{"id":338,"date":"2010-06-15T16:36:02","date_gmt":"2010-06-15T16:36:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=338"},"modified":"2010-06-15T16:36:02","modified_gmt":"2010-06-15T16:36:02","slug":"sofrer-para-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2010\/06\/15\/sofrer-para-que\/","title":{"rendered":"Sofrer, para qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p><em> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">by Gabriele Greggersen<\/p>\n<p>Escrito em 1940, onze anos depois de sua convers\u00e3o ao te\u00edsmo, alguns anos ap\u00f3s sua convers\u00e3o ao cristianismo e bem antes de N\u00e1rnia, <em>O Problema do Sofrimento<\/em> \u00e9, na rica constela\u00e7\u00e3o de obras lewisianas, um de seus maiores <em>cl\u00e1ssicos<\/em> teol\u00f3gico-apolog\u00e9ticos do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Esse livro tornou-se a primeira de uma s\u00e9rie de obras de doutrina crist\u00e3 destinadas ao p\u00fablico leigo e foi escrito bem antes do encontro de Lewis com <em>Joy<\/em>, com a qual se casou (e que morreu de c\u00e2ncer poucos anos depois, hist\u00f3ria esta relatada no filme <em>Shadowlands <\/em>&#8211; <em>Terra das Sombras<\/em>, estrelado por Anthony Hopkins). O tema era t\u00e3o entrela\u00e7ado \u00e0 trama da hist\u00f3ria de vida do autor que lhe permitiu retom\u00e1-lo em <em>Anatomia de uma Dor<\/em><strong>,<\/strong> uma de suas \u00faltimas obras, inicialmente publicada com pseud\u00f4nimo.<\/p>\n<p>Muitos conclu\u00edram, a partir desse livreto publicado inicialmente sob um pseud\u00f4nimo, que Lewis tivesse perdido a f\u00e9, dados os seus ataques contra Deus, que chama de \u201ccarrasco divino\u201d. No entanto, quem o l\u00ea em profundidade fica impressionado com a coer\u00eancia do autor consigo mesmo e com as Escrituras, particularmente os livros de J\u00f3 e de Lamenta\u00e7\u00f5es (o livro do \u201cprofeta chor\u00e3o\u201d).<\/p>\n<p>Considerando a hist\u00f3ria de vida de Lewis, entendemos porque a tem\u00e1tica do mal permeia todo o seu legado de obras, ficcionais ou n\u00e3o. Mas em <em>O Problema do Sofrimento<\/em> ele torna isso mais expl\u00edcito do que nunca, usando palavras que j\u00e1 eram <em>tabus<\/em> na sociedade moderna, que continua erigido na p\u00f3s-moderna: o<em> pecado<\/em>. S\u00f3 isso faz valer a pena ler o livro, de acordo com Bacz (1999, <em>on line<\/em>).<\/p>\n<p>Longe de estar superado, hoje em dia esse debate \u00e9 ainda mais dif\u00edcil e ao mesmo tempo mais pungente do que na \u00e9poca da Segunda Grande Guerra Mundial. Vivemos uma crise \u00e9tica e moral profunda. Mas as Escrituras n\u00e3o nos autorizam a deixarmos de lutar pela instaura\u00e7\u00e3o do bem, mesmo em um mundo t\u00e3o violento e imoral quanto o nosso.<\/p>\n<p>Por que considero <em>O Problema do Sofrimento<\/em> um dos mais importantes livros de C.S. Lewis para a atualidade? A principal raz\u00e3o \u00e9 elucidada pelo pr\u00f3prio Lewis: o fato de que o mal e o sofrimento s\u00e3o os principais argumentos de ateus e pessoas que descr\u00eaem do Evangelho contra o cristianismo. Mais do que nunca, os movimentos ateus insistem em explorar esse ponto. Como pode existir um Deus (supostamente) bom e perfeito, ao mesmo tempo em que observamos tanto sofrimento, dor, injusti\u00e7as, guerras e males neste mundo por Ele criado para ser perfeito? E, se Ele existe, devia poder impedir o sofrimento. Ou ent\u00e3o, deve ser um deus mal ou impotente.<\/p>\n<p>O argumento central de Lewis contra essas suposi\u00e7\u00f5es \u00e9 que Deus \u00e9 onipotente, sim, mas n\u00e3o agiria contra a natureza por Ele mesmo criada. Violar a liberdade de sua criatura seria uma dessas \u201cinfra\u00e7\u00f5es\u201d que n\u00e3o combinam com a ess\u00eancia e os prop\u00f3sitos divinos. Lewis aprofunda essa ideia em <em>Cristianismo Puro e Simples<\/em> e em <em>A Aboli\u00e7\u00e3o do Homem<\/em>, afirmando que tal ess\u00eancia segue regras que n\u00e3o podemos reconhecer completamente, mas que podemos intuir, de modo semelhante ao que acontece com as regras da matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que essa regra do bom-senso ou <em>Tao<\/em>, como ele o chama em <em>Cristianismo Puro e Simples<\/em>, est\u00e1 mais bem explicitada na B\u00edblia, mas ela emana de toda a cria\u00e7\u00e3o desde o princ\u00edpio dos tempos e, mais ainda, desde a queda. Como elucida Bacz (1999, on line), uma das regras observadas por Deus \u00e9 a do <em>sentido<\/em> ou da <em>n\u00e3o contradi\u00e7\u00e3o<\/em>:<\/p>\n<p>Ele come\u00e7a pela ideia de Deus como Todo-poderoso. Qual o sentido da Onipot\u00eancia de Deus? Ser\u00e1 que ele pode fazer o que bem entende? Sim, tudo exceto o imposs\u00edvel intr\u00ednseco. Voc\u00ea pode lhe atribuir milagres, mas n\u00e3o o absurdo: &#8220;O absurdo continua sendo absurdo, mesmo quando estamos falando de Deus\u201d. Indo mais a fundo nessa id\u00e9ia da Onipot\u00eancia Divina, Lewis construiu um universo pr\u00f3prio: um universo no qual <em>almas<\/em> livres, ou talvez, como costumamos dizer nos dias de hoje, pessoas, podem se comunicar. Nesse processo, ele descobre que \u201cnem mesmo a Onipot\u00eancia poderia criar uma sociedade de almas livres sem criar, ao mesmo tempo uma Natureza relativamente independente e &#8216;inexor\u00e1vel'&#8221;; que uma natureza fixa implica na possibilidade, ainda que n\u00e3o na necessidade, do mal e do sofrimento&#8230; &#8220;Tente excluir a possibilidade de sofrimento que a ordem da natureza e a exist\u00eancia do livre-arb\u00edtrio envolvem e descobrir\u00e1 que excluiu a pr\u00f3pria vida&#8221;. Assim, o universo como o conhecemos pode muito bem ser produto de um criador s\u00e1bio e onipotente, resta-nos mostrar &#8220;como a percep\u00e7\u00e3o de um mundo sofredor, mas continuar certo, em territ\u00f3rios bastante diferentes, que Deus \u00e9 bom, somos levados \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de que a bondade e o sofrimento n\u00e3o abrigam nenhuma contradi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida, Lewis parte para a defini\u00e7\u00e3o de bondade.<\/p>\n<p>Mais do que nunca tendemos hoje a confundir o \u201cbem\u201d com o \u201cconveniente\u201d, o \u201cpr\u00e1tico\u201d, o \u201ccientificamente comprovado\u201d ou o simplesmente \u201cinteressante\u201d ou \u201cpopular\u201d. <em>The show must go on<\/em>! &#8211; dizem os que sofrem hoje, rangendo os dentes e aparentando ter tudo \u201csob controle\u201d. Estamos a milhas de dist\u00e2ncia da compreens\u00e3o do sentido mais profundo do bem e do mal, o que nos aproxima dos tempos do \u00c9den e da queda.<\/p>\n<p>E a bondade de Deus \u00e9 confundida com \u201cgentileza\u201d ou \u201cfavores\u201d, principalmente voltados para a vida financeira. Muitas igrejas exploram ao m\u00e1ximo essa \u00e1rea, fazendo a \u201cespiritualidade\u201d ser equipara \u00e0 \u201cprosperidade\u201d. Ao inv\u00e9s de um pai, que ama quando corrige, queremos um av\u00f4, que paparica seus netos. Lewis afirma sem pruridos que a bondade e amor de Deus <em>incluem<\/em> o sofrimento circunstancial, precisamente pelo estado deca\u00eddo deste mundo, numa vis\u00e3o mais abrangente ou transcendente da hist\u00f3ria. Como comenta Bacz (1999, on line), s\u00f3 mesmo quem leu Agostinho \u00e9 capaz de compreender essa verdade com todas as suas implica\u00e7\u00f5es sobre o saber e o fazer humanos.<\/p>\n<p>Um exemplo disso \u00e9 a forma preconceituosa com a qual a modernidade tratou os povos chamados \u201cprimitivos\u201d que, do ponto de vista crist\u00e3o, jamais poderiam ser considerados inferiores aos \u201ccivilizados\u201d. \u201cN\u00e3o existem pessoas ordin\u00e1rias\u201d, afirma ele em outro escrito, levando a no\u00e7\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias para a humanidade. Infelizmente o cristianismo institucionalizado e politizado contradiz a n\u00e3o acep\u00e7\u00e3o de pessoas diante de Deus, j\u00e1 anunciada no Antigo Testamento. Do ponto de vista evangel\u00edstico, Lewis considera os pag\u00e3os espiritualmente menos \u201ccontaminados\u201d pelos v\u00edcios modernos, e por isso mais acess\u00edveis \u00e0 boa nova.<\/p>\n<p>Para compreendermos melhor essa aparente contradi\u00e7\u00e3o, Lewis prop\u00f5e discutir o tema da moral a partir de tr\u00eas categorias: \u201c(1) o simplesmente bom que descende de Deus, (2) o mau, simples produzido pelas criaturas rebeldes e (3) a explora\u00e7\u00e3o do mal por Deus para fazer cumprir seus des\u00edgnios redentores, o que produz (4) o bem complexo gerado pela aceita\u00e7\u00e3o do sofrimento e o arrependimento do pecado\u201d.(BACZ, 1999).<\/p>\n<p>Esse autor frisa ainda que um dos maiores aprendizados, e assim, benef\u00edcios que o sofrimento pode (paradoxalmente) trazer \u00e9 abrirmos m\u00e3o de nossa auto-sufici\u00eancia e deixarmo-nos ser usados por Deus para a realiza\u00e7\u00e3o do seu prop\u00f3sito maior, que aceitamos pela f\u00e9. \u00c9 assim que nos tornamos co-criadores deste mundo, participando efetivamente do Seu Plano de Resgate do mesmo e, assim, das garras do tirano que nos escraviza desde a queda, sem que ele se d\u00ea conta disso.<\/p>\n<p>Assim, gradativamente <em>O Problema do Sofrimento<\/em> nos faz ver sentido no sofrimento e a l\u00f3gica moral e racional da obra de Deus neste mundo. Al\u00e9m de voltarmos a ter esperan\u00e7a e for\u00e7a para nos erguermos das fases e situa\u00e7\u00f5es de sofrimento, Lewis desperta em n\u00f3s o desejo pelo Lar Perdido no qual j\u00e1 come\u00e7amos a morar. Ele nos devolve a cidadania espiritual que o sofrimento nos faz ver amea\u00e7ada. A amea\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 do lado de Deus, mas do nosso: n\u00f3s \u00e9 que somos o elo fraco no processo, n\u00e3o Deus. Portanto, jamais teremos como culpar Deus pelo mal que h\u00e1 no mundo, mesmo porque, como Lewis sugere por toda a sua obra de fic\u00e7\u00e3o ou teol\u00f3gica, em \u00faltima inst\u00e2ncia o mundo n\u00e3o <em>\u00e9<\/em> mal, s\u00f3 <em>est\u00e1<\/em> mal, \u00e9 diferente! Lewis deixa claro que Deus vai fazer cumprir o seu des\u00edgnio atrav\u00e9s de criaturas boas ou m\u00e1s. Resta a n\u00f3s preferirmos servir a Ele \u201cpelo amor ou pela dor\u201d. Ao mesmo tempo em que somos os \u00fanicos respons\u00e1veis por esse processo, somos tamb\u00e9m as suas \u00fanicas v\u00edtimas. Paradoxalmente, Deus mesmo se fez v\u00edtima no nosso lugar, mesmo n\u00e3o tendo necessidade para tanto. Assim o mist\u00e9rio do mal \u00e9 o primeiro passo rumo \u00e0 compreens\u00e3o do mist\u00e9rio da cruz. E a abnega\u00e7\u00e3o do nosso <em>self<\/em> se torna o primeiro passo para a descoberta do nosso <em>self<\/em> verdadeiro &#8211; ou aquele que Deus originariamente \u201cbolou\u201d na cria\u00e7\u00e3o &#8211; e para a auto-realiza\u00e7\u00e3o. Tornando-nos crist\u00e3os, ou seja, imitadores de Cristo e verdadeiros Cristos, nos tornamos mais n\u00f3s mesmos, num processo de aprimoramento na f\u00e9.<\/p>\n<p>Ao longo desses anos de pesquisa a respeito da vida e obra de C.S. Lewis, tenho me convencido cada vez mais de sua atualidade para o nosso tempo. Ela \u00e9 frisada por biografias excelentes como a de Peter Kreeft (<em>C.S. Lewis for the Third Millenium<\/em>), entre outros.<\/p>\n<p>Mas para entender em profundidade o elo que une o cl\u00e1ssico, <em>O Problema do Sofrimento,<\/em> ao breve <em>Anatomia de uma Dor<\/em> e toda a sua obra at\u00e9 o seu \u00faltimo livro, publicado postumamente, <em>Cartas de Malcolm<\/em>,<a href=\"https:\/\/docs.google.com\/Doc?docid=0AVaR5VJPho99ZGR2Y2Y4bnZfMTdobmsyc2pzOQ&amp;hl=en#sdfootnote1sym#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a> <strong>\u00e9 preciso ler a sua extensa correspond\u00eancia<\/strong>.<\/p>\n<p>Apesar de ter confessado que escrever cartas n\u00e3o era exatamente o que mais gostava de fazer, Lewis produziu milhares delas, em parte porque tamb\u00e9m recebia in\u00fameras. Com algumas pessoas ele manteve uma correspond\u00eancia fiel literalmente at\u00e9 a morte, como com a misteriosa Senhora Americana (conf<em>. Cartas a uma Senhora Americana<\/em>). A troca de cartas entre eles come\u00e7ou em 1950 e durou at\u00e9 a morte de Lewis em 1963. O tom usado por ele \u00e9 sempre o de mentor, conselheiro, <em>tutor<\/em> ou algu\u00e9m que se identifica com as dores do outro, sendo sens\u00edvel a elas (mesmo no caso de uma mulher) e a encorajando a n\u00e3o desistir.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que Lewis n\u00e3o \u00e9 nenhuma exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra do crescimento espiritual, sendo acusado, principalmente em seus primeiros escritos, de incorporar alguns preconceitos comuns na sociedade, como os de g\u00eanero e ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Por\u00e9m logo na primeira carta a essa senhora ficamos sabendo que ela era cat\u00f3lica, para o que Lewis demonstra um esp\u00edrito n\u00e3o discriminat\u00f3rio em frases como: \u201cembora o caminho que a senhora tomou n\u00e3o seja o meu, estou em condi\u00e7\u00f5es de cumpriment\u00e1-la \u2013 talvez seja porque sua f\u00e9 e sua alegria aumentaram de forma t\u00e3o evidente\u201d (2006 a, 15-16). O mesmo tamb\u00e9m foi provado no seu relacionamento com o melhor amigo, J.R.R. Tolkien, que n\u00e3o s\u00f3 era cat\u00f3lico, mas tamb\u00e9m teve um papel fundamental na sua convers\u00e3o ao cristianismo.<\/p>\n<p>Ele explica:<\/p>\n<p>Acredito que, no atual estado de divis\u00e3o da Cristandade, as pessoas que est\u00e3o no centro de cada divis\u00e3o est\u00e3o mais pr\u00f3ximas uma das outras que as que est\u00e3o nos extremos. Eu estenderia essa afirma\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do Cristianismo: temos muito mais em comum com o judeu e o mu\u00e7ulmano <em>aut\u00eanticos<\/em>, que com qualquer infeliz liberalizante e ocidentalizado membro desses dois grupos (2006 a, 11-12, de 10.11.52).<\/p>\n<p>Nessas cartas, temos vers\u00f5es resumidas de suas principais teses e sua evolu\u00e7\u00e3o ao longo do tempo. Topamos com frases impressionantes por sua simplicidade, como: \u201c\u00c9 claro que todos aprendemos sobre o que fazer com o sofrimento \u2013 oferec\u00ea-lo em Cristo a Deus, como nossa pequen\u00edssima participa\u00e7\u00e3o no sofrimento de Cristo \u2013 mas \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil fazer isso! Para mim, infelizmente, acho que \u00e9 mais f\u00e1cil imaginar do que realmente <em>viver<\/em> isso\u201d (Lewis, 2006 a, 69).<\/p>\n<p>A prova de fogo para p\u00f4r em pr\u00e1tica a teoria de Lewis de que o sofrimento \u00e9 o \u201cmegafone de Deus\u201d<a href=\"https:\/\/docs.google.com\/Doc?docid=0AVaR5VJPho99ZGR2Y2Y4bnZfMTdobmsyc2pzOQ&amp;hl=en#sdfootnote2sym#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a> (t\u00e3o frisada no filme <em>Terra das Sombras<\/em>) viria ap\u00f3s o diagn\u00f3stico de c\u00e2ncer em Joy e seu casamento (primeiro civil, depois, contra todas as regras da igreja anglicana, tamb\u00e9m no religioso) com o que ele chamou de uma \u201cmoribunda\u201d. Mas ele confessa que a doen\u00e7a dela, embora fosse atrativa para um poeta de certa forma tr\u00e1gico, apenas apressou e incentivou algo que aconteceria de qualquer forma. Ela acabou se recuperando e tiveram alguns bons anos de conv\u00edvio antes de seu falecimento.<\/p>\n<p>Depois de anunciar a morte da esposa e de dizer que o \u00fanico consolo que lhe resta \u00e9 o seu enteado mais novo, ele diz: \u201cSobre como suporto o sofrimento, a resposta \u00e9: \u2018De quase todas as formas poss\u00edveis\u2019. Porque, como voc\u00ea talvez saiba, n\u00e3o se trata de um estado, mas de um processo\u201d (2006 a, 113).<\/p>\n<p>Precisamente nos momentos em que mais necessitamos de Deus, diz Lewis, Ele nos parece mais distante, ao passo que quanto mais pranteava a morte da esposa, mais se distanciava dela. Todo o seu dram\u00e1tico processo de penar e as suas lamenta\u00e7\u00f5es diante de Deus devido \u00e0 morte de Joy encontram-se descritos em <em>Anatomia de uma Dor<\/em>.<\/p>\n<p>Ainda em <em>Cartas a uma Senhora Americana<\/em>, Lewis retoma uma id\u00e9ia de <em>O Problema do Sofrimento<\/em>, de que \u201ca parte amorosa do sofrimento \u00e9 boa e tem efeitos purgat\u00f3rios, ao passo que a parte raivosa \u00e9 ruim e infernal&#8230; O cora\u00e7\u00e3o humano (pelo menos o meu) \u00e9 \u2018desesperadamente mau\u2019\u201d (idem, 114-115). Da\u00ed que, como destacam Moreland e Craig (2005), a problem\u00e1tica da morte para o crist\u00e3o protestante n\u00e3o gira em torno da d\u00favida a respeito do purgat\u00f3rio (id\u00e9ia recentemente negada pelo pr\u00f3prio papa Bento XVI), e sim, de como conciliar a bondade de Deus com o sofrimento que h\u00e1 no mundo.<\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o j\u00e1 estava presente em num dos primeiros e principais cl\u00e1ssicos apolog\u00e9ticos de C.S. Lewis, <em>Cristianismo Puro e Simples<\/em>, publicado em 1943 \u00e9 baseado em palestras radiof\u00f4nicas anteriores. Discute-se ali uma determinada Lei Moral que rege o universo e a que todos t\u00eam acesso, o que nos torna indesculp\u00e1veis e co-respons\u00e1veis pelo sofrimento que h\u00e1 no mundo. Da\u00ed a import\u00e2ncia do aprendizado. Pelo menos a princ\u00edpio aprendemos a mudan\u00e7a de comportamento por <em>mimese<\/em> ou pela imita\u00e7\u00e3o de bons modelos que nos foram passados, para depois nos apropriarmos daquele comportamento como sendo nosso.<\/p>\n<p>Em <em>Anatomia de uma Dor<\/em>, depois de chamar Deus de \u201cpalha\u00e7o\u201d, \u201cs\u00e1dico c\u00f3smico\u201d e \u201cviviseccionista\u201d<a href=\"https:\/\/docs.google.com\/Doc?docid=0AVaR5VJPho99ZGR2Y2Y4bnZfMTdobmsyc2pzOQ&amp;hl=en#sdfootnote3sym#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a>, dentista ou veterin\u00e1rio, met\u00e1foras j\u00e1 usadas anteriormente em <em>O Problema do Sofrimento<\/em>, e de questionar o <em>consolo<\/em> que a religi\u00e3o possa trazer, Lewis conclui:<\/p>\n<p>Duas convic\u00e7\u00f5es diversas a respeito do todo me pressionam cada vez mais o esp\u00edrito. Uma \u00e9 a de que o Veterin\u00e1rio Eterno \u00e9 ainda mais inexor\u00e1vel; a outra, de que as poss\u00edveis opera\u00e7\u00f5es ainda sejam mais dolorosas do que nossas elucubra\u00e7\u00f5es mais graves podem prever; mas h\u00e1 outra, segundo a qual \u201ctudo acabar\u00e1 bem&#8230;\u201d As imagens do Sagrado facilmente se tornam imagens sagradas \u2013 sacrossantas. Minha ideia de Deus n\u00e3o \u00e9 uma ideia divina. Ela deve ser despeda\u00e7ada. Ele pr\u00f3prio a despeda\u00e7a. Ele \u00e9 o grande iconoclasta. (Lewis, 2006 b, 81-2).<\/p>\n<p>Encerramos essa nossa reflex\u00e3o com uma carta n\u00e3o publicada, escrita poucos meses antes da sua morte e que resume todo o pensamento do autor sobre o assunto:<\/p>\n<p>Imagine-se como sementinha pacientemente hibernando enterrada na terra; \u00e0 espera do afloramento no tempo que o jardineiro achar melhor, para o mundo <em>real<\/em>, para o verdadeiro despertar. Suponho que toda a nossa vida presente, quando olharmos para tr\u00e1s, a partir da\u00ed, n\u00e3o parecer\u00e1 mais do que um devaneio sonolento. Este \u00e9 o mundo dos sonhos. Mas o galo est\u00e1 para cantar. E est\u00e1 mais pr\u00f3ximo agora do que quando eu comecei a escrever esta carta. (Lewis, 1980, 187).<\/p>\n<p><em>Refer\u00eancias:<\/em><em> <\/em><\/p>\n<p>BACZ, Jacek. \u201cC.S. Lewis: The Problem of Pain.\u201d <strong>The Newman Rambler<\/strong> (Spring 1999): 23-28.<\/p>\n<p>KREEFT, Peter, <strong>O Di\u00e1logo<\/strong>, trad. Wanda de Assump\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo: Mundo Crist\u00e3o, 1986.<\/p>\n<p><em>___, <\/em><strong>C. S. Lewis For The Third Millenium. Six Essays On The Abolition Of Man<em>.<\/em><em> <\/em><\/strong>San Francisco, CA: Ignatius, 1994.<\/p>\n<p>LEWIS, C.S., <strong>Cristianismo Puro e Simples.<\/strong> 5a. ed., S\u00e3o Paulo: ABU, 1997.<\/p>\n<p><em>___, <\/em><strong>O Problema do Sofrimento<\/strong><em>, <\/em>S\u00e3o Paulo: Vida, 2006<\/p>\n<p><em>___, <\/em><strong>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/strong>, S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1997.<\/p>\n<p>___,<em> <\/em><strong>A \u00faltima Batalha<\/strong><em>, <\/em>S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1997.<\/p>\n<p>___, <strong>Surpreendido pela Alegria<\/strong>, S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1998.<\/p>\n<p>___, <strong>O Grande Abismo<\/strong>, trad. Neyd Siqueira, 2<sup>a<\/sup>. ed. S\u00e3o Paulo: Mundo Crist\u00e3o 1983.<\/p>\n<p><em>___, <\/em><strong>Cartas de um Diabo a seu Aprendiz<\/strong>, trad. Mateus Sampaio Soares de Azevedo, Petr\u00f3polis: Vozes, 1996.<\/p>\n<p><em>___, <\/em><strong>Cartas de uma Senhora Americana<\/strong><em>,<\/em> S\u00e3o Paulo: Vida, 2006 (a).<\/p>\n<p><em>___, <\/em><strong>Anatomia de uma Dor<\/strong>, S\u00e3o Paulo: Vida, 2006 (b).<\/p>\n<p><em>___, <\/em><strong>Poems<\/strong><em> <\/em>(ed. Walter Hooper), New York, Hartcourt Brace (Harvest), 1992.<\/p>\n<p><em>___, <\/em><strong>A Mind Awake:<\/strong><em> <\/em>an anthology of C.S. Lewis (ed. Clyde Kilby), Hartcourt Brace (Harvest), 1980.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/docs.google.com\/Doc?docid=0AVaR5VJPho99ZGR2Y2Y4bnZfMTdobmsyc2pzOQ&amp;hl=en#sdfootnote1anc#sdfootnote1anc\">1<\/a> No original, <strong>Letters to Malcolm, chiefly on Prayer<\/strong>, infelizmente ainda n\u00e3o publicado em portugu\u00eas brasileiro. Escrevi um cap\u00edtulo sobre esse livro em <strong>O Evangelho de N\u00e1rnia <\/strong>(Editora Mundo Crist\u00e3o).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/docs.google.com\/Doc?docid=0AVaR5VJPho99ZGR2Y2Y4bnZfMTdobmsyc2pzOQ&amp;hl=en#sdfootnote2anc#sdfootnote2anc\">2<\/a> A frase tanto repetida no filme &#8211; como se Lewis s\u00f3 tivesse um e o mesmo discurso para quaisquer p\u00fablicos &#8211; \u00e9 justificada da seguinte forma: \u201cGod whispers to us in our pleasures, speaks in our conscience, but shouts in our pains: it is his megaphone to rouse a deaf world\u201d (Deus sussurra concosco atrav\u00e9s do prazer, ele fala \u00e0 nossa consci\u00eancia, mas grita nos nossos sofrimentos; esse \u00e9 o seu megafone para despertar um mundo ensurdecido\u201d).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/docs.google.com\/Doc?docid=0AVaR5VJPho99ZGR2Y2Y4bnZfMTdobmsyc2pzOQ&amp;hl=en#sdfootnote3anc#sdfootnote3anc\">3<\/a> Pessoa que faz experi\u00eancias arriscadas e \u00e0s vezes envolvendo a tortura de animais.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/docs.google.com\/Doc?docid=0AVaR5VJPho99ZGR2Y2Y4bnZfMTdobmsyc2pzOQ&amp;hl=en#sdfootnote4anc#sdfootnote4anc\">4<\/a> Para esc\u00e2ndalo de muitos crist\u00e3os de carteirinha,<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesse artigo, procuro reunir o que C.S. Lewis dizia sobre esse tremendo mal, que \u00e9 o sofrimento, t\u00e3o misterioso e angustiante para o ser humano em todos os tempos.<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[29083],"tags":[29102,29112,29142,29284,29286,29289,29351],"class_list":["post-338","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-de-gabriele","tag-a-ultima-batalha","tag-anatomia-de-uma-dor","tag-cartas-de-um-diabo","tag-o-dialogo","tag-o-grande-abismo","tag-o-problema-do-sofrimento","tag-surpreendido-pela-alegria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/338","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=338"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/338\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=338"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=338"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=338"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}