{"id":267,"date":"2010-04-05T20:57:00","date_gmt":"2010-04-05T20:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=267"},"modified":"2010-04-05T20:57:00","modified_gmt":"2010-04-05T20:57:00","slug":"j-r-r-tolkien-e-c-s-lewis-um-dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2010\/04\/05\/j-r-r-tolkien-e-c-s-lewis-um-dialogo\/","title":{"rendered":"J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis: um di\u00e1logo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">Gabriele Greggersen<\/p>\n<p>Falar de uma<em> amizade<\/em> como a de Tolkien e Lewis hoje, exige um\u00a0artigo \u00e0 parte. Primeiro, porque n\u00e3o se sabe mais muito bem o que vem a ser isto e segundo, pelos bons frutos que este di\u00e1logo trouxe para o legado cultural da humanidade e particularmente para o mundo crist\u00e3o. Como diz\u00edamos\u00a0em um livro sobre a \u00e9tica de <strong>O Senhor dos An\u00e9is: <\/strong>Da Fantasia \u00e0 \u00c9tica &#8211; (Editora Ultimato), muitos leitores ignoram que o que os uniu foi\u00a0sua f\u00e9\u00a0crist\u00e3,\u00a0bem como da contribui\u00e7\u00e3o de ambos para a cultura em geral e particularmente, para a filologia (no caso de Tolkien) e para a literatura (no caso de Lewis).\u00a0Enquanto C.S. Lewis \u00e9 mais conhecido\u00a0no meio crist\u00e3o, tanto protestante, quanto cat\u00f3lico, a profunda f\u00e9 de Tolkien n\u00e3o \u00e9 muito levada em conta por muitos dos seus f\u00e3s e f\u00e3-clubes, que o veneram somente pelas riqueza das suas fantasias, l\u00ednguas e mundos que criou. Na verdade, temos fortes raz\u00f5es para acreditar que\u00a0Lewis foi o melhor amigo de Tolkien em Oxford, embora a amizade de Lewis tivesse se dividido por algum tempo entre Tolkien e outro autor, Charles Williams, por quem Tolkien n\u00e3o tinha tanto apre\u00e7o, e com a sua esposa, Joy, com quem se casou\u00a0j\u00e1 na proximidade dos sessenta\u00a0anos de idade e que certamente tamb\u00e9m contava entre suas melhores amigas (Lewis tinha v\u00e1rias amigas mulheres, tamb\u00e9m, coisa que para um intelectual daquela \u00e9poca era bastante incomum). De fato ambos tinham muito em comum, fato\u00a0que Lewis sintetiza em sua autobiografia como o esfor\u00e7o pela \u201cquebra de preconceitos\u201d, particularmente entre os crist\u00e3os, para quem eles caem particularmente mau:<\/p>\n<blockquote><p>A amizade com J.R.R. Tolkien&#8230; ficou marcada pela quebra de dois velhos preconceitos. Assim que eu ingressei neste mundo (o de Oxford) recomendaram-me (implicitamente) nunca confiar em um papista e quando ingressei novamente na Faculdade de L\u00edngua Inglesa recomendaram-me (explicitamente) jamais confiar nos fil\u00f3logos. E Tolkien se enquadrava em ambas as coisas.[1]<\/p><\/blockquote>\n<p>Podemos dizer ainda que os maiores preconceitos que ambos foram felizes em<em> quebrar<\/em> s\u00e3o contra a imagina\u00e7\u00e3o e contra a <em>articula\u00e7\u00e3o de f\u00e9 e raz\u00e3o<\/em> (antiqu\u00edssimo problema da humanidade). Na verdade eles se empenhavam pela articula\u00e7\u00e3o de tudo isto: devo\u00e7\u00e3o crist\u00e3, sensibilidade art\u00edstica e compet\u00eancia acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Tanto Tolkien quanto Lewis defendiam que o profissional, seja\u00a0das letras, seja\u00a0da educa\u00e7\u00e3o ou outra &#8220;ci\u00eancia humana&#8221; deve se valer de v\u00e1rias \u00e1reas do conhecimento na sua busca pela verdade, n\u00e3o apenas pela via da raz\u00e3o, mas tamb\u00e9m usando um importante mediador: a <em>imagina\u00e7\u00e3o<\/em>. Com isto, eles se colocavam contra o pensamento predominante na sua \u00e9poca, pautada pelo racionalismo e iluminismo acad\u00eamico. \u00c9 preciso considerar ainda a rivalidade que pode haver entre um campo \u201cpr\u00e1tico\u201d como a cr\u00edtica liter\u00e1ria, representada por Lewis, e a filologia, considerada mais anal\u00edtica. Assim, ao inv\u00e9s de separa-los, a especialidade dos dois intelectuais redundou em uma importante complementa\u00e7\u00e3o e no incentivo \u00e0 efetiva <em>interdisciplinaridade<\/em>, beirando a<em> transdisciplinaridade<\/em>.<\/p>\n<p>Assim eles faziam diferen\u00e7a, ficando conhecidos como os \u201ccrist\u00e3os de Oxford\u201d. Na verdade, eles faziam cr\u00edticas aos chamados \u201ccientistas crist\u00e3os\u201d, que seguiam os passos dos n\u00e3o crist\u00e3o em termos de racionalismo e positivismo. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o do mal e do sofrimento, por exemplo, Lewis os considerava , de uma maneira geral, demasiadamente simplistas, quando tentavam explica-los como meras \u201cilus\u00f5es\u201d. Se assim fosse, diz Lewis tal ilus\u00e3o \u00e9 que seria uma \u201cmonstruosidade\u201d e o que \u00e9 pior, \u201cpermitida por Deus.\u201d[2]<\/p>\n<p>Certamente os males n\u00e3o aparecem desta forma na obra de nenhum dos dois autores. O sofrimento tamb\u00e9m se destaca como algo realmente existente e, de fato, assustador para alguns, embora, por outro lado, ele n\u00e3o tenha subst\u00e2ncia. No fundo o sofrimento, que \u00e9 at\u00e9 mais natural ao crist\u00e3o, do que ao n\u00e3o-crist\u00e3o, que pode fazer um estrago para se defender dele, \u00e9 um grande mist\u00e9rio, que exige f\u00e9 antes de tudo.<br \/>\nOutra cr\u00edtica que ambos faziam aos crist\u00e3os na academia era a suposi\u00e7\u00e3o de que o mal poderia ter sido \u201ccriado\u201d por Satan\u00e1s, ou que ele fosse capaz de \u201cinventar\u201d alguma coisa boa. Tudo o que ele sabe fazer \u00e9 imitar e imitar mal. Com estes conceitos fortes e b\u00edblicos, todos os cr\u00edticos concordam que SenA, jamais poderia ser considerada alguma \u201chistorinha para ninar\u201d sobre um mundo \u201ccor de rosa\u201d. O mesmo, dir\u00edamos, vale para as Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia. O mal existe mesmo e \u00e9 feio. E sua desvantagem \u00e9 que s\u00f3 o que ele sabe fazer \u00e9 corromper e distorcer o que j\u00e1 existe. Neste sentido ele pode ser comparado mais a uma doen\u00e7a e n\u00e3o, do que a algum estado permanente ou \u201cnormal.\u201d Esta \u00eanfase antimanique\u00edsta \u00e9 fundamental para entendermos ambos os autores e suas obras.<br \/>\nAl\u00e9m da preocupa\u00e7\u00e3o com a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e cristianismo e a quest\u00e3o do bem e do mal, que aprofundaremos mais adiante, o que unia os amigos era o seu empenho em serem bons escritores e bons cr\u00edticos, at\u00e9 mesmo do cristianismo. Para al\u00e9m do interesse acad\u00eamico, eles mostravam tamb\u00e9m um forte interesse art\u00edstico comum, particularmente pela literatura. Mas o que coroava mesmo a sua amizade \u00e9 o teol\u00f3gico. No caso de Tolkien, a contribui\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e do campo da filologia fosse mais reconhecida do que a teol\u00f3gica e acad\u00eamica. Entretanto, suas cartas e depoimentos dos Inklings revelam a import\u00e2ncia de suas convic\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p>Apesar do clima de disputa reinante na Oxford dos tempos de Tolkien e Lewis e de ambos terem sido at\u00e9 certo ponto v\u00edtimas de ci\u00fames e preconceitos pelo sucesso de suas obras de fic\u00e7\u00e3o e pela coragem com que se referiam a temas religiosos, eles n\u00e3o se deixavam intimidar facilmente. De acordo com Carpenter[3], Tolkien mesmo n\u00e3o escapou de revelar certa \u201cinveja\u201d da obra de Lewis e ci\u00fame de certas amizades com autores de que ele n\u00e3o gostava muito. E a sua esposa, Edith, freq\u00fcentemente manifestava ci\u00fames em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio Lewis, que sempre teve uma personalidade cativante. Entretanto, foi certamente a amizade entre os dois que inspirou grande parte do livro, dedicado por Lewis ao tema amor, <strong>Os Quatro Amores<\/strong> [4], particularmente no que tange \u00e0 amizade.<\/p>\n<p>Sua postura crist\u00e3 \u00e9 que permitia que ambos autores resolvessem suas diferen\u00e7as de maneira tranquila, at\u00e9 mesmo as religiosas. Como se sabe, Tolkien manifestava certo ressentimento contra a igreja anglicana, a igreja da Inglaterra, por ter-se desviado do lar original do cristianismo, enquanto Lewis insistia que, ao se converter, sentia-se chamado a \u201cvoltar\u201d ao seu lar original, a Igreja da Inglaterra.[5]<\/p>\n<p>Para al\u00e9m destas pequenas diferen\u00e7as, por\u00e9m Tolkien e Lewis procuravam complementar-se tanto nos seus esfor\u00e7os acad\u00eamicos e debates teol\u00f3gicos. Enquanto Lewis escrevia hist\u00f3rias paralelamente aos seus livros teol\u00f3gicos, Tolkien empenhava-se por criar uma mitologia para a Inglaterra com fundo inevitavelmente crist\u00e3o. Enquanto Lewis denunciava o que ele chamava de \u201co processo lingu\u00edstico inconsciente da degrada\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de boas palavras e embotamento de distin\u00e7\u00f5es \u00fateis\u201d.[6], Tolkien criava as suas pr\u00f3prias palavras e l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Em Studies in Words, Lewis prova que tinha consci\u00eancia de que nenhuma palavra humana \u00e9 eterna. Como tudo o que \u00e9 temporal, a linguagem humana tende ao caos e \u00e0 dispers\u00e3o do seu sentido. Pode-se dizer assim, que as l\u00ednguas inventadas por Tolkien tinham esta fun\u00e7\u00e3o de resgate dos sentidos perdidos da nossa pr\u00f3pria linguagem. Estas preocupa\u00e7\u00f5es em comum \u00e9 que permitiam o di\u00e1logo entre os dois pensadores, que visivelmente desenvolveram um profundo respeito um pelo outro, inclusive por seu campo acad\u00eamico, como se v\u00ea nestas palavras de Lewis:<\/p>\n<p>Ouvi dizer que existe gente que gostaria mais que o estudo da literatura fosse completamente livrado da filologia; isto \u00e9, do amor e conhecimento das palavras. \u00c9 prov\u00e1vel que nem exista gente assim. Mas, se existir ent\u00e3o, s\u00f3 podem ser lun\u00e1ticos, ou candidatos ao tratamento de&#8230; alguma desilus\u00e3o obstinada e fechada a sete chaves.[7]<\/p>\n<p>Mas o maior sinal de respeito de Lewis em rela\u00e7\u00e3o ao amigo e sua especialidade \u00e9 o her\u00f3i de seu trilogia espacial, <strong>Longe do Planeta Silencioso<\/strong>, <strong>Perelandra <\/strong>e <strong>Esta For\u00e7a Medonha<\/strong>, o fil\u00f3logo de Cambridge Randsom, numa clara homenagem ao amigo.<\/p>\n<p>Tolkien por sua vez, tamb\u00e9m faz homenagens ao amigo, neste coment\u00e1rio por exemplo: \u201cA amizade com Lewis \u00e9 compensat\u00f3ria em muitos aspectos: al\u00e9m do prazer constante, o contato com um homem ao mesmo tempo honesto, corajoso, intelectual \u2013 um acad\u00eamico, um poeta e um fil\u00f3sofo \u2013 e, depois de sua longa peregrina\u00e7\u00e3o, finalmente um amante do nosso Senhor \u2013 fez-me um enorme bem.\u201d[8] E n\u00e3o se tratava de nenhuma admira\u00e7\u00e3o idealista ou acr\u00edtica. Apesar do respeito que Lewis tinha pelos fil\u00f3logos, ele tamb\u00e9m reconhecia os seus limites, como se v\u00ea nesta coment\u00e1rio:<\/p>\n<blockquote><p>O sonho do fil\u00f3logo \u00e9 de mapear todos os sentidos de uma palavra, gerando uma \u00e1rvore sem\u00e2ntica perfeita; cada ramo remetendo a um galho, cada galho, a um tronco. Isto m detrimento do fato de que seja algo que raramente possa ser feito com perfei\u00e7\u00e3o; afinal toda pesquisa redunda na incerteza.[9]<\/p><\/blockquote>\n<p>A prop\u00f3sito, esta incerteza n\u00e3o se encontra somente na ci\u00eancia, mas at\u00e9 nos jornais, como t\u00e3o bem notaram fil\u00f3sofos famosos como os integrantes da Escola de Frankfurt, inventora da \u201cteoria cr\u00edtica\u201d e uma das criadoras da teoria da chamada \u201cind\u00fastria cultural\u201d ou Foucault ou Maffesoli, que se interessaram pelo mesmo tema. Para Tolkien a verdade usualmente se encontra nos livros e n\u00e3o, nos jornais.[10] Tanto Tolkien, quanto Lewis faziam severas cr\u00edticas \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es do totalitarismo da tecnologia, que ao inv\u00e9s de suscitar reflex\u00e3o filos\u00f3fica como \u00e0 semelhan\u00e7a da leitura, banaliza a realidade e embrutece as pessoas. Assim a filosofia \u00e9 remetida aos fil\u00f3sofos e representante das \u201cci\u00eancias humanas\u201d, entendidas como as \u00fanicas a terem a compet\u00eancia e o direito de filosofar. E uma das melhores formas de manifesta\u00e7\u00e3o desta cr\u00edtica est\u00e1 em SenA como bem coloca Chance:<\/p>\n<blockquote><p>\u00c0 semelhan\u00e7a de Foucault, Tolkien, da mesma forma que o seu companheiro dos Inklings, C.S. Lewis, questionava a validade de se eleger as ci\u00eancias humanas como representante da raz\u00e3o da sua gera\u00e7\u00e3o&#8230;. Tolkien manifestava esta cr\u00edtica pela via da fic\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de institui\u00e7\u00f5es como Sauron, o Senhor do Escuro, e os seus seguidores associados ao territ\u00f3rio da morte, Mordor, que ele governava de maneira t\u00e3o tirana. Todos os tr\u00eas pensadores levantam obje\u00e7\u00f5es contra o esp\u00edrito combativo das tecnologias aplicadas ao governo das na\u00e7\u00f5es do mundo p\u00f3s-iluminista.[11]<\/p><\/blockquote>\n<p>Como tantos outros acad\u00eamicos e escritores, (J\u00falio Verne, Monteiro Lobato, Cervantes, Huxley, Guimar\u00e3es Rosa, Orwell) Tolkien e Lewis descobriram que a via da imagina\u00e7\u00e3o e da fic\u00e7\u00e3o \u00e9 a melhor para se dizer o que tem que ser dito, fazendo a cr\u00edtica do seu tempo e contribuindo, assim, para a transforma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tolkien e Lewis tamb\u00e9m mantinham o saud\u00e1vel h\u00e1bito de fazer a cr\u00edtica \u00e0s suas respectivas obras de fic\u00e7\u00e3o, em particular ou na roda de amigos, os mencionados <em>Inklings<\/em>. De acordo com Lewis, eles costumavam reunir-se para discutir literatura, mas acabavam fazendo algo \u201cbem melhor\u201d[12], isto \u00e9, teologia. Lewis mostrava-se cr\u00edtico at\u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 rea\u00e7\u00e3o do amigo \u00e0s cr\u00edticas em geral. Diz ele que Tolkien tinha duas rea\u00e7\u00f5es a elas \u201c ou ele come\u00e7a tudo de novo desde o come\u00e7o, ou ele n\u00e3o liga a m\u00ednima.\u201d[13] Evidentemente ent\u00e3o a amizade n\u00e3o era sem atritos, mas qual amizade verdadeira e sincera poderia ser?<\/p>\n<p>O que interessa para os nossos efeitos aqui \u00e9 destacar que a amizade entre Lewis e Tolkien contribuiu muito para lan\u00e7ar pontes importantes para o di\u00e1logo, n\u00e3o somente entre os campos da lingu\u00edstica e da literatura, mas tamb\u00e9m entre estes campos e outras \u00e1reas das ci\u00eancias humanas tais como a filosofia, a hist\u00f3ria, a educa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 a teologia.<\/p>\n<p>No mencionado ensaio sobre SenA, Lewis arrola algumas raz\u00f5es, porque considera a obra \u201cindispens\u00e1vel\u201d, notando, em primeiro lugar, que n\u00e3o se trata de uma continua\u00e7\u00e3o de o Hobbit. Pelo contr\u00e1rio, o Hobbit \u00e9 que \u00e9 uma tentativa de adapta\u00e7\u00e3o de SenA para crian\u00e7as. A inten\u00e7\u00e3o de O Hobbit era de apresentar o jeito de ser e viver \u201cdom\u00e9stico\u201d, quase vulgar e an\u00e1rquico, de boa \u00edndole, apesar da apar\u00eancia n\u00e3o muito atraente, destes seres peculiares, que, segundo Lewis, s\u00f3 um ingl\u00eas seria capaz de criar. J\u00e1 em SenA, a \u00eanfase est\u00e1 no contraste entre os hobbits e o seu destino. Sua exist\u00eancia depende de poderes insuspeitos e surpreendentes. O mais ir\u00f4nico de tudo \u00e9 que o her\u00f3i principal deste drama \u00e9pico \u00e9 hobbit, o mais fr\u00e1gil de todos os seres. Da\u00ed que Lewis tamb\u00e9m chamasse SenA de \u201cromance her\u00f3ico\u201d, o que n\u00e3o representou para ele um retrocesso, como para certos cr\u00edticos, e sim, um avan\u00e7o. Trata-se de um exemplar \u00fanico da capacidade de sub-cria\u00e7\u00e3o de Tolkien, pela qual ele recria o mundo todo. O livro \u00e9 assim reservado a leitores \u201cpredestinados\u201d. Na verdade, conclui Lewis, SenA \u00e9 um mito, que n\u00e3o serve como meio de escape da realidade, como julgam alguns, mas como pura e saud\u00e1vel \u201cinvencionice\u201d e consciente das ilus\u00f5es da vida ordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>O elemento de nostalgia e ang\u00fastia presente na obra, pode n\u00e3o ter efeito muito relaxante para o leitor, e dir\u00edamos que isto se aplica ainda mais ao filme, mas ele pode (esta \u00e9 precisamente sua inten\u00e7\u00e3o), sim, ser revigorador, trazendo-lhe novas esperan\u00e7as em meio \u00e0s suas pr\u00f3prias ang\u00fastias. Assim, a arte \u201cmitopoeica\u201d de Tolkien p\u00f5e em jogo emo\u00e7\u00f5es, leveza, virtudes e horizontes distantes, procurando retratar o car\u00e1ter paradoxal da vida humano situada que est\u00e1 neste v\u00e3o intermedi\u00e1rio entre a ilus\u00e3o e o estar desiludido.<\/p>\n<p>Naquele ensaio, Lewis contesta ainda as acusa\u00e7\u00f5es de dualismo na obra, como veremos mais detalhadamente a seguir, pois todos os personagens apresentam bons e maus aspectos misturados entre si. N\u00e3o h\u00e1 pessoas, nem realidades \u201cpretas\u201d ou \u201cbrancas\u201d. O melhor exemplo dessa mistura \u00e9 <em>Gollum<\/em>. Contra a acusa\u00e7\u00e3o de dualismo pesa ainda o fato de as coisas n\u00e3o acontecerem de forma aleat\u00f3ria, e nem t\u00e3o pouco previs\u00edvel em SenA. N\u00e3o h\u00e1 relativismo, pois a \u00eanfase est\u00e1 na provid\u00eancia divina que conduz tudo nos bastidores, mesmo que nem sempre de maneira vis\u00edvel. Lewis diz que Tolkien consegue tornar vis\u00edveis as almas invis\u00edveis, trazendo para fora o que est\u00e1 dentro do cora\u00e7\u00e3o. Desta forma, ele defende consistentemente a ideia de que a vida humana tem, de fato, este elemento her\u00f3ico e mitol\u00f3gico, que s\u00f3 pode ser captado e devidamente \u201cdegustado\u201d pelos que t\u00eam a simplicidade de uma crian\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o, como veremos a seguir.<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><br \/>\n[1] Duriez, <em>The Lewis Handbook<\/em>, Grand Rapids (MI); Baker Book, 1990, 214.<br \/>\n[2] Lewis<em>, Letters<\/em>, Nova Iorque: Harvest, 1993, 440 (Carta de 1954).<br \/>\n[3] Cf. Carpenter, <em>J.R.R. Tolkien: a Biography<\/em>, London: Haper Collins, 2002, 198 e 202.<br \/>\n[4] Lewis, <em>Os Quatro Amores<\/em>, 2a. ed., S\u00e3o Paulo: Mundo Crist\u00e3o, 1986.<br \/>\n[5] Cf. Carpenter; 2002, 202 ss. Veja tamb\u00e9m Lewis, <em>The Pilgrim\u00b4s Regress<\/em>, Grand Rapids (MI): 1958.<br \/>\n[6] Lewis<em>, God In The Dock<\/em>, Grand Rapids (MI), Eerdmans, 1970, 333.<br \/>\n[7] Lewis, <em>Studies In Words<\/em>. Cambridge: Cambridge University Press, 1960, 3.<br \/>\n[8] Carpenter, 2002, 198-9.<br \/>\n[9] Lewis<em>, C.S. Studies In Words<\/em>. Cambridge: Cambridge University Press, 1960, 9.<br \/>\n[10] Carpenter, 2002, 158.<br \/>\n[11] Chance, <em>Lord of the Rings<\/em>, Kentucky: The University Press of Kentucky, 2001, 20-21.<br \/>\n[12] Lewis, <em>Letters<\/em>, 1993, 363 (Carta de 1941).<br \/>\n[13] Idem, 481 (Carta de 1959).<\/p>\n<p>Abrevia\u00e7\u00f5es SenA &#8211; <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A amizade e di\u00e1logo mantidos entre Tolkien e Lewis provam que a interdisciplinaridade, esta palavra da moda nos meios educacionais, acontece antes de tudo entre pessoas que se relacionam em um n\u00edvel de profundidade e honestidade como Lewis e Tolkien. O di\u00e1logo entre eles abriu oportunidades concretas para o combate a diversos preconceitos e articula\u00e7\u00e3o de campos fragment\u00e1rios do conhecimento na modernidade, inclusive contra Terra M\u00e9dia.<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[29083,29086,29087],"tags":[10586,7636,22828,29208,29216,12754,5701,29290,5885,6019],"class_list":["post-267","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-de-gabriele","category-artigos-em-portugues","category-assuntos-relativos-a-biografia-do-autor","tag-amizade","tag-etica","tag-fantasia","tag-fe-e-razao","tag-filologia","tag-imaginacao","tag-literatura","tag-o-senhor-dos-aneis","tag-preconceito","tag-sofrimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/267","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=267"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/267\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}