossa vida. \u00c9 o equivalente ao acaso ou \u00e0 totalidade das for\u00e7as. Essa cren\u00e7a o liberou do fardo de viver para al\u00e9m do presente. Mas viver pelo presente acelerou o processo de degrada\u00e7\u00e3o. Quando se avan\u00e7a sem saber para onde se est\u00e1 indo, n\u00e3o adianta acelerar para tentar chegar mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p>            Deus \u00e9 a pessoa que mais tememos encontrar, porque \u00e9 o \u00fanico que nos conhece totalmente. \u00c9 muito dif\u00edcil admitir que n\u00f3s estamos atolados na maldade e n\u00e3o sabemos o que fazer para mudar isso. \u00c9 preciso buscar a verdade, e n\u00e3o o consolo. Se a doen\u00e7a \u00e9 curada, acaba a dor, mas acabar com a dor n\u00e3o cura necessariamente a doen\u00e7a. N\u00f3s reclamamos de Deus quando ele n\u00e3o acaba com a dor, mas n\u00e3o queremos que Ele cure as doen\u00e7as que nos causam prazer.<\/p>\n<p> Livro II: No que acreditam os crist\u00e3os<\/p>\n<p>             Pessoas dentro e fora do cristianismo t\u00eam dificuldade de distinguir entre o que \u00e9 preciso e o que n\u00e3o \u00e9 preciso para ser crist\u00e3o. Desde seu princ\u00edpio, o cristianismo pregou a metan\u00f3ia, a mudan\u00e7a das disposi\u00e7\u00f5es mentais. A \u00eanfase de Cristo foi restaurar cren\u00e7as vitais sobre o sentido da vida.<\/p>\n<p>            Se analisarmos uma cren\u00e7a comum hoje em dia, que aceita Deus como uma for\u00e7a que anima o universo, por\u00e9m n\u00e3o interfere no curso da hist\u00f3ria (e at\u00e9 Richard Dawkins diz ser simp\u00e1tico a essa no\u00e7\u00e3o), e pensarmos como chegamos a acreditar nisso, podemos chegar a uma filosofia influente, que defende a ideia de que \u201cDeus \u00e9 Natureza\u201d.<\/p>\n<p>            Se levarmos o pante\u00edsmo a s\u00e9rio, significa que o mundo \u00e9 Deus, e se acreditarmos nisso, devemos concluir que nada no mundo pode estar no lugar errado, e nada pode ser corrigido. Quando nos perguntamos o que fez o mundo dar errado, de onde tiramos a ideia de \u201cerrado\u201d? S\u00f3 pode haver algo errado se houver algo certo. Se n\u00f3s despedirmos os conceitos de certo e errado, ent\u00e3o como discernir entre \u201ccomo as coisas s\u00e3o\u201d e \u201ccomo as coisas n\u00e3o s\u00e3o\u201d? Se n\u00f3s podemos estar iludidos sobre algo, ent\u00e3o tem que haver algo que n\u00e3o \u00e9 ilus\u00e3o. Como poder\u00edamos reconhecer a falta de sentido sem reconhecer o que \u00e9 ter sentido? Se a vida n\u00e3o tivesse um sentido intr\u00ednseco, de onde surgiria o sentido de ter que dar um sentido \u00e0 vida?<\/p>\n<p>            A mensagem da f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 simples, mas n\u00e3o simplista. O mundo \u00e9 complexo, e a f\u00e9 se aplica a toda a sua complexidade. As pessoas costumam a pedir que a f\u00e9 seja apresentada de um modo simples para ent\u00e3o rejeit\u00e1-la por ser um modo simplista de olhar para um mundo complexo. Mas se apresentamos a profundidade da f\u00e9, elas rejeitam por n\u00e3o ser simples o suficiente para a capacidade mental da maioria das pessoas. Essas exig\u00eancias servem para desqualificar qualquer sistema de cren\u00e7as.<\/p>\n<p>            Caminhar na f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 uma coisa f\u00e1cil. A f\u00e9 nunca foi atraente nem agrad\u00e1vel, ela \u00e9 surpreendente e sempre exige esfor\u00e7o compreensivo, n\u00e3o importa qual seja seu n\u00edvel de conhecimento. Se \u201cser bom\u201d significasse apenas fazer algo que a sociedade considera bom, ent\u00e3o n\u00e3o precisar\u00edamos do Bem, poder\u00edamos concordar com o pante\u00edsmo de Spinoza.<\/p>\n<p>            Muita gente pensa que o bem e o mal s\u00e3o apenas dois lados da mesma moeda. Mas enquanto o bem tem valor em si mesmo, ningu\u00e9m ama o mal pelo mal. N\u00f3s sempre fazemos o mal com vista a um objetivo, e n\u00e3o pelo simples e puro ato de ser mau. Imagine a coisa mais maligna que voc\u00ea poderia fazer. Por mais maligno que seja seu plano, se vier algu\u00e9m e mudar seu plano, voc\u00ea talvez diga: \u201cN\u00e3o estrague meu plano perfeito!\u201d. O mal \u00e9 apenas um modo incorreto de procurar pelo bem.<\/p>\n<p>            No cristianismo n\u00e3o h\u00e1 dualismo entre Bem e Mal, porque o modo de exist\u00eancia do Bem \u00e9 diferente do modo de exist\u00eancia do Mal, de forma que n\u00e3o s\u00e3o dois lados da mesma coisa. N\u00e3o h\u00e1 dualismo entre C\u00e9u e Terra, nem entre Mat\u00e9ria e Esp\u00edrito. Essas coisas s\u00e3o diferentes, mas n\u00e3o formam dualidades, como pregava o Manique\u00edsmo e o Gnosticismo. <\/p>\n<p>            O cristianismo v\u00ea o mundo como um territ\u00f3rio ocupado pelo inimigo. Citando Lewis, \u201cO cristianismo \u00e9 a hist\u00f3ria de como o rei por direito desembarcou disfar\u00e7ado em sua terra e nos chama para tomar parte numa grande campanha de sabotagem\u201d. A igreja \u00e9 um lugar para onde vamos para ouvir quais s\u00e3o os planos do rei para retomar o que est\u00e1 nas m\u00e3os do inimigo.<\/p>\n<p>            O atual estado de coisas est\u00e1 de acordo com a vontade de Deus? Se voc\u00ea disser que sim, ent\u00e3o que Deus seria esse? Se voc\u00ea disser que n\u00e3o, ent\u00e3o como pode ser que exista algo que contrarie a vontade de um ser absoluto? Este \u00e9 o problema do mal, j\u00e1 conhecido pelos gregos 300 anos antes de Cristo. O cristianismo n\u00e3o se esquiva dessa pergunta. Deus nos deu liberdade para pud\u00e9ssemos ter responsabilidade. Se n\u00f3s n\u00e3o tiv\u00e9ssemos a possibilidade de fazer uso da liberdade para efetivar o mal, n\u00e3o ser\u00edamos livres. E se pud\u00e9ssemos fazer o mal, mas Deus nos poupasse de todas as consequ\u00eancias de nossos atos, ent\u00e3o n\u00e3o aprender\u00edamos a ser respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>            N\u00e3o podemos temer a palavra \u201cautoridade\u201d. A maior parte das coisas que acreditamos, acreditamos em fun\u00e7\u00e3o da autoridade de algu\u00e9m. N\u00e3o reconhecer qual \u00e9 a autoridade que voc\u00ea est\u00e1 seguindo n\u00e3o \u00e9 o mesmo que n\u00e3o seguir nenhuma autoridade.<\/p>\n<p>            N\u00e3o precisamos ter medo do erro. O cristianismo n\u00e3o exige que sejamos impec\u00e1veis, mas pecadores capazes de nos arrepender sinceramente e mudar, fortalecendo a f\u00e9. Todo ser vivo \u00e9 capaz de se ferir, mas tamb\u00e9m de se regenerar. A culpa impede que a f\u00e9 se regenere depois da batalha.<\/p>\n<p>            Deus n\u00e3o ama nossa bondade, \u00e9 por meio Dele que somos bons.<\/p>\n<p>            N\u00e3o podemos dizer que Jesus foi apenas um grande mestre da moral. O que ele disse \u00e9 algo completamente absurdo se sa\u00edsse da boca de um simples humano. Ele disse que nos perdoa por nossos pecados. Como algu\u00e9m pode nos perdoar por nossos pecados, como se fosse ele o \u00fanico ofendido? Jesus n\u00e3o nos deixa escolha: ou ele era um lun\u00e1tico, ou era muito mais que um grande mestre da moral.<\/p>\n<p>Livro III: Conduta Crist\u00e3<\/p>\n<p>            A moral \u00e9 um modo se conduzir, ou seja, um modo de caminhar numa jornada para que seja poss\u00edvel chegar at\u00e9 seu destino. Existem tr\u00eas exig\u00eancias da moral: 1. Que os indiv\u00edduos n\u00e3o entrem em colis\u00e3o entre si, mas consigam conviver em paz. 2. Que o indiv\u00edduo esteja bem consigo mesmo, n\u00e3o entre em conflito consigo mesmo. 3. Que n\u00f3s saibamos para onde estamos caminhando. Podemos fazer analogia com uma banda: 1. \u00c9 preciso que voc\u00ea n\u00e3o atrapalhe os outros membros a tocar. 2. \u00c9 preciso que voc\u00ea saiba tocar seu pr\u00f3prio instrumento. 3. Voc\u00eas precisam saber que m\u00fasica voc\u00eas est\u00e3o tocando.<\/p>\n<p>            Uma coisa pode ser moralmente errada mesmo que n\u00e3o fa\u00e7a mal a ningu\u00e9m, porque n\u00e3o basta seguir apenas uma ou duas regras. Ou as tr\u00eas s\u00e3o seguidas, ou n\u00e3o chegaremos a lugar algum.<\/p>\n<p>            Uma pessoa n\u00e3o se torna boa pela imposi\u00e7\u00e3o. Se o indiv\u00edduo n\u00e3o tem o desejo de fazer o bem, suas boas a\u00e7\u00f5es de pouco valer\u00e3o.<\/p>\n<p>            A perspectiva do cristianismo deveria mudar muito a forma como nos relacionamos e valorizamos as pessoas. Pois se realmente acreditamos que o ser humano possui uma alma eterna, significa que ele durar\u00e1 muito mais do que todas as coisas transit\u00f3rias que constru\u00edmos nesse mundo.<\/p>\n<p>            Existem quatro virtudes cardeais: 1. A prud\u00eancia, que \u00e9 pensar no que voc\u00ea faz. 2. Temperan\u00e7a, que \u00e9 saber quando parar. 3. Justi\u00e7a: que \u00e9 n\u00e3o desprezar a verdade. 4. Fortaleza, que \u00e9 coragem de enfrentar o mal e suportar a dor da boa escolha.<\/p>\n<p>            A virtude n\u00e3o se resume a uma lista de a\u00e7\u00f5es virtuosas, mas est\u00e1 dentro da pessoa que usa esses crit\u00e9rios para guiar sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>            \u00c9 verdade que Jesus n\u00e3o foi o primeiro a falar dessas virtudes. Mas aparentemente ningu\u00e9m quer o projeto de Deus por inteiro. N\u00f3s selecionamos as partes que queremos, e descartamos a outras. Queremos as coisas mais f\u00e1ceis de fazer, mas n\u00e3o as coisas mais dif\u00edceis. Queremos concordar com o amor ao pr\u00f3ximo, mas ao mesmo tempo \u00e9 muito dif\u00edcil colocar isso em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>            O maior obst\u00e1culo \u00e0 caridade \u00e9 a inseguran\u00e7a quanto ao futuro. N\u00e3o adianta o quanto Jesus diga que n\u00e3o devemos ficar ansiosos quanto ao que comeremos amanh\u00e3, parece que essa ansiedade est\u00e1 cada vez mais presente. A caridade crist\u00e3 \u00e9 diferente do projeto social voltado somente \u00e0s \u201cnecessidades b\u00e1sicas\u201d. N\u00e3o \u00e9 um projeto pol\u00edtico de esquerda nem de direita. A moralidade social do cristianismo \u00e9 atender \u00e0s verdadeiras necessidades das pessoas. A paz de Cristo \u00e9 bem diferente da \u201ceudemonia\u201d grega.<\/p>\n<p>            A f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 um tipo de psican\u00e1lise. A psican\u00e1lise pode ajudar um homem que tem medo de sair na rua, mas n\u00e3o o orienta para saber o que fazer quando ele sair na rua.<\/p>\n<p>            Deus julga por escolhas morais. Se voc\u00ea ainda reconhece que faz o mal, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o mau quanto aquele que n\u00e3o reconhece a diferen\u00e7a entre bem e mal. S\u00f3 reconhecemos o quanto n\u00f3s somos maus quando resistimos ao mal. Um homem que se entrega com muita facilidade ao mal n\u00e3o sabe qual \u00e9 o seu n\u00edvel de maldade. Quando resistimos ao mal \u00e9 que ele se mostra com seu verdadeiro poder. S\u00f3 descobrimos o grau da nossa depend\u00eancia quando tentamos abandonar um v\u00edcio.<\/p>\n<p>            A moral sexual existe em todas as culturas. A lei crist\u00e3 \u00e9 uma lei de amor, ela n\u00e3o contraria a natureza do amor. Quando nos apaixonamos por algu\u00e9m, o que sentimos \u00e9 real. Sentimos um desejo natural por declarar e ouvir uma declara\u00e7\u00e3o de fidelidade. A f\u00e9 crist\u00e3 exige que os amantes levem a s\u00e9rio aquilo que sua paix\u00e3o os impele a fazer, e assumam um compromisso.<\/p>\n<p>            Sobre o perd\u00e3o, se eu odeio meu pecado por amor a mim mesmo, ent\u00e3o devo fazer o mesmo com os outros: odiar o pecado deles pelo mal que este pecado causa a eles mesmos.<\/p>\n<p>            Existem tr\u00eas virtudes teol\u00f3gicas: A humildade, a f\u00e9 e a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>            O orgulho, que \u00e9 falta de humildade, \u00e9 o pior pecado, porque \u00e9 competitivo por si mesmo. Quando desprezamos os outros por completo, estamos inundados de orgulho. Sempre que somos regidos pelo orgulho, criamos um deus imagin\u00e1rio, que \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos. <\/p>\n<p>            A caridade se fortalece agindo como Jesus agiu. Voc\u00ea s\u00f3 pode se importar com algu\u00e9m se experimentar viver assim.<\/p>\n<p>            A esperan\u00e7a \u00e9 indispens\u00e1vel para agir. N\u00e3o podemos mudar nada no mundo se nossa esperan\u00e7a est\u00e1 na riqueza. Se nosso objetivo \u00e9 obter prosperidade material, perdemos tanto este mundo quanto o Reino de Deus, porque isso significa desconfian\u00e7a de que nada nos faltar\u00e1 se colocarmos o Reino de Deus em primeiro lugar.<\/p>\n<p>            Existem tr\u00eas vias para se lidar com a insatisfa\u00e7\u00e3o quanto ao estado de coisas no mundo: 1. Culpar as coisas do mundo e buscar outras coisas do mundo. 2. Desistir de tudo e dizer que tudo \u00e9 insuficiente, que nada neste mundo ir\u00e1 mudar. 3. N\u00e3o se acomodar com este mundo, mas transformar a si mesmo pela renova\u00e7\u00e3o da mente, a fim de experimentar qual \u00e9 a boa vontade de Deus.<\/p>\n<p>            F\u00e9 \u00e9 manter-se firme naquilo que a raz\u00e3o j\u00e1 aceitou como necessidade, mas as conting\u00eancias querem negar. Varia\u00e7\u00f5es de humor e situa\u00e7\u00f5es delicadas nos fazem duvidar de algo que t\u00ednhamos certeza, mas nos arrependemos dessa d\u00favida quando voltamos \u00e0 raz\u00e3o. Por isso nos envergonhamos, pedimos perd\u00e3o, e tentamos nos reconciliar com pessoas que possamos ter acusado injustamente de trai\u00e7\u00e3o. F\u00e9 \u00e9 manter-se firme numa decis\u00e3o que pode parecer muito duvidosa em certos momentos, mas tem base na raz\u00e3o. A f\u00e9 n\u00e3o exclui a presen\u00e7a da d\u00favida nem do questionamento acerca da verdade das afirma\u00e7\u00f5es e da realidade das coisas. Exemplo: Podemos ter certeza de que n\u00e3o h\u00e1 nada perigoso no escuro, e mesmo assim ter medo do escuro.<\/p>\n<p>            N\u00e3o conhecemos a for\u00e7a do mal que h\u00e1 em n\u00f3s at\u00e9 decidirmos enfrent\u00e1-lo. Quem enfrenta o mal faz com que ele adote estrat\u00e9gias mais agressivas. Ter f\u00e9 \u00e9 permanecer na decis\u00e3o pelo bem por mais que o mal se apresente sob formas inesperadas.<\/p>\n<p>            N\u00e3o h\u00e1 nada que voc\u00ea possa dar a Deus que ele n\u00e3o tenha te dado antes. Deus oferece tudo em troca de nada, e por isso n\u00e3o faz sentido barganhar com Deus. Ele n\u00e3o est\u00e1 exigindo que voc\u00ea O ame. Ele \u00e9 O Caminho, A Verdade e A Vida, e amar a Deus \u00e9 uma necessidade para n\u00f3s, n\u00e3o para Ele. Deus se apresentou para ser amado para o nosso pr\u00f3prio bem.<\/p>\n<p>Livro IV \u2013 Al\u00e9m da personalidade<\/p>\n<p>            O que o cristianismo tem a dizer sobre a personalidade? A teologia nos diz que n\u00f3s somos filhos de Deus, mas que Jesus \u00e9 o \u00fanico Filho de Deus. Como pode? Ele \u00e9 o Filho gerado, sempre existente. Jesus \u00e9 ao mesmo tempo plenamente Deus e plenamente Homem. No Filho, n\u00e3o s\u00f3 a Divindade como a Humanidade \u00e9 revelada \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>            Existem dois conceitos de vida: bios e zoe, a vida natural e a vida espiritual. O cristianismo obt\u00e9m conhecimento experimental sobre a zoe por meio da comunidade.<\/p>\n<p>            Para Deus todo tempo \u00e9 agora, e Ele nunca esteve calado. Sua Palavra est\u00e1 ativa \u00e9 por meio dela que Ele cria o mundo.<\/p>\n<p>            Deus \u00e9 amor, mas o amor n\u00e3o \u00e9 Deus. Todo amor emana de Deus, mas Deus n\u00e3o pode ser reduzido ao conjunto das emana\u00e7\u00f5es do amor.<\/p>\n<p>             A bios quer reinar sobre n\u00f3s, ela quer prioridade e exclusividade. Por isso o mundo vende o pecado dando duas ou mais op\u00e7\u00f5es: \u201cVoc\u00ea quer comprar a vista ou a prazo?\u201d. Ficamos discutindo qual op\u00e7\u00e3o \u00e9 melhor e esquecemos da terceira op\u00e7\u00e3o: n\u00e3o comprar.<\/p>\n<p>            Quando somos pegos desprevenidos \u00e9 que revelamos quem realmente n\u00f3s somos.<\/p>\n<p>            Ser moral \u00e9 diferente de estar em Cristo. Voc\u00ea pode seguir toda a lei, e ainda assim Jesus exige algo que voc\u00ea n\u00e3o esperava ter que cumprir. Somos quase sempre impulsionados pelo medo. Mas a covardia \u00e9 mais perigosa que a coragem, porque ela gera um ciclo vicioso. Escolher seguir Jesus \u00e9 a decis\u00e3o mais dif\u00edcil que existe. Deus cura a doen\u00e7a por completo, e isso quer dizer que Ele nos cura tanto do que nos incomoda quanto do que nos agrada. Por isso \u00e9 comum que algu\u00e9m s\u00f3 venha procurar cura quando n\u00e3o h\u00e1 mais como viver com a doen\u00e7a. Mas na maioria dos casos n\u00e3o \u00e9 assim, e o mundo moderno nos deu uma boa quantidade de doen\u00e7as agrad\u00e1veis, que nos matam aos poucos, sem que a gente perceba.<\/p>\n<p>            Quem n\u00e3o quer ser curado de tudo n\u00e3o quer seguir Jesus, porque santidade \u00e9 diferente de bondade. Se voc\u00ea quer apenas aprender como ser uma pessoa melhor, n\u00e3o precisa de Jesus. Se aceita Jesus, significa que vai ter que aceitar que Ele tome conta da sua vida a transforme completamente, e cure aquelas doen\u00e7as que voc\u00ea n\u00e3o sabia que tinha, e algumas que voc\u00ea at\u00e9 mesmo gostava de ter e chamava de b\u00ean\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>            Tudo que prov\u00e9m de Deus se descaracteriza ao se afastar de Deus. Se tudo que nos faz ser quem somos prov\u00e9m de Deus, a \u00fanica forma sermos aut\u00eanticos \u00e9 nos entregarmos totalmente para Deus. Se n\u00f3s quisermos ser n\u00f3s mesmos distantes Dele, n\u00e3o seremos mais n\u00f3s mesmos. Ao nos entregarmos, Deus nos acolhe por completo, como fomos feitos para ser.<\/p>\n<p>            Cada aspecto que faz de voc\u00ea o que voc\u00ea realmente \u00e9 foi criado por Deus. Todo aspecto inaut\u00eantico foi resultado de um afastamento em rela\u00e7\u00e3o a Deus. Se n\u00f3s ignoramos qual o sentido de nossa exist\u00eancia, n\u00e3o sabemos como viver, assim como n\u00e3o saber\u00edamos o que fazer com um artefato alien\u00edgena que n\u00e3o se parece com nada do que conhecemos. Acabamos brincando com a vida, achando que a vida \u00e9 o que que que fa\u00e7amos dela. Fazendo o que n\u00e3o deveria ser feito e agindo sem compreender o objetivo da a\u00e7\u00e3o. A pergunta que Deus responde \u00e9 a seguinte: \u201cSenhor, o Senhor me fez assim, me deu tudo que eu tenho, mas eu n\u00e3o sei o que fazer com isso. Tudo que eu tento fazer parece acabar dando errado. O que o Senhor quer que eu fa\u00e7a com isso, com essa vida? Eu n\u00e3o consegui nem sequer compreender qual a minha fun\u00e7\u00e3o. Para que eu sirvo?\u201d.<\/p>\n<p>            Os pecadores procuravam Jesus porque os s\u00e3os n\u00e3o precisam de m\u00e9dico. Ent\u00e3o n\u00e3o faz sentido dizer que voc\u00ea n\u00e3o pode ser crist\u00e3o porque tem esse ou aquele defeito. A quest\u00e3o \u00e9 o que voc\u00ea ama mais, seu pecado ou sua vida. Uma nova criatura n\u00e3o \u00e9 exatamente uma pessoa boa, mas \u00e9 uma pessoa nova, que n\u00e3o \u00e9 mais determinada pelos fatores que condenavam a pessoa velha. Deus n\u00e3o quer que voc\u00ea seja apenas melhor, mas sim uma nova pessoa, capaz de tomar as decis\u00f5es que n\u00e3o conseguia antes. <\/p>\n<p>            N\u00e3o podemos privilegiar nosso pr\u00f3prio conceito de bom. O plano de Deus pode ser bem diferente. A transforma\u00e7\u00e3o proposta por Deus n\u00e3o \u00e9 exatamente uma evolu\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 volunt\u00e1ria e vem de fora da natureza.<\/p>\n<p>            Os crist\u00e3os ser\u00e3o todos iguais por serem todos imitadores de Jesus? N\u00e3o. O fato de que a mesma luz incide sobre todos n\u00e3o faz todos serem iguais. A luz real\u00e7a as diferen\u00e7as, como o sal real\u00e7a o sabor. Jesus pergunta: o que poderia fazer o sal voltar a ser salgado? O que poderia fazer a luz voltar a iluminar? O que poderia fazer o humano voltar a ser humano? O que pode fazer voc\u00ea voltar a ser voc\u00ea?<\/p>\n<p>            Querer ser voc\u00ea mesmo independente da fonte prim\u00e1ria \u00e9 querer se conformar com o resultado de incont\u00e1veis vari\u00e1veis, heredit\u00e1rias ou adquiridas, que n\u00e3o est\u00e3o sob seu controle. Isso \u00e9 o que realmente significa ser do mundo: estar alienado daquilo que te faz a pessoa que voc\u00ea \u00e9. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Janos Biro Fonte: https:\/\/sites.google.com\/site\/janosbirozero\/Antizero\/mini-blog\/reflexoessobreocristianismopuroesimplesdecslewis O cristianismo est\u00e1 ao alcance de todos, mas n\u00f3s vivemos numa cultura que n\u00e3o apenas n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3, como investe pesado na constru\u00e7\u00e3o de barreiras para nos impedir de compreender a f\u00e9 crist\u00e3 pelo que ela realmente \u00e9: um caminho verdadeiro para a vida. 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