{"id":135,"date":"2010-02-05T15:10:51","date_gmt":"2010-02-05T15:10:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.mundonarnia.com\/cslewis\/?p=135"},"modified":"2010-02-05T15:10:51","modified_gmt":"2010-02-05T15:10:51","slug":"vivendo-e-aprendendo-com-c-s-lewis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2010\/02\/05\/vivendo-e-aprendendo-com-c-s-lewis\/","title":{"rendered":"Vivendo e Aprendendo com C.S. Lewis"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">por Gabriele  Greggersen<\/p>\n<p><strong>I. VIDA E OBRA DE C. S. LEWIS<\/strong><\/p>\n<p>Nascido  em Belfast, Irlanda, C. S. Lewis (1897-1963) \u00e9 considerado um dos  maiores pensadores, escritores e apologetas crist\u00e3os do s\u00e9culo XX, com  grande capacidade de proje\u00e7\u00e3o para o futuro. Sua vast\u00edssima obra, mais  conhecida no meio crist\u00e3o pelos seus livros teol\u00f3gicos, tamb\u00e9m ficou  famosa por outro g\u00eanero, o do romance ou fic\u00e7\u00e3o. O sucesso imediato de <em>Cartas  de um Diabo a seu Aprendiz <\/em>foi reconhecido pela celebrada revista  Time. Lewis tamb\u00e9m ficou famoso por sua fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (da sua  trilogia espacial, <em>Longe do Planeta Silencioso e Perelandra <\/em>j\u00e1  est\u00e3o traduzidos para o portugu\u00eas) e pelas hist\u00f3rias t\u00e3o preciosas para o  p\u00fablico infantil (e tamb\u00e9m para os adultos) narradas nas <em>Cr\u00f4nicas  de N\u00e1rnia<\/em>.[1]<br \/>\nMas a melhor id\u00e9ia que se pode ter da hist\u00f3ria  desse catedr\u00e1tico e cr\u00edtico liter\u00e1rio de Oxford (Magdalene College,  1925-1954) e Cambridge (como professor de literatura inglesa medieval e  renascentista) pode ser obtida da leitura de sua autobiografia <em>Surprised  by Joy<\/em>,[2] recentemente traduzida e lan\u00e7ada, com muito sucesso, no  mercado nacional. Esse livro explica a total coer\u00eancia do autor, em  meio \u00e0 grande variedade de g\u00eaneros liter\u00e1rios utilizados, sendo os  princ\u00edpios fundamentais da doutrina crist\u00e3 tamb\u00e9m sintetizados nas suas  quatro principais obras apolog\u00e9ticas: <strong>Cristianismo Puro e Simples<\/strong>,  <strong>O Problema do Sofrimento<\/strong>, <strong>Milagres <\/strong>e <strong>O Grande  Abismo.<\/strong> [3]<\/p>\n<p>As obras de Lewis s\u00e3o constantemente reeditadas no exterior, [4]  inspirando muitos estudiosos a elaborar compila\u00e7\u00f5es, revis\u00f5es, estudos e  palestras a respeito desse autor e de seu pensamento. Atualmente existe  at\u00e9 uma lista de discuss\u00e3o na Internet em torno de suas id\u00e9ias, al\u00e9m de  sociedades fundadas a partir de uma vis\u00e3o crist\u00e3 do mundo inspirada por  ele. H\u00e1 ainda um filme cinematogr\u00e1fico de Richard Attenborough,  <strong>Shadowlands<\/strong> (\u201cTerra das Sombras\u201d), em sua homenagem, que pode ser  encontrado em videotecas e \u00e9 freq\u00fcentemente visto na programa\u00e7\u00e3o da TV  por assinatura.<\/p>\n<p><strong>II. CONTRIBUI\u00c7\u00c3O PARA A EDUCA\u00c7\u00c3O  CONTEMPOR\u00c2NEA<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\n<\/strong>Para se ter uma no\u00e7\u00e3o do potencial de proje\u00e7\u00e3o  das id\u00e9ias desse autor para a educa\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XXI (e particularmente  para a educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3), \u00e9 preciso mencionar que, nos Estados Unidos,  por exemplo, as Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia foram recentemente recomendadas no  curr\u00edculo das escolas e universidades de alguns estados, como leitura  obrigat\u00f3ria em diversos cursos oferecidos por reconhecidas institui\u00e7\u00f5es  de ensino, despertando o interesse de estudantes e intelectuais de todos  os n\u00edveis e \u00e1reas. A ampla popularidade conquistada pelo autor, atrav\u00e9s  de educadores e da grande diversidade de sua obra, \u00e9 um ind\u00edcio da  import\u00e2ncia da sua mensagem para o campo educacional.<br \/>\nA sua autobiografia, que teve sucesso quase que  imediato no mercado brasileiro, confessional ou n\u00e3o, revela a \u00eanfase  dada pelo autor \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Embora a sua experi\u00eancia escolar n\u00e3o tivesse  sido das melhores (ou quem sabe precisamente por isso), Lewis levou at\u00e9  o fim o seu projeto pedag\u00f3gico crist\u00e3o de resgate do sentido que pode  haver nas escolas, e que pode ser alcan\u00e7ado atrav\u00e9s da literatura e,  particularmente, dos contos-de-fada, como explica um dos especialistas  nas id\u00e9ias do autor:<\/p>\n<blockquote><p>&#8230;o sentido est\u00e1  intimamente relacionado com o papel da imagina\u00e7\u00e3o e com o fato de que  todo o universo \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o dependente de Deus. Costumamos ver a raz\u00e3o  como o ve\u00edculo da verdade, e a imagina\u00e7\u00e3o, do sentido. A raz\u00e3o e a  imagina\u00e7\u00e3o t\u00eam, ambos, a sua pr\u00f3pria autonomia &#8230; A fic\u00e7\u00e3o \u00e9, para  Lewis, a constru\u00e7\u00e3o do sentido. Ela reflete a criatividade maior de  Deus, quando deu origem ao seu universo e o relacionou a n\u00f3s mesmos. O  sentido \u00e9 o cerne das coisas e dos fatos. [5]<\/p><\/blockquote>\n<p>Nos cap\u00edtulos a seguir procuraremos explicitar melhor  os princ\u00edpios acima sintetizados, aplicando-os \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3.<\/p>\n<p><strong>III.  PRINC\u00cdPIOS B\u00c1SICOS DA EDUCA\u00c7\u00c3O CRIST\u00c3 DE C. S. LEWIS<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>A. Apre(e)nder  pelo sofrimento<br \/>\n<\/strong>Se considerarmos a vastid\u00e3o das obras de  Lewis, perguntar-nos-emos o que o teria impelido a escrever tantos  livros (sem falar das milhares de cartas que escrevia a seus leitores) e  de forma t\u00e3o diversificada! E como poder\u00edamos tornar acess\u00edvel a sua  contribui\u00e7\u00e3o ao educador brasileiro, no limiar de um novo s\u00e9culo? Para  responder em parte a essa quest\u00e3o, devemos considerar a hist\u00f3ria de vida  do autor, marcada pela dor desde menino, com a morte de sua m\u00e3e, o que  deu inicio \u00e0 sua insistente e cont\u00ednua busca de \u201calegria\u201d (curiosamente  tamb\u00e9m o nome de sua futura esposa, Joy). Assim, por exemplo, em O  Problema do Sofrimento, Lewis aborda diretamente a quest\u00e3o cl\u00e1ssica que o  mundo secular levanta contra o cristianismo: \u201cSe Deus existe, como pode  haver tanta injusti\u00e7a, fome e mis\u00e9ria no mundo?\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a vida muitas vezes \u00e9 cruel e,  se quisermos ser realistas, teremos que contar com obst\u00e1culos  constantes, muitas vezes dolorosos, que nos trazem de volta \u00e0 vida  concreta, destruindo nossas fantasias a respeito de um mundo idealizado e  abstrato, como se v\u00ea nesse exemplo, citado por Lewis:<\/p>\n<p>M\u00f3veis feitos de sonho  s\u00e3o o \u00fanico tipo em que nunca trope\u00e7amos ou esbarramos com o joelho. N\u00f3s  todos conhecemos um casamento feliz. Mas como a esposa \u00e9 diferente  daquela donzela imagin\u00e1ria dos sonhos da nossa adolesc\u00eancia! T\u00e3o pouco  adaptada a todos os nossos desejos extravagantes e por esta mesma raz\u00e3o  (entre outras) t\u00e3o incomparavelmente melhor. [6]<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Deus, que \u00e9 um ser real e concreto,  escolheu manifestar-se ao homem em forma material e concreta, apesar de  ser igualmente capaz de usar um sonho para nos comunicar algo. Assim,  para os crist\u00e3os, uma das primeiras li\u00e7\u00f5es a serem aprendidas \u00e9 que o  ser humano n\u00e3o pode viver de sonhos e devemos aprender a lidar com as  nossas limita\u00e7\u00f5es, que muitas vezes implicam em dor e sofrimento:<br \/>\n\u00c9  l\u00f3gico que fomos instru\u00eddos em como lidar com o sofrimento \u2014  oferecendo-o a Deus em Cristo como mui singela, modesta mesmo,  participa\u00e7\u00e3o no sofrimento de Cristo; por outro lado, como \u00e9 duro  pratic\u00e1-lo, n\u00e3o \u00e9 mesmo? [7]<\/p>\n<p>Devido a essa dureza da vida \u00e9 que autores como  Kreeft procuram ajudar-nos a enxergar o outro lado do sofrimento, j\u00e1  quase esquecido pela maioria dos seres humanos. Isso pode vir a  tornar-se uma excelente opor<\/p>\n<p>tunidade para aprender, como ele expressa no seguinte  trecho de uma de suas primorosas obras, na qual busca uma intera\u00e7\u00e3o com  o leitor:<br \/>\nLeitor: Ent\u00e3o, prazer  sem sofrimento \u00e9 poss\u00edvel para Deus. Por que n\u00e3o nos \u00e9 poss\u00edvel?<br \/>\nAutor:  Boa pergunta.<br \/>\nLeitor: Voc\u00ea tem uma boa resposta?<br \/>\nAutor: Acho que  sim. Mesmo no Jardim do \u00c9den, antes que houvesse pecado, morte e  sofrimento, est\u00e1vamos sujeitos ao tempo, t\u00ednhamos de crescer, de  aprender. Mas aquilo era um prazer. Depois que pecamos, aprender  tornou-se doloroso, porque aprender significa submeter a mente \u00e0  realidade. [8]<\/p>\n<p>A miss\u00e3o priorit\u00e1ria do educador, portanto, \u00e9 a de  \u201cresgate\u201d (por mais desgastado que o termo possa estar) da realidade,  \u201cdoa a quem doer,\u201d da forma mais \u201cdid\u00e1tica\u201d poss\u00edvel, abrindo portas que  permitam enfoc\u00e1-la e interpret\u00e1-la mais adequadamente. A realidade da  \u201cdureza da vida\u201d deve ser levada em conta, certamente. Mas a vida n\u00e3o se  limita a isso. Como observa Lewis, devemos ajudar o educando a superar  esse n\u00edvel da desilus\u00e3o e anim\u00e1-lo para uma nova aventura em busca do  sentido mais profundo das coisas.<\/p>\n<p>De acordo com Kreeft, o sofrimento pode, nesse  sentido, adquirir uma fei\u00e7\u00e3o totalmente nova para n\u00f3s:<\/p>\n<blockquote><p>O outro significado do  mist\u00e9rio \u2014 positivo \u2014 \u00e9 o encontrado em J\u00f3. Deus tem seus motivos para  deixar que coisas ruins aconte\u00e7am a pessoas boas. Mas ele n\u00e3o diz isso a  J\u00f3, que n\u00e3o consegue descobrir nada. Aqui, o obscuro \u00e9 subjetivo, n\u00e3o  objetivo. Aqui, nossas mentes est\u00e3o no escuro, mas Deus \u00e9 a luz&#8230; No  mist\u00e9rio das Escrituras, a realidade \u00e9 a luz e n\u00f3s estamos no escuro. De  fato, estamos no escuro precisamente porque realidade \u00e9 luz, muita luz.  Assim como Agostinho e Tom\u00e1s de Aquino gostavam de repetir, somos como  morcegos ou corujas: enxergamos bem as sombras, mas n\u00e3o o sol. Pelo  excesso de luz, o sol nos cega. [9]<\/p><\/blockquote>\n<p>Hoje, mais do que nunca, \u00e9 necess\u00e1rio lembrar aos que  se queixam da dureza da vida que as coisas n\u00e3o s\u00e3o obscuras por si  mesmas, mas porque, de fato, perderam algo e sofrem as conseq\u00fc\u00eancias  dessa falta. E, como n\u00f3s mesmos temos essa car\u00eancia, somos vulner\u00e1veis  \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es cotidianas. De acordo com as cartas de Lewis a uma amiga  americana, um dos maiores desafios \u00e9 aprender a viver as preocupa\u00e7\u00f5es  do dia, sem transferi-las do passado ou do futuro:<\/p>\n<blockquote><p>Suponho que viver a vida a  cada dia (&#8230;) \u00e9 precisamente o que n\u00f3s temos que aprender \u2014 mesmo  quando o velho Ad\u00e3o em mim \u00e0s vezes alega que, se Deus quisesse me fazer  viver como os l\u00edrios do campo, por que n\u00e3o me deu a mesma dose de  nervos e imagina\u00e7\u00e3o que eles! Ou ser\u00e1 esse precisamente o ponto, o  prop\u00f3sito exato deste paradoxo divino e audacioso chamado ser humano \u2014  fazer, dotado de raz\u00e3o, tudo aquilo que outros seres fazem sem ela? [10]<\/p><\/blockquote>\n<p>Ent\u00e3o, para aprendermos a enfrentar o desafio de  viver a vida, temos a necessidade de compreend\u00ea-la, de apreender a sua  l\u00f3gica interna, sua ratio (a tradu\u00e7\u00e3o latina de logos) ou raz\u00e3o de ser  mais profunda, \u201caplicando corretamente a intelig\u00eancia\u201d a ela (que \u00e9 um  dos conceitos de \u201cestudar\u201d no Dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio). A raz\u00e3o, longe de ser  um empecilho \u00e0 f\u00e9, pode vir a se tornar um grande instrumento para o  homem perceber o lado bom que h\u00e1 nas coisas e assim viver de modo menos  depressivo, desesperan\u00e7oso e auto-depreciativo do que vem vivendo neste  final de s\u00e9culo. E o grande desafio do educador do presente e do futuro \u00e9  o de ponderar todas essas coisas e descobrir meios criativos para  representar o seu sentido mais profundo de forma percept\u00edvel ao  educando, transformando a sala-de-aula numa aula viva, e a qualidade do  ensino em qualidade de vida.<\/p>\n<p><strong>B. Apre(e)nder pela raz\u00e3o<\/strong><br \/>\nUma das  melhores formas de lidar com as coisas \u00e9 explan\u00e1-las ou explic\u00e1-las, ou  seja, tirar as suas plicas (prega, dobra, vinco, em latim), como se  aplaina um papel todo amarrotado (da\u00ed tamb\u00e9m derivam-se complicar,  replicar, aplicar, duplicar, etc.), exprimindo-as por meio da linguagem.  Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais Lewis escrevia tanto: para, aplicando  o m\u00e9todo da simplicidade, clareza e gratid\u00e3o (que \u00e9 o estilo distintivo  dos autores \u201ccl\u00e1ssicos\u201d da filosofia crist\u00e3 como George MacDonald,  Tolkien, Chesterton, etc.) traduzir a experi\u00eancia viva em literatura e,  assim, representar as coisas como elas s\u00e3o, que \u00e9 o primeiro passo para  aprender a lidar com elas. Dessa forma, Lewis tamb\u00e9m realiza o sentido  profundo do imperativo de Paulo de \u201cconsiderar todas as coisas e reter o  que \u00e9 bom\u201d (ver 1 Ts 5.21).<\/p>\n<p>Em The <em>Allegory of Love<\/em>, [11] Lewis denuncia  o mau uso que se pode fazer da mente e da imagina\u00e7\u00e3o de que ela se vale  para representar a realidade. \u00c9 interessante notar, a partir da  literatura medieval e renascentista, os extremos em que cai o homem  quando busca a felicidade onde ela n\u00e3o pode ser encontrada. Um desses  extremos pode ser chamado de simbolismo, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de dualismo  reducionista que exalta o s\u00edmbolo da mulher amada como uma divindade  capaz de eliminar todo tipo de mal e de substituir a pr\u00f3pria realidade.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo 2 desse livro, Lewis explica que o  simbolismo ou sacramentalismo \u00e9 a tentativa de interpretar ou enxergar  um modelo vis\u00edvel por detr\u00e1s do que \u00e9 invis\u00edvel. Trata-se de uma esp\u00e9cie  de \u201cocultismo\u201d ou vontade de desvendar tudo o que est\u00e1 oculto atr\u00e1s das  coisas, como podemos observar no seguinte exemplo da literatura: \u201cTodo o  transit\u00f3rio \u00e9 apenas uma met\u00e1fora\u201d (Goethe).<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 os que, quando percebem que  embaixo da casca da cebola podemos encontrar apenas outra casca de  cebola, passam a duvidar at\u00e9 mesmo do conceito de cebola, recaindo no  irracionalismo, que nega at\u00e9 o eterno: \u201cTodo o eterno \u00e9 apenas uma  met\u00e1fora\u201d (Nietzsche).<\/p>\n<p>Acontece que o invis\u00edvel n\u00e3o pode ser interpretado em  nada que seja vis\u00edvel. Na verdade, as coisas materiais \u00e9 que s\u00e3o  s\u00edmbolos ou imagens de uma realidade mais concreta, que n\u00e3o deixamos de  enxergar porque se escondem, mas porque v\u00e3o al\u00e9m da nossa capacidade de  vis\u00e3o. Por isso \u00e9 que toda tentativa de interpreta\u00e7\u00e3o humana das imagens  sempre continuar\u00e1 sendo uma tentativa, e toda linguagem humana, uma  met\u00e1fora. O problema, ent\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 nas coisas que se ocultam, mas no  olho do ser humano, que n\u00e3o as v\u00ea, e na sua capacidade de express\u00e3o  imperfeita. E isso n\u00e3o muda em nada o fato de que a cebola \u00e9 uma cebola.<\/p>\n<p>O verdadeiro sabor do texto medieval n\u00e3o \u00e9 nada  simbolista (como grande parte dos textos renascentistas, por exemplo)  nesse ponto:<br \/>\nTipicamente o homem medieval n\u00e3o era um sonhador ou  aventureiro espiritual; ele era um organizador, um codificador, um ser  sistem\u00e1tico. Seu ideal poderia ser resumido com nada mais do que a velha  e familiar m\u00e1xima: \u201cUm lugar para cada coisa e cada coisa no seu  (devido) lugar.\u201d[12]<\/p>\n<p>O homem moderno, ao contr\u00e1rio, \u00e9 capaz de se perder  em meio a infinitas redes de significados \u00e9ticos e sociais metaf\u00f3ricos. \u00c9  certo que o homem medieval n\u00e3o tinha tanta ci\u00eancia, mas tinha muito  maior transcend\u00eancia, a partir da astronomia antiga de um Ptolomeu e,  principalmente, de um Arist\u00f3teles, com seu pressuposto de que qualquer  movimento ou espa\u00e7o s\u00f3 pode existir se partir de um Primum Mobile ou  Motor Im\u00f3vel, o primeiro impulso, a for\u00e7a de igni\u00e7\u00e3o do Universo. Antes  mesmo de Newton, os antigos j\u00e1 discutiam a quest\u00e3o einsteiniana do \u201covo  de colombo,\u201d que, em termos de Newton, encontra-se na 2\u00aa lei do  movimento: \u201cTodo corpo permanece em seu estado de repouso ou Movimento  Uniforme em linha reta, a menos que seja obrigado a mudar seu estado por  for\u00e7as impressas nele.\u201d[13]<\/p>\n<p>Segundo Lewis, para al\u00e9m do homem antigo e do  renascentista, quando o homem medieval olha para o c\u00e9u estrelado depois  de uma festa, n\u00e3o imagina as camadas ou misturas de gases que poderiam  estar separando a terra da lua; ele n\u00e3o v\u00ea um grande e silencioso vazio,  mas um mundo invis\u00edvel repleto de almas.<\/p>\n<p>O homem medieval v\u00ea um Mundo para al\u00e9m dos muros da  catedral, do castelo ou da cidadela, que tamb\u00e9m chamamos de c\u00e9u  (heavens). Ele vive, por assim dizer, como quem est\u00e1 do lado de fora dos  muros da grande cidadela.<br \/>\nDo lado de fora do muro \u2014 \u00e9 este o ponto.  Voltando por um pouco \u00e0 experi\u00eancia que eu mencionava no in\u00edcio, de  olhar para as estrelas ap\u00f3s uma \u00f3pera ou festa:<\/p>\n<blockquote><p>Todo o contraste entre a  experi\u00eancia medieval e a nossa pr\u00f3pria s\u00f3 aparece agora. Pois, o que  quer que sintamos, certamente sentimos que estamos olhando para fora;  para fora de algum lugar quente e iluminado e para uma desola\u00e7\u00e3o escura,  fria e indiferente; para fora de uma casa, em dire\u00e7\u00e3o ao mar escuro e  solit\u00e1rio. Mas o homem medieval sentia que estava olhando para dentro.  Aqui \u00e9 o lado de fora. A \u00f3rbita da lua \u00e9 a parede da cidade. A noite  abre as portas por alguns instantes e n\u00f3s pegamos alguns lances da pompa  que est\u00e1 ocorrendo do lado de dentro; ficamos s\u00f3 olhando, como animais  ficam de olho no fogo daquele acampamento em que n\u00e3o podem entrar, como  os b\u00e1rbaros ficam de olho naquela cidade&#8230;[14]<\/p><\/blockquote>\n<p>A t\u00edtulo de contraste, entre outras obras  renascentistas (de Spencer e de Milton, no qual se especializou), Lewis  destaca a grande obra de Dante sob tr\u00eas aspectos: o significado  \u201cmetaf\u00edsico\u201d do sorriso, o imagin\u00e1rio da Divina Com\u00e9dia e a aprecia\u00e7\u00e3o  de alguns ep\u00edgonos, corretores de certos equ\u00edvocos por ele cometidos.<\/p>\n<p>O sentido medieval \u00e9, novamente, o mais f\u00e1cil de ser  reconhecido:<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil reconhecer em que  sentido os sorrisos de Dante eram \u201cmetaf\u00edsicos.\u201d A rela\u00e7\u00e3o entre estes  dois elementos \u00e9 real, ontol\u00f3gica, intelig\u00edvel e o material n\u00e3o precisa  ser, em si mesmo, belo; pode at\u00e9 vir a ser grotesco \u2013 como, por exemplo,  quando o tempo \u00e9 representado por uma \u00e1rvore que cresce para baixo em  um vaso que representa o Primum Mobile (Paradiso, XXVII, 118). [15]<\/p>\n<p>Em sua detalhada an\u00e1lise das imagens usadas por Dante  nesta obra, n\u00e3o \u00e9 complicado reconhecer o predom\u00ednio dos frutos do  jardim (garden) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s paisagens (landscape):<\/p>\n<p>Talvez esta seja uma  caracter\u00edstica da Idade M\u00e9dia antes de ser de Dante. Os poetas medievais  interessam-se por \u00e1rvores, flores, feras, p\u00e1ssaros e rios e n\u00e3o muito  freq\u00fcentemente, penso eu, por paisagens. E quando alguns se mostram  interessados, s\u00e3o geralmente de origem alem\u00e3. [16]<\/p>\n<p>E, de fato, as imagens usadas na <em>Divina Com\u00e9dia<\/em>,  por exemplo, s\u00e3o de grande concretude, luminosidade, movimento ou peso,  o que sugere um estilo medieval extremamente concreto e metaf\u00f3rico, ao  inv\u00e9s do rom\u00e2ntico, intr\u00ednseco a autores renascentistas. [17]<\/p>\n<p>Para Lewis, os s\u00edmbolos s\u00e3o referenciais indicadores  de uma realidade muito mais concreta e maravilhosa do que eles podem ser  \u2014 signos n\u00e3o valem nada por si mesmos (o que n\u00e3o tira sua import\u00e2ncia e  utilidade). Por isso \u00e9 que ele \u201cjoga\u201d tanto com as imagens nas<strong> Cr\u00f4nicas  de N\u00e1rnia<\/strong>, fazendo uma verdadeira \u201cmiscel\u00e2nea\u201d de personagens  mitol\u00f3gicos, lend\u00e1rios, realistas, etc.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dos que simplesmente descartam toda  imagina\u00e7\u00e3o, exaltando uma esp\u00e9cie de literatura dos \u201cfatos,\u201d insossa e  enfadonha, Lewis pretende mostrar qu\u00e3o rid\u00edculo \u00e9 o tipo de invers\u00e3o da  realidade e, conseq\u00fcentemente, dos valores que o homem cultiva,  exaltando os meios em lugar dos fins (que s\u00e3o, na verdade, a real fonte  de inspira\u00e7\u00e3o dos s\u00edmbolos).<\/p>\n<p>Como ele comenta no pref\u00e1cio (infelizmente n\u00e3o  inclu\u00eddo na edi\u00e7\u00e3o brasileira) das<strong> Cartas do Diabo ao seu Aprendiz<\/strong>, a  t\u00e1tica do diabo \u00e9 precisamente provocar-nos com suas acrobacias, ou a  tem\u00ea-lo ou a desprez\u00e1-lo, para desviar-nos do Ser onipotente:<\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1 dois  erros acerca dos dem\u00f4nios, nos quais nossa esp\u00e9cie pode cair. Um \u00e9 n\u00e3o  acreditar em sua exist\u00eancia. O outro \u00e9 acreditar e nutrir um interesse  excessivo e doentio por eles. Os pr\u00f3prios diabos ficam igualmente  satisfeitos com ambos os erros e sa\u00fadam o materialista ou o m\u00e1gico, com o  mesmo deleite. [18]<\/p><\/blockquote>\n<p>A leitura da primeira carta desse fascinante livro j\u00e1  basta para compreendermos a diab\u00f3lica jogada da invers\u00e3o dos valores  (que nos deixa estarrecidos diante de atrocidades cometidas por crian\u00e7as  e adolescentes, nas escolas de hoje): convencer o \u201cpaciente\u201d de que as  coisas boas n\u00e3o s\u00e3o, na verdade, t\u00e3o boas assim e as ruins n\u00e3o s\u00e3o  totalmente ruins ou j\u00e1 foram ruins um dia, mas hoje \u00e9 diferente&#8230; Dessa  forma, instauram-se dualismos que procuram substituir ou confundir  coisas boas e ruins. O relativo passa a ser posto como absoluto  (recaindo num falso \u201cmoralismo\u201d), enquanto que o absoluto \u00e9  relativizado. Veja como o diabo velho Screwtape [19] em pessoa, das  Cartas do Diabo a seu Aprendiz, procura explicar ao seu \u201cing\u00eanuo\u201d  aprendiz essa manobra:<\/p>\n<blockquote><p>Parece que sup\u00f5es que a  argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a maneira de mant\u00ea-lo longe das garras do Inimigo. Isto  poderia ser assim se ele vivesse h\u00e1 alguns s\u00e9culos. Nesta \u00e9poca, os  humanos ainda sabiam muito bem quando uma coisa era comprovada e quando  n\u00e3o era; e se era comprovada, acreditavam nela. Eles ainda relacionavam o  pensar com o fazer, e estavam preparados para alterar seu modo de vida  como resultado de uma sucess\u00e3o de pensamentos. Mas, com a imprensa  semanal e outras armas do g\u00eanero, conseguimos alterar isto em grande  medida. Teu homem foi acostumado, desde garoto, a ter uma dezena de  filosofias incompat\u00edveis dan\u00e7ando em sua cabe\u00e7a. Ele n\u00e3o pensa em  doutrinas como prioritariamente \u201cverdadeiras\u201d ou \u201cfalsas,\u201d mas como  \u201cacad\u00eamicas\u201d ou \u201cpr\u00e1ticas\u201d, \u201csuperadas\u201d ou \u201ccontempor\u00e2neas\u201d,  \u201cconvencionais\u201d ou \u201cdesumanas.\u201d Jarg\u00e3o, n\u00e3o argumento, \u00e9 o teu melhor  aliado em mant\u00ea-lo longe da Igreja. [20]<\/p><\/blockquote>\n<p>Stott nos mostra como esta t\u00e1tica diab\u00f3lica de evitar  toda argumenta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica se traduz em algumas igrejas:<\/p>\n<blockquote><p>O esp\u00edrito do  anti-intelectualismo \u00e9 corrente hoje em dia. No mundo moderno  multiplicam-se os pragmatistas, para os quais a primeira pergunta acerca  de qualquer id\u00e9ia n\u00e3o \u00e9: \u201c\u00c9 verdade?,\u201d mas sim: \u201cSer\u00e1 que funciona?\u201d Os  jovens t\u00eam a tend\u00eancia de ser ativistas, dedicados na defesa de uma  causa, todavia nem sempre verificam com cuidado se sua causa \u00e9 um fim  digno de sua dedica\u00e7\u00e3o, ou se o modo como procedem \u00e9 o melhor meio para  alcan\u00e7\u00e1-lo&#8230; Este mesmo espectro de anti-intelectualismo surge  freq\u00fcentemente para perturbar a Igreja Crist\u00e3. Considera a teologia com  desprazer e desconfian\u00e7a. [21]<\/p><\/blockquote>\n<p>A pr\u00e1tica anti-intelectualista de muitas igrejas de  hoje receberia certamente, assim, muitos elogios da parte do  monstruosamente \u201cracionalista,\u201d mas ao mesmo tempo irracional,  personagem de Lewis. Apesar dos medos e receios que isso possa levantar,  \u00e9 fundamental e urgente resgatarmos as pr\u00e1ticas do debate saud\u00e1vel e  livre de id\u00e9ias e a argumenta\u00e7\u00e3o dentro de algumas comunidades crist\u00e3s,  pois \u00e9 isso precisamente que o diabo mais teme, j\u00e1 que sabe muito bem  que n\u00e3o tem raz\u00e3o alguma. As coisas est\u00e3o completa e radicalmente  separadas de Deus, desde a queda, mas n\u00e3o h\u00e1 nada na cria\u00e7\u00e3o que seja  essencialmente mau, pelo simples fato de o mal n\u00e3o possuir a ess\u00eancia ou  a l\u00f3gica (ratio) interna das coisas criadas por Deus, que foram  cuidadosamente pensadas e projetadas por ele atrav\u00e9s do Logos (Cristo). A  natureza do mal \u00e9 outra. Por isso \u00e9 que o castor de O Le\u00e3o, a  Feiticeira e o Guarda Roupa insiste em explicar \u00e0s crian\u00e7as que a  natureza da feiticeira n\u00e3o \u00e9 humana, apesar das apar\u00eancias que mant\u00e9m.  Gra\u00e7as a Deus, o mal \u00e9 impotente para destruir o reflexo do Criador nas  coisas. Por isso \u00e9 que Deus, de certa forma, \u00e9 ainda mais \u201cassustador\u201d  do que o diabo.<\/p>\n<p>A partir da vis\u00e3o equilibrada de Lewis e autores  correlatos, \u00e9 preciso considerar que o extremo oposto do racionalismo, o  anti-intelectualismo (monstruosidade n\u00e3o menos nefasta do que o  racionalismo), tem tido livre acesso \u00e0s salas-de-aula de certas  comunidades, como tem sido constatado por alguns educadores crist\u00e3os e  equipes s\u00e9rias, preocupadas e empenhadas em garantir o n\u00edvel de ensino  das escolas dominicais na atualidade e para o futuro. [22] Pois, quando  ocorre de simplesmente ignorarmos a necessidade humana de compreender as  coisas atrav\u00e9s da raz\u00e3o, considerando \u201csuspeito\u201d todo e qualquer  questionamento ou argumenta\u00e7\u00e3o nos encontros dominicais, reca\u00edmos no  manique\u00edsmo, correndo um s\u00e9rio risco de nos tornarmos \u201cpresas f\u00e1ceis\u201d de  qualquer \u201cvento de doutrina.\u201d A melhor maneira de evitarmos esse tipo  de perigo \u00e9 aprender a empregar a mente da forma correta, nem que, para  isso, tenhamos que quebrar certos paradigmas h\u00e1 muito assentados.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente no sentido de manter ilesos os  paradigmas est\u00e9reis, aparentemente \u201cbem comportados,\u201d que evitam a  renova\u00e7\u00e3o ou reforma das id\u00e9ias anacr\u00f4nicas nos meios crist\u00e3os, que o  diabo velho Screwtape procura instruir o seu aprendiz a sempre manter  seu paciente humano longe de debates mais s\u00e9rios. E explica por que:<\/p>\n<blockquote><p>O problema com a  argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela leva toda a batalha para o campo do Inimigo. Ele  tamb\u00e9m pode argumentar; enquanto que no campo da propaganda realmente  pr\u00e1tica, do tipo que estou sugerindo, ele tem se mostrado h\u00e1 s\u00e9culos  muito inferior a Nosso Pai C\u00e1 Embaixo. Pelo pr\u00f3prio fato de argumentar,  tu despertas a raz\u00e3o do paciente; e uma vez desperta, quem pode prever o  resultado? Mesmo se uma determinada s\u00e9rie de pensamentos possa ser  desvirtuada para terminar nos favorecendo, tu perceber\u00e1s que tens  refor\u00e7ado no teu paciente o h\u00e1bito fatal de prestar aten\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es  universais e afastado sua aten\u00e7\u00e3o do fluxo das experi\u00eancias imediatas  dos sentidos. Tua obriga\u00e7\u00e3o \u00e9 fixar sua aten\u00e7\u00e3o no fluxo. [23]<\/p><\/blockquote>\n<p>Uma das estrat\u00e9gia prediletas do diabo \u00e9, assim,  desviar a aten\u00e7\u00e3o do paciente das coisas essenciais e evitar que ele  procure compreend\u00ea-las; n\u00e3o deix\u00e1-lo refletir sobre as coisas como  realmente s\u00e3o, fazendo-o prestar aten\u00e7\u00e3o somente nas manifesta\u00e7\u00f5es  externas ou na forma como ele mesmo as percebe subjetivamente. A  percep\u00e7\u00e3o da realidade objetiva ou concreta das coisas \u00e9, em suma, o  grande \u201cperigo\u201d do qual o diabo foge a todo custo (pois \u00e9 precisamente  esta experi\u00eancia concreta, totalmente humana e existencial que Deus e os  homens t\u00eam em comum, e que pode, de repente, aproxim\u00e1-los):<\/p>\n<blockquote><p>Ensine-o a chamar-lhe  \u201cvida real\u201d e n\u00e3o o deixe perguntar o que se quer dizer com \u201creal\u201d&#8230; Tu  n\u00e3o percebes o quanto s\u00e3o presos pela press\u00e3o da experi\u00eancia comum&#8230;  Uma vez tive um paciente, um bom ate\u00edsta, que costumava ler no Museu  Brit\u00e2nico. Um dia, enquanto lia, vi um encadeamento de pensamentos em  sua mente come\u00e7ando a ir no caminho errado. O Inimigo, \u00e9 claro, estava  no seu calcanhar num instante. Antes de perceber o que sucedia, vi meus  vinte anos de trabalho come\u00e7arem a ruir. Se tivesse perdido o  sangue-frio e come\u00e7ado uma defesa por meio de argumenta\u00e7\u00e3o, estaria  perdido. Mas n\u00e3o fui idiota. Ataquei imediatamente na parte do homem que  estava sob meu maior controle e sugeri que j\u00e1 era tempo de comer algo. O  Inimigo presumivelmente fez a contra-sugest\u00e3o (tu sabes que nunca se  consegue escutar tudo o que ele diz a eles?) de que isto era mais  importante do que um lanche. Pelo menos acho que foi isto que ele  sugeriu, pois quando eu disse: \u201cBem, na verdade algo demasiadamente  importante para tratar no final de uma manh\u00e3,\u201d o paciente animou-se  consideravelmente; e quando acrescentei: \u201cmuito melhor voltar depois do  lanche e abordar o tema com a mente descansada,\u201d ele j\u00e1 estava a meio  caminho da porta. Assim que chegou \u00e0 rua, a batalha estava ganha.  Mostrei-lhe um garoto gritando as manchetes do jornal do dia&#8230; e, antes  que ele chegasse ao fim dos degraus, eu lhe havia fixado numa convic\u00e7\u00e3o  inalter\u00e1vel de que, sejam quais forem as id\u00e9ias esquisitas que possam  vir \u00e0 mente de uma pessoa quando est\u00e1 sozinha com seus livros, uma  saud\u00e1vel dose de \u201cvida real\u201d (&#8230;) \u00e9 o bastante para mostrar que todo  \u201caquele tipo de coisa\u201d simplesmente n\u00e3o poderia ser verdade&#8230; Hoje ele  est\u00e1 salvo na casa de Nosso Pai. [24]<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa mesma l\u00f3gica do desvio e do engano, da  substitui\u00e7\u00e3o do real por algo aparentemente mais importante, \u00e9 empregada  no \u00faltimo trecho da carta, que \u00e9 quase um tributo a Whitehead, inventor  do s\u00e1bio prov\u00e9rbio: \u00e0s vezes n\u00e3o se enxerga o bosque, de tantas  \u00e1rvores:<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a passos que  pusemos em funcionamento h\u00e1 s\u00e9culos, eles acham quase imposs\u00edvel  acreditar no n\u00e3o-familiar, enquanto que o familiar est\u00e1 diante dos  olhos. Insista sobre o car\u00e1ter comum das coisas com ele. Acima de tudo,  n\u00e3o tente usar a ci\u00eancia (quero dizer, as aut\u00eanticas ci\u00eancias) como uma  defesa contra o cristianismo. Elas certamente o encorajar\u00e3o a pensar  acerca de realidades que ele n\u00e3o pode tocar nem ver. Tem havido casos  tristes entre os f\u00edsicos modernos. Se tiver de dedicar-se  superficialmente \u00e0 ci\u00eancia, mantenha-o ocupado com economia e  sociologia; n\u00e3o o deixe afastar-se daquela inestim\u00e1vel \u201cvida real.\u201d Mas o  melhor de tudo \u00e9 n\u00e3o deix\u00e1-lo ler sobre ci\u00eancias, mas sim dar-lhe uma  id\u00e9ia geral de que conhece tudo, e que tudo que captou em conversas e  leituras casuais \u00e9 \u201cresultado da moderna investiga\u00e7\u00e3o.\u201d Lembra que tu  est\u00e1s a\u00ed para confundi-lo. Pela maneira que alguns de teus jovens  dem\u00f4nios falam, supor\u00edamos que nosso trabalho \u00e9 ensinar! Teu afetuoso  tio&#8230; [25]<\/p>\n<p><strong>C. Apre(e)nder contemplativo<br \/>\n<\/strong>Para  os cl\u00e1ssicos da literatura, \u201cver a vida como ela \u00e9\u201d n\u00e3o significa  olh\u00e1-la com ceticismo, como para algum corpo morto, mas olh\u00e1-la com  admira\u00e7\u00e3o (que \u00e9 um dos sentidos da paix\u00e3o), ou seja, contemplar o  reflexo do Criador, dirigindo o olhar (mirar no espanhol) do leitor para  o que vai \u201cal\u00e9m\u201d dos fatos nus e crus.<\/p>\n<p>Apesar de defensor da \u201cl\u00f3gica das coisas\u201d e da  argumenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso deixar claro que Lewis n\u00e3o \u00e9 um racionalista que  rejeita qualquer tipo de contempla\u00e7\u00e3o ou conhecimento pela f\u00e9. Pelo  contr\u00e1rio, todo o seu esfor\u00e7o concentrou-se em mostrar aos racionalistas  a import\u00e2ncia da abertura para a totalidade do real, que muitas vezes  n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o \u201cl\u00f3gica\u201d quanto gostar\u00edamos, exigindo mais f\u00e9 do que notamos  ou admitimos, como comentam Odero &amp; Odero, parafraseando Chesterton:<\/p>\n<blockquote><p>Segundo Chesterton, a  fonte de erros mais freq\u00fcente do mundo est\u00e1 no fato de que as coisas s\u00e3o  \u201cquase razo\u00e1veis,\u201d sem chegar a s\u00ea-lo completamente. A vida n\u00e3o \u00e9  il\u00f3gica em si, mas assim acaba parecendo ser para os l\u00f3gicos, porque  aparenta ter mais regularidade matem\u00e1tica do que, de fato, possui. Da\u00ed a  import\u00e2ncia de contrastar o pensamento com a realidade para buscar a  verdade. Como podemos ver, este \u00e9 um tema que freq\u00fcentemente aparece nas  obras de Lewis. Em seu livro Ortodoxia, Chesterton trata de forma  genial desse mesmo e t\u00e3o importante assunto: O homem de hoje sempre se  tem preocupado mais com a verdade do que com a coer\u00eancia. [26]<\/p><\/blockquote>\n<p>A falta de consist\u00eancia e coer\u00eancia entre o que se  professa e o que se vive \u00e9 apontada por Lewis como um dos grandes  obst\u00e1culos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da atualidade. O consumismo, o  individualismo egoc\u00eantrico e a falta de considera\u00e7\u00e3o, tanto das  limita\u00e7\u00f5es da natureza humana quanto do seu lado positivo, s\u00e3o  obst\u00e1culos que precisam ser combatidos pelo cr\u00edtico liter\u00e1rio:<\/p>\n<blockquote><p>A maior arte do cr\u00edtico \u00e9 a de sair de si mesmo e  deixar que a humanidade decida. Nosso dever \u00e9 mostrar aos outros a obra  que eles alegam admirar ou desprezar, como realmente \u00e9, descrevendo,  quase que definindo seu car\u00e1ter, para depois deixar que eles mesmos  julguem (agora muito melhor informados). A certa altura, o cr\u00edtico \u00e9 at\u00e9  avisado para n\u00e3o adotar um r\u00edgido perfeccionismo. Ele deve manter sua  id\u00e9ia de excel\u00eancia, de perfei\u00e7\u00e3o, mas, ao mesmo tempo, estar disposto e  acess\u00edvel ao segundo melhor que se oferece. Ele deve, em uma palavra,  ter o car\u00e1ter que [George] MacDonald atribu\u00eda a Deus, e Chesterton,  seguindo-o, ao cr\u00edtico; aquele que \u00e9 \u201cf\u00e1cil de agradar, mas dif\u00edcil de  satisfazer.\u201d [27]<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>D. Apre(e)nder imaginativo<\/strong><br \/>\nComo  diz\u00edamos, parafraseando Chesterton, o melhor m\u00e9todo para se apreender a  realidade das coisas, que t\u00e3o freq\u00fcentemente nos escapa numa abordagem  direta, \u00e9 o contraste (por exemplo, n\u00e3o podemos dizer o que \u00e9 e no que  implica a luz ou a energia, mas podemos constatar e determinar o que \u00e9 o  conceito e implica\u00e7\u00e3o da sua falta). Para o que n\u00e3o podemos captar pela  raz\u00e3o, resta-nos a aceita\u00e7\u00e3o pela f\u00e9, ou a procura por uma via  alternativa de aproxima\u00e7\u00e3o, a via da imagina\u00e7\u00e3o. Na literatura n\u00e3o h\u00e1  melhor m\u00e9todo de contraste do que os contos-de-fada, que consideram as  coisas n\u00e3o diretamente como elas s\u00e3o ou se explicam, mas indiretamente,  como elas n\u00e3o s\u00e3o, ou como foram vocacionadas a ser. Os contos-de-fada,  longe de representar uma infantiliza\u00e7\u00e3o ou banaliza\u00e7\u00e3o da realidade,  revelam-se como um poderoso recurso did\u00e1tico, capaz de ensinar verdades  \u201c\u00e9ticas\u201d muito mais adultas do que podemos supor. Por isso \u00e9 que todo  bom cr\u00edtico e educador amadurecido sabe apreci\u00e1-los: &#8220;N\u00f3s que ainda  apreciamos os contos-de-fada temos menos raz\u00f5es para querermos voltar \u00e0s  atitudes infantis. Conservamos o bom da inf\u00e2ncia, sem abrir m\u00e3o de  certos prazeres adultos.&#8221; [28]<\/p>\n<p>Lewis mesmo confessa que o seu lado \u201cimaginativo\u201d  era, de fato, o mais amadurecido:<\/p>\n<blockquote><p>O homem imaginativo em  mim \u00e9 mais velho, mais continuamente operativo e, neste sentido, mais  fundamental do que qualquer um dos outros, o religioso e o cr\u00edtico. Ele  me fez, pela primeira vez, aventurar-me como poeta. Ele \u00e9 que, numa  r\u00e9plica \u00e0 poesia dos outros, tornou-me um cr\u00edtico e, em defesa a esta  r\u00e9plica, tornou-me muitas vezes um cr\u00edtico paradoxal. Foi ele que, ap\u00f3s a  minha convers\u00e3o, levou-me a encarnar minha f\u00e9 religiosa em formas  simb\u00f3licas ou mitopo\u00e9ticas de um Screwtape, at\u00e9 um tipo de fic\u00e7\u00e3o  cient\u00edfica teol\u00f3gica. E \u00e9 claro que foi ele que me levou, nos \u00faltimos  anos, a escrever a s\u00e9rie de contos narnianos, destinados a crian\u00e7as; n\u00e3o  porque eu estivesse preocupado com o que elas queriam ouvir, o que me  comprometeria a fazer adapta\u00e7\u00f5es (o que felizmente n\u00e3o foi  necess\u00e1rio&#8230;), mas porque o conto-de-fadas foi o melhor g\u00eanero  liter\u00e1rio que eu encontrei para expressar o que pretendia dizer. [29]<\/p><\/blockquote>\n<p>Por outro lado, quem \u00e9 que hoje em dia ainda se d\u00e1 ao  luxo de ler \u201ccontos da carochinha\u201d (que j\u00e1 adquiriram um forte sentido  pejorativo)? A falta de um realismo equilibrado predominante deve-se em  parte \u00e0 falta de leitura ou \u00e0 limita\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura insossa \u201cdos  fatos,\u201d que nos leva \u00e0 invers\u00e3o de valores. Essa invers\u00e3o, por sua vez,  gera uma aliena\u00e7\u00e3o e desarticula\u00e7\u00e3o da teoria e da pr\u00e1tica, que,  justificando-se cada qual a si mesma, perde o seu efetivo valor,  recaindo alternadamente nos extremos do dogmatismo e do ativismo:<\/p>\n<blockquote><p>Lembre-se de que  acreditar na virtude do \u201cfazer pelo fazer\u201d \u00e9 um tra\u00e7o (&#8230;) do esp\u00edrito  moderno: o sentimento de preocupa\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o passar de inquieta\u00e7\u00f5es ou  oscila\u00e7\u00f5es auto-afirmativas da nossa auto-imagem. Como (George)  MacDonald j\u00e1 dizia, \u201co sagrado pode ter um vi\u00e9s do profano.\u201d E, ao nos  empenharmos em cumprir deveres desnecess\u00e1rios, podemos estar nos  tornando menos dispostos para cumprir com os nossos verdadeiros  compromissos, cometendo, assim, um tipo de injusti\u00e7a. Temos que dar uma  chance n\u00e3o somente a Maria, mas tamb\u00e9m a Marta! [30]<\/p><\/blockquote>\n<p>Se observarmos as pr\u00e1ticas de ensino nas escolas de  hoje, veremos o imp\u00e9rio do exagero e da falta de modera\u00e7\u00e3o (o incha\u00e7o de  curr\u00edculos, o fazer pelo fazer, a falta de continuidade, organicidade,  integra\u00e7\u00e3o entre as pr\u00e1ticas educacionais e o faz-de-conta). O realismo,  a objetividade e a coer\u00eancia no planejamento do ensino (na sele\u00e7\u00e3o de  conte\u00fados, procedimentos metodol\u00f3gicos e atividades educacionais para  cada fim proposto) s\u00e3o virtudes em franca extin\u00e7\u00e3o nos meios  educacionais de hoje. Mesmo nas igrejas podemos observar pr\u00e1ticas  pedag\u00f3gicas de pouco nexo com a filosofia crist\u00e3 de vida. Nesse sentido,  Lewis \u00e9 duro, direto e enf\u00e1tico em sua exorta\u00e7\u00e3o contra os chamados  \u201ceducadores crist\u00e3os\u201d:<\/p>\n<blockquote><p>Quando os educadores  crist\u00e3os fazem quest\u00e3o de lembrar a seus irm\u00e3os a import\u00e2ncia da  constitui\u00e7\u00e3o do lar crist\u00e3o \u2014 e penso que a lembran\u00e7a \u00e9 perfeitamente  pertinente \u2014 a primeira coisa a se fazer \u00e9 acabar com o \u201cfaz-de-conta\u201d  em torno da vida do lar&#8230;: 1. Nenhuma organiza\u00e7\u00e3o ou modo de vida, n\u00e3o  importa qual seja, tem uma tend\u00eancia natural para o bem, e isso desde a  queda do homem&#8230; 2. \u00c9 preciso considerar com cuidado o conceito de  \u201cconvers\u00e3o\u201d ou \u201cconsagra\u00e7\u00e3o da vida em fam\u00edlia,\u201d que deve significar  algo al\u00e9m da preserva\u00e7\u00e3o do \u201camor,\u201d no sentido de afei\u00e7\u00e3o natural. 3.  Devemos reconhecer os perigos eminentes contidos na principal  caracter\u00edstica da vida dom\u00e9stica, que \u00e9, no senso comum, colocada como  sua atra\u00e7\u00e3o principal: de ser o lugar onde \u201cnos revelamos como realmente  somos.\u201d 4. Como as pessoas devem, ent\u00e3o, comportar-se em casa? 5.  Finalmente, podemos ensinar que, se o lar \u00e9 para ser um instrumento da  gra\u00e7a, deve ser tamb\u00e9m um lugar que mant\u00e9m certas regras? N\u00e3o pode haver  vida em comum sem regras. A \u00fanica alternativa \u00e0 regra n\u00e3o \u00e9 a  liberdade, mas uma ileg\u00edtima (e muitas vezes inconsciente) tirania do  membro mais ego\u00edsta sobre os outro. [31]<\/p><\/blockquote>\n<p>Sendo uma filosofia do sentido da vida, o  cristianismo \u00e9 a mais did\u00e1tica de todas as teologias, pois para fazermos  frente aos desafios da vida e das mudan\u00e7as hist\u00f3ricas, o melhor meio \u00e9,  partindo dos \u201cfatos nus e crus,\u201d abrir portas para o sentido mais  profundo das coisas, para o seu verdadeiro destino e voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, o que se espera do educador crist\u00e3o aut\u00eantico \u00e9  que pare de queixar-se da falta de tempo e recursos e busque a  coer\u00eancia entre o que professa e as pr\u00e1ticas concretas do seu cotidiano.  Pois: &#8220;se n\u00f3s realmente  acreditamos naquilo em que dizemos crer \u2014 se realmente cremos que o  nosso lar est\u00e1 em outro lugar e que esta vida \u00e9 uma \u201cperegrina\u00e7\u00e3o em sua  busca,\u201d por que n\u00e3o olhamos para frente, rumo \u00e0 chegada?&#8221;[32]<\/p>\n<p>Foi quando Lewis parou de correr atr\u00e1s da sua  concep\u00e7\u00e3o de felicidade e olhou para a realidade, que deu a chance que  Deus esperava para surpreend\u00ea-lo com algo ainda maior do que era capaz  de sonhar: o amor verdadeiro, do qual esteve fugindo todo o tempo.<\/p>\n<p>Nesse sentido \u00e9 que grandes psicanalistas, como Bruno  Bettelheim, t\u00eam insistido em afirmar que os contos-de-fada, longe de  ser uma mera forma de \u201cescapismo\u201d ou meio de fuga diante dos problemas  da vida real, s\u00e3o altamente did\u00e1ticos e at\u00e9 terap\u00eauticos. [33] Ali\u00e1s, a  literatura, particularmente a imaginativa, tem este misterioso e  aparentemente contradit\u00f3rio poder de captar a ess\u00eancia da experi\u00eancia  humana (permeada pela dor e o sofrimento) e transform\u00e1-la em sabedoria  de vida. \u00c9 isso que se pode constatar, ao menos, nas par\u00e1bolas b\u00edblicas.  A educa\u00e7\u00e3o pela imagina\u00e7\u00e3o, exemplificada nos contos-de-fada e nas  par\u00e1bolas, abriga um poderoso potencial pedag\u00f3gico ainda pouco explorado  ou mal aplicado nos meios educacionais.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, entretanto, de uma receita m\u00e1gica. Para  se obter bons resultados com essa metodologia, principalmente no mundo  atual, dominado pelo imediatismo e consumismo (\u00e9 perfeitamente poss\u00edvel,  por exemplo, que uma crian\u00e7a ou\u00e7a um prov\u00e9rbio, ou uma par\u00e1bola como a  do O Le\u00e3o, a Feiticeira e o Guarda-Roupa sem chegar a nenhuma conclus\u00e3o  mais profunda!), \u00e9 preciso que se adote uma postura did\u00e1tica adequada.  Nesse sentido \u00e9 que a imagem de Cristo \u00e9 t\u00e3o ilustrativa. Nas palavras  do t\u00e3o simp\u00e1tico personagem, o castor, ele n\u00e3o fica exibindo toda a sua  gl\u00f3ria a todo instante, nem fica a explicar as coisas nos seus m\u00ednimos  detalhes a todo o mundo. Ele escolhe muito bem os momentos e as palavras  certas para dar o seu recado. Assim, tudo que est\u00e1 relacionado ao nome  de Aslan permanece coberto de uma aura de mist\u00e9rio. Trata-se de um  animal realmente feroz, um ser selvagem, ca\u00e7ador, que n\u00e3o \u00e9  domestic\u00e1vel. Por outro lado, Aslan \u00e9, ao mesmo tempo \u201cBom, muito bom!\u201d  Essa imagem cont\u00e9m todos os elementos essenciais de Cristo na doutrina  crist\u00e3. N\u00e3o \u00e9 para menos que Lewis diz, em uma de suas cartas, que O  Le\u00e3o, a Feiticeira e o Guarda-Roupa \u00e9 a sua obra principal e mais  amadurecida.<\/p>\n<p>Nessa linha de pensamento, G. K. Chesterton diz que a  postura certa \u00e9 a que, com modera\u00e7\u00e3o, considera os dois lados, da raz\u00e3o  e bom senso e da imagina\u00e7\u00e3o e criatividade, deixando Deus iluminar  ambos com sua mente. Esta \u00e9 a moral dos contos-de-fada (e \u00e9 nessa  filosofia que se fundamenta igualmente a \u201cfilosofia da educa\u00e7\u00e3o\u201d  narniana), que n\u00e3o passam do \u201cpa\u00eds ensolarado do senso comum,\u201d onde n\u00e3o  h\u00e1 \u201cleis,\u201d regras ou classifica\u00e7\u00f5es. Estas, de fato, s\u00e3o generaliza\u00e7\u00f5es  totalmente anti-intelectuais, de t\u00e3o raramente que ocorrem na realidade  (se \u00e9 que ocorrem), nas quais n\u00e3o \u00e9 o homem que cria a ci\u00eancia,  elaborando ju\u00edzos sobre a natureza, mas a ci\u00eancia \u00e9 que cria o homem,  julgando a natureza a partir de um pressuposto sobrenatural. No mundo  das fadas, as palavras de ordem s\u00e3o \u201ccharme\u201d, \u201cmagia\u201d, \u201cencanto,\u201d  expressando o princ\u00edpio da incerteza e do mist\u00e9rio, que nos torna mais  humildes e gratos pela vida, trazendo-nos de volta ao ch\u00e3o da realidade,  que \u00e9 o da ignor\u00e2ncia e do esquecimento at\u00e9 de n\u00f3s mesmos:<\/p>\n<blockquote><p>Ame o Senhor nosso Deus,  mas n\u00e3o tente conhecer-se a si mesmo. Somos todos v\u00edtimas da mesma  calamidade intelectual; todos n\u00f3s esquecemos nossos nomes; todos n\u00f3s  esquecemos o que realmente somos. Tudo o que chamamos de bom senso,  racionalidade, praticidade e positivismo justifica-se pelo simples fato  de que, devido a certos pontos mortos da nossa hist\u00f3ria de vida,  esquecemos que esquecemos&#8230; Conforme explicava, os contos-de-fada  fundaram em mim duas convic\u00e7\u00f5es: em primeiro lugar, este mundo \u00e9 um  lugar selvagem e chocante, que poderia ter sido muito diferente, mas que  doravante \u00e9 bastante prazeroso; em segundo lugar, antes desta  selvageria e prazer, devemos ser modestos o suficiente para nos  submeter, com simplicidade, aos limites do mist\u00e9rio. Sempre acreditei  que o mundo envolvesse magia; hoje penso que \u00e9 mais prov\u00e1vel que envolva  um m\u00e1gico. [34]<\/p><\/blockquote>\n<p>Em s\u00edntese, o que Chesterton diz \u00e9: a bab\u00e1 que narra  os contos-de-fadas \u00e9 a guardi\u00e3 da tradi\u00e7\u00e3o e da pr\u00f3pria democratiza\u00e7\u00e3o  da sabedoria e do conhecimento. Nada h\u00e1 de mais plaus\u00edvel e confi\u00e1vel do  que os contos-de-fadas, que nos fazem ver as coisas como realmente s\u00e3o:  encantadoras demais para podermos racionaliz\u00e1-las, restando-nos apenas  admir\u00e1-las, glorificando o Criador.<\/p>\n<p><strong>E. Apre(e)nder pela literatura<br \/>\n<\/strong>O  segredo da did\u00e1tica de Lewis, ent\u00e3o, parece encontrar-se nessa tentativa  de traduzir em literatura imaginativa e bem humorada, que tamb\u00e9m apela  para a raz\u00e3o, o que aprendeu por experi\u00eancia: que, embora possa vir a  tornar-se um caminho enganoso, se perdermos a modera\u00e7\u00e3o, admirando a  criatura em lugar do Criador (vaidade das vaidades), a literatura tem o  potencial ainda pouco explorado pelos educadores de motivar o educando a  buscar algo que vai al\u00e9m da letra morta, e nos conduzir de volta ao  caminho rumo ao nosso lar esquecido.<\/p>\n<p>A maior prova disso encontra-se na pr\u00f3pria convers\u00e3o  de Lewis. Depois de cair no ceticismo ou anti-intelectualismo, ap\u00f3s a  descoberta de que a felicidade n\u00e3o se encontrava nas coisas que buscava,  de repente acabou fazendo uma descoberta ainda maior: que a felicidade  encontra-se para al\u00e9m dessas coisas, que n\u00e3o passam de sinais (da\u00ed vem  ensinar) indicativos do caminho que leva a ela. Por esse exemplo de vida  podemos notar que, precisamente por n\u00e3o ser \u201cdomestic\u00e1vel,\u201d Deus se  manifesta, sem pedir licen\u00e7a, a quem ele quiser e da forma que ele  escolher.<\/p>\n<p><strong>F. Aprendendo a aprender<br \/>\n<\/strong>A  metodologia proposta por Lewis na sua literatura, que parte sempre da  experi\u00eancia viva e real, traduzida e capturada pela linguagem  imaginativa, visa abrir mais e mais caminhos ou vias de comunica\u00e7\u00e3o do  evangelho ao ser humano. Essa metodologia das \u201cportas abertas\u201d tem o  potencial de alcan\u00e7ar tanto crist\u00e3os desmotivados ou amortecidos pelo  des\u00e2nimo, quanto n\u00e3o crist\u00e3os, que esqueceram que Cristo \u00e9 a \u00fanica fonte  da alegria verdadeira, capaz de preencher os vazios da natureza ca\u00edda,  reconciliando o homem com Deus e consigo mesmo. Evidentemente, essa  felicidade, que podemos esperan\u00e7osamente manter em mira atrav\u00e9s da  literatura, nunca ser\u00e1 totalmente realizada neste mundo, que, por isso  mesmo, n\u00e3o passa de uma \u201cterra das sombras\u201d da verdadeira realidade que  ainda est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>Assim, podemos dizer, em s\u00edntese, que, de acordo com  Lewis, a melhor maneira de o educador crist\u00e3o preparar-se para o s\u00e9culo  XXI \u00e9 \u201cver as coisas como s\u00e3o,\u201d aplicando a literatura, m\u00e9todo ainda  pouco desenvolvido na educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3, como meio para abrir  oportunidades \u00e0 discuss\u00e3o de conceitos fundamentais, tais como  realidade, raz\u00e3o, f\u00e9 e imagina\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, se poder\u00e1 construir um  projeto pedag\u00f3gico capaz de nortear todos os educadores crist\u00e3os  interessados em aprender a fazer frente aos desafios futuros,  equipando-se com f\u00e9, raz\u00e3o, coragem e muita imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>NOTAS:<\/strong><br \/>\n1  &#8211; As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia, lan\u00e7adas pela Editora Martins Fontes na bienal  do livro de 1997, \u00e9 uma s\u00e9rie de contos infantis que inclui: O Sobrinho  do Mago, O Le\u00e3o, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (que se encontra em  desenho animado pela Reborn V\u00eddeo), O Cavalo e seu Menino, Pr\u00edncipe  Caspian, A Viagem do Peregrino da Alvorada, A Cadeira de Prata e A  \u00daltima Batalha.<br \/>\n2 &#8211; C. S. Lewis, Surprised by Joy (Nova York:  Harcourt Brace, 1954), traduzido como Surpreendido pela Alegria (S\u00e3o  Paulo: Editora Mundo Crist\u00e3o, 1998).<br \/>\n3 &#8211; Da cole\u00e7\u00e3o de \u201cPensadores  Cl\u00e1ssicos\u201d da Editora Mundo Crist\u00e3o. Dessa cole\u00e7\u00e3o podemos citar ainda O  Grande Abismo, al\u00e9m da cole\u00e7\u00e3o das Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia, hoje editadas  pela Editora Martins Fontes. Outras obras de Lewis s\u00e3o Cristianismo Puro  e Simples (ABU Editora) e O Peso da Gl\u00f3ria (Vida Nova).<br \/>\n4 &#8211; Ainda  que isso n\u00e3o seja bem verdade no Brasil, onde grande parte desses livros  j\u00e1 se encontram esgotados, eles continuam bastante citados e aplicados,  tanto nas Escolas Dominicais e reuni\u00f5es diversas nas igrejas, quanto  nos meios estudantis crist\u00e3os ou n\u00e3o.<br \/>\n5 &#8211; Colin Duriez, The J. R. R.  Tolkien Handbook: A Comprehensive Guide to His Life, Writings, and  World of Middle-Earth (Grand Rapids: Baker, 1992), 130.<br \/>\n6 &#8211; C. S.  Lewis, Letters to Malcolm (Nova York: Harcourt Brace, 1963), 76.<br \/>\n7 &#8211;  C. S. Lewis, Letters to an American Lady, ed. Clyde S. Kilby (Grand  Rapids: Eerdmans, 1971), 55. A carta \u00e9 de 26\/4\/56.<br \/>\n8 &#8211; Peter Kreeft,  Buscar Sentido no Sofrimento (S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1995), 100.<br \/>\n9  &#8211; Ibid., 61.<br \/>\n10 &#8211; Lewis, Letters to an American Lady, 79 (carta de  30\/10\/58).<br \/>\n11 &#8211; C. S. Lewis, The Allegory of Love (Oxford: Clarendon  Press, 1936).<br \/>\n12 &#8211; C. S. Lewis, Studies in Medieval &amp;  Renaissance Literature (Cambridge: Cambridge University Press, 1996; 4a.  edi\u00e7\u00e3o), 44.<br \/>\n13 &#8211; Tom\u00e1s de Aquino, Summa Contra Gentiles, em Os  Pensadores, Vol VIII (S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1973).<br \/>\n14 &#8211; Lewis,  Studies in Medieval &amp; Renaissance Literature, 59.<br \/>\n15 &#8211; Ibid.,  72.<br \/>\n16 &#8211; Ibid., 82.<br \/>\n17 &#8211; Guilherme de Lorris (1200-40), poeta  franc\u00eas autor dos primeiros quatro mil versos de 22.000 do poema Le  roman de la rose. A segunda parte foi escrita pelo poeta tamb\u00e9m franc\u00eas  Jean de Meun.<br \/>\n18 &#8211; C. S. Lewis, Cartas do Diabo a seu Aprendiz  (Petr\u00f3polis: Vozes, 1996), 9.<br \/>\n19 &#8211; A Loyola manteve o nome original  em ingl\u00eas Screwtape. De fato, \u00e9 dif\u00edcil expressar a totalidade do  significado desse nome em portugu\u00eas, que lembra \u201cverme\u201d, \u201clombriga,\u201d  enfim, um parasita asqueroso que vai se enrolando em torno de si mesmo.<br \/>\n20  &#8211; Lewis, Cartas do Diabo a seu Aprendiz, 11.<br \/>\n21 &#8211; John R. Stott,  Crer \u00e9 tamb\u00e9m Pensar (S\u00e3o Paulo: ABU Editora, 1978), 7-8.<br \/>\n22 &#8211;  Somente para citar um exemplo, devemos mencionar a excelente revista  Didaqu\u00ea, usada como material did\u00e1tico em escolas dominicais de diversas  denomina\u00e7\u00f5es, por todo o Brasil.<br \/>\n23 &#8211; Lewis, Cartas do Diabo a seu  Aprendiz, 12<br \/>\n24 &#8211; Ibid., 12-13.<br \/>\n25 &#8211; Ibid., 13-14.<br \/>\n26 &#8211;  Odero &amp; Odero, Imagen del Hombre (Pamplona: EUNSA, 1993), 369.<br \/>\n27  &#8211; C. S. Lewis, An Experiment in Criticism (Cambridge: Cambridge  University Press, 1961), 120.<br \/>\n28 &#8211; Lewis, Letters to an American  Lady, 16 (carta de 22\/6\/53).<br \/>\n29 &#8211; Walter Hooper, C. S. Lewis, A  Companion and Guide (S\u00e3o Francisco: Harper Collins, 1996).<br \/>\n30 &#8211;  Ibid., 53 (carta de 19\/3\/56).<br \/>\n31 &#8211; C. S. Lewis, God in the Dock:  Essays on Theology and Ethics, ed. W. Hooper (Grand Rapids: Eerdmans,  1970), 284ss.<br \/>\n32 &#8211; Lewis, Letters to an American Lady, 84 (carta de  7\/6\/59).<br \/>\n33 &#8211; Os relatos completos das experi\u00eancias impressionantes  de Bruno Bettelheim com o tratamento de crian\u00e7as deficientes mentais a  partir dos contos-de-fadas pode ser lido na sua obra: A Psican\u00e1lise dos  Contos de Fadas (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980). Ele diz: \u201c\u00c9 uma  caracter\u00edstica dos contos de fadas colocar um dilema existencial de  forma breve e categ\u00f3rica. Isto permite \u00e0 crian\u00e7a aprender o problema em  sua forma mais essencial, onde uma trama mais complexa confundiria o  assunto para ela. O conto-de-fadas simplifica todas as situa\u00e7\u00f5es\u201d (p.  15).<br \/>\n34 &#8211; G. K. Chesterton, \u201cOrthodoxy,\u201d texto eletr\u00f4nico dispon\u00edvel  na internet no endere\u00e7o:  http:\/\/www.dur.ac.uk\/~dcs0mpw\/gkc\/books\/ortho14.txt<br \/>\nFonte: Revista  Fides Reformata<br \/>\n* Gabriele Greggersen, fez mestrado e doutorado  (tese: \u201cA Antropologia Filos\u00f3fica de \u2018O Le\u00e3o, a Feiticeira e o  Guarda-Roupa\u2019 e a Pedagogia de C. S.Lewis\u201d) na \u00e1rea de Hist\u00f3ria e  Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o  Paulo. Foi\u00a0 professora de Did\u00e1tica e Metodologia no Centro  Presbiteriano de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o Andrew Jumper, junto \u00e0 Universidade Presbiteriana Mackenzie entre outras faculdades,  al\u00e9m de dar palestras e prestar consultoria pedag\u00f3gica por todo o  Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O lado pedag\u00f3gico de C.S. Lewis e o que se pode apreender dele ainda \u00e9 pouco explorado no Brasil. Nesse artigo fazemos uma leitura transversal de sua obra, em busca de repostas para essa pergunta chave: O que \u00e9 aprender para esse autor brit\u00e2nico de t\u00e3o grande relev\u00e2ncia n\u00e3o apenas no mundo teol\u00f3gico, mas n\u00e3o menos no mundo secular.<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[29083,29086,29087],"tags":[29114,29116,29156,29168,131,12754,29256,15602,29351],"class_list":["post-135","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-de-gabriele","category-artigos-em-portugues","category-assuntos-relativos-a-biografia-do-autor","tag-anti-intelectualismo","tag-aprendizagem","tag-contemplacao","tag-cristianismo-puro-e-simples","tag-educacao","tag-imaginacao","tag-literatura-medieval","tag-razao","tag-surpreendido-pela-alegria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/135","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=135"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/135\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=135"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=135"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=135"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}