{"id":205,"date":"2010-03-27T21:48:58","date_gmt":"2010-03-27T21:48:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cslewis.com.br\/?p=205"},"modified":"2010-03-27T21:48:58","modified_gmt":"2010-03-27T21:48:58","slug":"entrevista-a-bloggeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2010\/03\/27\/entrevista-a-bloggeiro\/","title":{"rendered":"Entrevista a bloggeiro"},"content":{"rendered":"<p><strong>1. De acordo com artigos seus, as obras de C.S. Lewis eram pouco conhecidas no Brasil, muitas delas nem sequer foram traduzidas. Na \u00e9poca do lan\u00e7amento do filme \u201cO Le\u00e3o, a feiticeira e o guarda-roupas\u201d a sua expectativa era a invers\u00e3o dessa situa\u00e7\u00e3o. Hoje, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que ela mudou?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, gra\u00e7as a Deus e \u00e0 vis\u00e3o de algumas editoras, como a Martins Fontes, que resolveu comprar boa parte dos direitos autorais e investir na publica\u00e7\u00e3o de novas tradu\u00e7\u00f5es ou vers\u00f5es revistas de tradu\u00e7\u00f5es existentes, como no caso de <em>As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em>, traduzida em grande parte pelo saudoso acad\u00eamico das letras Paulo Mendes Campos. Outras editoras seguiram no v\u00e1cuo, com livros do pr\u00f3prio autor (Editora Vida) ou sobre o autor (Editora Vida Nova e Nova Fronteira, entre outras). \u00c9 claro que o lan\u00e7amento do filme de N\u00e1rnia nos cinemas aqueceu esse mercado. Este ano tenho expectativas ainda maiores, pois teremos provavelmente Lewis em dose dupla: <em>Pr\u00edncipe Caspian<\/em> e <em>Screwtape Letters<\/em> (<em>Cartas de um Diabo a seu Aprendiz<\/em> \u2013 Editora Martins Fontes). H\u00e1 de se mencionar ainda o esfor\u00e7o da Editora Mundo Crist\u00e3o de ter encabe\u00e7ado essa onda, com a tradu\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de sua autobiografia, <em>Surpreendido pela Alegria<\/em>, antes mesmo da investida da Martins Fontes. Sua \u00faltima \u201ccartada\u201d foi a edi\u00e7\u00e3o centen\u00e1ria do cl\u00e1ssico de um autor que teve forte influ\u00eancia sobre Lewis (e tantos outros grandes pensadores\/autores) G.K. Chesterton. Em <em>Ortodoxia<\/em>, ele dedica um cap\u00edtulo inteiro ao que chamava de <em>Elfol\u00e2ndia<\/em>, ou mundo dos contos de fada. Tamb\u00e9m tenho dado v\u00e1rias palestras e visto o interesse pelo autor aumentar no meio crist\u00e3o e n\u00e3o crist\u00e3o. Meu site (<a href=\"http:\/\/cslewis.com.br\/\">http:\/\/cslewis.com.br<\/a>), em que ofere\u00e7o diversos cursos <em>on line<\/em> sobre Lewis e assuntos relacionados, tem sido prova disso.<\/p>\n<p><strong>2. O fato da Editora Martins Fontes, secular, ter comprado os direitos das Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia e o lan\u00e7amento da s\u00e9ria em cinema pela Walt Disney causa certa surpresa, por essas empresas demonstrarem interesse por um conte\u00fado crist\u00e3o. Qual a sua an\u00e1lise sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p>Ora, C.S. Lewis nunca foi propriedade exclusiva dos crist\u00e3os (gra\u00e7as a Deus de novo rsrs). Ele desperta interesse no meio secular por algo em que muitos autores de livros propriamente evang\u00e9licos ou \u201cdevocionais\u201d costumam deixar a desejar: profissionalismo e qualidade liter\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 preciso ser crist\u00e3o para apreciar essas virtudes. \u00c9 claro que o interesse de mercado tamb\u00e9m conta. Muitos crist\u00e3os ignoram o sucesso de vendagens dos livros de Lewis no mundo todo e entre pessoas de diferentes contextos religiosos. De certa forma, a Martins Fontes inspirou-se na editora americana, igualmente secular, que comprou os direitos de Lewis nos EUA provocando v\u00e1rios protestos da ala crist\u00e3.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que todo o processo de passagem do filme aos cuidados da Disney foi preparado e cuidadosamente acompanhado pela equipe da Walden Media (crist\u00e3) que j\u00e1 estava com as filmagens bastante avan\u00e7adas. Houve um debate acalorado entre os crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os em torno da preserva\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o dos conte\u00fados propriamente teol\u00f3gicos. Essa preocupa\u00e7\u00e3o foi aliviada pelo fato de o filho de Joy, David Gresham, que acompanha de perto tudo o que se escreve ou filma a respeito do seu padrasto por todo o mundo, ter sido eleito co-diretor. E acho que o resultado foi mais do que satisfat\u00f3rio para os crist\u00e3os e n\u00e3o-crist\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>3. A estr\u00e9ia do segundo filme, <em>Pr\u00edncipe Caspian<\/em>, est\u00e1 prevista para maio. Qual a sua expectativa para esse filme? Qual a principal mensagem desse livro da s\u00e9rie?<\/strong><\/p>\n<p>Espero que ele fa\u00e7a um sucesso equivalente ao livro, um dos prediletos da s\u00e9rie de N\u00e1rnia, que s\u00f3 perde para <em>O<\/em> <em>Cavalo e seu menino<\/em>. \u00c9 claro que, como em todo conto de fadas, voc\u00ea pode enxergar v\u00e1rias \u201cmorais\u201d. Mas a que se destaca para mim \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o precisamente sobre a import\u00e2ncia dos contos e sua moral geral. Como destacam v\u00e1rios estudiosos dos contos, n\u00e3o se trata de uma moral feita ou descart\u00e1vel ou imposta, mas uma moral da <em>a\u00e7\u00e3o<\/em>. A pergunta que um bom conto cl\u00e1ssico nos leva a fazer \u00e9 \u201cComo devem as coisas acontecer no universo?\u201d<\/p>\n<p>Veja, se Caspian n\u00e3o tivesse dado ouvidos \u00e0s hist\u00f3rias de sua bab\u00e1 e ao seu s\u00e1bio professor, Dr. Corn\u00e9lio, considerando-as meros \u201ccontos da carochinha\u201d, como queria o rei Miraz, ele provavelmente teria morrido e todo o mundo de N\u00e1rnia e dos narnianos estariam em perigo. Mas al\u00e9m dessa moral que me cai nos olhos, como educadora, temos valiosas li\u00e7\u00f5es de solidariedade, coragem, esperan\u00e7a e mesmo, de humor, como ingredientes essenciais para o \u201cbom combate\u201d. E temos li\u00e7\u00f5es ainda mais espec\u00edficas, para quem trabalha em organiza\u00e7\u00f5es, tais como lideran\u00e7a, tomada de decis\u00e3o, assertividade; administra\u00e7\u00e3o do tempo e sabedoria.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>4. No artigo<\/strong> \u201c<strong>Mais al\u00e9m da magia das Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia\u201d, voc\u00ea afirma que as Cr\u00f4nicas muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o bem compreendidas e aceitas pelo p\u00fablico adulto. Explique por qu\u00ea.<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um problema no mundo moderno: achar que contos como esse interessam apenas a adultos. Se observarmos a hist\u00f3ria dos contos de fada, descobriremos que eles se originaram de hist\u00f3rias que eram censuradas para crian\u00e7as, e com uma moral adulta, do tipo \u201cmil e uma noites\u201d ou \u201cAli bab\u00e1 e os quarenta ladr\u00f5es\u201d. Ningu\u00e9m diria hoje que eles s\u00e3o pr\u00f3prios para crian\u00e7as. O que ocorreu foi uma nega\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica do imagin\u00e1rio como sin\u00f4nimo de \u201cilus\u00f3rio\u201d e \u201cing\u00eanuo\u201d, portanto pr\u00f3prio para crian\u00e7as. Assim, se voc\u00ea entra numa livraria ou biblioteca hoje, por exemplo, \u00e9 na sess\u00e3o infantil e juvenil que ir\u00e1 encontrar as <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em>, os contos de fada cl\u00e1ssicos e \u00e0s vezes at\u00e9 <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em>. Mas sinto que nos \u00faltimos anos isso j\u00e1 tem mudado, com um movimento de resgate do imagin\u00e1rio e questionamento do racionalismo cientificista que predominou por todo o per\u00edodo moderno. Fen\u00f4menos como Paulo Coelho, Dan Brown, Rowling (Harry Potter) e Pullman t\u00eam apontado para isso. Hoje, metade dos filmes que se oferecem aos expectadores do cinema t\u00eam fundo imaginativo ou fant\u00e1stico ou surreal. Nesse sentido, o pensamento p\u00f3s-moderno pode eventualmente representar uma oportunidade para resgatarmos o sentido e moral mais profundos dos contos de fada para o mundo adulto. Em suma, o adulto tem dificuldade por conta de seus preconceitos racionalistas. Para entender os contos de fada ele precisa largar a mania de querer parecer adulto. Essa mania fica bem representada na figura de Susana, a \u00fanica que deixa de participar das aventuras em N\u00e1rnia nas \u00faltimas hist\u00f3rias, porque preferiu fazer uma \u201cviagem de verdade\u201d com os seus pais.<\/p>\n<p><strong>5. Qual a sua opini\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cr\u00edticas feitas ao fato de Lewis usar figuras como feiticeira, animais falantes e outros elementos em sua narrativa? Isso prejudica a mensagem transmitida no texto das Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia?<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Quem o criticava muito por essa \u201csalada\u201d que ele faz com as figuras mitol\u00f3gicas e o besti\u00e1rio foi seu amigo de vida inteira, J.R.R. Tolkien, ainda no processo de cria\u00e7\u00e3o das <em>Cr\u00f4nicas<\/em>. Isso o irritava tanto, porque ele era fil\u00f3logo e gostava de certa ordem no mundo imagin\u00e1rio. Tanto que inventou verdadeiras geografias, hist\u00f3rias e v\u00e1rias l\u00ednguas imagin\u00e1rias. O que eu fa\u00e7o, quando me deparo com esse tipo de obje\u00e7\u00e3o \u00e9 seguir o exemplo do pr\u00f3prio Lewis, dando de ombros e dizendo: \u201cTem Papai noel e tem feiticeira, sim, e da\u00ed? Al\u00f4o, estamos no mundo imagin\u00e1rio!!! Nele tudo \u00e9 permitido, desde que a moral b\u00e1sica fique clara e implicada. Cad\u00ea o seu senso de humor?\u201d E provavelmente tamb\u00e9m desconfiaria que meu interlocutor (ou interlocutora) \u00e9 demasiado adulto e nunca voou pelas Terras do Nunca.<\/p>\n<p><strong>6. No artigo \u201cPor que C. S. Lewis?\u201d voc\u00ea diz que sempre teve interesse pela disputa entre academia e igreja, relatando que teve alguns problemas nos dois meios. Fale um pouco sobre essa quest\u00e3o e como esses dilemas foram resolvidos.<\/strong><\/p>\n<p>Se eu me interessei ou fui obrigada a me interessar, por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias \u00e9 question\u00e1vel. Mas admito que n\u00e3o ficaria falando tanto da quest\u00e3o, se n\u00e3o estivesse interessada. E tamb\u00e9m n\u00e3o tenho pretens\u00e3o alguma de ter \u201csolucionado\u201d o dilema que se coloca aos pensadores desde a \u00e9poca de Cristo ou at\u00e9 antes dela. Trata-se, na verdade, da velha briga entre sagrado e o profano; entre f\u00e9 e raz\u00e3o. Desconfio que s\u00f3 verei essas duas pe\u00e7as do quebra-cabe\u00e7as re-unidas no outro mundo, onde veremos \u201cface a face\u201d. Enquanto isso, contento-me em servir na empreitada da constru\u00e7\u00e3o de \u201cpontes\u201d entre esses dois mundos que parecem assim t\u00e3o irreconcili\u00e1veis. \u00c9 claro que autores como C.S. Lewis me ajudaram muito nisso. Posso dizer que eles contribu\u00edram para que eu n\u00e3o perdesse a minha f\u00e9 na igreja de Cristo, preservando, ao mesmo tempo, minha esperan\u00e7a na educa\u00e7\u00e3o, simplesmente seguindo o seu exemplo.<\/p>\n<p>\/\/ <strong>7. Em seus estudos sobre as obras de Lewis voc\u00ea levanta as quest\u00f5es teol\u00f3gicas presentes nas narrativas. Dos sete livros da s\u00e9rie <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em> qual voc\u00ea acredita ser o mais rico em conte\u00fado teol\u00f3gico?<\/strong><\/p>\n<p>Opa, agora voc\u00ea me pegou!&#8230; Eu poderia te dar boas raz\u00f5es para que cada uma das sete cr\u00f4nicas fosse eleita a \u201cmais teol\u00f3gica\u201d. Suspeito que essa idiossincrasia se deve ao fato de elas terem sa\u00eddo todas da mesma mente e esp\u00edrito. Mas ao inv\u00e9s de defender todas elas em sua peculiaridade teol\u00f3gica, meu voto ser\u00e1 para o bom e velho <em>Le\u00e3o, a Feiticeira e o Guarda-Roupas<\/em>, que tamb\u00e9m elegi como foco da minha tese, pela simples raz\u00e3o de essa hist\u00f3ria tocar no cora\u00e7\u00e3o da teologia e do cristianismo: a boa nova do Evangelho; pelo simples fato de ela falar da obra redentora de Cristo. Mas \u00e9 claro que continuo deixando para o leitor decidir a quest\u00e3o por si mesmo em suas pr\u00f3prias incurs\u00f5es pelo mundo de N\u00e1rnia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nessa entrevista concedida a um blog, Gabriele fala de suas experi\u00eancias com literatura, particularmente com a imaginativa e seus estudos entre liter\u00e1rios, filos\u00f3ficos e teol\u00f3gicos despertados pela influ\u00eancia do legado de C.S. Lewis na sua vida.<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[29092],"tags":[29105,29143,29147,8392,29191,29213,29312,29321,29351,6051,11070],"class_list":["post-205","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas-gabriele-lewis-e-outros","tag-adaptacoes-da-disney","tag-cartas-de-um-diabo-a-seu-aprendiz","tag-chesterton","tag-cinema","tag-editoras-seculares","tag-figuras-dos-mitos","tag-principe-caspian","tag-racionalismo","tag-surpreendido-pela-alegria","tag-teologia","tag-traducao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/205","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=205"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/205\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=205"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=205"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=205"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}