{"id":1142,"date":"2022-12-19T12:17:51","date_gmt":"2022-12-19T15:17:51","guid":{"rendered":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/?p=1142"},"modified":"2022-12-19T12:17:51","modified_gmt":"2022-12-19T15:17:51","slug":"g-k-chesterton-e-a-loja-de-fantasmas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2022\/12\/19\/g-k-chesterton-e-a-loja-de-fantasmas\/","title":{"rendered":"G.K. Chesterton e a Loja de Fantasmas"},"content":{"rendered":"<p>Gabriele Greggersen<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O renomado jornalista e autor de livros de mist\u00e9rio e fic\u00e7\u00e3o, Gilbert Keith Chesterton (1874- 1936) era um verdadeiro especialista na arte de cria\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio, e seu aproveitamento para o ensino de temas filos\u00f3ficos. De acordo com o igualmente renomado jornalista brasileiro Oliveiros, n\u00e3o \u00e9 por acaso que este autor o cativou e teve tr\u00e2nsito livre na sua casa desde a mais tenra inf\u00e2ncia. Para ele o grande diferencial do autor encontra-se no fato de ter percebido:<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>claramente a encruzilhada onde a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental tinha chegado ao abandonar o caminho da religi\u00e3o e de um universo centralizado em Deus. Culpou a cobi\u00e7a individual e nacional por ter sido a causa da Primeira Guerra Mundial. Havia pessoas em demasia que prestavam aten\u00e7\u00e3o exagerada \u00e0s vantagens da vida, e pouqu\u00edssima aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria vida. \u2018Cada dia,\u2019 disse ele, \u2018\u00e9 uma d\u00e1diva especial; algo que poderiam n\u00e3o Ter existido&#8217;. Chesterton descobriu cedo na vida o valor do paradoxo como \u2018a verdade de cabe\u00e7a para baixo para obter aten\u00e7\u00e3o.\u2019 Conseguiu fazer outras pessoas pensarem, por interm\u00e9dio de declara\u00e7\u00f5es suficientemente incomuns, que penetravam nas defesas delas e explodiam de modo devastador dentro das suas mentes.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se pudermos chamar estes saberes cotidianos e sabedorias de vida de \u201cfilosofia\u201d \u00e9 uma quest\u00e3o discut\u00edvel. Alguns at\u00e9 o criticam por certa superficialidade, atribuindo o fato \u00e0 polival\u00eancia dos seus temas e g\u00eaneros liter\u00e1rios. Evidentemente o tipo de \u201cexplos\u00e3o\u201d provocada por suas obras, n\u00e3o tem a inten\u00e7\u00e3o de destruir o leitor, mas trata-se de um recurso did\u00e1tico, considerado extremamente eficiente pelos cr\u00edticos de sua obra. A an\u00e1lise e estudo das met\u00e1foras e o recurso \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o e \u00e0 fantasia vem sendo cogitado hoje, como excelente m\u00e9todo para estudo de textos filos\u00f3ficos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Considerado um dos maiores autores do nosso s\u00e9culo, Chesterton publicou mais de 60 livros em vida, que se destacam pela riqueza e variedade de g\u00eaneros liter\u00e1rios abrangidos. Seu estilo diferencia-se pela clareza e simplicidade com que traduz conceitos altamente complexos da filosofia para a linguagem comum. Tamb\u00e9m se destaca pelo humor e imagina\u00e7\u00e3o nos seus contos e pela ironia presente em seus ensaios apaixonados contra o cientificismo, os totalitarismos e as injusti\u00e7as sociais. Precisamente por esta postura, explicitamente assumida, particularmente ap\u00f3s a sua convers\u00e3o para o cristianismo, Chesterton sofria severas cr\u00edticas da parte da cr\u00edtica, que muitas vezes o censurava por seu conservadorismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por outro lado, como pudemos constatar em encontro a algumas d\u00e9cadas, promovido pelo Centro de F\u00e9 e Cultura da PUC\/S\u00e3o Paulo, este nome n\u00e3o apenas continua sendo lembrado com carinho pelos leitores de l\u00edngua brit\u00e2nica, mas \u00e9 prestigiado tamb\u00e9m no Brasil, onde j\u00e1 se conta com tradu\u00e7\u00f5es de algumas de suas obras, principalmente nos meios jornal\u00edsticos, jur\u00eddicos, filos\u00f3fico-sociais, liter\u00e1rios e teol\u00f3gicos. Infelizmente, por\u00e9m, este integrante da literatura mundial \u00e9 ainda bastante ignorado pelo grande p\u00fablico brasileiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De acordo com a <em>Sociedade Americana de Chesterton <\/em>(\u201cThe American Chesterton Society\u201d)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, a figura deste criador de personagens t\u00e3o pitorescos, sendo o mais famoso de todos sem d\u00favida, o simp\u00e1tico padre Brown, sempre \u00e0s voltas com a solu\u00e7\u00e3o dos mais misteriosos crimes e <em>O Homem que foi Quinta-feira,<\/em> foi ele mesmo um grande e pitoresco personagem. Sua luta contra os modismos de sua \u00e9poca ganha at\u00e9 em for\u00e7a no contexto atual (relativismo moral, reducionismo, consumismo, etc.). Chesterton concentra-se na conscientiza\u00e7\u00e3o do leitor, de que nem tudo o que \u00e9 novo \u00e9 necessariamente melhor e que as solu\u00e7\u00f5es altamente complexas e sofisticadas, nem sempre (ou praticamente nunca) s\u00e3o as melhores e mais belas solu\u00e7\u00f5es para os problemas da humanidade.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&#8230; ele nos oferece uma vis\u00e3o de sociedade saud\u00e1vel,\u00a0 baseada no sentimento do numinoso, de gratid\u00e3o, e da dignidade humana dada por Deus. Mas sua singularidade e import\u00e2ncia entre os cr\u00edticos do Modernismo deve-se n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 profundidade de seu pensamento, mas tamb\u00e9m \u00e0\u00a0\u00a0 acessibilidade de seu estilo &#8211; pelo fato de ter aplicado a linguagem comunicativa de jornalismo, recheada de senso cr\u00edtico hist\u00f3rico, humor, gra\u00e7a, e bom senso, para expressar a sua vis\u00e3o.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o eminente jornalista Oliveiros, Chesterton n\u00e3o se destaca apenas pela sabedoria, mas tamb\u00e9m pela forma paradoxal de remeter-nos a profundos conte\u00fados filos\u00f3ficos, retratando a realidade das coisas, atrav\u00e9s da figura de um singelo padre e sua vis\u00e3o de mundo. Este m\u00e9todo n\u00e3o fica expl\u00edcito meramente pelas met\u00e1foras empregadas pelo autor, mas muito mais pelas estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o e a postura sincera e transparente adotada pelos personagens principais. Nada como Chesterton mesmo para descrever o seu m\u00e9todo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201c&#8230; n\u00e3o estou dizendo isso como uma forma figurativa de falar. \u00c9 isso o que acontece quando a gente tenta falar sobre coisas profundas&#8230; O que valem as palavras?&#8230; Se algu\u00e9m tenta falar sobre uma verdade que \u00e9 simplesmente moral, as pessoas sempre pensam que ela \u00e9 simplesmente metaf\u00f3rica&#8230;\u201d. E continuou descrevendo como chegava ao fim de suas investiga\u00e7\u00f5es. Nessa passagem&#8230; h\u00e1 muito da sabedoria do padre e muito do que Chesterton pensava do mundo moderno: \u201cEu quis dizer que realmente me via como autor daqueles crimes. Eu n\u00e3o matei realmente aquelas pessoas com meios materiais, mas isto n\u00e3o vem ao caso. Qualquer tijolo ou peda\u00e7o de ferro poderia t\u00ea-las liquidado por meios materiais. Eu quero dizer que pensei repetidas vezes na possibilidade de um homem poder ser assim, at\u00e9 que percebi que eu era, na realidade, muito parecido em tudo com ele, com exce\u00e7\u00e3o apenas no consentimento final para o ato. Isso foi-me uma vez sugerido por um amigo como uma esp\u00e9cie de exerc\u00edcio religioso.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>E, mais adiante, Oliveiros sintetiza este espantoso m\u00e9todo, centrado no conceito de <em>natureza criada<\/em>, ou <em>encarnada<\/em>; de <em>raz\u00e3o<\/em> (muito presente tamb\u00e9m em S. Tom\u00e1s, que diferencia entre Logos Divino e logos humano) e de <em>motiva\u00e7\u00e3o<\/em> adequada:<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Este \u00e9 o alfa e o \u00f4mega do m\u00e9todo do padre: se a raz\u00e3o nos foi dada por Deus, o que n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel \u00e9 errado. Giussani trilha o mesmo caminho quando nos diz: \u201c&#8230; o \u2018razo\u00e1vel\u2019 mostra-se a n\u00f3s enquanto tal quando a postura do homem se manifesta com raz\u00f5es [eu diria \u201cmotivos\u201d] adequadas. Se a raz\u00e3o \u00e9 dar-se conta da realidade, tal rela\u00e7\u00e3o cognitiva com o real deve desenvolver-se de modo razo\u00e1vel. E \u00e9 razo\u00e1vel quando os passos para essa rela\u00e7\u00e3o cognitiva s\u00e3o determinados por motivos adequados.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Ao final da palestra, Oliveiros conclui que o pior de todos os criminosos, para Chesterton \u00e9 o fil\u00f3sofo que ignora o mal existente no mundo e a necessidade de nos empenharmos por uma vida razo\u00e1vel e temente aos homens e acima de tudo, a Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No caso de <em>O Homem que Foi Quinta-Feira <\/em>o m\u00e9todo paradoxal fica n\u00edtido quando o poeta cort\u00eas e manso do in\u00edcio da hist\u00f3ria revela-se o \u201cverdadeiro anarquista\u201d (o pr\u00f3prio diabo) no final, enquanto que o l\u00edder suposto da falsa sociedade rebelde revela-se como sendo o pr\u00f3prio Deus. Ao longo de toda a hist\u00f3ria, cada um dos membros da sociedade secreta anarquista (que s\u00e3o denominados, de acordo com os dias da semana), com exce\u00e7\u00e3o do poeta, que havia sido expulso por alta trai\u00e7\u00e3o (ex-Quinta -feira), vai se revelando como detetive disfar\u00e7ado, que j\u00e1 estava prestes a matar os companheiros. Domingo vai conduzindo o grupo \u00e0s situa\u00e7\u00f5es mais hilariantes e inusitadas ao longo da hist\u00f3ria, (o \u201clevado da breca\u201d). E o seu peculiar humor e forma de condu\u00e7\u00e3o da sua equipe, salvou-o da autodestrui\u00e7\u00e3o, trazendo de volta a consci\u00eancia de si, a paz e a unidade. E qual a fun\u00e7\u00e3o da filosofia, se n\u00e3o esta de conhecimento de si mesmo, ou de desaliena\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Interessante notar como Chesterton critica o falso moralismo dos ditos \u201cpoetas\u201d e o excesso de higiene dos anarquistas ou totalit\u00e1rios. Critica ainda os pr\u00f3prios detetives, que chama de verdadeiros \u201casnos\u201d, por ficarem disputando as suas vaidades ao inv\u00e9s de simplesmente honrarem o Criador, que deseja para eles o m\u00e1ximo de felicidade e prazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E quando os membros da equipe s\u00e3o levados para o Reino do seu L\u00edder, vivem um verdadeiro conto de fadas na realidade Assim, Chesterton termina de forma n\u00e3o menos paradoxal, remetendo-nos ao importante papel da imagina\u00e7\u00e3o na realiza\u00e7\u00e3o do homem, nas impress\u00f5es finais de Quinta-feira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No presente conto de Natal, Chesterton usa de ironia e paradoxo para falar de Papai Noel, convidando eminentes escritores e dramaturgos para o di\u00e1logo, que sempre manteve aberto com seus colegas de pena. Vamos a ele:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Loja de fantasmas<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>K. Chesterton<\/li>\n<\/ol>\n<p>(primeira publica\u00e7\u00e3o no London Daily News)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quase todas as melhores e mais preciosas coisas do universo podem ser adquiridas por menos de dez reais. \u00c9 evidente que eu terei que excluir o sol, a lua, a terra, as pessoas, as estrelas entre outras ninharias. Mas terei que excluir ainda outra coisa que n\u00e3o tenho permiss\u00e3o de mencionar neste artigo e cujo pre\u00e7o m\u00ednimo \u00e9 15 reais. Mas isso certamente j\u00e1 deixar\u00e1 claro o princ\u00edpio geral. Na rua de tr\u00e1s, por exemplo, voc\u00ea pode pegar o bonde el\u00e9trico por um real. Andar de bonde el\u00e9trico \u00e9 como entrar em um castelo voador num conto de fadas. Voc\u00ea tamb\u00e9m pode comprar um monte de doces coloridos por um real. E pode at\u00e9 ter a chance de ler este artigo por um real; infelizmente junto com outras mat\u00e9rias irrelevantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas se quiser descobrir quantas coisas incrivelmente valiosas voc\u00ea pode adquirir com dez reais, ter\u00e1 que fazer como fiz na noite passada. Eu prensei o meu nariz contra a vitrine turva de uma loja de brinquedos fracamente iluminada em uma das ruas mais cinzentas e \u00edngremes de Battersea.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> Mas por mais obscuro que fosse aquele peda\u00e7o de luz, ele estava repleto (como uma crian\u00e7a me disse certa vez) de todas as cores que Deus j\u00e1 criou. Todos aqueles brinquedos que at\u00e9 as crian\u00e7as pobres compram, estavam muito sujos, embora fossem brilhantes. Da minha parte, penso que a genialidade da inven\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante do que a limpeza; isso \u00e9 algo relacionado \u00e0 alma enquanto a sujeira est\u00e1 relacionada ao corpo. Queiram perdoar-me, pois sou um democrata e sei muito bem que estou fora de moda no mundo moderno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto estava assim olhando para aquele pal\u00e1cio de maravilhas em miniatura, via pequenos \u00f4nibus verdes, min\u00fasculos elefantes azuis, bonecas negras, e pequenas Arcas de No\u00e9 vermelhas. Devo ter ca\u00eddo em algum transe sobrenatural. Naquele instante a vitrine de loja fosca transformou-se como que em um palco todo iluminado como que para a apresenta\u00e7\u00e3o de alguma com\u00e9dia irreverente. Com isso eu me esqueci completamente das casas cinzentas e pessoas encardidas que cruzaram meu caminho, como quem esquece as galerias escuras e toda a plat\u00e9ia quando vai ao teatro. Parecia que os pequenos objetos atr\u00e1s do vidro eram pequenos, n\u00e3o porque fossem brinquedos, mas porque eram objetos distantes. O \u00f4nibus verde era realmente um \u00f4nibus verde, um \u00f4nibus verde de Bayswater,<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> passando por um imenso deserto em seu caminho normal para Bayswater. O elefante azul j\u00e1 n\u00e3o era mais azul, na verdade estava pintado. Ele s\u00f3 parecia azul \u00e0 dist\u00e2ncia. A boneca negra na verdade era uma mulher negra que contrastava contra a folhagem tropical buc\u00f3lica numa terra em que at\u00e9 mesmo as ervas daninhas contrastam contra o \u00fanico ser que pode ser preto, o ser humano. A Arca de No\u00e9 vermelha era um enorme navio de verdade, de resgate terrestre, navegando no mar revolto pela chuva e vermelho, nos primeiros raios da aurora da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Suponho que todos j\u00e1 passaram por aqueles momentos de deslumbramento abstrato, aqueles flashes de brilhantismo que d\u00e1 na mente. Nestas horas enxergamos o rosto do nosso melhor amigo como protagonista de alguma demonstra\u00e7\u00e3o ou pe\u00e7a teatral. Normalmente este tipo de apari\u00e7\u00e3o \u00e9 marcado por dois sinais: o vagar do crescimento e o final repentino. O retorno ao racioc\u00ednio normal muitas vezes \u00e9 t\u00e3o abrupto, que \u00e9 como um esbarr\u00e3o em alguma pessoa. Esbarrar em pessoas \u00e9 algo que de fato (no meu caso pelo menos) ocorre com grande frequ\u00eancia. Mas no meu caso, o acordar para a realidade \u00e9 sempre um embate e, de uma maneira geral, ele sempre \u00e9 completo. Agora, neste caso, eu me conscientizei novamente, com um choque de sanidade, de que, na realidade, tudo o que eu estava fazendo era olhar fixamente para dentro de uma pequena e suja loja de brinquedos; mas de alguma maneira estranha, a minha cura mental parecia n\u00e3o ter sido definitiva. Ainda havia em minha mente algo incontrol\u00e1vel que me dizia que eu havia me perdido em um ambiente estranho ou que j\u00e1 havia feito alguma coisa estranha. Eu me sentia, como se tivesse realizado algum milagre ou ent\u00e3o, cometido um pecado. Era como se eu tivesse, de alguma forma, ultrapassado um limiar da minha alma.<\/p>\n<p>Para me livrar desta perigosa e fantasiosa intui\u00e7\u00e3o, eu entrei na loja e tentei comprar soldadinhos de madeira. O homem da loja era muito velho e doentio. Ele andava descabelado, com seus cabelos brancos cobrindo a sua cabe\u00e7a e parte do seu rosto. Era um cabelo t\u00e3o assustadoramente branco, que parecia quase artificial. No entanto, embora ele j\u00e1 estivesse senil e at\u00e9 doente, n\u00e3o havia sinal de sofrimento nos seus olhos; era como se ele tivesse ca\u00eddo gradualmente em um pesadelo de uma decad\u00eancia lenta, nem um pouco brutal. Ele me entregou os soldadinhos de madeira, mas quando eu coloquei o dinheiro na mesa, a princ\u00edpio ele parecia n\u00e3o t\u00ea-lo visto; depois ele piscou com docilidade, e em seguida empurrou-o suavemente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, n\u00e3o,\u201d disse ele vagamente. \u201cEu nunca aceitei. Eu jamais aceitei. N\u00f3s somos bastante antiquados por aqui.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o aceitar dinheiro,\u201d respondi eu, \u201cme parece muito mais uma nova moda fora do comum, do que uma pr\u00e1tica antiga\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEu jamais aceitei,\u201d disse o velho, piscando e assuando o nariz; \u201ceu sempre dei presentes. Estou velho demais para parar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cDeus do c\u00e9u!\u201d disse eu. \u201cO que voc\u00ea pode estar querendo dizer? Ser\u00e1 poss\u00edvel que voc\u00ea seja o Papai Noel?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cSou eu mesmo, Papai Noel,\u201d disse ele apologeticamente, e assuou o nariz novamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As l\u00e2mpadas n\u00e3o podiam mais ser acesas l\u00e1 fora na rua. De qualquer forma, eu j\u00e1 n\u00e3o conseguia ver mais nada na escurid\u00e3o, a n\u00e3o ser a vitrine. N\u00e3o havia som de passos ou vozes na rua; eu poderia ter me perdido em algum mundo novo e desprovido de sol. Mas alguma coisa rompeu com o meu bom senso e eu n\u00e3o conseguia de forma alguma sentir surpresa, mas no m\u00e1ximo, certa sonol\u00eancia. Algo me fez dizer: \u201cVoc\u00ea parece doente, Papai Noel.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, estou morrendo,\u201d disse ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o disse nada at\u00e9 que ele retomou a fala:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cTodos os jovens e crian\u00e7as desprezam a minha loja. N\u00e3o consigo entender isso. Eles parecem estar me boicotando por motivos t\u00e3o estranhos e inconsistentes, quanto o daqueles cientistas, e daqueles inventores. Eles dizem que eu incuto supersti\u00e7\u00f5es nas pessoas e as torno demasiadamente exc\u00eantricas, eles dizem que eu dou salsichas \u00e0s pessoas e as torno primitivas. Eles dizem que o meu lado santo \u00e9 santo demais; e que o meu lado terreno \u00e9 demasiadamente terreno; eu n\u00e3o entendo o que eles querem, afinal de contas. Como \u00e9 que um santo pode ser demasiadamente santo ou uma pessoa terrena, terrenal demais? Como \u00e9 que algu\u00e9m pode ser bom ou alegre demais? Eu n\u00e3o entendo. Mas uma coisa eu entendo bem at\u00e9 demais. Esta gente de hoje est\u00e1 viva e eu estou morto.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea pode at\u00e9 estar morto,\u201d respondi eu. \u201cvoc\u00ea deveria saber disso. Mas no que diz respeito ao que eles fazem, eu n\u00e3o acho que est\u00e3o vivendo.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio reinou repentinamente entre n\u00f3s que de alguma forma eu esperava ser inabal\u00e1vel. Mas ele n\u00e3o durou mais do que alguns segundos quando, em meio ao m\u00e1ximo sil\u00eancio, eu ouvi distintamente da rua um passo bem r\u00e1pido aproximando-se cada vez mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No momento seguinte uma figura invadiu a loja e ficou parada na soleira da porta. Ele usava um largo chap\u00e9u branco, empinado para tr\u00e1s como se para expressar impaci\u00eancia; ele tamb\u00e9m usava galochas apertadas e pretas daquelas de antigamente, uma bengala barulhenta antiquada, um palet\u00f3 e um velho e fant\u00e1stico casaco. Ele tinha grandes e brilhantes olhos arregalados como de algum ator conhecido; ele tinha uma face p\u00e1lida, nervosa e uma barba decorativa. Ele entrou na loja do velho com um olhar que parecia literalmente um lampejo, dando vaz\u00e3o aos sentimentos, que pareciam de um homem extremamente comovido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cBom Deus!\u201d ele esbravejou; \u201cn\u00e3o pode ser voc\u00ea! N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea! Eu vim para informar-me de onde est\u00e1 o seu t\u00famulo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEu ainda n\u00e3o estou morto, Sr. Dickens,<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>\u201d disse o velho cavaleiro, com um sorriso meigo; \u201cmas estou morrendo,\u201d ele apressou-se a acrescentar para tranq\u00fciliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cMas, por todos os santos, voc\u00ea j\u00e1 estava morrendo no meu tempo,\u201d disse o Sr. Charles Dickens bem animado; \u201ce voc\u00ea n\u00e3o me parece nem um dia mais velho.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEu j\u00e1 estou me sentindo assim h\u00e1 muito tempo,\u201d disse Papai Noel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Sr. Dickens voltou as costas, p\u00f4s o seu chap\u00e9u e saiu porta afora para dentro da escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cDick,\u201d bradou ele com a maior for\u00e7a que a sua voz permitia; \u201cele ainda est\u00e1 vivo.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outra sombra apareceu na soleira da porta, e entrou um cavalheiro muito maior e bem mais jovial com uma enorme peruca, abanando o rosto corado com a sua boina de militar do estilo da guarda brit\u00e2nica. Sua postura era como de um soldado de verdade e a sua face quente tinha um ar de arrog\u00e2ncia, que subitamente foi contrariada pelos seus olhos, que eram literalmente t\u00e3o humildes quanto de um cachorro. A sua espada fazia um enorme barulho, como se a loja fosse pequena demais para ela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cDe fato,\u201d disse Sir Richard Steele,<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> \u201c\u00e9 uma quest\u00e3o prodigiosa, pois o homem estava morrendo quando escrevi sobre Sir Roger de Coverley<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> e seu dia de Natal.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meus \u00f3rg\u00e3os dos sentidos foram ficando cada vez mais turvos e o quarto foi se escurecendo. Eu tinha a impress\u00e3o de que ele estava cheio de gente estranha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cTodos sempre partiram do pressuposto,\u201d disse o homem forte, que costumava inclinar um pouco a cabe\u00e7a de forma bem humorada, mas obstinada (acredito que ele era Ben Johnson<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>). \u201cTodos sempre presumiram, at\u00e9 o c\u00f4nsul Jacob, que estes bons e saud\u00e1veis costumes ficaram doentes e que devem sumir deste mundo. Esta barba cinzenta certamente n\u00e3o era mais lustrosa quando eu o conheci, do que \u00e9 hoje.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E eu igualmente pensei ter ouvido um homem vestido de verde feito Robin Hood, dizer em alguma mistura de Franc\u00eas normando: \u201cMas eu vi com os meus pr\u00f3prios olhos que o homem estava morrendo.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEu j\u00e1 estou me sentindo assim h\u00e1 muito tempo,\u201d disse Papai Noel no seu estilo suave novamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Sr. Charles Dickens apareceu de repente e, inclinando-se at\u00e9 ele, perguntou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cDesde quando? Desde quando voc\u00ea nasceu?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cSim,\u201d disse o velho, e caiu tr\u00eamulo em uma cadeira. \u201cEu sempre estive \u00e0 beira da morte.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Sr. Dickens tirou o seu chap\u00e9u com um gesto como de algu\u00e9m que queria convocar uma multid\u00e3o de pessoas para se levantar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 entendi tudo agora,\u201d gritou ele, \u201cvoc\u00ea n\u00e3o h\u00e1 de morrer jamais.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Walter A.Elwell (ed.) <em>Enciclop\u00e9dia Hist\u00f3rico-teol\u00f3gica da Igreja Crist\u00e3.<\/em>\u00a0 S\u00e3o Paulo: Sociedade Religiosa Edi\u00e7\u00f5es Vida Nova, 278-279.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>Dale Ahlquist &#8220;Quem \u00e9 esse sujeito e por que eu nunca ouvi falar dele&#8221; (&#8220;Who is this guy and why haven\u2019t I heard of him?&#8221;), publica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica. Dispon\u00edvel: &lt;http:\/\/www.chesterton.org\/discover\/who.html&gt;. Acesso 21 Ago 2000.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Idem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Oliveiros S. Ferreira &#8220;Chesterton \u2013 a sabedoria do padre Brown&#8221; Palestra proferida a 17 de agosto de 2000 no N\u00facleo <em>F\u00e9 e Cultura<\/em> da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Battersea \u00e9 uma \u00e1rea em r\u00e1pida ascens\u00e3o com um parque que leva o mesmo nome do bairro. Nele, h\u00e1 v\u00e1rias fontes, um lago para passeio de barco e a Pagode da Paz, um monumento em estilo japon\u00eas com vista para o Rio T\u00e2misa. Fonte: Wikipedia [Nota do tradutor]<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Outro bairro de Londres. [Nota do tradutor]<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Charles Dickens foi o mais popular dos romancistas ingleses da era vitoriana. A fama dos seus romances e contos, tanto durante a sua vida como depois, at\u00e9 aos dias de hoje, s\u00f3 aumentou. Fonte: Wikip\u00e9dia [Nota do tradutor]<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Richard Steele foi um pol\u00edtico e dramaturgo irland\u00eas. \u00c9 lembrado como o co-fundador, com seu amigo Joseph Addison, da revista The Spectator. Steele tornou-se membro do Parlamento do Reino Unido em 1713. Fonte: Wikip\u00e9dia [Nota do tradutor]<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Sir Roger de Coverley, personagem fict\u00edcio, idealizado por Joseph Addison, que o retratou como o autor ostensivo de artigos e cartas que foram publicados no influente peri\u00f3dico de Addison e Richard Steele, The Spectator. Conforme imaginado por Addison, Sir Roger era um baronete de Worcestershire e deveria representar um t\u00edpico cavalheiro rural. Ele tamb\u00e9m era membro do fict\u00edcio Spectator Club, e os escritos de Coverley inclu\u00edam divertidas vinhetas da vida inglesa do in\u00edcio do s\u00e9culo 18 que eram frequentemente consideradas a melhor caracter\u00edstica do The Spectator. Fonte: Britannica (tradu\u00e7\u00e3o livre) [Nota do tradutor]<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Benjamin Jonson, conhecido como Ben Jonson, foi um dramaturgo, poeta e ator ingl\u00eas da Renascen\u00e7a, contempor\u00e2neo de Shakespeare. Fonte: Wikip\u00e9dia [Nota do tradutor]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gabriele Greggersen &nbsp; &nbsp; O renomado jornalista e autor de livros de mist\u00e9rio e fic\u00e7\u00e3o, Gilbert Keith Chesterton (1874- 1936) era um verdadeiro especialista na arte de cria\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio, e seu aproveitamento para o ensino de temas filos\u00f3ficos. 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