{"id":143,"date":"2010-02-05T16:31:15","date_gmt":"2010-02-05T16:31:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.mundonarnia.com\/cslewis\/?p=143"},"modified":"2010-02-05T16:31:15","modified_gmt":"2010-02-05T16:31:15","slug":"c-s-lewis-e-sigmund-freud-uma-comparacao-de-seus-pensamentos-e-de-suas-visoes-sobre-a-vida-a-dor-e-a-morte-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2010\/02\/05\/c-s-lewis-e-sigmund-freud-uma-comparacao-de-seus-pensamentos-e-de-suas-visoes-sobre-a-vida-a-dor-e-a-morte-parte-i\/","title":{"rendered":"C.S. Lewis e Sigmund Freud: uma compara\u00e7\u00e3o de seus pensamentos e de suas vis\u00f5es sobre a vida, a dor e a morte. Parte I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">Armand Nicholi*<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Trad.: <a href=\"mailto:vitor.grnd@gmail.com\">Vitor Grando<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/despertaibereanos.blogspot.com\/\">http:\/\/despertaibereanos.blogspot.com<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>O seguinte artigo \u00e9 adaptado de uma prele\u00e7\u00e3o do Dr. <\/em><em>Armand<\/em><em> <\/em><em>Nicholi<\/em><em> em uma reuni\u00e3o de alunos e professores promovido pela Dallas Christian Leadership na Southern Methodist University em 23 de Setembro de 1997. A parte dois aparece na The Real Issue de Mar\u00e7o de 1998 e aborda a mudan\u00e7a de cosmovis\u00e3o de Lewis e sua convers\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>As cosmovis\u00f5es de Sigmund Freud e C.S. Lewis, ambas predominantes na nossa cultura hoje, apresentam interpreta\u00e7\u00f5es diametralmente opostas de quem n\u00f3s somos, nossa identidade, de onde viemos, de nossa heran\u00e7a cultural e biol\u00f3gica e de nosso destino. Primeiro, vamos arrumar as bases para nossa discuss\u00e3o fazendo tr\u00eas perguntas. Quem \u00e9 Sigmund Freud? Quem \u00e9 C.S.Lewis? E o que \u00e9 uma cosmovis\u00e3o?<\/p>\n<p>Poucos homens influenciaram mais a estrutura moral de nossa civiliza\u00e7\u00e3o do que Sigmund Freud e C.S. Lewis. Freud foi o m\u00e9dico Vienense que desenvolveu a psican\u00e1lise. Muitos historiadores colocam suas descobertas ao lado das de Plank e Einstein. Suas teorias proveram um novo entendimento sobre como nossas mentes funcionam. Suas id\u00e9ias permeiam diversas disciplinas incluindo a medicina, literatura, sociologia, antropologia, hist\u00f3ria e o direito. A interpreta\u00e7\u00e3o do comportamento humano no direito e na cr\u00edtica liter\u00e1ria \u00e9 profundamente influenciada pela suas teorias. Seus conceitos est\u00e3o t\u00e3o permeados na nossa linguagem que n\u00f3s usamos termos como repress\u00e3o, complexo, proje\u00e7\u00e3o, narcisismo, ato falho e rivalidade fraterna sem sequer nos apercebemos de sua origem.<\/p>\n<p>Devido ao ineg\u00e1vel impacto de seu pensamento na nossa cultura, os estudiosos se referem a esse s\u00e9culo como o \u201cs\u00e9culo de Freud\u201d. Por que isso? \u00c0 luz do que sabemos hoje, Freud \u00e9 continuamente criticado, desacreditado, e difamado; ainda assim sua figura continua a aparecer em capa de revistas e artigos de primeira p\u00e1gina em jornais como o <em>The New York Times.<\/em> As recentes pesquisas hist\u00f3ricas intensificaram o interesse nas controv\u00e9rsias em torno de Freud e seu trabalho. Como parte de seu legado intelectual, Freud defendeu veementemente uma filosofia de vida secular, materialista e ate\u00edsta.<\/p>\n<p>Apesar do fato de C.S.Lewis ter conquistado reconhecimento intelectual muito antes de sua morte em 1963, seus livros acad\u00eamicos e populares continuaram a vender milh\u00f5es de c\u00f3pias por ano e sua influ\u00eancia continua a crescer. Durante a Segunda Guerra Mundial, os pronunciamentos de Lewis no r\u00e1dio fizeram sua voz a segunda mais reconhecida na BBC perdendo apenas para Churchill. Nos anos que se seguiram, a foto de Lewis apareceu na capa da <em>Times<\/em> e outras revistas importantes.<\/p>\n<p>Hoje, a grande quantidade de livros pessoais, biogr\u00e1ficos e liter\u00e1rios sobre Lewis, o grande n\u00famero de sociedades sobre C.S.Lewis em universidades; os peri\u00f3dicos e jornais sobre C.S.Lewis; como tamb\u00e9m o recente filme e pe\u00e7a sobre sua vida confirmam o sempre crescente interesse nesse homem e na sua obra. Como um jovem membro da universidade de Oxford, Lewis mudou de uma vis\u00e3o secular e ate\u00edsta para uma espiritual; uma cosmovis\u00e3o que Freud frequentemente atacava, mas a qual Lewis abra\u00e7ou e definiu em muitos de seus escritos ap\u00f3s a convers\u00e3o. Tanto Lewis quanto Freud possu\u00edam dons liter\u00e1rios extraordin\u00e1rios. Freud ganhou o pr\u00eamio <em>Goethe <\/em>de literatura em 1930. Lewis, que ensinou em Oxford e foi catedr\u00e1tico de Literatura Inglesa na Universidade de Cambridge, produziu alguns dos maiores criticismo liter\u00e1rios e possui uma grande quantidade de livros acad\u00eamicos e de fic\u00e7\u00e3o vastamente lidos.<\/p>\n<p><strong>Cosmovis\u00f5es conflitantes.<\/strong><\/p>\n<p>Agora, sobre a quest\u00e3o da defini\u00e7\u00e3o de \u201ccosmovis\u00e3o\u201d. Em 1933, numa prele\u00e7\u00e3o chamada \u201cA quest\u00e3o da <em>Weltanschauung<\/em>,\u201d Freud definiu cosmovis\u00e3o como <em>\u201cuma constru\u00e7\u00e3o intelectual que resolve todos os problemas de nossa exist\u00eancia, uniformemente, sobre o fundamento de uma hip\u00f3tese dominante.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Todos n\u00f3s, quer nos apercebamos ou n\u00e3o, temos uma cosmovis\u00e3o; temos uma filosofia de vida, nossa tentativa de fazer nossa exist\u00eancia ter sentido. Ela cont\u00eam nossas respostas \u00e0s principais quest\u00f5es que dizem respeito ao sentido de nossas vidas, quest\u00f5es que nos perturbam em algum per\u00edodo de nossas vidas, e que n\u00f3s frequentemente pensamos apenas quando acordamos \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3. O resto do tempo que estamos sozinhos n\u00f3s temos o r\u00e1dio e a televis\u00e3o ligados que impedem que fiquemos sozinhos com n\u00f3s mesmos. Pascal dizia que a \u00fanica raz\u00e3o de nossa infelicidade \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o conseguimos ficar sozinhos num quarto. Ele alegou que n\u00f3s n\u00e3o gostamos de confrontar a realidade de nossas vidas; a condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 t\u00e3o basicamente infeliz que n\u00f3s fazemos de tudo para nos distrair de pensar nisso.<\/p>\n<p>O vasto interesse e permanente influ\u00eancia das obras de Freud e Lewis se originam nem tanto de seus estilos liter\u00e1rios singulares, mas mais do apelo universal que tem as quest\u00f5es que eles trabalharam; quest\u00f5es que permanecem extraordinariamente relevantes \u00e0s nossas vidas pessoais e \u00e0 nossa crise social e moral contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>A partir de vis\u00f5es diametralmente opostas, eles falaram sobre quest\u00f5es como, \u201cH\u00e1 sentido e prop\u00f3sito para a exist\u00eancia?\u201d Freud diria, \u201cCertamente n\u00e3o! N\u00e3o podemos nem, do nosso ponto de vista cient\u00edfico, abordar a quest\u00e3o de se h\u00e1 ou n\u00e3o sentido para a vida.\u201d Mas ele afirmaria que se voc\u00ea observar o comportamento humano, perceber\u00e1 que o principal prop\u00f3sito da vida parece ser a conquista da felicidade e do prazer. Assim Freud delineou o \u201cprincipio do prazer\u201d como uma das principais caracter\u00edsticas de nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Lewis, por outro lado, disse que o sentido e prop\u00f3sito s\u00e3o encontrados na compreens\u00e3o do porqu\u00ea estamos aqui em rela\u00e7\u00e3o ao Criador que nos fez. Nosso prop\u00f3sito principal \u00e9 estabelecer um relacionamento com esse Criador. Freud e Lewis tamb\u00e9m discutiram as fontes da moralidade e da consci\u00eancia. Todos os dias n\u00f3s acordamos e fazemos uma s\u00e9rie de decis\u00f5es que nos sustentam ao longo do dia. Essas decis\u00f5es s\u00e3o geralmente baseadas no que n\u00f3s consideramos que \u00e9 certo: o que n\u00f3s valorizamos, nosso c\u00f3digo moral. Decidimos estudar com afinco e n\u00e3o usar as id\u00e9ias de outras pessoas, por que de alguma forma isso \u00e9 parte de nosso c\u00f3digo moral. J\u00e1 Freud disse que nosso c\u00f3digo moral vem da experi\u00eancia humana, como nossas leis de tr\u00e1fego. N\u00f3s fazemos os c\u00f3digos por que eles s\u00e3o convenientes para n\u00f3s. Em algumas culturas voc\u00ea dirige na esquerda, em outras voc\u00ea dirige na direita.<\/p>\n<p>Mas Lewis discordaria disso. Ele disse que apesar das diferen\u00e7as culturais, h\u00e1 um c\u00f3digo moral b\u00e1sico que transcende a cultura e o tempo. Essa lei n\u00e3o \u00e9 inventada, como as leis de tr\u00e1fego, mas \u00e9 descoberta, como as verdades matem\u00e1ticas. Ent\u00e3o, Freud e Lewis tinham um entendimento completamente diferente da fonte da verdade moral.<\/p>\n<p>Lewis e Freud tamb\u00e9m falaram sobre a exist\u00eancia de uma intelig\u00eancia al\u00e9m do universo; Freud disse \u201cN\u00e3o\u201d, Lewis disse \u201cSim\u201d. Suas vis\u00f5es os levaram a discutir o problema dos milagres na era cient\u00edfica. Freud alegou que os milagres contradizem tudo que aprendemos atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, eles n\u00e3o ocorrem de fato. Entretanto, Lewis perguntaria; \u201cComo sabemos que eles n\u00e3o ocorrem? Se h\u00e1 alguma evid\u00eancia, a filosofia que voc\u00ea tr\u00e1s para interpretar a evid\u00eancia determina como voc\u00ea interpretar\u00e1.\u201d Ent\u00e3o, de acordo com Lewis, n\u00f3s precisamos entender se nossa filosofia exclui os milagres e, portanto, afeta nossa interpreta\u00e7\u00e3o da evid\u00eancia.<\/p>\n<p>Tanto Freud quanto Lewis falaram muito sobre a sexualidade humana. Freud considerava todo tipo de amor uma forma de sexualidade sublimada, at\u00e9 mesmo o amor entre amigos. Lewis disse que qualquer um que pense que a amizade \u00e9 baseada em sexualidade nunca teve um amigo realmente.<\/p>\n<p>Eles tamb\u00e9m discutiram o problema da dor e do sofrimento. Freud era extremamente perturbado por esse problema, e Lewis escreveu alguns maravilhosos livros que ajudam a explicar o problema do sofrimento que todos n\u00f3s experimentamos. <em>O Problema do Sofrimento <\/em>[Editora Vida] \u00e9 uma discuss\u00e3o bastante intelectual da quest\u00e3o. Quando a mulher de Lewis morreu, ele escreveu <a href=\"http:\/\/www.livrariasaraiva.com.br\/produto\/produto.dll\/detalhe?pro_id=1413338&amp;ID=BD3C04047D80C1E171D070050\"><em>Anatomia de uma dor <\/em><\/a>[Editora Vida], que eu recomendo enfaticamente. As pessoas da minha \u00e1rea dizem que esse \u00e9 o melhor trabalho sobre o processo de luto.<\/p>\n<p>E, \u00e9 claro, ambos discutiram o que Freud chamou de \u201cO doloroso mist\u00e9rio da morte\u201d. Mas eu voltarei a isso mais tarde. Cada uma das quest\u00f5es que eu abordei s\u00e3o filos\u00f3ficas por natureza. \u00c9 significante notar que os trabalhos filos\u00f3ficos de Freud tiveram mais influ\u00eancia na seculariza\u00e7\u00e3o da cultura do que seus trabalhos cient\u00edficos. Eu vou discutir dois desses temas.<\/p>\n<p><strong>Deus em Quest\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro, a exist\u00eancia de uma intelig\u00eancia para al\u00e9m do universo, o que os cientistas modernos chamam de \u201cA quest\u00e3o de Deus\u201d. Norman Ramsay, professor de f\u00edsica de part\u00edculas em Harvard, ganhou o Pr\u00eamio Nobel de F\u00ecsica em 1989. Ele me disse recentemente que mesmo em seu campo, os cientistas tem se tornado interessados na quest\u00e3o de se h\u00e1 ou n\u00e3o uma intelig\u00eancia para al\u00e9m do universo. Ele disse que \u00e9 uma \u00e1rea de interesse relativamente recente para eles e que tem sido provocada principalmente pela aceita\u00e7\u00e3o da teoria do Big Bang. Eu repliquei dizendo que eu n\u00e3o entendi bem a rela\u00e7\u00e3o. Ele disse, \u201c<em>Bem, quando acreditava-se que o universo n\u00e3o tinha come\u00e7o era mais f\u00e1cil, pois ningu\u00e9m tinha que se preocupar com o que veio antes. Mas desde que algu\u00e9m aceita a id\u00e9ia de que o universo teve um inicio num ponto especifico do tempo, tem que pensar tamb\u00e9m sobre o que ocorreu antes. Ent\u00e3o os f\u00edsicos agora est\u00e3o pensando sobre quest\u00f5es que somente te\u00f3logos e fil\u00f3sofos pensaram no passado.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Ao olharmos para o mundo ao nosso redor, n\u00f3s fazemos uma de duas suposi\u00e7\u00f5es: ou vemos o mundo como um acidente e nossa exist\u00eancia neste planeta como uma quest\u00e3o de pura chance, ou presumimos alguma intelig\u00eancia para al\u00e9m do universo que n\u00e3o s\u00f3 prov\u00ea ao universo um desenho e ordem, mas tamb\u00e9m prov\u00ea sentido e prop\u00f3sito \u00e0 vida. Como vivemos nossas vidas, como terminamos nossas vidas, o que percebemos, como interpretamos o que percebemos, tudo \u00e9 formado e influenciado consciente ou inconscientemente por uma dessas duas suposi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>Tendo isso em mente, Freud dividiu todas as pessoas entre \u201ccrentes\u201d e \u201cdescrentes\u201d. Descrentes incluem todos aqueles que se consideram c\u00ednicos, c\u00e9ticos, escarnecedores, agn\u00f3sticos ou ateus. Crentes incluem o resto, cuja cren\u00e7a varia desde um mero assentimento intelectual de que h\u00e1 algo ou algu\u00e9m al\u00e9m deste mundo at\u00e9 aqueles como Lewis, Agostinho, Tolstoy e Pascal que tiveram uma experi\u00eancia transformadora depois da qual sua f\u00e9 se tornou o principal princ\u00edpio motivador e organizador de suas vidas.<\/p>\n<p>Freud foi de encontro, clara e enfaticamente, \u00e0 no\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 \u201cAlgu\u00e9m\u201d al\u00e9m deste mundo. Ele descreve sua cosmovis\u00e3o como secular e a chama de \u201ccientifica\u201d, e ele alegou que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma outra fonte de conhecimento do universo que n\u00e3o seja \u201ca cautelosa observa\u00e7\u00e3o, o que chamamos de pesquisa.\u201d Logo, nenhum conhecimento, ele disse, pode ser derivado de revela\u00e7\u00e3o ou intui\u00e7\u00e3o. Ele afirmou que a no\u00e7\u00e3o do universo criado por um ser \u201cparecido com o homem mas exaltado em cada aspecto, um super homem idealizado, reflete a grotesca ignor\u00e2ncia dos povos primitivos.\u201d Ele afirmou que nenhuma pessoa inteligente pode aceitar os absurdos da cosmovis\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p>Freud descreveu o conceito de Deus como uma simples proje\u00e7\u00e3o do desejo infantil de prote\u00e7\u00e3o por um pai todo-poderoso. Ele acrescentou que \u201ca religi\u00e3o \u00e9 uma tentativa de controlar o mundo sensorial, no qual estamos situados, por um mundo que desejamos que \u00e9 desenvolvido dentro de n\u00f3s como um resultado de anormalidades biol\u00f3gicas e psicol\u00f3gicas.\u201d<\/p>\n<p>Ele concluiu que a vis\u00e3o religiosa \u00e9 \u201ct\u00e3o pat\u00e9tica e absurda e\u2026 infantil que \u00e9 humilhante e vergonhoso pensar que a maioria das pessoas jamais se sobrepor\u00e3o a isso.\u201d Apenas por um breve per\u00edodo quando era estudante sob a orienta\u00e7\u00e3o de um brilhante fil\u00f3sofo chamado Franz Brentano, um crente devoto, Freud duvidou de seu ate\u00edsmo, mas ele afirmou que continuou descrente pelo resto de sua vida. Um ano antes de sua morte, Freud escreveu para Charles Sanger, \u201cNem na minha vida privada nem nos meus escritos eu deixei em segredo o fato de ser um completo descrente.\u201d<\/p>\n<p>Quando examinamos o relato cuidadosamente n\u00f3s descobrimos que Freud talvez n\u00e3o estivesse t\u00e3o certo de seu ate\u00edsmo quanto ele proclamava. Certamente ele se referia a si mesmo frequentemente como \u201cum Judeu infiel\u201d e ele rejeitou completamente a vis\u00e3o religiosa do universo, especialmente a vis\u00e3o Judaico-Crist\u00e3. Ele certamente atacou essa vis\u00e3o com todo seu poderio intelectual e de todas as perspectivas poss\u00edveis. Mas ainda assim, por alguma raz\u00e3o ele permaneceu ocupado com estas quest\u00f5es; ele simplesmente n\u00e3o conseguia deix\u00e1-las de lado. Ele passou os \u00faltimos trinta anos de sua vida escrevendo sobre tais quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Num estudo autobiogr\u00e1fico ele disse que essas quest\u00f5es filos\u00f3ficas e religiosas o interessaram por toda sua vida desde sua juventude. Um grande n\u00famero de evid\u00eancias revelam que a cosmovis\u00e3o de Freud n\u00e3o o deixavam confort\u00e1vel. A f\u00e9, de forma alguma, era caso conclu\u00eddo para ele, e ele era extremamente ambivalente quanto \u00e0 exist\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>Anna Freud, filha e Freud que faleceu h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s, me explicou a \u00fanica forma de conhecer seu pai: \u201cN\u00e3o leia suas biografias;\u201d ela instruiu, \u201cleia suas cartas.\u201d Por todas suas cartas, Freud faz afirma\u00e7\u00f5es como, \u201cSe algum dia n\u00f3s nos encontrarmos l\u00e1 em cima\u201d, \u201cminha \u00fanica, e secreta ora\u00e7\u00e3o,\u201d e afirma\u00e7\u00f5es sobre a gra\u00e7a de Deus. Durante os \u00faltimos trinta anos de sua vida, Freud manteve uma constante troca de centenas de cartas com o te\u00f3logo Sui\u00e7o, Oskar Pfister. \u00c9 interessante notar que sua correspond\u00eancia mais longa foi exatamente com este te\u00f3logo. Ele admirava Pfister e escreveu, \u201cVoc\u00ea \u00e9 um verdadeiro servo de Deus\u2026 que sente a necessidade de fazer um bem espiritual para todos que voc\u00ea encontra. Voc\u00ea fez isso por mim tamb\u00e9m.\u201d Ele, posteriormente, disse que Pfister estava, \u201cna honrosa posi\u00e7\u00e3o de poder levar homens \u00e0 Deus.\u201d<\/p>\n<p>Ser\u00e1 isso apenas formas de express\u00e3o? Poder\u00edamos dizer isso de qualquer um, menos de Freud, que alegava que mesmo um ato falho da fala tem um sentido.<\/p>\n<p><strong>O Problema da Dor e do Sofrimento<\/strong><\/p>\n<p>Eu tenho estudado os escritos de Freud como tamb\u00e9m suas cartas por muitos anos e eu conclu\u00ed que o principal obst\u00e1culo que Freud tinha com a id\u00e9ia de um ser inteligente al\u00e9m do universo era sua incapacidade de conciliar um Deus bom e todo-poderoso com o sofrimento que todos n\u00f3s experimentamos em certa intensidade. Numa carta para Pfister, em 1928, Freud escreveu, \u201cE por \u00faltimo, deixe-me ser indelicado. Como diabos voc\u00ea concilia tudo que experimentamos e esperamos nesse mundo com sua suposi\u00e7\u00e3o de um ordem moral mundial?\u201d E depois, numa prele\u00e7\u00e3o em 1944, ele disse: <em>\u201cN\u00e3o parece ser o caso de haver um poder no universo que observa o bem-estar dos indiv\u00edduos com cuidado paternal e dirige seus interesses em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 um final feliz. Pelo contr\u00e1rio, os destinos da ra\u00e7a humana n\u00e3o podem ser harmonizados nem com a hip\u00f3tese de uma benevol\u00eancia universal nem com a parcialmente contradit\u00f3ria hip\u00f3tese de justi\u00e7a universal. Terremotos, tsunamis, complica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o fazem nenhum distin\u00e7\u00e3o entre os virtuosos e piedosos e os imorais e descrentes. Mesmo quando o que est\u00e1 em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a natureza inanimada, mas quando o destino individual depende de suas rela\u00e7\u00f5es com outras pessoas, n\u00e3o \u00e9 de maneira alguma a regra de que o mal \u00e9 punido e o bem recompensado. Frequentemente s\u00e3o os espertos e imp\u00edos que usufruem das boas coisas do mundo e o piedoso n\u00e3o usufrui de nada. S\u00e3o poderes obscuros, insens\u00edveis e sem amor que determinam nosso destino. Os sistemas de recompensas e puni\u00e7\u00f5es, que a religi\u00e3o descreve como governo do universo, parece n\u00e3o existir.\u201d<\/em> Eu me pergunto quantos de n\u00f3s pelo menos uma vez n\u00e3o nos sentimos assim. Freud parecia n\u00e3o estar ciente, \u00e9 claro, de que na cosmovis\u00e3o Bibl\u00edca o governo do universo est\u00e1 temporariamente em m\u00e3os inimigas. Antes de Anna Freud falecer, eu lhe perguntei sobre a dificuldade de seu pai com o problema do sofrimento, e ela expressou grande curiosidade em rela\u00e7\u00e3o a isso. Num determinado momento ela me disse, \u201cComo voc\u00ea explica o sofrimento no mundo? H\u00e1 algu\u00e9m l\u00e1 em cima que diz, \u2018Voc\u00ea ter\u00e1 c\u00e2ncer. Voc\u00ea tuberculose\u2019, e distribui adversidades?\u201d Eu disse que n\u00e3o sabia exatamente como responder \u00e0 pergunta, mas eu sei que ela respeitava Oskar Pfister. Eu disse que pessoas como Pfister descreveriam a presen\u00e7a de um poder maligno no universo que \u00e9 respons\u00e1vel por parte do sofrimento. Anna pareceu interessada nessa no\u00e7\u00e3o e voltou frequentemente a ela na nossa conversa. Devemos lembrar que Freud sofreu consideravelmente em sua vida, emocionalmente como um Judeu crescido na profundamente Cat\u00f3lica Viena, e fisicamente com o c\u00e2ncer intrat\u00e1vel na boca com o qual ele lutou por dezesseis anos de sua vida. Os procedimentos m\u00e9dicos n\u00e3o eram bem desenvolvidos na \u00e9poca e o causaram uma grande dose de dor f\u00edsica. Ent\u00e3o precisamos ter isso em mente quando tentamos entender como ele se sentia. C.S.Lewis, ao longo da primeira metade de sua vida, tamb\u00e9m se descreveu, como Freud, como um \u201ccompleto descrente\u201d. Se Freud duvidou de sua descren\u00e7a quando estava na faculdade, Lewis se regozijava na sua descren\u00e7a quando estudante em Oxford. Ele expressou um forte cinismo e hostilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoas que ele chamava de \u201ccrentes\u201d e compartilhava do pessimismo de Freud em rela\u00e7\u00e3o a vida. Quando tinha trinta e tr\u00eas anos, j\u00e1 um membro popular de Oxford, Lewis experimentou uma profunda e radical mudan\u00e7a em sua vida e em seu pensamento. Ele rejeitou a cosmovis\u00e3o materialista e ate\u00edsta e abra\u00e7ou uma forte f\u00e9 em Deus e em Jesus Cristo. Essa convers\u00e3o de uma cosmovis\u00e3o para outra come\u00e7ou uma fonte inesgot\u00e1vel de livros acad\u00eamicos e populares que influenciaram milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p><em>Na segunda parte de <\/em>Quando Cosmovis\u00f5es Colidem, <em>o Dr. Armand Nicholi discute as vis\u00f5es de C.S. Lewis sobre a vida, a dor e a morte. Aguardem\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>*Dr. Armand Nicholi \u00e9 professor da Escola de Medicina de Harvard h\u00e1 20 anos. Ele tamb\u00e9m ministra um curso popular na Universidade de Harvard sobre as cosmovis\u00f5es contrastantes de Sigmund Freud e C.S.Lewis.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa \u00e9 a primeira parte de uma discuss\u00e3o sobre o livro de Armand Nicholi, Deus em Quest\u00e3o (ed. 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