{"id":331,"date":"2010-05-01T20:06:19","date_gmt":"2010-05-01T20:06:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=331"},"modified":"2010-05-01T20:06:19","modified_gmt":"2010-05-01T20:06:19","slug":"paradoxos-do-mal-uma-leitura-de-o-senhor-dos-aneis-a-partir-de-paul-ricoeur","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2010\/05\/01\/paradoxos-do-mal-uma-leitura-de-o-senhor-dos-aneis-a-partir-de-paul-ricoeur\/","title":{"rendered":"Paradoxos do Mal: uma leitura de O Senhor dos An\u00e9is a partir de Paul Ricoeur"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">Gabriele Greggersen*<\/p>\n<h1><\/h1>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O que poderia aproximar pensadores de \u00e1reas e contextos t\u00e3o distintos quanto o fil\u00f3sofo franc\u00eas contempor\u00e2neo, Paul Ricoeur (1913-), e um fil\u00f3logo de Oxford do entre guerras, J.R.R Tolkien (1892-1973), que tamb\u00e9m ficou conhecido como o grande \u201ccriador de mitos\u201d (<em>mythmaker<\/em>)? Uma das preocupa\u00e7\u00f5es que eles t\u00eam em comum \u00e9 o problema do mal, que \u00e9 um dos mais desafiadores e menos resolvidos dilemas da humanidade, que diz respeito desde a filosofia, at\u00e9<em> <\/em>a teologia. Ali\u00e1s, nenhuma \u00e1rea pode se dizer inteiramente alheio a ele, principalmente quando se trata de \u00e9tica e valores pouco quantific\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ricoeur, muito mais do que Tolkien, colocava-se na fronteira entre a filosofia e a teologia, campos complementares, mas infelizmente fragmentados, em busca do di\u00e1logo. O que eles t\u00eam em comum \u00e9 o meio ou mediador que privilegiam para levantar temas filos\u00f3ficos, que \u00e9 a literatura, e, mais especificamente, o mito. Com <em>O Senhor dos An\u00e9is <\/em>(OSA)<em> <\/em><a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>, pode-se dizer que Tolkien cria, na pr\u00e1tica, ou se esfor\u00e7a em criar o produto sobre o qual Ricoeur reflete filosoficamente e para o qual cria uma hermen\u00eautica.<\/p>\n<p>Como se sabe, a hermen\u00eautica tem suas ra\u00edzes na exegese teol\u00f3gica. Uma vez aplicada \u00e0 reflex\u00e3o filos\u00f3fica, ela pode representar um meio de aproxima\u00e7\u00e3o entre filosofia e teologia, que permite abrir<\/p>\n<blockquote><p>o campo da <em>hermen\u00eautica propriamente dita<\/em>, isto \u00e9, da hermen\u00eautica da interpreta\u00e7\u00e3o aplicada de cada vez a um texto singular. \u00c9, com efeito na hermen\u00eautica moderna que se ligam a doa\u00e7\u00e3o de sentido pelo s\u00edmbolo e a iniciativa inteligente da decifragem. \u00c9 ent\u00e3o que se descobre o que se pode chamar de c\u00edrculo da hermen\u00eautica, que o simples amador de mitos elude sem cessar&#8230;\u201d \u00e9 preciso compreender para crer, mas \u00e9 preciso crer para compreender.\u201d Este c\u00edrculo n\u00e3o \u00e9 um c\u00edrculo vicioso, e menos ainda mortal. \u00c9 um c\u00edrculo bem vivo e estimulante&#8230;gra\u00e7as a esse c\u00edrculo da hermen\u00eautica, ainda posso hoje comunicar-me com o Sagrado, ao explicitar a pr\u00e9-compreens\u00e3o que anima a interpreta\u00e7\u00e3o. (Ricoeur, 1978, 251).<\/p><\/blockquote>\n<p>Longe de pretendermos esgotar a complexa teoria hermen\u00eautica ou do conceito de mal de Ricoeur e muito menos escavar o mundo de Terra M\u00e9dia ou as concep\u00e7\u00f5es \u00e9ticas de Tolkien, o que nos interessa destacar aqui \u00e9 a <em>concep\u00e7\u00e3o do mal <\/em>em <em>OSA <\/em>, \u00e0 luz das teorias de Ricoeur. Na sua concep\u00e7\u00e3o, esse tipo de estudo s\u00f3 pode ser feito por meio do <em>s\u00edmbolo<\/em>, cuja fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 nos \u201cfazer pensar\u201d. Pois o mesmo, que vem sempre mediado por um <em>signo<\/em>, remete a um <em>sentido <\/em>e uma <em>intencionalidade<\/em>, situados para al\u00e9m de si mesmos. Isso \u00e9 especialmente adequado quando se trata do mal, que, de acordo com a abordagem crist\u00e3, ao menos, n\u00e3o tem uma substancialidade pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Pois que o problema do mal extrapola os limites do escrut\u00e1vel, \u00e0 medida em que, do ponto de vista moral, n\u00e3o pode ser uma coisa em si, como j\u00e1 defendia Kant:<\/p>\n<blockquote><p>&#8230;vejo em Kant a manifesta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica completa do fato de que o mal supremo n\u00e3o \u00e9 a infra\u00e7\u00e3o grosseira de um dever, mas a mal\u00edcia que faz passar por virtude o que \u00e9 sua trai\u00e7\u00e3o. O mal do mal \u00e9 a justifica\u00e7\u00e3o fraudulenta da m\u00e1xima pela conformidade aparente com a lei, \u00e9 o simulacro da moralidade. Kant pela primeira vez, parece-me, orientou o problema do mal para o lado da m\u00e1-f\u00e9, da impostura. Eis a\u00ed o ponto extremo de clareza atingido pela vis\u00e3o \u00e9tica do mal: a liberdade \u00e9 o poder do afastamento, da invers\u00e3o da ordem. O mal n\u00e3o \u00e9 uma coisa, mas a subvers\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o (Ricoeur, 1978, 255-6).<\/p><\/blockquote>\n<p>Apesar ou quem sabe, precisamente pelo fato de n\u00e3o ser uma <em>coisa<\/em>, o mal busca <em>coisas<\/em> como <em>meios <\/em>pelos quais possa se manifestar e se fazer sentir de diferentes maneiras, como nos mostra a nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia. Essa \u00e9 precisamente a perspectiva que temos em <em>OSA <\/em>. O pr\u00f3prio Um Anel n\u00e3o veio do nada. Ele foi habilmente forjado por Sauron, um dos anjos seduzidos por Merkor, ou, se quisermos, o primeiro anjo deca\u00eddo, cujo objetivo era corromper o bem e instalar o imp\u00e9rio do mal no meio de Terra M\u00e9dia (n\u00e3o por acaso, certamente, chamada assim). Com isso, pretende-se em suma, afrontar Isildor, o criador do mundo.<\/p>\n<p>Assim, como tamb\u00e9m destaca Ricoeur (1991), o problema todo n\u00e3o est\u00e1 na posse do anel em si, mas nos efeitos corruptores desse poder, que querem destruir o ser e instaurar o nada, ou seja, anular ou fazer desaparecer a personalidade de cada um. Como Ricoeur mesmo ressalta, o <em>nada<\/em> s\u00f3 existe em fun\u00e7\u00e3o de <em>algo <\/em>e particularmente, em fun\u00e7\u00e3o de um eu. Essa \u00e9 a raz\u00e3o por que a perda do car\u00e1ter, da individualidade e da personalidade \u00e9 uma das conseq\u00fc\u00eancias nefastas do mal, particularmente na vida de Gollum, que viveu s\u00e9culos de posse do anel, sofrendo os seus efeitos corruptores ao extremo. Eis porque os planos de Sauron acabam se frustrando. O mal \u00e9 usado pelo pr\u00f3prio mal para se auto-destruir. Como bem lembra Foster, esse princ\u00edpio funciona desde as mais remotas eras daquele mundo. Os senhores do Mal se revezavam no poder, sabotando os planos mal\u00e9ficos uns dos outros.<\/p>\n<p>Tudo o que se pode concluir de tantas hist\u00f3rias \u00e9 que o mal, apesar de suas v\u00e1rias caras destrutivas, acaba sempre na auto-destrui\u00e7\u00e3o e desespero, sendo incapaz, inclusive, de impedir a restaura\u00e7\u00e3o de Terra-M\u00e9dia no final da hist\u00f3ria. Assim, de certa forma ele acaba quase que \u201cpor acaso\u201d servindo ao bem.<\/p>\n<p>Embora o dilema do mal fosse misterioso e transcendente, Tolkien parece estar nos dizendo que \u00e9 importante que o homem n\u00e3o se esquive dele e reflita a seu respeito. Pois paradoxalmente esse mesmo fen\u00f4meno desafia \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de uma postura mais cuidadosa e cr\u00edtica diante das coisas. Ele pode levar \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o de que nada na vida, inclusive o conhecimento racional, est\u00e1 isento de limites e perigos e de que, embora haja o absoluto e o universal, ele n\u00e3o se encerra no homem. Por mais absurdo que possa parecer, o mal pode servir para conscientizar-nos da nossa temporalidade e depend\u00eancia dos s\u00edmbolos e das media\u00e7\u00f5es para a compreens\u00e3o do mundo:<\/p>\n<blockquote><p>Esses s\u00edmbolos, de fato, resistem a toda redu\u00e7\u00e3o a um conhecimento racional&#8230; Todos os s\u00edmbolos d\u00e3o o que pensar, mas os s\u00edmbolos do mal mostram, de uma maneira exemplar, que h\u00e1 sempre mais nos mitos e nos s\u00edmbolos que em toda nossa filosofia; e que uma interpreta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica dos s\u00edmbolos jamais se tornar\u00e1 conhecimento absoluto. Os s\u00edmbolos do mal, nos quais lemos o fracasso de nossa exist\u00eancia, declaram, ao mesmo tempo, o fracasso de todos os sistemas de pensamento que pretendam absorver os s\u00edmbolos num <em>saber absoluto<\/em>. Tal \u00e9 uma das raz\u00f5es, e talvez a mais surpreendente, pela qual n\u00e3o h\u00e1 saber absoluto, mas s\u00edmbolos do Sagrado, para al\u00e9m das figuras do esp\u00edrito&#8230; (Ricoeur, 1978, 280).<\/p><\/blockquote>\n<p>Entenda-se que o autor n\u00e3o est\u00e1 negando o absoluto, mas apenas o \u201csaber absoluto\u201d ou seja, a pretens\u00e3o humana ao seu conhecimento. Essa mesma epistemologia essa vis\u00e3o \u201chumilde\u201d do mundo e do homem \u00e9 outra caracter\u00edstica que fica muito vis\u00edvel em <em>OSA <\/em>. Al\u00e9m de Frodo, uma figura franzina, amedrontada, fr\u00e1gil, baixinha; a hist\u00f3ria revela o jardineiro gordinho, Sam, como grande her\u00f3i da hist\u00f3ria. Com seu saber simples, seu bom-senso e fidelidade ao seu senhor, Sam se mostra capaz de carregar o anel e resistir ao seu poder sedutor.<\/p>\n<p>Precisamente por n\u00e3o crer em conhecimento absoluto, e pelo fato de que todo conhecimento que o homem tem de si, parte de uma \u201cilus\u00e3o\u201d ou capta\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno, como ele se manifesta aos olhos do inquiridor, aos \u00f3rg\u00e3os do sentido, Ricoeur procura equilibrar-se entre dois extremos opostos.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 o do \u201cmitologismo dogm\u00e1tico\u201d, que v\u00ea no s\u00edmbolo nada mais, do que um conte\u00fado did\u00e1tico e aleg\u00f3rico, pronto para ser sistematizado. Ele o reduz a um sentido dogmatizante. O segundo \u00e9 o que chamou de \u201c<em>gnose\u201d<\/em>, que \u00e9 o perigo de recair em mera especula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica ou m\u00edstica. A principal filosofia dos gn\u00f3sticos, que se originaram em Plat\u00e3o e no Egito, era de encontrar uma explica\u00e7\u00e3o cabal para a origem do mal, pois identificavam a mat\u00e9ria com o mal, dando origem ao chamado dualismo, ou oposi\u00e7\u00e3o entre corpo e alma; mat\u00e9ria e forma. Plat\u00e3o dizia que o corpo \u00e9 o \u201cc\u00e1rcere\u201d\u00a0 da alma.<\/p>\n<p>Para se alcan\u00e7ar uma vis\u00e3o equilibrada entre esses dois extremos, que podem ser observados desde a antiguidade at\u00e9 os dias de hoje, Ricoeur recomenda o m\u00e9todo de desmitologiza\u00e7\u00e3o da realidade, n\u00e3o, no sentido de elimina\u00e7\u00e3o da mitologia, mas de <em>reflex\u00e3o<\/em> a partir dela, como bem elucida:<\/p>\n<blockquote><p>O pensamento como reflex\u00e3o \u00e9 essencialmente \u201cdemitologizante\u201d. Sua transposi\u00e7\u00e3o do mito \u00e9, ao mesmo tempo, uma elimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente de sua fun\u00e7\u00e3o etiol\u00f3gica, mas de seu poder de abrir e de descobrir. Ele interpreta o mito apenas reduzindo-o \u00e0 alegoria. O problema do mal \u00e9, nesse ponto de vista, exemplar: A reflex\u00e3o sobre a simb\u00f3lica do mal triunfa naquilo que chamaremos doravante de vis\u00e3o \u00e9tica do mal&#8230; De uma parte, ela prolonga a redu\u00e7\u00e3o progressiva da m\u00e1cula e do pecado \u00e0 culpabilidade pessoal e interior. De outra parte, ela prolonga o movimento de demitologiza\u00e7\u00e3o de todos os mitos \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do ad\u00e2mico e reduz este a uma simples alegoria do servo-arb\u00edtrio. O pensamento reflexivo est\u00e1 por sua vez, em luta com o pensamento <em>especulativo<\/em>, que quer salvar o que uma vis\u00e3o \u00e9tica do mal tende a eliminar. N\u00e3o somente salva-lo, mas mostrar sua <em>necessidade<\/em>. (Ricoeur, 1978, 253)<\/p><\/blockquote>\n<p>Assim, nesse seu embate contra uma vis\u00e3o do mal dogm\u00e1tica, por um lado, e gn\u00f3stica, por outro, o pensamento reflexivo traz no seu bojo a id\u00e9ia de <em>livre-arb\u00edtrio<\/em> e de <em>liberdade<\/em>. Desde a queda do homem e do ingresso do pecado no mundo, assunto que Ricoeur considera mais do que digno de reflex\u00e3o filos\u00f3fica, o livre-arb\u00edtrio \u201cforja\u201d uma \u201cm\u00e1xima m\u00e1\u201d, que estabelece como regra (idem, 255). Podemos observar esse \u201cprinc\u00edpio\u201d na carta de Paulo aos Romanos, quando, no cap\u00edtulo seis, ele fala da \u201clei da escravid\u00e3o\u201d que se op\u00f5e \u00e0 \u201clei da gra\u00e7a\u201d. Em seguida, no cap\u00edtulo sete, ele descreve o conflito no seu interior entre o bem que ele quer e n\u00e3o consegue realizar e o mal, que n\u00e3o quer, mas que acaba cometendo.<\/p>\n<p>Esse car\u00e1ter paradoxal do ser humano na sua dimens\u00e3o \u00e9tica e moral torna necess\u00e1ria uma certa <em>formaliza\u00e7\u00e3o<\/em> da concep\u00e7\u00e3o do bem e do mal, como j\u00e1 sugeria Arist\u00f3teles. A clara distin\u00e7\u00e3o do certo e do errado permite evitar o n\u00edvel do puramente ilus\u00f3rio ou subjetivo no ju\u00edzo de valor, pelo que se recairia no relativismo.<\/p>\n<p>Na perspectiva de Kant, a quest\u00e3o do mal n\u00e3o diz respeito somente ao n\u00edvel emocional do ser humano. Ele admite a objetividade e seguran\u00e7a de pelo menos duas coisas: o cosmo acima da sua cabe\u00e7a e a lei moral no seu interior. Por outro lado, admitir <em>certo <\/em>formalismo no tratamento do certo e do errado j\u00e1 n\u00e3o significa um <em>mero <\/em>formalismo, ou moralismo barato.<\/p>\n<p>Embora o esfor\u00e7o de Tolkien possa parecer contr\u00e1rio ao de uma <em>demitologiza\u00e7\u00e3o<\/em>, o efeito produzido \u00e9 precisamente esse: da reflex\u00e3o sobre o mal, que se revela como algo assustador, sim, mas que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 impotente contra o pano de fundo mais amplo do bem.<\/p>\n<p>Para o professor de humanidades da St. Louis University no Missouri, o sucesso dessa obra de Tolkien deve muito \u00e0 esp\u00e9cie rara de <em>realismo fant\u00e1stico <\/em>que ele adota para expressar preocupa\u00e7\u00f5es extremamente importantes e atuais, como a da guerra:<\/p>\n<blockquote><p>Mais do que meras aventuras de hobbits, elfos, bruxas ou quaisquer outras criaturas, que culmina em uma guerra contra o poder que est\u00e1 dominando Terra M\u00e9dia\u00a0 Shippey afirmou que o imagin\u00e1rio de Tolkien \u00e9 um reflexo da hist\u00f3ria turbulenta do s\u00e9culo vinte. &#8220;Meus colegas do departamento de literatura afirmam que tudo n\u00e3o passa de um material altamente escapista. Mas eu revidei:, &#8216;N\u00e3o, absolutamente n\u00e3o.&#8217; Na verdade trata-se de um registro de todas as ocorr\u00eancias do s\u00e9culo vinte. O que o s\u00e9culo vinte tem sido basicamente \u00e9 uma luta industrializada,&#8221; disse Shippey em uma entrevista ao telefone diretamente de St. Louis. &#8220;Tolkien mesmo passou por isso (como soldado de infantaria) na Primeira Guerra Mundial. Mas as coisas s\u00f3 tenderam a ficar piores ao longo da sua vida,&#8221; disse Shippey . &#8220;Acredito que ele se preocupava muito com a natureza do mal, a natureza da tecnologia, a maneira como era poss\u00edvel abusar das coisas, o modo como as boas inten\u00e7\u00f5es podiam ser subvertidas. E isso \u00e9 tudo.&#8221;(\u201cThe secret of Tolkien&#8217;s &#8216;Rings&#8217; Much loved series for a half-century\u201d publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, dispon\u00edvel, <a href=\"http:\/\/www.cnn.com\/2001\/SHOWBIZ\/books\/12\/17\/rings.tolkien\/\">http:\/\/www.cnn.com\/2001\/SHOWBIZ\/books\/12\/17\/rings.tolkien\/<\/a>, atualizado 18.12.2001)<\/p><\/blockquote>\n<p>Antes de passarmos para a an\u00e1lise da hist\u00f3ria propriamente dita e constata\u00e7\u00e3o desse mesmo realismo, estaremos tecendo algumas considera\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas, a partir da hermen\u00eautica de Ricoeur e das id\u00e9ias de Tolkien.<\/p>\n<p><strong>1. Considera\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Para entendermos o tratamento que Ricoeur confere ao mal, faz-se necess\u00e1rio considerar que ele partia do pressuposto crist\u00e3o da queda e do pecado, conceitos centrais da cosmologia b\u00edblica. Embora Tolkien provavelmente n\u00e3o concordasse com a interpreta\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica que Ricoeur dava \u00e0 narrativa do G\u00eanesis, ele certamente concordaria com a vis\u00e3o cr\u00edtica e aplica\u00e7\u00e3o que Ricoeur dava a esses conceitos na sua hermen\u00eautica. No cap\u00edtulo \u201cA simb\u00f3lica do mal interpretada\u201d, ele deixa claro que o que buscava n\u00e3o era:<\/p>\n<blockquote><p>&#8230; opor, nesse n\u00edvel de abstra\u00e7\u00e3o, uma formula\u00e7\u00e3o a outra formula\u00e7\u00e3o: n\u00e3o sou dogmatizador. Minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 refletir sobre a <em>significa\u00e7\u00e3o <\/em>do trabalho teol\u00f3gico cristalizado em um conceito como o de pecado original. Coloco portanto um problema de m\u00e9todo. Com efeito esse conceito tomado como tal n\u00e3o \u00e9 b\u00edblico e, contudo, quer explicar, por meio de um aparelho racional sobre o qual teremos de refletir, o pr\u00f3prio conte\u00fado da profiss\u00e3o e da predica\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria da Igreja. Refletir sobre a <em>significa\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9, pois, reencontrar as inten\u00e7\u00f5es do conceito, seu poder de remetimento ao que n\u00e3o \u00e9 conceito mas an\u00fancio, an\u00fancio que denuncia o mal e an\u00fancio que pronuncia a absolvi\u00e7\u00e3o. Em suma, refletir sobre a significa\u00e7\u00e3o \u00e9 de uma certa forma <em>desfazer o conceito<\/em>, decompor suas motiva\u00e7\u00f5es e, por uma esp\u00e9cie de an\u00e1lise intencional, reencontrar as setas de sentido que visam o <em>pr\u00f3prio querigma <\/em>(Ricoeur, 1978, 227-8).<\/p><\/blockquote>\n<p>O que ele se prop\u00f5e a fazer, nesta e noutras obras, n\u00e3o \u00e9 questionar o conceito <em>teol\u00f3gico<\/em> de pecado, mas construir uma esp\u00e9cie de <em>simb\u00f3lica do mal<\/em>. Assim, o fato de Tolkien ter abra\u00e7ado o catolicismo romano e n\u00e3o o protestantismo reformado, como Ricoeur, n\u00e3o representa empecilho para o nosso estudo, mesmo porque ambos bebem de fil\u00f3sofos da Igreja n\u00e3o dividida, como Agostinho.<\/p>\n<p>Como se sabe, mesmo os Reformadores como Calvino e Martinho Lutero, beberam de Agostinho, principalmente no que diz respeito \u00e0 quest\u00e3o da gra\u00e7a e da trindade, que est\u00e3o diretamente relacionados ao problema do mal.<\/p>\n<p>Por mais que o platonismo tamb\u00e9m tivesse deixado as suas marcas no pensamento e tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3os, um dos mais freq\u00fcentes equ\u00edvocos no tratamento do problema do mal \u00e9 o <em>dualismo<\/em>, particularmente o manique\u00edsta, uma das maiores preocupa\u00e7\u00f5es dos grandes pensadores do cristianismo, de Santo Agostinho at\u00e9 Kant, e que continua sendo discutido e mal resolvido at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p>Os maniqueus atribuem ao mal uma substancialidade pr\u00f3pria, coisa inteiramente inaceit\u00e1vel, do ponto de vista crist\u00e3o. Nesse sentido, o manique\u00edsmo \u00e9 compar\u00e1vel ao gnosticismo, que os cr\u00edticos e fil\u00f3sofos da atualidade tendem a registrar e combater mais, do que o manique\u00edsmo, que muitas vezes passa despercebido. Por outro lado, esse tipo de pensamento est\u00e1 longe de ser uma postura superada. Dir\u00edamos at\u00e9, que ele est\u00e1 presente na maioria das obras, filmes, particularmente de fic\u00e7\u00e3o, e desenhos animados da atualidade.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do problema do dualismo, o que os maniqueus ignoram \u00e9 que o mal, ao contr\u00e1rio do bem, tem uma natureza e origem <em>totalmente dependentes<\/em>. Portanto n\u00e3o h\u00e1 simetria ou equival\u00eancia poss\u00edvel entre o bem e o mal.<\/p>\n<p>Outro autor muito preocupado com a quest\u00e3o do mal e do sofrimento, Peter Kreeft, encara o problema de maneira bastante objetiva e clara. Em<em> Buscar Sentido no Sofrimento<\/em>, citando um grande amigo e colega de Tolkien em Oxford, C.S. Lewis, ele deixa muito clara a distin\u00e7\u00e3o entre bem e mal<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO mal \u00e9 parasit\u00e1rio, n\u00e3o original. Os poderes que permitem a continua\u00e7\u00e3o do mal s\u00e3o dados pela bondade.\u201d Pode existir o bem absoluto, mas n\u00e3o pode existir o mal absoluto&#8230; O mal precisa do bem como o parasito precisa do hospedeiro, como o poder destrutivo precisa de algo bom para destruir, mas nunca o contr\u00e1rio. O bem n\u00e3o precisa do mal&#8230;O problema te\u00f3rico do satanismo \u00e9 o mesmo do dualismo. O mal n\u00e3o pode ser maior do que o bem, porque o mal \u00e9 um bem distorcido, doentio, uma parasito do bem. O mal \u00e9 sempre relativo ao bem. O mal infinito \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o nos termos, pois, sendo infinito, n\u00e3o daria espa\u00e7o para o bem se manifestar, n\u00e3o dando espa\u00e7o assim \u00e0 exist\u00eancia plena, \u00e0 intelig\u00eancia e \u00e0 determina\u00e7\u00e3o do deus mau, anjo, ou homem.(Kreeft, 48-9)<\/p><\/blockquote>\n<p>Apesar de terem professado vertentes diversas do cristianismo, Lewis e Tolkien concordavam que o Mal n\u00e3o tem subst\u00e2ncia. Ele se op\u00f5e ao bem somente no sentido de tentar nega-lo, destru\u00ed-lo e anula-lo. Essa id\u00e9ia fica clara particularmente em <em>O Problema do Sofrimento<\/em>, de C.S. Lewis, que, ao contr\u00e1rio de Tolkien, encarou a quest\u00e3o do mal te\u00f3rica e teologicamente, associando-a \u00e0 exist\u00eancia do sofrimento, como sendo um dos sintomas mais evidentes do mal.<\/p>\n<p>Podemos identificar pelo menos tr\u00eas ind\u00edcios de que Tolkien n\u00e3o recai em qualquer manique\u00edsmo, opondo-se at\u00e9 mesmo a ele. Em primeiro lugar, apesar do aparente preto e branco da luta entre o bem e o mal em <em>OSA <\/em>, n\u00e3o podemos encontrar em Terra M\u00e9dia personagens puramente bons, nem maus. H\u00e1 os que foram bons e se tornaram maus. O mal n\u00e3o tem uma origem espec\u00edfica. Ele n\u00e3o \u00e9 criado. Da\u00ed que ironicamente os maus acabam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, servindo ao bem. H\u00e1 personagens considerados at\u00e9 \u201cneutros\u201d, no sentido de n\u00e3o engajados diretamente na luta moral ou de n\u00e3o serem atingidos pela sedu\u00e7\u00e3o do anel, como Tom Bombadil, o \u00fanico que permanece totalmente intocado pelo mesmo.\u00a0 Nesse sentido, como observa Jacobsen, <em>OSA <\/em> n\u00e3o \u00e9 apenas um \u00e9pico, mas tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria de criaturas simples, que se encontram situadas no meio do caminho entre o bem e o mal.<\/p>\n<p>O segundo ind\u00edcio que torna evidente o n\u00e3o-maniqueismo de <em>OSA ,<\/em> \u00e9 que o mal \u00e9 combatido com o bem, movido por atos de vontade livre e nenhum mecanismo ou \u201clei\u201d, segundo o qual o bem tivesse algum poder \u201cm\u00e1gico\u201d de ganhar sempre aleatoriamente no final.<\/p>\n<p>Finalmente, o autor tamb\u00e9m d\u00e1 grande liberdade ao leitor, de tirar as suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es a respeito dos personagens, que assim se tornam de riqueza praticamente inesgot\u00e1vel. A moral da hist\u00f3ria para o autor \u00e9 que ningu\u00e9m pode julgar a bondade ou maldade de ningu\u00e9m, pois afinal, vivemos num mundo de \u201csombras\u201d. Nesse sentido, Jacobsen alerta os cr\u00edticos apressados, lembrando que:<\/p>\n<blockquote><p>Terra M\u00e9dia n\u00e3o est\u00e1 dividida em duas categorias, Bem e Mal. H\u00e1 uma massa cinza entre elas. O que devemos lembrar quando se trata da mitologia de Tolkien \u00e9 que jamais se poder\u00e1 obter uma vis\u00e3o adequada do seu mundo, lendo as suas obras uma s\u00f3 vez, muito menos tentar analisar os seus habitantes. Devemos mais do que isto ao autor. Nem sempre a primeira impress\u00e3o \u00e9 a mais correta. (Jacobsen )<\/p><\/blockquote>\n<p>Nosso estudo comparativo entre esses dois autores parte, assim, dessa distin\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria, radical, mas n\u00e3o manique\u00edsta ou dualista, entre o bem e o mal, com o qual Tolkien e Ricoeur concordam, para al\u00e9m de suas discord\u00e2ncias. De sua parte, Tolkien \u00e9 bastante claro quanto a isso: \u201cNa cosmogonia temos a queda: ou melhor at\u00e9, uma queda de anjos&#8230; n\u00e3o pode haver qualquer \u2018hist\u00f3ria\u2019 sem a queda \u2013 todas as hist\u00f3rias falam, em \u00faltima an\u00e1lise, da queda \u2013 pelo menos n\u00e3o, para mentes humanas, como as que n\u00f3s conhecemos e possu\u00edmos\u201d(Tolkien, <em>apud <\/em>Chance, 184).<\/p>\n<p><strong>2. Os Planos do Mal em Ricoeur<\/strong><\/p>\n<p>Da mesma forma como Kreeft e Lewis, Ricoeur tamb\u00e9m trata o mal, como algo que se encontra inalienavelmente ligado ao <em>sofrimento<\/em>, ainda que esse n\u00e3o passasse de um segundo est\u00e1gio ou conseq\u00fc\u00eancia moral do mesmo. Na obra de Ricoeur, que tomaremos por base para a an\u00e1lise da obra-prima de Tolkien, intitulada <em>O mal: um desafio \u00e0 filosofia e \u00e0 teologia<\/em>, Ricoeur parte das interpreta\u00e7\u00f5es de autores como Agostinho, Kant, Barth e Hegel e outros pensadores, que n\u00e3o professavam o cristianismo, tais como Marx e Nietzsche, para chegar \u00e0 seguinte conclus\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>O mal moral \u2013 o pecado em linguagem religiosa \u2013 designa o que torna a a\u00e7\u00e3o humana objeto de imputa\u00e7\u00e3o, de acusa\u00e7\u00e3o e de repreens\u00e3o&#8230; \u00c9 aqui que o mal moral interfere no sofrimento, na medida em que a puni\u00e7\u00e3o \u00e9 um sofrimento infligido&#8230; \u00e9 por isso que se chama a culpabilidade de pena, termo que ultrapassa a fratura entre o mal cometido e o mal sofrido&#8230; fazer mal \u00e9 sempre, de modo direto ou indireto, prejudicar outrem, logo, \u00e9 faze-lo sofrer (Ricoeur, 1988,\u00a0 23-24).<\/p><\/blockquote>\n<p>Nesse sentido, Ricoeur concorda muito mais com Agostinho, do que qualquer pensador moderno, pois para ele o mal n\u00e3o tem subst\u00e2ncia. Ele n\u00e3o tem uma <em>origem<\/em>, n\u00e3o tem uma explica\u00e7\u00e3o racional e nem sequer metaf\u00edsica, como nos parece ser a concep\u00e7\u00e3o de Kant, embora ele existisse, de certa forma, como \u201cregra\u201d ou \u201cprinc\u00edpio\u201d universal da humanidade:<\/p>\n<p>O <em>princ\u00edpio<\/em> do mal n\u00e3o \u00e9 de modo nenhum uma origem, no sentido temporal do termo: \u00e9 somente a m\u00e1xima suprema que serve de fundamento subjetivo \u00faltimo a todas as m\u00e1ximas m\u00e1s de nosso livre-arb\u00edtrio; esta m\u00e1xima suprema fundamenta a <em>propens\u00e3o (Hang)<\/em> ao mal em todo o g\u00eanero humano (&#8230;) ao encontro da <em>predisposi\u00e7\u00e3o (Anlage)<\/em> ao bem, constitutiva da vontade boa. Mas a raz\u00e3o de ser deste mal radical \u00e9 \u201cinsond\u00e1vel\u201d (<em>unerforschbar<\/em>). (Ricoeur, 1988,\u00a0 38)<\/p>\n<p>De certa forma, o mal \u201cimplode\u201d as categorias temporais, espaciais e did\u00e1ticas, sendo uma esp\u00e9cie de \u201cmagia profunda\u201d que se coloca, no dizer de Lewis em <em>O Le\u00e3o, a Feiticeira e o Guarda-Roupa <\/em>(LFG)<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>, na \u201caurora do tempo\u201d (<em>deep magic from the dawn of time<\/em>). A aurora do tempo est\u00e1 aqui evidentemente para a id\u00e9ia de queda. A feiticeira conhece bem esse \u201cfeiti\u00e7o\u201d e apela para ele, para se declarar merecedora do sangue de um traidor. O que a feiticeira desconhecia \u00e9 que, para al\u00e9m dessa magia, havia outra \u201cainda mais profunda\u201d, de <em>antes<\/em> da aurora do tempo. Com isso, o le\u00e3o consegue fazer o tempo e at\u00e9 a morte voltarem atr\u00e1s, quando o traidor confessa e se arrepende do seu delito.<\/p>\n<p>Assim, muito mais do que ao nada, o mal est\u00e1 relacionado \u00e0 <em>liberdade <\/em>e \u00e0<em> responsabilidade <\/em>humanas<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a>, que se encontram escritos no pr\u00f3prio <em>cora\u00e7\u00e3o <\/em>do homem. Pois, como bem nos lembra Lewis em <em>Cristianismo Puro e Simples<\/em>, havia no homem j\u00e1 anteriormente escrita, desde a sua cria\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, uma \u201coutra lei\u201d, a \u201clei moral\u201d, que transcende o tempo e, assim, o mal. Na vis\u00e3o de Agostinho, essa lei foi escrita pelo pr\u00f3prio \u201cdedo de Deus\u201d. Portanto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar do mal, sem falar igualmente da <em>realidade<\/em> altamente complexa do livre-arb\u00edtrio e da autonomia humana. O sofrimento seria, portanto, uma conseq\u00fc\u00eancia ou resposta \u00e0 desobedi\u00eancia do homem:<\/p>\n<blockquote><p>todo o sofrimento, t\u00e3o injustamente repartido ou t\u00e3o excessivo que seja, \u00e9 uma retribui\u00e7\u00e3o do pecado, \u00e9 necess\u00e1rio dar a este uma dimens\u00e3o supra-individual, hist\u00f3rica, at\u00e9 mesmo gen\u00e9rica; \u00e9 a resposta da doutrina do \u201cpecado original\u201d ou \u201cpecado de natureza\u201d (Ricoeur, 1988, p.33)<\/p><\/blockquote>\n<p>Partindo, assim, da concep\u00e7\u00e3o de queda e livre-arb\u00edtrio, faz-se mister p\u00f4r em d\u00favida se pode existir alguma <em>l\u00f3gica <\/em>ou<em> raz\u00e3o de ser <\/em>do mal,<em> <\/em>ou n\u00e3o passaria ele de pura desraz\u00e3o, algo simplesmente i-razo\u00e1vel e i-l\u00f3gico?<\/p>\n<p>Em Hegel, a quest\u00e3o do mal \u00e9 geradora de uma dial\u00e9tica entre a \u201cconvic\u00e7\u00e3o \u201c e a \u201cconsci\u00eancia julgante\u201d, que acaba sendo superada pela \u201cdestrui\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo da condena\u00e7\u00e3o\u201d. Ele n\u00e3o adimitia ninhuma l\u00f3gica do mal, mas reconhecia uma \u201cast\u00facia da hist\u00f3ria\u201d, que concorre com o \u201cesp\u00edrito do mundo\u201d e o \u201cesp\u00edrito do povo\u201d, trazendo conseq\u00fc\u00eancias e acontecimentos n\u00e3o pretendidos pelos historiadores. Temos em Hegel, portanto, uma mistura entre o pensamento religioso e o filos\u00f3fico.<\/p>\n<p>Assim, ao menos no que diz respeito ao plano do <em>pensamento<\/em>, a compreens\u00e3o do mal exige uma reflex\u00e3o mais complexa e paradoxal. O mesmo n\u00e3o pode ser resolvido com base exclusiva no aparato intelectivo do homem. \u00c9 for\u00e7oso transcender o n\u00edvel da mera racionalidade humana.<\/p>\n<p>Ricoeur vai ainda mais longe ao surgerir que a concep\u00e7\u00e3o do mal est\u00e1 na raiz do pr\u00f3prio modo de pensar. Na verdade, o dilema do mal nos remete \u00e0 busca do sentido da exist\u00eancia, da mesma forma como \u00e0 busca de Deus, que n\u00e3o pode ser totalmente compreendido pela raz\u00e3o pura, mas nem por isso devemos nos \u201ccalar\u201d a seu respeito. Pois, na verdade, dilemas como esse nos remetem inalienavelmente ao transcendente, pois que s\u00f3 podem ser tratados, a partir de uma perspectiva transcendental.<\/p>\n<p>Na perspetiva do autor, o homem n\u00e3o se pertence a si mesmo e tamb\u00e9m n\u00e3o\u00a0 tem como declarar a sua total independ\u00eancia racional. Da\u00ed que todas estas quest\u00f5es que transcendem a raz\u00e3o humana s\u00f3 possam ser tratadas a partir da <em>ruptura <\/em>espa\u00e7o-temporal, pela introdu\u00e7\u00e3o de um pensamento <em>diferente<\/em>, como o da narrativa, principalmente a mitol\u00f3gica. O mito acaba assumindo para o pensamento arcaico o papel desempenhado pelos modelos da ci\u00eancia :<\/p>\n<blockquote><p>Considerada em termos do seu alcance referencial, a linguagem po\u00e9tica tem em comum com a linguagem cient\u00edfica o facto de s\u00f3 alcan\u00e7ar a realidade mediante um desvio, que serve para negar a nossa vis\u00e3o ordin\u00e1ria e a linguagem que habitualmente empregamos para a descrever. Procedendo assim, a linguagem po\u00e9tica e cient\u00edfica visam uma realidade mais real do que as apar\u00eancias. A teoria dos modelos permite-nos deste modo interpretar satisfatoriamente o paradoxo da linguagem po\u00e9tica, evocado mais acima&#8230;. A composi\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria ou de um enredo \u2013 Arist\u00f3teles fala aqui de um <em>mythos<\/em> \u2013 \u00e9 o caminho mais curto para a mimese, que \u00e9 o ideal central de toda a poesia. Por outras palavras, a poesia s\u00f3 imita a realidade recriando-a a um n\u00edvel m\u00edtico do discurso. Aqui, fic\u00e7\u00e3o e redescri\u00e7\u00e3o v\u00e3o a par. (Ricoeur, 1995, 114-115)<\/p><\/blockquote>\n<p>O ponto que gostar\u00edamos de frisar \u00e9 que tudo que nos \u00e9 vedado pela via da raz\u00e3o l\u00f3gica e sistem\u00e1tica, pode muito bem ser alcan\u00e7ado atrav\u00e9s do mito e da narrativa. Assim, Ricoeur tenta dar conta da aparente contradi\u00e7\u00e3o entre a realidade do mal, ao mesmo tempo em que se cr\u00ea na exist\u00eancia de um Deus, a partir de um modo de pensar que chama de \u201conto-teol\u00f3gico\u201d.<\/p>\n<p>Isso no plano do pensamento. Acontece que o mal tamb\u00e9m existe no n\u00edvel da <em>a\u00e7\u00e3o,<\/em> onde equivale \u00e0 <em>viol\u00eancia<\/em>, que, por sua vez, s\u00f3 pode ser combatida por uma <em>pol\u00edtica \u00e9tica<\/em>. Ricoeur \u00e9 bastante contundente quando se refere a este plano, afirmando que:\u201cantes de acusar Deus ou de especular sobre a origem demon\u00edaca do mal no pr\u00f3prio Deus, atuemos \u00e9tica e politicamente contra o mal.\u201d (Ricoeur, 1988, 49). Seu maior argumento contra aqueles que se queixam contra a viol\u00eancia \u00e9 o da responsabilidade, que deve caminhar de m\u00e3os dadas com a liberdade.<\/p>\n<p>J\u00e1 no plano dos <em>sentimentos<\/em>, o mal equivale \u00e0 queixa contra o sofrimento, que por sua vez poderia ser combatida pela supera\u00e7\u00e3o da revolta contra Deus e pela tese da <em>puni\u00e7\u00e3o<\/em>. Neste contexto, Ricoeur resgata o conceito freudiano de <em>luto<\/em>. Sua fun\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m do sofrimento, \u00e9 a de ajudar o sujeito que sofre por alguma conting\u00eancia, a libertar-se da acusa\u00e7\u00e3o natural que faz contra si mesmo. Al\u00e9m do mais, de acordo com a perspectiva , Deus tamb\u00e9m sofre. E assim a acusa\u00e7\u00e3o contra Deus torna-se uma quest\u00e3o de tempo e de ren\u00fancia, que s\u00f3 podem assumir aqueles que acreditam que Deus seja a fonte de todo o bem.<\/p>\n<blockquote><p>Para l\u00e1 deste limiar, alguns s\u00e1bios avan\u00e7am solitariamente no caminho que conduz \u00e0 ren\u00fancia da pr\u00f3pria queixa. Alguns chegam a discernir no sofrimento um valor educativo e purgativo. Mas \u00e9 necess\u00e1rio afirmar sem hesita\u00e7\u00e3o que este sentido n\u00e3o pode ser ensinado&#8230;O horizonte em dire\u00e7\u00e3o ao qual se dirige esta sabedoria parece-me ser uma ren\u00fancia aos pr\u00f3prios desejos dos quais a ferida gera a queixa; ren\u00fancia, primeiro, ao desejo de ser recompensado por suas virtudes, ren\u00fancia ao desejo de ser libertado pelo sofrimento, ren\u00fancia ao componente infantil do desejo da imortalidade, que faria aceitar a pr\u00f3pria morte com um aspecto desta parte do negativo&#8230; (Ricoeur, 1988, 52)<\/p><\/blockquote>\n<p>Paradoxalmente \u00e9 no contexto de morte que o bem mais se destaca. De acordo com Chance, a morte \u00e9 um tema de destaque em <em>OSA . <\/em>O nome da regi\u00e3o de <em>\u201cMordor<\/em>\u201d, por exemplo, vem de <em>\u201cmurder\u201d<\/em>, ou seja, assassinato e morte. Uma das maiores armas usadas pelos her\u00f3is da hist\u00f3ria contra ela \u00e9 a \u00e9tica ou moral.<\/p>\n<p>O jornalista brit\u00e2nico G.K. Chesterton, que inspirou tanto a Tolkien, quanto a Lewis, tamb\u00e9m concordaria inteiramente com essa vis\u00e3o paradoxal, que ele atribui ao cristianismo, que diz que \u201cs\u00f3 aquele que p\u00f5e a perder, ganha e aquele que quer ganhar, perde\u201d<a href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p><em>Aquele que perder a sua vida salva-la-\u00e1<\/em>: isto n\u00e3o \u00e9 nenhuma divisa m\u00edstica para santos e her\u00f3is. \u00c9 um conselho de senso comum para marinheiros ou montanhistas. Podia estar impresso numa guia para alpinistas ou em um manual de instru\u00e7\u00e3o militar. Este paradoxo cont\u00e9m todo o princ\u00edpio da coragem, mesmo da coragem simplesmente terrena ou simplesmente brutal&#8230;.Um soldado cercado pelo inimigo, se quiser abrir caminho para escapar, ter\u00e1 de combinar um forte desejo de viver com uma estranha despreocupa\u00e7\u00e3o pela morte. N\u00e3o lhe basta apegar-se \u00e0 vida, pois ent\u00e3o seria um covarde e n\u00e3o escaparia. N\u00e3o pode esperar pela morte, pois ent\u00e3o seria um suicida e tamb\u00e9m n\u00e3o escaparia&#8230; Imagino que nenhum fil\u00f3sofo ter\u00e1 jamais expressado este rom\u00e2ntico enigma com a lucidez adequada&#8230; Mas o cristianismo fez mais do que isso: marcou-lhe os limites nas tremendas sepulturas do suicida e do her\u00f3i, mostrando a dist\u00e2ncia que h\u00e1 entre aquele que morre por amor \u00e0 vida e aquele que morre por amor \u00e0 morte. (Chesterton, 39-40)<\/p><\/blockquote>\n<p>E somente esse paradoxo do enfrentamento da morte por amor da vida, diz Ricoeur, \u00e9 capaz de romper com o ciclo vicioso da retribui\u00e7\u00e3o, permitindo a entrega ao amor incondicional divino. Ricoeur encerra a sua reflex\u00e3o com um forte apelo para o engajamento:<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a esta luta (contra o mal), estas experi\u00eancias s\u00e3o, como as a\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia n\u00e3o-violenta, antecipa\u00e7\u00f5es em forma de par\u00e1bola de uma condi\u00e7\u00e3o humana onde, a viol\u00eancia sendo suprimida, o enigma do verdadeiro sofrimento, do <em>irredut\u00edvel <\/em>sofrimento, \u00e9 colocado \u00e0s claras. (Ricoeur, 1988, 53)<\/p>\n<p>Assim, a exist\u00eancia do mal reafirma a <em>condi\u00e7\u00e3o<\/em> <em>humana<\/em> que v\u00ea o homem, como\u00a0 criminoso e v\u00edtima ao mesmo tempo. Esse car\u00e1ter paradoxal da natureza humana n\u00e3o se manifesta apenas na l\u00f3gica, mas tamb\u00e9m na linguagem.<\/p>\n<p>Da mesma forma como o mal, ningu\u00e9m sabe ao certo a origem da linguagem. Ela \u00e9 algo inescrut\u00e1vel para a mente humana. Logo, ela tamb\u00e9m requer <em>transcend\u00eancia <\/em>para servir para a supera\u00e7\u00e3o do sofrimento e at\u00e9 da solid\u00e3o (Ricoeur, 1995, 66). Na vis\u00e3o de Ferreira da Silva, a linguagem tem a caracter\u00edstica adicional de ser \u201cintersubjetiva\u201d<\/p>\n<blockquote><p>S\u00f3 a condi\u00e7\u00e3o ling\u00fc\u00edstico-intersubejtiva fundamental deste tipo de experi\u00eancia (do inexprim\u00edvel) torna poss\u00edvel a sua realiza\u00e7\u00e3o&#8230; como nos diz Ricoeur, a linguagem do mal n\u00e3o \u00e9, de modo nenhum, a linguagem habitual. A tens\u00e3o sempre presente nos s\u00edmbolos e mitos do mal entre mal sofrido e mal cometido, obriga-os a retomarem-se constantemente, refazendo, de novo, o seu sentido. O s\u00edmbolo nunca \u00e9, de facto, toda a realidade simbolizada. O seu princ\u00edpio \u00e9 sempre o paradoxo do tempo e do car\u00e1cter excessivo do sentido. (Ferreira da Silva, 24-25)<\/p><\/blockquote>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o a que o autor se refere n\u00e3o \u00e9 meramente te\u00f3rica, mas simplesmente existencial. Ningu\u00e9m vive sem uma linguagem composta de signos, s\u00edmbolos e significados: \u201cNa verdade, lembra-nos Ricoeur, se a vida n\u00e3o fosse originariamente significa\u00e7\u00e3o, a compreens\u00e3o nem sequer seria poss\u00edvel. Mas o caminho do s\u00edmbolo \u00e9 simultaneamente o do esquecimento e o da restaura\u00e7\u00e3o, \u201d(Ferreira da Silva, 55). A linguagem, longe de ser uma entidade independente, \u00e9, assim, mediadora de significados ou do sentido. Ela server para preservar a mem\u00f3ria, mas serve tamb\u00e9m para o esquecimento, como mecanismo de defesa e de desmitifica\u00e7\u00e3o da realidade, como vimos anteriormente,\u00a0 para a sua re-significa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>S\u00f3 esta dial\u00e9tica diz alguma coisa acerca da rela\u00e7\u00e3o entre a linguagem e a condi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica do ser-no-mundo. A linguagem n\u00e3o \u00e9 um mundo pr\u00f3prio. Nem sequer \u00e9 um mundo. Mas, porque estamos no mundo, porque somos afectados por situa\u00e7\u00f5es e porque nos orientamos mediante a compreens\u00e3o em tais situa\u00e7\u00f5es, temos algo a dizer, temos a experi\u00eancia para trazer \u00e0 linguagem. (Ricoeur, 1995, 71)<\/p><\/blockquote>\n<p>Em resumo, ent\u00e3o, a simb\u00f3lica construida pelo sofrimento e necessidade de darexplica\u00e7\u00e3o &#8216;a exist\u00eancia do mal \u00e9 em Ricoeur, paradoxalmente tamb\u00e9m a simb\u00f3lica do <em>sentido<\/em> da vida e da busca da <em>reconcilia\u00e7\u00e3o <\/em>ou<em> salva\u00e7\u00e3o<\/em>. Da\u00ed que ele estabele\u00e7a uma forte proximidade entre a filosofia, a hermen\u00eautica e a <em>soteriologia<\/em> ou <em>teologia da salva\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Autores como J.R. R. Tolkien e seus colegas de Oxford<a href=\"#_ftn7\">[7]<\/a>, todos igualmente interessados em assuntos existenciais e teol\u00f3gicos, empenhados em contribuir para a \u201csalva\u00e7\u00e3o\u201d do mundo do holocausto da guerra e da ind\u00fastria tecnol\u00f3gica, empenhavam-se n\u00e3o somente na luta contra o mal, mas em usar os meios mais <em>comunicativos <\/em>para tanto. Entretanto, para se extrair as suas importantes li\u00e7\u00f5es de narrativas como as par\u00e1bolas, \u00e9 necess\u00e1rio \u201cter ouvidos para ouvir\u201d e mente para refletir. \u00c8 preciso ainda ter par\u00e2metros morais para julgar e interpretar as suas narrativas.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o resumidamente, assim, os pressupostos te\u00f3ricos com os quais faremos a leitura de OSA\u00a0 a seguir..<\/p>\n<p><strong><em>3. O mal em OSA <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ness obra, o autor procura conciliar uma s\u00e9rie de extremos, numa atitude paradoxal<a href=\"#_ftn8\">[8]<\/a> para a sua \u00e9poca: o mundo interior e o mundo exterior; o subjetivo e o objetivo; o induzido e o contingente; o te\u00f3rico e o pr\u00e1tico; o universal e o particular. Esse m\u00e9todo do <em>paradoxo<\/em> tamb\u00e9m est\u00e1 muito presente nos mitos, que costumam buscar solu\u00e7\u00f5es para as contradi\u00e7\u00f5es aparentes e reais da exist\u00eancia humana. Neste sentido, \u00e9 importante notar a moral central da hist\u00f3ria ou o an\u00fancio por detr\u00e1s da den\u00fancia que \u00e9 bastante simples e modesto: os verdadeiros her\u00f3is s\u00e3o precisamente aqueles personagens ignorados e silenciados, que nos parecem inicialmente os mais fracos e insignificantes de todos.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante notar, nesse sentido, que quando os hobbits se encontraram com os ents da floresta, eles n\u00e3o tinham qualquer registro da sua exist\u00eancia. O estranhamento ocorrido nesse encontro tamb\u00e9m pode ser observado no primeiro encontro entre o fauno e L\u00facia em <em>LFG.<\/em> Trata-se do mesmo tipo de abalo frequentemente provocado pelos mitos e contos maravilhosos em geral, etc.<\/p>\n<p>Outro tra\u00e7o em comum entre a mitologia e OSA \u00e9 a multiplica\u00e7\u00e3o dos <em>motivos<\/em> de um mesmo <em>tema<\/em>. N\u00e3o se tem uma imagem \u00fanica nem do bem e nem do mal. O aspecto <em>modelar<\/em> dos mitos, j\u00e1 destacado por Ricoeur multiplica-se por toda a hist\u00f3ria: Bilbo \u00e9 um modelo referencial para Frodo; Gandalf \u00e9 o modelo referencial para Aragorn; Galadriel, que se torna a mentora espiritual da confraria do anel, a partir da morte de Gandalf, e sempre faz as perguntas certas, \u00e9 um modelo espiritual para os hobbits, etc. Mas n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 exemplos positivos na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Podemos citar in\u00fameros personagens que apresentam fraquezas pessoais, como o pr\u00f3prio Frodo, personagem principal e portador do Um Anel; Bilbo, o bolseiro, que foi o primeiro portador e Boromir, um dos integrantes da Sociedade do Anel. Por outro lado, o Um Anel representa o mal em si, associado \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o e ao poder. Foster elucida os interessantes efeitos do anel sobre diversos portadores:<\/p>\n<blockquote><p>Devido ao seu imenso poder maligno, o Anel tem propriedades curiosas. Ele possui uma certa medida de auto-determina\u00e7\u00e3o&#8230; O Anel tamb\u00e9m usa e devora os seus portadores, a menos que, como no caso de Sauron, ele mesmo seja dotado de grande poder. Eles passavam a viver mais, mas o custo disso era de tornarem-se escravos do Anel e serem corrompidos at\u00e9 na apar\u00eancia f\u00edsica (veja: Gollum) j\u00e1 que os seus corpos e almas eram consumidas pela fome que tinham do anel. O anel tamb\u00e9m incitava a ambi\u00e7\u00e3o de quem o possu\u00eda e \u00f3dio invejoso e medo da parte do seu portador \u2026 Aqueles dotados de pouco poder que usassem o anel, tornavam-se invis\u00edveis, mas a sua vista e audi\u00e7\u00e3o ficavam mais agu\u00e7adas, e esta acuidade sensorial permanecia por alguns momentos, mesmo quando eles n\u00e3o estavam usando o Anel \u2026 O Anel representava um peso e tormento constante na mente e corpo de Frodo, pois ele o carregou em uma \u00e9poca em que o poder de Sauron estava muito forte e porque ele o usou em Mordor\u00a0 (Foster, 385-6).<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m do Um Anel, h\u00e1 v\u00e1rios outros an\u00e9is na hist\u00f3ria, denominados genericamente \u201can\u00e9is do poder\u201d. Diz a lenda que Melkor, o anjo do mal, ensinou os elfos a forja-los, muito antes sequer da queda do mundo. Mas o <em>Um Anel,<\/em> forjado por Sauron, o Senhor do Escuro na Montanha do Fogo, para controlar todos os outros an\u00e9is do poder \u00e9 o mais tem\u00edvel de todos. Nele encontra-se inscrito:<\/p>\n<blockquote><p><em>Um Anel para a todos governar; Um Anel para encontra-los, <\/em><\/p>\n<p><em>Um Anel para a todos trazer e na escurid\u00e3o aprisiona-los. <\/em>(Tolkien, 52)<\/p><\/blockquote>\n<p>Essas duas linhas de um poema folcl\u00f3rico que fala de todos os an\u00e9is j\u00e1 forjados em Terra M\u00e9dia, eram vis\u00edveis somente a Frodo, o portador do Anel. Os outros an\u00e9is encontravam-se espalhados. Tr\u00eas deles estavam no poder dos elfos; sete, dos an\u00f5es; e nove, dos homens. Mas precisamente o Um Anel encontrava-se perdido. O fato de, em meio a tantos an\u00e9is, somente um ser puramente maligno, \u00e9 outra evid\u00eancia da transcend\u00eancia do bem, relativamente ao mal em Tolkien.<\/p>\n<p>Pelo que se pode ler em <em>Silmarillion <\/em>e outras hist\u00f3rias e fragmentos de hist\u00f3rias, a queda do primeiro anjo mau, Melkor, ocorreu antes de Il\u00favatar ter despertado os seres para a vida, \u00e0 semelhan\u00e7a do que ocorre na narrativa b\u00edblica. Quem criou os fundamentos e elementos substanciais de Terra M\u00e9dia foi Aul\u00eb. Seu nome significa \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d. Il\u00fcvatar ou Eru (Deus), cria os Ainur, ou os santos, e usa o seu canto para criar Arda, o mundo, \u201cdespertado-o\u201d para a vida.\u00a0 Os maiores Ainur s\u00e3o os Valar, sendo que Melkor era um deles. Ele atrapalha o canto dos outros Ainur, de modo que eles o banem. Toda a saga de OSA come\u00e7a quando Melkor resolve voltar \u00e0 Terra M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Registra-se ainda a exist\u00eancia de dem\u00f4nios e an\u00f5es, embora vivendo em estado de sono profundo nas profundezas das cavernas, antes do despertar dos \u201cfilhos de Il\u00favatar\u201d. Os elfos, que s\u00e3o os seres angelicais mais pr\u00f3ximos dos homens, tamb\u00e9m s\u00e3o despetados antes dos seres humanos. Assim, a oposi\u00e7\u00e3o entre o bem e o mal vem de antes do despertar do homem para a vida, ainda que nunca, como for\u00e7as iguais ou sim\u00e9tricas que usassem as mesmas armas e estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p>Outro detalhe que escapa \u00e0 quem acusa Tolkien de manique\u00edsmo \u00e9 o fato de que a clara nomea\u00e7\u00e3o e distin\u00e7\u00e3o entre o <em>bem <\/em>e o<em> mal <\/em>em OSA<em> <\/em>n\u00e3o \u00e9 nenhuma prova de que o autor est\u00e1 necessariamente sendo manique\u00edsta. S\u00f3 o que ele est\u00e1 fazendo \u00e9 uma clara, quase que gritante distin\u00e7\u00e3o. A suspeita de manique\u00edsmo s\u00f3 poderia ser levantada, se essa rela\u00e7\u00e3o entre bem e mal fosse de contradi\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica, a modo do que acontece em desenhos animados como os do He-man, que se op\u00f5e diametralmente \u00e0 figura do esqueleto, a quem se assemelha no porte f\u00edsico. A diferen\u00e7a s\u00f3 \u00e9 que ele \u201ctem a for\u00e7a\u201d, em detrimento do seu inimigo.<\/p>\n<p>Em <em>OSA <\/em>, n\u00e3o h\u00e1 nenhum tipo de proporcionalidade direta ou inversa entre o bem e o mal, pois o primeiro transcende de longe o segundo, como a luz transcende as trevas. O exemplo mais contundente disso talvez se encontre na entrega de Gandalf \u00e0 morte para salvar seus companheiros e a sua posterior ressurrei\u00e7\u00e3o, numa clara analogia \u00e0 morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, ainda que n\u00e3o, de forma direta ou aleg\u00f3rica.<\/p>\n<p>A superabnud\u00e2ncia do bem tamb\u00e9m pode ser observado pelo fato de todos os personagens maus, j\u00e1 terem sido, de alguma forma, bons no passado. Quanto mais remoto esse passado, mais corrompido se tornou o personagem. Por outro lado, os personagens bons tamb\u00e9m cometem os seus erros, e se sentem tentados. O que os distingue \u00e9 que eles n\u00e3o <em>vivem<\/em> fazendo o mal e que costumam <em>aprender<\/em> com esses erros, o que, por sua vez, \u00e9 outro aspecto fortemente anti-maniqueista. Pela vis\u00e3o maniqueista tudo o que h\u00e1 j\u00e1 nasce bom ou mau. Normalmente n\u00e3o se admite tons cinza entre um extremo e outro ou mudan\u00e7as de ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando falamos em <em>h\u00e1bitos de vida <\/em>e <em>aprendizagem<\/em>, estamos automaticamente falando em <em>educa\u00e7\u00e3o, <\/em>que tamb\u00e9m envolve pelo menos os tr\u00eas planos de an\u00e1lise do mal sugeridos por Ricoeur, que Tolkien tamb\u00e9m abrange em <em>OSA <\/em>, e que passaremos a analisar mais detidamente a seguir.<\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><strong><em>3.1. O mal em pensamentos<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A partir da perspectiva epistemol\u00f3gica, psicol\u00f3gica ou mental, \u00e9 importante destacar que em <em>OSA <\/em> a maldade \u00e9incapaz de gerar pensamentos originais ou relevantes. Os personagens do mal morrem de inveja da criatividade caracter\u00edstica aos de bem. S\u00f3 os bons \u00e9 que conseguem criar, e s\u00f3 Il\u00favatar, o Criador do mundo, sabe criar a partir do nada. O que Morgoth mais deseja, no fundo, \u00e9 forjar o poder criacional de Il\u00favatar. E Frodo esclarece que esse tamb\u00e9m foi mesmo desejo daquele que criou os horripilantes orcs: \u201cA sombra que os criou s\u00f3 pode arremedar, n\u00e3o pode criar: nada realmente novo que se origine dela mesma. N\u00e3o acho que lhes tenha dado vida, apenas os arruinou e deformou; e, se eles tiverem de viver, precisam viver como as outras criaturas.\u201d (Tolkien, 967).<\/p>\n<p>Diz-se at\u00e9 que, na verdade, os <em>orcs <\/em>eram deprava\u00e7\u00f5es do que j\u00e1 foram <em>hobbits<\/em> em outros tempos. Da mesma forma como l\u00edngua de cobra, o conselheiro do rei Th\u00e9oden foi um ser humano no passado: \u201cVeja Th\u00e9oden, aqui est\u00e1 uma cobra! N\u00e3o pode lev\u00e1-la consigo em seguran\u00e7a, nem deix\u00e1-la para tr\u00e1s. Mat\u00e1-la seria justo. Mas essa criatura n\u00e3o foi sempre com \u00e9 agora. J\u00e1 foi um homem, e o serviu \u00e0 sua maneira.\u201d (Tolkien, 544.)<\/p>\n<p>Essas duas criaturas, particularmente <em>Gollum<\/em>, ou <em>Smeagul<\/em>, como passava a se chamar quando se tornava menos depravado, s\u00e3o exemplares bastante ilustrativos de pensamentos malignos, que se manifestam sempre numa linguagem egoc\u00eantrica, se n\u00e3o, esquizofr\u00eanica. N\u00e3o \u00e9 por acaso que os orcs, que decidiram servir a Saruman, nunca foram capazes de desenvolver uma linguagem muito complexa.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 sempre dialogando com a pr\u00f3pria consci\u00eancia sobre as decis\u00f5es que ir\u00e1 tomar para reconquistar o seu \u201cprecioso\u201d, o Um Anel que j\u00e1 esteve em posse dele h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s. Desde que ele foi preso e torturado por Sauron, para depois ser liberto para ir \u00e0 ca\u00e7a de Frodo, seu pensamento obsessivo mant\u00e9m-se fixado nesta id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Em sua interessant\u00edssima an\u00e1lise deste complexo personagem, Seland afirma que a maldade de Gollum, ao contr\u00e1rio daquela dos dem\u00f4nios Sauron, Saruman e Morgoth n\u00e3o \u00e9 \u201cespiritual\u201d, mas muito mais <em>carnal<\/em>, <em>humana<\/em> ou <em>moral<\/em>. Al\u00e9m do seu ego\u00edsmo pueril e a sua gula, ele demonstra fortes ind\u00edcios de estar sofrendo uma s\u00edndrome \u201cman\u00edaco depressiva\u201d nos seus longos mon\u00f3logos. Seu h\u00e1bito de mentir \u00e9 t\u00e3o forte, que ele passa a enganar principalmente a si mesmo. Da\u00ed que se diz que o anel corrompeu Gollum \u201cdevorando a sua cabe\u00e7a\u201d e tornando-o cada vez pior. Na verdade Gollum sofre de um mal que o vai corroendo pela divis\u00e3o ou fragmenta\u00e7\u00e3o do seu ego. E este mal se manifesta pela sua linguagem cada vez menos intelig\u00edvel, pobre e infantil.<\/p>\n<p>Mas o que importa destacar aqui n\u00e3o \u00e9 a maldade de Gollum e sim, a comisera\u00e7\u00e3o demonstrada por Frodo, depois de ter passado por uma esp\u00e9cie de \u201crito de purifica\u00e7\u00e3o\u201d nas cavernas. Na perspectiva de Beagle, o tema da purifica\u00e7\u00e3o e da pena \u00e9 o mais importante de toda a hist\u00f3ria de <em>OSA <\/em>:<\/p>\n<blockquote><p><em>OSA <\/em>\u00e9 a hist\u00f3ria da viagem de Frodo\u00b4s atrav\u00e9s do longo pesadelo de ambi\u00e7\u00e3o e energia terr\u00edvel da sua educa\u00e7\u00e3o, tanto para o medo, quanto para a verdadeira beleza, e da sua perda final do mundo que ele busca salvar. Em certo sentido, o seu crescente conhecimento devorou a alegria e for\u00e7a inocente que o tornou, de todos os personagens s\u00e1bios e m\u00e1gicos que ele encontra pelo caminho, o \u00fanico adequado para ser o portador do Um Anel. Como Sam Gangee, o \u00fanico amigo que o acompanhou por todo o longo caminho rumo ao fogo, \u201cAs coisas t\u00eam que ser assim muitas vezes \u2026 quando as coisas est\u00e3o ficando perigosas: algu\u00e9m tem que abrir m\u00e3o delas, perde-las, para que outros possam ficar com elas.\u201d Certamente haviam outros personagens em Terra-M\u00e9dia que teriam se disposto a pagar este pre\u00e7o, mas certamente nenhum para quem isto tinha tanto sentido. (Beagle, XI)<\/p><\/blockquote>\n<p>Ou seja, a sua disposi\u00e7\u00e3o mental de tentar compreender e ser compassivo para com Gollum. Com isso, paradoxalmente, a partir de uma certa identifica\u00e7\u00e3o de Frodo com o orc, o mal fica muito mais destacado diante do bem. Neste sentido, Gollum \u00e9 o personagem que melhor representa a maldade e suas conseq\u00fc\u00eancias destrutivas, a partir de uma perspectiva essencialmente humana. N\u00e3o \u00e9 certamente nenhum acaso o fato de que um dos poderes do anel \u00e9 tornar as pessoas invis\u00edveis, ou seja, tirar-lhes a concretude mais caracteristicamente humana. Como j\u00e1 diz\u00edamos, o objetivo do Um Anel \u00e9 de escravizar e controlar mentalmente quem decide possu\u00ed-lo. E o melhor exemplo disso \u00e9 dado pelo pr\u00f3prio Gollum:<\/p>\n<blockquote><p>As palavras &#8220;Meu Precioso &#8221; s\u00e3o muito significativas, indicando que aquele que possu\u00edsse o anel acaba, na verdade, sendo possu\u00eddo por ele. Ele acaba se tornando a sua posse mais preciosa, mais preciosa at\u00e9, do que a sua pr\u00f3pria alma. As palavras, na verdade, sugerem que o portador do Anel perde a sua identidade. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar, portanto que os cavaleiros negros, os maiores servos de Sauron, n\u00e3o passassem quase que de sombras. Originalmente Homens, cada um recebeu um anel por Sauron e desta forma eram facilmente corrompidos, tornando-se t\u00e3o maus, que perdiam a sua pr\u00f3pria identidade (Foster 359-60). Eis porque eles s\u00e3o invis\u00edveis aos olhos normais, e s\u00f3 podem ser reconhecidos pelas suas roupas negras&#8230;. N\u00f3s tamb\u00e9m podemos notar que, embora ele (Gollum) falasse muito em se tornar um \u201cmestre\u201d, uma vez que tivesse o anel, ele n\u00e3o deseja poder. A sua imagina\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia parecem insuficientes para se dar conta de todo o poder do Anel. Nisto ele se diferencia de Sauron e de Saruman, que pretendiam usar o anel para dominar toda a Terra-M\u00e9dia. A ambi\u00e7\u00e3o de Gollum sempre se limita ao n\u00edvel f\u00edsico (Katharyn F. Crabbe, 37). Ele deseja poder meramente para ser chamado de \u201cgrande\u201d e ter tanto peixe quanto ele possa comer. Mas para al\u00e9m disso, Gollum n\u00e3o passa de algu\u00e9m que mente para si mesmo. (Idem)<\/p><\/blockquote>\n<p>O que fica evidente, tanto nos di\u00e1logos, quanto nos mon\u00f3logos de Gollum \u00e9 que ele assume atitudes irracionais e parece n\u00e3o ter o m\u00ednimo controle sobre a sua pr\u00f3pria vontade. Assim, o anel acaba dominando a <em>vontade<\/em> de quem o carrega, tentando convence-lo de que lhe trar\u00e1 algum bem e fazendo-o praticar o mal, causando a destrui\u00e7\u00e3o. Ao final, o anel divide e destr\u00f3i a personalidade e o car\u00e1ter do seu portador, fazenda-o corromper-se e tornar-se uma das mais vis e degradantes criaturas. Assim, Gollum contribui para a sua pr\u00f3pria auto-destrui\u00e7\u00e3o, servindo de exemplo para o que acontece, sempre que se cede ao desejo indevido ou excessivo. Da\u00ed que o autor ponderasse que todos argumentos de Gollum s\u00e3o irracionais e est\u00fapidos, pois nenhum deles garante que o Um Anel lhe d\u00ea o que ele deseja, coisa que nem sabe muito bem o que \u00e9.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Saruman, bra\u00e7o direito de Sauron, tinha um plano secreto de derrotar o chefe e tomar posse do anel do poder para si mesmo. Sob esse prisma, poder\u00edamos considerar <em>OSA <\/em>uma grande hist\u00f3ria sobre a criatividade e liberdade humanas.<\/p>\n<p>Mas o maior exemplo da maldade de pensamento encontra-se na j\u00e1 mencionada figura de Melkor, que mais tarde \u00e9 chamado de Morgoth. Deus deu a ele poderes, acima de todos os outros, de modo que come\u00e7ou a se corromper a partir da id\u00e9ia de ser igual a Deus, ou seja, de criar, a partir do nada. A estes pensamentos seguiram a inveja e o desejo de dominar o mundo todo, at\u00e9 que ele acabou sendo expulso do mundo dos Valar.<\/p>\n<p>E um dos aspectos do seu car\u00e1ter mais rapidamente corrompido foi precisamente a sua capacidade <em>imaginativa, <\/em>at\u00e9 que ele acabou n\u00e3o sendo capaz de criar mais nada, al\u00e9m de imita\u00e7\u00f5es baratas, prontas para a destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a sua derrota na guerra com os elfos e aprisionamento, ele conseguiu seduzir outro anjo, chamado <em>Manw\u00eb <\/em>para liberta-lo e criar todo um ex\u00e9rcito para ap\u00f3ia-lo na luta contra o bem. Desde ent\u00e3o a sua maldade e mentira passaram a obscurecer o cora\u00e7\u00e3o de todos os seres de Terra-M\u00e9dia, como uma sombra, ou pelo menos at\u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do Um Anel e a derrota de Sauron. Tolkien usa um a imagem de um olho obscuro que s\u00f3 Frodo consegue ver, quando p\u00f5e o anel e ele e Sam, quando olham no espelho de Galadriel, depois de se verem, horrorizados, o futuro, como ele poderia ser. Tudo dependeria da vontade deles, explica Galadriel.<\/p>\n<p>Na leitura cr\u00edtica de Lewis, revelar a realidade da vida humana \u00e9 um dos principais objetivos de Tolkien em todas as id\u00e9ias apresentadas e evocadas em <em>OSA\u00a0 : <\/em><\/p>\n<blockquote><p>&#8230; uma das principais coisas que o autor deseja dizer \u00e9 que a vida real do homem possui este mesmo car\u00e1ter m\u00edtico e her\u00f3ico. Podemos ver este princ\u00edpio em a\u00e7\u00e3o nos seus personagens. Muito do que em uma obra realista teria sido produzido pelo tra\u00e7ar do \u00b4perfil dos personagens \u00b4 \u00e9 realizado aqui simplesmente personificando o personagem em um elfo, um an\u00e3o ou um hobbit. Os seres imagin\u00e1rios T\u00eam o seu lado interno virado do avesso; eles s\u00e3o almas vis\u00edveis. E o Homem como um todo, o Homem diante do universo, ser\u00e1 que n\u00f3s sequer o vimos antes de ter chegado a v\u00ea-lo como um her\u00f3i em um conto-de-fadas? (Lewis, 1982, 89)<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o por acaso o sentimento de esperan\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m o que disting\u00fce os contos de fada da trag\u00e9dia, como elucida Chance. Eles evocam a associa\u00e7\u00e3o que existe entre o mundo prim\u00e1rio e o mundo secund\u00e1rio, de forma semelhante ao sentimento evocado no mundo crist\u00e3o pela simbologia do para\u00edso (Chance, 2001, 115 ss.).<\/p>\n<p>Mas longe de serem tediosos e enfadonhos como muitos imaginam os contos de fada e \u00e0s vezes o pr\u00f3prio c\u00e9u e suas entidades celestes, os personagens de Tolkien s\u00e3o ricos, humanos e multifacetadas, n\u00e3o deixando margem a qualquer acusa\u00e7\u00e3o de vis\u00e3o parcial ou unilateral ou dogm\u00e1tica do universo. E todos eles t\u00eam importantes li\u00e7\u00f5es de vida a nos oferecer.<\/p>\n<p>A j\u00e1 mencionada elfa Galadriel, por exemplo, \u00e9 uma figura bastante controversa. Por um lado, ela alerta os viajantes da <em>Sociedade do Anel<a href=\"#_ftn9\"><strong>[9]<\/strong><\/a> <\/em>para o perigo, por outro, ela lhes d\u00e1 uma id\u00e9ia do monstro em que poderia vir a se transformar, se viesse a possuir Um Anel e faz Frodo passar por um teste de moral, permitindo que ele olhasse no espelho e visse o olho de Sauron que l\u00ea pensamentos. O que importa \u00e9 o fato de que ela \u00e9 uma das \u00fanicas personagens que resiste \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de possuir Um Anel. \u00c9 em momentos como este que ela prova toda a sabedoria, peculiar \u00e0 sua maneira de pensar:<\/p>\n<blockquote><p>Sei o que voc\u00ea viu por \u00faltimo &#8230;, pois est\u00e1 tamb\u00e9m em minha mente. N\u00e3o tenha medo! Mas n\u00e3o pense que \u00e9 apenas cantando entre as \u00e1rvores, ou s\u00f3 por meio de flechas fr\u00e1geis e arcos \u00e9lficos que n\u00f3s da terra de Lothl\u00f3rien nos defendemos e nos guardamos do Inimigo. Digo a voc\u00ea, Frodo, que neste exato momento em que conversamos eu percebo o Senhor do Escuro e sei o que se passa na mente dele, ou pelo menos tudo que se relaciona aos elfos. E ele sempre se insinua para me ver e ler meus pensamentos. Mas a porta ainda est\u00e1 fechada&#8230;O amor dos elfos por sua terra e seus trabalhos \u00e9 mais profundo que as profundezas do Mar, sua tristeza \u00e9 eterna e nunca poder\u00e1 ser completamente abrandada. Mesmo assim, jogar\u00e3o tudo fora se a outra op\u00e7\u00e3o for a submiss\u00e3o a Sauron: pois agora os elfos o conhecem. Voc\u00ea n\u00e3o deve responder pelo destino de Lothl\u00f3rien, mas apenas pelo desempenho de sua pr\u00f3pria tarefa. Apesar disso, eu poderia desejar que, se isso adiantasse de alguma coisa, o Um Anel nunca tivesse sido forjado, ou que continuasse perdido para sempre. (Tolkien, 380-381).<\/p><\/blockquote>\n<p>Outro bom exemplo da deprava\u00e7\u00e3o mental \u00e9 dado por Boromir, o governante que, de tanto querer prever o futuro na sua pedra m\u00e1gica, que cont\u00e9m o olho de Sauron, acaba enlouquecendo devido \u00e0 sua soberba e sofrimento pela morte do seu filho. Por mais que seus v\u00edcios se manifestassem em sentimentos, a origem dos mesmos \u00e9 a pura falta de controle racional das suas emo\u00e7\u00f5es, como esclarece Chance.<\/p>\n<blockquote><p>A intelig\u00eancia de Denethor, excitada pela soberba e desejo, degenera-se em loucura e de sofrimento pela perda do seu filho&#8230;. O erro de Denethor, portanto, \u00e9 marcado pela percep\u00e7\u00e3o distorcida da verdade, a imagina\u00e7\u00e3o desordenada e incapacidade de amar \u2013 na verdade uma falta daquele amor pr\u00f3prio que permitiria uma fidelidade filial menos ciumenta e dominadora \u2013 pela ambi\u00e7\u00e3o arrogante e cobi\u00e7a e por isso, uma vontade n\u00e3o controlada por nenhum processo racional (Chance, 2001, 108, 111).<\/p><\/blockquote>\n<p>Paradoxalmente, s\u00e3o precisamente as criaturas dotadas de <em>capacidade criativa<\/em>, que s\u00e3o aquelas capazes de serem verdadeiramente <em>livres. <\/em>E com isso elas tamb\u00e9m t\u00eam a possibilidade de cometer o <em>mal<\/em>. Como j\u00e1 coment\u00e1vamos na an\u00e1lise do pensamento de Ricoeur, somente uma pessoa verdadeiramente livre pode cometer ou livrar-se do mal.<\/p>\n<p>Neste sentido, n\u00e3o \u00e9 para menos que essa elfa \u00e9 t\u00e3o venerada entre os hobbits, j\u00e1 que ela foi capaz de algo quase in\u00e9dito: resistir aos poderes sedutores do anel. Por este trecho podemos ver, que o controle de pensamentos \u00e9 uma das principais estrat\u00e9gias do maligno para infligir e difundir o mal e a destrui\u00e7\u00e3o. Notamos ainda os conflitos morais pelos quais t\u00eam que passar muitos personagens, e que s\u00e3o inexistentes nas vis\u00f5es de mundo manique\u00edstas, onde o bem e o mal s\u00e3o bem determinados desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante a ser notado aqui \u00e9 que, ao inv\u00e9s da for\u00e7a bruta, o que os elfos usam contra o mal s\u00e3o pensamentos bons e saud\u00e1veis, a arte, a solidariedade, a ren\u00fancia e o sacrif\u00edcio, ou seja, todos os pensamentos virtuosos e propriamente humanos ou at\u00e9 <em>sobre-humanos<\/em>, tais como os da f\u00e9, da esperan\u00e7a e do amor.<\/p>\n<blockquote><p>Esta concep\u00e7\u00e3o do mal, como busca excessiva do bem e abuso auto-destrutivo do livre-arb\u00edtrio coincide perfeitamente com o pensamentos de Ricoeur acima explicitado. E ela concorda at\u00e9 com a id\u00e9ia Bartheana de que o mal, de alguma forma, permanece latente no pensamento e no cora\u00e7\u00e3o da humanidade, mesmo depois de derrotado na cruz por Cristo, enquanto ele decidir por n\u00e3o voltar para resgatar o homem e com ele toda a cria\u00e7\u00e3o. Da\u00ed que o ap\u00f3stolo Paulo nos convidasse a nos transformarmos pela \u201crenova\u00e7\u00e3o da nossa mente\u201d (Rm 12:1-2).<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta concep\u00e7\u00e3o fica particularmente evidente no pen\u00faltimo cap\u00edtulo da hist\u00f3ria \u201c O expurgo do Condado\u201d. Entretanto, o que est\u00e1 por tr\u00e1s deste cap\u00edtulo \u00e9 certamente muito mais a id\u00e9ia de <em>participa\u00e7\u00e3o<\/em>, do que de alguma conting\u00eancia da divindade, id\u00e9ia esta que tamb\u00e9m fica muito clara nas obras de fic\u00e7\u00e3o de Lewis.<\/p>\n<p>E a verdadeira <em>guerra <\/em>de pensamentos bons e maus, pela qual Frodo, mais do que ningu\u00e9m, se v\u00ea obrigado a passar, acaba com um final feliz providencial, quase milagroso, que j\u00e1 vinha dando rumo e sentido a toda a hist\u00f3ria, mesmo naqueles momentos, aparentemente mais desesperadores, muito \u00e0 semelhan\u00e7a do que acontece nos contos-de fada. Os personagens s\u00e3o assim convidados a participar da dor e sofrimento que h\u00e1 no mundo, assumindo a sua <em>cruz<\/em>.<\/p>\n<p>Neste sentido, outro aspecto interessante em todos os personagens que cultivam maus pensamentos \u00e9 que eles acabam sendo os que mais sofrem debaixo do jugo da sua pr\u00f3pria maldade. O que j\u00e1 nos remete ao pr\u00f3ximo item.<\/p>\n<p><strong>3. O mal em sentimentos<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Da mesma forma, como no caso dos pensamentos, podemos citar in\u00fameros sentimentos bons e maus, que os personagens manifestam ao longo da hist\u00f3ria. E a maioria destes sentimentos acaba tendo uma influ\u00eancia direta sobre as decis\u00f5es e atitudes assumidas pelos personagens. Com isso, Tolkien n\u00e3o prova somente a sua enorme sensibilidade, mas tamb\u00e9m um impressionante conhecimento da natureza humana.<\/p>\n<p>Os sentimentos expressos com maior freq\u00fc\u00eancia s\u00e3o o desejo pelo poder e sentimentos, movidos pela gan\u00e2ncia, ego\u00edsmo e inveja, que est\u00e3o todos igualmente ligados ao <em>desejo de poder<\/em> e \u00e0 <em>sedu\u00e7\u00e3o<\/em>. De certa forma, toda a maldade em Terra M\u00e9dia, embora originada em pensamentos, acaba sendo movida por um forte desejo de poder. E o desejo pelo poder est\u00e1, por sua vez muito ligado ao desejo de <em>posse<\/em>, outro tema central em <em>OSA <\/em>, j\u00e1 que toda a trama gira em torno da posse do Anel. E o melhor exemplo disso est\u00e1 novamente representado na figura de Gollum e sua busca insaci\u00e1vel e at\u00e9 man\u00edaco depressiva pelo objeto do seu desejo. O descontrole dos desejos est\u00e1 associado em Tolkien, da mesma forma como em Lewis, aos excessos de dualismo, bem como de todos os <em>ismos<\/em>; que se manifestam no uso descontrolado da tecnologia, particularmente da engenharia gen\u00e9tica ensaiada tanto por Morgoth, quanto por Sauron e Saruman, e na excessiva mecaniza\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>Em <em>LFG<\/em>, Edmundo n\u00e3o consegue se saciar com o t\u00e3o desejado e enfeiti\u00e7ado <em>Manjar Turco <\/em>e at\u00e9 passa mal em decorr\u00eancia do excesso de ingest\u00e3o do mesmo. Em sua triologia espacial (<em>Longe do Planeta Silencioso<\/em>, <em>Perelandra <\/em>e <em>That Hideous Strength da Space Triology) <\/em>a engenharia gen\u00e9tica e a mecaniza\u00e7\u00e3o do homem s\u00e3o as maiores causas que levam o mundo ao apocalipse final. N\u00e3o que Lewis ou Tolkien fossem contr\u00e1rios \u00e0 ci\u00eancia e tecnologia, mas somente aos abusos dela, em nome do poder e da posse.<\/p>\n<p>De acordo com Duriez<a href=\"#_ftn10\">[10]<\/a>, o desejo descontrolado de poder e posse sempre encontra em Tolkien um contraponto, por meio de personagens que se mostram bons despenseiros, bons administradores (steward), dotados da virtude da parcim\u00f4nia e do dom do servi\u00e7o. \u00c9 esta atitude que d\u00e1 a Tom Bombadil, por exemplo, o poder de resist\u00eancia contra os poderes sedutores do Anel.<\/p>\n<p>E o exemplo negativo que temos de maus sentimentos \u00e9 dado por Boromir. Era um eminente administrador p\u00fablico de Gondor, filho de Denethor e irm\u00e3o do s\u00e1bio Faramir. Embora tivesse sido escolhido para fazer parte da Sociedade do Anel, gra\u00e7as \u00e0 busca que ele e seu irm\u00e3o empreenderam atr\u00e1s do significado de um sonho, infelizmente ele herdou o grave defeito do seu pai: o orgulho. Da\u00ed que ele n\u00e3o conseguisse conformar-se com a id\u00e9ia de ter sido Frodo, e n\u00e3o ele, o encarregado da miss\u00e3o de destruir o Um Anel e ser o seu portador. Na sua concep\u00e7\u00e3o, o poder do anel devia ser aproveitado para destruir Sauron. Acontece que o anel provoca nele um desejo cego de posse, que o leva a ponto de tentar matar Frodo. Mas o fato acaba sendo at\u00e9 providencial, uma vez que isso leva Frodo a fugir do alojamento levantado pela Sociedade do Anel, minutos antes de um ataque de orcs. Arrependido, Boromir sacrifica-se para salvar a vida de Pippin e Merry, o que lhe restitui um pouco a imagem.<\/p>\n<p>J\u00e1 o pr\u00f3prio Denethor, pai de Boromir \u00e9 um exemplo ainda pior de sentimentos excessivos de orgulho e amor, particularmente por Boromir, que o faz chegar a ponto de querer sacrificar o seu outro filho, Faramir e cometer suic\u00eddio para n\u00e3o ter que se humilhar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do sentimento de inveja, da trai\u00e7\u00e3o, do engano e do desejo de posse, podemos citar outros sentimentos freq\u00fcentes, como o medo e inseguran\u00e7a que Frodo manifestava diante do perigo e que sempre eram afastados pelo seu fiel amigo Sam, e o \u00f3dio manifestado por Saruman, ao confrontar-se com o s\u00e1bio Gandalf.<\/p>\n<p>Interessante notar ainda a observa\u00e7\u00e3o de Gandalf quanto \u00e0 natureza mentirosa e nada original da maldade de Saruman, que procura infringir o medo nos outros:<\/p>\n<blockquote><p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Perigoso! \u2013 exclamou Gandalf. \u2013 Eu tamb\u00e9m sou, muito perigoso: mais perigoso que qualquer outro ser que jamais encontrar\u00e3o, a n\u00e3o ser que sejam levados vivos diante do trono do Senhor do Escuro. E Aragorn \u00e9 perigoso, e Legolas \u00e9 perigoso. Voc\u00ea est\u00e1 rodeado de perigos, Gimli, filho de Gl\u00f3in; pois voc\u00ea mesmo \u00e9 perigoso, \u00e0 sua maneira. Certamente a floresta de Fangorn \u00e9 perigosa \u2013 n\u00e3o menos perigosa para aqueles que s\u00e3o r\u00e1pidos demais com seus machados; e o pr\u00f3prio Fangorn, ele tamb\u00e9m \u00e9 perigoso, no entanto \u00e9 gentil e s\u00e1bio&#8230;(Tolkien, 522).<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta mesma atitude mentirosa \u00e9 denunciada na discuss\u00e3o travada entre L\u00edngua de Cobra e Gandalf, quando fica claro que o primeiro estava a servi\u00e7o de Saruman.<\/p>\n<blockquote><p>&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ele \u00e9 bravo e astuto. Agora mesmo est\u00e1 fazendo um jogo com o perigo e ganhou uma jogada&#8230;.Veja Th\u00e9oden, aqui est\u00e1 uma cobra! N\u00e3o pode lev\u00e1-la consigo em seguran\u00e7a, nem deix\u00e1-la para tr\u00e1s. Mat\u00e1-la seria justo. Mas essa criatura n\u00e3o foi sempre com \u00e9 agora. J\u00e1 foi um homem, e o serviu \u00e0 sua maneira.<a href=\"#_ftn11\">[11]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Como se pode ver por estes exemplos, a chave para se entender o abismo que distingue o bem do mal em <em>OSA <\/em>n\u00e3o est\u00e1 no perigo que o mal representa, mas na falta de gosto e na falta de <em>autenticidade <\/em>e<em> criatividade<\/em> dos seus sentimentos e atitudes. Como mencion\u00e1vamos alhurdes, o mal \u00e9 incapaz de criar a partir do nada, s\u00f3 o bem \u00e9 criador, portanto, todo mal prescinde de algum bem. Pelo menos \u00e9 isso que Frodo sugere na sua observa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles escravos horripilantes de Saruman, chamados orcs, e que lhe causam tanto asco e pena. Da mesma forma que as imagens do mal em Tolkien, Lewis tamb\u00e9m cria diversas imagens do mal em suas <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em>. Na perspectiva de King, por exemplo, da mesma forma como Tolkien, Lewis tamb\u00e9m d\u00e1 conta de concretizar o mal na pr\u00f3pria geografia do seu mundo, que nos imprime um sentimento de vazio e de completa falta de sentimento humano:<\/p>\n<blockquote><p>As paisagens congeladas e c\u00f3rregos silenciosos que v\u00e3o surgindo pelo caminho s\u00e3o s\u00edmbolos apropriados do efeito que a raiva pode ter; isso nos lembra uma frieza nos relacionamentos e na vida que penetra profundamente, congelando \u00e0s ra\u00edzes o a intera\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria da vontade entre os homens. Toda a mesquinharia do \u00f3dio, a demanda que todo o outro deve concordar e consentir em respeitar o modo de ser de cada um s\u00e3o a um tempo c\u00f4micos e tr\u00e1gicos; c\u00f4mico, no sentido de que todos aqueles que observam de fora podem facilmente observar a postura rid\u00edcula que a pessoa irritada assume; e tr\u00e1gico que aqueles mesmos povos podem fazer muito pouco para amenizar os sentimentos passionais e violentos que este pecado evoca.C. S. Lewis quis mostrar precisamente isto em suas Cr\u00f4nicas de Narnia. Ele fez exame dos sete pecados capitais em Narnia, mostrando seu poder destruidor, e nos apresenta exemplos de comportamentos que devemos evitar. Embora cada livro destaque um pecado particular e ilustre seu efeito espec\u00edfico nos personagens, a mensagem em cada caso \u00e9 a mesma: o ardil do pecado leva \u00e0 morte. (King, publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica).<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora consider\u00e1ssemos a interpreta\u00e7\u00e3o que o autor d\u00e1 \u00e0s Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia um tanto reducionistas, acreditamos que este aspecto vem por conta de uma moral que transcende tudo isso e est\u00e1 representada pela morte de Aslan, derrota da feiticeira e cura dos feridos em <em>LFG <\/em>e que, como em <em>OSA <\/em>, \u00e9 de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Pelo fato de ter personificado o mal em mulheres, alguns cr\u00edticos acusam Lewis de machismo. Contudo \u00e9 preciso considerar que a bruxa ser mulher n\u00e3o \u00e9 surpreendente para um conto de fadas. Al\u00e9m disso, em <em>A \u00daltima Batalha<\/em>, Lewis usa outro tipo de imagem bastante masculina do mal. Sem falar que L\u00facia \u00e9 tamb\u00e9m uma das suas personagens prediletas, e a mais virtuosa de todas.<\/p>\n<p>Na verdade Lewis est\u00e1 querendo aludir ao cl\u00e1ssico dilema de que o mal, freq\u00fcentemente se veste de bem para seduzir o homem pela via da emo\u00e7\u00e3o e do senso est\u00e9tico. Como Juli\u00e1n Mar\u00edas t\u00e3o bem o formula, a mulher at\u00e9 parece que foi criada para ser admirada e para provocar emo\u00e7\u00e3o e encantamento. Ela provoca <em>mirandum<\/em>, ou seja, aquele desejo mais profundo do homem, de se ver completado e liberto da solid\u00e3o. Entretanto, quando ela esquece de si mesma, e de que foi criada para compartilhar e n\u00e3o, para girar em torno de si mesma, a mulher pode vir a se tornar uma criatura monstruosa:<\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1 tamb\u00e9m um momento delicad\u00edssimo, muito perigoso, em que a mulher n\u00e3o quer ser desej\u00e1vel. Pode parecer estranho, mas se analisarmos com um pouco de aten\u00e7\u00e3o veremos que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o raro&#8230; Ent\u00e3o, evidentemente, cessa esta aten\u00e7\u00e3o de que eu falava antes, este campo magn\u00e9tico da conviv\u00eancia, que \u00e9 justamente a raiz fundamental mais constante, mais permanente e mais abrangente do lirismo e se produz uma atitude, de certo modo, de prosaismo. (MARIAS, publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica).<\/p><\/blockquote>\n<p>A quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre o belo e o bem \u00e9 outro problema cl\u00e1ssico da filosofia, e que foi corajosamente abordado por Spoviero. De acordo com este autor, embora o belo sempre apelasse mais para o sentimento, do que para a raz\u00e3o e por mais que, portanto, o belo se distinguisse do bem, em circunst\u00e2ncias normais, estes dois aspectos acabam convergindo no plano transcendental:<\/p>\n<blockquote><p>Ora, o belo distingue-se do bem e do verdadeiro por referir-se fundamentalmente ao sentimento, enquanto o bem aponta para a vontade e o verdadeiro para o intelecto. Na tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ocidental confere-se espiritualidade (isto \u00e9, abertura para a totalidade do real) \u00e0s pot\u00eancias da intelig\u00eancia e da vontade. E o sentimento? Ter\u00e1 ele tamb\u00e9m um valor t\u00e3o universal? Acaso ser\u00e1 a beleza t\u00e3o somente subjetiva?&#8230;. Em S. Tom\u00e1s, (I,5,4 ad 1), reequilibra-se o equacionamento do tema: o belo refere-se \u00e0 faculdade cognoscitiva; o bem, ao apetite. Em certo sentido, o belo \u00e9 um tipo especial de bem ao mesmo tempo que \u00e9 um tipo especial de conhecimento. \u00c9 resplendor da verdade que convoca tamb\u00e9m o amor da vontade; \u00e9 resplendor do bem que se imp\u00f5e como verdade ao intelecto&#8230; O falso, o mal, o feio convergem, mas como est\u00e3o inviscerados no verdadeiro, no bem e no belo, necessitam e alimentam-se destes e procuram fazer-se passar por estes: \u00e9 o cerne da sedu\u00e7\u00e3o: o v\u00edcio e o feio art\u00edstico belamente representados. Assim a morte mostra-se bela e o homem ama a morte. (Spoviero).<\/p><\/blockquote>\n<p>Semelhantemente tamb\u00e9m na narrativa liter\u00e1ria e particularmente na fic\u00e7\u00e3o, esta rela\u00e7\u00e3o entre \u00e9tica e est\u00e9tica fica muito clara. Como Ricoeur mesmo o expressa, a fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o p\u00f5e em jogo a \u00e9tica em nome da est\u00e9tica<\/p>\n<blockquote><p>Seria equivocar-se quanto \u00e0 pr\u00f3pria est\u00e9tica. O prazer que temos em seguir o destino dos personagens implica certamente que n\u00f3s suspendamos todo o julgamento moral real, ao mesmo tempo que pomos em suspenso a a\u00e7\u00e3o efetiva. Mas, no recinto irreal da fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixamos de explorar novas maneiras de avaliar a\u00e7\u00f5es e personagens. As experi\u00eancias de pensamento que conduzimos no grande laborat\u00f3rio do imagin\u00e1rio s\u00e3o tamb\u00e9m explora\u00e7\u00f5es levadas ao reino do bem e do mal. Supervalorizar, e mesmo desvalorizar, \u00e9 ainda avaliar. O julgamento moral n\u00e3o \u00e9 abolido, ele \u00e9, antes, ele mesmo submetido \u00e0s varia\u00e7\u00f5es imaginativas pr\u00f3prias da fic\u00e7\u00e3o. (Ricoeur, 1991, 194).<\/p><\/blockquote>\n<p>Assim, ao contr\u00e1rio do que querem os subjetivistas, o que o bem e o belo t\u00eam em comum \u00e9 esta <em>coincid\u00eancia<\/em> com a realidade, quando tudo anda bem, o que n\u00e3o quer dizer que ocasionalmente o mal n\u00e3o possa se trasvestir de belo. Da\u00ed que tanto Lewis, quanto Tolkien procurassem sempre desmascarar esta falsa beleza, <em>concretizando <\/em>ao m\u00e1ximo a realidade, e evidenciando o aspecto sedutor do mal, t\u00e3o bem representado pela figura da <em>Feiticeira Branca<\/em>. Como se diz na sabedoria popular, quando se \u00e9 exposto \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso manter a \u201ccabe\u00e7a fria\u201d, ou \u201ccair na real\u201d.<\/p>\n<p>Exemplar neste sentido \u00e9 a atitude do ser pantanoso de<em> A Cadeira de Prata<\/em>, das <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em>, quando ele se v\u00ea diante da feiticeira e o seu discurso de que na realidade n\u00e3o h\u00e1 mundo algum fora da caverna, mas somente ilus\u00f5es. Assim ele coloca literalmente a sua m\u00e3o no fogo para n\u00e3o cair nas palavras enganosas dela. Portanto, para n\u00e3o se deixar seduzir \u00e9 preciso manter uma vis\u00e3o <em>objetiva<\/em> com rela\u00e7\u00e3o ao mal, em toda a sua fei\u00fara e viol\u00eancia, que fica t\u00e3o evidente em <em>OSA <\/em>. Mas \u00e9 principalmente na <em>a\u00e7\u00e3o <\/em>que a debilidade do mal mais se manifesta, plano ao qual estaremos nos dedicando a seguir.<\/p>\n<p><strong>4. A maldade em a\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Como j\u00e1 foi mencionado anteriormente, sempre que o mal entra em a\u00e7\u00e3o em <em>OSA <\/em>, ele se manifesta de modo violento e esteticamente feio. Ele \u00e9 sempre destrutivo e vicioso. As estrat\u00e9gias adotadas por Sauron, por exemplo, para apossar-se do anel s\u00e3o sempre intrincadas e forjadas. E no final h\u00e1 sempre uma invers\u00e3o inesperada dos planos do mal, que acabam, por um \u201cacaso\u201d servindo ao bem.<\/p>\n<p>Neste sentido \u00e9 interessante observar o fato de Saruman trancar-se em uma fortaleza, fortemente vigiada, da qual ele manda arrancar toda e qualquer \u00e1rvore e encher os buracos de cimento. Note-se ainda que h\u00e1 v\u00e1rias camadas de paredes internas em torno da fortifica\u00e7\u00e3o. Com isso Tolkien evoca aquele conceito cl\u00e1ssico, presente tanto em Dante (<em>Divina Com\u00e9dia<\/em>), quanto em Milton (<em>Paradise Lost<\/em>), de que o mal, \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise algo que prende o homem e o escraviza por dentro. Isto \u00e9, o mal imobiliza o homem, impedindo-o de cumprir o seu papel e partir para a\u00e7\u00f5es \u00e9ticas.<\/p>\n<p>Seria interessante, neste sentido, tra\u00e7ar um paralelo entre<em> OSA <\/em>e o <em>Cartas de um Diabo a seu aprendiz<\/em> e <em>That Hideous Strength de C.S. Lewis<\/em>. No primeiro, ficamos conhecendo a estrat\u00e9gia do diabo, vista pela perspectiva enganosa do mal. Trata-se de uma invers\u00e3o total dos comportamentos que poder\u00edamos considerar \u201cl\u00f3gicos e razo\u00e1veis\u201d ou sadios. Em <em>Cartas de um Diabo a seu aprendiz,<\/em> o diabo trata a Deus como o \u201cInimigo\u201d, enquanto o homem \u00e9 o \u201cpaciente\u201d que importa aos dem\u00f4nios conduzir ao mau caminho, garantindo a sua dana\u00e7\u00e3o. Para isso ele usa das estrat\u00e9gias mais nefastas, como por exemplo, a de desviar a aten\u00e7\u00e3o do paciente das coisas mais importantes na vida, fazendo-o ocupar-se e preocupar-se com futilidades. A estrat\u00e9gia diab\u00f3lica envolve ainda toda uma <em>intelig\u00eancia<\/em> maligna que garante o fluxo constante e ininterrupto de informa\u00e7\u00f5es para o \u201ccampo de batalha\u201d. Tamb\u00e9m os relacionamentos s\u00e3o um campo fortemente vigiado e controlado. E, da mesma forma como em Tolkien, o mal acaba sendo vencido quase que \u201cpor acaso\u201d, caindo freq\u00fcentemente no rid\u00edculo:<\/p>\n<blockquote><p>Screwtape tamb\u00e9m entra em contato com outros dem\u00f4nios encarregados de tentar os amigos, conhecidos e parentes do seu paciente. Wormwood v\u00ea particularmente grandes possibilidades na pessoa da m\u00e3e do jovem, que \u00e9 muito dif\u00edcil de lidar. Entretanto o jovem consegue evitar a press\u00e3o do c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo de amizades com sucesso (\u2026) O \u00fanico consolo que resta a Screwtape encontra-se em devorar o seu sobrinho incompetente. (Duriez, 1990, 182)<\/p><\/blockquote>\n<p>J\u00e1 no pref\u00e1cio de <em>That Hideous Strength<\/em>, o volume final de sua triologia espacial (<em>Space Triology<\/em>), Lewis mesmo admite que a queda daquele mundo foi inspirada na queda do mundo de Tolkien. O mal \u00e9 representado por uma associa\u00e7\u00e3o de cientistas e tecnocratas totalit\u00e1rios que querem dominar o mundo. Depois de derrotado por uma \u201cinvas\u00e3o\u201d do reino dos c\u00e9us na Terra, ela \u00e9 restaurada. Com isso Lewis defende a mesma id\u00e9ia de Tolkien de que o bem transcende o mal e de que o bem sobrenatural \u00e9 capaz de interferir no cotidiano mais \u201ctrivial\u201d e humano do mundo. Da mesma forma como Tolkien, Lewis tamb\u00e9m defende a exist\u00eancia objetiva do bem e do mal (defendida tamb\u00e9m em outras obras do autor, tais como <em>The Abolition of Men<\/em>), e que o mal \u00e9 sempre destruidor da natureza criada e principalmente, de que ele \u00e9 auto-destrutivo. Outro ponto comum j\u00e1 mencionado anteriormente \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o de seres humanos na hist\u00f3ria da reden\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos citar in\u00fameras m\u00e1s a\u00e7\u00f5es em <em>OSA <\/em> e seus contrapontos bons. Mas tememos com isso p\u00f4r a perder todo gosto da bem articulada trama, que \u00e9 toda de <em>a\u00e7\u00e3o<\/em>. Al\u00e9m do que imaginamos que ter alcan\u00e7ado suficientemente os nossos objetivos para podermos tra\u00e7ar as nossas considera\u00e7\u00f5es finais.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O que se pode concluir ap\u00f3s essa an\u00e1lise de <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em>, a partir dos tr\u00eas planos de Ricoeur, \u00e9 que o mal tem diferentes formas de manifesta\u00e7\u00e3o no mundo: por meio dos sentimentos, dos pensamentos e da a\u00e7\u00e3o. Essa divis\u00e3o \u201cdid\u00e1tica\u201d, que une os dois autores, ajuda-nos a entender a real e aparente contradi\u00e7\u00e3o entre o mal, seja na forma de inten\u00e7\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es ou viol\u00eancia, e a exist\u00eancia de Deus e, portanto, de uma bondade que transcende tudo isso.<\/p>\n<p>Tolkien provavelmente concordava com a concep\u00e7\u00e3o de Lewis em <em>O Problema do Sofrimento,<\/em> de que o mal \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia da queda, mas \u00e9, ao mesmo tempo, um \u201clembrete\u201d de Deus, um verdadeiro \u201cmegafone\u201d que nos lembra de sermos menos presun\u00e7osos e intelectualmente independentes e nos abrirmos mais ao transcendente e numinoso. Lewis costumava dizer que Deus <em>sussurra<\/em> por meio dos nossos <em>prazeres<\/em>, <em>fala <\/em>pelo nosso <em>intelecto <\/em>e <em>grita<\/em>, por meio do <em>sofrimento, <\/em>como destaca Duriez:<\/p>\n<blockquote><p>ele dizia que n\u00e3o tinha nada a oferecer a seu leitor, a n\u00e3o ser a sua convic\u00e7\u00e3o de que sempre que temos que carregar alguma dor, um pouco de coragem ajuda mais, do que muita coragem, e a menor pincelada do amor de Deus, mais do que tudo&#8230; Pois em um livro t\u00e3o pouco volumoso Lewis foi longe e fundo na discuss\u00e3o sobre o controle que Deus tem sobre todo e qualquer evento humano, inclusive o sofrimento, a bondade de Deus, a debilidade humana, a queda da humanidade, a do homem, o inferno, o sofrimento dos animais, e o c\u00e9u (Duriez, 167).<\/p><\/blockquote>\n<p>Em outras palavras, a concep\u00e7\u00e3o de mal em <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em>, parte de uma vis\u00e3o de mundo bastante semelhante \u00e0 de Ricoeur e que convida \u00e0 transcend\u00eancia. Sua concep\u00e7\u00e3o de <em>sub-criador<\/em> (<em>imago Dei<\/em>), transcende a concep\u00e7\u00e3o de natureza e por isso tamb\u00e9m a nossa capacidade intelectiva. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a B\u00edblia insiste tanto na <em>pr\u00e1tica<\/em> do bem, muito antes do que na especula\u00e7\u00e3o sobre ela. E o dilema gerado pelo mal e pelo sofrimento, visto por essa perspectiva supranaturalista, apesar de ser em \u00faltima inst\u00e2ncia incompreens\u00edvel, pode muito bem ser apreendido atrav\u00e9s da narrativa imaginativa.<\/p>\n<p>Esperamos ter contribu\u00eddo, a partir dessas reflex\u00f5es, para o reconhecimento do quanto a literatura, particularmente a hermen\u00eautica, t\u00eam a oferecer para o levantamento e esclarecimento dos maiores impasses que afligem toda a humanidade e, n\u00e3o por acaso tamb\u00e9m s\u00e3o grandes quest\u00f5es da filosofia e da teologia, atrav\u00e9s da imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 essa descoberta que parece unir dois pensadores aparentemente t\u00e3o distantes, quanto Tolkien e Ricouer e tantos outros autores aparentemente pouco relacionados como esses.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>BEAGLE, Peter S. \u201cTolkien\u00b4s Magic Ring\u201d, em J:R.R. Tolkien, <em>The Tolkien Reader<\/em>, New York: Ballantine, 1966.<\/p>\n<p>CHANCE, Jane <em>Tolkien\u00b4s Art<\/em>, Kentucky: The University Press of Kentucky, 2001.<\/p>\n<p>____, <em>Lord of the Rings<\/em>, Kentucky: The University Press of Kentucky, 2001.<\/p>\n<p>CHESTERTON, G. K.<em>Os Paradoxos do Cristianismo<\/em>, trad. Henrique Elfes, 2a. ed., S\u00e3o Paulo: Quadrante, 1993. (Col. Temas Crist\u00e3os)<\/p>\n<p>CNN, \u201cThe secret of Tolkien&#8217;s &#8216;Rings&#8217; Much loved series for a half-century\u201d publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, dispon\u00edvel, <a href=\"http:\/\/www.cnn.com\/2001\/SHOWBIZ\/books\/12\/17\/rings.tolkien\/\">http:\/\/www.cnn.com\/2001\/SHOWBIZ\/books\/12\/17\/rings.tolkien\/<\/a>, publicado em 18\/12\/2001.<\/p>\n<p>DURIEZ, Colin, <em>The J.R.R. Tolkien Handbook<\/em>, Grand Rapids (MI); Baker Book, 1992.<\/p>\n<p>____, Colin, <em>The C.S. Lewis Handbook<\/em>, Grand Rapids (MI); Baker Book, 1990.<\/p>\n<p>FERREIRA DA SILVA, Maria Lu\u00edsa Portocarrero, <em>A Hermen\u00eautica do Conflito em Paul Ricoeur<\/em>, Coimbra: Livraria Minerve, 1992. (Cole\u00e7\u00e3o Mai\u00eautica 3)<\/p>\n<p>FOSTER, Robert, <em>Tolkien\u00b4s World from A to Z<\/em>, Nova Iorque: Ballantine Books, 2001.<\/p>\n<p>GREGGERSEN, Gabriele,<em> Antropologia Filos\u00f3fica de C.S. Lewis<\/em>, S\u00e3o Paulo: Editora Mackenzie, 2001.<\/p>\n<p>___, <em>O Senhor dos An\u00e9is: da fantasia \u00e0 \u00e9tica<\/em>, Vi\u00e7osa (MG): Editora Ultimato, 2003.<\/p>\n<p>JACOBSEN, Leif \u201cThe Undefinable Shadowland\u201d publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.skalman.nu\/tolkien\/shadowland.htm\">http:\/\/www.skalman.nu\/tolkien\/shadowland.htm<\/a>, capturado em 05\/03\/2002.<\/p>\n<p>KING, Don W. \u201cNarnia and the Seven Deadly Sins\u201d dispon\u00edvel em http:\/\/cslewis.drzeus.net\/, capturado em 7\/2\/2002.<\/p>\n<p>KREEFT, Peter, <em>Buscar Sentido no Sofrimento, <\/em>trad. Alexandre Patriarca, S\u00e3o Paulo: Lyola, 1995.<\/p>\n<p>LAUAND, L. J. <em>Verdade e Conhecimento<\/em>, S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1999.<\/p>\n<p>LEWIS, C.S. \u201cTolkien\u00b4s <em>The Lord of Rings<\/em>\u201d em <em>On Stories<\/em>, New York: Harvest, 1982.<\/p>\n<p><em>____, O Problema do Sofrimento<\/em>, trad. Neyd Siqueira, S\u00e3o Paulo: Mundo Crist\u00e3o, 1983.<\/p>\n<p>____, <em>Cartas de um Diabo a seu Aprendiz<\/em>, trad. Mateus S. S. Azevedo, Petr\u00f3polis: Vozes, 1996.<\/p>\n<p>____, <em>Space Triology<\/em>, New York: Macmillan, 1986.<\/p>\n<p>____, <em>O Le\u00e3o, a Feiticeira e o Guarda-Roupa<\/em>, trad. Paulo Mendes Campos, S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1997. (<em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em>)<\/p>\n<p>____,<em>A Cadeira de Prata,<\/em> S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1997. (<em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em>)<\/p>\n<p>____, <em>The Abolition of Men<\/em>, New York: Mac Millan, 1955.<\/p>\n<p>MAR\u00cdAS; Julian \u201cA Mulher\u201d, publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.hottopos.com\/mp2\/mariasmulher.htm\">http:\/\/www.hottopos.com\/mp2\/mariasmulher.htm<\/a>, capturado em 7\/2\/2002.<\/p>\n<p>___, \u201cLiberdade e Responsabilidade\u201d, dispon\u00edvel em\u00a0 <a href=\"http:\/\/www.hottopos.com\/harvard2\/liberdade_e_responsabilidade.htm\">http:\/\/www.hottopos.com\/harvard2\/liberdade_e_responsabilidade.htm<\/a>, atualizado em 22\/04\/1998.<\/p>\n<p>RICOEUR, Paul, <em>O mal: um desafio \u00e0 filosofia e \u00e0 teologia<\/em>, trad. Maria da Piedade E de Almeida, Campinas: Papirus, 1988.<\/p>\n<p>____, <em>Teoria da Interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>, intr. e coment. Isabel Gomes, trad. Artur Mor\u00e3o, Porto: Porto Editora, 1995.<\/p>\n<p>____, \u201cA Simb\u00f3lica do Mal Interpretada\u201d, em <em>O Conflito das Interpreta\u00e7\u00f5es<\/em>, trad. Hilto Japiassu, Rio de Janeiro: Imago, 1978.<\/p>\n<p>___, <em>O Si-Mesmo como Um Outro<\/em>, trad.Lucy Moreira C\u00e9sar, Campinas (SP): Papirus,\u00a0 1991.<\/p>\n<p>SELAND, John, \u201cGollum and the Mystery of Evil\u201d, publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, dispon\u00edvel em<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.tayloru.edu\/upland\/programs\/lewis\/articles\/seland.html\">http:\/\/www.tayloru.edu:80\/upland\/programs\/lewis\/articles\/seland.html<\/a>, capturado em 7\/2\/2002.<\/p>\n<p>SPROVIERO, M\u00e1rio Bruno, \u201cOs Transcendentais e sua Nega\u00e7\u00e3o &#8211; O Belo e o Bom\/O Mal e o Feio\u201d publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.hottopos.com\/collatio\/os_transcendentais_e_sua_negacao.htm\">http:\/\/www.hottopos.com\/collatio\/os_transcendentais_e_sua_negacao.htm<\/a>, capturado em 7\/2\/2002.<\/p>\n<p>TOLKIEN, J.R.R. <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em>, trad. Lenita M.R. Esteves e Almiro Pisetta S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001.<\/p>\n<hr size=\"1\" \/>* <a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Docente do curso de gradua\u00e7\u00e3o em filosofia, do programa de mestrado em teologia e de ci\u00eancias da religi\u00e3o da Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutora em Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o pela Universidade de S\u00e3o Paulo e autora do livro <em>Antropologia Filos\u00f3fica de C.S. Lewis<\/em>, S\u00e3o Paulo: Editora Mackenzie, 2001.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> A an\u00e1lise aqui pretendida limita-se ao livro e n\u00e3o pretende explorar as cenas do filme. Para maiores informa\u00e7\u00f5es a respeito do filme e do autor, recomendamos consulta ao site da funda\u00e7\u00e3o dedicada ao autor\u00a0 dispon\u00edvel http:\/\/www.tolkiensociety.org\/.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Para maiores informa\u00e7\u00f5es sobre o autor, veja tributo do\u00a0 Dr. Russel Shedd em <a href=\"http:\/\/www.ibam.com.br\/Cultura\/CSLewis\/cslewis.htm\">http:\/\/www.ibam.com.br\/Cultura\/CSLewis\/cslewis.htm<\/a> e lista de sites internacionais dedicados ao autor.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a>Dedicamos nossa tese de doutorado a essa, que foi a primeira das sete <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em> do autor (Martins Fontes), que foi publicada como <em>Antropologia Filos\u00f3fica de C.S. Lewis <\/em>(editora Mackenzie), e que est\u00e1 atualmente sendo filmado para os cinemas pelo editor de Shrek e ser\u00e1 distribu\u00eddo pela Disney a partir de 2005. Quanto ao relacionamento entre as duas obras e autores, publicamos outro livro recentemente, intitulado: <em>O Senhor dos An\u00e9is: da fantasia \u00e0 \u00e9tica <\/em>(Editora Ultimato).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a>Ver quanto ao assunto artigo muito importante de Juli\u00e1n Mar\u00edas, um dos maiores fil\u00f3sofos crist\u00e3os da atualidade em \u201cLiberdade e Responsabilidade\u201d, dispon\u00edvel em\u00a0 <a href=\"http:\/\/www.hottopos.com\/harvard2\/liberdade_e_responsabilidade.htm\">http:\/\/www.hottopos.com\/harvard2\/liberdade_e_responsabilidade.htm<\/a>, atualizado em 22\/04\/1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a>Cf.. B\u00edblia Sagrada, Evangelho de Mateis 16:25.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> A palavra \u201c Inklings\u201d com a qual o grupo foi batizado quer dizer \u201cborr\u00e3o\u201d de tinta ou \u201cno\u00e7\u00e3o vaga\u201d, no seintido de \u201cinsight\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\">[8]<\/a> Os autores ditos \u201csint\u00e9ticos\u201dcomo Plat\u00e3o, Arist\u00f3teles, Agostinho, Tom\u00e1s de Aquino entre outros, destacam-se da sua \u00e9poca por essa caracter\u00edstica de estar sempre em busca do meio termo entre extremos, da\u00ed serem chamados de \u201cparadoxais\u201d, por representarem um \u201cn\u00e3o\u201d para o seu tempo, tanto para um, quanto para outro extremo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\">[9]<\/a> Lamentamos a tradu\u00e7\u00e3o mal feita de <em>Fellowship of the Ring<\/em> ou <em>Company of the Ring <\/em>para <em>Sociedade do Anel<\/em>, express\u00e3o por demais frio e distante, que seria melhor traduzida como \u201cConfraria\u201d do Anel.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\">[10]<\/a> Duriez, 206-207.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\">[11]<\/a> Idem, 544.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gabriele Greggersen* Introdu\u00e7\u00e3o O que poderia aproximar pensadores de \u00e1reas e contextos t\u00e3o distintos quanto o fil\u00f3sofo franc\u00eas contempor\u00e2neo, Paul Ricoeur (1913-), e um fil\u00f3logo de Oxford do entre guerras, J.R.R Tolkien (1892-1973), que tamb\u00e9m ficou conhecido como o grande \u201ccriador de mitos\u201d (mythmaker)? Uma das preocupa\u00e7\u00f5es que eles t\u00eam em comum \u00e9 o problema [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[29083],"tags":[5714,29300,29332,29359],"class_list":["post-331","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-de-gabriele","tag-mal","tag-paradoxo","tag-ricoeur","tag-tolkien"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=331"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=331"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=331"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=331"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}