{"id":1153,"date":"2024-06-10T12:21:27","date_gmt":"2024-06-10T15:21:27","guid":{"rendered":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/?p=1153"},"modified":"2024-06-10T13:01:27","modified_gmt":"2024-06-10T16:01:27","slug":"tolkien-versus-lewis-sobre-fantasia-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2024\/06\/10\/tolkien-versus-lewis-sobre-fantasia-crista\/","title":{"rendered":"Tolkien versus Lewis sobre fantasia crist\u00e3"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">David C. Downing<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Traduzido por Gabriele Greggersen<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A maioria das discuss\u00f5es sobre J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis enfatiza seu parentesco &#8211; sua f\u00e9 compartilhada, seus interesses acad\u00eamicos semelhantes em literatura e linguagem, seu amor m\u00fatuo por mitos, lendas e romance com personagens heroicos. Os acad\u00eamicos tamb\u00e9m tendem a observar semelhan\u00e7as no <em>corpus <\/em>de literatura de fantasia distinto criado por Tolkien e Lewis. No entanto, os dois autores diferiam significativamente em suas abordagens \u00e0 literatura de fantasia, como fica evidente n\u00e3o apenas nos pronunciamentos que cada um fez sobre esse g\u00eanero, mas tamb\u00e9m nas fantasias que cada um criou de fato.<\/p>\n<p>Tolkien e Lewis produziram, cada um por si, <em>apologias <\/em>da literatura de fantasia, Tolkien em &#8220;On Fairy-Stories&#8221; [&#8220;Sobre os contos de fada&#8221;] (<em>Ensaios<\/em>), Lewis em &#8220;Sometimes Fairy Stories May Say Best What&#8217;s To Be Said&#8221; [&#8220;\u00c0s vezes dos contos de fada s\u00e3o a melhor forma de dizer o que tem que ser dito&#8221;] (Sobre Hist\u00f3rias). Embora os dois ensaios compartilhem v\u00e1rios pressupostos, s\u00e3o as diferen\u00e7as entre eles que melhor elucidam as fic\u00e7\u00f5es distintas criadas por Tolkien e Lewis.<\/p>\n<p>A obra de Tolkien &#8220;On Fairy-Stories&#8221; (Sobre Contos de Fadas) afirma que o dom\u00ednio exclusivo dos contos de fadas (agora mais comumente chamados de literatura de fantasia) \u00e9 o reino de Faerie [fadas], o Reino Perigoso da magia e do encantamento onde os mortais comuns \u00e0s vezes precisam se aventurar para cumprir uma miss\u00e3o. Para Tolkien, uma hist\u00f3ria de fadas aut\u00eantica n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma extens\u00e3o de nosso Mundo Prim\u00e1rio, mas a cria\u00e7\u00e3o de um Mundo Secund\u00e1rio plaus\u00edvel e autoconsistente, sujeito a suas pr\u00f3prias leis. Tolkien sugere que foi dada muita \u00eanfase \u00e0 &#8220;representa\u00e7\u00e3o ou interpreta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica das belezas e terrores [<em>deste<\/em>] mundo&#8221; (<em>Essays <\/em>[Ensaios], p. 51), sem aten\u00e7\u00e3o suficiente \u00e0 subcria\u00e7\u00e3o. A fantasia, para Tolkien, \u00e9 no fundo a &#8220;cria\u00e7\u00e3o ou vislumbre de outros mundos&#8221; (<em>Ensaios<\/em>, p. 63).<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de que um artista \u00e9 um criador de realidades alternativas n\u00e3o \u00e9 nova. Mas a estrat\u00e9gia de Tolkien \u00e9 sugerir que esse modelo muito elevado de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 mais bem incorporado, n\u00e3o no romance ou no \u00e9pico, mas naquele g\u00eanero humilde, a hist\u00f3ria de fadas. Da mesma forma que Tolkien argumentou em outro ensaio famoso que <em>Beowulf <\/em>deveria ser considerado <em>como literatura<\/em>, n\u00e3o como um artefato lingu\u00edstico, aqui ele argumenta que os contos de fadas deveriam ser estimados <em>como literatura<\/em>, n\u00e3o como passatempos para crian\u00e7as. Quando Edmund Wilson caracterizou a trilogia <em>O Senhor dos An\u00e9is <\/em>do pr\u00f3prio Tolkien como &#8220;um livro infantil que, de alguma forma, saiu do controle&#8221; (citado em CARTER, p. 3), ele estava expressando o mesmo preconceito que Tolkien procurou denunciar em &#8220;<em>On Fairy-Stories<\/em>&#8221; [\u201cSobre contos de fada\u201d].<\/p>\n<p>A doutrina da subcria\u00e7\u00e3o era especialmente agrad\u00e1vel para Tolkien, tanto como crist\u00e3o quanto como escritor de fantasia. Como crist\u00e3o, Tolkien podia ver a subcria\u00e7\u00e3o como uma forma de adora\u00e7\u00e3o, uma maneira de as criaturas expressarem a imagem divina nelas tornando-se criadoras. Como escritor de fantasia, Tolkien podia afirmar que o g\u00eanero escolhido era uma das mais puras de todas as categorias ficcionais, porque exigia a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas de personagens e incidentes, mas tamb\u00e9m de mundos para que eles existissem.<\/p>\n<p>C. S. Lewis aparentemente subscreveu a teoria de subcria\u00e7\u00e3o de Tolkien e recomendou &#8220;On Fairy-Stories&#8221; \u00e0queles que lhe perguntaram sobre suas pr\u00f3prias opini\u00f5es sobre fantasia. (GLOVER, pp. 30, 37) No entanto, Lewis nunca levou a ideia de subcria\u00e7\u00e3o t\u00e3o a s\u00e9rio quanto Tolkien, e o pr\u00f3prio ensaio de Lewis sobre o assunto, intitulado &#8220;\u00c0s vezes, os contos de fadas podem dizer melhor o que deve ser dito&#8221;, tem um tom bastante diferente.<\/p>\n<p>Esse ensaio breve, mas esclarecedor come\u00e7a distinguindo dois lados do escritor: o autor e o homem. (Lewis usou o g\u00eanero masculino para denotar o caso geral, como era pr\u00e1tica comum em sua \u00e9poca; vou seguir essa pr\u00e1tica neste par\u00e1grafo que resume seu ensaio). O autor simplesmente escreve para liberar um impulso criativo. Ele come\u00e7a com uma ideia ou uma imagem convincente &#8220;ansiando por uma forma&#8221; para chegar a alguma express\u00e3o coerente. Logo, por\u00e9m, o homem entra no processo de escrita com seus pr\u00f3prios valores e prop\u00f3sitos, seu desejo de moldar a escrita para algum fim significativo. O autor pode escrever apenas para agradar &#8211; a si mesmo ou a seus leitores -, mas o homem est\u00e1 preocupado em agradar <em>e <\/em>instruir, em comunicar algo sobre quem ele \u00e9 e como v\u00ea o mundo. Lewis ilustra o processo explicando que seus pr\u00f3prios contos de fadas, <em>As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em>, originaram-se como uma s\u00e9rie de imagens mentais que come\u00e7aram a se conectar em linhas de hist\u00f3rias. Mas ent\u00e3o, \u00e0 medida que as narrativas come\u00e7aram a tomar forma, Lewis percebeu que elas poderiam ser usadas para expressar, de forma imaginativa e de uma maneira nova, as verdades centrais do cristianismo.<\/p>\n<p>Essa \u00eanfase dupla no Autor e no Homem envolvidos na cria\u00e7\u00e3o da fantasia pode parecer apenas uma pequena varia\u00e7\u00e3o dos pontos de vista de Tolkien, mas explica em grande parte o car\u00e1ter marcadamente diferente do trabalho dos dois homens &#8211; bem como o fato de que Tolkien nunca foi &#8220;capaz de desenvolver uma simpatia completa&#8221; (em suas pr\u00f3prias palavras) pelas hist\u00f3rias de fantasia de Lewis. (CARPENTER, p. 227) Embora Tolkien certamente tenha expressado seus valores implicitamente em <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em>, ele afirmou o ato de subcria\u00e7\u00e3o do autor como um fim em si mesmo. Lewis, no entanto, concordou que um escritor n\u00e3o pode sequer come\u00e7ar sem o impulso do Autor de criar, mas sentiu que n\u00e3o deveria come\u00e7ar sem o desejo, por sua vez, do Homem de comunicar seu senso mais profundo de si mesmo e de sua vis\u00e3o de mundo.<\/p>\n<p>Resta a d\u00favida se as diferentes \u00eanfases de Tolkien e Lewis nessa quest\u00e3o est\u00e3o relacionadas \u00e0s suas diferentes origens religiosas, cat\u00f3lica romana e anglicana, respectivamente. Desde a Reforma, os te\u00f3ricos da est\u00e9tica protestante tendem a discutir a arte em termos mais funcionais. Desde os primeiros te\u00f3ricos, como Pierre Ramee e Jonathan Edwards, at\u00e9 um profeta popular do s\u00e9culo XX, como Francis Schaeffer, os protestantes geralmente veem a arte em termos dos valores que ela comunica (sejam eles bons ou ruins), como uma express\u00e3o da vis\u00e3o de mundo do artista. Desde a ostenta\u00e7\u00e3o deliberada de ornamentos da Contrarreforma at\u00e9 o trabalho de escritores contempor\u00e2neos como Jacques Maritain e Hans K\u00fcng, os cat\u00f3licos romanos t\u00eam se mostrado mais dispostos a ver o ato criativo como um fim em si mesmo, se n\u00e3o a arte pela arte, talvez mais precisamente a arte pelo amor de Deus.<\/p>\n<p>Esse esp\u00edrito est\u00e1 incorporado na hist\u00f3ria do pedreiro medieval que trabalha por semanas a v\u00e1rios metros acima do solo, esculpindo os entalhes ornamentados na torre de uma catedral. Quando lhe perguntaram como ele podia passar tanto tempo em um trabalho que ningu\u00e9m jamais veria de perto, se \u00e9 que veria, ele respondeu: &#8220;Deus v\u00ea&#8221;. O leitor sente o mesmo esp\u00edrito em Tolkien, trabalhando meticulosamente para criar um Mundo Secund\u00e1rio plaus\u00edvel, com sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e geografia, sua diversidade de povos, idiomas e costumes, com sua insist\u00eancia em eliminar inconsist\u00eancias que nenhum leitor em um milh\u00e3o jamais perceberia. Na verdade, seu bi\u00f3grafo relata que, mais tarde, Tolkien n\u00e3o se referia a si mesmo como um escritor criativo, mas sim como o cronista da Terra M\u00e9dia. (CARPENTER, p. 4)<\/p>\n<p>Independentemente de como se tenta explicar as diferentes vis\u00f5es de fantasia expressas por Tolkien e Lewis, essas diferen\u00e7as s\u00e3o imediatamente evidentes nas obras criativas dos dois escritores. Tolkien estava comprometido com a <em>independ\u00eancia <\/em>de seu mundo secund\u00e1rio criado em rela\u00e7\u00e3o ao nosso mundo prim\u00e1rio. Nas mais de 1500 p\u00e1ginas de <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em>, Tolkien evita cuidadosamente qualquer refer\u00eancia liter\u00e1ria ou hist\u00f3rica que possa desviar a aten\u00e7\u00e3o dos leitores de seu mundo fict\u00edcio e faz\u00ea-los pensar em seu pr\u00f3prio mundo. Tolkien se op\u00f4s \u00e0s <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia <\/em>e a partes da trilogia Ransom, porque Lewis introduz descaradamente personagens e motivos do nosso Mundo Prim\u00e1rio nos Mundos Secund\u00e1rios que ele cria. Em <em>Perelandra<\/em>, ele transporta Ransom para outro planeta apenas para que ele descubra que os mitos do nosso mundo &#8211; Marte, V\u00eanus, o Jardim das Hesp\u00e9rides &#8211; s\u00e3o realidades em outros mundos. Nas <em>Cr\u00f4nicas<\/em>, n\u00e3o apenas o Papai Noel aparece em N\u00e1rnia, mas tamb\u00e9m Baco e Sileno!<\/p>\n<p>Obviamente, Lewis n\u00e3o via essas alus\u00f5es como lapsos art\u00edsticos, como o fracasso de um subcriador em criar um mundo independente. Em vez disso, ele se deleitava em enfatizar a <em>interdepend\u00eancia <\/em>de seus mundos secund\u00e1rios criados e de nosso mundo prim\u00e1rio. Na trilogia Ransom, especialmente, Lewis lembra continuamente seus leitores de que n\u00e3o h\u00e1 nada mais natural do que o sobrenatural, que seu mundo de fantasia \u00e9 mais real do que supomos. Poder\u00edamos supor, por exemplo, que os eldils interplanet\u00e1rios s\u00e3o apenas criaturas da imagina\u00e7\u00e3o de Lewis. Mas por que ele se apresenta, Lewis, como um personagem da trilogia? E por que ele oferece refer\u00eancias da B\u00edblia, de mitos cl\u00e1ssicos, de estudiosos medievais obscuros, sugerindo que os eldils s\u00e3o algo <em>mais <\/em>do que criaturas de sua imagina\u00e7\u00e3o? Obviamente, Lewis quer que tenhamos uma sensa\u00e7\u00e3o inquietante da conex\u00e3o de seu mundo fict\u00edcio com nosso mundo &#8220;factual&#8221;.<\/p>\n<p>Essa \u00eanfase na interpenetra\u00e7\u00e3o dos mundos secund\u00e1rios e do mundo prim\u00e1rio permitiu que Lewis escrevesse fantasia explicitamente crist\u00e3, sem ter a sensa\u00e7\u00e3o de violar a integridade do mundo subcriado. Surpreso com o fato de poucos cr\u00edticos terem notado as implica\u00e7\u00f5es crist\u00e3s de <em>Longe do Planeta Silencioso<\/em>, Lewis brincou com um amigo dizendo que &#8220;qualquer quantidade de teologia pode agora ser introduzida na mente das pessoas sob o disfarce do romance sem que elas saibam&#8221;. (<em>Letters <\/em>[Cartas], p. 167). Dificilmente se pode imaginar Tolkien dizendo tal coisa, mesmo em tom de brincadeira. Mas Lewis estava apenas brincando um pouco quando fez essa observa\u00e7\u00e3o. Em sua autobiografia, Lewis descreve como a leitura de George MacDonald &#8220;batizou sua imagina\u00e7\u00e3o&#8221;, mostrando-lhe &#8220;a beleza da santidade&#8221;. Certamente, Lewis gostaria de prestar um servi\u00e7o semelhante a seus leitores.<\/p>\n<p>A obra de Tolkien n\u00e3o tem esse tipo de projeto did\u00e1tico. De fato, muitos leitores de <em>O Senhor dos An\u00e9is <\/em>ficam surpresos ao saber que seu autor era crist\u00e3o. Mas a compreens\u00e3o que Tolkien tinha do papel do artista permitiu que ele cumprisse sua voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 no pr\u00f3prio ato de subcria\u00e7\u00e3o de mundos secund\u00e1rios, sem qualquer senso de prop\u00f3sito did\u00e1tico. (De maneira semelhante, o compositor Isaac Watts cumpriu seu senso de voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 escrevendo hinos, enquanto J. S. Bach cumpriu seu senso de voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 simplesmente escrevendo m\u00fasica).<\/p>\n<p>As diferentes vis\u00f5es de fantasia de Tolkien e Lewis s\u00e3o sugeridas at\u00e9 mesmo pelos estilos de prosa dos dois autores. Tolkien emprega um estilo deliberado de conto popular &#8211; simples, monossil\u00e1bico, com imagens naturais e caseiras &#8211; e com uma porcentagem maior de palavras anglo-sax\u00f4nicas do que praticamente qualquer outro escritor deste s\u00e9culo. Al\u00e9m de evitar deliberadamente palavras com um toque &#8220;estrangeiro&#8221; muito \u00f3bvio, Tolkien reviveu saxonismos arcaicos, como <em>fell <\/em>(que significa &#8220;feroz, terr\u00edvel&#8221;) e <em>leechcraft <\/em>(medicina). Parece que ele desejava que a linguagem de seu mundo criado tivesse um sabor pr\u00f3prio &#8211; pr\u00e9-industrial, certamente, mas tamb\u00e9m pr\u00e9-urbano, pr\u00e9-hist\u00f3rico, quase pr\u00e9-abstrato.<\/p>\n<p>O vocabul\u00e1rio de Lewis, especialmente na trilogia Ransom, mas tamb\u00e9m nas <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em>, \u00e9 muito mais ecl\u00e9tico e cosmopolita, com uma porcentagem muito maior de palavras extra\u00eddas de outros idiomas, especialmente do franc\u00eas e do latim. O estilo de prosa de Lewis \u00e9, como sempre, l\u00facido, envolvente e urbano, mas ele faz pouco esfor\u00e7o para inventar novos idiomas para seus novos mundos.<\/p>\n<p>Lewis introduz o Velho Solar na trilogia Ransom como o idioma dos mundos n\u00e3o deca\u00eddos, mas isso parece mais uma concess\u00e3o para manter a plausibilidade superficial do que uma oportunidade de se deleitar com a subcria\u00e7\u00e3o de idiomas. Tolkien, por outro lado, come\u00e7ou a desenvolver o quenya, a l\u00edngua \u00e9lfica, durante seus anos de gradua\u00e7\u00e3o e, quando concluiu <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em>, seu idioma inventado tinha um vocabul\u00e1rio de v\u00e1rias centenas de palavras, com declina\u00e7\u00f5es e etimologias consistentes. De fato, \u00e9 poss\u00edvel &#8220;traduzir&#8221; a maioria dos nomes de lugares na Terra M\u00e9dia consultando o gloss\u00e1rio de dez p\u00e1ginas sobre o quenya no Ap\u00eandice de <em>O Silmarillion<\/em>.<\/p>\n<p>As diferentes \u00eanfases de Lewis e Tolkien tamb\u00e9m podem ser vistas na forma como cada um retrata o papel do artista em seus mundos criados. Em <em>Longe do Planeta Silencioso <\/em>de Lewis, Augray, o sorn, comenta que se Ransom tivesse morrido tentando chegar \u00e0s cavernas sorns em handramit, os hrossa, os poetas do planeta, teriam produzido um poema maravilhoso sobre sua jornada ousada. Isso sugere que o papel deles era entrela\u00e7ar a hist\u00f3ria em mitos e lendas. E o pfifltriggi em Meldilorn, que faz o retrato de Ransom, parece funcionar ao mesmo tempo como artista, historiador e mit\u00f3grafo, cujo papel n\u00e3o \u00e9 muito diferente do que Lewis v\u00ea a si mesmo exercendo como escritor imaginativo.<\/p>\n<p>Em <em>O Senhor dos An\u00e9is, no <\/em>entanto, os poetas e m\u00fasicos se concentram em seu passado heroico, seguindo as tradi\u00e7\u00f5es germ\u00e2nicas dos bardos e menestr\u00e9is. Os poemas que pontuam a narrativa geralmente n\u00e3o s\u00e3o um coment\u00e1rio direto sobre a a\u00e7\u00e3o enquanto ela acontece, mas sim uma comemora\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a \u00e9pica daquele povo &#8211; celebrando outra hist\u00f3ria al\u00e9m da que estava sendo narrada. Os artistas de Tolkien n\u00e3o s\u00e3o subcriadores no sentido literal, criando mundos terci\u00e1rios a partir dos materiais do mundo secund\u00e1rio da Terra M\u00e9dia; mas eles contam hist\u00f3rias muito distantes da a\u00e7\u00e3o central da narrativa.<\/p>\n<p>Independentemente de os artistas imaginados por Tolkien serem ou n\u00e3o subcriadores, essa teoria continua sendo atraente. Ela oferece uma defesa poderosa da escrita de fantasia como um g\u00eanero liter\u00e1rio a ser valorizado; oferece uma vis\u00e3o valiosa do processo criativo; e permite que ele, como escritor crist\u00e3o, veja seu trabalho imaginativo como uma forma de adora\u00e7\u00e3o. Infelizmente, a ideia de Subcria\u00e7\u00e3o de Tolkien cont\u00e9m v\u00e1rios pontos fracos como paradigma da criatividade crist\u00e3.<\/p>\n<p>O primeiro problema com a no\u00e7\u00e3o de subcria\u00e7\u00e3o de Tolkien \u00e9 o exagero. Ao tentar encontrar um lugar respeit\u00e1vel para o g\u00eanero de fantasia ou hist\u00f3ria de fadas, ele acaba privilegiando esse g\u00eanero em rela\u00e7\u00e3o a todas as outras formas de escrita de fic\u00e7\u00e3o. Tolkien argumenta que a capacidade de criar &#8220;imagens de coisas que n\u00e3o est\u00e3o no mundo prim\u00e1rio (se isso for de fato poss\u00edvel) \u00e9 uma virtude e n\u00e3o um v\u00edcio. A fantasia, penso eu, n\u00e3o \u00e9 inferior, mas uma forma superior de Arte, de fato a forma mais quase pura e, portanto, (quando alcan\u00e7ada) mais potente&#8221; (<em>Ensaios<\/em>, p. 67). Tolkien ilustra seu argumento dizendo que \u00e9 poss\u00edvel dizer a frase &#8220;o sol verde&#8221; e at\u00e9 mesmo imagin\u00e1-lo em nossa mente. Mas \u00e9 muito mais dif\u00edcil imaginar um universo no qual essa esfera estivesse em seu lugar natural: &#8220;Criar um mundo secund\u00e1rio no qual o sol verde seja cr\u00edvel, comandando a Cren\u00e7a Secund\u00e1ria, provavelmente exigir\u00e1 trabalho e reflex\u00e3o, e certamente demandar\u00e1 uma habilidade especial e um of\u00edcio \u00e9lfico. Poucos tentam realizar tarefas t\u00e3o dif\u00edceis. Mas quando elas s\u00e3o tentadas e de alguma forma realizadas, ent\u00e3o temos uma rara conquista da arte: de fato, arte narrativa, cria\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias em sua modalidade prim\u00e1ria e mais poderosa&#8221; (<em>Ensaios<\/em>, p. 68).<\/p>\n<p>Quando Tolkien afirma que a fantasia n\u00e3o \u00e9 uma forma de arte inferior, mas superior, ele precisa ir al\u00e9m da ideia de que criar mundos \u00e9 um trabalho mais \u00e1rduo do que de criar personagens ou hist\u00f3rias. \u00c9 dif\u00edcil fazer tais julgamentos quantitativos sobre criatividade. Hesitar\u00edamos em dizer que a realiza\u00e7\u00e3o de Flaubert em <em>Madame Bovary <\/em>\u00e9 inferior \u00e0 de Dickens em <em>Oliver Twist<\/em>, porque o primeiro contribui com um personagem imortal para a literatura mundial, enquanto o segundo sugere uma cidade inteira cheia de personagens. E, sem d\u00favida, recusar\u00edamos a ideia de que J\u00falio Verne seja superior a Flaubert ou Dickens, porque ele cria mundos totalmente novos em seus livros. Obviamente, fatores de profundidade psicol\u00f3gica, estrutura narrativa, profundidade moral etc. devem ser levados em conta nessa avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi Lewis quem reclamou que os escritores populares frequentemente criavam novos mundos e depois n\u00e3o faziam bom uso deles: &#8220;[Com muita frequ\u00eancia] o autor salta para um futuro imaginado quando as viagens planet\u00e1rias, siderais ou mesmo gal\u00e1cticas se tornaram comuns. Contra esse enorme pano de fundo, ele passa a desenvolver uma hist\u00f3ria de amor, de espionagem, de naufr\u00e1gio ou de crime comum. Isso me parece de mau gosto. Tudo o que n\u00e3o \u00e9 usado em uma obra de arte a est\u00e1 prejudicando. A cena e as propriedades superficialmente imaginadas apenas obscurecem o tema real e nos distraem de qualquer interesse que ele possa ter tido&#8221; (<em>Sobre hist\u00f3rias<\/em>, p. 57).<\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o sobre o sucesso dos escritores na cria\u00e7\u00e3o de outros mundos genu\u00ednos aborda um segundo problema com a teoria da subcria\u00e7\u00e3o: at\u00e9 que ponto \u00e9 poss\u00edvel criar mundos realmente secund\u00e1rios, n\u00e3o dependentes deste? C. S. Lewis abordou essa quest\u00e3o em uma carta \u00e0 irm\u00e3 Penelope: &#8220;&#8216;Cria\u00e7\u00e3o&#8217; aplicada \u00e0 autoria humana me parece um termo totalmente enganoso. N\u00f3s reorganizamos os elementos que Ele forneceu. N\u00e3o h\u00e1 um vest\u00edgio de verdadeira criatividade de <em>novo <\/em>em n\u00f3s. Tente imaginar uma nova cor prim\u00e1ria, um terceiro sexo, uma quarta dimens\u00e3o ou at\u00e9 mesmo um monstro que n\u00e3o seja composto de peda\u00e7os e partes de animais existentes colados uns aos outros. Nada acontece. E certamente \u00e9 por isso que nossas obras (como voc\u00ea disse) nunca significam para os outros exatamente o que pretend\u00edamos: porque estamos recombinando elementos feitos por Ele e que j\u00e1 cont\u00eam <em>Seus <\/em>significados&#8221; (<em>Cartas<\/em>, p. 203).<\/p>\n<p>Aqui Lewis expressa grande ceticismo sobre o quanto a obra do autor crist\u00e3o realmente se assemelha \u00e0 cria\u00e7\u00e3o <em>ex nihilo <\/em>de seu Criador. Em sua resenha de <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em>, Lewis faz alus\u00e3o \u00e0 ideia de subcria\u00e7\u00e3o de Tolkien e faz um elogio pr\u00f3digo a Tolkien n\u00e3o apenas como criador de uma hist\u00f3ria, mas de um mundo. Lewis explica que Tolkien tentou deliberadamente manter sua d\u00edvida direta com o mundo real que conhecemos em um n\u00edvel m\u00ednimo, acrescentando em um par\u00eantese perspicaz: &#8220;\u00e9 claro que h\u00e1 tipos mais sutis de d\u00edvida&#8221; (<em>Sobre hist\u00f3rias, <\/em>p. 84).<\/p>\n<p>Tolkien enfatizou tanto a import\u00e2ncia de criar mundos independentes que alguns leitores t\u00eam a impress\u00e3o de que sua Terra M\u00e9dia \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o totalmente original. No entanto, Tolkien confessou que ela \u00e9 em grande parte derivada de suas caminhadas de inf\u00e2ncia no interior da Inglaterra, nos condados menos afetados pelo industrialismo. O clima, a topografia e os costumes locais do Condado e de outras partes da Terra M\u00e9dia s\u00e3o inconfundivelmente ingleses.<\/p>\n<p>Tolkien n\u00e3o fez alus\u00f5es liter\u00e1rias e mitol\u00f3gicas \u00f3bvias como Lewis fez, mas sua d\u00edvida com os textos predecessores talvez n\u00e3o seja menor. Todo o <em>Senhor dos An\u00e9is <\/em>est\u00e1 impregnado de mitos, lendas e folclore n\u00f3rdicos. A pr\u00f3pria Terra M\u00e9dia \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o do n\u00f3rdico antigo &#8220;midgard&#8221;. E toda a pan\u00f3plia de magos, elfos, an\u00f5es e drag\u00f5es \u00e9 familiar aos leitores da tradi\u00e7\u00e3o germ\u00e2nica. Nomes como Gandalf e Thorin Oakenshield v\u00eam diretamente dos Elder Eddas, e a palavra &#8220;orques&#8221; pode ser encontrada em <em>Beowulf<\/em>.<\/p>\n<p>Os nomes e o idioma dos Cavaleiros de Rohan s\u00e3o indisfar\u00e7avelmente anglo-sax\u00f5es. E os principais temas, como an\u00e9is dourados de poder, talism\u00e3s de invisibilidade e espadas quebradas a serem consertadas quando o her\u00f3i retornasse, podem ser encontrados na literatura teut\u00f4nica que Tolkien tanto amava.<\/p>\n<p>Toda essa \u00eanfase nas fontes n\u00e3o tem a inten\u00e7\u00e3o de desvalorizar a realiza\u00e7\u00e3o imaginativa de Tolkien em <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em>, onde seu entrela\u00e7amento de diversos motivos e povos \u00e9 nada menos que brilhante. Entretanto, isso questiona se a doutrina da subcria\u00e7\u00e3o, com sua \u00eanfase na criatividade divina do autor, n\u00e3o faz parte do culto rom\u00e2ntico da originalidade. Lewis, por outro lado, enfatizou que um autor crist\u00e3o deve sentir a liberdade de n\u00e3o ser descaradamente original. Em seu discurso &#8220;Christianity and Literature&#8221; (&#8220;Cristianismo e literatura&#8221;), Lewis observa que os termos mais comuns de valoriza\u00e7\u00e3o t\u00eam a ver com criatividade, espontaneidade, rompendo os limites das tradi\u00e7\u00f5es existentes. Ele resume o pressuposto existente da seguinte forma: &#8220;Grandes autores s\u00e3o inovadores, pioneiros, exploradores; autores ruins se agrupam em escolas e seguem modelos&#8221; (<em>Reflex\u00f5es<\/em>, p. 3). Ele contrasta isso com uma vis\u00e3o cl\u00e1ssica e crist\u00e3 de que &#8220;um autor nunca deve se conceber como algu\u00e9m que traz \u00e0 exist\u00eancia beleza ou sabedoria que n\u00e3o existia antes, mas simplesmente e unicamente um reflexo da Beleza e Sabedoria Eternas&#8221; (<em>Reflex\u00f5es<\/em>, p. 7). Em sua leitura do Novo Testamento, Lewis descobre que a &#8220;&#8216;originalidade&#8217; \u00e9 claramente uma prerrogativa exclusiva de Deus&#8221;, concluindo que &#8220;de cada ideia e de cada m\u00e9todo, o escritor crist\u00e3o perguntar\u00e1 n\u00e3o &#8216;Isso \u00e9 meu?&#8217;, mas &#8216;Isso \u00e9 bom?'&#8221;. (<em>Reflex\u00f5es<\/em>, p. 9)<\/p>\n<p>A justaposi\u00e7\u00e3o da criatividade humana com a criatividade divina levanta uma terceira preocupa\u00e7\u00e3o sobre a teoria da subcria\u00e7\u00e3o de Tolkien. Embora ele toque levemente na ideia, Tolkien sugere que o engajamento da criatividade de algu\u00e9m \u00e9 uma imita\u00e7\u00e3o de Deus e uma forma de adora\u00e7\u00e3o. Dorothy Sayers levou a analogia muito mais longe em <em>The Mind of the Maker <\/em>[A mente do criador], onde ela argumenta que o<em> deo imago <\/em>nos seres humanos \u00e9 a criatividade. Ao tentar definir o que significa ser feito \u00e0 imagem de Deus, Sayer examina as narrativas b\u00edblicas relevantes: &#8220;Ser\u00e1 que o autor de G\u00eanesis tinha algo espec\u00edfico em mente quando escreveu? Na passagem que leva \u00e0 declara\u00e7\u00e3o sobre o homem, ele n\u00e3o deu nenhuma informa\u00e7\u00e3o detalhada sobre Deus. Olhando para o homem, ele v\u00ea nele algo essencialmente divino, mas quando voltamos para ver o que ele diz sobre o original no qual a &#8216;imagem&#8217; de Deus foi modelada, encontramos apenas a \u00fanica afirma\u00e7\u00e3o: &#8216;Deus criou&#8217;. A caracter\u00edstica comum a Deus e ao homem \u00e9 aparentemente essa: o desejo e a capacidade de fazer coisas&#8221; (p. 34). Sayers afirma que &#8220;\u00e9 o artista que, mais do que os outros homens, \u00e9 capaz de criar algo a partir do nada&#8221; (p. 39). Ela continua a desenvolver a analogia entre os criadores humanos e seu Criador, observando que a ideia original ou o motivo para escrever \u00e9 como o Pai; a energia ou a atividade ou o desenvolvimento da ideia em palavras \u00e9 como o Filho; e a recep\u00e7\u00e3o ou a energia devolvida por uma comunidade de leitores \u00e9 como o Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um paralelo sugestivo, mas potencialmente perigoso, se n\u00e3o for contrabalan\u00e7ado por outras verdades crist\u00e3s. A criatividade humana \u00e9, de fato, uma caracter\u00edstica semelhante a Deus. Mas, como Lewis observa em <em>The Four Loves <\/em>[Os Quatro Amores], \u00e9 poss\u00edvel ser como Deus sem nunca se aproximar de Deus. Muitas caracter\u00edsticas divinas s\u00e3o apenas bens instrumentais. Elas podem trazer grandes males se n\u00e3o forem corrigidas pela caracter\u00edstica divina mais indispens\u00e1vel: a bondade. Hitler era semelhante a um deus em seu poder sobre os outros, mas era um poder semelhante ao do anticristo. A intelig\u00eancia, a beleza e at\u00e9 mesmo a coragem fazem parte da natureza de Deus, mas podem ser pervertidas para os fins mais diab\u00f3licos.<\/p>\n<p>A criatividade em geral, ou a subcria\u00e7\u00e3o de mundos em particular, \u00e9 praticamente a mesma coisa. Satan\u00e1s, de Milton, \u00e9 um subcriador quando cria Pandemonium, mas isso obviamente n\u00e3o \u00e9 um ato de adora\u00e7\u00e3o nem de fidelidade. E quantos outros artistas poderiam ser citados, cujo trabalho \u00e9 tecnicamente espl\u00eandido e imaginativamente vasto, mas cuja vis\u00e3o moral est\u00e1 em violenta oposi\u00e7\u00e3o a uma vis\u00e3o que os leitores crist\u00e3os poderiam apoiar?<\/p>\n<p>Esse problema pode ser visto nas atitudes mistas de C. S. Lewis em rela\u00e7\u00e3o a David Lindsay, autor de <em>Voyage to Arcturus<\/em> [Viagem a Arcturus] Por um lado, Lewis disse: &#8220;Ele \u00e9 o primeiro escritor a descobrir para que servem realmente os outros planetas na fic\u00e7\u00e3o. Nenhuma mera estranheza f\u00edsica ou mera dist\u00e2ncia espacial realizar\u00e1 a ideia de alteridade, que \u00e9 o que estamos sempre tentando compreender em uma hist\u00f3ria sobre viagens pelo espa\u00e7o: \u00e9 preciso entrar em outra dimens\u00e3o. Para construir &#8216;outros mundos&#8217; plaus\u00edveis e comoventes, \u00e9 preciso recorrer ao \u00fanico &#8216;outro mundo&#8217; real que conhecemos, o do esp\u00edrito&#8221; (<em>Of Other Worlds <\/em>[Sobre outros mundos], p. 12). Por outro lado, Lewis n\u00e3o se sentiu nem um pouco atra\u00eddo pelo tema de <em>Viagem a Arcturus<\/em>. Ele declarou que o livro estava &#8220;no limite do diab\u00f3lico [<em>e<\/em>] era t\u00e3o manique\u00edsta que era quase sat\u00e2nico&#8221; (citado em SAYER, p. 153).<\/p>\n<p>Pode-se ver que, por mais bem-sucedido que Lindsay possa ser como um subcriador, sua conquista deve ser medida &#8211; pelo menos pelos crist\u00e3os &#8211; por outros crit\u00e9rios al\u00e9m de sua habilidade como criador de mundos secund\u00e1rios imaginados. Tolkien parece ter reconhecido esse problema quando anexou um ep\u00edlogo ao seu ensaio sobre contos de fadas. Nessa, sua \u00faltima palavra sobre o assunto, seu parentesco com Lewis surge novamente em sua discuss\u00e3o sobre a &#8220;subcria\u00e7\u00e3o santificada&#8221;:<\/p>\n<p>&#8220;Provavelmente, todo escritor que cria um mundo secund\u00e1rio, uma fantasia, todo subcriador, deseja, em alguma medida, ser um criador real, ou espera estar se baseando na realidade. N\u00e3o \u00e9 apenas um &#8216;consolo&#8217; para a tristeza deste mundo, mas uma satisfa\u00e7\u00e3o e uma resposta \u00e0 pergunta &#8216;Isso \u00e9 verdade?&#8217;. A resposta a essa pergunta que eu dei no in\u00edcio foi: &#8216;Se voc\u00ea construiu o seu pequeno mundo adequadamente, sim: isso \u00e9 verdadeiro naquele mundo&#8217;. Isso \u00e9 suficiente para o artista (ou para a parte art\u00edstica do artista). Mas na &#8216;eucat\u00e1strofe&#8217; [final feliz] vemos que a resposta pode ser ainda maior, que pode ser um brilho distante ou um eco do evangelium no mundo real.<\/p>\n<p>Os evangelhos cont\u00eam uma hist\u00f3ria de fadas, ou uma hist\u00f3ria de um tipo maior, que abrange toda a ess\u00eancia das hist\u00f3rias de fadas. O nascimento de Cristo \u00e9 a eucat\u00e1strofe da hist\u00f3ria humana. A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 a eucat\u00e1strofe da hist\u00f3ria da Encarna\u00e7\u00e3o. Essa hist\u00f3ria come\u00e7a e termina em alegria.<\/p>\n<p>A alegria crist\u00e3, a <em>Gl\u00f3ria<\/em>, \u00e9 preeminentemente elevada e alegre. Porque essa hist\u00f3ria \u00e9 suprema; e \u00e9 verdadeira. A arte foi verificada. Deus \u00e9 o Senhor, dos anjos e dos homens &#8211; e dos elfos. A lenda e a hist\u00f3ria se encontraram e se fundiram&#8221; (<em>Ensaios<\/em>, pp. 83-84).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>TRABALHOS CITADOS<\/p>\n<p>Carpenter, Humphrey. <em>Tolkien: A Biography<\/em> [Tolkien: uma biografia]. Nova York: Ballantine, 1977.<\/p>\n<p>Carter, Lin. <em>A Look Behind the Lord of the Rings [Um olhar por tr\u00e1s do Senhor dos An\u00e9is]. <\/em>Nova York: Ballantine, 1969.<\/p>\n<p><em>Essays Presented to Charles Williams <\/em>[Ensaios apresentados a Charles Williams]<em>. <\/em>Ed. por C. S. Lewis. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1970.<\/p>\n<p>Glover, Donald E. <em>C. S. Lewis: The Art of Enchantment <\/em>[C.S. Lewis: A Arte do Encantamento]<em>.<\/em> Athens, OH: Ohio UP, 1981.<\/p>\n<p>Lewis, C. S. <em>On Stories and Other Essays on Literature <\/em>[Sobre Hist\u00f3rias e Outros Ensaios sobre Literatura]. Ed. por Walter Hooper. Nova York: Harcourt Brace Jovanovich, 1982.<\/p>\n<p>Sayer, George. <em>Jack: C. S. Lewis and His Times <\/em>[Jack: C. S. Lewis e sua \u00e9poca]. S\u00e3o Francisco: Harper and Row, 1988.<\/p>\n<p>Sayers, Dorothy. <em>The Mind of the Maker <\/em>[A Mente do Criador]. Cleveland: World, 1964.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>David C. Downing<\/p>\n<p><em>Autor<\/em><\/p>\n<p><strong>David C. Downing, <\/strong>autor, \u00e9 codiretor do <em>Marion E. Wade Center<\/em> no <em>Wheaton College<\/em>, em Illinois. Obteve seu doutorado na UCLA e escreveu quatro livros acad\u00eamicos sobre C.S. Lewis: <em>Planets in Peril <\/em>[Planetas em perigo] (1992), The <em>Most Reluctant Convert <\/em>[O mais relutante dos convertidos] (2002), <em>Into the Wardrobe <\/em>[Entrando no guarda-roupa] (2005) e <em>Into the Region of Awe<\/em> [Entrando na regi\u00e3o do temor] (2005). Downing tamb\u00e9m forneceu uma introdu\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e mais de 400 notas explicativas para a nova edi\u00e7\u00e3o de <em>The Pilgrim&#8217;s Regress <\/em>[O Regresso do Peregrino] de C.S. Lewis, publicado originalmente em 1933 e reeditado pela Eerdmans na <em>Wade Center Annotated Edition<\/em> (2014). Downing \u00e9 palestrante e consultor de C.S. Lewis para a associa\u00e7\u00e3o <em>Publications of the Modern Languages Association<\/em> (PMLA), bem como para as revistas <em>Christian Scholars Review<\/em> e a <em>Religion and Literature<\/em>.<\/p>\n<p>Fonte: C. S. Lewis: The official website of C. S. Lewis. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.cslewis.com\/tolkien-vs-lewis-on-faith-and-fantasy\/. Acesso em 10 jun. 2024.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>David C. Downing Traduzido por Gabriele Greggersen &nbsp; A maioria das discuss\u00f5es sobre J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis enfatiza seu parentesco &#8211; sua f\u00e9 compartilhada, seus interesses acad\u00eamicos semelhantes em literatura e linguagem, seu amor m\u00fatuo por mitos, lendas e romance com personagens heroicos. 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