{"id":312,"date":"2010-04-06T10:04:38","date_gmt":"2010-04-06T10:04:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=312"},"modified":"2010-04-06T10:04:38","modified_gmt":"2010-04-06T10:04:38","slug":"transposicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2010\/04\/06\/transposicao\/","title":{"rendered":"Transposi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">Trad. por Gabriele Greggersen<\/p>\n<p>Pela tradi\u00e7\u00e3o da minha igreja, o dia de hoje \u00e9 consagrado \u00e0 comemora\u00e7\u00e3o da descida do Esp\u00edrito Santo sobre os primeiros crist\u00e3os, logo ap\u00f3s a ascens\u00e3o. Pretendo aqui examinar um dos fen\u00f4menos que acompanharam ou sucederam tal descida: trata-se do fen\u00f4meno que a nossa vers\u00e3o [da B\u00edblia] chama de \u201cfalar em l\u00ednguas\u201d e os eruditos, de glossolalia. N\u00e3o que esse seja o aspecto mais importante do Pentecoste para mim. Eu o escolhi por dois motivos b\u00e1sicos. Em primeiro lugar, seria absurdo que eu discorresse sobre a natureza do Esp\u00edrito Santo ou sobre suas formas de atua\u00e7\u00e3o: isso seria querer assumir as fun\u00e7\u00f5es de mestre, quando na verdade mal iniciei meu aprendizado. Em segundo, a glossolalia sempre significou uma pedra de trope\u00e7o. Para ser franco, \u00e9 um fen\u00f4meno desconcertante para mim. O pr\u00f3prio ap\u00f3stolo Paulo parece ter ficado desconcertado com ele em 1 Cor\u00edntios, esfor\u00e7ando-se por desviar a aten\u00e7\u00e3o e a expectativa da igreja para os dons evidentemente mais edificantes. Mas ele n\u00e3o passa disso. Acrescenta quase parenteticamente que ele mesmo, mais do que ningu\u00e9m, falou em l\u00ednguas e n\u00e3o questiona a fonte espiritual ou sobrenatural do fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>O que tenho dificuldade de entender \u00e9 a seguinte: por um lado a glossolalia continua sendo, at\u00e9 hoje, um dos \u201cg\u00eaneros de experi\u00eancia religiosa\u201d mais cobi\u00e7ado. De tempos em tempos, ouvimos falar de alguma reuni\u00e3o de avivamento em que um ou outro desatou a falar coisas inintelig\u00edveis. Isso n\u00e3o parece edificante e, na opini\u00e3o geral dos n\u00e3o-crist\u00e3os, seria considerado uma esp\u00e9cie de histeria, a manifesta\u00e7\u00e3o de um estado de nervos fora do controle. Boa parte dos crist\u00e3os explicaria a maioria de casos assim, da mesma forma, e devo reconhecer ser muito dif\u00edcil acreditar que o seja o Esp\u00edrito Santo que estivesse agindo em todos esses casos. Usualmente supomos, mesmo sem ter muita certeza, que se trata de um problema nervoso. Esse \u00e9 uma dos n\u00f3s *g\u00f3rgios do dilema. Por outro lado, como crist\u00e3os n\u00e3o podemos simplesmente engavetar a hist\u00f3ria do Pentecoste ou negar que, de alguma forma, naquela ocasi\u00e3o, o falar em l\u00ednguas tivesse sido um milagre de fato. Porque as pessoas n\u00e3o proferiram palavras sem nexo, mas, sim, l\u00ednguas por embora fossem desconhecidas a elas, entretanto, eram, sim, conhecidas dos demais ali presentes. E todo e qualquer o acontecimento envolvido nesse fato est\u00e1 inserido no pr\u00f3prio contexto da hist\u00f3ria do nascimento da igreja. Trata-se precisamente do acontecimento pelo qual, de acordo com as palavras do Senhor ressuscitado \u2014 em das \u00faltimas que proferiu antes de sua ascens\u00e3o \u2014 a igreja deveria estar aguardando. Logo, segundo nos parece, seremos for\u00e7ados a concluir que precisamente o mesmo fen\u00f4meno n\u00e3o apenas natural, mas \u00e0s vezes at\u00e9 patol\u00f3gico, \u00e9 em outras circunst\u00e2ncias (uma ou outra vez) o ve\u00edculo do Esp\u00edrito Santo. E isso parece, a princ\u00edpio, surpreendente e vulner\u00e1vel demais a refuta\u00e7\u00f5es. O c\u00e9tico n\u00e3o perder\u00e1 a oportunidade de falar da \u201cnavalha de Occam\u201d, acusando-nos de emendar hip\u00f3teses a outras hip\u00f3teses. Se, na maior parte dos casos, a histeria \u00e9 respons\u00e1vel pela glossolalia, n\u00e3o ser\u00e1 bem prov\u00e1vel (perguntar\u00e1 ele) que a mesma explica\u00e7\u00e3o seja aplic\u00e1vel a todos os demais casos?<\/p>\n<p>\u00c9 para essa dificuldade que eu gostaria de ter o prazer de trazer um pouco de esclarecimento, se puder. E vou come\u00e7ar, dizendo que ela pertence a uma categoria especial de problema. Nessa categoria, o exemplo mais pr\u00f3ximo em n\u00edvel de dificuldade pode ser considerado o uso linguagem e imagens er\u00f3ticas pelos autores crist\u00e3os m\u00edsticos da Idade M\u00e9dia. Encontramos neles toda uma gama de manifesta\u00e7\u00f5es desse tipo \u2014 e provavelmente, portanto, de emo\u00e7\u00f5es \u2014 que, em outro contexto, seria bastante conhecidos, que nesse outro contexto, assumem o significado mais natural do mundo. Est\u00e1 claro, contudo, que nos escritos m\u00edsticos esses elementos t\u00eam outra motiva\u00e7\u00e3o. Mais uma vez o c\u00e9tico perguntar\u00e1 por que n\u00e3o aceitamos para o cent\u00e9simo caso a motiva\u00e7\u00e3o que nos prontificamos a aceitar para os noventa e nove. Para ele, a hip\u00f3tese de que o misticismo \u00e9 um fen\u00f4meno er\u00f3tico parecer\u00e1 muito mais prov\u00e1vel do que qualquer outra.<\/p>\n<p>Apresentado em linhas gerais, o nosso problema \u00e9 o da evidente rela\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 notadamente <em>natural<\/em> e o que se sup\u00f5e espiritual; o ressurgimento, naquilo que se apresenta como nossa vida sobrenatural, dos mesmos velhos elementos que comp\u00f5em a nossa vida natural e (segundo parece) a de nenhum outro. Se de fato fomos favorecidos com uma revela\u00e7\u00e3o sobrenatural, n\u00e3o ser\u00e1 muito estranho que o Apocalipse possa guarnecer o c\u00e9u t\u00e3o somente com elementos recolhidos da experi\u00eancia terrena (coroas, tronos, m\u00fasica)? Tamb\u00e9m que a devo\u00e7\u00e3o religiosa n\u00e3o encontre outra linguagem sen\u00e3o a dos amantes e que o rito com que o crist\u00e3o celebra a uni\u00e3o m\u00edstica n\u00e3o passe do velho ato familiar de comer e beber? E voc\u00ea pode acrescentar que o mesmo problema apresenta-se num plano inferior, n\u00e3o apenas entre o espiritual e o natural, mas entre os planos mais elevados e os mais baixos da vida natural. Por isso, os c\u00ednicos s\u00e3o muito plaus\u00edveis ao contestar nossa civilizada distin\u00e7\u00e3o entre amor e sensualidade, observando que, afinal de contas, ambos culminam no mesmo ato f\u00edsico. Tamb\u00e9m contestam a diferen\u00e7a entre justi\u00e7a e vingan\u00e7a, baseando-se no fato de que, para o criminoso, o resultado pode ser o mesmo. E admitimos que, \u00e0 primeira vista, os c\u00ednicos e os c\u00e9ticos t\u00eam raz\u00e3o em todos esses casos. Os mesmos atos surgem de fato na justi\u00e7a e na vingan\u00e7a; a consuma\u00e7\u00e3o do amor conjugal \u00e9, fisiologicamente, igual \u00e0 do mero desejo biol\u00f3gico; a linguagem e as imagens religiosas e, provavelmente, o pr\u00f3prio sentimento religioso, nada cont\u00eam que n\u00e3o tenha sido tomado por empr\u00e9stimo da natureza.<\/p>\n<p>Bem, parece-me que a \u00fanica maneira de refutar a cr\u00edtica \u00e9 demonstrar que os mesmos argumentos, baseados na primeira impress\u00e3o, seriam igualmente plaus\u00edveis em alguns casos nos quais todos sabem (n\u00e3o pela f\u00e9 ou pela l\u00f3gica, mas empiricamente) serem esses argumentos infundados. Ser\u00e1 que temos algum exemplo de dois planos \u2014 um superior e outro inferior \u2014 em que o superior fa\u00e7a parte da experi\u00eancia pessoal de quase todas as pessoas? Creio que sim.<\/p>\n<p>Examinemos a seguinte transcri\u00e7\u00e3o do Di\u00e1rio de Pepys:<\/p>\n<p>Fui com minha esposa \u00e0 casa de espet\u00e1culos &#8220;King&#8217;s House&#8221;, assistir <em>O M\u00e1rtir Virgem<\/em> (&#8220;The Virgin Martyr&#8221;) e amei [ Mas o que me deliciou, sobretudo foi a m\u00fasica de sopro, quando o anjo desce a terra, t\u00e3o doce que me senti arrebatado. Ali\u00e1s, em suma, ela absorveu minha alma a ponto de me dar n\u00e1useas mesmo, como no tempo em que me apaixonei por minha mulher [e me faz decidir estudar m\u00fasica de sopro e pedir \u00e0 minha mulher que tamb\u00e9m o fa\u00e7a. (27 de fevereiro de 1668.)<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui v\u00e1rios pontos que merecem aten\u00e7\u00e3o. Primeiro que a sensa\u00e7\u00e3o que acompanhou o prazer est\u00e9tico era a mesma que acompanhou as duas outras experi\u00eancias: a de estar apaixonado e a de atravessar, digamos, o canal da Mancha num temporal. Segundo, que, dessas duas experi\u00eancias, uma pelo menos \u00e9 a pr\u00f3pria ant\u00edtese do prazer. Ningu\u00e9m gosta de sentir n\u00e1useas. Terceiro que Pepys desejava ardentemente ter de novo a experi\u00eancia cuja sensa\u00e7\u00e3o resultante era exatamente id\u00eantica aos desagrad\u00e1veis efeitos da n\u00e1usea. E esse foi o motivo de resolver dedicar-se ao estudo da musica de sopro<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que nem todos tenhamos vivenciado em sua totalidade a experi\u00eancia de Pepys, mas todos j\u00e1 experimentamos algo parecido. Eu mesmo j\u00e1 percebi que, se durante um momento de intenso prazer est\u00e9tico algu\u00e9m busca captar, pela introspec\u00e7\u00e3o, aquilo que realmente esta sentindo, n\u00e3o conseguira deitar m\u00e3o em nada que n\u00e3o seja puramente f\u00edsico. No caso \u00e9 uma esp\u00e9cie de contra\u00e7\u00e3o ou espasmo do diafragma Talvez \u201cn\u00e1useas mesmo\u201d tivesse esse significado para Pepys Mas o que importa e o seguinte creio que esse espasmo e precisamente o mesmo que no meu caso, acompanha uma grande e s\u00fabita angustia. A introspec\u00e7\u00e3o n\u00e3o encontra nenhuma diferen\u00e7a entre minha rea\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica a uma noticia muito ruim e minha rea\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica a abertura da Flauta M\u00e1gica. Se eu tivesse de julgar simplesmente pelas sensa\u00e7\u00f5es, poderia chegar \u00e0 conclus\u00e3o absurda de que prazer e angustia sejam a mesma coisa,* que aquilo que mais temo e tamb\u00e9m o que mais desejo. A introspec\u00e7\u00e3o n\u00e3o encontra nenhuma diferen\u00e7a entre os dois. E creio que a maioria de voc\u00eas, se tiver o habito de notar coisas desse tipo dir\u00e1 mais ou menos a mesma coisa.<\/p>\n<p>Vamos dar mais um passo. Essas sensa\u00e7\u00f5es \u2014 a \u201cn\u00e1usea\u201d de Pepys e o meu espasmo no diafragma \u2014 n\u00e3o s\u00e3o meros acompanhamentos insignificantes de experi\u00eancias muito diversas. Podemos estar certos de que Pepys detestava tal sensa\u00e7\u00e3o, sempre que acompanhasse uma enfermidade real, e sabemos, por suas pr\u00f3prias palavras, que gostava dela quando produzida pela m\u00fasica de sopro, pois tomou provid\u00eancias para garantir, dentro do poss\u00edvel, que a teria novamente. Eu tamb\u00e9m amo esse espasmo interno numa situa\u00e7\u00e3o, chamando-o de prazer, e odeio-o em outra, chamando-o de sofrimento. Essa sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um mero sinal de alegria e ang\u00fastia: passa a ser o que significa. Quando a alegria transborda, ent\u00e3o, pelo sistema nervoso, esse transbordamento \u00e9 a sua consuma\u00e7\u00e3o; quando a ang\u00fastia transborda, esse sintoma f\u00edsico \u00e9 o horror concretizado. Aquilo, que faz uma gota do c\u00e1lice doce ser a mais doce de todas \u00e9 exatamente o mesmo que faz outra ser a mais amarga de todo o c\u00e1lice amargo.<\/p>\n<p>E aqui, creio eu, encontramos o que estamos procurando. Entendo que a nossa vida emocional esteja \u201cacima\u201d das nossas sensa\u00e7\u00f5es \u2014 claro que n\u00e3o sendo moralmente superior, mas, sim, mais rica, mais variada, mais sutil. E quase todos conhecemos esse plano superior. E creio que, se algu\u00e9m observar cuidadosamente a rela\u00e7\u00e3o entre as suas emo\u00e7\u00f5es e as suas sensa\u00e7\u00f5es, descobrir\u00e1 que: 1) os nervos reagem, em certo sentido, de modo adequado e preciso \u00e0s emo\u00e7\u00f5es; 2) as possibilidades de varia\u00e7\u00e3o dos sentidos s\u00e3o muito menores que as das emo\u00e7\u00f5es, seus recursos, muito mais limitados e 3) os sentidos compensam essa defici\u00eancia servindo-se da mesma sensa\u00e7\u00e3o para manifestar mais de uma emo\u00e7\u00e3o \u2014 at\u00e9, como vimos, para manifestar emo\u00e7\u00f5es opostas.<\/p>\n<p>Incorremos em erro ao concluir que, se existe uma correspond\u00eancia entre dois sistemas, essa correspond\u00eancia deva ser biun\u00edvoca \u2014 que A de um sistema faz-se representar por a no outro e assim por diante. Pois acontece que a correspond\u00eancia entre a emo\u00e7\u00e3o e a sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o segue esse padr\u00e3o. E nunca pode haver tal correspond\u00eancia quando um sistema \u00e9 de fato mais rico que o outro. Para que o sistema mais rico possa-se fazer representar no mais pobre, \u00e9 necess\u00e1rio atribuir mais de um significado a cada elemento deste. A transposi\u00e7\u00e3o do mais rico para o mais pobre deve, por assim dizer, ser alg\u00e9brica, n\u00e3o aritm\u00e9tica. Se voc\u00ea quiser traduzir de uma l\u00edngua que disp\u00f5e de um vocabul\u00e1rio extenso para uma l\u00edngua de vocabul\u00e1rio reduzido, precisa ter liberdade de usar v\u00e1rias palavras em mais de um sentido. Se tiver de representar graficamente uma l\u00edngua que tenha vinte e dois sons voc\u00e1licos utilizando um alfabeto de apenas cinco caracteres voc\u00e1licos, precisar\u00e1 atribuir mais de um valor a cada um deles. Se tiver de transpor para o piano uma pe\u00e7a originalmente composta para orquestra, as notas que numa passagem representam as flautas representar\u00e3o, em outra, os violinos.<\/p>\n<p>Como demonstram os exemplos, todos conhecemos muito bem essa esp\u00e9cie de transposi\u00e7\u00e3o ou adapta\u00e7\u00e3o de um plano mais rico para um mais pobre. O mais conhecido de todos \u00e9 a arte de desenhar. Nesse caso, o problema \u00e9 representar um mundo tridimensional numa folha de papel plana. A solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 na perspectiva, e perspectiva significa precisarmos atribuir mais de um valor a uma forma bidimensional. Assim, ao desenhar um cubo, usamos um \u00e2ngulo agudo para representar o que, na realidade, \u00e9 um \u00e2ngulo reto. Mas, em outro lugar, o \u00e2ngulo agudo pode representar no papel o que era j\u00e1 um \u00e2ngulo agudo no mundo real: por exemplo, a ponta do espig\u00e3o que remata as vertentes de um telhado. A forma que voc\u00ea desenha para dar a ilus\u00e3o de uma estrada reta que se afasta do observador \u00e9 a mesma que utiliza para desenhar a ponta de um cone. O que ocorre com as linhas tamb\u00e9m acontece com as sombras. A luz mais brilhante do desenho \u00e9, na realidade, apenas a brancura do papel; e esta deve servir para representar o sol, um lago iluminado pela luz do poente, a neve ou a carne humana.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o agora duas observa\u00e7\u00f5es a prop\u00f3sito desses casos de transposi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>1) Em cada um deles verifica-se que o que se passa no plano inferior s\u00f3 pode ser compreendido quando conhecemos o plano superior. O exemplo em que esse conhecimento mais costuma falhar \u00e9 o da m\u00fasica. A vers\u00e3o para piano significa uma coisa para o m\u00fasico que conhece a composi\u00e7\u00e3o original para orquestra e outra para quem simplesmente a ouve na forma de pe\u00e7a tocada ao piano. Mas o segundo estaria em desvantagem ainda maior se n\u00e3o conhecesse outro instrumento al\u00e9m do piano e at\u00e9 duvidasse da exist\u00eancia de outros instrumentos. Mais ainda: s\u00f3 compreendemos as pinturas porque conhecemos e habitamos um mundo tridimensional. Se consegu\u00edsse-los imaginar uma criatura que distinguisse apenas duas dimens\u00f5es e que, mesmo assim, ainda pudesse perceber as linhas enquanto as rastreasse no papel, logo ver\u00edamos que lhe seria imposs\u00edvel entender. A princ\u00edpio, poderia estar pronta a aceitar, como sendo de fonte segura, a nossa assevera\u00e7\u00e3o de haver um mundo tridimensional. Mas quando apont\u00e1ssemos para as linhas tra\u00e7adas no papel e tent\u00e1ssemos explicar: \u201cisto \u00e9 uma estrada\u201d, digamos, n\u00e3o replicaria ela que a forma que lhe pedimos que aceitasse como revela\u00e7\u00e3o do nosso misterioso mundo era precisamente a mesma que, em outro lugar, n\u00e3o passava de um tri\u00e2ngulo? E em breve, imagino, essa criatura diria: \u201cVoc\u00ea continua falando desse outro mundo e das suas incr\u00edveis formas chamadas s\u00f3lidas. Mas n\u00e3o \u00e9 bem prov\u00e1vel que todas essas formas que me apresenta como imagens ou reflexos dos s\u00f3lidos n\u00e3o passem, afinal, das velhas formas bidimensionais do mundo que sempre conheci? N\u00e3o se torna evidente que esse outro mundo de que voc\u00ea se gaba, longe de ser o arqu\u00e9tipo, \u00e9 antes um sonho totalmente formado por elementos deste mundo aqui?\u201d.<\/p>\n<p>2) \u00c9 importante notar que a palavra simbolismo nem sempre \u00e9 suficiente para abranger a rela\u00e7\u00e3o entre o plano superior e a sua transposi\u00e7\u00e3o para o inferior. Em alguns casos, aplica-se perfeitamente, em outros, n\u00e3o. Assim, a rela\u00e7\u00e3o entre a fala e a escrita \u00e9 simb\u00f3lica. Os caracteres escritos existem apenas para os olhos, as palavras faladas, apenas para os ouvidos. A desconex\u00e3o entre eles \u00e9 absoluta. N\u00e3o se parecem um com o outro, e um n\u00e3o pode dar origem ao outro. O primeiro \u00e9 um simples sinal do segundo e tem esse significado por conven\u00e7\u00e3o. Mas a rela\u00e7\u00e3o entre um desenho e o mundo vis\u00edvel n\u00e3o se reduz a isso. Os pr\u00f3prios desenhos fazem parte do mundo vis\u00edvel e s\u00f3 o representam por serem parte dele. A visibilidade de um tem a mesma origem que a do outro. Os s\u00f3is e as luzes parecem brilhar nos desenhos s\u00f3 porque os verdadeiros s\u00f3is ou as verdadeiras luzes brilham sobre eles: ou seja, parecem brilhar muito porque na realidade brilham um pouco ao refletir os seus arqu\u00e9tipos. Portanto, a luz do sol retratada em um quadro n\u00e3o se relaciona com a verdadeira luz da mesma maneira que as palavras escritas se relacionam com as faladas. \u00c9 um sinal, sim, mas tamb\u00e9m mais que um sinal; e s\u00f3 \u00e9 um sinal porque \u00e9 tamb\u00e9m mais que um sinal, porque, de certa forma, a coisa que significa est\u00e1 presente nele. Se eu tivesse de dar um nome a esse tipo de rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a chamaria simb\u00f3lica, mas sacramental. Mas na argumenta\u00e7\u00e3o inicial \u2014 a da emo\u00e7\u00e3o e da sensa\u00e7\u00e3o \u2014, a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais \u00edntima que a de um mero simbolismo. Porque nesse caso, como vimos a sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita a acompanhar ou meramente a significar emo\u00e7\u00f5es diversas e opostas: torna-se parte delas. A emo\u00e7\u00e3o desce fisicamente, por assim dizer, \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o e a digere, transforma, transubstancia, de forma que a excita\u00e7\u00e3o que percorre os nervos \u00e9 deleite ou \u00e9 tormento.<\/p>\n<p>N\u00e3o afirmo que aquilo a que chamo transposi\u00e7\u00e3o seja o \u00fanico modo pelo qual um plano inferior possa corresponder a outro superior, mas afirmo ser muito dif\u00edcil imaginar outro. N\u00e3o \u00e9, por conseq\u00fc\u00eancia, improv\u00e1vel que a transposi\u00e7\u00e3o ocorra sempre que um plano mais alto reproduza-se num mais baixo. Assim, para divagar um pouco, direi que me parece bem poss\u00edvel que a verdadeira rela\u00e7\u00e3o entre a mente e o corpo seja de transposi\u00e7\u00e3o. Sabemos que, de qualquer maneira nesta vida, o pensamento relaciona-se intimamente com o c\u00e9rebro. Em minha opini\u00e3o, a teoria de que o pensamento \u00e9, portanto, um mero movimento do c\u00e9rebro \u00e9 inteiramente absurda; pois, se o fosse, essa mesma teoria seria mero movimento, uma atividade entre \u00e1tomos que poderia ter velocidade e dire\u00e7\u00e3o, mas que n\u00e3o poderia ser considerada \u201cverdadeira\u201d ou \u201cfalsa\u201d. Somos, pois, levados a pensar em uma esp\u00e9cie de correspond\u00eancia. Mas, se pressupomos uma correspond\u00eancia biun\u00edvoca, significa que teremos de atribuir ao c\u00e9rebro uma complexidade e variedade quase inacredit\u00e1veis de atividades. No entanto, julgo que esse tipo de rela\u00e7\u00e3o biun\u00edvoca seja provavelmente desnecess\u00e1rio. Todos os nossos exemplos mostram que o c\u00e9rebro pode responder \u2014 corresponder, de certo modo, de forma adequada e precisa \u2014 \u00e0s varia\u00e7\u00f5es aparentemente infinitas do consciente, sem fornecer uma \u00fanica modifica\u00e7\u00e3o f\u00edsica para cada modifica\u00e7\u00e3o do consciente.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 divaga\u00e7\u00e3o. Voltemos \u00e0 nossa quest\u00e3o original sobre esp\u00edrito e natureza, Deus e homem. Nosso problema era que tudo o que pretende ser a nossa vida espiritual evoca os elementos da nossa vida natural e, o que \u00e9 pior: \u00e0 primeira vista, tudo nos leva a crer que n\u00e3o h\u00e1 nenhum outro elemento. Vemos agora que, se o plano espiritual \u00e9 mais rico que o natural (e ningu\u00e9m que creia na sua exist\u00eancia duvidar\u00e1 disso), nada h\u00e1 de estranho nesse fato. E a conclus\u00e3o do c\u00e9tico de que, na realidade, o que chamamos espiritual deriva do natural, que \u00e9 a miragem, proje\u00e7\u00e3o ou prolongamento imagin\u00e1rio do natural, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 estranha; porque, como vimos, esse \u00e9 o erro em que um observador que s\u00f3 conhecesse o plano inferior for\u00e7osamente incorreria, sempre que fizesse uma transposi\u00e7\u00e3o. O indiv\u00edduo sensual nunca poder\u00e1 distinguir, em sua an\u00e1lise, o amor da lasc\u00edvia; o habitante de uma plan\u00edcie nada encontrar\u00e1 num quadro sen\u00e3o formas planas; a fisiologia nada ver\u00e1 no pensamento sen\u00e3o contra\u00e7\u00f5es da massa cinzenta. De nada servir\u00e1 argumentar com o cr\u00edtico que aborda a transposi\u00e7\u00e3o a partir de um plano inferior. Com as provas que possui, sua conclus\u00e3o \u00e9 a \u00fanica poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Tudo se transforma quando examinamos a transposi\u00e7\u00e3o de cima, como fazemos no caso da emo\u00e7\u00e3o e da sensa\u00e7\u00e3o ou do mundo tridimensional e dos desenhos, e como faz o homem espiritual no caso que estamos analisando. Os que j\u00e1 falaram em l\u00ednguas, como Paulo, sabem como o santo fen\u00f4meno difere do fen\u00f4meno hist\u00e9rico \u2014 lembrando, entretanto, que o fen\u00f4meno \u00e9, em certo sentido, precisamente o mesmo, como era a mesma a sensa\u00e7\u00e3o que invadiu Pepys no amor, no prazer musical e na n\u00e1usea. As coisas espirituais discernem-se espiritualmente. O homem espiritual julga todas as coisas, mas de nenhuma \u00e9 julgado.<\/p>\n<p>Mas quem ousa considerar-se um homem espiritual? Em sentido estrito, nenhum de n\u00f3s. Contudo, sabemos que, de algum modo, vislumbramos de cima, ou de dentro, pelo menos algumas dessas transposi\u00e7\u00f5es que d\u00e3o corpo \u00e0 vida crist\u00e3 neste mundo. Por mais que nos consideremos indignos ou audaciosos, podemos afirmar que conhecemos um pouco desse sistema superior que est\u00e1 sendo transposto. De certo modo, a afirma\u00e7\u00e3o que fazemos n\u00e3o \u00e9 muito espantosa. Afirmamos apenas saber que nossa vis\u00edvel devo\u00e7\u00e3o, qualquer que tenha sido, n\u00e3o era puramente er\u00f3tica, e que nosso vis\u00edvel desejo do c\u00e9u, qualquer que tenha sido, n\u00e3o era mero desejo de longevidade, riqueza ou esplendor social. E poss\u00edvel que nunca tenhamos atingido aquilo que Paulo descreve como vida espiritual. Mas sabemos, pelo menos, ainda que de maneira obscura e confusa, que procuramos atribuir um novo significado aos atos naturais, \u00e0s imagens e \u00e0 linguagem; desejamos, pelo menos, um arrependimento que n\u00e3o \u00e9 mera prud\u00eancia e um amor que n\u00e3o \u00e9 ego\u00edsmo. Na pior das hip\u00f3teses, o que conhecemos do plano espiritual \u00e9 suficiente para nos tornar conscientes de que estamos longe dele; como se o quadro tivesse conhecimento do mundo tridimensional o suficiente para ter consci\u00eancia de seu pr\u00f3prio achatamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por humildade (a qual, evidentemente, n\u00e3o se exclui) que precisamos sublinhar a imperfei\u00e7\u00e3o do nosso conhecimento. Suponho que, se n\u00e3o for por milagre de Deus, a experi\u00eancia espiritual n\u00e3o se submete \u00e0 introspec\u00e7\u00e3o. Se nem as nossas emo\u00e7\u00f5es se submetem a ela (j\u00e1 que a pr\u00f3pria tentativa de descobrir o que estamos sentindo neste momento n\u00e3o revela mais que uma sensa\u00e7\u00e3o f\u00edsica), muito menos a opera\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo. A tentativa de descobrir a nossa condi\u00e7\u00e3o espiritual por meio da an\u00e1lise introspectiva \u00e9, para mim, uma coisa horr\u00edvel que jamais nos pode revelar os mist\u00e9rios do Esp\u00edrito de Deus ou do nosso esp\u00edrito \u2014 quando muito, revela a transposi\u00e7\u00e3o dele no intelecto, na emo\u00e7\u00e3o e na imagina\u00e7\u00e3o \u2014 e que, na pior das hip\u00f3teses, pode ser o caminho mais curto para a presun\u00e7\u00e3o ou o desespero.<\/p>\n<p>Com isso dou o caso por encerrado, como dizem os advogados.<\/p>\n<p>Mas devo acrescentar apenas quatro pontos:<\/p>\n<p>1) Espero ter esclarecido que o conceito de transposi\u00e7\u00e3o, como o apresento, \u00e9 diferente do conceito empregado muitas vezes para o mesmo fim \u2014 refiro-me ao conceito de desenvolvimento. Os que defendem esse conceito explicam a rela\u00e7\u00e3o entre o que se diz espiritual e o que com certeza \u00e9 natural, afirmando que um transformou-se gradualmente no outro. Creio que esse ponto de vista explique alguns fatos, mas acredito haver abusos. De qualquer modo, n\u00e3o \u00e9 essa a teoria que apresento. N\u00e3o estou afirmando que o ato natural de comer tenha-se transformado, ap\u00f3s milh\u00f5es de anos, no sacramento crist\u00e3o. O que digo \u00e9 que a realidade espiritual, que j\u00e1 existia antes de haver sobre a terra criaturas que comessem, empresta novo significado a esse ato natural e, mais que isso, transforma-o, em determinada situa\u00e7\u00e3o, num ato distinto. Afirmo, em suma, que s\u00e3o as paisagens reais que entram nos quadros, e n\u00e3o que um dia os quadros v\u00e3o-se converter em \u00e1rvores e relvados.<\/p>\n<p>2) Ao pensar naquilo a que chamo de transposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o posso deixar de perguntar-me se ela nos pode ajudar a compreender a encarna\u00e7\u00e3o. \u00c9 evidente que, se n\u00e3o passasse de uma forma de simbolismo, a transposi\u00e7\u00e3o de nada nos serviria nesse caso; pelo contr\u00e1rio, desviar-nos-ia completamente, levando-nos de volta a uma nova esp\u00e9cie de docetismo (ou seria ao velho docetismo?), desviando-nos da realidade eminentemente hist\u00f3rica e concreta, que \u00e9 o centro de nossa esperan\u00e7a, f\u00e9 e amor. Mas, como j\u00e1 fiz notar, transposi\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 simbolismo. A realidade inferior pode, de fato, numa medida maior ou menor, ser elevada at\u00e9 a realidade superior, chegando a tornar-se parte dela. A sensa\u00e7\u00e3o que acompanha a alegria converte-se, ela pr\u00f3pria, em alegria; podemos at\u00e9 dizer que \u00e9 a \u201cencarna\u00e7\u00e3o da alegria\u201d. Nesse caso, atrevo-me a propor para \/ considera\u00e7\u00e3o, ainda que com grandes d\u00favidas e apenas em car\u00e1ter provis\u00f3rio, que o conceito de transposi\u00e7\u00e3o traz alguma contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 teologia \u2014 ou pelo menos \u00e0 filosofia \u2014 da encarna\u00e7\u00e3o. Pois um dos credos diz-nos que a encarna\u00e7\u00e3o operou-se \u201cn\u00e3o pela convers\u00e3o de Deus em carne, mas pela eleva\u00e7\u00e3o da humanidade at\u00e9 Deus\u201d. Creio que se possa encontrar aqui uma verdadeira analogia com aquilo a que chamo transposi\u00e7\u00e3o: o fato de a humanidade, permanecendo o que \u00e9, n\u00e3o ser apenas considerada divina, mas ser verdadeiramente integrada na Divindade, compara-se com o que acontece quando a sensa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sendo ela mesma o prazer, integra-se \u00e0 alegria que acompanha. Mas ando sobre uma maravilha superior a mim, e submeto tudo \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o dos verdadeiros te\u00f3logos.<\/p>\n<p>3) Esforcei-me por acentuar, em todo este trabalho, somente a inevitabilidade do erro cometido a cada transposi\u00e7\u00e3o, quando algu\u00e9m vem de um plano inferior. A for\u00e7a de tal cr\u00edtico est\u00e1 nas express\u00f5es \u201cmeramente\u201d ou \u201cnada mais que\u201d. Ele v\u00ea todos os fatos, mas n\u00e3o o significado. \u00c9 com raz\u00e3o, portanto, que afirma ter examinado todos os fatos. Nada mais existe ali, exceto o significado. Ele \u00e9, por conseguinte, no que diz respeito aos dados que possui, como um animal. Com certeza, voc\u00ea j\u00e1 notou que a maioria dos c\u00e3es n\u00e3o compreende quando voc\u00ea aponta alguma coisa. Apontamos para um pouco de comida no ch\u00e3o: o c\u00e3o, em vez de olhar para o ch\u00e3o, cheira nosso dedo. Para ele, um dedo \u00e9 um dedo, nada mais. Em seu mundo, tudo \u00e9 fato; o significado n\u00e3o existe. Numa \u00e9poca em que predomina o realismo factual, encontramos muita gente que se induz deliberadamente esse tipo de mentalidade canina. Um homem que experimentou o amor dentro de si decidiria analis\u00e1-lo por fora e consideraria os resultados de sua an\u00e1lise mais verdadeiros que sua pr\u00f3pria experi\u00eancia. O c\u00famulo dessa cegueira volunt\u00e1ria \u00e9 visto nas pessoas que, possuindo consci\u00eancia, como o resto da humanidade, analisam e estudam o organismo humano como se ignorassem essa consci\u00eancia. Enquanto perdurar essa deliberada recusa em entender as coisas de cima, mesmo quando esse entendimento \u00e9 poss\u00edvel, \u00e9 in\u00fatil falar de qualquer triunfo definitivo sobre o materialismo. A cr\u00edtica feita a partir de um plano inferior contra qualquer experi\u00eancia, a desconsidera\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria do significado e a concentra\u00e7\u00e3o no fato sempre apresentar\u00e3o a mesma plausibilidade. Sempre haver\u00e1 provas, provas frescas, todos os meses, de que a religi\u00e3o \u00e9 apenas psicol\u00f3gica, a justi\u00e7a, mera autoprote\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica, simples economia, o amor, pura sensualidade e o pensamento, nada mais que bioqu\u00edmica do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>4) Por fim, entendo que o que se disse da transposi\u00e7\u00e3o traz nova luz \u00e0 doutrina da ressurrei\u00e7\u00e3o do corpo. Porque, de certo modo, nada \u00e9 imposs\u00edvel na transposi\u00e7\u00e3o. Por maior que seja a diferen\u00e7a entre esp\u00edrito e natureza, entre a alegria est\u00e9tica e o espasmo do diafragma, entre a realidade e o retrato, a transposi\u00e7\u00e3o, \u00e0 sua pr\u00f3pria maneira, sempre ser\u00e1 satisfat\u00f3ria. J\u00e1 disse que, no seu desenho, voc\u00ea s\u00f3 tem a brancura do papel para representar o sol, as nuvens, a neve, a \u00e1gua e a carne humana. Por um lado, como \u00e9 pobre e insuficiente! Mas, por outro, como \u00e9 perfeito. Se a sombra for bem feita, aquele peda\u00e7o de papel branco ser\u00e1, curiosamente, muito semelhante a um raio brilhante de sol; quase nos ser\u00e1 poss\u00edvel sentir frio ao ver a neve no papel e aquecer as m\u00e3os no desenho do fogo. Ser\u00e1 que n\u00e3o poder\u00edamos supor, por analogia at\u00e9 arrazoada, que n\u00e3o h\u00e1 experi\u00eancia espiritual t\u00e3o transcendente e sobrenatural ou vis\u00e3o da pr\u00f3pria divindade t\u00e3o \u00edntima e distante de todas as imagens e emo\u00e7\u00f5es que n\u00e3o encontre a sua devida correspond\u00eancia no plano sensorial? Que, n\u00e3o por uma nova sensa\u00e7\u00e3o, mas pelo incr\u00edvel fluir daquelas mesmas sensa\u00e7\u00f5es, temos agora com um significado, uma transposi\u00e7\u00e3o de valores, do qual n\u00e3o temos aqui a mais t\u00eanue id\u00e9ia?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Serm\u00e3o proferido por C.S. Lewis no domingo de Pentecoste na Capela do\u201d Mansfield College\u201d, em Oxford. Outra vers\u00e3o foi publicada em Peso de Gl\u00f3ria (Vida Nova, 1993 &#8211; relan\u00e7ado pela Editora Vida). Considero o texto indispens\u00e1vel para tradutores, professores e atores.<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[29097],"tags":[4783,29237,18,29303,5946,29346],"class_list":["post-312","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-outras-traducoes-relativas-a-lewis","tag-espiritualidade","tag-idade-media","tag-musica","tag-pentecoste","tag-ressurreicao","tag-sobrenatural"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/312","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=312"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/312\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=312"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=312"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=312"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}