{"id":292,"date":"2010-04-05T22:04:16","date_gmt":"2010-04-05T22:04:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=292"},"modified":"2010-04-05T22:04:16","modified_gmt":"2010-04-05T22:04:16","slug":"compromisso-com-os-classicos-entrevista-com-o-editor-luis-lorenzo-rivera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2010\/04\/05\/compromisso-com-os-classicos-entrevista-com-o-editor-luis-lorenzo-rivera\/","title":{"rendered":"Compromisso com os Cl\u00e1ssicos -Entrevista com o Editor Luis Lorenzo Rivera"},"content":{"rendered":"<p><strong>International Studies (IS):<\/strong> Primeiramente gostar\u00edamos que o senhor nos falasse um pouco de sua op\u00e7\u00e3o  por trabalhar como editor.<\/p>\n<p><strong>Luis Rivera (LR):<\/strong> \u00c9 uma longa  hist\u00f3ria. A editora Martins Fontes nasceu na cidade de Santos, e eu a  freq\u00fcentava do outro lado do balc\u00e3o. A Martins Fontes na \u00e9poca era s\u00f3  uma livraria. Eu era um comprador de livros. Est\u00e1vamos no in\u00edcio da  d\u00e9cada de 60. Em 1972, quando regressei da Europa, a Martins Fontes me  convidou para prestar assessoria numa primeira tentativa de criar uma  editora. Naquela altura, a Martins Fontes era uma grande distribuidora  de livros portugueses. \u00c0s vezes faziam-se em Portugal tiragens inteiras  para o Brasil, s\u00f3 para a Martins Fontes, de modo que muitas pessoas  pensavam que a Martins Fontes fosse uma editora portuguesa. A Martins  Fontes, nessa \u00e9poca, distribuia no Brasil as grandes editoras  portuguesas. \u00a0Quando a editora come\u00e7ou a crescer em seu projeto  editorial, ocorreu um fato curioso, secund\u00e1rio mas interessante.  Est\u00e1vamos na \u00e9poca da ditadura militar e aconteceu muitas vezes de  livros importados pela Martins Fontes serem devolvidos para Portugal  pela censura, sem argumenta\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que a censura brasileira que cuidava  dos livros importados n\u00e3o era a mesma que vigiava os livros publicados  no Brasil. Ent\u00e3o, estranhamente, muitos livros que n\u00e3o podiam ser  importados podiam ser impressos aqui. Alguns livros, como os de  Althusser, foram publicados a partir de filmes feitos aqui sobre a  edi\u00e7\u00e3o portuguesa.\u00a0No in\u00edcio publicamos alguns livros cujos diretos  adquir\u00edamos de edi\u00e7\u00f5es de Portugal. Come\u00e7amos a publicar livros na \u00e1rea  de psicologia. Foi nessa \u00e9poca que Waldir Martins Fontes me chamou para  trabalhar como assessor, sem hor\u00e1rio fixo, e aos poucos fui participando  cada vez mais do mundo editorial. Havia livros, como os de Carl Rogers,  que vendiam mais aqui do que em Portugal. Surgiu da\u00ed a id\u00e9ia de tamb\u00e9m  fazermos as edi\u00e7\u00f5es brasileiras desse e de outros autores. E come\u00e7amos  tamb\u00e9m a procurar t\u00edtulos fora das edi\u00e7\u00f5es portuguesas para formar o  nosso cat\u00e1logo. \u00a0T\u00ednhamos aquele interc\u00e2mbio com Portugal, mas  procur\u00e1vamos tamb\u00e9m editar outros livros. O primeiro livro cujos  direitos n\u00f3s compramos, um livro que vende bem at\u00e9 hoje, \u00e9 o de Th\u00e9r\u00e9se  Bertherat, <em>O corpo tem suas raz\u00f5es<\/em>. Isso foi em 1976. Este foi o  in\u00edcio. E publicar grandes cl\u00e1ssicos tornou-se uma preocupa\u00e7\u00e3o da  editora, gra\u00e7as \u00e0 sensibilidade e \u00e0 experi\u00eancia de Waldir Martins  Fontes. \u00a0Temos tamb\u00e9m uma linha de livros infantis e juvenis com grandes  autores e cl\u00e1ssicos, como Lewis, Tolkien, Ende, Andersen, etc.<\/p>\n<p><strong>IS: <\/strong>N\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de suic\u00eddio ou  de excessivo risco publicar livros como a <em>Paid\u00e9ia<\/em> ou autores  como Etienne Gilson, num pa\u00eds como o Brasil?<\/p>\n<p><strong> LR: <\/strong>N\u00e3o acho que seja um suic\u00eddio. Trata-se de grandes livros e  autores que, embora n\u00e3o vendam muito de uma s\u00f3 vez, vendem sempre  alguma coisa e marcam a personalidade do nosso cat\u00f3logo. Mas a pr\u00f3pria <em>Paid\u00e9ia<\/em> \u00e9 um livro que vende bem, porque \u00e9 adotado e os intelectuais sabem do  que se trata. Gilson j\u00e1 \u00e9 menos conhecido, mas para surpresa nossa j\u00e1 se  esgotou a primeira edi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se tornou um elefante branco.<strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>IS: <\/strong>A linha dos cl\u00e1ssicos \u00e9 o  diferencial da editora, portanto.<\/p>\n<p><strong>LR: <\/strong>\u00c9 uma grande responsabilidade  com o p\u00fablico editar um cl\u00e1ssico. A tradu\u00e7\u00e3o e a revis\u00e3o t\u00eam de ser  muito bem feitas. O cl\u00e1ssico merece um tratamento que o fa\u00e7a chegar  aut\u00eantico ao nosso tempo. Temos agora uma tradu\u00e7\u00e3o de <em>O suic\u00eddio<\/em>,  de Durkheim, e a minha orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 que esse tipo de tradu\u00e7\u00e3o seja a  mais fiel poss\u00edvel. Um tradutor ou um revisor n\u00e3o deve, sob o pretexto  de tornar o texto mais palat\u00e1vel, interpretar. Mas a minha obriga\u00e7\u00e3o  como editor \u00e9 oferecer ao p\u00fablico o autor tal qual ele \u00e9, para que o  leitor, os estudiosos, tenham a possibilidade de fazer as suas  interpreta\u00e7\u00f5es. Se o pensamento do autor est\u00e1 expresso em uma linguagem  menos fluente (para o tradutor), ser\u00e1 um risco muito grande interpretar o  texto para transformar-lhe a express\u00e3o. Caber\u00e1 aos leitores, aos  estudiosos, buscar a sua compreens\u00e3o,com base na tradu\u00e7\u00e3o fiel, mesmo  sendo um texto pesado. Essa \u00e9 uma decis\u00e3o editorial. E esse \u00e9 um direito  do leitor.<\/p>\n<p><strong>IS: <\/strong>Como se encontra a publica\u00e7\u00e3o  dos cl\u00e1ssicos hoje no mundo, de modo geral?<\/p>\n<p><strong>LR: <\/strong>As grandes editoras no mundo  podem publicar muito e vender cl\u00e1ssicos a um pre\u00e7o bastante acess\u00edvel,  como a Newton Tascabili, a Penguin, a Oxford etc. A id\u00e9ia de que  publicar cl\u00e1ssicos \u00e9 bom para a editora porque s\u00e3o obras de dom\u00ednio  p\u00fablico, e por isso n\u00e3o \u00e9 preciso pagar os direitos autorais, \u00e9 falsa.  As boas editoras que publicam os cl\u00e1ssicos fazem-no preocupando-se com  uma tradu\u00e7\u00e3o bem feita, uma boa revis\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o e uma competente  revis\u00e3o t\u00e9cnica al\u00e9m de um bom trabalho gr\u00e1fico, e isso \u00e9 caro.<\/p>\n<p><strong>IS: <\/strong>Voltando a falar da Martins  Fontes. Quando se consolidou a publica\u00e7\u00e3o de cl\u00e1ssicos como voca\u00e7\u00e3o da  editora?<\/p>\n<p><strong>LR: <\/strong>A evolu\u00e7\u00e3o da Martins Fontes  levou-a ao meio acad\u00eamico e a publicar livros que n\u00e3o s\u00e3o livros de  impacto, <em>best-sellers<\/em>.<strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>IS: <\/strong>Para optar por uma publica\u00e7\u00e3o de  um ensaio, de um livro mais intelectualizado, que crit\u00e9rios s\u00e3o  adotados pela editora? H\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em consultar o meio acad\u00eamico  brasileiro ou se levam em conta as tend\u00eancias editorais no exterior?<\/p>\n<p><strong>LR: <\/strong>Existem cl\u00e1ssicos b\u00e1sicos que  s\u00e3o lidos e estudados em todo o mundo. H\u00e1 outros que n\u00e3o s\u00e3o \u00f3bvios, e  espera-se uma informa\u00e7\u00e3o por parte da universidade.Outras vezes alguns  autores cl\u00e1ssicos s\u00e3o redescobertos ou analisados sob uma nova luz e  passam a ser objeto de estudo. Algumas vezes isso acontece aqui, outras  vezes s\u00e3o informa\u00e7\u00f5es que nos chegam de fora. E h\u00e1 tamb\u00e9m as  coincid\u00eancias. Estamos agora preparando uma edi\u00e7\u00e3o de Montaigne, e estou  vendo Montaigne cada vez mais citado. \u00c9 uma coincid\u00eancia  impressionante. No Brasil publicou-se Montaigne numa tradu\u00e7\u00e3o com um  texto belissimo de S\u00e9rgio Milliet, mas \u00e9 mais Milliet que Montaigne, e  n\u00e3o h\u00e1 outras edi\u00e7\u00f5es. \u00c9 inacredit\u00e1vel. Vamos publicar uma nova tradu\u00e7\u00e3o  que ser\u00e1 muito mais Montaigne. Pascal, n\u00e3o h\u00e1 tradu\u00e7\u00f5es novas de  Pascal. Estamos partindo da edi\u00e7\u00e3o de Louis Lafuma, que \u00e9 a mais  reconhecida. Estamos fazendo uma tradu\u00e7\u00e3o da <em>Rep\u00fablica<\/em>, uma de  Tuc\u00eddides, a partir do grego, e sempre temos de pagar pelos direitos dos  textos estabelecidos, o que \u00e9 mais do que justo.<\/p>\n<p><strong>IS: <\/strong>Qual foi a hist\u00f3ria da  publica\u00e7\u00e3o de C.S.Lewis e Tolkien pela Martins Fontes? Como se  determinou a conquista desses dois grandes autores da literatura  infanto-juvenil pela editora?<\/p>\n<p><strong>LR: <\/strong>Os livros de Tolkien eram  vendidos no Brasil numa vers\u00e3o feita em Portugal. Para a edi\u00e7\u00e3o  brasileira, tivemos de adquirir os direitos em acirrada concorr\u00eancia, e  fizemos uma excelente tradu\u00e7\u00e3o. Lewis foi mais tranq\u00fcilo. Um leitor  sugeriu que public\u00e1ssemos livros desse autor, que eram publicados por  uma editora religiosa. Fizemos um acordo com eles e adquirimos a  tradu\u00e7\u00e3o que foi inteiramente revisada.<\/p>\n<p><strong>IS: <\/strong>Duas perguntas numa s\u00f3: quais  foram suas maiores alegrias como editor e como v\u00ea o futuro da Martins  Fontes?<\/p>\n<p><strong>LR: <\/strong>Em 1986, a Martins Fontes  &#8220;deslanchou&#8221;, houve uma Bienal fant\u00e1stica, publicamos quadrinhos para  adultos com grandes ilustradores europeus e iniciamos v\u00e1rias s\u00e9ries,  duas delas s\u00f3 com autores brasleiros. Nessa Bienal lan\u00e7amos vinte e  tantos livros. Come\u00e7amos a perceber nessa \u00e9poca que os grandes editores  aqui e no exterior conheciam e respeitavam a nossa produ\u00e7\u00e3o e que a  imprensa come\u00e7ava a dar aten\u00e7\u00e3o para o nosso trabalho. Foi um momento de  grande alegria.<\/p>\n<p><strong>IS: <\/strong>E quanto ao futuro da editora?<\/p>\n<p><strong>LR: <\/strong>Estamos entrando tamb\u00e9m numa  linha de dicion\u00e1rios, e vamos aos poucos difundir mais nossas  publica\u00e7\u00f5es, levando em conta a import\u00e2ncia dos cl\u00e1ssicos. Cl\u00e1ssicos  como Arist\u00f3teles, por exemplo, que sempre volta quando a situa\u00e7\u00e3o moral  come\u00e7a a ficar complicada. Arist\u00f3teles volta para p\u00f4r a casa em ordem.  J\u00e1 quando as coisas est\u00e3o meio quadradas nasce uma sede por Plat\u00e3o e  Agostinho&#8230; \u00c9 claro que estou falando de modo caricatural \u00c9 isto que  tanto me atrai nos cl\u00e1ssicos: descobrir &#8220;novos&#8221; cl\u00e1ssicos e ver tamb\u00e9m o  modo como cada \u00e9poca explora os cl\u00e1ssicos. H\u00e1 momentos em que um  cl\u00e1ssico passa despercebido, como Santo Tom\u00e1s ou Hegel.<\/p>\n<p><strong>IS:<\/strong> &#8230;como agora, por exemplo,  redescobre-se Santo Isidoro, elegendo-o como padroeiro da inform\u00e1tica?<\/p>\n<p><strong>LR: <\/strong>Exatamente. E temos que editar  os cl\u00e1ssicos, n\u00e3o s\u00f3 porque as pessoas os conhecem, mas para que os  leitores os conhe\u00e7am. Os cl\u00e1ssicos s\u00e3o passos que a humanidade foi dando  na trajet\u00f3ria do homem para est\u00e1gios cada vez mais avan\u00e7ados de  civiliza\u00e7\u00e3o e humaniza\u00e7\u00e3o. Este caminho \u00e9 uma ladeira, \u00e9 uma \u00e1rdua  subida. Hoje, em nome do valor \u00fanico que prevalece \u2013 o lucro \u2013 quase n\u00e3o  se fazem mais livros para informar ou formar, mas para agradar, isto \u00e9,  vender. E o que pode agradar mais a quem est\u00e1 subindo do que imaginar a  vertigem da descida? Os cl\u00e1ssicos servem para lembrar os valores de  sempre, mesmo que n\u00e3o d\u00eaem ibope.\u00a0Fonte original: Portal da Editora  Mandruv\u00e1 <a href=\"http:\/\/www.hottopos.com\/harvard2\/o_compromisso_com_os_classicos_.htm\">http:\/\/www.hottopos.com\/harvard2\/o_compromisso_com_os_classicos_.htm<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista realizada em S\u00e3o Paulo, no dia 30.06.99, pelo professor Luiz Jean Lauand<br \/>\ne pela professora Aida Hanania. Edi\u00e7\u00e3o: Gabriel Periss\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[29092],"tags":[22840,29192,5701,29264,29299,11070],"class_list":["post-292","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas-gabriele-lewis-e-outros","tag-classicos","tag-editoria","tag-literatura","tag-martins-fontes","tag-paideia","tag-traducao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=292"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/292\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}