{"id":1036,"date":"2019-06-07T18:02:00","date_gmt":"2019-06-07T21:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/?p=1036"},"modified":"2019-06-07T18:02:00","modified_gmt":"2019-06-07T21:02:00","slug":"um-olhar-sobre-o-mundo-magico-de-lewis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2019\/06\/07\/um-olhar-sobre-o-mundo-magico-de-lewis\/","title":{"rendered":"Um olhar sobre o Mundo M\u00e1gico de Lewis"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">por <span class=\"qu\" tabindex=\"-1\" role=\"gridcell\"><span class=\"gD\" data-hovercard-id=\"jrchavesespanhol@gmail.com\" data-hovercard-owner-id=\"26\">Carlos Alberto Chaves P. Junior<\/span><\/span><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>C.S. Lewis foi um dos autores mais frut\u00edferos da l\u00edngua inglesa. Um homem devotado \u00e0 literatura com o mesmo grau de paix\u00e3o que dedicava \u00e0 sua vida religiosa. Muitos dos trabalhos de Lewis, especialmente <em>As<\/em> <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em> e <em>Cartas de um diabo a seu aprendiz<\/em>, revelam que os escritos dele n\u00e3o podem ser interpretados apropriadamente sem se ter em mente a teologia protestante que permeava a mente deste escritor e, claramente, sem entender que a literatura, para este autor, era a maneira mais adequada de se comunicar com o p\u00fablico infantil. O mundo fant\u00e1stico, cheio de imagens aleg\u00f3ricas e paisagens pitorescas, era um palco onde a moral poderia se apresentar ao p\u00fablico sem trajar vestes de arrog\u00e2ncia ou presun\u00e7\u00e3o. Lewis considerava que \u201cas hist\u00f3rias que pretendem ser \u201crealistas\u201d tendem muito mais a enganar as crian\u00e7as\u201d e, quanto ao uso de imagens, ele afirmava: \u201cdeixe que as imagens lhe contem a moral delas, pois sua moral intr\u00ednseca nasce naturalmente\u201d.<\/p>\n<p>Um dos pontos em que muitos desenvolvem uma cr\u00edtica negativa \u00e0s obras de C. S. Lewis, especialmente \u00e0s Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia, \u00e9 de observar que elas n\u00e3o se encaixam dentro de uma classifica\u00e7\u00e3o et\u00e1ria, o que as torna pass\u00edveis de serem lidas por crian\u00e7as e adultos. Por isso, podem tornar-se sombrias demais para jovens leitores e muito simplistas para mentes mais versadas na arte da interpreta\u00e7\u00e3o. Conv\u00e9m citar Lewis mais uma vez, pois ele afirmava que \u201c&#8230; a classifica\u00e7\u00e3o r\u00edgida dos livros segundo faixas et\u00e1rias, t\u00e3o cara a nossos editores, tem uma rela\u00e7\u00e3o muito vaga com o h\u00e1bito dos leitores reais\u201d e que \u201c\u00a0 &#8230; como regra, hist\u00f3rias que somente crian\u00e7as gostam s\u00e3o hist\u00f3rias ruins\u201d. As interpreta\u00e7\u00f5es e leituras que se pode ter de uma mesma hist\u00f3ria variam, as tornando mais ricas.<\/p>\n<p>Sem uma an\u00e1lise biogr\u00e1fica do autor, muito do seu trabalho torna-se, por vezes, dif\u00edcil de ser entendido, notavelmente para a cr\u00edtica textual, e, por tal fato, este artigo inicia-se com uma an\u00e1lise da vida de C. S. Lewis seguida por uma subdivis\u00e3o em que trataremos, mais especificamente, da intertextualidade das obras de C.S Lewis com a B\u00edblia. As <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em>, propriamente o conto <em>O Le\u00e3o, a feiticeira e o Guarda-Roupa, <\/em>ser\u00e1 nosso texto base.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> C.S Lewis e a cria\u00e7\u00e3o de N\u00e1rnia.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>C.S Lewis \u00e9 uma personalidade liter\u00e1ria bastante admirada e estudada dentro da literatura, cr\u00edtica liter\u00e1ria, como tamb\u00e9m da teologia. Ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas, sua obra liter\u00e1ria tem sido lida por diferentes gera\u00e7\u00f5es, tendo servido como inspira\u00e7\u00e3o e guia para muitos outros autores que surgiriam d\u00e9cadas depois. \u00a0Neste contexto, podemos citar a cultuada autora da s\u00e9rie de livros sobre o jovem bruxo Harry Potter como um exemplo n\u00edtido dessa inspira\u00e7\u00e3o. Rowling disse que era f\u00e3 das obras de C. S Lewis quando crian\u00e7a e mencionou a influ\u00eancia das <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em> no trabalho dela: &#8220;Eu me peguei pensando sobre a rota do guarda-roupa para N\u00e1rnia quando \u00e9 dito para Harry que ele tem que lan\u00e7ar-se em uma barreira na esta\u00e7\u00e3o de Kings Cross &#8211; ela se dissolve e ele est\u00e1 na plataforma nove e tr\u00eas quartos, e h\u00e1 o trem para Hogwarts. &#8221; (Renton, Jennie. &#8220;The story behind the Potter legend: JK Rowling talks about how she created the Harry Potter books and the magic of Harry Potter&#8217;s world,&#8221; Sydney Morning Herald, October 28, 2001. Dispon\u00edvel em\u00a0 http:\/\/www.accio-quote.org\/articles\/2001\/1001-sydney-renton.htm .Acesso em: 27 abril 2014) . J\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra teol\u00f3gica de C. S. Lewis, v\u00ea-se que esta \u00e9 intrigante e consideravelmente complexa, em grande parte devido \u00e0 maneira como foi escrita: em um ingl\u00eas bastante formal com um uso forte de express\u00f5es idiom\u00e1ticas. Todavia, percebe-se \u00a0como a perfei\u00e7\u00e3o era uma busca cont\u00ednua deste autor, como bem ressalta Greggersen:<\/p>\n<p>A parte dif\u00edcil da tradu\u00e7\u00e3o da obra de C. S. Lewis s\u00e3o as palavras refinadas, que mal se encontram em dicion\u00e1rios atuais, suas milhares de cita\u00e7\u00f5es de milhares de autores totalmente desconhecidos para n\u00f3s e que ele conhecia como velhos amigos de col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Seu conhecimento poliglota de l\u00ednguas, entre elas o Ingl\u00eas M\u00e9dio, l\u00edngua mais morta do que o latim, que o tradutor tem que fazer verdadeiros malabarismos para tentar decifrar. Sem falar de cita\u00e7\u00f5es em latim, franc\u00eas, italiano, brit\u00e2nico sax\u00f4nico e grego.<\/p>\n<p>E o que mais: Lewis tamb\u00e9m erra, pelo menos para o nosso gosto: Frases longas, com uso constante do \u201cit\u201d (g\u00eanero inexistente no portugu\u00eas) at\u00e9 se perder de vista a que ele se refere; uso de express\u00f5es idiom\u00e1ticas. Todas essas dificuldades fizeram v\u00e1rios tradutores desistirem da ousadia de traduzir esse autor, principalmente nessas obras. (Greggersen)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sir Clive Staples Lewis ficaria estupefato ao contemplar a forma com a qual sua obra inspirou tantos autores, como tamb\u00e9m vislumbrou uma infinidade de crian\u00e7as e adultos. Nascido em Belfast, maior cidade e capital da Irlanda do Norte e da prov\u00edncia do Ulster, em 29 de novembro de 1898, esse jovem teve um encontro, desde cedo, com as nobres letras, tendo crescido em meio aos livros da seleta biblioteca particular de sua fam\u00edlia. A\u00ed, p\u00f4de expandir sua mente lendo e se familiarizando com um mundo que o fascinaria mais e mais na medida em que crescia. Filho ca\u00e7ula de Albert James e Florence Augusta Lewis, Clive foi descrito como uma &#8220;crian\u00e7a sonhadora&#8221;. Quando tinha tr\u00eas anos, decidiu adotar o nome de &#8220;Jack&#8221;, pelo qual ficaria conhecido na fam\u00edlia e no c\u00edrculo de amigos pr\u00f3ximos durante toda a vida. Tal ado\u00e7\u00e3o mostrava como o universo imagin\u00e1rio de Lewis se expandia e n\u00e3o estava mais t\u00e3o atrelado \u00e0s no\u00e7\u00f5es de real e ficcional.<\/p>\n<p>Quando eram adolescentes, Lewis e seu irm\u00e3o Warren Lewis (1895\u20131973), tr\u00eas anos mais velho que ele, passavam quase todo o seu tempo dentro de casa dedicando-se \u00e0 leitura de livros cl\u00e1ssicos, distantes da realidade materialista e tecnol\u00f3gica do s\u00e9culo XX. Isso explica o quanto Lewis, em suas obras, especialmente Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia, lutaria contra o materialismo e o ceticismo anos mais tarde. Aos 10 anos, em 1908, ocorreu a morte prematura de sua m\u00e3e, fato que causou um forte impacto no jovem que fez com que ele isolasse-se ainda mais da vida comum dos garotos de sua idade, buscando ref\u00fagio no campo de suas hist\u00f3rias e fantasias infantis. Esse falecimento de sua progenitora foi, possivelmente, um dos motivadores do conceito da n\u00e3o exist\u00eancia de DEUS que marcaria sua juventude at\u00e9 o encontro com o cat\u00f3lico J. R. R. Tolkien que, com sua f\u00e9 e intelectualidade, daria uma nova perspectiva ao autor.<\/p>\n<p>Na sua adolesc\u00eancia, encontrou a obra do compositor Richard Wagner e come\u00e7ou a se interessar pelas mitologias n\u00f3rdica e grega, e por l\u00ednguas, como o latim e o hebraico. Podemos admitir que n\u00e3o havia melhor mestre para introduzir o rico e maravilhoso mundo m\u00edtico do que este c\u00e9lebre maestro e compositor alem\u00e3o, cujas obras d\u00e3o nova\u00a0 vida a todo um arcabou\u00e7o de lendas e mitos o que, de certo modo, faria Lewis em seus livros. Mesmo depois de abra\u00e7ar a f\u00e9 crist\u00e3 e se tornar um protestante anglicano, o mundo pag\u00e3o, com suas lendas cheias de deuses imperfeitos, her\u00f3is cativantes e humanos ansiosos por uma imortalidade que nunca teriam, continuou a fascinar a mente do autor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante a Primeira Guerra Mundial, conheceu outro soldado Irland\u00eas, Paddy Moore, com quem teve uma profunda amizade. Os dois fizeram uma promessa: se um deles falecesse durante o conflito, o outro tomaria conta da fam\u00edlia respectiva. Moore faleceu em 1918 e Lewis cumpriu seu compromisso, indo \u00e0 procura da m\u00e3e de seu amigo e tendo com esta uma rela\u00e7\u00e3o de amizade e admira\u00e7\u00e3o, o que se explica facilmente, pois, assim como a senhora Moore perdera o filho, Lewis, jovem, perdera a m\u00e3e. Como nos deixa claro Nicholi:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alguns bi\u00f3grafos especulam que Lewis e a senhora Moore tenham sido amantes, mas as evid\u00eancias testificam em contr\u00e1rio. Em suas cartas, Lewis deixa a sua rela\u00e7\u00e3o de m\u00e3e-filho clara, sem sombra de d\u00favida: \u201cEla \u00e9 a senhora que eu chamo de m\u00e3e e com a qual convivo\u201d; \u201cNa verdade, ela \u00e9 a m\u00e3e de um amigo\u201d; \u201cMinha m\u00e3e sofrida\u201d; \u201cMinha m\u00e3e mais velha\u201d. Depois da morte da Senhora Moore, Lewis continuou a referir-se a ela dessa forma: \u201cHouve uma grande mudan\u00e7a na minha vida em decorr\u00eancia da morte da idosa senhora, a quem eu chamava de m\u00e3e. Ela morreu sem dor aparente, depois de muitos meses de exist\u00eancia semiconsciente, e seria uma hipocrisia dizer que isso nos trouxe muito pesar\u201d.<\/p>\n<p>George Sayer, um aluno e posteriormente um amigo chegado de Lewis, al\u00e9m de bi\u00f3grafo, descreveu \u201co relacionamento de Jack com a Senhora Moore&#8230; como composto por gratid\u00e3o por sua bondade maternal e hospitalidade generosa, por pena dela, por ser m\u00e3e do seu melhor amigo do tempo de guerra, e pelo compromisso de cuidar dela, se o seu amigo Paddy fosse morto\u201d. ( Nicholi. 2005 , p. 35-36)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esta moral intr\u00ednseca de Lewis sobre conceitos como honra e lealdade, evidenciada pelo cumprimento deste compromisso firmado em plena guerra, se refletiriam em muitos de seus trabalhos, como tamb\u00e9m o conceito de perda, restitui\u00e7\u00e3o e mortalidade. Ele afirmou que a guerra coloca diversas mortes mais cedo e que um dos aspectos positivos da guerra \u00e9 que ela nos alerta de nossa mortalidade.<\/p>\n<p>Lewis, nesse momento, ainda permanecia um jovem ateu convicto com uma profunda admira\u00e7\u00e3o pelo trabalho de v\u00e1rios pensadores ate\u00edstas, como Sigmund Freud.<\/p>\n<p>Sigmund Freud e C. S. Lewis possu\u00edam muitos paralelismos e, de fato, o pai da psican\u00e1lise foi um dos pensadores que fascinaram Lewis por muito tempo, mesmo quando este aderiu ao cristianismo. Nicholi nos revela que:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As experi\u00eancias de inf\u00e2ncia de Freud e Lewis revelam um\u00a0 paralelismo consider\u00e1vel. Tanto Freud quanto Lewis, quando meninos, tinham dons intelectuais que permitiam antever o profundo impacto que eles provocariam como adultos. Ambos sofreram perdas significativas nos primeiros anos de vida. Ambos tinham um relacionamento dif\u00edcil, cheio de conflitos com os seus pais. Ambos foram instru\u00eddos desde cedo na f\u00e9 da sua fam\u00edlia e registraram uma aceita\u00e7\u00e3o nominal daquela f\u00e9. Ambos rejeitaram o sistema de f\u00e9 anterior e se tornaram ateus na adolesc\u00eancia. Ambos leram autores que os persuadiram a rejeitar as cren\u00e7as nominais da inf\u00e2ncia. Freud foi fortemente influenciado por Feuerbach e os muitos cientistas que ele estudou quando estudante de medicina e Lewis, pelos seus professores, que lhe davam a impress\u00e3o de que \u201cas ideias religiosas n\u00e3o passavam de ilus\u00e3o&#8230; uma esp\u00e9cie de absurdo end\u00eamico\u201d.( Nicholi , 2005, p.43)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando voltou a Oxford, C. S. Lewis formou-se com louvor em letras e literatura aos 22, em 1920, em Oxford. Nessa mesma cidade, conheceu v\u00e1rios escritores famosos, como J. R. R. Tolkien, autor de O Senhor dos An\u00e9is, de quem viria a se tornar grande amigo e quem, por meio de uma discuss\u00e3o , numa noite em 1931, seria fundamental para sua convers\u00e3o\u00a0 ao cristianismo e para que Lewis se tornasse um autor ainda mais fascinante com obras liter\u00e1rias, de cr\u00edtica liter\u00e1ria e de teologia.<\/p>\n<p>Tolkien investiu por bastante tempo no jovem amigo e, de certo modo, ficou desapontado com a ida do amigo para o protestantismo anglicano, embora deva-se ressaltar que a amizade de ambos foi marcada por uma grande admira\u00e7\u00e3o. Mesmo quando as diferentes perspectivas sobre a teologia e a vida crist\u00e3 afetaram um pouco a amizade deles, os dois continuaram inspirando um ao outro, tendo Lewis sido uma motiva\u00e7\u00e3o para Tolkien escrever seu c\u00e9lebre livro <em>O Senhor do An\u00e9is :<\/em><\/p>\n<p>O Lewis, praticamente, foi o \u00fanico que teve acesso ao manuscrito do \u2018Senhor dos An\u00e9is\u2019. A amizade foi bastante profunda. \u201cLewis apreciava bastante a mitologia n\u00f3rdica e o gosto por esse tipo de literatura foi o que aproximou Tolkien no come\u00e7o\u201d, conta a pedagoga Gabriele Greggersen, especialista em C.S. Lewis, e autora de livros como: \u201cAntropologia Filos\u00f3fica de C.S. Lewis\u201d, \u201cA Pedagogia Crist\u00e3 na Obra de C.S. Lewis\u201d, \u201cO Senhor dos An\u00e9is: da imagina\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9tica\u201d e \u201cA Magia das Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia. (De Castro).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Chamado &#8220;ap\u00f3stolo dos c\u00e9ticos&#8221;, sendo assim conhecido principalmente nos Estados Unidos, Lewis notabilizou-se por uma intelig\u00eancia privilegiada e uma escrita cativante, um estilo espirituoso, imaginativo e estimulante. &#8220;O Regresso do Peregrino&#8221;, publicado em 1933, &#8220;O Problema do Sofrimento&#8221; (1940), &#8220;Milagres&#8221; (1947), e &#8220;Cartas de um diabo ao seu aprendiz&#8221; (1942), s\u00e3o provavelmente suas obras mais conhecidas por crist\u00e3os do mundo todo. O renomado evangelista Billy Graham teve o prazer de conhecer Lewis e, desde o encontro, sempre que era questionado sobre Lewis, ele afirmava ser este uma mente fascinante.<\/p>\n<p>Lewis escreveu tamb\u00e9m uma trilogia de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfico-religiosa conhecida como a &#8220;Trilogia Espacial&#8221;: &#8220;Al\u00e9m do Planeta Silencioso&#8221; (1938), &#8220;Perelandra&#8221; (1943), e &#8220;Aquela For\u00e7a Medonha&#8221; (1945). Para crian\u00e7as, escreveu uma s\u00e9rie de f\u00e1bulas, come\u00e7ando com &#8220;O Le\u00e3o, a Feiticeira e o Guarda-Roupa\u201d, conto que \u00e9 nosso texto de an\u00e1lise, em 1950, o que resultou no livro As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia. Sua autobiografia, &#8220;Surpreendido pela Alegria&#8221;, foi publicada em 1955.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>2. A constru\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o em C.S Lewis<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2.1 A quest\u00e3o da alegoria<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lewis foi um grande intelectual que, sem d\u00favida, marcou seu tempo e inspirou uma gera\u00e7\u00e3o de autores vindouros. Todavia, As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia sempre foram alvo de discord\u00e2ncia entre diferentes cr\u00edticos pelo fato de que alguns compreendem a s\u00e9rie de contos como uma alegoria enquanto outros, n\u00e3o. Estes preferem evitar a simplicidade de entender o livro como uma alegoria b\u00edblica, baseando-se especialmente em afirma\u00e7\u00f5es feitas pelo pr\u00f3prio Lewis, que, veementemente, negava ter escrito os contos como uma alegoria. J.R.R Tolkien foi um dos pensadores not\u00e1veis que entendia o mundo de N\u00e1rnia como uma alegoria e, por ser um \u00e1rduo cr\u00edtico desse tipo de recurso estil\u00edstico, n\u00e3o creditou ao primeiro conto de Lewis, O Le\u00e3o, a Feiticeira e o Guarda-roupa,\u00a0 grande valor liter\u00e1rio:<\/p>\n<p>Tolkien n\u00e3o gostava de alegoria t\u00e3o intensamente porque ele sentia que era demasiado did\u00e1tico. N\u00e3o deixa possibilidade para que existam outros n\u00edveis de sentido no trabalho. Tolkien percebia o artista, criado \u00e0 imagem de Deus, como sendo um \u201csub-criador\u201d \u2013 produzindo um trabalho de imagina\u00e7\u00e3o que funcionava melhor quando seguia a pr\u00f3pria complexa a\u00e7\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o de Deus. Para fazer isso com mais sucesso, um mundo alternativo completo teve que ser criado em que a obra da reden\u00e7\u00e3o poderia ser jogada dentro das suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es consistentes e l\u00f3gicas. N\u00e3o era suficiente criar um mundo com apontamentos simb\u00f3licos a Jesus Cristo e \u00e0 cruz; esse mundo tinha de ter uma hist\u00f3ria inteira e uma din\u00e2mica interna \u00fanica que pudesse encarnar as verdades universais de uma maneira totalmente refrescante. (Longenecker)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mundo criado por Tolkien em <em>O Senhor dos An\u00e9is <\/em>\u00e9 bem mais complexo e vasto que o de <em>As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia, <\/em>sem d\u00favida, por\u00e9m, vale ressaltar que a vastid\u00e3o de uma obra ou o uso de certo elemento estil\u00edstico por si s\u00f3 n\u00e3o tornam tal escrito mais grandioso que outro. Muitas obras usaram a alegoria como recurso liter\u00e1rio. Algumas das hist\u00f3rias mais populares da literatura s\u00e3o aleg\u00f3ricas. Em <em>A Divina Com\u00e9dia,<\/em> de Dante Alighieri, por exemplo, Dante representa a humanidade que viaja atrav\u00e9s do Inferno, Purgat\u00f3rio e Para\u00edso. J\u00e1 em O Peregrino, de John Bunyan, conceitos como esperan\u00e7a e miseric\u00f3rdia se tornam personagens da vida real em sua saga de um homem (chamado Christian) em busca de salva\u00e7\u00e3o. Assim, tamb\u00e9m, o primeiro livro de Lewis escrito depois de sua convers\u00e3o crist\u00e3 denominava-se <em>O Regresso do Peregrino<\/em>, uma alegoria onde Lewis descreve o seu caminho rumo \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 de modo similar ao realizado por Bunyan. Lewis j\u00e1 havia utilizado a alegoria antes e \u00e9 entend\u00edvel que muitos cr\u00edticos creiam que ele a utilizou mais uma vez <em>em As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia. Entretanto,<\/em> Lewis deixou claro o que havia escrito:<\/p>\n<p>Embora Lewis deixasse claro que As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia n\u00e3o seja uma alegoria, ele n\u00e3o nega que algum simbolismo foi escrito para a s\u00e9rie. Mas, para compreender a sua abordagem, \u00e9 preciso reconhecer que Lewis diferencia alegoria a partir de algo que ele chama suposi\u00e7\u00e3o. Em uma carta de 1959 a uma jovem garota chamada Sophia Storr, ele explica a diferen\u00e7a ( grifo meu):<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o digo. &#8216; Vamos representar Cristo como Aslan . &#8216; Eu digo, &#8216; <strong>Supondo<\/strong> que houve um mundo como N\u00e1rnia, <strong>e supondo<\/strong>, que como o nosso, precisava de reden\u00e7\u00e3o, vamos imaginar que tipo de Encarna\u00e7\u00e3o e Paix\u00e3o e Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo haveria l\u00e1. &#8221;<\/p>\n<p>Alegoria e suposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o dispositivos id\u00eanticos, de acordo com Lewis , porque eles lidam com o que \u00e9 real e o que \u00e9 irreal de forma bastante diferente . Em uma alegoria, as ideias, os conceitos e at\u00e9 mesmo as pessoas que est\u00e3o sendo expressas s\u00e3o verdadeiras, mas os personagens s\u00e3o de faz de conta. Eles sempre se comportam de uma maneira reflexiva dos conceitos subjacentes que eles est\u00e3o representando. Uma suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito diferente; o personagem de fic\u00e7\u00e3o torna-se &#8220;real&#8221; no mundo imagin\u00e1rio, assumindo uma vida pr\u00f3pria e adaptando-se ao mundo de faz-de-conta, se necess\u00e1rio. Se, por exemplo, voc\u00ea aceita a suposi\u00e7\u00e3o de Aslam como verdade, ent\u00e3o Lewis diz: &#8220;Ele realmente tem sido um objeto f\u00edsico em que o mundo como ele era na Palestina, e Sua morte na Mesa de Pedra teria sido um evento f\u00edsico n\u00e3o menos do que a sua morte no Calv\u00e1rio &#8220;(Allegory and Symbolism: Deciphering the Chronicles)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lewis criou sua s\u00e9rie de contos partindo de uma simples ideia: se h\u00e1 outros mundos dimensionalmente paralelos ao nosso, como Cristo se apresentaria neles? Ora, num mundo como N\u00e1rnia, onde animais falam, seres mitol\u00f3gicos vivem e a presen\u00e7a do homem \u00e9 como um mito, uma lenda transmitida por antepassados durante gera\u00e7\u00f5es, claro que, neste mundo, a figura do redentor crist\u00e3o n\u00e3o poderia ser personificada em um homem; a figura do <em>Le\u00e3o<\/em> o representaria melhor, j\u00e1 que concebemos a imagem deste animal como um ser nobre e soberano e, ao longo de nossa hist\u00f3ria, le\u00f5es foram s\u00edmbolos de poder e majestade usados como ins\u00edgnias de reis e estandartes de guerra. O rei da Inglaterra Ricardo I, conhecido como Ricardo Cora\u00e7\u00e3o de Le\u00e3o entre s\u00faditos e inimigos, devido \u00e0 sua fama de grande guerreiro e estrategista militar \u00e9 uma evid\u00eancia de como atribu\u00edmos tanto poder \u00e0 imagem do le\u00e3o e como, na cultura ocidental e oriental, tal imagem vincula-se aos adjetivos previamente citados.<\/p>\n<p>Lewis optou pelos contos por crer que suas limita\u00e7\u00f5es refor\u00e7ariam sua criatividade e cuidado com o uso de voc\u00e1bulos. Tolkien optou por um g\u00eanero que o permitisse descrever em min\u00facias o mundo que criara e, da mesma forma, cada um de seus personagens \u00e9 explicado p\u00e1gina ap\u00f3s p\u00e1gina, de acordo com a origem geogr\u00e1fica de cada um, cultura, hist\u00f3ria e, mesmo, de acordo com a l\u00edngua. Lewis viu nos contos de fadas o desafio que buscava como tamb\u00e9m as possibilidades que ansiava como escritor<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas a Forma que exclui essas coisas \u00e9 o conto de fadas. E no momento que pensei sobre isso, eu me apaixonei pela Forma: sua brevidade, suas restri\u00e7\u00f5es severas \u00e0 descri\u00e7\u00e3o, seu tradicionalismo flex\u00edvel, sua hostilidade inflex\u00edvel a toda an\u00e1lise, digress\u00e3o, reflex\u00e3o e \u201cconversa fiada\u201d. Fiquei apaixonada por ela. Suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es de vocabul\u00e1rio tornaram-se uma atra\u00e7\u00e3o, como a dureza da pedra agrada ao escultor ou a dificuldade do soneto deleita aquele que o escreve.<\/p>\n<p>Por esse aspecto, como Autor, escrevi contos de fadas porque o conto de fadas parecia a Forma ideal para as coisas que eu tinha de dizer.<\/p>\n<p>(Lewis, C.S. Sobre Hist\u00f3rias)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ora, como vemos, embora n\u00e3o possamos negar que uma leitura de N\u00e1rnia como uma alegoria seja poss\u00edvel, seria mais coerente entender a sua cria\u00e7\u00e3o como um universo novo com paralelos com a hist\u00f3ria da humanidade e seu pr\u00f3prio redentor espiritual. Se lermos os contos de acordo como a ideia de que s\u00e3o uma suposi\u00e7\u00e3o (Lewis, 1982) podemos ver que, de fato, As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia funcionam como mito. Lewis explica que uma alegoria \u00e9 uma hist\u00f3ria com um sentido \u00fanico, mas um mito \u00e9 uma hist\u00f3ria que pode ter muitos significados para diferentes leitores em diferentes gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um Olhar sobre o mundo m\u00e1gico de Lewis- A intertextualidade b\u00edblica em as cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E ele disse-lhes: A v\u00f3s vos \u00e9 dado saber os mist\u00e9rios do reino de Deus, mas aos que est\u00e3o de fora todas estas coisas se dizem por par\u00e1bolas,<\/p>\n<p>Para que, vendo, vejam, e n\u00e3o percebam; e, ouvindo, ou\u00e7am, e n\u00e3o entendam; para que n\u00e3o se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados.<\/p>\n<p>Marcos 4:11-12<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desde seu lan\u00e7amento, <em>O le\u00e3o, A feiticeira e o Guarda-Roupa <\/em>e, consequentemente , os outros contos, v\u00e1rias an\u00e1lises tem sido realizadas sobre a forte intertextualidade b\u00edblica presente neles. Desejamos deixar claro que, quando um autor faz uso do termo \u201cb\u00edblico\u201d deve-se ter cuidado, pois C. S. Lewis n\u00e3o se atrelou somente aos textos canonizados pela igreja cat\u00f3lica ou protestante, mas buscou em textos n\u00e3o can\u00f4nicos, ap\u00f3crifos, certas ideias e inspira\u00e7\u00f5es; a ideia de a bruxa ser filha de Ad\u00e3o com Lilith \u00e9 um exemplo, pois Lilith se encontra nos textos hebraicos da B\u00edblia, por\u00e9m, esse nome foi retirado de todas as tradu\u00e7\u00f5es b\u00edblicas e representa, segundo a mitologia judaica, a primeira mulher de Ad\u00e3o, que fora expulsa por DEUS por tentar ser superior ao c\u00f4njuge. Exploraremos esse ponto um pouco mais adiante, contudo, fiquemos, por ora, com a parte mais cl\u00e1ssica do estudo da intertextualidade b\u00edblica presente em N\u00e1rnia.<\/p>\n<p>O primeiro ponto a se tratar \u00e9 que, pedagogicamente, <em>Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia <\/em>se assemelha a uma par\u00e1bola. Dentro da B\u00edblia, as par\u00e1bolas eram utilizadas para transmitir conceitos morais e \u00e9ticos de um modo mais atrativo e que alcan\u00e7asse um p\u00fablico bastante heterog\u00eaneo. Um doutor em teologia leria as par\u00e1bolas de JESUS de um modo muito mais complexo do que um analfabeto, todavia, ambos teriam a compreens\u00e3o do princ\u00edpio moral abordado na par\u00e1bola. Lewis trata seus contos como uma maneira de passar ensinamentos morais sem ter que limitar o p\u00fablico ao qual se destinaria. <em>As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/em> segue esse mesmo principio did\u00e1tico. Botelho, muito pontualmente, declara:<\/p>\n<p>Ressaltamos a intertextualidade entre As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia e a B\u00edblia, ou seja, os temas, as figuras, as ideias b\u00edblicas retomadas nas Cr\u00f4nicas s\u00e3o apresentadas de maneira a serem refor\u00e7adas e n\u00e3o contestadas ou questionadas. Alguns temas teol\u00f3gicos pol\u00eamicos, cuja posi\u00e7\u00e3o b\u00edblica n\u00e3o \u00e9 clara, s\u00e3o de fato discutidos, como no caso da elei\u00e7\u00e3o dos justos e do gentio virtuoso.<\/p>\n<p>Temas como a gra\u00e7a e a colabora\u00e7\u00e3o humana est\u00e3o presentes no livro O Le\u00e3o, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. Gra\u00e7a \u00e9 a a\u00e7\u00e3o gratuita de Deus da qual o homem \u00e9 benefici\u00e1rio. Assim como no conto de fadas as coisas acontecem (happen) por acaso \u00e0s personagens, assim tamb\u00e9m a gra\u00e7a divina proporciona uma experi\u00eancia gratuita. (Botelho, 2005)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Da mesma forma que N\u00e1rnia acontece quando n\u00e3o se procura por ela a Gra\u00e7a redentora de DEUS se manifesta de forma semelhante; Gra\u00e7a acontece e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o ou l\u00f3gica que possa explicar o que de fato ela \u00e9 ou como se relaciona com o plano da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Atualmente, quase todos os te\u00f3logos, protestantes ou cat\u00f3licos romanos, concordam quanto \u00e0 premissa fundamental da necessidade da gra\u00e7a para a recupera\u00e7\u00e3o espiritual do homem. A queda do homem no pecado foi por demais radical e profunda para que ele possa retornar sozinho a Deus, para ele<\/p>\n<p>&#8230;voltar \u00e0 vereda espiritual e, finalmente, \u00e0. salva\u00e7\u00e3o. <strong>Onde os te\u00f3logos n\u00e3o encontram terreno comum \u00e9 sobre quanto da vontade humana est\u00e1 envolvida na quest\u00e3o.<\/strong> Alguns mestres falam em monergismo, dando a entender que somente Deus mostra-se ativo como uma for\u00e7a na salva\u00e7\u00e3o do homem, mediante a gra\u00e7a. Mas outros ensinam o sinergismo, dizendo que a vontade do homem \u00e9 uma realidade, podendo responder, positivamente, \u00e0 gra\u00e7a divina, devendo fazer parte daquilo que a gra\u00e7a divina realiza. ( Champlin, 1995, p. 953) ( Grifo meu).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A B\u00edblia refere-se a essa quest\u00e3o relacionando a GRA\u00c7A com a pr\u00f3pria pessoa de Cristo, especialmente nos vers\u00edculos achados nos evangelhos de Lucas, cap\u00edtulo 12, verso 40, onde se l\u00ea: \u201cFicais v\u00f3s tamb\u00e9m apercebidos porque a hora em que n\u00e3o cuidais, o Filho do Homem vir\u00e1.\u201d, em Mateus 24:50, l\u00ea-se \u201cVir\u00e1 o senhor daquele servo em dia que n\u00e3o espera e em hora que n\u00e3o sabe.\u201d (A B\u00cdBLIA SAGRADA, 1993). Comparemos o dito nos vers\u00edculos com o que afirma a pr\u00f3pria obra de Lewis. \u00a0O primeiro livro da s\u00e9rie, <em>O Le\u00e3o, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, <\/em>termina com o seguinte aviso: N\u00e3o tentem seguir o mesmo caminho duas vezes.\u00a0 (2009, p. 166). Da mesma forma, em <em>A Cadeira de<\/em> <em>Prata<\/em>, Aslam deixa claro para Gilda que foi Ele quem a chamou. Botelho explica tal quest\u00e3o:<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, Lewis prop\u00f5e que a reconcilia\u00e7\u00e3o da humanidade com Deus, de N\u00e1rnia com Aslam se d\u00ea por meio da gra\u00e7a em primeiro lugar, por\u00e9m sem desprezar a colabora\u00e7\u00e3o humana que, para tal colabora\u00e7\u00e3o, faz uso de todo conhecimento da ci\u00eancia e da arte que o homem acumulou na Terra. Quanto \u00e0 teologia da reden\u00e7\u00e3o, como bem assinala Gabriele Greggersen, Lewis est\u00e1 de acordo com a linha teol\u00f3gica de Tom\u00e1s de Aquino que afirma a liberdade do agir de Deus. Ambos afirmam a liberdade divina que se contrap\u00f5e a uma teologia racionalista, mas que ao mesmo tempo n\u00e3o \u00e9 arbitr\u00e1ria. O fil\u00f3sofo Joseph (sic) Pieper discorre sobre esse assunto comentando a posi\u00e7\u00e3o equilibrada de Tom\u00e1s de Aquino, cuja afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 de que a liberdade de Deus e suas raz\u00f5es s\u00e3o reservadas a ele mesmo.( Botelho, 2005)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os personagens presentes em Lewis n\u00e3o s\u00e3o perfeitos em car\u00e1ter, o que explica a necessidade que eles t\u00eam de reden\u00e7\u00e3o e perd\u00e3o. Edmundo deveria ser sentenciado \u00e0 morte na mesa de pedra, mas foi poupado por causa do sacrif\u00edcio de Aslam da mesma maneira que CRISTO sacrificou a si mesmo pela humanidade. Embora devamos ser cautelosos com nossas compara\u00e7\u00f5es e seguirmos a ideia de que Aslam foi concebido como uma grande suposi\u00e7\u00e3o e , portanto, tudo que ocorre dentro de N\u00e1rnia se assemelha \u00e0 narrativa b\u00edblica quanto \u00e0s suas quest\u00f5es morais e teol\u00f3gicas mais profundas, podemos, nessa linha, ver que Aslam, em sua decis\u00e3o de se sacrificar no lugar do irm\u00e3o traidor, Edmundo, conecta-se com o sacrif\u00edcio de Cristo, assim, tanto na B\u00edblia como na obra de Lewis, o amor e o perd\u00e3o levam o justo ao sacrif\u00edcio. <em>A magia mais profunda<\/em> ,que \u00e9 mencionada v\u00e1rias vezes por Aslam, possui o t\u00edpico car\u00e1ter misterioso e redentor da Gra\u00e7a. Teologicamente, a lei escrita por DEUS na Torah condena a humanidade \u00e0 morte e destrui\u00e7\u00e3o e somente um sacrif\u00edcio maior e melhor do que o estabelecido na Torah, o qual \u00e9 feito atrav\u00e9s do sangue de novilhos, poderia redimir a humanidade. A magia profunda condena Edmundo \u00e0 morte:<\/p>\n<p>D\u00e9bil mental! \u2013 disse a feiticeira, com um riso de f\u00faria que era quase um grunhido. \u2013 Est\u00e1 t\u00e3o convencido assim de que o seu senhor me pode privar dos meus direitos pela for\u00e7a? Ele conhece bem demais a Magia Profunda para atrever-se a isso. Sabe que, a n\u00e3o ser que eu receba o sangue a que a lei me d\u00e1 direito, toda a terra de N\u00e1rnia ser\u00e1 subvertida e perecer\u00e1 em \u00e1gua e fogo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A lei expressa na Torah, a representa\u00e7\u00e3o maior do Antigo Testamento, n\u00e3o pode ser quebrada, como o pr\u00f3prio Cristo afirma em Mateus 5: 17-18 :<\/p>\n<p>Porque em verdade vos digo: Enquanto n\u00e3o passar o c\u00e9u e a terra, de modo nenhum passar\u00e1 da lei um s\u00f3 i ou um s\u00f3 til, sem que tudo se cumpra.<\/p>\n<p>Aquele, pois, que violar um destes m\u00ednimos mandamentos, e assim ensinar aos homens, ser\u00e1 chamado m\u00ednimo no reino dos c\u00e9us; mas aquele que os observar e ensinar, esse ser\u00e1 chamado grande no reino dos c\u00e9us.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Da mesma maneira, Aslam reconhece que a magia profunda n\u00e3o pode ser quebrada:<\/p>\n<p>\u00c9 verdade! \u2013 disse Aslam. \u2013 N\u00e3o posso neg\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2013 Oh! Aslam! \u2013 sussurrou Susana, ao ouvido do Le\u00e3o. \u2013 N\u00e3o<\/p>\n<p>podemos n\u00f3s&#8230; quer dizer, isto \u00e9, n\u00e3o vai acontecer nada, n\u00e3o \u00e9? N\u00e3o se pode dar um jeito nessa Magia Profunda?<\/p>\n<p>\u2013 Enfrentar o poder m\u00e1gico do Imperador?<\/p>\n<p>Aslam voltou-se para ela, com o rosto ligeiramente carregado. E ningu\u00e9m mais tocou naquele assunto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aslam se oferece no lugar de Edmundo e a atitude da feiticeira mostra que ela acredita ser essa decis\u00e3o uma grande tolice e uma chance de ela dominar N\u00e1rnia de modo definitivo:<\/p>\n<p>Quem venceu, afinal? Louco! Pensava com isso poder redimir a<\/p>\n<p>trai\u00e7\u00e3o da criatura humana?!<\/p>\n<p>Vou mat\u00e1-lo, no lugar do humano, como combinamos, para sossegar a Magia Profunda. Mas, quando estiver morto, poderei mat\u00e1-lo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Quem me impedir\u00e1? Quem poder\u00e1 arranc\u00e1-lo de minhas m\u00e3os?<\/p>\n<p>Compreenda que voc\u00ea me entregou N\u00e1rnia para sempre, que perdeu a pr\u00f3pria vida sem ter salvo a vida da criatura humana. Consciente disso, desespere e morra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aslam morre, todavia <em>uma magia mais profunda,<\/em> concebida muito antes da <em>magia profunda, <\/em>traz Aslam de volta \u00e0 vida:<\/p>\n<p>N\u00e3o! Voc\u00ea est\u00e1 vivo! Oh, Aslam! \u2013 gritou L\u00facia, e as duas meninas<\/p>\n<p>atiraram-se sobre ele com mil beijos.<\/p>\n<p>\u2013 Mas explique tudo isso, por favor \u2013 disse Susana, ao recuperar um<\/p>\n<p>pouco da calma.<\/p>\n<p>\u2013 Explico: a feiticeira pode conhecer a Magia Profunda, mas n\u00e3o<\/p>\n<p>sabe que h\u00e1 outra magia ainda mais profunda. O que ela sabe n\u00e3o vai al\u00e9m da aurora do tempo. Mas, se tivesse sido capaz de ver um pouco mais longe, de penetrar na escurid\u00e3o e no sil\u00eancio que reinam antes da aurora do tempo, teria aprendido outro sortil\u00e9gio. Saberia que, se uma v\u00edtima volunt\u00e1ria, inocente de trai\u00e7\u00e3o, fosse executada no lugar de um traidor, a mesa estalaria e a pr\u00f3pria morte come\u00e7aria a andar para tr\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O paralelo com a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo , segundo a linha tradicional da cristandade, \u00e9 claro, mesmo para um ouvinte dominical de serm\u00f5es e liturgias. Aslam, ao longo da obra, faz alus\u00e3o a outro \u201ceu (JESUS)\u201d que reside no mundo humano e que deveria ser encontrado l\u00e1. O modo como a obra termina com o conto &#8220;A \u00daltima Batalha&#8221;, o apocalipse de N\u00e1rnia, considerando o Sobrinho do Mago como o g\u00eanesis, apresenta o fim de N\u00e1rnia e do mundo humano e atrav\u00e9s de seus personagens vemos lutas que marcam a caminhada crist\u00e3 como a d\u00favida versus a f\u00e9 e o engano versus a verdade transcendental. Lewis apresenta ao leitor uma obra que traz a m\u00edstica da cristandade sem o peso da racionalidade teol\u00f3gica e, talvez, seja este tipo de abordagem que mais necessitamos nos dias de hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bibliografia:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>BOTELHO, Raquel Lima. A Intertextualidade B\u00edblica nas Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia de C.S.Lewis-um panorama. 2005. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Letras) \u2013 Universidade Presbiteriana Mackenzie, S\u00e3o Paulo, 2005. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pt.slideshare.net\/EdilsonAlvesdeSouza1\/intertextualidade-bblic-nas-crnicas-de-nrnia-raquel-lima-botelho\">https:\/\/pt.slideshare.net\/EdilsonAlvesdeSouza1\/intertextualidade-bblic-nas-crnicas-de-nrnia-raquel-lima-botelho<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CHAMPLIN, R. N. e BENTES, J. M. Enciclop\u00e9dia de B\u00edblia, Teologia e. Filosofia. 6 volumes. S\u00e3o Paulo: candeia, 1995.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CHAMPLIN, R. N. e BENTES, J. M. Enciclop\u00e9dia de B\u00edblia, Teologia e. Filosofia. 5 volumes. HAGNOS, 2008.<\/p>\n<p>GREGGERSEN, Gabriele. C. S. Lewis: f\u00e1cil ou dif\u00edcil? Dispon\u00edvel em:. <a href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/conteudo\/c-s-lewis-facil-ou-dificil\">https:\/\/www.ultimato.com.br\/conteudo\/c-s-lewis-facil-ou-dificil<\/a>.\u00a0\u00a0 Acesso em: 31 mar\u00e7o de 2019<\/p>\n<p>GREGGERSEN, Gabriele. Aspectos religiosos na obra \u201cAs Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia: O le\u00e3o, a feiticeira e o guarda-roupa\u201d, de C. S. Lewis. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2014\/12\/29\/aspectos-religiosos-na-obra-as-cronicas-de-narnia-o-leao-a-feiticeira-e-o-guarda-roupa-de-c-s-lewis\/\">http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2014\/12\/29\/aspectos-religiosos-na-obra-as-cronicas-de-narnia-o-leao-a-feiticeira-e-o-guarda-roupa-de-c-s-lewis\/<\/a> Acesso em 30 de Mar\u00e7o de 2019<\/p>\n<p>LEWIS, C.S. As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia: O Le\u00e3o, a Feiticeira e o Guarda-roupa. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Mendes Campos. S\u00e3o Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.<\/p>\n<p>LEWIS, C.S. Tr\u00eas Maneiras de Escrever Para Crian\u00e7as. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/leiturasdiversas.wordpress.com\/2017\/06\/17\/tres-maneiras-de-escrever-para-criancas-c-s-lewis\/\">https:\/\/leiturasdiversas.wordpress.com\/2017\/06\/17\/tres-maneiras-de-escrever-para-criancas-c-s-lewis\/<\/a><\/p>\n<p>LEWIS, C.S. Sobre hist\u00f3rias. Thomas Nelson Brasil, ed: 1\u00aa, 2018.<\/p>\n<p>LEWIS, C.S.Sobre Hist\u00f3rias . Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books?id=DF9oDwAAQBAJ&amp;pg=PT81&amp;lpg=PT81&amp;dq=E,+no+momento+em+que+eu+%5BLewis%5D+pensei+sobre+isso+%5Bo+conto+de+fadas%5D,+eu+me+apaixonei+com+a+forma&amp;source=bl&amp;ots=GoVRMwiHHa&amp;sig=ACfU3U0uqmOeCkewBx745-UJWM_dlf4dcQ&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwiWhtGRqdbiAhXEH7kGHc8DCEUQ6AEwAXoECAkQAQ#v=onepage&amp;q=E%2C%20no%20momento%20em%20que%20eu%20%5BLewis%5D%20pensei%20sobre%20isso%20%5Bo%20conto%20de%20fadas%5D%2C%20eu%20me%20apaixonei%20com%20a%20forma&amp;f=false\">https:\/\/books.google.com.br\/books?id=DF9oDwAAQBAJ&amp;pg=PT81&amp;lpg=PT81&amp;dq=E,+no+momento+em+que+eu+%5BLewis%5D+pensei+sobre+isso+%5Bo+conto+de+fadas%5D,+eu+me+apaixonei+com+a+forma&amp;source=bl&amp;ots=GoVRMwiHHa&amp;sig=ACfU3U0uqmOeCkewBx745-UJWM_dlf4dcQ&amp;hl=pt-BR&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwiWhtGRqdbiAhXEH7kGHc8DCEUQ6AEwAXoECAkQAQ#v=onepage&amp;q=E%2C%20no%20momento%20em%20que%20eu%20%5BLewis%5D%20pensei%20sobre%20isso%20%5Bo%20conto%20de%20fadas%5D%2C%20eu%20me%20apaixonei%20com%20a%20forma&amp;f=false<\/a> \u00a0Acesso em : 06 de junho de 2019<\/p>\n<p>LONGENECKER, Dwight O \u201cN\u00c3O\u201d de Tolkien a N\u00e1rnia. Dispon\u00edvel em:.\u00a0 <a href=\"http:\/\/tolkienbrasil.com\/artigos\/o-nao-de-tolkien-a-narnia-por-padre-dwight-longenecker\/\">http:\/\/tolkienbrasil.com\/artigos\/o-nao-de-tolkien-a-narnia-por-padre-dwight-longenecker\/<\/a> Acesso em: 5 mar\u00e7o 2019<\/p>\n<p>DE CASTRO, Nany. C.S.Lewis: De ateu para ap\u00f3stolo dos c\u00e9ticos. Dispon\u00edvel em : <a href=\"https:\/\/guiame.com.br\/gospel\/mundo-cristao\/cslewis-de-ateu-para-apostolo-dos-ceticos.html\">https:\/\/guiame.com.br\/gospel\/mundo-cristao\/cslewis-de-ateu-para-apostolo-dos-ceticos.html<\/a> Acesso em : 30 de mar\u00e7o de 2019<\/p>\n<p>Allegory and Symbolism: Deciphering the Chronicles. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.narniaweb.com\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/583816_ch06.pdf\">https:\/\/www.narniaweb.com\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/583816_ch06.pdf<\/a> . Acesso em 29 de Mar\u00e7o de 2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Carlos Alberto Chaves P. Junior Introdu\u00e7\u00e3o C.S. Lewis foi um dos autores mais frut\u00edferos da l\u00edngua inglesa. Um homem devotado \u00e0 literatura com o mesmo grau de paix\u00e3o que dedicava \u00e0 sua vida religiosa. 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