{"id":1092,"date":"2019-12-17T18:06:50","date_gmt":"2019-12-17T21:06:50","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/?p=1092"},"modified":"2020-01-07T11:00:06","modified_gmt":"2020-01-07T14:00:06","slug":"educacao-pela-via-da-imaginacao-os-contos-de-fadas-como-pilar-do-aprender-imaginativo-na-perspectiva-de-g-k-chesterton-j-r-r-tolkien-e-c-s-lewis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2019\/12\/17\/educacao-pela-via-da-imaginacao-os-contos-de-fadas-como-pilar-do-aprender-imaginativo-na-perspectiva-de-g-k-chesterton-j-r-r-tolkien-e-c-s-lewis\/","title":{"rendered":"A educa\u00e7\u00e3o pela via da imagina\u00e7\u00e3o: Tolkien, Chesterton e C.S. Lewis"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE \u2013 UNESC<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CURSO DE PEDAGOGIA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>BEATRIZ TEIXEIRA BACK<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>EDUCA\u00c7\u00c3O PELA VIA DA IMAGINA\u00c7\u00c3O: OS CONTOS DE FADAS COMO PILAR DO APRENDER IMAGINATIVO NA PERSPECTIVA DE G.K. CHESTERTON, J.R.R. TOLKIEN E C.S. LEWIS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso apresentado na forma de artigo como requisito parcial para a conclus\u00e3o do Curso de Gradua\u00e7\u00e3o em Pedagogia, na Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Orientador Prof. Gladir da Silva Cabral<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CRICI\u00daMA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>2019<\/strong><br \/>\n<strong>BEATRIZ TEIXEIRA BACK<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>EDUCA\u00c7\u00c3O PELA VIA DA IMAGINA\u00c7\u00c3O: OS CONTOS DE FADAS COMO PILAR DO APRENDER IMAGINATIVO NA PERSPECTIVA DE G.K. CHESTERTON, J.R.R. TOLKIEN E C.S. LEWIS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso na forma de artigo aprovado pela Banca Examinadora como requisito para obten\u00e7\u00e3o do Grau de Licenciada no Curso de Pedagogia da Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Crici\u00fama, xx de Novembro de 2019. (data da defesa)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>BANCA EXAMINADORA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&nbsp;<\/strong>Prof. Gladir da Silva Cabral &#8211; Doutor &#8211; (UNESC) &#8211; Orientador<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Prof. Fulano de Tal -Titula\u00e7\u00e3o &#8211; (Institui\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Prof. Fulano de Tal &#8211; Titula\u00e7\u00e3o &#8211; (Institui\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>EDUCA\u00c7\u00c3O PELA VIA DA IMAGINA\u00c7\u00c3O: OS CONTOS DE FADAS COMO PILAR DO APRENDER IMAGINATIVO NA PERSPECTIVA DE G.K. CHESTERTON, J.R.R. TOLKIEN E C.S. LEWIS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Beatriz Teixeira Back<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Gladir da Silva Cabral<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RESUMO <\/strong><\/p>\n<p>Mediante um estudo te\u00f3rico, a presente pesquisa bibliogr\u00e1fica se prop\u00f5e investigar de que maneira a imagina\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s dos contos de fadas, pode colaborar com o processo educativo, a fim de reafirmar a import\u00e2ncia da literatura para a educa\u00e7\u00e3o, bem como da imagina\u00e7\u00e3o para a aprendizagem. Com esse prop\u00f3sito, o artigo apresenta respectivamente: a rela\u00e7\u00e3o entre educa\u00e7\u00e3o e literatura, uma an\u00e1lise do conceito de imagina\u00e7\u00e3o em diferentes autores, o processo de forma\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio a partir da literatura, o processo de conhecimento segundo a perspectiva aristot\u00e9lica e por fim, apresentar\u00e1 o pensamento de G.K. Chesterton, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis a respeito dos contos de fadas. Na conclus\u00e3o evidencia-se o modo como os contos de fadas impactam na imagina\u00e7\u00e3o e, consequentemente, no processo educativo. Al\u00e9m disso, torna-se intelig\u00edvel a urg\u00eancia de uma (re)forma\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio e de uma educa\u00e7\u00e3o que toma como princ\u00edpio a imagina\u00e7\u00e3o, constituindo-se em aprender imaginativo.<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>PALAVRAS-CHAVE: <\/strong>Literatura. Aprendizagem. Po\u00e9tica. Imaginativo. Contos de Fadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>EDUCATION THROUGH IMAGINATION: THE FAIRYTALES AS A BASIS FOR THE IMAGINATIVE LEARNING FROM THE PERSPECTIVE OF&nbsp;G.K. CHESTERTON, J.R.R. TOLKIEN, AND C.S. LEWIS<\/strong><\/p>\n<p><strong>ABSTRACT<\/strong><\/p>\n<p>This bibliographic research work presents a theoretical study on how imagination, through fairytales, can collaborate to the educative process, in order to reaffirm the importance of literature and imagination in education. Thus, this article presents: the relation between education and literature, an analysis of the concept of imagination in different authors, the process of formation of the imaginary based on literature, the process of knowledge according to the Aristotelian perspective and, finally, the thought of G.K. Chesterton, J.R.R Tolkien, and C.S. Lewis about fairytales. As a conclusion, the article shows how fairytales impact imagination and, as a consequence, the educative process. In addition, it shows the urgency of a reformation of the imaginary and of education taking imagination as a principle and favoring imaginative learning.<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>KEYWORDS: <\/strong>Literature. Learning. Poetics. Imagination. Fairytales.<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>No princ\u00edpio da obra <strong>Metaf\u00edsica<\/strong>, Arist\u00f3teles afirma que \u201ctodo homem, por natureza, deseja saber\u201d (2012, p. 41).&nbsp; Mas como o homem, animal racional, \u00e9 capaz de saber? Como aprende? E o que \u00e9 aprender? Essas s\u00e3o interroga\u00e7\u00f5es que permearam a hist\u00f3ria das ci\u00eancias humanas, sobretudo o campo da Pedagogia.<\/p>\n<p>Mesmo diante das diferentes correntes pedag\u00f3gicas, \u00e9 poss\u00edvel perceber que, com o curso da modernidade, houve uma absolutiza\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o e uma tend\u00eancia a reduzir o mundo \u00e0 t\u00e9cnica e \u00e0 ci\u00eancia, que o v\u00ea como algo certo e mec\u00e2nico. Dentro da perspectiva segundo a qual aprender \u00e9 submeter a realidade aos par\u00e2metros cient\u00edficos, a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 abandonada e desprezada, o que vai na contram\u00e3o daquilo que os antigos compreendiam como educa\u00e7\u00e3o \u2013 como insepar\u00e1vel da imagina\u00e7\u00e3o. O que parecia algo bastante claro tornou-se nublado, mas alguns escritores se levantaram para resgatar a necessidade da imagina\u00e7\u00e3o para o homem, elucidando a uni\u00e3o entre literatura e educa\u00e7\u00e3o; entre eles est\u00e3o George MacDonald (1824-1905), G.K. Chesterton (1874-1936), J.R.R. Tolkien (1892-1973), C.S. Lewis (1898-1963) e Northrop Frye (1912-1991).<\/p>\n<p>De maneira especial, G.K. Chesterton defendia a filosofia dos contos de fadas em contraposi\u00e7\u00e3o ao determinismo racional cient\u00edfico, o que fica expl\u00edcito quando diz: \u201cencontrei o mundo moderno \u00e0s voltas com o fatalismo cient\u00edfico, afirmando que as coisas s\u00e3o como sempre deviam ter sido, sucedendo-se, invariavelmente, desde que o mundo \u00e9 mundo\u201d (CHESTERTON, 2013, p. 93). Ele encontrou nas hist\u00f3rias de fadas o seu oposto, isto \u00e9, um mundo de possibilidades capaz de avivar a imagina\u00e7\u00e3o humana e potencializar a sua raz\u00e3o, e desse modo revelar a realidade do mundo; n\u00e3o algo mec\u00e2nico, mas algo contingente.<\/p>\n<p>A partir desses autores do s\u00e9culo XIX e XX, pretende-se com esta pesquisa investigar a rela\u00e7\u00e3o entre literatura e educa\u00e7\u00e3o, imagina\u00e7\u00e3o e aprendizagem. De maneira especial, este estudo investigar\u00e1 a import\u00e2ncia dos contos de fadas para a aprendizagem, para o conhecimento da realidade e de si mesmo, norteado pelo problema: \u201cDe que maneira a imagina\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s dos contos de fadas, pode colaborar com o processo de conhecimento?\u201d. Em vista disso, \u00e9 fundamental alcan\u00e7ar os objetivos espec\u00edficos de: 1) esclarecer a rela\u00e7\u00e3o entre educa\u00e7\u00e3o e literatura; 2) sintetizar o conceito de imagina\u00e7\u00e3o a partir de diferentes autores; 3) descrever as&nbsp;fun\u00e7\u00f5es da imagina\u00e7\u00e3o e do imagin\u00e1rio; 4) compreender o processo de forma\u00e7\u00e3o do conhecimento 5) compreender o pensamento de G.K. Chesterton, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis a respeito dos contos de fadas e a sua rela\u00e7\u00e3o com a educa\u00e7\u00e3o e a aprendizagem.<\/p>\n<p>O presente trabalho, que se trata de uma pesquisa bibliogr\u00e1fica, seguir\u00e1 uma abordagem qualitativa, que \u00e9 \u201ccomo uma trajet\u00f3ria circular em torno do que se deseja compreender, n\u00e3o se preocupando unicamente com princ\u00edpios, leis e generaliza\u00e7\u00f5es, mas voltando o olhar \u00e0 qualidade, aos elementos que sejam significativos para o observador-investigador\u201d (SANTOS; SANTOS, 2010, p. 42). De maneira descritiva e explicativa, o artigo se prop\u00f5e a esclarecer os conceitos de educa\u00e7\u00e3o e literatura, de modo a estabelecer suas rela\u00e7\u00f5es e os pontos em que compactuam. Em seguida, ser\u00e3o discutidos os conceitos de imagina\u00e7\u00e3o e imagin\u00e1rio em diferentes autores, esclarecendo o processo de forma\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio. Na terceira parte, ser\u00e1 descrito o processo de conhecimento do ser humano segundo a perspectiva aristot\u00e9lica, que abarca o processo cognitivo e o m\u00e9todo de conhecimento. Na quarta parte far-se-\u00e1 um estudo te\u00f3rico sobre os contos de fadas, levantando um breve hist\u00f3rico sobre esses contos ao longo do tempo e discutindo a vis\u00e3o de G.K. Chesterton, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis a respeito dos contos de fadas e seus efeitos. Por fim, a conclus\u00e3o, trar\u00e1 uma s\u00edntese do pensamento desses autores, a fim de responder \u00e0 maneira pela qual a imagina\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s dos contos de fadas, pode colaborar com o processo de conhecimento.<\/p>\n<p>Os contos de fadas, escritos a partir dos s\u00e9culos XVI e XVII, s\u00e3o narrativas que foram grandes conselheiras para os seres humanos durante a hist\u00f3ria, no entanto surgiram aqueles que n\u00e3o souberam apreciar tais hist\u00f3rias com os olhos de crian\u00e7a, como nos recorda Chesterton (2013), e por essa raz\u00e3o as desprezaram. Negaram a capacidade desses contos de despertar tanto a imagina\u00e7\u00e3o quanto a raz\u00e3o, chamando-os de modo desprez\u00edvel de \u201ccontos de carochinha\u201d.&nbsp;C.S. Lewis tamb\u00e9m denuncia aqueles que rejeitam os contos de fadas por supostamente afastar as crian\u00e7as da realidade ou passar a elas uma falsa impress\u00e3o do mundo real. Segundo Lewis, s\u00e3o justamente os contos de fadas que permitem \u00e0s crian\u00e7as um encontro mais pleno e verdadeiro com o mundo (LEWIS, 2009).<\/p>\n<p>Embora ainda se prezem os contos de fadas no \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o infantil, h\u00e1 pouco destaque em rela\u00e7\u00e3o a seus benef\u00edcios sobre a imagina\u00e7\u00e3o e, consequentemente, para a aprendizagem e a educa\u00e7\u00e3o.&nbsp;Os resultados disso j\u00e1 foram anunciados pelos literatos com olhos de crian\u00e7as, como destaca M\u00e1rcia Xavier Brito no pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o brasileira do <strong>Fabuloso Livro Azul <\/strong>(2016, p. 30), ao relatar sobre a import\u00e2ncia dos contos de fadas:<\/p>\n<p>Educar sem oferecer a possibilidade da forma\u00e7\u00e3o de ju\u00edzos de valor baseados nessa constante comum da humanidade, sem reconhecer os limites da realidade, no dizer de Chesterton, \u201co material que pode ser facilmente quebrado\u201d, \u00e9 criar, como dizia C.S. Lewis, \u201cprimatas de cal\u00e7as\u201d \u2013 indiv\u00edduos verdadeiramente destitu\u00eddos da capacidade humana de imaginar ou de sentir, que se tornar\u00e3o \u201chomens sem peito\u201d, os homens desumanos, depressivos e entediados da sociedade moderna.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, e por n\u00e3o haver uma grande quantidade de trabalhos acad\u00eamicos seguindo esta abordagem, a pesquisa se prop\u00f5e a resgatar aquilo que parece ter sido esquecido pelos pensadores modernos: a literatura como base da educa\u00e7\u00e3o, a imagina\u00e7\u00e3o como o princ\u00edpio da aprendizagem e os contos de fadas como uma pujante forma liter\u00e1ria de enriquecer o imagin\u00e1rio e, consequentemente, de formar o ser humano em diferentes \u00e2mbitos.<\/p>\n<p>Os objetivos da pesquisa foram tra\u00e7ados a fim de elaborar uma resposta para o problema selecionado e de modo a levantar as necessidades de trazer a imagina\u00e7\u00e3o para o centro das preocupa\u00e7\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o, a fim de alcan\u00e7ar o reconhecimento da urg\u00eancia de uma reforma do imagin\u00e1rio e de uma educa\u00e7\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o e <em>pela<\/em> imagina\u00e7\u00e3o, temas centrais e transversais ao que o artigo se prop\u00f5e, n\u00e3o obstante demasiadamente urgentes para a qualidade da educa\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1. EDUCA\u00c7\u00c3O E LITERATURA<\/strong><\/p>\n<p>Para desvendar a rela\u00e7\u00e3o entre educa\u00e7\u00e3o e literatura, \u00e9 salutar trazer o significado de ambos os conceitos e \u00e1reas, a fim de compreender e analisar seus pontos de intersec\u00e7\u00e3o, em que se tornam indissoci\u00e1veis.<\/p>\n<p>Educar, em seu significado etimol\u00f3gico, remonta ao sentido de \u201ctirar de dentro\u201d ou \u201cconduzir para fora\u201d (<em>ex + ducere<\/em>), evidenciando a ess\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma atividade que leva em considera\u00e7\u00e3o tanto o esfor\u00e7o pessoal de procurar tirar de si as suas potencialidades, quanto a ajuda prestada pelos outros para que se chegue a esse fim. Dom Louren\u00e7o de Almeida Prado afirma que:<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo vital, radicado na natureza espiritual e perfect\u00edvel da criatura humana, pelo qual essa criatura, com o apoio do conv\u00edvio social, particularmente com o da fam\u00edlia e dos que a antecederam, vai desdobrando as suas energias germinais interiores, que traz ao nascer, e conduzindo-as \u00e0 plenitude atuante e, ao mesmo tempo, toma posse do patrim\u00f4nio da cultura e civiliza\u00e7\u00e3o acumulado pelas gera\u00e7\u00f5es precedentes, e se insere, como membro vivo e participante, na comunidade humana de seu tempo e nos h\u00e1bitos e peculiaridades do seu povo e sua regi\u00e3o. (1991, p. 76)<\/p>\n<p>O mesmo autor exp\u00f5e que o fim da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a conquista da liberdade interior, tomada enquanto a capacidade de compreender, avaliar e escolher, n\u00e3o com base nos pr\u00f3prios desejos, mas de modo consciente, racional e moral. Esse princ\u00edpio da educa\u00e7\u00e3o identifica-se com o que \u00e9 chamado de \u201ceduca\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica\u201d, que remete \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da Gr\u00e9cia Antiga e da civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Segundo o livro <strong>Paid\u00e9ia: a forma\u00e7\u00e3o do homem grego<\/strong>:<\/p>\n<p>Uma educa\u00e7\u00e3o consciente pode at\u00e9 mudar a natureza f\u00edsica do Homem e suas qualidades, elevando-lhe a capacidade a um n\u00edvel superior. Mas o esp\u00edrito humano conduz progressivamente \u00e0 descoberta de si pr\u00f3prio e cria, pelo conhecimento do mundo exterior e interior, formas melhores de exist\u00eancia humana. A natureza do Homem, na sua dupla estrutura corp\u00f3rea e espiritual, cria condi\u00e7\u00f5es especiais para a manuten\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o da sua forma particular e exige organiza\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e espirituais, ao conjunto das quais damos o nome de educa\u00e7\u00e3o. Na educa\u00e7\u00e3o, como o Homem a pratica, atua a mesma for\u00e7a vital, criadora e pl\u00e1stica, que espontaneamente impele todas as esp\u00e9cies vivas \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o e propaga\u00e7\u00e3o de seu tipo. \u00c9 nela, por\u00e9m, que essa for\u00e7a atinge o mais alto grau de intensidade, atrav\u00e9s do esfor\u00e7o consciente do conhecimento e da vontade, dirigido para a consecu\u00e7\u00e3o de um fim. (JAEGER, 2003, p. 3-4)<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia, a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser instrumentaliza\u00e7\u00e3o da pessoa e n\u00e3o se concretiza sem a clarifica\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia que se torna capaz de conhecer. Por essa raz\u00e3o \u00e9 que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9, sobretudo, um processo de dentro para fora, pois de modo contr\u00e1rio, aproxima-se de uma domestica\u00e7\u00e3o em que o educador imp\u00f5e ao aluno o que fazer. Em uma aut\u00eantica educa\u00e7\u00e3o humana, como a defendida pelos gregos, o indiv\u00edduo a ser educado \u00e9 levado \u00e0 liberdade, an\u00e1loga \u00e0 liberdade dos gregos, que mesmo prisioneiros eram livres por meio da educa\u00e7\u00e3o. Esse aspecto sempre foi privilegiado pela Educa\u00e7\u00e3o Liberal, \u201ccujo termo foi cunhado na Idade M\u00e9dia e se referia, originalmente, \u00e0s artes liberais ou profiss\u00f5es livres, como dir\u00edamos hoje, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s profiss\u00f5es servis, em que o trabalhador exercia uma fun\u00e7\u00e3o em troca de um sal\u00e1rio\u201d (ZAMBONI, 2011, p. 135). Significa \u201cordena\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o do conhecimento para o benef\u00edcio do indiv\u00edduo livre \u2013 em contraste com a educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica ou profissionalizante\u201d (KIRK, 200- <em>apud<\/em> ZAMBONI, 2011, p. 136).<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o liberal pretende introduzir o homem nas quest\u00f5es primordiais da humanidade de modo a compreender ideias que s\u00e3o importantes para os problemas mais b\u00e1sicos da vida humana, e denota como objetivo primordial e fim \u00faltimo da educa\u00e7\u00e3o a forma\u00e7\u00e3o do homem por inteiro, em intelig\u00eancia e vontade; sendo que o homem constitui o pr\u00f3prio fim da educa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o um meio para algum fim. Nesse mesmo sentido, o fil\u00f3sofo da educa\u00e7\u00e3o Jacques Maritain (1882-1973), defensor da educa\u00e7\u00e3o liberal, coloca que a finalidade educativa \u00e9:<\/p>\n<p>[&#8230;] guiar o homem no desenvolvimento din\u00e2mico do curso do qual se constituir\u00e1 como pessoa humana, \u2013 dotada das armas do conhecimento, do poder de julgar e das virtudes morais \u2013 transmitindo-lhe ao mesmo tempo o patrim\u00f4nio espiritual da na\u00e7\u00e3o e da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e0s quais pertence e conservando a heran\u00e7a secular das gera\u00e7\u00f5es. (MARITAIN, 1968, p. 36)<\/p>\n<p>Grande parte do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, cultural e moral da humanidade se encontra na literatura e nos mitos das civiliza\u00e7\u00f5es, nas sociedades de cada \u00e9poca. Destarte, o acesso \u00e0 literatura permite a compreens\u00e3o dessa heran\u00e7a secular de s\u00edmbolos, analogias e significados-chave, essenciais para o desenvolvimento da intelig\u00eancia, da consci\u00eancia de si e da percep\u00e7\u00e3o do outro no mundo.<\/p>\n<p>Como coloca o escritor canadense Northrop Frye, em sua obra <strong>Imagina\u00e7\u00e3o educada <\/strong>(2017, p. 23): \u201c[&#8230;] a literatura pertence ao mundo que o homem constr\u00f3i, e n\u00e3o ao mundo que ele v\u00ea; pertence ao seu lar, e n\u00e3o ao seu ambiente. O mundo liter\u00e1rio \u00e9 um mundo humano concreto de experi\u00eancia imediata\u201d. Por esse motivo, a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria permite uma profunda forma\u00e7\u00e3o humana, uma vez que torna acess\u00edvel a experi\u00eancia humana, aquilo que n\u00e3o \u00e9 transmiss\u00edvel como outros conhecimentos, e por isso \u201cpermite compreender as viv\u00eancias alheias por meio de s\u00edmbolos que evocam experi\u00eancias an\u00e1logas\u201d (ZAMBONI, 2016, p. 221). Isto \u00e9, a literatura permite-nos vivenciar o mundo a partir do olhar e da experi\u00eancia do outro.<\/p>\n<p>Por enquadrar-se no discurso po\u00e9tico, a literatura propicia o conhecimento de experi\u00eancias poss\u00edveis e, portanto, transcende a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, por abarcar tanto o que aconteceu como aquilo que poderia ter acontecido. Juli\u00e1n Mar\u00edas, a respeito dos efeitos da literatura, argumenta que ela:<\/p>\n<p>Introduz o desdobramento da imagina\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o de irrealidades que t\u00eam exist\u00eancia puramente mental [&#8230;] a experimenta\u00e7\u00e3o imaginativa das possibilidades humanas [&#8230;] a inven\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o realizadas e mesmo irrealiz\u00e1veis, o descobrimento e a experi\u00eancia de inumer\u00e1veis sentimentos, rela\u00e7\u00f5es humanas, projetos de vida; das for\u00e7as e poderes que condicionam a vida, desde o seu desenlace, a antecipa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria morte (ou a de outros) e a compreens\u00e3o de seu sentido. [&#8230;] desta nova situa\u00e7\u00e3o depende a possibilidade do pensamento complexo, os mecanismos de indaga\u00e7\u00e3o, descobrimento, concatena\u00e7\u00e3o, justifica\u00e7\u00e3o, prova; em suma, a constru\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios mentais em que se realizam a filosofia, a teologia, as ci\u00eancias da natureza ou as humanidades, a indaga\u00e7\u00e3o da realidade inteira e do que se descobre como poss\u00edvel, desej\u00e1vel ou tem\u00edvel. A literatura \u00e9 o mais formid\u00e1vel instrumento de dilata\u00e7\u00e3o da vida humana. (MAR\u00cdAS, 1995 <em>apud<\/em> ZAMBONI, 2016, p. 207)<\/p>\n<p>Logo, a experi\u00eancia humana \u00e9 constru\u00edda e enriquecida pela literatura, que permite viv\u00eancias imaginativas irreais, poss\u00edveis ou at\u00e9 mesmo irrealiz\u00e1veis, mas nem por isso pouco v\u00edvidas e n\u00e3o vividas. Essas experi\u00eancias imaginativas s\u00e3o capazes de preparar o indiv\u00edduo para a vida real, uma vez que, para que algo seja feito, deve ter sido imaginado antes, como se fosse pr\u00e9-vivido e pr\u00e9-experienciado na mente. E como nossa experi\u00eancia pessoal \u00e9 muito limitada, a literatura \u00e9 uma rica oportunidade para agregarmos nossa experi\u00eancia e formarmos nosso \u201cuniverso interior\u201d, a partir da experi\u00eancia de outrem que se concretiza em n\u00f3s como experi\u00eancia imaginativa.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico Frye (2017) argumenta, ainda, que a mente humana funciona em tr\u00eas n\u00edveis diferentes e cada um possui uma linguagem. Um \u00e9 o n\u00edvel da consci\u00eancia e perceptividade, em que atua a linguagem da express\u00e3o, outro \u00e9 o n\u00edvel da participa\u00e7\u00e3o social, de linguagem de senso pr\u00e1tico e, por fim, h\u00e1 o n\u00edvel da imagina\u00e7\u00e3o, que produz a linguagem liter\u00e1ria, a qual constitui um modelo mental do que se quer construir.<\/p>\n<p>O n\u00edvel da imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 alimentado pela literatura, que possibilita a ela todas as experi\u00eancias do mundo. Por isso, Fausto Zamboni afirma que \u201ca literatura propicia o conhecimento de muitas vidas poss\u00edveis e de variadas dimens\u00f5es da intimidade humana; d\u00e1-nos, numa palavra, uma verdadeira \u2018geografia das emo\u00e7\u00f5es\u2019\u201d (2016, p. 207). A partir disso, pode-se concluir que, aquele que tem uma escassa experi\u00eancia imaginativa, fica limitado \u00e0 sua reduzida experi\u00eancia pessoal, o que o limita em diferentes aspectos como veremos ao longo dessa pesquisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2. <\/strong><strong>O EXERC\u00cdCIO DA IMAGINA\u00c7\u00c3O E A FORMA\u00c7\u00c3O DO IMAGIN\u00c1RIO<\/strong><\/p>\n<p>A literatura propicia o desenvolvimento da imagina\u00e7\u00e3o e do imagin\u00e1rio, como deixa claro George MacDonald quando afirma que \u201cna cultura da imagina\u00e7\u00e3o, os livros, embora n\u00e3o sejam os \u00fanicos, s\u00e3o os meios mais f\u00e1ceis de fornecer o alimento conveniente para ela\u201d (1968, p. 19). Desse modo, como \u00e9 capaz de propiciar uma enriquecedora forma\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio, \u00e9 pe\u00e7a-chave para o desenvolvimento intelectual, cultural e moral, abarcando o ser humano em sua integralidade. Para MacDonald, educa\u00e7\u00e3o \u00e9 movimento, renova\u00e7\u00e3o, despertamento, \u201cconstante questionamento do passado visando a interpreta\u00e7\u00e3o do futuro\u201d (2013, p. 1), portanto \u00e9 algo din\u00e2mico e criativo.<\/p>\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o, defendida aqui como princ\u00edpio da educa\u00e7\u00e3o, pode ser definida de diferentes formas. De maneira geral, segundo R\u00e9gis Jolivet (1955, p. 148), \u201cchama-se imagina\u00e7\u00e3o a faculdade de conservar, de reproduzir e de combinar as imagens das coisas sens\u00edveis\u201d. Quando Arist\u00f3teles discorre sobre o discurso po\u00e9tico, retrata a imagina\u00e7\u00e3o como a fun\u00e7\u00e3o da mente que, unida \u00e0 mem\u00f3ria em uma mesma faculdade, \u00e9 respons\u00e1vel por combinar e fundir as imagens captadas pelos sentidos externos no encontro com a realidade, esquematizando-as para a constru\u00e7\u00e3o de um conceito e de rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. A imagina\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, a mediadora entre a faculdade dos sentidos e a faculdade do pensamento (ARIST\u00d3TELES, 2005).<\/p>\n<p>O discurso po\u00e9tico, que versa sobre o poss\u00edvel, na perspectiva aristot\u00e9lica, dirige-se \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que a requer para ser \u201ccompreendida\u201d e apreciada, uma vez que a fun\u00e7\u00e3o do poeta, bem como sua obra: \u201cn\u00e3o consiste em contar o que aconteceu, mas sim coisas quais podiam acontecer, poss\u00edveis do ponto de vista da verossimilhan\u00e7a ou da necessidade\u201d (ARIST\u00d3TELES, 2005, p. 28). Logo, cabe ao ouvinte do discurso po\u00e9tico permitir que a imagina\u00e7\u00e3o tome as r\u00e9deas da mente para conceber o poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Para S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino (1225\u20131274), fil\u00f3sofo medieval que abra\u00e7ou as ideias de Arist\u00f3teles, o homem possui quatro sentidos internos: o sentido comum, a imagina\u00e7\u00e3o, a estimativa e a memorativa (AQUINO, S. STh. I, q. 78, a. 4, c.). Ele define a imagina\u00e7\u00e3o como um \u201ctesouro das formas recebidas pelos sentidos\u201d, ou seja, o ato de imaginar consiste em apreender, reproduzir e associar imagens que prov\u00eam dos sentidos externos, sendo esse ato uma pot\u00eancia sensitiva interna. Capaz de combinar e relacionar imagens, a imagina\u00e7\u00e3o faz vigorar a criatividade, respons\u00e1vel por reproduzir em uma nova forma o que a imagina\u00e7\u00e3o captou pelos sentidos, algo essencial \u00e0 literatura fant\u00e1stica (FAITANIN, 2008).<\/p>\n<p>O cr\u00edtico liter\u00e1rio canadense Northrop Frye conceitua imagina\u00e7\u00e3o como \u201co poder de construir modelos poss\u00edveis de experi\u00eancia humana\u201d (FRYE, 2017, p. 18). Nesse n\u00edvel em que atua a mente humana, nada acontece de forma real e factual, por\u00e9m tudo pode acontecer, pois nesse universo trabalha-se com possibilidades e com a experi\u00eancia imediata. Por essa raz\u00e3o, o autor afirma que o conte\u00fado da literatura n\u00e3o \u00e9 real nem irreal. Uma vez que n\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do poeta fazer afirma\u00e7\u00f5es factuais ou particulares, a obra po\u00e9tica n\u00e3o informa o que aconteceu, mas o que acontece e aquilo que se d\u00e1 sempre. \u00c9 o que Arist\u00f3teles chamou de <em>evento humano t\u00edpico ou universal<\/em>. Em raz\u00e3o disso \u00e9 que a linguagem po\u00e9tica trabalha com s\u00edmbolos, pois h\u00e1 sempre presente elementos da vida humana que encontrar\u00e3o neles alguma correspond\u00eancia, semelhan\u00e7a ou representa\u00e7\u00e3o, aproximando o natural e o humano (FRYE, 2017). Essa correspond\u00eancia presente na literatura chama-se <em>alegoria<\/em>, a qual pode ser tanto direta quanto indireta.<\/p>\n<p>Alguns escritores de fantasia, os quais utilizaram da linguagem po\u00e9tica para possibilitar aos leitores de suas obras fant\u00e1sticas a viv\u00eancia de experi\u00eancias, discorreram sobre a imagina\u00e7\u00e3o, como George MacDonald, pastor escoc\u00eas do s\u00e9culo XIX e escritor. Ele coloca que a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 a faculdade respons\u00e1vel por dar forma ao pensamento, no entanto deixa claro que tais formas n\u00e3o nascem da mente humana. O que h\u00e1 \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de uma forma j\u00e1 existente na realidade, que se torna vis\u00edvel pela imagina\u00e7\u00e3o. Para ele, a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m a base da experi\u00eancia liter\u00e1ria. \u201cMetade da nossa linguagem \u00e9 obra da imagina\u00e7\u00e3o\u201d (MACDONALD, 2013, p. 5). A imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 a ess\u00eancia da linguagem po\u00e9tica, que se distingue da linguagem comum, cotidiana.<\/p>\n<p>Ao colocar a imagina\u00e7\u00e3o como faculdade criadora do homem, MacDonald deixa claro que ela n\u00e3o \u00e9 em nenhum sentido prim\u00e1rio <em>criativa<\/em>, j\u00e1 que n\u00e3o pode escolher sen\u00e3o as formas j\u00e1 existentes na realidade. N\u00e3o obstante, sua opera\u00e7\u00e3o procede de modo divino, pois de certo modo p\u00f5e o pensamento em forma. MacDonald n\u00e3o v\u00ea a imagina\u00e7\u00e3o e a ci\u00eancia ou a raz\u00e3o como separadas, pelo contr\u00e1rio (2013). Nesse mesmo sentido discorrer\u00e1 J.R.R. Tolkien, o fil\u00f3logo, professor universit\u00e1rio e escritor de fantasia que ficou amplamente conhecido pela produ\u00e7\u00e3o das obras liter\u00e1rias <strong>O Senhor dos An\u00e9is<\/strong>. Ele apresenta, em seu ensaio \u201cSobre hist\u00f3rias de fadas\u201d, essa faculdade criadora do homem como uma capacidade <em>subcriadora<\/em>, capaz de criar um mundo secund\u00e1rio permeado de regras e leis.<\/p>\n<p>C.S. Lewis, um homem que se considerou algu\u00e9m convertido pela imagina\u00e7\u00e3o (ele converteu-se ao Cristianismo ap\u00f3s ter sido um ateu convicto), que tamb\u00e9m foi professor em Oxford e Cambridge e escritor de fantasia, desenvolveu uma grande amizade com Tolkien, com quem compartilhava ideias e convergia em muitas vis\u00f5es, inclusive referente \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o e a sua import\u00e2ncia, como relata Colin Duriez, em sua obra <strong>J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis: O dom da amizade<\/strong>:<\/p>\n<p>Bem no primeiro plano de sua perspectiva, a imagina\u00e7\u00e3o tinha enorme import\u00e2ncia. Eles a viam, nas palavras de Lewis, como o \u201c\u00f3rg\u00e3o do significado\u201d; a imagina\u00e7\u00e3o est\u00e1 envolvida na forma como sentimos a realidade como um todo (quer percebamos coisas individuais como \u00e1rvores, pedras, colinas e at\u00e9 mesmo pessoas em particular, quer percebamos o mundo como um mundo coerente ao nosso redor). A imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1, como o pensamento, interessada em abstra\u00e7\u00f5es a partir de coisas, experi\u00eancias e relacionamentos particulares. Assim, tanto Lewis quanto Tolkien, como escritores, valorizavam a vis\u00e3o da realidade de forma simb\u00f3lica e mitopo\u00e9tica. (2006, p. 262)<\/p>\n<p>Isso significa que a literatura permite, atrav\u00e9s do uso da faculdade imaginativa, a constru\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o da realidade de forma simb\u00f3lica, pois atrav\u00e9s da leitura \u00e9 poss\u00edvel captar s\u00edmbolos e analogias que representam possibilidades humanas permanentes, de pensar, agir e ser.<\/p>\n<p>A faculdade imaginativa apresenta duas fun\u00e7\u00f5es: a reprodutora e a criadora. A primeira consiste em reproduzir ou evocar as imagens captadas pelos sentidos, todavia diferenciando-se da mem\u00f3ria, a qual tem por objeto os estados de consci\u00eancia antigos, em vez das imagens sens\u00edveis em si mesmas. Por sua vez, a fun\u00e7\u00e3o criadora ou construtora \u00e9 respons\u00e1vel por combinar as imagens recebidas pelos sentidos de modo a formar novas imagens, o que pode ocorrer de forma espont\u00e2nea atrav\u00e9s dos sonhos e de forma ativa e refletida em que o esp\u00edrito conscientemente cria conjuntos de imagens novas, produzindo a fantasia (JOLIVET, 1955).<\/p>\n<p>Respons\u00e1vel por evocar as imagens sens\u00edveis e as combinar de diferentes modos, a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma faculdade da mente \u00fatil e necess\u00e1ria capaz de produzir ci\u00eancia e belas artes. Todavia, diante dessas fun\u00e7\u00f5es, ela difere-se daquilo que se chama de <em>imagin\u00e1rio<\/em> ou repert\u00f3rio imaginativo, que se refere ao \u201clugar\u201d em que essas imagens captadas pelos sentidos ficam depositadas. \u00c9 desse dep\u00f3sito de imagens que a mente extrair\u00e1 o conte\u00fado para realizar as fun\u00e7\u00f5es imaginativas, tornando-se o imagin\u00e1rio um repert\u00f3rio de possibilidades de cria\u00e7\u00e3o, em que ficar\u00e3o depositados os produtos da imagina\u00e7\u00e3o criadora.<\/p>\n<p>Para Northrop Frye (2017), h\u00e1 tr\u00eas n\u00edveis do imagin\u00e1rio: o individual, o social e o imaginativo. O primeiro est\u00e1 ligado a experi\u00eancias individuais, o segundo se refere a imagens que s\u00e3o utilizadas para a compreens\u00e3o do mundo e o terceiro n\u00edvel \u00e9 constitu\u00eddo de imagens que s\u00e3o como um modelo, tal como gostar\u00edamos que o mundo fosse.&nbsp;Nesse sentido, o repert\u00f3rio imaginativo \u00e9 determinante sobre o modo pelo qual o ser humano compreende a realidade e a si mesmo, sendo capaz de enriquecer sua experi\u00eancia e, consequentemente, influenciar na constru\u00e7\u00e3o de ju\u00edzos e racioc\u00ednios.<\/p>\n<p>A linguagem liter\u00e1ria das hist\u00f3rias fant\u00e1sticas, capazes de levar a imagina\u00e7\u00e3o a elevado desenvolvimento, enriquece a experi\u00eancia humana, como expressa Frye: \u201cN\u00e3o importa quanta experi\u00eancia acumulemos ao longo dos anos, jamais alcan\u00e7aremos em vida toda a dimens\u00e3o da experi\u00eancia proporcionada pela imagina\u00e7\u00e3o\u201d (2017, p. 89).&nbsp;Portanto, a literatura \u00e9 importante para o processo educativo, uma vez que permite o desenvolvimento da imagina\u00e7\u00e3o, princ\u00edpio da aprendizagem como veremos adiante. Mas de que modo a imagina\u00e7\u00e3o interfere na aprendizagem, sendo necess\u00e1ria ao processo educativo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3. O PROCESSO DE CONHECIMENTO E O APRENDER IMAGINATIVO<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio voltar novamente \u00e0 pergunta: \u201cComo o homem aprende?\u201d. Para Arist\u00f3teles, o conhecimento humano origina-se nas sensa\u00e7\u00f5es, naquilo que os cinco sentidos nos apresentam. Mas existe uma fun\u00e7\u00e3o no ser humano fundamental para o processo de conhecimento, que n\u00e3o existe da mesma maneira em nenhum outro animal: a mem\u00f3ria \u2013 a qual identifica-se com a faculdade imaginativa e \u00e9, portanto, intitulada de <em>fantasia<\/em>.<\/p>\n<p>De maneira geral, o ser humano \u00e9 capaz de conhecer atrav\u00e9s de um processo natural e progressivo, que se d\u00e1 da seguinte maneira: primeiramente, ocorre a <em>percep\u00e7\u00e3o<\/em>, em que a pessoa recebe a informa\u00e7\u00e3o sensorial. Dessa informa\u00e7\u00e3o, guarda-se um esquema ou <em>fantasma<\/em>, isto \u00e9, uma imagem esquem\u00e1tica de algo que foi percebido e que \u00e9 guardado na mem\u00f3ria. Dessas imagens, o intelecto abstrai a ess\u00eancia das coisas e produz o <em>conceito<\/em>.<\/p>\n<p>O processo vai da percep\u00e7\u00e3o das imagens, que s\u00e3o realidades concretas e singulares, \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o do conceito ou ideia, que s\u00e3o abstratos e gerais. Esse processo pode ser chamado de <em>abstra\u00e7\u00e3o<\/em>, definido como: \u201cEnquanto opera\u00e7\u00e3o que produz a ideia geral, a abstra\u00e7\u00e3o \u00e9 o ato pelo qual a intelig\u00eancia pensa um objeto, deixando de lado seus caracteres singulares\u201d (JOLIVET, 1955, p. 195). Logo, o conhecimento da ess\u00eancia das coisas torna-se poss\u00edvel, o que s\u00f3 acontece pelo uso da faculdade da imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Arist\u00f3teles \u201ca imagina\u00e7\u00e3o, por seu turno, \u00e9 algo diferente da percep\u00e7\u00e3o e do pensamento discursivo. Ela n\u00e3o sucede, de facto, sem a percep\u00e7\u00e3o sensorial, e sem ela n\u00e3o existe suposi\u00e7\u00e3o\u201d (2010, p. 110). O papel da imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 assim evidente: unir a faculdade dos sentidos \u00e0 do pensamento, isto \u00e9, \u201ca faculdade perceptiva e a faculdade cient\u00edfica da alma [&#8230;] a \u00faltima, o cientificamente cognosc\u00edvel; a primeira, o sens\u00edvel.\u201d (ARIST\u00d3TELES, 2010, p. 123). Ligando o particular que \u00e9 concebido pelos sentidos ao universal concebido pelo intelecto, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio, por exemplo, perceber todas as cadeiras existentes no mundo para conhecer uma cadeira, basta conhecer sua ess\u00eancia para saber o que \u00e9 uma cadeira (JOSEPH, 2008).<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, a imagina\u00e7\u00e3o assume um papel de media\u00e7\u00e3o entre o conhecimento sens\u00edvel e o conhecimento l\u00f3gico do pensamento, isto \u00e9, ela \u00e9 respons\u00e1vel por estabelecer uma ponte entre os abismos dos dados dos sentidos e do racioc\u00ednio; entre o mundo exterior e o mundo interior. Uma vez que \u00e9 essencialmente elemento mediador, a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel para o processo de conhecimento, respons\u00e1vel por interligar a raz\u00e3o e a experi\u00eancia, fun\u00e7\u00f5es complementares que contribuem juntas para esse processo. Isso constitui, na linguagem aristot\u00e9lica, a passagem do conhecimento animal para o conhecimento racional \u2013 ou da pot\u00eancia para o ato \u2013, naquele que \u00e9 animal racional.<\/p>\n<p>Logo, a partir dessa perspectiva aristot\u00e9lica, a intelig\u00eancia humana opera sobre os fantasmas, de modo que todo o conhecimento depende do que est\u00e1 na mem\u00f3ria do indiv\u00edduo, ou em uma linguagem mais contempor\u00e2nea, depende do que est\u00e1 no imagin\u00e1rio \u2013 repert\u00f3rio imaginativo. Por essa raz\u00e3o, h\u00e1 a grande urg\u00eancia de se ter um imagin\u00e1rio rico e bem formado, porque dele depende todo conhecimento. Da mesma maneira, o constante exerc\u00edcio da imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental porque, como foi explanado acima, o trabalho da intelig\u00eancia \u00e9 um trabalho de imagina\u00e7\u00e3o, o que evidencia que todo aprender \u00e9 um processo imaginativo.<\/p>\n<p>Esse processo de conhecimento \u00e9 uma unidade org\u00e2nica que opera de modo cont\u00ednuo, partindo das sensa\u00e7\u00f5es, passando pela imagina\u00e7\u00e3o e culminando no pensamento racional. Sendo assim, melhores ser\u00e3o os racioc\u00ednios quanto mais conte\u00fado houver no repert\u00f3rio imaginativo, quanto mais desenvolvida for a imagina\u00e7\u00e3o. Encontra-se a\u00ed a raz\u00e3o de a imagina\u00e7\u00e3o ser defendida como o princ\u00edpio da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>4. CONTOS DE FADAS<\/strong><\/p>\n<p>As hist\u00f3rias, enquanto narrativas mitol\u00f3gicas e fant\u00e1sticas, sempre existiram na humanidade e foram para os homens as primeiras conselheiras. Os <em>mitos<\/em> explicavam, para os antigos, mist\u00e9rios e fen\u00f4menos naturais, incluindo a origem do mundo e o surgimento do dia e da noite. Al\u00e9m dos mitos, entre as hist\u00f3rias antigas est\u00e3o as <em>lendas<\/em> e o <em>folclore<\/em>, que s\u00e3o narrativas ligadas mais \u00e0 cultura e ao conhecimento de povos particulares. Essas hist\u00f3rias, no entanto, se diferenciam daquelas que os estudiosos classificam e denominam como <em>contos de fadas<\/em>, j\u00e1 que falam sobre a realeza, her\u00f3is, gigantes, fadas, an\u00f5es magos, bruxos, entre outros seres fant\u00e1sticos e n\u00e3o-fant\u00e1sticos, e tamb\u00e9m n\u00e3o possuem autores conhecidos, uma vez que s\u00e3o oriundos de tradi\u00e7\u00e3o oral e muitos elementos das narrativas acabaram se modificando com o tempo.<\/p>\n<p>Segundo Nelly Novaes Coelho, os contos de fadas se caracterizam como hist\u00f3rias com um eixo gerador de uma problem\u00e1tica existencial, relacionada \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do her\u00f3i ou da hero\u00edna. A autora coloca:<\/p>\n<p>A efabula\u00e7\u00e3o do conto de fadas expressa os obst\u00e1culos ou provas que precisam ser vencidas, como um verdadeiro ritual inici\u00e1tico, para que o her\u00f3i alcance sua auto-realiza\u00e7\u00e3o existencial, seja pelo encontro de seu verdadeiro eu, seja pelo encontro da princesa, que encarna o ideal a ser alcan\u00e7ado. (COELHO, 1987, p. 13)<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel constatar quando exatamente surgiram os contos de fadas, eles estiveram presentes em diferentes culturas (celta, chinesa, oriental, \u00e1rabe, judaica, entre outras). Passaram pela Idade M\u00e9dia com hist\u00f3rias sobre cavaleiros, fadas e damas amadas; pelo Renascimento do s\u00e9culo XVI, com textos de origem popular recriados por uma elabora\u00e7\u00e3o erudita, em que permanecem as obras de atmosfera m\u00e1gica c\u00e9ltico-bret\u00e3. Ao final do s\u00e9culo XVII, houve um decl\u00ednio dessas narrativas fant\u00e1sticas na Fran\u00e7a, que s\u00e3o transformadas em narrativas populares folcl\u00f3ricas ou em romances sentimentais. Todavia, a partir de Perrault, os contos de fadas ressurgem com a publica\u00e7\u00e3o de contos e a cria\u00e7\u00e3o do n\u00facleo de literatura infantil ocidental. Nessa mesma \u00e9poca, os contos eram criados destinados ao prazer e divertimento da corte de Lu\u00eds XVI (COELHO, 1987).<\/p>\n<p>Os contos de fadas resistem at\u00e9 o final do s\u00e9culo XVIII. No entanto, com a eclos\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa em 1789, em que o uso da raz\u00e3o prevalece, os contos escapam ao interesse dos adultos e passam a fazer parte do mundo infantil. Com o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, entram em cena os irm\u00e3os Grimm e Hans Christian Andersen, resgatando o esp\u00edrito dos contos de fadas. Al\u00e9m desses, outros grandes compiladores fizeram parte da hist\u00f3ria, como Jean De La Fontaine (s\u00e9c. XVII) e Andrew Lang (s\u00e9c. XIX e XX).<\/p>\n<p>Apesar do fim dos sal\u00f5es da monarquia francesa com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, em que os contos de fadas eram contados para a divers\u00e3o da corte, a tradi\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias de fadas n\u00e3o acabou, mas ultrapassou os s\u00e9culos, trazendo suas maravilhas e um grandioso aparato imaginativo. Mesmo diante da modernidade, que op\u00f5e-se \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o em defesa de um empirismo vazio, os contos permanecem com sua imortal import\u00e2ncia para a humanidade, e autores como G.K. Chesterton, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis, defenderam de maneira perseverante, os quais ser\u00e3o abordados a seguir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>4.1. G.K. Chesterton e o pa\u00eds das fadas<\/strong><\/p>\n<p>Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), mais conhecido como G.K. Chesterton, foi um escritor, poeta, fil\u00f3sofo, jornalista e cr\u00edtico liter\u00e1rio que revelou ter sua vida formada pelos contos de fadas quando expressou: \u201ca minha primeira e \u00faltima filosofia, aquela na qual acredito com uma certeza inquebrant\u00e1vel, foi a que aprendi na escola maternal\u201d (2013, p. 79). Essa filosofia \u00e9 o que chama-se de contos de fadas. Em sua obra <strong>Ortodoxia<\/strong>, \u00e9 poss\u00edvel compreender sua vis\u00e3o sobre esses contos, ao falar a respeito da \u201cterra dos elfos\u201d e, tamb\u00e9m, no seu livro <strong>Contos de fadas e outros ensaios liter\u00e1rios<\/strong>.<\/p>\n<p>Em um artigo de jornal publicado em 1905, Chesterton afirma que \u201cos contos de fadas s\u00e3o coisas extraordin\u00e1rias vistas por pessoas ordin\u00e1rias\u201d. Diferentemente da moderna fantasia, que narra coisas ordin\u00e1rias vistas por pessoas extraordin\u00e1rias, \u201cos contos de fadas s\u00e3o um quadro da vida permanente da grande massa da esp\u00e9cie humana muito mais realista que a mais realista fic\u00e7\u00e3o\u201d (CHESTERTON, 1905, s\/p). Isto \u00e9, trata-se daquela vida comum que a maioria dos homens experimenta durante o maior n\u00famero de s\u00e9culos, a vida do campo e das rela\u00e7\u00f5es simples.<\/p>\n<p>Chesterton afirma que os contos de fadas s\u00e3o absolutamente racionais, uma vez que admitem a l\u00f3gica e a necessidade das coisas, respeitando as ci\u00eancias das rela\u00e7\u00f5es mentais; como, por exemplo, se John \u00e9 o filho carpinteiro, o carpinteiro \u00e9 pai de John, diferentemente de como procedem os homens da ci\u00eancia, que colocam a necessidade e as leis em eventos ou fen\u00f4menos f\u00edsicos, em que h\u00e1 apenas estranhas repeti\u00e7\u00f5es. Dessa maneira, enquanto os cientistas afirmam algo quando na realidade est\u00e3o apenas apostando, atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de observa\u00e7\u00f5es, a s\u00e1bia filosofia do pa\u00eds das fadas expressa a arbitrariedade dos fatos e se abre ao mist\u00e9rio ou ao misticismo.<\/p>\n<p>O misticismo presente nos contos de fadas leva ao realismo, de modo que atrav\u00e9s do mundo das fadas \u00e9 poss\u00edvel enxergar melhor o mundo dos homens. Por meio desses contos, o leitor tem acesso a coisas misteriosas sobre as quais n\u00e3o se sabe a origem e nem o porqu\u00ea. Por exemplo, uma caixa \u00e9 aberta e todos os males saem voando, como no mito da caixa de Pandora. Esses acontecimentos misteriosos causam surpresa e maravilhamento, uma vez que \u00e9 percebendo como as coisas n\u00e3o s\u00e3o que as percebemos como s\u00e3o, como observa Chesterton quando diz: \u201cesses contos nos dizem que as ma\u00e7\u00e3s s\u00e3o douradas unicamente para relembrarem o esquecido momento em que verificamos serem elas verdes\u201d (CHESTERTON, 2013, p. 86). Assim, o leitor se depara com a realidade \u00e0 sua volta, que se tornou trivial e familiar a ponto de n\u00e3o mais maravilhar-se com ela como as crian\u00e7as se maravilham, como sendo algo novo e contingente, al\u00e9m de perceberem que as coisas s\u00e3o como s\u00e3o n\u00e3o por uma necessidade inalter\u00e1vel, mas como que por \u201cm\u00e1gica\u201d, como nos contos de fadas.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia da conting\u00eancia do mundo real \u00e9 fruto da imagina\u00e7\u00e3o que \u00e9 despertada pelos os contos de fadas, o que se contrap\u00f5e \u00e0 vis\u00e3o de cientistas que olham a realidade como sendo mec\u00e2nica, fruto de uma dorm\u00eancia da imagina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 capaz de perceber que as coisas poderiam ser de outra maneira. Por essa raz\u00e3o, Chesterton diz que \u201co homem que fala sobre uma lei que nunca viu \u00e9 que \u00e9 o m\u00edstico. Mais ainda: o homem comum da ci\u00eancia \u00e9, estritamente, um sentimental\u201d (2013, p. 84). Ele exige e espera o efeito que uma determinada causa recorrente traz, dando o nome de lei a uma s\u00e9rie de observa\u00e7\u00f5es sobre alguns efeitos. Mas de modo oposto se comporta o homem do pa\u00eds das fadas, ele \u00e9 racional, uma vez que \u00e9 capaz de imaginar o mundo de outra maneira e maravilhar-se com a realidade em suas estranhas repeti\u00e7\u00f5es (CHESTERTON, 2013).<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica dos contos de fadas \u00e9 o que Chesterton chama de \u201cDoutrina da alegria condicional\u201d, a qual revela que, segundo a moral do pa\u00eds da fadas, a virtude repousa em um<em> se<\/em>, isto \u00e9, toda a felicidade se apoia em alguma condi\u00e7\u00e3o incompreens\u00edvel, a qual precisa ser cumprida para desfrutar-se da felicidade. Essa \u00e9 a quest\u00e3o \u00e9tica do pa\u00eds das fadas, sobre a qual o autor diz:<\/p>\n<p>D\u00ea uma pancada forte em um vidro e ele n\u00e3o durar\u00e1 um instante; n\u00e3o lhe toque e ele durar\u00e1 mil anos. Tal era, segundo me parecia, a alegria humana, quer no Pa\u00eds das Fadas, quer na pr\u00f3pria Terra. A felicidade s\u00f3 dependia de n\u00e3o fazer alguma coisa que em qualquer momento poderia ser feita e, muitas vezes, sem que fosse \u00f3bvia a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o se devia faz\u00ea-la. (CHESTERTON, 2013, p. 90)<\/p>\n<p>Desse modo, h\u00e1 um paralelo e uma semelhan\u00e7a entre a \u00e9tica dos elfos e a dos homens, que tamb\u00e9m se apresenta com a restri\u00e7\u00e3o de algumas coisas para que se possa desfrutar de todo o resto. Essa moralidade dos contos de fadas revela que eles n\u00e3o est\u00e3o longe de leis, mas pelo contr\u00e1rio, v\u00e3o \u00e0 raiz de toda lei (CHESTERTON, 2013).<\/p>\n<p>A vis\u00e3o de G.K. Chesterton sobre os contos de fadas, a qual \u00e9 retratada de modo filos\u00f3fico, revela que uma dorm\u00eancia da faculdade imaginativa produz uma falsa ci\u00eancia, que acredita ter desvendado os mist\u00e9rios do mundo por uma s\u00e9rie de observa\u00e7\u00f5es e recorr\u00eancias, enquanto que fechando-se ao verdadeiro mist\u00e9rio \u2013 \u00e0 possibilidade de ocorrer o inesperado \u2013 gera um determinismo sentimental. Isso revela que o conhecimento sem a imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 verdadeiro conhecimento, pois, ou fica preso aos dados dos sentidos, ou fica preso ao conhecimento do intelecto. Em outras palavras, o conhecimento cient\u00edfico sem imagina\u00e7\u00e3o corre o risco de permanecer no conhecimento da realidade sens\u00edvel, limitando-se aos efeitos vis\u00edveis e aparentemente mec\u00e2nicos do mundo. Ou corre o risco de limitar-se no campo do formalismo conceitual, sem liga\u00e7\u00e3o com a realidade da experi\u00eancia. Somente quando a imagina\u00e7\u00e3o mediadora atua no processo de elabora\u00e7\u00e3o do conhecimento \u00e9 que se chega \u00e0 ess\u00eancia das coisas.<\/p>\n<p>Os contos de fadas, amplamente defendidos por Chesterton, n\u00e3o ferem a l\u00f3gica, como j\u00e1 evidenciado pelo escritor. Uma vez que encaixam-se no discurso po\u00e9tico, envolvem o que \u00e9 poss\u00edvel, mesmo que possa ser inveross\u00edmil. Dirigindo-se \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, esses contos que fazem parte do \u201censolarado pa\u00eds do bom senso\u201d apresentam-se como parte integrante do processo educativo, na medida em que operam no n\u00edvel po\u00e9tico, o qual est\u00e1 na base do conhecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>4.2. J.R.R. Tolkien e os efeitos dos contos de fadas<\/strong><\/p>\n<p>John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), al\u00e9m de ser escritor de hist\u00f3rias fant\u00e1sticas, escreveu o ensaio \u201cSobre contos de fadas\u201d, publicado mais recentemente na obra <strong>\u00c1rvore e folha<\/strong>. Nesse ensaio, Tolkien responde o que s\u00e3o contos de fadas, sua origem, seus efeitos e sua utilidade.<\/p>\n<p>Enquanto fil\u00f3logo, o autor investigou a origem das palavras para estabelecer sua defini\u00e7\u00e3o de contos de fadas. Para ele, um conto de fadas n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria que fala sobre fadas (<em>fairy<\/em>), aquela esp\u00e9cie particular entre os seres fant\u00e1sticos, mas um conto sobre o reino encantado (<em>faerie<\/em>). Assim, um conto de fadas pode abranger n\u00e3o somente fadas como tamb\u00e9m elfos, an\u00f5es, bruxas, drag\u00f5es, gigantes, entre outros. Desse modo, Tolkien define um conto de fadas como \u201c[&#8230;] aquele que toca ou usa o Reino Encantado, qualquer que seja seu prop\u00f3sito principal, s\u00e1tira, aventura, moralidade, fantasia\u201d (TOLKIEN, 2017, p. 10). Desse modo, o autor n\u00e3o coloca todos os contos de fadas em um \u00fanico modelo, admitindo que h\u00e1 muitas varia\u00e7\u00f5es e particularidades entre eles.<\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica fundamental e comum a todos os contos de fadas \u00e9 que ele seja apresentado como verdadeiro, ou seja, que aquilo que se passa na hist\u00f3ria seja real para os personagens e que, de certo modo, tamb\u00e9m para aquele que o l\u00ea. Essa capacidade de cren\u00e7a liter\u00e1ria \u00e9 conhecida como \u201csuspens\u00e3o volunt\u00e1ria da incredulidade\u201d, o que para Tolkien pode ser explicado como o sucesso de um <em>subcriador<\/em>.<\/p>\n<p>Subcria\u00e7\u00e3o \u00e9 a arte do ser humano de criar, um reflexo da arte do Criador Prim\u00e1rio. Ou seja, o subcriador \u00e9 capaz de criar um mundo secund\u00e1rio que se difere do mundo prim\u00e1rio no qual vivemos. Por isso, um bom subcriador \u00e9 aquele que faz um mundo secund\u00e1rio em que relata a verdade segundo as leis daquele mundo e no qual a mente humana pode entrar e acreditar. Esse estado de <em>acreditar<\/em> \u00e9 o da \u201ccren\u00e7a secund\u00e1ria\u201d, genu\u00edna e aut\u00eantica, com \u201cconsist\u00eancia interna da realidade\u201d, que n\u00e3o requer a suspens\u00e3o da incredulidade, uma vez que \u00e9 o autor que dirige o leitor a cren\u00e7a ao seu mundo subcriado (TOLKIEN, 2017).<\/p>\n<p>Os contos de fadas, como um todo, t\u00eam tr\u00eas faces: \u201ca M\u00edstica, voltada para o sobrenatural; a M\u00e1gica, voltada para a natureza; e o Espelho de desd\u00e9m e compaix\u00e3o, voltado para o Homem\u201d (TOLKIEN, 2017, p. 25). Todavia, destaca-se a da M\u00e1gica como mais essencial \u00e0s hist\u00f3rias de fadas.<\/p>\n<p>Os contos de fadas possuem quatro fun\u00e7\u00f5es e, portanto, oferecem quatro coisas, s\u00e3o elas: fantasia, recupera\u00e7\u00e3o, escape e consolo. Uma qualidade essencial aos contos de fadas \u00e9 o que Tolkien chama de <em>fantasia<\/em>, a arte subcriativa que prov\u00e9m da imagina\u00e7\u00e3o e que causa estranheza e maravilhamento, j\u00e1 que a fantasia proporciona imagens que n\u00e3o est\u00e3o presentes na realidade factual, sendo dessemelhantes do Mundo Prim\u00e1rio.<\/p>\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o consiste em retomar uma vis\u00e3o clara das coisas, como disse Tolkien: \u201cn\u00e3o digo \u2018ver as coisas como elas s\u00e3o\u2019, pois assim me envolveria com os fil\u00f3sofos, mas posso arriscar-me a dizer \u2018ver as coisas como devemos (ou dever\u00edamos) v\u00ea-las\u2019 \u2013 como coisas separadas se n\u00f3s\u201d (TOLKIEN, 2017, p. 56). Consiste em clarificar nossa vis\u00e3o, retirando a opaca trivialidade e excessiva familiaridade que tornam as coisas sem o brilho que possu\u00edam quando as v\u00edamos pela primeira vez. Os contos de fadas podem oferecer essa recupera\u00e7\u00e3o com seu poder subcriador, possibilitando a liberta\u00e7\u00e3o das coisas trancadas como p\u00e1ssaros em gaiola, de modo a percebermos de um novo \u00e2ngulo aquelas coisas que se tornaram triviais.<\/p>\n<p>Em sua obra, Tolkien estabelece uma distin\u00e7\u00e3o entre <em>escape<\/em> e <em>escapismo<\/em>, afirmando que os contos de fadas oferecem o escape no sentido de ultrapassar o ordin\u00e1rio e cotidiano. Nesse sentido, quando um leitor adentra no mundo secund\u00e1rio de uma hist\u00f3ria de fantasia, h\u00e1 satisfa\u00e7\u00e3o e<em> consolo<\/em>.&nbsp; De modo particular, nos contos de fadas, esse consolo se apresenta como o <em>Consolo do Final Feliz, <\/em>chamado tamb\u00e9m de <em>Eucat\u00e1strofe<\/em>, que pode ser traduzido como a mudan\u00e7a positiva e repentina de alguma situa\u00e7\u00e3o no final da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o de J.R.R. Tolkien sobre os contos de fadas, a qual condiz em muitos aspectos com a de Chesterton, revela que esses frutos da subcria\u00e7\u00e3o oferecem a oportunidade para vermos as coisas como dever\u00edamos v\u00ea-las. Como esses contos trazem o que n\u00e3o \u00e9 recorrente, mas o que \u00e9 m\u00e1gico e fant\u00e1stico, podemos enxergar \u00e0s coisas que est\u00e3o ao nosso redor de modo mais claro, ou seja, o que se tornou trivial se torna l\u00facido. Por isso, as hist\u00f3rias de fadas oportunizam ultrapassar uma vis\u00e3o determinista e mec\u00e2nica da realidade, para v\u00ea-la em sua conting\u00eancia. Por operar no n\u00edvel po\u00e9tico \u00e9 que \u00e9 essas hist\u00f3rias tem sua import\u00e2ncia no processo educativo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>4.3. C.S. Lewis e a fantasia liter\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Clive Staples Lewis (1898-1963), que tamb\u00e9m escreveu hist\u00f3rias fant\u00e1sticas, como <strong>As cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/strong>, quando era um ateu convicto perguntava-se como homens t\u00e3o inteligentes como S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, George MacDonald, Dante Alighieri e G.K. Chesterton podiam acreditar no \u201cconto de fadas religioso\u201d, referindo-se ao cristianismo. No entanto, em uma conversa com J.R.R. Tolkien, Lewis acabou reconhecendo a natureza dos mitos e dos contos de fadas, n\u00e3o como mentiras, mas verdades parciais. Dessa conversa, ele saiu um te\u00edsta e foi o in\u00edcio de sua convers\u00e3o ao cristianismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o somente se tornou Lewis um crist\u00e3o, como tamb\u00e9m um defensor dos contos de fadas, em oposi\u00e7\u00e3o a tudo o que acreditava antes. Em conformidade com a vis\u00e3o de Tolkien e Chesterton, ele defende que o pa\u00eds das fadas n\u00e3o \u00e9 prejudical, referindo-se sobretudo \u00e0s crian\u00e7as, quando diz:<\/p>\n<p>O conto de fadas \u00e9 acusado de dar \u00e0s crian\u00e7as uma falsa impress\u00e3o do mundo em que vivem. Na minha opini\u00e3o, por\u00e9m, nenhum outro tipo de literatura que as crian\u00e7as poderiam ler lhes daria uma impress\u00e3o t\u00e3o verdadeira. As hist\u00f3rias infantis que se pretendem \u201crealistas\u201d tendem muito mais a enganar as crian\u00e7as. Quanto a mim, nunca achei que o mundo real pudesse ser igual aos contos de fadas. Acho que eu esperava que escola fosse igual \u00e0s hist\u00f3rias da escola. As fantasias n\u00e3o me enganavam, as hist\u00f3rias de escola, sim. (2009, p. 746)<\/p>\n<p>Em contraposi\u00e7\u00e3o aos defensores do \u201crealismo\u201d das hist\u00f3rias, Lewis afirma que os leitores de contos de fadas n\u00e3o confundem a arte com a vida. Enquanto leem uma hist\u00f3ria, podem se colocar no lugar do personagem, mas sem aceitar ou rejeitar seu ponto de vista. Podem suspender, quando necess\u00e1rio, sua descren\u00e7a e sua cren\u00e7a, mas n\u00e3o s\u00e3o enganadas quanto ao que \u00e9 real (LEWIS, 2019).<\/p>\n<p>A fantasia liter\u00e1ria, definida por Lewis como \u201cqualquer narrativa que lida como o imposs\u00edvel e o sobrenatural\u201d (2019, p. 60), que \u00e9 uma atividade realizada de maneira moderada, se difere de uma fantasia ego\u00edsta, em que aquele que imagina quer desfrutar de prazeres, honras e triunfos. Estes \u00faltimos, definidos como os \u201cn\u00e3o-literatos\u201d, n\u00e3o conseguem desfrutar dos contos de fadas por exemplo, pois n\u00e3o enxergam nenhum benef\u00edcio em ler sobre coisas que nunca aconteceram de verdade. Embora eles n\u00e3o confundam as hist\u00f3rias dos livros que gostam com a realidade, eles querem sentir que poderia acontecer aquilo que leem. O leitor sabe que o seu sonho, projetado de alguma forma na hist\u00f3ria que l\u00ea, n\u00e3o aconteceu. No entanto, exige que pelo menos seja realiz\u00e1vel. E por essa raz\u00e3o, quando se depara com os contos de fadas e a fantasia, v\u00ea que n\u00e3o h\u00e1 a menor possibilidade de as coisas descritas acontecerem com ele no mundo real, e v\u00ea essas hist\u00f3rias como sem sentido.<\/p>\n<p>Esses leitores querem ser enganados pelo menos por alguns instantes e precisam de uma plausibilidade das hist\u00f3rias com a realidade, desse modo, \u201cquanto mais a leitura de algu\u00e9m \u00e9 uma forma de constru\u00e7\u00e3o ego\u00edsta de castelos, mais exigir\u00e1 certo realismo superficial e menos gostar\u00e1 do fant\u00e1stico\u201d (LEWIS, 2019, p. 67). Esse realismo \u00e9 apenas de conte\u00fado, pois trata-se de algo prov\u00e1vel \u00e0 vida, diferentemente da fantasia, dos contos de fadas, que n\u00e3o est\u00e3o preocupados em mostrar o que aconteceu ou poderia acontecer na realidade, mas que prop\u00f5e o leitor imaginar as consequ\u00eancias de algum acontecimento fant\u00e1stico.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que, por alegoria ou de algum modo simb\u00f3lico, os contos de fadas n\u00e3o apontem para aquilo que acontece, uma vez que a fun\u00e7\u00e3o da arte po\u00e9tica \u00e9 evidenciar aquilo que acontece sempre. No entanto, os contos de fadas satisfazem um anseio diferente em seus leitores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quelas hist\u00f3rias realistas, que satisfazem imaginariamente seus leitores ao proporcionar a fuga de decep\u00e7\u00f5es do mundo real. O anseio pelo pa\u00eds das fadas \u00e9 diferente, pois, como questiona Lewis: \u201cser\u00e1 que algu\u00e9m sup\u00f5e que ele, de fato e prosaicamente, anseia pelos perigos e desconfortos de um conto de fadas? \u2013 que seu desejo \u00e9 de fato que houvesse drag\u00f5es na Inglaterra contempor\u00e2nea?\u201d (2009, p. 747). A leitura desses contos desperta o anseio por algo que o leitor n\u00e3o identifica muito bem; comove-o e perturba-o, e acrescenta uma nova dimens\u00e3o de profundidade ao mundo exterior. \u201cO menino n\u00e3o despreza as florestas de verdade por ter lido sobre florestas encantadas: a leitura torna todas as florestas de verdade um pouco encantadas\u201d (LEWIS, 2009, p. 747). Ou seja, os contos de fadas, como j\u00e1 afirmavam Tolkien e Chesterton, trazem recupera\u00e7\u00e3o e maravilhamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>A partir do problema levantado e do que foi exposto nesta presente pesquisa bibliogr\u00e1fica, conclui-se que a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma faculdade da mente humana indispens\u00e1vel para o processo de aprendizagem, sendo ela mesma a mediadora entre a experi\u00eancia e a raz\u00e3o. Estando na base de todo o conhecimento, colabora com esse processo na medida que vai formando o imagin\u00e1rio com um repert\u00f3rio de imagens, as quais influenciam o processo cognitivo de conhecimento e aprendizagem. A literatura, capaz de enriquecer a imagina\u00e7\u00e3o e proporcionar um contato com a experi\u00eancia humana, naquilo que Arist\u00f3teles chamou de <em>evento humano t\u00edpico ou universal<\/em>, proporciona enriquecedora experi\u00eancia imaginativa. Capaz de inserir o indiv\u00edduo no patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, cultural e moral da humanidade, situa-se como parte integrante da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os contos de fadas, parte da literatura que comp\u00f5e as narrativas fant\u00e1sticas que sempre existiram na humanidade, s\u00e3o hist\u00f3rias capazes de impactar profundamente sobre o imagin\u00e1rio e desenvolver a imagina\u00e7\u00e3o. Essas hist\u00f3rias, convictamente defendidas por G.K. Chesterton, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis, potencializam a faculdade imaginativa que forma a base de todo conhecimento. O motivo de essas hist\u00f3rias de fadas possu\u00edrem um papel de relev\u00e2ncia e destaque no vasto ramo da literatura foi exposto ao apresentar o pensamento desses autores, que manifestaram ser esses contos fant\u00e1sticos um modo de ver as coisas como realmente s\u00e3o, isto \u00e9, afinal, um modo de conhecer.<\/p>\n<p>Desse modo, como foi poss\u00edvel compreender a partir da perspectiva aristot\u00e9lica, o discurso po\u00e9tico est\u00e1 na base do conhecimento, j\u00e1 que trabalha com a imagina\u00e7\u00e3o, e por consequ\u00eancia, com possibilidades. \u00c9 por meio dessa faculdade que o ser humano \u00e9 capaz de chegar ao n\u00edvel da l\u00f3gica e da demonstra\u00e7\u00e3o racional. Por essa raz\u00e3o \u00e9 que, sem uma imagina\u00e7\u00e3o bem desenvolvida, o processo educativo torna-se dif\u00edcil ou at\u00e9 mesmo imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Uma vez que a imagina\u00e7\u00e3o possibilita o pensar, uma educa\u00e7\u00e3o que tem como prop\u00f3sito e fim \u00faltimo a liberdade, somente alcan\u00e7ara seu objetivo perpassando esse caminho, ou seja, seguindo a via do aprender imaginativo. A literatura \u00e9 a base de toda a educa\u00e7\u00e3o porque o conhecimento imaginativo \u00e9 a base de todo o conhecimento. Portanto, a educa\u00e7\u00e3o que tem como parte integrante a literatura, de modo especial os contos de fadas, propicia uma aut\u00eantica forma\u00e7\u00e3o do ser humano nos princ\u00edpios da educa\u00e7\u00e3o liberal, isto \u00e9, dotando-o com as armas do conhecimento que o faz verdadeiramente livre. Destarte, a atividade imaginativa \u00e9 o princ\u00edpio de toda educa\u00e7\u00e3o, em que o aprender imaginativo \u00e9 a via para o aprimoramento da intelig\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>AQUINO, Tomas de. <strong>Suma Teol\u00f3gica<\/strong>. v. 1. S\u00e3o Paulo: Loyola. 2\u00aaed. 2003. 704 p.<\/p>\n<p>ARIST\u00d3TELES; HOR\u00c1CIO; LONGINO. <strong>A po\u00e9tica cl\u00e1ssica<\/strong>. 12. ed. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2005. 114 p.<\/p>\n<p>ARIST\u00d3TELES. <strong>Sobre a alma<\/strong>. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da moeda, 2010. 152 p.<\/p>\n<p>ARIT\u00d3TELES. <strong>Metaf\u00edsica<\/strong>. 2. ed. 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E-mail: gla@unesc.net<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE \u2013 UNESC CURSO DE PEDAGOGIA &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; BEATRIZ TEIXEIRA BACK &nbsp; &nbsp; EDUCA\u00c7\u00c3O PELA VIA DA IMAGINA\u00c7\u00c3O: OS CONTOS DE FADAS COMO PILAR DO APRENDER IMAGINATIVO NA PERSPECTIVA DE G.K. CHESTERTON, J.R.R. TOLKIEN E C.S. 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