{"id":327,"date":"2010-05-01T19:58:18","date_gmt":"2010-05-01T19:58:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=327"},"modified":"2010-05-01T19:58:18","modified_gmt":"2010-05-01T19:58:18","slug":"c-s-lewis-as-lagrimas-do-leao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2010\/05\/01\/c-s-lewis-as-lagrimas-do-leao\/","title":{"rendered":"C. S. LEWIS: &#8220;AS L\u00c1GRIMAS DO LE\u00c3O&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>C. S. LEWIS: &#8220;AS L\u00c1GRIMAS DO LE\u00c3O&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Alan Pallister, 2006-01-04<\/p>\n<p>Numa das Cr\u00f3nicas de N\u00e1rnia, \u201cO Sobrinho do M\u00e1gico\u201d, C.S. Lewis mostra o her\u00f3i (Digory) a ser obrigado a escolher entre obedecer ao le\u00e3o (Aslan) e conseguir a cura da sua m\u00e3e, que est\u00e1 \u00e0 morte. Aslan \u00e9 a figura que representa Jesus. Digory v\u00ea as patas enormes e as garras do le\u00e3o e fica cheio de medo. Mas, por um momento, Digory fixa os olhos de Aslan. O le\u00e3o inclina a cabe\u00e7a para mais perto do rosto de Digory e este apanha a maior surpresa da sua vida. Nos olhos do Le\u00e3o h\u00e1 l\u00e1grimas grandes a brilhar. Neste momento Digory percebe que quem sente a doen\u00e7a da sua m\u00e3e, ainda mais do que ele pr\u00f3prio, \u00e9 Aslan.<\/p>\n<p>Em 1908, quando &#8216;Jack Lewis&#8217; tinha nove anos, a sua m\u00e3e faleceu de cancro, apesar de todas as suas ora\u00e7\u00f5es a pedir a sua cura. E nessa altura sentiu que perdeu tamb\u00e9m o seu pai, que se retraiu na sua dor e nunca mais soube lidar com os seus dois filhos (Jack e Warnie).<\/p>\n<p>N\u00e3o aconteceu na vida de Jack aquilo que aconteceu a Digory: Deus n\u00e3o o conquistou no momento da grande dor que sofreu. Quinze dias depois da morte da sua m\u00e3e Jack deixou Belfast, onde nascera, sendo enviado a um internato em Inglaterra sob a responsabilidade de um ministro anglicano duro e autorit\u00e1rio. Passou, depois, por outro internato que tinha o sistema de &#8216;bloods&#8217; e &#8216;tarts&#8217;: os rapazes mais velhos tinham pr\u00e9-adolescentes como escravos e, muitas vezes, amantes.<\/p>\n<p>Depois, sob a influ\u00eancia de um tutor ate\u00edsta e racionalista, perdeu a sua &#8216;f\u00e9 infantil, herdada&#8217;. Ganhou uma bolsa de m\u00e9rito para estudar em Oxford, mas no princ\u00edpio foi impedido de entrar por ter que ir combater na Primeira Guerra Mundial. Viu o sofrimento atroz da guerra mas ele pr\u00f3prio foi dispensado, gra\u00e7as a uma ferida &#8216;conveniente&#8217;. Voltou a Oxford em 1919 para estudar L\u00ednguas Cl\u00e1ssicas.<\/p>\n<p>Aprendeu a dar valor \u00e0 magia, por influ\u00eancia do poeta irland\u00eas, W.B.Yeats, e abandonou o racionalismo. Disse que os fil\u00f3sofos chamados realistas, como Bertrand Russell, n\u00e3o admitiam que as suas afirma\u00e7\u00f5es absolutas sobre a realidade estavam baseadas no pensamento \u2013 que \u00e9 um acontecimento subjectivo. Deus usou a literatura para o &#8216;cercar&#8217;, colocando no seu caminho autores como o grande poeta George Herbert, do s\u00e9culo XVII, e o romancista escoc\u00eas do s\u00e9culo XIX, George MacDonald. Lewis disse depois: \u201cOs agn\u00f3sticos falam alegremente acerca do homem que procura Deus. Sobre mim, nessa altura, podiam muito bem ter falado do rato a procurar o gato\u201d. Converteu-se ao te\u00edsmo e, depois, comparou-se com um Filho Pr\u00f3digo trazido para a casa do pai, ressentido e aos pontap\u00e9s.<\/p>\n<p>Alguns amigos e, de maneira muito especial, J.R.R.Tolkien, cat\u00f3lico e autor do \u201cSenhor dos An\u00e9is\u201d, desafiaram-no a considerar a doutrina da encarna\u00e7\u00e3o de Cristo. No dia a seguir a uma conversa longa com eles, foi com o irm\u00e3o ao parque zool\u00f3gico, no carrito ao lado da motorizada dele. Jack conta a sua experi\u00eancia assim:<\/p>\n<p>\u201cQuando partimos, n\u00e3o acreditava que Jesus Cristo \u00e9 o Filho de Deus, e quando cheg\u00e1mos ao parque zool\u00f3gico acreditava\u201d.<\/p>\n<p>Lewis foi um autor e conferencista pol\u00e9mico. Fez parte de uma elite intelectual em Oxford, mas distanciou-se da maior parte dos seus colegas que eram racionalistas ou agn\u00f3sticos ou, no caso de fazerem parte da sua igreja (a anglicana), eram teologicamente liberais. Lewis foi um cr\u00edtico extremamente vigoroso da teologia do alem\u00e3o, Rudolf Bultmann. Este considerava como mito quase todo o material dos Evangelhos, a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo e o mundo sobrenatural de anjos e esp\u00edritos. Como este tipo de influ\u00eancia era t\u00e3o forte na Igreja Anglicana, Lewis numa altura queixou-se da dureza do seu papel &#8211; de ser mission\u00e1rio aos sacerdotes da sua pr\u00f3pria igreja. Achou que este papel era horr\u00edvel, mas considerava que, se n\u00e3o fizesse este trabalho, a Igreja dentro de poucos anos iria deixar de existir.<\/p>\n<p>Mesmo assim, Lewis n\u00e3o acreditava na inspira\u00e7\u00e3o verbal da B\u00edblia e, por esta raz\u00e3o, apesar de ser ortodoxo em praticamente todas as outras doutrinas, n\u00e3o era convidado como conferencista pelas &#8216;Christian Unions&#8217; (GBUs) do seu tempo.<\/p>\n<p>Escreveu obras apolog\u00e9ticas a n\u00edvel intelectual e popular. Uma delas foi sobre o \u00abProblema da Dor\u00bb. O livro \u00e9 sens\u00edvel, bem argumentado e, intelectualmente, \u00e0 altura dos seus colegas na universidade. As limita\u00e7\u00f5es que tem devem-se ao facto de o seu autor, na sua vida adulta, como acad\u00e9mico e solteiro de meia idade, n\u00e3o ter grande experi\u00eancia directa do sofrimento. Esta experi\u00eancia viria mais tarde para a vida de Lewis, atrav\u00e9s de uma viv\u00eancia pessoal que o \u201cLe\u00e3o com L\u00e1grimas\u201d iria trazer \u00e0 sua vida.<\/p>\n<p>Em 1956, casou pelo civil com uma jornalista americana, Joy Davidman, rec\u00e9m divorciada. Ela adoeceu com cancro alguns meses depois. Lewis pediu autoriza\u00e7\u00e3o ao bispo para se celebrar o casamento religioso, mas, como a Igreja Anglicana n\u00e3o admitia o casamento de divorciados, isto foi recusado. \u00c0 revelia do bispo, um sacerdote anglicano amigo celebrou o casamento no quarto do hospital, em Mar\u00e7o de 1957. Depois houve uns per\u00edodos de dor intensa, e outros de remiss\u00e3o. Em 1960, apesar da situa\u00e7\u00e3o grave da Joy, conseguiram fazer uma viagem \u00e0 Gr\u00e9cia, visitando muitos lugares de interesse hist\u00f3rico. Em Julho desse ano, Joy faleceu.<\/p>\n<p>Depois desta experi\u00eancia, Jack escreveu sobre a dor de uma forma diferente. Num livro, traduzido para portugu\u00eas com o t\u00edtulo \u201cDor\u201d, p\u00f5e em palavras todos os sentimentos em conflito, as contradi\u00e7\u00f5es, as acusa\u00e7\u00f5es contra Deus, que surgem naturalmente de uma experi\u00eancia angustiante deste tipo. Levantou a quest\u00e3o se Deus n\u00e3o era um S\u00e1dico C\u00f3smico, um viviseccionista louco que apanhava os homens como ratazanas no seu laborat\u00f3rio. Mas teve que concluir que n\u00e3o podia sustentar essa ideia. Mesmo assim acusou Deus de n\u00e3o responder \u2013 ou de adiar a resposta &#8211; \u00e0s suas perguntas.<\/p>\n<p>Um dos filhos de Joy (Douglas) descreve a realiza\u00e7\u00e3o gradual que Jack ganhou de que a sua dor estava a ser ego\u00edsta: estava a chorar, n\u00e3o porque a Joy tinha partido para outro lugar, mas porque ele j\u00e1 n\u00e3o a tinha com ele. De facto ela tinha sido liberta \u2013 mas, para Jack, a dor continuava. Mesmo assim, nas palavras do enteado, ele &#8216;superou a sua dor at\u00e9 ao ponto de conseguir funcionar novamente como ser humano e autor \u2013 mas nunca houve nenhum momento, no resto da sua vida, em que n\u00e3o estivesse consciente da sua perda&#8217;.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos mais tarde, em 1963, Lewis, agora catedr\u00e1tico de Literatura Medieval em Magdalene College, Cambridge, faleceu ap\u00f3s um ataque card\u00edaco. Tanto a n\u00edvel de obras acad\u00e9micas na \u00e1rea da literatura, como na \u00e1rea da apolog\u00e9tica (intelectual e popular), como na \u00e1rea da fic\u00e7\u00e3o (para crian\u00e7as e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica), foi a figura mais destacada do seu tempo. E o que sobressai para n\u00f3s \u00e9 o facto de ter sido um crist\u00e3o convicto, que conhecia &#8216;Aslan&#8217;, o le\u00e3o. \u00c9 este facto que o aproxima de cada crente sincero \u2013 o facto de ter olhado para os olhos do le\u00e3o, de ter questionado, e de ter visto t\u00e3o claramente as l\u00e1grimas nos Seus olhos.<\/p>\n<p>Alan Pallister<\/p>\n<p>[Not\u00edcia n.\u00ba 2869, inserida em 2006-01-04]<\/p>\n<p>Fonte:<\/p>\n<p>www.portalevangelico.pt<\/p>\n<p>2\/2\/2007 17:37:42<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C. S. LEWIS: &#8220;AS L\u00c1GRIMAS DO LE\u00c3O&#8221; Alan Pallister, 2006-01-04 Numa das Cr\u00f3nicas de N\u00e1rnia, \u201cO Sobrinho do M\u00e1gico\u201d, C.S. Lewis mostra o her\u00f3i (Digory) a ser obrigado a escolher entre obedecer ao le\u00e3o (Aslan) e conseguir a cura da sua m\u00e3e, que est\u00e1 \u00e0 morte. Aslan \u00e9 a figura que representa Jesus. 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