{"id":421,"date":"2011-02-10T12:55:25","date_gmt":"2011-02-10T12:55:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=421"},"modified":"2011-02-10T12:55:25","modified_gmt":"2011-02-10T12:55:25","slug":"chesterton-sobre-shakespeare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2011\/02\/10\/chesterton-sobre-shakespeare\/","title":{"rendered":"Chesterton sobre Shakespeare"},"content":{"rendered":"<p>A ORTODOXIA DE HAMLET<br \/>\nGILBERT KEITH CHESTERTON<\/p>\n<p>TRADU\u00c7\u00c3O: MARCIO DE PAULA S. HACK<\/p>\n<p>Por vezes me sinto tentado a pensar (como uma em cada duas pessoas que de fato pensa) que todo mundo estaria sempre certo, contanto que n\u00e3o fosse educado. Mas este \u00e9, obviamente, um jeito bem errado de formular a quest\u00e3o. A verdade \u00e9 que n\u00e3o existe essa coisa chamada educa\u00e7\u00e3o; existe apenas esta educa\u00e7\u00e3o e aquela educa\u00e7\u00e3o. Estamos todos prontos a morrer para dar \u00e0s pessoas essa educa\u00e7\u00e3o, e (espero que sinceramente) prontos a morrer para evitar que as pessoas tenham aquela educa\u00e7\u00e3o. O dr. Strong, em \u201cDavid Copperfield\u201d, educava garotinhos; mas o Sr. Fagin, em \u201cOliver Twist\u201d, tamb\u00e9m educava garotinhos; eram ambos o que hoje chamamos de \u201cespecialistas em educa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mas embora a formula\u00e7\u00e3o da primeira afirma\u00e7\u00e3o seja certamente err\u00f4nea, \u00e0s vezes ela nos volta \u00e0 mem\u00f3ria, quando consideramos o caso do teatro. Eu gosto demais de teatro para me tornar um cr\u00edtico teatral; e acho que nessa quest\u00e3o, estou junto das pessoas que nunca abrem a boca. Se algu\u00e9m quer saber o que \u00e9 a democracia pol\u00edtica, a resposta \u00e9 simples; \u00e9 uma tentativa desesperada e quase impratic\u00e1vel de chegar \u00e0s opini\u00f5es das melhores pessoas \u2013 isto \u00e9, das pessoas que n\u00e3o confiam em si mesmas. Um homem pode subir a qualquer posto em uma oligarquia. Mas a oligarquia \u00e9 simplesmente a premia\u00e7\u00e3o da impud\u00eancia. Uma oligarquia diz que o vitorioso pode ser qualquer tipo de homem, contanto que n\u00e3o seja um homem humilde.<\/p>\n<p>Um homem em um estado olig\u00e1rquico (como o nosso) pode ficar famoso por ter dinheiro, ou por ter um bom olho para cores, ou por ter sucesso social, financeiro ou militar. Mas n\u00e3o pode ficar famoso por ser humilde, como os grandes santos.<\/p>\n<p>Consequentemente, todos os homens simples e hesitantes s\u00e3o mantidos completamente fora da corrida; e os cafajestes representam o homem comum, embora na verdade  sejam uma minoria entre os homens comuns. Assim \u00e9, especialmente, com o teatro. \u00c9 completamente falso dizer que o povo n\u00e3o gosta de Shakespeare. A parte do povo que n\u00e3o gosta de Shakespeare \u00e9 simplesmente a parcela do povo que se despopularizou. Se uma certa multid\u00e3o de cockneys fica entediada com \u201cHamlet\u201d, os cockneys n\u00e3o est\u00e3o entediados por que s\u00e3o complexos e engenhosos demais para \u201cHamlet\u201d. Eles sentem que aquela excita\u00e7\u00e3o das tavernas, do ringue de apostas, do jornal barato, do teatro de variedades local, \u00e9 mais complexa e engenhosa do que \u201cHamlet\u201d; e \u00e9 mesmo.<\/p>\n<p>No senso mais estrito da palavra, os cockneys s\u00e3o art\u00edsticos demais para gostar de \u201cHamlet\u201d. Eles estimularam e cansaram demais seus sentimentos art\u00edsticos para que possam gozar algo que \u00e9 simplesmente belo. Eles s\u00e3o estetas; e um esteta, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 um homem experiente o bastante para admirar uma bela pintura, mas n\u00e3o inexperiente o bastante para v\u00ea-la. Mas se voc\u00ea realmente levasse pessoas simples, camponeses honestos, criados velhos e bondosos, vagabundos sonhadores, ladr\u00f5es cordiais e bandoleiros para ver \u201cHamlet\u201d, eles simplesmente sentiriam pena de Hamlet. Isto \u00e9, eles simplesmente peceberiam o fato de que \u00e9 uma grande trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Ora, eu acredito no julgamento de todas as pessoas incultas; mas \u00e9 minha desdita que eu seja a \u00fanica pessoa completamente inculta na Inglaterra a escrever artigos. Meus pares est\u00e3o em sil\u00eancio. Eles n\u00e3o me apoiar\u00e3o; t\u00eam coisas melhores a fazer. Mas uns dias atr\u00e1s, quando vi a senhorita Julie Marlowe e o Sr. Sothern representarem\u2019\u201dHamlet\u201d muito habilmente, certas coisas vieram \u00e0 mente sobre aquela pe\u00e7a, que tenho certeza que outras pessoas incultas t\u00eam em comum comigo. Mas elas nada dir\u00e3o; com uma estranha mod\u00e9stia, escondem sua incultura.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma piada antiga que chama a galeria de um teatro \u201cos deuses\u201d. Da minha parte, aceito essa piada com muita seriedade. As pessoas na galeria s\u00e3o os deuses. S\u00e3o a autoridade \u00faltima, at\u00e9 o ponto em qualquer coisa humana pode ser a autoridade \u00faltima. Eu n\u00e3o vejo nada de excessivo no ator convoc\u00e1-las com o mesmo gesto que convoca o monte Olimpo. Quando o ator olha para baixo, meditando em desespero ou invocando o negro Erebus ou os esp\u00edritos do mal, ent\u00e3o, em tais momentos, por favor deixem-no curvar suas negras sobrancelhas e olhar para os lugares logo abaixo de si. Mas se existe em qualquer pe\u00e7a montada qualquer coisa que o fa\u00e7a erguer o cora\u00e7\u00e3o aos c\u00e9us, ent\u00e3o, por Deus, ao olhar para o c\u00e9u, que veja os pobres.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma pequena quest\u00e3o, por exemplo, na qual acho que o p\u00fablico se enganou sobre Hamlet, n\u00e3o sozinho, mas pela influ\u00eancia dos cr\u00edticos. H\u00e1 uma quest\u00e3o na qual os n\u00e3o-educados provavelmente estariam certos, se apenas n\u00e3o fossem pervertidos pelos educados. A quest\u00e3o \u00e9: todos no mundo moderno falam de Hamlet como um c\u00e9tico. O mero fato de ver a pe\u00e7a representada muito fina e vivamente pela senhorita Marlowe e pelo Sr. Sother simplesmente varreu os \u00faltimos farrapos desta heresia pra fora da minha mente. O que \u00e9 realmente interessante em Hamlet \u00e9 que ele n\u00e3o era de modo algum um c\u00e9tico. Ele nunca duvidava, a n\u00e3o ser no sentido em que todo homem s\u00e3o duvida, incluindo papas e cruzados. O ponto essencial \u00e9 bem claro. Se Hamlet fosse um pouquinho c\u00e9tico, n\u00e3o haveria a trag\u00e9dia de Hamlet. Se tivesse qualquer ceticismo a exercitar, poderia t\u00ea-lo feito j\u00e1 no caso do altamente improv\u00e1vel fantasma de seu pai. Poderia ter chamado aquela eloquente pessoa de uma alucina\u00e7\u00e3o, ou de outra coisa que nada quer dizer, casado com Of\u00e9lia, e seguir comendo p\u00e3o com manteiga. Este \u00e9 o primeiro ponto evidente.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia de Hamlet n\u00e3o \u00e9 que Hamlet seja um c\u00e9tico. A trag\u00e9dia de Hamlet \u00e9 ele ser um fil\u00f3sofo bom demais para ser um c\u00e9tico. Seu intelecto \u00e9 t\u00e3o claro que ele v\u00ea de imediato a possibilidade racional dos fantasmas. Mas o erro rematado de considerar Hamlet um c\u00e9tico tem muitos outros exemplos. A teoria toda surgiu do costume de citar passagens empoladas fora de seus contextos, como o \u201cSer ou n\u00e3o ser\u201d, ou (muito pior) a passagem em ele que diz, com um  gesto quase grosseiro de cansa\u00e7o, \u201cOra, para v\u00f3s ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9; pois nada \u00e9 bom ou mau, a n\u00e3o ser por for\u00e7a do pensamento\u201d.<br \/>\nHamlet diz isso por que n\u00e3o aguenta mais a companhia de dois homens tolos; mas se algu\u00e9m deseja ver como a atitude de Hamlet \u00e9 exatamente a contr\u00e1ria, pode v\u00ea-lo na mesma conversa\u00e7\u00e3o. Se algu\u00e9m deseja ouvir as palavras de um homem que, no sentido mais definitivo, n\u00e3o \u00e9 um c\u00e9tico, aqui est\u00e3o elas:<\/p>\n<p>\u201cEsta bela estrutura, a terra, me parece um promont\u00f3rio est\u00e9ril; este magn\u00edfico dossel, o ar, vede este espl\u00eandido firmamento suspenso, este majestoso teto trabalhado com um fogo de ouro, apenas me parece uma repulsiva e pestilenta congrega\u00e7\u00e3o de vapores\u2026 Que obra de arte \u00e9 um homem, que nobre na raz\u00e3o, que infinito nas faculdades, na express\u00e3o e nos movimentos, que determinado e admir\u00e1vel nas a\u00e7\u00f5es; que parecido a um anjo de intelig\u00eancia, que semelhante a um deus! A beleza do mundo; a flor dos animais; e contudo, para mim, que \u00e9 esta quintess\u00eancia do p\u00f3?\u201d<\/p>\n<p>Estranhamente, ouvi esta passagem citada como uma passagem pessimista. Talvez seja a passagem mais otimista em toda a literatura humana. \u00c9 a express\u00e3o absoluta do fato essencial da f\u00e9 de Hamlet; sua f\u00e9 de que, embora ele n\u00e3o possa ver que o mundo \u00e9 bom, ele certamente \u00e9 bom; sua f\u00e9 de que, embora n\u00e3o consiga ver o homem como a imagem de Deus, ainda assim \u00e9 certamente a imagem de Deus. O homem moderno, assim como a concep\u00e7\u00e3o moderna sobre Hamlet, acredita apenas em estados de \u00e2nimo. Mas o Hamlet real, como a Igreja Cat\u00f3lica, acredita na raz\u00e3o. Muitos bons otimistas louvaram o homem quando sentiram que o homem era louv\u00e1vel. S\u00f3 Hamlet louvou o homem quando sentia vontade de chut\u00e1-lo como a um macaco. Muitos poetas, como Shelley e Whitman, foram otimistas quando se sentiram otimistas. S\u00f3 Shakespeare foi otimista quando se sentiu pessimista. Isto \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de uma f\u00e9. F\u00e9 \u00e9 aquilo capaz de sobreviver a um estado de \u00e2nimo. E Hamlet tem isso do in\u00edcio ao fim. Cedo ele protesta contra uma lei que reconhece: \u201cOh, n\u00e3o tivesse o Eterno posto a sua lei contra o suic\u00eddio!\u201d Antes do fim, declara que de nossa desastrada conduta ser\u00e1 feita alguma coisa, \u201cpor mais que n\u00f3s lhe demos a dem\u00e3o de in\u00edcio\u201d.<\/p>\n<p>Se Hamlet fosse um c\u00e9tico, teria tido uma vida f\u00e1cil. N\u00e3o teria sabido que seus estados de \u00e2nimo eram estados de \u00e2nimo. Ele os teria chamado Pessimismo ou Materialismo, ou qualquer outro nome imbecil. Mas Hamlet era uma grande alma, grande o suficiente para saber que ele n\u00e3o era o mundo. Ele sabia que havia uma verdade al\u00e9m de si mesmo, portanto acreditava firmemente nas coisas mais diferentes de si, em Hor\u00e1cio e no fantasma. Ao longo de toda a hist\u00f3ria, podemos ler sua convic\u00e7\u00e3o de que ele est\u00e1 errado. E isto, para uma mente clara como a dele, \u00e9 apenas outro modo de dizer que existe algo que \u00e9 certo. O verdadeiro c\u00e9tico nunca pensa que est\u00e1 errado; pois o c\u00e9tico real n\u00e3o acredita que exista um errado. Ele despenca atrav\u00e9s de ch\u00e3o ap\u00f3s ch\u00e3o, num universo sem fundo. Mas Hamlet era o pr\u00f3prio inverso de um c\u00e9tico. Ele era um pensador.<\/p>\n<p>Original: The Orthodoxy of Hamlet. Cita\u00e7\u00f5es da pe\u00e7a tiradas da vers\u00e3o de P\u00e9ricles Eug\u00eanio da Silva Ramos. Traduzido ao som de \u201cIRS\u201d, uma das novas m\u00fasicas do Guns N\u2019 Roses. Se achou ruim, favor reclamar com o Axl.<br \/>\nFonte: http:\/\/marciohack.wordpress.com\/2008\/12\/25\/chesterton-sobre-shakespeare\/. Acesso em 10 de fevereiro de 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ORTODOXIA DE HAMLET GILBERT KEITH CHESTERTON TRADU\u00c7\u00c3O: MARCIO DE PAULA S. HACK Por vezes me sinto tentado a pensar (como uma em cada duas pessoas que de fato pensa) que todo mundo estaria sempre certo, contanto que n\u00e3o fosse educado. Mas este \u00e9, obviamente, um jeito bem errado de formular a quest\u00e3o. A verdade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[29097],"tags":[29227,5701,29342],"class_list":["post-421","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-outras-traducoes-relativas-a-lewis","tag-gk-chesterton","tag-literatura","tag-shakespeare"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/421","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=421"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/421\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}