{"id":1002,"date":"2018-03-15T17:03:33","date_gmt":"2018-03-15T20:03:33","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/?p=1002"},"modified":"2019-02-27T12:13:59","modified_gmt":"2019-02-27T15:13:59","slug":"um-dinossauro-no-sec-xx-uma-introducao-a-teologia-de-c-s-lewis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/2018\/03\/15\/um-dinossauro-no-sec-xx-uma-introducao-a-teologia-de-c-s-lewis\/","title":{"rendered":"Um Dinossauro no s\u00e9c. XX: Uma Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Teologia de C.S.Lewis."},"content":{"rendered":"<section class=\"section section--body section--first\">\n<div class=\"section-content\">\n<div class=\"section-inner sectionLayout--insetColumn\">\n<figure id=\"2747\" class=\"graf graf--figure graf-after--h3\">\n<div class=\"aspectRatioPlaceholder is-locked\">\n<div class=\"aspectRatioPlaceholder-fill\" style=\"text-align: right;\">&nbsp;por Filipe Galhardo<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">Amante de Literatura, Teologia e Filosofia,<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">editor de Sociedade C.S.Lewis Brasil.<\/div>\n<div class=\"progressiveMedia js-progressiveMedia graf-image is-canvasLoaded is-imageLoaded\" style=\"text-align: right;\" data-image-id=\"1*yCDS796Rq7kRJyYkQGE0Mg.jpeg\" data-width=\"793\" data-height=\"453\" data-action=\"zoom\" data-action-value=\"1*yCDS796Rq7kRJyYkQGE0Mg.jpeg\" data-scroll=\"native\"><canvas class=\"progressiveMedia-canvas js-progressiveMedia-canvas\" width=\"75\" height=\"42\"><\/canvas><img decoding=\"async\" class=\"progressiveMedia-image js-progressiveMedia-image\" src=\"https:\/\/cdn-images-1.medium.com\/max\/1600\/1*yCDS796Rq7kRJyYkQGE0Mg.jpeg\" data-src=\"https:\/\/cdn-images-1.medium.com\/max\/1600\/1*yCDS796Rq7kRJyYkQGE0Mg.jpeg\"><\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<ul class=\"postList\">\n<li id=\"f28d\" class=\"graf graf--li graf-after--figure\">Por Filipe Galhardo Sant\u2019anna.<\/li>\n<\/ul>\n<blockquote id=\"5b22\" class=\"graf graf--blockquote graf--startsWithDoubleQuote graf-after--li\"><p>\u201cUma coisa eu sei: eu daria muito para ouvir qualquer ateniense antigo, mesmo um est\u00fapido, falando sobre a trag\u00e9dia grega.\u201d C.S.Lewis, De Descriptione Temporum \u00b9<\/p><\/blockquote>\n<p id=\"a2f3\" class=\"graf graf--p graf-after--blockquote\">Era uma noite de s\u00e1bado, 19 de setembro de 1931, tr\u00eas professores brit\u00e2nicos, sendo um deles original da Irlanda do Norte, conversam no campus da faculdade de Oxford, onde lecionam. A conversa gira em torno da natureza da met\u00e1fora e do mito, uma conversa muito natural para tr\u00eas professores da \u00e1rea da linguagem, mas acaba terminando sobre o significado da f\u00e9 crist\u00e3. Jack, como era chamado pelos amigos o professor irland\u00eas, acreditava em Deus nessa \u00e9poca e podia mesmo entender Jesus como um mestre da moral, mas nada al\u00e9m disso, tinha muita dificuldade em entender racionalmente algumas das express\u00f5es usadas em refer\u00eancia \u00e0 obra de Cristo. Tolkien e Dyson, os outros dois professores, explicam a Jack que ele precisa olhar para esse evento tanto de forma racional, quanto imaginativa. Tolkien, principalmente, explicou-lhe que &#8220;o problema n\u00e3o estava em sua incapacidade racional de entender a teoria, mas em sua incapacidade imaginativa de compreender o significado dela.&#8221;\u00b2 Para Tolkien, faltava a Jack a mesma abertura imaginativa que ele tinha em rela\u00e7\u00e3o aos mitos pag\u00e3os. A \u00fanica diferen\u00e7a dos mitos pag\u0101os para a f\u00e9 crist\u0101 \u00e9 que os registros sobre a exist\u00eancia de um Deus que havia se tornado homem, na mitologia pag\u0101, era algo que apontava para uma realidade al\u00e9m do pr\u00f3prio mito, enquanto o Novo Testamento registrou a pr\u00f3pria realidade para a qual os mitos pag\u00e3os apontavam.<\/p>\n<p id=\"c537\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">A conversa acabou bem tarde, em um alojamento da Universidade, por volta das 04hs da madrugada. Jack, por fim, j\u00e1 acreditava na hist\u00f3ria de Jesus como um mito verdadeiro. Como ele escreveu mais tarde, &#8220;um mito que atua em n\u00f3s da mesma forma que os outros mitos, mas com essa tremenda diferen\u00e7a, que isso realmente aconteceu.&#8221;\u00b3<\/p>\n<p id=\"33ed\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Essa conversa noturna com J.R.R.Tolkien, que mais tarde veio a se tornar um dos maiores nomes da literatura fant\u00e1stica, foi o ponta p\u00e9 inicial na forma\u00e7\u0101o de uma das mentes teol\u00f3gicas mais brilhantes do s\u00e9c. XX. Apesar de &#8220;Jack&#8221; ser a forma como os seus amigos o tratavam, alguns anos mais tarde o professor irland\u00eas se tornou um dos maiores escritores crist\u0101os do s\u00e9c. XX, mas ficou mais conhecido entre seus leitores pelo seu nome de origem: Clive Stapes Lewis.<\/p>\n<p id=\"60c9\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Nascido em 1898 na cidade de Belfast, atual Irlanda do Norte, C.S.Lewis se tornou, entre as d\u00e9cadas de 30 e 40 do s\u00e9culo XX, uma das maiores autoridades em literatura medieval e renascentista. N\u00e3o obstante, tamb\u00e9m foi uma figura importante no cen\u00e1rio religioso durante a segunda guerra mundial, tornando-se uma das vozes crist\u0101s mais ouvidas na Inglaterra no per\u00edodo de guerra. Apesar de Lewis nunca ter adquirido uma forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, sua vasta obra liter\u00e1ria, cr\u00edtica, apolog\u00e9tica e filos\u00f3fica nos apresentam a cosmovis\u0101o de uma das mentes mais coerentes e equilibradas no cen\u00e1rio teol\u00f3gico da primeira metade do s\u00e9culo XX. Entre evang\u00e9licos e cat\u00f3licos sua influ\u00eancia \u00e9 inesperadamente grande, mesmo entre os mais conservadores \u00e9 poss\u00edvel encontrar um tratamento quase acr\u00edtico de sua obra. Por outro lado, h\u00e1 que se observar uma certa apatia acad\u00eamica em diferentes c\u00edrculos teol\u00f3gicos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra produzida por Lewis. Talvez pela falta de engajamento academicamente s\u00e9rio com essa mat\u00e9ria ou talvez, o que me parece melhor, por n\u00e3o cumprir o requisitos pendantes de alguns de seus cr\u00edticos teol\u00f3gicos que infelizmente, como observou Robert MacSwain, correm um &#8220;grande risco de fecharem-se dentro de uma c\u00e2mara de resson\u00e2ncia muito pequena e autossuficiente, na qual especialistas falam a outros especialistas ao mesmo tempo em que v\u00e3o perdendo contato com o mundo exterior.&#8221; Enquanto isso, argumenta MacSwain, &#8220;Lewis continua a vender milh\u00f5es de livros por ano e a moldar a cren\u00e7a religiosa de milhares de pessoas.&#8221;\u2074<\/p>\n<p id=\"06a5\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Essa introdu\u00e7\u0101o pretende se encontrar exatamente entre o extremo comportamento acr\u00edtico adotado por alguns f\u00e3s e o distanciamento r\u00e1pido e impensado de alguns eruditos teol\u00f3gicos, afim de esclarecer aspectos teol\u00f3gicos de um dos escritores crist\u00e3os mais influentes do \u00faltimo s\u00e9culo. Pois, apesar de Lewis n\u00e3o ter nenhuma forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica confereiu-lhe um ac\u00famulo de informa\u00e7\u00f5es acerca de culturas primitivas que poderia fazer inveja a qualquer grande te\u00f3logo. Em sua aula inaugural em Cambridge, intitulada De Discriptione Temporum, Lewis encerra fazendo alus\u00e3o e apelo \u00e0 sua autoridade \u00e0 pesquisa de primeira m\u00e3o. Ele diz a seus alunos: &#8220;Eu leio como nativo um texto que voc\u00eas devem ler como estrangeiros.&#8221; \u2075<\/p>\n<p id=\"5fa5\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Quero justamente argumentar aqui em favor da sua autoridade acad\u00eamica em literatura medieval, hist\u00f3ria antiga e filosofia cl\u00e1ssica como um elemento decisivo de sua capacidade teol\u00f3gica no que diz respeito \u00e0 compreens\u00e3o dos principais pensadores crist\u00e3os do per\u00edodo medieval, patristico e pr\u00e9-crist\u0101o. Para fazer alus\u00e3o a uma imagem fornecida por ele mesmo, \u00e9 como se ele fosse uma esp\u00e9cie de Dinossauro ou Neanderthal retirado dos tempos long\u00ednquos de S\u00f3crates ou Agostinho, e colocado no centro das discuss\u00f5es do s\u00e9culo XX, \u201ce se o Neanderthal pudesse falar\u201d, disse ele aos seus alunos de Cambridge, \u201cent\u00e3o, embora sua t\u00e9cnica de palestras possa deixar muito a desejar, n\u00e3o dever\u00edamos quase certamente aprender com ele algumas coisas do passado sobre as quais o melhor antrop\u00f3logo moderno nunca poderia ter nos contado?&#8221; \u2076<\/p>\n<p id=\"821e\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Tendo em vista que boa parte dos esfor\u00e7os teol\u00f3gicos do s\u00e9culo XX consistiu em uma aproxima\u00e7\u00e3o da filosofia, teologia e literatura primitiva, acredito que a contribui\u00e7\u00e3o de Lewis seja realmente grande e relevante. Ele lia como nativo aquilo que seus contempor\u00e2neos teol\u00f3gicos liam como estrangeiros. E enquanto a grande maioria dos te\u00f3ricos da primeira metade do s\u00e9culo XX se preocupava em reinterpretar a literatura crist\u0101 primitiva, a guerra se adensava cada vez mais na Europa. Nesse per\u00edodo, a BBC de Londres passou a transmitir pelo r\u00e1dio as palestras de um certo professor de Oxford cuja idade n\u0101o parecia ser t\u00e3o antiga quanto seu discurso e cujos serm\u00f5es, mesmo em meio ao crescente esnobismo-cronol\u00f3gico dentro da teologia, pareciam remontar \u00e0 cosmovis\u0101o medieval e \u00e0 teologia patristica grega\u2077. A \u00f3bvia diferen\u00e7a entre Lewis e o Neanderthal que ele sugere em Discripitione Temporum \u00e9 que Lewis \u00e9 um esp\u00e9cime que sabe manejar bem as modernas t\u00e9cnicas de palestras. Pois o incr\u00edvel paradoxo com que todos os leitores e ouvintes se depararam e ainda se deparam ao olharem para C. S.Lewis \u00e9 o evidente contraste em encontrar-se com um verdadeiro Dinossauro da epistemologia religiosa que conseguiu, inesperadamente, tocar no \u00e2mago intelectual do homem moderno.<\/p>\n<h4 id=\"0218\" class=\"graf graf--h4 graf-after--p\">O contexto teol\u00f3gico.<\/h4>\n<p id=\"ac0d\" class=\"graf graf--p graf-after--h4\">O contexto religioso em que Lewis viveu, na Irlanda do Norte, foi marcado pelo forte protestantismo de Ulster e um conturbado impacto da Orange Order. Mas tarde esse impacto lan\u00e7aria luz em <a href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/o-regresso-do-peregrino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Regresso do Peregrino<\/a>, principalmente na cria\u00e7\u0101o de Puritania, cidade na qual nasceu e foi criado o protagonista do romance. Mas assim como John de O Regresso saiu de sua terra natal e se deparou com diferentes filosofias, C.S.Lewis saiu de Belfast e acabou por encontrar outros conflitos al\u00e9m daqueles entre cat\u00f3licos e protestantes.\u2078<\/p>\n<p id=\"973a\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Quando o ainda jovem Lewis foi aceito no University College de Oxford em 1916, a vasta produ\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica em torno dos novos estudos de cr\u00edtica do Novo Testamento j\u00e1 estavam bem consolidados nas universidades e caindo como uma bomba nos semin\u00e1rios de teologia. Tanto que, um ano antes, em 1915, a ala mais conservadora da teologia norte-americana j\u00e1 havia terminado de publicar uma s\u00e9rie de ensaios teol\u00f3gicos sob o t\u00edtulo The Funtamentals: a Testimony to the Truth [Os Fundamentos: um testemunho da verdade], em forma de rea\u00e7\u00e3o ao liberalismo teol\u00f3gico. Nesse per\u00edodo j\u00e1 havia uma guerra declarada no cen\u00e1rio teol\u00f3gico entre os assim chamados te\u00f3logos liberais e fundamentalistas.<\/p>\n<p id=\"abec\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Parte do pressuposto liberal era de que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 precisava ser revisada \u00e0 luz dos novos estudos do Novo Testamento. Desta forma, essa era o tipo de teologia que partia da premissa de que toda ortodoxia crist\u00e3 constru\u00edda atrav\u00e9s dos s\u00e9culos estava errada, enquanto a nova erudi\u00e7\u00e3o erguida pelo esp\u00edrito da \u00e9poca estava absolutamente certa. Alister McGrath resume bem a posi\u00e7\u0101o da teologia liberal:<\/p>\n<p id=\"6cad\" class=\"graf graf--p graf--startsWithDoubleQuote graf-after--p\">\u201cO movimento, associado inicialmente ao grande te\u00f3logo berlinense F.D.E. Schleiermacher, alcan\u00e7ou seu sucesso mais relevante sob o comando de A.B. Ritschl e Adolf von Harnack. O protestantismo liberal cl\u00e1ssico surgiu em resposta a uma crescente percep\u00e7\u00e3o de que a f\u00e9 e a teologias crist\u00e3s exigiam reconstru\u00e7\u00e3o \u00e0 luz do conhecimento, das atitudes e dos valores modernos. Para usar a linguagem de Niebuhr, os \u201cideais mais excelentes\u201d do s\u00e9culo 19 pareciam muitos distintos daqueles do s\u00e9culo 16.\u201d\u2079<\/p>\n<p id=\"1090\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Quando em 1931 Lewis participa pela primeira vez na vida adulta do of\u00edcio da Santa Comunh\u00e3o na Igreja da Santiss\u00edma Trindade, em Headington, Oxford, a Igreja da Inglaterra j\u00e1 estava consideravelmente dividida entre liberais e fundamentalista, muito embora estes \u00faltimos tenham tido maior predomin\u00e2ncia nos E.U.A. Enquanto o liberalismo teol\u00f3gico seguia o fluxo e as demandas da cultura, sem aparentemente nehum compromisso com a tradi\u00e7\u0101o crist\u00e3, o fundamentalismo se enveredou pelo caminho contr\u00e1rio. Embora seja verdade que muitos te\u00f3logos conservadores assumiram uma postura equilibrada em rela\u00e7\u0101o \u00e0 cultura, como bem definiu Jhon Stott, a palavra \u201cfundamentalismo\u201d tinha uma origem nobre, por\u00e9m, com o tempo, &#8220;tornou-se associada a certos extremos e extravag\u00e2ncias, de modo que agora o &#8220;fundamentalismo&#8221; \u00e9 quase um sin\u00f4nimo de obscurantismo, e geralmente \u00e9 usado como termo de opr\u00f3brio. Parece descrever a rejei\u00e7\u00e3o intoler\u00e1vel de toda cr\u00edtica b\u00edblica, uma vis\u00e3o mec\u00e2nica da inspira\u00e7\u00e3o e uma interpreta\u00e7\u00e3o excessivamente literalista da Escritura.&#8221;\u00b9\u2070<\/p>\n<p id=\"2a39\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Essa primeira batalha entre liberais e fundamentalistas durou at\u00e9 meados de 1945, mais ou menos no mesmo per\u00edodo do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. Dois anos depois, na edi\u00e7\u00e3o de 08 de setembro de 1947, Lewis aparece na capa da revista Time como &#8220;uma das vozes mais influentes do cristianismo em l\u00edngua inglesa&#8221;. Foi nessa \u00e9poca de extremos tanto na Guerra quanto nas universidades e semin\u00e1rios que Lewis escreveu e proferiu a maior parte de seus serm\u00f5es, palestras e livros. Com olhar tanto de um erudito da cr\u00edtica liter\u00e1ria quanto de um pr\u00f3-eficiente historiador intelectual, ele percebeu logo a falta de \u201cfaro liter\u00e1rio\u201d dos liberais e o espirito demasiado r\u00edgido e dogm\u00e1tico de alguns fundamentalistas. Podemos resumir bem a trajet\u00f3ria teol\u00f3gica de Lewis com a m\u00e1xima evidente de <a href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/o-regresso-do-peregrino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Regresso do Peregrino<\/a>: &#8220;nem o Norte e nem o Sul&#8221;.<\/p>\n<p id=\"163b\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Embora muitos o tenham ignorado&nbsp;nessa&nbsp;\u00e9poca, o mundo come\u00e7ava a conhecer o dinossauro de Oxford, como a Time o descreveu: &#8220;um homem de baixa estatura, atarracado, com uma cara rosada e um vozeir\u00e3o&#8221;\u00b9\u00b9<\/p>\n<h4 id=\"ff69\" class=\"graf graf--h4 graf-after--p\">O Mito tornado fato: Uma vis\u0101o alternativa \u00e0 cr\u00edtica b\u00edblica liberal e ao literalismo fundamentalista.<\/h4>\n<p id=\"7f29\" class=\"graf graf--p graf-after--h4\">A prop\u00f3sito, quando Lewis publicou <a href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/o-regresso-do-peregrino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Regresso do Peregrino<\/a> em 1931, o entrave entre liberais e fundamentalistas estava no auge, principalmente pelo crescente aparato cr\u00edtico que vinha recebendo o que hoje n\u00f3s conhecemos como desmitologiza\u00e7\u0101o, que tinha por principal defensor um importante erudito do Novo Testamento, seu nome \u00e9 Rudolf Bultimann.<br \/>\nA premissa b\u00e1sica da tese de Bultimam \u00e9 que no Novo Testamento podia-se encontrar dois elementos diferentes, sendo o primeiro o conte\u00fado original do evangelho ou, como ficou conhecido, o kerigma (translitera\u00e7\u00e3o da palavra grega que significa \u201cconte\u00fado da prega\u00e7\u00e3o\u201d); o segundo elemento \u00e9 tudo que envolve o Kerigma, principalmente a mitologia do s\u00e9culo primeiro, incluindo o misticismo egipicio, a especula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica helenista, bem como o conte\u00fado das religi\u00f5es de mist\u00e9rio e os ritos religiosos romanos.<\/p>\n<p id=\"2bb0\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">O papel da desmitologiza\u00e7\u0101o consistia, grosso modo, desvendar o kerigma dos mitos que o envolviam. Dessa forma, no entanto, muitas doutrinas consideradas essenciais pelos credos crist\u00e3os, como a obra de Cristo na cruz como propicia\u00e7\u0101o pelos pecados, foram relegadas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica, na busca pelo suposto &#8220;evangelho original&#8221;.<br \/>\nQuando Lewis se converteu ao cristianismo, uma das suas primeiras provid\u00eancias foi familiarizar-se com o grego b\u00edblico (koin\u00e9) para ler o Novo Testamento na sua l\u00edngua original. Sua primeira leitura do Evangelho de Jo\u00e3o em grego consistiu em uma experi\u00eancia \u00fanica para Lewis e uma das coisas que ele constatou foi que, de fato, os evangelhos n\u00e3o podiam ser considerados mitol\u00f3gicos, como ele escreveu mais tarde:<\/p>\n<p id=\"c8dc\" class=\"graf graf--p graf--startsWithDoubleQuote graf-after--p\">\u201cComo historiador liter\u00e1rio, estou perfeitamente convencido de que, n\u0101o importa o que mais os evangelhos possam ser, eles n\u0101o s\u0101o lendas. Eu li muitas lendas (mitos) na vida e tenho firme clareza de que n\u00e3o s\u00e3o o mesmo tipo de coisa. Eles n\u0101o s\u0101o suficientemente artistico para ser lendas. De um ponto de vista imaginativo, eles s\u0101o pesados, n\u0101o funcionam\u2026 A maior parte da vida de Jesus \u00e9 totalmente desconhecida para n\u00f3s\u2026 e ningu\u00e9m que estivesse inventando uma lenda permitiria que isso acontecesse.\u201d\u00b9\u00b2<\/p>\n<p id=\"4438\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Para Lewis, os evangelhos registram eventos acontecidos em um determinado momento da hist\u00f3ria, em lugares geograficamente espec\u00edficos e em uma determinada cultura.<br \/>\nSua vis\u0101o de mundo agora era outra e, a despeito da revolu\u00e7\u0101o liberal dentro da teologia, sua experi\u00eancia como historiador e cr\u00edtico liter\u00e1rio lhe conferiram uma vis\u0101o mais acad\u00eamica das ousadas alega\u00e7\u00f5es dos cr\u00edticos b\u00edblicos de sua \u00e9poca que, atrav\u00e9s de novos m\u00e9todos, tentavam desacreditar a velha ortodoxia. Para Lewis faltava faro liter\u00e1rio para a maioria desses te\u00f3logos. Em um ensaio que mais tarde ficou conhecido como Fern-Seed and Elelephants, ele diz em um tom de ironia que lhe \u00e9 muito comum:<\/p>\n<p id=\"01df\" class=\"graf graf--p graf--startsWithDoubleQuote graf-after--p\">\u201cEstes homens me pedem para acreditar que podem ler entre as linhas dos textos antigos, a evid\u00eancia \u00e9 sua \u00f3bvia incapacidade de ler (em qualquer sentido que valha a pena discutir) as pr\u00f3prias linhas. Eles afirmam ver sementes de samambaias, mas n\u0101o conseguem ver um Elefante de dez metros em plena luz do dia.\u201d<\/p>\n<p id=\"986b\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Para Lewis, no entanto, a resposta literalista de alguns te\u00f3logos norte-americanos carecia do mesmo faro liter\u00e1rio. Em carta a uma de suas muitas correspondentes, ele comenta:<\/p>\n<p id=\"ff7e\" class=\"graf graf--p graf--startsWithDoubleQuote graf-after--p\">\u201cMinha posi\u00e7\u0101o n\u0101o \u00e9 fundamentalista, se fundamentalisno significa aceitar, como ponto de f\u00e9 inicial, a proposi\u00e7\u0101o de que \u2018Toda afirma\u00e7\u0101o na B\u00edblia \u00e9 absolutamente verdadeira nos sentidos literal e hist\u00f3rico\u2019. De imediato, isso n\u00e3o funcionaria no caso das par\u00e1bolas. Na mesma medida, todo senso e entendimento geral de g\u00eaneros liter\u00e1rios que proibiria qualquer pessoa de considerar as par\u00e1bolas como afirma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, levados muito pouco al\u00e9m, nos obrigariam a distinguir entre (1.) livros como os de Atos ou o relato do reino de Davi que, por toda parte, formam harmonicamente uma hist\u00f3ria e uma geografia conhecidas, al\u00e9m de genealogias (2.) livros como o de Ester, Jonas ou J\u00f3 que, ao contr\u00e1rio, lidam com personagens desconhecidos que vivem em per\u00edodos n\u0101o especificados, e proclamam, sem rodeios, sua condi\u00e7\u0101o de fic\u00e7\u0101o sagrada.\u201d\u00b9\u00b3<\/p>\n<p id=\"8df5\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00c9 preciso esclarecer, no entanto, apenas em n\u00edvel de introdu\u00e7\u0101o, que quando Lewis diz que algumas hist\u00f3rias do AT s\u0101o mitol\u00f3gicas ele n\u0101o est\u00e1, de forma alguma, se aliando \u00e0 \u201ccr\u00edtica das formas\u201d muito comum aos te\u00f3logos liberais. O conceito que Lewis, assim como Tolkien, d\u00e1 a um mito n\u0101o \u00e9 simplesmente de &#8220;Hist\u00f3ria mal interpretada (como pensava Ev\u00eamero), nem a ilus\u0101o diab\u00f3lica (como acreditavam alguns dos patriarcas), nem mentira sacerdotal (como julgavam os fi\u00f3sofos iluministas), mas, na melhor das hip\u00f3teses, um vislumbre real, embora mais desfocado, da verdade divina que penetra a imagina\u00e7\u0101o humana.\u201d\u00b9\u2074<\/p>\n<p id=\"877c\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">O que torna os mitos do AT absolutamente distintos dos mitos pag\u0101os, pois s\u0101o \u201cA mitologia escolhida por Deus para ser o ve\u00edculo das primeiras verdades sagradas, o primeiro passo num processo que finaliza no Novo Testamento, no qual a verdade se torna completamente hist\u00f3rica.\u201d\u00b9\u2075<\/p>\n<p id=\"d13f\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Esse \u00e9 um ponto central em sua teologia. Em seus tempos de ateu sua principal dificuldade consistia em &#8220;enxergar de que forma, a vida e a morte de Algu\u00e9m (quem quer que fosse), h\u00e1 dois mil anos, poderia nos ajudar aqui e agora.&#8221;\u00b9\u2076 Nesse sentido, Tolkien se tornou uma pe\u00e7a fundamental para &#8220;abrir os olhos do pensamento&#8221; de Lewis, na medida em que o ajudou a entender o significado dos eventos hist\u00f3ricos com a mesma sensibilidade com a qual ele era envolvido pelas mesmas hist\u00f3rias mitol\u00f3gicas que sempre ocuparam um lugar de destaque em suas leituras. Como ele mais tarde relatou a Arthur Greeves,<\/p>\n<p id=\"e5eb\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">&#8220;O que Dyson e Tolkien me mostraram foi isto: se encontrei a ideia de sacrif\u00edcio em uma hist\u00f3ria Pag\u0101, absolutamente n\u00e3o a considerei; de novo, se encontrei a ideia de um deus sacrificando-se, gostei muito dela e fui misteriosamente movido por ela; outra vez, se encontrei a ideia de um deus morrendo e revivendo ( Baldar, Adonis, Baco), de forma semelhante, ela me moveu, pois n\u00e3o a encontrei em parte alguma sen\u00e3o nos Evangelhos. A Raz\u00e3o&#8221;, explica Lewis, &#8220;foi que nas hist\u00f3rias pag\u0101s eu estava preparado para sentir o mito como profundo e sugestivo de significados, al\u00e9m da minha compreens\u00e3o, embora eu n\u00e3o pudesse dizer, em prosa fria, &#8220;o que significava&#8221;. Ora, a hist\u00f3ria de Cristo \u00e9 simplesmente um mito verdadeiro: um mito trabalhando em n\u00f3s, da mesma forma que os outros mitos, por\u00e9m com a tremenda diferen\u00e7a de que ele realmente aconteceu.&#8221;\u00b9\u2077<\/p>\n<p id=\"6c1b\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">A revela\u00e7\u00e3o progressiva &#8211; do mito ao fato &#8211; \u00e9 uma pe\u00e7a fundamental no pensamento teol\u00f3gico de Lewis, principalmente enquanto recurso imaginativo. O leitor que se apropria de forma certa desse recurso torna-se capaz de adentrar imaginativamente em toda a realidade da obra de Cristo. O significado das doutrinas da Expia\u00e7\u00e3o e Justifica\u00e7\u00e3o, por exemplo, ganham vida em sua mente, proporcionando-lhe v\u00ea o mundo atrav\u00e9s da lente das Escrituras Sagradas. Mais do que simplesmente olhar para a B\u00edblia, para Lewis, \u00e9 preciso olhar atrav\u00e9s dela. Essa \u00e9 uma caracter\u00edstica que faltou tanto \u00e0 teologia liberal, quanto aos fundamentalistas. O senso m\u00edtico-po\u00e9tico liberta o leitor das amarras do criticismo e do literalismo, possibilitando uma aproxima\u00e7\u00e3o mais intensa da realidade teol\u00f3gica expressa do Novo Testamento.<\/p>\n<p id=\"f447\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">No entanto, um dos principais problemas dessa compreens\u00e3o mito-po\u00e9tica de Lewis n\u00e3o se encontra em sua compreens\u00e3o da vida e obra de Cristo, que ele considera o mito encarnado, mas em sua abordagem de, como vimos anteriormente, algumas passagens do Antigo Testamento como partes mitol\u00f3gicas (n\u00e3o hist\u00f3ricas) que antecedem ao evento (este sim hist\u00f3rico) da encarna\u00e7\u00e3o de Cristo. Para os cr\u00edticos de Lewis, faltou a essa ideia de revela\u00e7\u0101o progressiva \u2013 do mito \u00e0 hist\u00f3ria \u2013 a mesma solidez de outros argumentos de sua pena, principalmente em sua falta de crit\u00e9rio em selecionar o que, no Antigo Testamento, deve ser considerado n\u00e3o hist\u00f3rico. Por exemplo, em O Problema do Sofrimento, Lewis retrata a hist\u00f3ria da Queda, relatada nos cap\u00edtulos 02\/03 de G\u00eanesis, como n\u00e3o literal &#8211; o mesmo tratamento que ele d\u00e1 aos livros de J\u00f3, Ester e Jonas -mesmo n\u00e3o oferecendo nenhuma, ou muito pouca, base cr\u00edtica para isso. Embora a abordagem mito-po\u00e9tica de Lewis tenha sido uma de suas maiores cartadas, a sua falta de engajamento em fornecer suporte cr\u00edtico em uma abordagem liter\u00e1ria das Escrituras acabou por enfraquecer o peso de seus argumentos.<\/p>\n<p id=\"8456\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Timothy Keller, por exemplo, argumenta em favor de uma compreens\u00e3o liter\u00e1ria da B\u00edblia, inclusive assumindo considerar o cap\u00edtulo primeiro do livro de G\u00eanesis como n\u00e3o literal, por\u00e9m ao mesmo tempo alerta que uma posi\u00e7\u00e3o assim em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 algumas outras partes do Antigo Testamento enfraquecem a autoridade das Escrituras de uma forma geral. Ele chega a mencionar Lewis como um &#8220;um dos meus escritores crist\u00e3os favoritos&#8221;, e que era, ao mesmo tempo, algu\u00e9m que &#8220;n\u00e3o acreditava em Ad\u00e3o e Eva literal&#8221;. Keller diz n\u00e3o questionar &#8220;a realidade ou solidez de sua f\u00e9 pessoal&#8221;, mas que sua &#8220;preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com a igreja institucionalmente e para com o seu crescimento e vitalidade ao longo do tempo&#8221;, e prossegue com uma pergunta relevante: &#8220;ser\u00e1 que a perda de uma cren\u00e7a na queda hist\u00f3rica enfraquece alguns dos nossos compromissos hist\u00f3ricos, doutrinais em certos pontos cruciais?&#8221;\u00b9\u2078<\/p>\n<p id=\"aef0\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Para Keller, sim. Mas, ao contr\u00e1rio de uma abordagem fundamentalista, ele lida de forma s\u00e9ria com os aspectos liter\u00e1rios de G\u00eanesis:<br \/>\n&#8220;G\u00eanesis 2-3 n\u00e3o mostra quaisquer dos sinais de \u201cprosa narrativa exaltada\u201d ou poesia. L\u00ea-se como o relato de acontecimentos reais. O texto parece hist\u00f3rico. Isso n\u00e3o significa que o G\u00eanesis (ou qualquer texto da B\u00edblia) \u00e9 hist\u00f3ria no sentido moderno, positivista. Os escritores antigos, ao relatar eventos hist\u00f3ricos, se sentiam livres para flexibilizar intervalos de tempo \u2013 omitindo uma enorme quantidade de informa\u00e7\u00f5es que os historiadores modernos considerariam essenciais para dar \u2018o quadro completo\u2019. No entanto, os escritores antigos de hist\u00f3ria ainda acreditavam que os eventos que estavam descrevendo realmente aconteceram.&#8221;\u00b9\u2079<\/p>\n<p id=\"e7f7\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Al\u00e9m disso, h\u00e1 um consider\u00e1vel problema hermen\u00eautico em lidar com algumas passagens do Novo Testamento que lidam com G\u00eanesis 2\/3 em perspectiva hist\u00f3rica. N.T.Wright, um importante te\u00f3logo anglicano, em seu coment\u00e1rio de Romanos, lembra que esse \u00e9 o caso do ap\u00f3stolo Paulo:<\/p>\n<p id=\"0100\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">&#8220;Paulo claramente acreditava que tinha havido um \u00fanico primeiro casal, cujo homem, Ad\u00e3o, tinha recebido um mandamento e quebrado. Podemos ter certeza de que Paulo era ciente do que poder\u00edamos chamar de dimens\u00f5es m\u00edticas ou metaf\u00f3ricas desta hist\u00f3ria, mas ele n\u00e3o teria considerado que estas dimens\u00f5es colocavam em d\u00favida a exist\u00eancia, e o pecado primordial, do primeiro casal hist\u00f3rico.&#8221;\u00b2\u2070<\/p>\n<p id=\"90b9\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Esse \u00e9 para muitos te\u00f3logos s\u00e9rios um ponto fraco em meio aos tantos outros pontos fortes da obra de Lewis. Apesar disso, devemos entender que \u00e9 absolutamente normal para um estudioso do porte de Lewis esses tipos de cr\u00edtica e que tal tratamento sempre constitui um elemento de grande import\u00e2ncia na compreens\u00e3o de qualquer grande intelectual. Em \u00faltima an\u00e1lise, tamb\u00e9m \u00e9 preciso esclarecer que a contribui\u00e7\u00e3o de Lewis \u00e0 teologia sempre foi uma contribui\u00e7\u00e3o externa de algu\u00e9m que, em seu melhor, foi considerado uma das maiores autoridades em literatura medieval, mas que nunca adquiriu nenhuma forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica na \u00e1rea da teologia, por isso \u00e9 que seu compromisso acad\u00eamico com essa mat\u00e9ria nunca foi muito grande<\/p>\n<p id=\"9b50\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Para ser sincero, n\u0101o h\u00e1 mesmo como chegarmos a uma especifica doutrina das Escrituras no seu pensamento. Nem h\u00e1 material para isso. O mais significativo em sua obra, e aquilo de melhor que n\u00f3s podemos apreender de sua concep\u00e7\u0101o do que s\u0101o as Escrituras, \u00e9 o modo como a ess\u00eancia do evangelho deve penetrar em nossa mente. Um dos grandes prejuizos da \u201cbatalha ret\u00f3rica\u201d entre fundamentalistas e liberais foi ver muitos dos te\u00f3logos perderem e deixarem escapar a ess\u00eancia e o verdadeiro \u201cpoder do Evangelho\u201d. Muitas cr\u00edticas podem e devem ser feitas a C.S.Lewis, mas como Kevin Vanhoezer com muita propriedade escreveu:<\/p>\n<p id=\"0957\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">&#8220;Olhar &#8216;pontualmente&#8217; para a concep\u00e7\u0101o das Escrituras de Lewis em vez de consider\u00e1-la em sua abrang\u00eancia \u00e9 uma estrat\u00e9gia t\u0101o equivocada quanto a tend\u00eancia dos cr\u00edticos que veem as Escrituras dessa mesma maneira. Isso porque Lewis estava menos interessado em formular uma doutrina das Escrituras do que em tentar ver, atrav\u00e9s delas, as verdades e o mist\u00e9rio da f\u00e9 [\u2026]\u201d e, diz Vanhoozer, \u201cler as escrituras com f\u00e9 n\u0101o significa reempacotar o discurso de primeira ordem da B\u00edblia nos termos de te\u00f3ricos de segunda ordem, mas receber &#8216;uma extens\u0101o imaginativa&#8217; de nosso ser quando as palavras e os mundos do texto b\u00edblico adentram nosso mundo com inspira\u00e7\u0101o e encantamento. Tole, lege!: pegue, leia (com sensibilidade liter\u00e1ria) e seja transformado.\u201d\u00b2\u00b9<\/p>\n<p id=\"216c\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">No pensamento epistemol\u00f3gico de C.S.Lewis, o conceito mito-po\u00e9tico da realidade a qual a teologia deve se submeter mostrou-se de extrema import\u00e2ncia na compreens\u00e3o de todo o restante de sua cosmovis\u00e3o. Como veremos mais adiante, tanto em sua concep\u00e7\u0101o das Escrituras, quanto em sua apreens\u00e3o dogm\u00e1tica.<\/p>\n<h4 id=\"2279\" class=\"graf graf--h4 graf-after--p\">A Filosofia da Linguagem e o Penitente Perfeito.<\/h4>\n<p id=\"b2b3\" class=\"graf graf--p graf-after--h4\">Em 1942 Lewis publicou o primeiro livro de uma s\u00e9rie de tr\u00eas, que mais tarde seriam lan\u00e7ados em volume \u00fanico, sob o t\u00edtulo de Cristianismo Puro e Simples. Um ano depois, em Julho de 1943, Oliver Chase Quick (1885-1944), que na \u00e9poca era regius professor em Teologia da Universidade de Oxford, escrevia uma carta para William Temple, arcebispo de Cantu\u00e1ria&nbsp;nesse&nbsp;mesmo&nbsp;per\u00edodo, compartilhando sua opini\u00e3o de que Lewis merecia a outorga do t\u00edtulo de Doutor em Teologia pela Universidade de Oxford, pelas suas importantes contribui\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas. Como assinala Alister McGrath&nbsp;em&nbsp;sua&nbsp;biografia, &#8220;essa correspond\u00eancia entre o te\u00f3logo mais graduado de Oxford e o cl\u00e9rigo mais graduado da Igreja da Inglaterra \u00e9 um testemunho importante da alta estima por Lewis nos influentes c\u00edrculos eclesi\u00e1sticos e acad\u00eamicos da Inglaterra.&#8221;\u00b2\u00b2<\/p>\n<p id=\"3e3a\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Por\u00e9m, eu iria mais longe e diria que n\u00e3o s\u00f3 na Inglaterra. Tr\u00eas anos depois dessa correspond\u00eancia entre Quick e Temple, em 1946, apenas um ano ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra Mundial, Lewis recebeu uma de suas cinco gradua\u00e7\u00f5es honor\u00e1rias, que consistia em um t\u00edtulo de doutor em divindade, mas n\u00e3o por Oxford. O t\u00edtulo em reconhecimento \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas de Lewis, veio pela Universidade de St. Andrews, Esc\u00f3cia. Na ocasi\u00e3o da cerim\u00f4nia em que foi concedido o t\u00edtulo, o professor Donald M. Baillie, em nome do corpo docente da faculdade de Divindade, declarou que a raz\u00e3o da gradua\u00e7\u00e3o honor\u00e1ria ser concedida a Lewis devia-se ao fato dele ter \u201cconseguido captar a aten\u00e7\u00e3o de muitas pessoas que n\u00e3o ouviriam facilmente te\u00f3logos profissionais\u201d, e que, ao mesmo tempo, \u201carranjara um novo tipo de casamento entre a reflex\u00e3o teol\u00f3gica e a imagina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica.\u201d\u00b2\u00b3<\/p>\n<p id=\"5690\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Embora muitos te\u00f3logos terem feito uma leitura r\u00e1pida e simplista das obras de Lewis, aqueles que tinham um faro mais agu\u00e7ado reconheceram logo a presen\u00e7a do Dinossauro de Oxford trazendo-lhes uma importante contribui\u00e7\u00e3o teol\u00f3gico-imaginativa. Sobretudo em sua filosofia da linguagem, como uma importante ferramenta n\u00e3o s\u00f3 no casamento entre &#8220;reflex\u00e3o teol\u00f3gica e imagina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica&#8221;, como tamb\u00e9m no estabelecimento de seu conceito de cristianismo puro e simples.<br \/>\nIsso porque, dentro do pensamento teol\u00f3gico de Lewis opera uma clara distin\u00e7\u00e3o entre conceitos te\u00f3ricos e aquilo sobre o que se teoriza: a realidade. Assim, para Lewis, a Trindade \u00e9 a realidade teol\u00f3gica tal qual expressa nas Escrituras, mas as teorias que se esfor\u00e7am por nos fornecer uma imagem dessa realidade, n\u00e3o devem ser confundidas com a pr\u00f3pria realidade. Ele expressa bem esse conceito ao fazer um paralelo entre modelos teol\u00f3gicos e linguagem cient\u00edfica:<\/p>\n<p id=\"dd2e\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">&#8220;O que [cientistas] fazem quando querem explicar o \u00e1tomo ou algo do tipo \u00e9 dar a voc\u00ea uma descri\u00e7\u00e3o a partir da qual voc\u00ea pode construir uma imagem mental. Por\u00e9m, em seguida, eles o advertem de que aquela imagem n\u00e3o \u00e9 aquilo no que os cientistas, realmente, acreditam. O que os cientistas acreditam \u00e9 numa f\u00f3rmula matem\u00e1tica. As imagens est\u00e3o l\u00e1 simplesmente para ajudar voc\u00ea a entender a f\u00f3rmula. Elas n\u00e3o s\u00e3o, realmente, verdadeiras, da mesma forma como a f\u00f3rmula \u00e9 verdadeira; elas n\u00e3o fornecem a voc\u00ea a realidade, mas simplesmente algo mais ou menos parecido. Elas existem, simplesmente, para ajudar e, se elas n\u00e3o ajudam, voc\u00ea pode abandon\u00e1-las. A realidade, em si, n\u00e3o pode ser retratada; ela s\u00f3 pode ser expressa matematicamente. Estamos [linguagem cient\u00edfica e teol\u00f3gica] no mesmo barco aqui.&#8221;\u00b2\u2074<\/p>\n<p id=\"8910\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Assim, esse modo de entender a linguagem teol\u00f3gica, t\u00edpica de um literato, acabou por se tornar um dos pontos principais do conceito lewisiano (extra\u00eddo do famoso te\u00f3logo puritano Richard Baxter, diga-se de passagem) de cristianismo puro e simples. Uma vez que, ao longo de mais de dois mil anos de hist\u00f3ria crist\u00e3, podemos encontrar uma variedade estonteante de teorias que visam &#8211; \u00e0s vezes \u00e9 at\u00e9 poss\u00edvel d\u00favidar &#8211; aprensentar-nos uma imagem compreens\u00edvel n\u0101o s\u00f3 de uma mesma realidade, mas tamb\u00e9m extra\u00eddas de uma mesma fonte. Lewis argumentaria que, apesar dos m\u00e9todos lingu\u00edsticos-teol\u00f3gicos e hermen\u00eauticos variarem, a realidade a qual a linguagem teol\u00f3gica se refere permanece inalter\u00e1vel e continua sendo crida por todos os crist\u00e3os em todos os s\u00e9culos.<\/p>\n<p id=\"a458\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Para Lewis, as doutrinas crist\u00e3s s\u00e3o formas lingu\u00edsticas respons\u00e1veis por expressar uma realidade que por natureza, em muitos aspectos, \u00e9 inexpressiva. Ainda assim, Lewis n\u00e3o abre m\u00e3o de consider\u00e1-las divinamente inspiradas e imbu\u00eddas de autoridade can\u00f4nica. Essa quest\u00e3o \u00e9 importante, a despeito de uma crescente preocupa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica em se livrar do ceticismo liberal, surgiu um pouco depois da morte de Lewis o que ficou conhecido dentro das universidades como teologia da narrativa, sendo uma das suas principais prerrogativas pautar a linguagem teol\u00f3gica-doutrin\u00e1ria como a gram\u00e1tica da f\u00e9. Assim, esse \u00e9 o tipo de teologia para a qual &#8220;As doutrinas [&#8230;] n\u00e3o s\u00e3o consequ\u00eancias das hist\u00f3rias [b\u00edblicas]; elas n\u00e3o d\u00e3o o significado e tampouco constituem o centro das hist\u00f3rias. Antes, s\u00e3o ferramentas [&#8230;] cujo prop\u00f3sito \u00e9 ajudar a contar melhor as hist\u00f3rias.&#8221;\u00b2\u2075<br \/>\nLewis vai na contra m\u00e3o da teologia da narrativa, uma tend\u00eancia essencialmente p\u00f3s-liberal. Para ele, as doutrinas crist\u0101s tanto s\u00e3o consequ\u00eancias diretas dos eventos b\u00edblicos, quanto s\u00e3o particularmente imbu\u00eddas de significado cognitivo. Mesmo havendo diferentes interpreta\u00e7\u00f5es doutrin\u00e1rias, o erro que faz o ceticismo encerrar a f\u00e9 crist\u00e3 como proposi\u00e7\u00f5es &#8220;internamente contradit\u00f3rias&#8221; est\u00e1 em n\u00e3o saber distinguir entre as teorias em torno das doutrinas b\u00edblicas, que podem variar de acordo com o m\u00e9todo hermen\u00eautico aplicado, e a pr\u00f3pria realidade a qual elas se referem. Lewis confessa que esse foi um dos principais obst\u00e1culos para ele e que, antes dele vir acreditar em Cristo, sua principal impress\u00e3o era &#8220;que a primeira coisa em que os crist\u00e3os tinham de acreditar era uma teoria particular sobre o prop\u00f3sito dessa morte [morte de Cristo]. De acordo com essa teoria&#8221;, diz Lewis de forma comparativa, &#8220;Deus queria castigar os homens por terem desertado e se unido \u00e0 Grande Rebeli\u00e3o, mas Cristo se ofereceu para ser punido em lugar dos homens, e Deus n\u00e3o nos puniu.&#8221;\u00b2\u2076 No entanto, Lewis logo chegou a conclus\u00e3o de que o &#8220;cristianismo n\u00e3o \u00e9 nem essa teoria nem nenhuma outra teoria&#8221;, e que, no que diz respeito \u00e0 doutrina da expia\u00e7\u00e3o &#8211; note-se a diferen\u00e7a entre doutrina e teoria &#8211; o que constitui a realidade \u00e9 o fato de que &#8220;Cristo morreu por n\u00f3s, e que sua morte nos lavou de nossos pecados e que, morrendo, ele destruiu a pr\u00f3pria morte.&#8221;\u00b2\u2077 \u00c9 &#8220;na cren\u00e7a na efic\u00e1cia dessa morte&#8221; que cr\u00eaem os crist\u00e3os. Esse, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 o m\u00ednimo divisor comum da soteriologia crist\u0101, essa \u00e9 a realidade com a qual as teorias tem o dever de permanecerem fi\u00e9is. Esse \u00e9 o alicerce &#8211; para usar uma express\u00e3o paulina &#8211; sobre o qual os te\u00f3logos devem construir. Apesar disso, ap\u00f3s esclarecer o prop\u00f3sito lingu\u00edstico-teol\u00f3gico concernente ao objetivo te\u00f3rico doutrinal, Lewis n\u00e3o perde a oportunidade dele mesmo lan\u00e7ar m\u00e3o na tarefa teol\u00f3gica e estabelecer o ponto de vista que, para ele, \u00e9 o que atende melhor \u00e0s demandas teol\u00f3gicas e filos\u00f3ficas.<\/p>\n<p id=\"98f0\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Apesar de muitos terem conclu\u00eddo erroneamente que Lewis abrira m\u00e3o da expia\u00e7\u00e3o substitutiva, o cap\u00edtulo de Cristianismo Puro e Simples sobre o Penitente Perfeito vai na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria e demonstra que a dificuldade de Lewis era com o aspecto forense da teoria penal e n\u00e3o com o car\u00e1ter substitutivo, como bem observou o Dr. Douglas Wilson, um importante escritor calvinista, &#8220;Lewis cria na expia\u00e7\u0101o substitutiva&#8221;\u00b2\u2078. Assim, logo ap\u00f3s ressaltar a primazia de elementos insubstitu\u00edveis como partes necess\u00e1rias da realidade interna das doutrinas, Lewis logo se p\u00f5e ao trabalho em estabelecer elementos externos, substituindo o ponto de vista forense, em geral associado \u00e0 teologia&nbsp;de&nbsp;Lutero, por um \u00e2ngulo comercial, em ess\u00eancia uma varia\u00e7\u00e3o da teoria substitutiva de Anselmo de Cantu\u00e1ria, com significativa abertura \u00e0 teoria do arrependimento vic\u00e1rio do erudito escoc\u00eas Mcleod Campbell (1800\/1872):<\/p>\n<p id=\"1df7\" class=\"graf graf--p graf--startsWithDoubleQuote graf-after--p\">\u201cSe pensarmos o castigo na acep\u00e7\u00e3o policial e judicial da palavra, isso n\u00e3o tem sentido nenhum. Por outro lado, se pensarmos numa d\u00edvida, \u00e9 muito natural que uma pessoa, possuindo bens, salde os compromissos daquelas que n\u00e3o os possui.&#8221;<\/p>\n<p id=\"253b\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Nesse sentido, \u00e9 a \u00eanfase de Lewis na doutrina do pecado original que o leva a uma teoria com destaque proeminente na necessidade e depend\u00eancia tanto na divindade de Cristo, quanto em sua humanidade. Assim como em Anselmo, a teoria adotada por Lewis depende necessariamente de uma resposta \u00e0 pergunta: &#8220;Cur Deus Homo?&#8221;, a resposta de C.S.Lewis \u00e9 que,<\/p>\n<p id=\"7f38\" class=\"graf graf--p graf--startsWithDoubleQuote graf-after--p\">\u201cEm outras palavras, o homem deca\u00eddo n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma criatura imperfeita que precisa ser melhorada; \u00e9 um rebelde que precisa depor as armas. Depor as armas, render-se, pedir perd\u00e3o, dar-se conta de que tomou o caminho errado, estar disposto a come\u00e7ar uma vida nova do zero &#8211; s\u00f3 isso pode nos tirar do buraco. [&#8230;] E isso nos leva a um paradoxo. S\u00f3 uma pessoa m\u00e1 precisa do arrependimento, mas s\u00f3 uma pessoa boa consegue arrepender-se perfeitamente. Quanto pior voc\u00ea \u00e9, mais precisa do arrependimento e menos \u00e9 capaz de arrepender-se. A \u00fanica pessoa capaz de arrepender-se perfeitamente seria uma pessoa perfeita &#8211; e n\u00e3o precisaria faz\u00ea-lo em absoluto.<br \/>\n[&#8230;] Suponha, no entanto, que Deus se torne homem. Suponha que nossa natureza humana seja amalgamada com a divina na forma de uma pessoa. Essa pessoa poderia nos ajudar. Poderia submeter-se \u00e0 vontade de Deus, sofrer e morrer, porque seria um ser humano. Poderia fazer tudo isso perfeitamente, porque concomitantemente seria Deus.&#8221;\u00b2\u2079<\/p>\n<p id=\"5e39\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Certamente, \u00e9 mais uma d\u00edvida com o te\u00f3logo de Cantu\u00e1ria do que com o reformador alem\u00e3o, o que parece ter gerado certo rep\u00fadio \u00e0 sua teologia dentro de c\u00edrculos mais conservadores da teologia reformada. O Dr. Cornelius Van Till, por exemplo, um importante apologista reformado, \u00e9 bem incisivo em sua cr\u00edtica:<\/p>\n<p id=\"4327\" class=\"graf graf--p graf--startsWithDoubleQuote graf-after--p\">\u201cEm Lewis n\u00e3o vejo nenhuma percep\u00e7\u00e3o da minha necessidade de aceitar a expia\u00e7\u00e3o substitutiva pelos meus pecados na cruz. Onde est\u00e1 \u2018Cristo, e ele crucificado?\u2019 Onde est\u00e1 \u2018Cristo e sua ressurrei\u00e7\u00e3o?\u2019 Onde est\u00e1 o homem natural, \u2018morto em delitos e pecados\u201d (Ef. 2:1)?\u201d.\u00b3\u2070<\/p>\n<p id=\"46c4\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Desde que li as cr\u00edticas de Van Till, a minha pergunta tem sido: &#8220;onde n\u00e3o est\u00e1?&#8221;<\/p>\n<p id=\"a1ec\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Por\u00e9m, para entendermos melhor a cr\u00edtica de Van Till, \u00e9 necess\u00e1rio voltarmos \u00e0 disputa teol\u00f3gica do come\u00e7o do s\u00e9culo XX, pois, como bem definiu o historiador eclesi\u00e1stico Justo Gonz\u00e1lez, com a ascens\u00e3o do &#8220;fundamentalismo, um dos cinco fundamentos que supostamente denotariam a ortodoxia crist\u00e3 era precisamente a doutrina da expia\u00e7\u0101o substutiva.&#8221; O que fez com que seus principais representantes descartassem todas as outras opini\u00f5es como her\u00e9ticas e aceitarem &#8220;como interpreta\u00e7\u00e3o tradicional da obra de Cristo alguma vers\u00e3o da teoria de Anselmo&#8221;\u00b3\u00b9. No caso da grande maioria dos fundamentalistas norte-americanos, a teoria penal.<br \/>\nO que, particularmente para Lewis, n\u00e3o havia nenhum problema, contanto que os aspectos teoricos n\u00e3o se tornassem uma sobreposi\u00e7\u00e3o aos conceitos inerentes \u00e0 realidade doutrinal crist\u00e3. E essa foi uma dificuldade bastante evidente dentro da teologia fundamentalista norte-americana que, por n\u00e3o saber manter o m\u00ednimo de di\u00e1logo teol\u00f3gico, acabou por se isolar cada vez mais em uma teologia de gueto.<\/p>\n<p id=\"cc0d\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">A quest\u00e3o da teoria adotada por Lewis, no entanto, merece alguma an\u00e1lise cr\u00edtica do ponto de vista teol\u00f3gico:<\/p>\n<ul class=\"postList\">\n<li id=\"8828\" class=\"graf graf--li graf-after--p\">O primeiro aspecto negativo da abordagem de Lewis do Penitente Perfeito em Cristianismo Puro e Simples \u00e9 uma estranha aus\u00eancia de um elemento decisivo da obra de Cristo, a Justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9. Alguns apontariam que tal cr\u00edtica deixa entrev\u00ea uma parcialidade protestante, o que n\u00e3o \u00e9 absolutamente verdade. A teologia de uma forma geral tem assumido sem muitas dificuldades a import\u00e2ncia e necessidade de uma compreens\u00e3o geral a respeito da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9, mesmo que se discorde em \u00eanfase ou em que medida ela est\u00e1 relacionada com outras doutrinas. Joseph Ratzinger, que j\u00e1 ocupou o grau eclesi\u00e1stico m\u00e1ximo da Igreja Cat\u00f3lica, e que hoje figura entre os mais importantes te\u00f3logos do s\u00e9c. XX, comenta que &#8220;Paulo, [&#8230;] n\u00e3o cede a qualquer forma de moralismo e nem contradiz de modo algum a sua doutrina a prop\u00f3sito da justifica\u00e7\u00e3o mediante a f\u00e9.&#8221;\u00b3\u00b2 E acredito realmente que Lewis pense dessa mesma forma. A cr\u00edtica, no entanto, diz respeito n\u00e3o \u00e0 sua cren\u00e7a, mas a falta da \u00eanfase (ou quase aus\u00eancia total) no momento de denfend\u00ea-la. Mesmo N.T.Wight, que tem sido visto com certo receio por te\u00f3logos protestantes (justamente pela controv\u00e9rsia da Justifica\u00e7\u00e3o), v\u00ea a aus\u00eancia desse elemento como algo negativo na soteriologia de Lewis.\u00b3\u00b3<\/li>\n<li id=\"a11d\" class=\"graf graf--li graf-after--li\">A segunda falha que eu destacaria \u00e9 o fato de Lewis n\u00e3o conseguir esclarecer alguns pontos elementares para uma compreens\u00e3o, m\u00ednima que fosse, de uma teoria de arrependimento vic\u00e1rio. No que diz respeito \u00e0 necessidade da humanidade de Cristo, est\u00e1 tudo muito certo. Mas a teoria adotada por Lewis infelizmente n\u00e3o fornece a explica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para entendermos como a encarna\u00e7\u00e3o de Cristo o habilitou a entrar, para usar as palavras de Louis Berkhof, em uma abordagem cr\u00edtica desta mesma teoria, &#8220;num co-sentinmento conosco no que diz respeito aos nossos pecados.&#8221;\u00b3\u2074 Uma vez que a teoria precisa explicar como a morte de Cristo se relaciona com essa esp\u00e9cie de penit\u00eancia perfeita de car\u00e1ter substitutivo. Isso, obviamente, levando em considera\u00e7\u00e3o que Cristo era totalmente sem pecado. Embora possamos facilmente supor que Lewis n\u00e3o teria tempo ou pretens\u00e3o para fornecer tal explica\u00e7\u00e3o (ele realmente n\u00e3o tinha), esse \u00e9 um deficit inerente \u00e0 teoria, e n\u00e3o tanto \u00e0 forma como ela \u00e9 apresentada.<\/li>\n<\/ul>\n<p id=\"ef54\" class=\"graf graf--p graf-after--li\">Essas s\u00e3o cr\u00edticas fundamentais para a compreens\u00e3o da sua teologia. Na \u00e9poca que Lewis apresentava seus argumentos no Socrat Clube, ele j\u00e1 era acostumado tanto a receber as cr\u00edticas, quanto a rever seus argumentos.<\/p>\n<p id=\"e83d\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">No entanto, apesar de Lewis n\u00e3o ter fornecido a consist\u00eancia necess\u00e1ria para uma de suas sugest\u00f5es te\u00f3ricas, devemos lembrar que sua \u00eanfase \u00e9 justamente sobre o fato dessas teorias terem que agir em segundo plano. Conforme salientou N.T.Wight, &#8220;Lewis tinha raz\u00e3o ao enfatizar que os crist\u00e3os n\u00e3o est\u00e3o comprometidos com uma \u00fanica maneira de entender o significado da Cruz.&#8221;\u00b3\u2075 Est\u00e3o comprometidos, isto sim, com a mensagem essencial da expia\u00e7\u00e3o: o homem natural tornou-se incapaz de obter a salva\u00e7\u00e3o por suas pr\u00f3prias for\u00e7as; Cristo, perfeitamente homem e perfeitamente Deus &#8211; Cur Deus Homo? &#8211; toma os nossos pecados sobre si e, morrendo na cruz e ressuscitando ao terceiro dia, expia-os todos, nos dando acesso \u00e0 uma imerecida gra\u00e7a. Os crist\u00e3os de todos os tempos t\u00eam acreditado que esse \u00e9 o significado da expia\u00e7\u00e3o, as teorias que pretendem fornecer as explica\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para uma resposta mais abrangente devem laborar sobre estes mesmos elementos. J.I.Packer \u00e9 bastante claro, talvez ainda mais incisivo do que Lewis\u200a, ao colocar as varia\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas em torno da doutrina da expia\u00e7\u0101o em segundo plano em rela\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter redentivo da obra de Cristo:<\/p>\n<p id=\"1891\" class=\"graf graf--p graf--startsWithDoubleQuote graf-after--p\">\u201cAo morrer, Cristo ofertou a Deus aquilo que no ocidente temos chamado de satisfa\u00e7\u00e3o pelos pecados, satisfa\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio car\u00e1ter de Deus demandava como a \u00fanica forma pela qual o seu &#8220;n\u00e3o&#8221; para o homem poderia transformar-se em um &#8220;sim&#8221;. Quer essa satisfa\u00e7\u00e3o dirigida a Deus seja entendida como um tributo da pr\u00f3pria morte, quer como aperfei\u00e7oamento da santa obedi\u00eancia, quer como o suportar do abandono divino do inferno, que \u00e9 o ju\u00edzo de Deus sobre o pecado, quer, ainda, como a perfeita confiss\u00e3o de pecados humanos combinada com o experimentar de sua amargura por meio de uma identifica\u00e7\u00e3o, quer todas essas coisas juntas (pois nada nos impede de combin\u00e1-las), o formato que essa vis\u00e3o assume permanece o mesmo &#8211; pois, pelo fato de suportar o sofrimento da cruz, Jesus expiou nossos pecados, fazendo-se propicia\u00e7\u00e3o ao nosso criador, transformando o &#8220;n\u00e3o&#8221; de Deus em um &#8220;sim&#8221;, e savando-nos.\u201d\u00b3\u2076<\/p>\n<p id=\"881d\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Evidentemente algumas varia\u00e7\u00f5es possuem mais \u00eaxito, mas nenhuma delas devem ser confundidas com a pr\u00f3pria realidade redentora. A hist\u00f3ria d\u00e1 testemunho a seu favor, os m\u00e1rtires morreram em prol dela, e podemos estar certos de que o s\u00e9culo XX nos legou um dos poucos pensadores crist\u00e3os capaz de penetrar na veia essencial da hist\u00f3ria, n\u00e3o se rendendo ao esp\u00edrito da \u00e9poca, mas caminhando atrav\u00e9s dela como um dinossauro que n\u00e3o se rende ao tempo. O dinossauro pode estar errado em v\u00e1rios aspectos, mas ele tem a vantagem de conhecer \u00e9pocas e culturas diferentes de uma forma que a maioria dos seus contempor\u00e2neos n\u00e3o conheceu. Apesar disso, boa parte dos te\u00f3logos fundamentalistas norte-americanos viram com desconfian\u00e7a a teologia do dinossauro de Oxford, Van Till se encontra s\u00f3 entre mais um dentre todos os outros. O que me faz refletir at\u00e9 que ponto a batalha ret\u00f3rica entre liberais e fundamentalistas n\u0101o afetou a leitura de todos os envolvidos na disputa ingl\u00f3ria entre seus respectivos representantes. E at\u00e9 que ponto eles n\u00e3o teriam que aprender com o literato de Belfast, sobretudo a n\u00e3o somente olhar para as teorias como pontos estaticamente matem\u00e1ticos, mas atrav\u00e9s delas, como imagens temporais de uma realidade que por natureza n\u00e3o pode ser engarrafada pela linguagem humana.<\/p>\n<p id=\"811b\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Vinte anos ap\u00f3s a morte de Lewis, no entanto, os evang\u00e9licos, em um novo engajamento intelectual e cultural, come\u00e7aram a dar os primeiros sinais de terem superado o fundamentalismo. Para a surpresa de muitos, um dos principais escritores adotados por essa nova gera\u00e7\u00e3o do evangelicalismo foi C.S.Lewis.<\/p>\n<h4 id=\"5b46\" class=\"graf graf--h4 graf-after--p\">O Padroeiro do evangelicalismo.<\/h4>\n<p id=\"60cb\" class=\"graf graf--p graf-after--h4\">Em 1954 C.S.Lewis se transferiu da Universidade de Oxford e assumiu uma c\u00e1tedra de L\u00edngua e Literatura Inglesa Medieval e Renascentista na Universidade de Cambridge. Nessa \u00e9poca Lewis j\u00e1 era reconhecidamente um grande e respeit\u00e1vel erudito em Literatura e um escritor crist\u00e3o de peso mundial, tanto que um ano depois, em 1955, Billy Graham, intermediado por John Stott, foi no escrit\u00f3rio de Lewis no Magdale College procurar seus conselhos a prop\u00f3sito de uma miss\u00e3o evangelistica na Universidade de Cambridge. O motivo era evidentemente a dificuldade que Graham teria em falar para universit\u00e1rios de Cambridge, mas n\u00e3o s\u00f3 em raz\u00e3o da distancia cultural, sen\u00e3o tamb\u00e9m reliosa, em grande parte pelas cr\u00edticas que vinha recebendo em raz\u00e3o de sua miss\u00e3o em Cambridge. Os cr\u00edticos do j\u00e1 ent\u0101o famoso pregador norte-americano preocupavam-se principalmente com o suposto car\u00e1ter fundamentalista atribu\u00eddo a Graham. Canon Luce, por exemplo, diretor da escola de Durham, fundamentou sua cr\u00edtica baseado no aumento do fundamentalismo entre estudantes universit\u00e1rios de sua \u00e9poca, o que deveria, para ele, causar preocupa\u00e7\u00f5es para aqueles que trabalhavam na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o religiosa:<\/p>\n<p id=\"62c6\" class=\"graf graf--p graf--startsWithDoubleQuote graf-after--p\">\u201cN\u00e3o \u00e9 hora de os nossos l\u00edderes religiosos deixarem claro que, enquanto respeitam, ou at\u00e9 admiram, a sinceridade e o poder pessoal do Dr. Graham, eles n\u00e3o podem considerar o fundamentalismo como suscet\u00edvel de causar nada al\u00e9m de desilus\u00e3o e desastre para homens e mulheres cultos no mundo do s\u00e9culo XX?&#8221;\u00b3\u2077<\/p>\n<p id=\"ffd7\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Apesar das cr\u00edticas, Graham j\u00e1 havia rejeitado v\u00e1rias vezes sua associa\u00e7\u00e3o com a nova consci\u00eancia do fundamentalismo. Em carta \u00e0 sua esposa, Ruth Graham, ele escreve: &#8220;Se o tipo de extremo causado pelo fundamentalismo fosse de Deus, teria trazido um avivamento h\u00e1 muito tempo. Em vez disso, trouxe dissens\u00e3o, divis\u00e3o, conflitos e produziu igrejas mortas e sem vida.&#8221;\u00b3\u2078<\/p>\n<p id=\"7e4a\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Em 25 de agosto de 1955, John Stott, que seria assistente de Graham na miss\u0101o de Cambridge, escreveu esta carta a Time em resposta \u00e0s crescentes cr\u00edticas que vinha recebendo o grande pregador americano:<\/p>\n<p id=\"a0d9\" class=\"graf graf--p graf--startsWithDoubleQuote graf-after--p\">\u201cSenhores, \u00e9 surpreendente que seus correspondentes sobre este assunto n\u00e3o tenham pausado para definir o termo &#8220;fundamentalismo&#8221;. Eles assumiram que seus leitores entenderam o termo, que o entenderam no mesmo sentido, e que descreve com precis\u00e3o o Dr. Graham. Na verdade, o termo claramente tem significados diferentes, e o Dr. Graham negou publicamente em mais de uma ocasi\u00e3o que ele \u00e9 um fundamentalista.<br \/>\nA palavra tinha uma origem nobre.&nbsp;.&nbsp;. [por\u00e9m, mais recentemente] tornou-se associado a certos extremos e extravag\u00e2ncias, de modo que agora o &#8220;fundamentalismo&#8221; \u00e9 quase um sin\u00f4nimo de obscurantismo, e geralmente \u00e9 usado como termo de opr\u00f3brio. Parece descrever a rejei\u00e7\u00e3o intoler\u00e1vel de toda cr\u00edtica b\u00edblica, uma vis\u00e3o mec\u00e2nica da inspira\u00e7\u00e3o e uma interpreta\u00e7\u00e3o excessivamente literalista da Escritura. \u00c9, sem d\u00favida, nesse sentido que seus correspondentes empregaram o termo e, nesse sentido, o Dr. Billy Graham e outros associados a ele o repudiaram.<br \/>\nClaramente, deve ser feita uma distin\u00e7\u00e3o entre o fundamentalismo e a vis\u00e3o tradicional e conservadora da Escritura. [&#8230;] O ponto real em quest\u00e3o nesta controv\u00e9rsia, revelado por um desacordo episcopal em suas colunas, parece ser o lugar da mente na percep\u00e7\u00e3o da verdade divina.<br \/>\nTodos os crist\u00e3os pensativos concordariam com o bispo de Durham, cuja carta voc\u00ea publicou em 20 de agosto, que a revela\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 essencialmente razo\u00e1vel, mas deveria acrescentar que muitas vezes est\u00e1 em conflito com a raz\u00e3o n\u00e3o iluminada dos homens pecadores. A B\u00edblia est\u00e1 consciente desse conflito.&nbsp;.&nbsp;.<br \/>\nH\u00e1 ent\u00e3o a convers\u00e3o, n\u00e3o o que o bispo de Durham chama de \u2018estiramento da mente\u2019, mas a submiss\u00e3o humilde (e inteligente) da mente a uma revela\u00e7\u00e3o divina. O intelecto humano orgulhoso ainda precisa ser abatido &#8211; na Inglaterra como em Corinto &#8211; e o \u00fanico meio de entrar no Reino de Deus ainda \u00e9 tornar-se como um pequeno filho.<\/p>\n<p id=\"29c3\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Com os melhores cumprimentos,<br \/>\nJOHN RW STOTT.\u00b3\u2079<\/p>\n<p id=\"1bc5\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Essa carta revela muito do car\u00e1ter do novo engajamento teol\u00f3gico e cultural do evangelicalismo, que naquela \u00e9poca ainda dava seus primeiros passos. Pouco tempo depois de escreve-la, quando Billy Graham j\u00e1 havia chegado na Inglaterra, Stott levou Graham para uma conversa com C.S.Lewis que, segundo relatos, durou cerca de uma hora. Na sala de Lewis, no Magdalen College, estavam diante dele Billy Graham e John Stott, dois dos principais nomes do evangelicalismo: \u201cEu tinha medo de ser intimidado por Lewis\u201d, admitiu Billy, \u201cmas fiquei aliviado ao descobrir que ele imediatamente me deixou \u00e0 vontade. Eu achei que ele n\u00e3o fosse apenas inteligente e espirituoso, mas tamb\u00e9m gentil e gracioso. Ele parecia genuinamente interessado em nossas reuni\u00f5es.\u201d\u2074\u2070<\/p>\n<p id=\"96ce\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">O conte\u00fado certamente girou em torno dos desafios de uma miss\u00e3o evangelistica na Universidade de Cambridge, e muito provavelmente sobre o teor das cr\u00edticas que Graham vinha recebendo de algumas personalidades do mundo acad\u00eamico da Inglaterra. Mas \u00e9 absolutamente interessante o fato de os dois principais l\u00edderes do evangelicalismo terem procurado C.S.Lewis, que era visto por muitos conservadores norte-americanos, de uma forma bastante deturpada, como algu\u00e9m que enquanto n\u00e3o escrevia sobre faunos e drag\u00f5es, estava quase certamente fumando e bebendo com seus alunos da faculdade, ou, na melhor das hip\u00f3teses, como uma personalidade exc\u00eantrica que estava longe dos padr\u00f5es evangelicais. No entanto, embora muitos conservadores pintassem uma caricatura de Lewis no m\u00ednimo exagerada, os pilares do evangelicalismo eram nitidamente observ\u00e1veis na obra de Lewis. Em uma das melhores an\u00e1lises do novo engajamento evang\u00e9lico, Alister E. McGrath prop\u00f5e a seguinte base ess\u00eancial para o movimento:<\/p>\n<p id=\"b361\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Um enfoque, tanto devocional quanto teol\u00f3gico na pessoa de Jesus Cristo, especialmente sua morte na Cruz; a identifica\u00e7\u00e3o da Escritura como autoridade suprema em mat\u00e9ria de espiritualidade, doutrina e \u00e9tica; uma \u00eanfase na convers\u00e3o ou no &#8220;novo nascimento&#8221;, como uma experi\u00eancia religiosa que transforma a vida; uma preocupa\u00e7\u00e3o em compartilhar a f\u00e9, especialmente por meio da evangeliza\u00e7\u00e3o.\u2074\u00b9<\/p>\n<p id=\"ea1e\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Embora eu n\u00e3o me arrisque a fazer uma distin\u00e7\u00e3o de \u00eanfase t\u0101o bem marcada assim na obra de Lewis, eu diria com bastante facilidade que estes s\u00e3o quatro pontos essenciais em seu pensamento.<\/p>\n<ol class=\"postList\">\n<li id=\"bd74\" class=\"graf graf--li graf-after--p\">Em primeiro&nbsp;lugar, n\u00f3s j\u00e1 vimos anteriormente, por exemplo, que as dimens\u00f5es hist\u00f3ricas e mito-po\u00e9ticas do mito tornado fato fizeram da obra de Jesus Cristo o evento central na cosmovis\u0101o de C.S.Lewis, e que realmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma gota do seu pensamento que n\u00e3o tenha sido inundada pelo oceano da cristologia do Novo Testamento. Como J.I.Packer bem definiu, Lewis tornou-se um homem especificamente centrado em Jesus Cristo.<\/li>\n<li id=\"a881\" class=\"graf graf--li graf-after--li\">Em segundo lugar, tamb\u00e9m podemos dizer com certa confian\u00e7a que, embora os evang\u00e9licos tenham feito observa\u00e7\u00f5es pertinentes ao conceito que Lewis atribuiu \u00e0s Escrituras, \u00e9 ponto pac\u00edfico que ele tenha feito uma abordagem que n\u00e3o deixa escapar nenhuma parcela da autoridade b\u00edblica como &#8220;escritos &#8216;santos\u2019, &#8216;inspirados\u2019, ou, como diz o ap\u00f3stolo Paulo, &#8216;os or\u00e1culos de Deus.\u2019\u201d\u2074\u00b2<\/li>\n<li id=\"f228\" class=\"graf graf--li graf-after--li\">O terceiro ponto coincidente em \u00eanfase, tanto para Lewis quanto para o evangelicalismo, \u00e9 a necessidade da convers\u00e3o como ponto inicial para uma mudan\u00e7a moral e \u00e9tica que leva o indiv\u00edduo a uma nova vida. Apesar de alguns de seus cr\u00edticos terem interpretado de forma errada alguns conceitos de Lewis com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade racional, ele nunca entendeu a convers\u00e3o como alguma esp\u00e9cie de &#8220;estiramento da mente&#8221;, mas, assim como John Stott, &#8220;a submiss\u00e3o humilde (e inteligente) da mente a uma revela\u00e7\u00e3o divina.&#8221;<\/li>\n<li id=\"260c\" class=\"graf graf--li graf-after--li\">Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, os evang\u00e9licos t\u00eam se identificado com Lewis a respeito da necessidade de compartilhar a f\u00e9. Como conta A.N.Wilson, um de seus principais bi\u00f3grafos, ao se encontrar em uma conversa com um homem que fez parte do corpo docente do Magdalen College na mesma \u00e9poca que Lewis, Wilson se surpreendeu ao ouvir aquele velho anci\u0101o descrever Lewis como &#8220;o pior homem que eu conheci na vida&#8221;, ao indagar sobre quais motivos o levaram a pensar assim, o homem n\u00e3o objetou em responder que se devia ao fato de Lewis acreditar em Deus e, o que para ele era um absurdo, usar sua &#8220;perspic\u00e1cia para corromper os jovens.&#8221;\u2074\u00b3 De fato, todos os seus bi\u00f3grafos concordariam que foi o compromisso de Lewis em compartilhar sua f\u00e9 que diminu\u00edram suas possibilidades de uma c\u00e1tedra em Oxford.<\/li>\n<\/ol>\n<p id=\"1b8c\" class=\"graf graf--p graf-after--li\">Apesar de todos esses pontos serem encontrados em lugar de destaque nas obras de Lewis, algu\u00e9m poderia legitimamente se perguntar se eles tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o encontrados em escala ainda maior nas obras de in\u00fameros outros autores. Por que ent\u00e3o os evang\u00e9licos insistem tanto em C.S.Lewis?<br \/>\nEm primeiro lugar, o passo inicial para a teologia conservadora se livrar daquilo que Carl F. H. Henry chamou de a &#8220;consci\u00eancia inquieta do fundamentalismo&#8221;, era se engajar intelectualmente com a cultura, para tanto surgiu a import\u00e2ncia da apolog\u00e9tica. Os escritos de C.S.Lewis logo foram reconhecidos como fontes intuitivas indispens\u00e1veis para tal tarefa, \u00e9 especialmente not\u00f3rio o fato de Carl F. H. Henry, tido por muitos como o principal te\u00f3logo do evangelicalismo, ter convidado Lewis a escrever alguns artigos apolog\u00e9ticos para a Christianity Today no mesmo ano em que aceitou o convite de Billy Graham para ser o primeiro editor da mesma, que foi durante muito tempo a principal revista evangelical norte americana. Lewis recusou o convite de Henry, &#8220;no que se referia a ataques frontais&#8221; em termos de uma apolog\u00e9tica argumentativa, Lewis sentia &#8220;com toda certeza&#8221; que j\u00e1 havia feito o poss\u00edvel. Agora ele preferia abordar os mesmos temas teol\u00f3gicos e filos\u00f3ficos de uma forma mais liter\u00e1ria, de modo que ele pudesse fazer mais uso dos m\u00e9todos de &#8220;fic\u00e7\u00e3o e s\u00edmbolo&#8221;.\u2074\u2074<\/p>\n<p id=\"0f68\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Embora Henry aparentemente n\u00e3o tenha notado a import\u00e2ncia da resposta de Lewis, a mudan\u00e7a de um enfoque argumentativo para uma esp\u00e9cie de apolog\u00e9tica imaginativa seria futuramente uma das caracter\u00edsticas mais atraentes de Lewis para o engajamento do evangelicalismo com a cultura. O interesse de te\u00f3logos evang\u00e9licos nessa peculiar caracter\u00edstica de Lewis foi muito bem pontuado por Alister McGrath:<\/p>\n<p id=\"fe67\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">&#8220;Lendo Lewis, os evang\u00e9licos norte-americanos descobriram uma vis\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 intelectualmente robusta, imaginativamente atrativa e eticamente f\u00e9rtil. Aqueles que, no in\u00edcio, valorizavam Lewis por sua defesa racional da f\u00e9 crist\u00e3, agora se viram apreciando seu apelo imaginativo e emocional. A concep\u00e7\u00e3o multifacetada do cristianismo de Lewis capacitou os evang\u00e9licos a pereceber que eles podiam enriquecer sua f\u00e9 sem dilu\u00ed-la e ocupar-se da cultura secular de outras maneiras al\u00e9m da argumenta\u00e7\u00e3o racional.&#8221;\u2074\u2075<\/p>\n<p id=\"1dd0\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Esse interesse, t\u00eam muito a ver com a passagem da modernidade para a p\u00f3s-modernidade, uma mudan\u00e7a que entre outras caracter\u00edsticas fundamentou-se em modos mais intuitivos de reflex\u00e3o, moldados por imagens e hist\u00f3rias, que foi a supera\u00e7\u00e3o de uma argumenta\u00e7\u00e3o puramente l\u00f3gica, baseada exclusivamente na raz\u0101o. Nesse sentido, McGrath faz um interessante paralelo entre a abordagem de John Stott, um dos principais l\u00edderes evangelicais, e C.S.Lewis, respondendo a indaga\u00e7\u00e3o de muitos leitores que perceberam que Lewis \u00e9 muito provavelmente o escritor mais citado entre os te\u00f3logos evangelicais:<\/p>\n<p id=\"b13b\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">&#8220;A abordagem did\u00e1tica da obra Cristianismo B\u00e1sico de John Scott tinha muitas virtudes modernistas. No entanto, com a ascens\u00e3o do p\u00f3s-modernismo, sua abordagem parecia cada vez mais atrelada a uma gera\u00e7\u00e3o anterior. Seu Cristianismo B\u00e1sico era desprovido de qualquer apelo \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, ou de qualquer reconhecimento das dimens\u00f5es emocionais da f\u00e9. Quando os evang\u00e9licos norte-americanos perceberam a import\u00e2ncia da narrativa e da imagina\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica da f\u00e9, eles imediatamente se voltaram para Lewis adotando-o como guia.<br \/>\nLewis permitia que seus leitores entendessem a import\u00e2ncia das imagens e hist\u00f3rias para a f\u00e9, e delas se beneficiassem, sem perder de vista a natureza fortemente racional do evangelho crist\u00e3o. Enquanto os evang\u00e9licos norte-americanos mais velhos gastavam seu tempo atirando contra a p\u00f3s-modernidade nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, os escritos de Lewis permitiam que evang\u00e9licos mais jovens se conectassem a esse novo \u00e2nimo cultural. Enquanto a velha guarda estimulava seus seguidores mais jovens a evitar essa tend\u00eancia, Lewis permitia que eles se servissem dela de forma vigorosa e persuasiva.&#8221;\u2074\u2076<\/p>\n<p id=\"93ba\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Sem d\u00favida, a abrang\u00eancia de sua obra fez com que os escritos de Lewis se tornassem incontorn\u00e1veis para muitos evang\u00e9licos, levando alguns de seus principais livros ganharem, em menos de 50 anos, status de cl\u00e1ssicos. Lewis se tornou para muitos, especialmente para o novo engajamento evangelical, o que Chesterton foi e ainda \u00e9 para o catolicismo, ou ainda mais que isso. Em 1998, por exemplo, a Christianity Today, em comemora\u00e7\u0101o ao centen\u00e1rio do nascimento de Lewis, declarou que o escritor brit\u00e2nico se tornou &#8220;o Tom\u00e1s de Aquino, o Agostinho e o Esopo do evangelicalismo contempor\u00e2neo&#8221;.\u2074\u2077 Essa d\u00edvida demonstra claramente que, mesmo com todas as ressalvas que o evangelicalismo t\u00eam feito \u00e0 teologia de Lewis, seu legado tornou-se uma de suas fontes principais. Apesar de boa parte dos l\u00edderes fundamentalistas do s\u00e9culo XX terem rejeitado a teologia de C.S.Lewis em uma an\u00e1lise r\u00e1pida e simplista, um n\u00famero significativo dos principais l\u00edderes evangelicais concordariam rapidamente com o Dr. Russell P. Shedd em que &#8220;\u00e9 mesmo dif\u00edcil menosprezar esse gigante das letras, mesmo quando n\u0101o temos a capacidade de captar todas as nuan\u00e7as da ampla compreens\u00e3o que ele tinha do cristianismo&#8221;.\u2074\u2078 Ou ainda com a \u00e9pica conclus\u00e3o do Dr. J.I.Packer, que teve de admitir que &#8220;no fundo&nbsp;&#8230; ele era um mito.&#8221;\u2074\u2079<\/p>\n<h4 id=\"205e\" class=\"graf graf--h4 graf-after--p\">Conclus\u00e3o:<\/h4>\n<p id=\"13ac\" class=\"graf graf--p graf-after--h4\">Al\u00e9m disso, pode-se argumentar a favor de uma influ\u00eancia que vai muito al\u00e9m das trincheiras evangelicais.<br \/>\nApesar de sua produ\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica ter agradado especialmente o novo engajamento cultural e intelectual da ala mais conservadora do protestantismo, sua obra o colocou bem acima de qualquer sub-divis\u0101o do cristianismo. Lewis tornou-se um escritor venerado tanto por protestantes, quanto por cat\u00f3licos romanos; lido tanto por ortodoxos, quanto por liberais. Sua obra, de fato, tornou-se um fen\u00f4meno liter\u00e1rio e teol\u00f3gico que dispensa qualquer compartimento denominacional. Pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p id=\"63e4\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Uma das mais importantes caracter\u00edsticas da abordagem teol\u00f3gica de Lewis \u00e9 sua capacidade de penetrar no cerne das quest\u00f5es. A maioria de seus argumentos n\u00e3o circulam pela superf\u00edcie das controv\u00e9rsias entre cat\u00f3licos e protestantes ou entre liberais e fundamentalistas &#8211; apesar de ser bem claro alguns de seus posicionamentos &#8211; mas penetram na veia mais profunda do cristianismo, uma contribui\u00e7\u00e3o imaginativa, hist\u00f3rica e filos\u00f3fica que sem sombra de d\u00favidas permeia todos os c\u00f4modos do grande edif\u00edcio hist\u00f3rico das tradi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, um rastro de grandes marcas deixadas pelo dinossauro de Belfast. Esse \u00e9 o seu legado.<\/p>\n<p id=\"7a80\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">No&nbsp;entanto, at\u00e9 que ponto sua teologia ainda permanece relevante para os debates contempor\u00e2neos? A pergunta que sou obrigado a fazer antes de encerrar essa introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 se Lewis ainda ser\u00e1 um nome a se lembrar em obras de teologia em um futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p id=\"3a62\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Para alguns, a influ\u00eancia teol\u00f3gica de Lewis \u00e9 rasa em v\u00e1rios sentidos, principalmente no que diz respeito \u00e0 sua capacidade de se manter em p\u00e9 diante do rigor acad\u00eamico da teologia contempor\u00e2nea, como j\u00e1 foi dito anteriormente, Lewis nunca adquiriu nenhuma forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica. Para v\u00e1rios cr\u00edticos teol\u00f3gicos, no entanto, a teologia de Lewis deve permanecer relevante a medida que serve de ponte dentro do contexto acad\u00eamico teol\u00f3gico com outras disciplinas relacionadas \u00e0 teologia. Os pensadores do s\u00e9c. XXI se veem cada vez mais diante do desafio de se relacionarem de forma intelectualmente robusta com outras disciplinas al\u00e9m daquelas em que s\u00e3o especializados. Te\u00f3logos contempor\u00e2neos de diferenes linhas de pensamento t\u00eam visto em Lewis uma boa porta de acesso com outras mat\u00e9rias, principalmente entre teologia, literatura e filosofia. Autores do porte acad\u00eamico de Alvin Platinga e Willian Lane Craig, por exemplo, fazem cada vez mais uso das teses de Lewis em seus programas teol\u00f3gicos. No Brasil, as obras de autores(as) como Gabriele Greggersen e Glauco Barreira Magalh\u00e3es Filho destacam-se tanto pela compet\u00eancia na abordagem dos principais insights teol\u00f3gicos de Lewis, quanto no exito acad\u00eamico em relacionar esses mesmos insights a outras \u00e1reas da educa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, tornando Lewis cada vez mais conhecido dentro das universidades brasileiras. A Dra. Gabriele Greggersen, por exemplo, uma das maiores especialistas em Lewis em solo brasileiro, aponta para a import\u00e2ncia de uma \u201cteologia menos alienada do mundo e mais engajada com as coisas que afetam a sociedade e a Hist\u00f3ria.\u201d\u2075\u00b9<\/p>\n<p id=\"fb4b\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">N\u0101o h\u00e1 absolutamente nenhum sinal de que Lewis esteja perdendo sua influ\u00eancia dentro das universidades ou semin\u00e1rios, seja na Europa ou na Am\u00e9rica do Norte, e no Brasil, em particular, ele parece estar sendo cada vez mais descoberto por te\u00f3logos tupiniquins, o que demonstra que o futuro de sua obra n\u00e3o ir\u00e1 de forma nenhuma ficar restringido \u00e0s adap\u00e7\u00f5es de As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia para os filmes de Hollywood. Seu nome ainda aparece com destaque em livros como \u201cO Imagin\u00e1rio em As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia\u201d de Glauco Barreira Magalh\u00e3es Filho, \u201cO Le\u00e3o, a Feiticeira e o Guarda Roupa e a B\u00edblia\u201d da professora Gabriele Greggersen, \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 Teologia Sistem\u00e1tica\u201d de Franklin Ferreira e \u201cIntelig\u00eancia Humilhada\u201d de Jonas Madureira.<\/p>\n<p id=\"effd\" class=\"graf graf--p graf-after--p graf--trailing\">\u00c9 poss\u00edvel realmente que Lewis tenha muito a ensinar aos novos te\u00f3logos acad\u00eamicos, mesmo que ele nunca tenha sido um. Como afirma o Dr. Robert MacSwain, isso &#8220;pode ter a ver com o modo como Lewis utilizou a imagina\u00e7\u00e3o, a raz\u00e3o, o conhecimento hist\u00f3rico, a agudeza de esp\u00edrito e a razo\u00e1vel compet\u00eancia ret\u00f3rica em um esfor\u00e7o cont\u00ednuo por transmitir os fundamentos de suas convic\u00e7\u00f5es ao maior p\u00fablico poss\u00edvel.&#8221;\u2075\u2070 Seja como for, os te\u00f3logos atuais n\u0101o podem continuar esperando que Lewis saia de cena com o passar dos anos. O m\u00ednimo que podem fazer \u00e9 se apropriarem de seus escritos como um perito que se debru\u00e7a na an\u00e1lise de um esp\u00e9cime antigo em busca de informa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Para encerrar com um velho conselho de Lewis: &#8220;use seus esp\u00e9cimes enquanto voc\u00ea puder. N\u00e3o vai haver muitos outros dinossauros.&#8221;\u2075\u00b2<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<section class=\"section section--body section--last\">\n<div class=\"section-divider\">\n<hr class=\"section-divider\">\n<\/div>\n<div class=\"section-content\">\n<div class=\"section-inner sectionLayout--insetColumn\">\n<p id=\"5ed1\" class=\"graf graf--p graf--leading\">\u00b9 C.S.Lewis, De Discriptione Temporum. Palestra inaugural feita por Lewis em sua posse da c\u00e1tedra de Literatura Inglesa e Medieval na Universidade de Cambridge.<\/p>\n<p id=\"0d33\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b2 Alister E. McGrath, &#8216;\u2019A Vida de C.S.Lewis &#8211; Do Ate\u00edsmo \u00e0s Terras de N\u00e1rnia.\u2019&#8217; &#8211; S\u00e3o Paulo: Mundo Crist\u00e3o, 2013. pg. 168.<\/p>\n<p id=\"9dbe\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b3 Carta a Arthur Greeves, 18 de out. 1931; The Collected Letters, Vol. 1, pg.976.<\/p>\n<p id=\"b066\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2074 Robert MaSwain, Al\u00e9m do Universo M\u00e1gico de N\u00e1rnia, Introdu\u00e7\u00e3o &#8211; S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2015. pg. 05.<\/p>\n<p id=\"7938\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2075 C.S.Lewis, De Discriptione Temporum.<\/p>\n<p id=\"26ac\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2076 Ibid.<\/p>\n<p id=\"f9c8\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2077 Embora Lewis tamb\u00e9m tenha sido influenciado pelos padres de fala latina, foi principalmente o t\u00edpico platonismo dos padres de fala grega que mais o influenciou; e ainda que haja uma diferen\u00e7a grande entre a teologia patristica grega e a teologia medieval, a multifacetada cosmovis\u00e3o de Lewis conseguiu como poucas se aproveitar bem das duas escolas.<\/p>\n<p id=\"a80b\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2078 A Orange Order \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o irl\u00e2ndesa religiosa cuja orienta\u00e7\u00e3o protestante se deixa ofuscar pela intensa milt\u00e2ncia pol\u00edtica e fundamentalista. \u00c0 \u00e9poca em que Lewis ainda morava em Belfast, atual Irl\u00e2nda do Norte, o conflito entre cat\u00f3licos e protestantes j\u00e1 era intenso. O mais dram\u00e1tico epis\u00f3dio desse conflito ocorreu em 3o de Janeiro de 1972, nove anos ap\u00f3s a morte de Lewis, e ficou conhecido como &#8220;Domingo Sangrento&#8221; e eternizado pela banda U2 na can\u00e7\u00e3o &#8220;Sunday Bloody Sunday&#8221;.<\/p>\n<p id=\"3248\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2079 Alister E. MacGrath, A Revolu\u00e7\u00e3o Protestante &#8211; Bras\u00edlia, DF: Palavra, 2012. pg. 311.<\/p>\n<p id=\"c73b\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b9\u2070 www.rogersteer.com\/when-cs-lewis-john-stott-and-bily-graham-met\/ Visto em 20\/02\/2018.<\/p>\n<p id=\"26d4\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b9\u00b9 Time, edi\u00e7\u00e3o de 08 de Setembro de 1947.<\/p>\n<p id=\"19e4\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b9\u00b2 C.S.Lewis, God in the Dock.<\/p>\n<p id=\"863e\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b9\u00b3 Carta a Jenet Wis, 5 de out. 1955<\/p>\n<p id=\"dd0d\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b9\u2074C.S.Lewis, Milagres &#8211; S\u00e3o Paulo: Editora Vida, 2006. pg. 203\/204<\/p>\n<p id=\"4b2f\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b9\u2075 Ibid. pg.204<\/p>\n<p id=\"0be0\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b9\u2076 C.S.Lewis, 18 de outubro de 1971. Lerrer to His Best Friend Arthur Greeves &#8211; London: Fount, 1961. pg.288.<\/p>\n<p id=\"27d0\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b9\u2077 Ibid.<\/p>\n<p id=\"0586\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b9\u2078 Retirado de: www.ultimato.com.br\/conteudo\/criacao-e-evolucao-qual-e-o-problema Visto em 21\/02\/2018.<\/p>\n<p id=\"384e\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b9\u2079 Ibid.<\/p>\n<p id=\"b1b4\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b2\u2070 Ibid.<\/p>\n<p id=\"9206\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b2\u00b9 Kevin J. Vanhoozer, Al\u00e9m do Universo M\u00e1gico de N\u00e1rnia, cap. Sobre as Escrituras &#8211; S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2015. pg. 105\/106.<\/p>\n<p id=\"a20f\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b2\u00b2 Alister E. McGrath, A Vida de C.S.Lewis &#8211; Do Ate\u00edsmo \u00e0s Terras de N\u00e1rnia &#8211; S\u00e3o Paulo: Mundo Crist\u00e3o, 2013. pg. 233.<\/p>\n<p id=\"cc44\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b2\u00b3 Alister E. McGrath, &#8220;Outside the &#8216;Inner Ring&#8217;: Lewis as Teologian,&#8221; em The Intelectual World of C.S.Lewis &#8211; Oxford: Wiley-Blackwell, 2013. pg. 163-83. In.: Alister E McGrath, Conversando com C.S.Lewis &#8211; S\u00e3o Paulo: Planet, 2014.<\/p>\n<p id=\"d142\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b2\u2074 C.S.Lewis, Cristianismo Puro e Simples &#8211; S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2009. pg.73-4.<\/p>\n<p id=\"470a\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b2\u2075 Stanley Hauerwas, The peaceable kingdom &#8211; Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1983. pg. 26<\/p>\n<p id=\"b7c9\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b2\u2076 C.S.Lewis, Cristianismo Puro e Simples &#8211; S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2009. pg. 72.<\/p>\n<p id=\"dc39\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b2\u2077 Ibid.<\/p>\n<p id=\"bab7\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b2\u2078 Douglas Wilson, O Racionalista Rom\u00e2ntico, cap.03 &#8211; Bras\u00edlia, DF: Editora Monergismo, 2017. pg.92.<\/p>\n<p id=\"e8a8\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b2\u2079 C.S.Lewis, Cristianismo Puro e Simples &#8211; S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2009. pg.75-6.<\/p>\n<p id=\"1e78\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b3\u2070 Retirado de: www.monergismo.com\/texto\/apologetica\/a-teologia-cslewis_van-til.pdf Visto em 25\/02\/2018<\/p>\n<p id=\"6416\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b3\u00b9 Justo Gonzales, Uma breve Hist\u00f3ria das Doutrinas Crist\u00e3s &#8211; S\u00e3o Paulo: Hagnos, 2015. pg.151.<\/p>\n<p id=\"af9f\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b3\u00b2 Joseph Ratzinger, Jesus de Nazar\u00e9: da entrada em Jerusal\u00e9m at\u00e9 a ressurrei\u00e7\u00e3o &#8211; S\u00e3o Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011. Vers\u00e3o Kindle, 2865.<\/p>\n<p id=\"0a45\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b3\u00b3 www.touchstonemag.com\/archives\/article.php?id=20-02-028-f Visto em 25\/02\/2018.<\/p>\n<p id=\"b58d\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b3\u2074 Louis Berkhof, Teologia Sistem\u00e1tica &#8211; Campinas: Luz para o Caminho Publica\u00e7\u00f5es, 1990. pg. 392.<\/p>\n<p id=\"b16f\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b3\u2075 Retirado de: www.touchstonemag.com\/archives\/article.php?id=20-02-028-f Visto em 25\/02\/2018.<\/p>\n<p id=\"25d3\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b3\u2076 J.I.Packer, &#8220;What did the cross achieve? The Logic of penal substitution&#8221;, Tyndale Bulletin 25 (1974), 3-45. In.: Alister E. McGrath, Teologia Sistem\u00e1tica &#8211; S\u00e3o Paulo: Shedd Publica\u00e7\u00f5es, 2005. pg. 486.<\/p>\n<p id=\"94c7\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b3\u2077 Retirado de: www.rogersteer.com\/when-cs-lewis-john-stott-and-bily-graham-met\/ Visto em 25\/02\/2018.<\/p>\n<p id=\"fdd1\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b3\u2078 Ibid.<\/p>\n<p id=\"45f8\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u00b3\u2079 Ibid.<\/p>\n<p id=\"45f9\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2074\u2070 Ibid.<\/p>\n<p id=\"677b\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2074\u00b9 Alister E. McGrath, Paix\u00e3o pela Verdade: Uma Introdu\u00e7\u00e3o ao Evangelicalismo &#8211; &#8211; S\u00e3o Paulo: Shedd Publica\u00e7\u00f5es, 2007. pg. 42<\/p>\n<p id=\"ac84\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2074\u00b2 C.S.Lewis, Lendo os Salmos &#8211; Vi\u00e7osa, MG: Ultimato, 2015. pg. 117<\/p>\n<p id=\"3f53\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2074\u00b3 A.N.Wilson, Lewis: A Biography, pg.191. In.: Alister E. McGrath, A Vida de C.S.Lewis: Do Ate\u00edsmo \u00e0s Terras de N\u00e1rnia &#8211; S\u00e3o Paulo: Mundo Crist\u00e3o, 2013. pg. 260.<\/p>\n<p id=\"a2a6\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2074\u2074 Alister E. McGrath, A Vida de C.S.Lewis: Do Ate\u00edsmo \u00e0s Terras de N\u00e1rnia &#8211; S\u00e3o Paulo: Mundo Crist\u00e3o, 2013. pg.275<\/p>\n<p id=\"e052\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2074\u2075 Ibid. Pg.385.<\/p>\n<p id=\"ad28\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2074\u2076 Ibid. Pg 385-86.<\/p>\n<p id=\"bbcc\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2074\u2077 Christianity Today, 7 de Set. 1998.<\/p>\n<p id=\"537e\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2074\u2078 Russel Shedd, Pref\u00e1cio em O Peso de Gl\u00f3ria &#8211; S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Vida Nova, 1993. pg. 05<\/p>\n<p id=\"6f0f\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2074\u2079 Christianity Today, 7 de Set. 1998.<\/p>\n<p id=\"29c2\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2075\u2070 Robert MaSwain, Al\u00e9m do Universo M\u00e1gico de N\u00e1rnia, Introdu\u00e7\u00e3o &#8211; S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2015. pg. 05.<\/p>\n<p id=\"98e0\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">\u2075\u00b9 Retirado de&nbsp;<a class=\"markup--anchor markup--p-anchor\" href=\"http:\/\/www.teologia\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\" data-href=\"http:\/\/www.teologia\">www.teologia<\/a>brasileira.com.br\/teologiadet.asp?codigo=64 visto em 13\/03\/2018.<\/p>\n<p id=\"b73f\" class=\"graf graf--p graf-after--p graf--trailing\">\u2075\u00b2 C.S.Lewis, De Discriptione Temporum<\/p>\n<p>Fonte:&nbsp;https:\/\/medium.com\/@filipegalhardosantana\/um-dinossauro-no-s\u00e9c-xx-uma-introdu\u00e7\u00e3o-\u00e0-teologia-de-c-s-lewis-e8d78a5333db<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;por Filipe Galhardo Amante de Literatura, Teologia e Filosofia, editor de Sociedade C.S.Lewis Brasil. Por Filipe Galhardo Sant\u2019anna. \u201cUma coisa eu sei: eu daria muito para ouvir qualquer ateniense antigo, mesmo um est\u00fapido, falando sobre a trag\u00e9dia grega.\u201d C.S.Lewis, De Descriptione Temporum \u00b9 Era uma noite de s\u00e1bado, 19 de setembro de 1931, tr\u00eas professores [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[29086],"tags":[5304,29409,29270],"class_list":["post-1002","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-em-portugues","tag-c-s-lewis","tag-dinossauro","tag-mitologia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1002","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1002"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1002\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1029,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1002\/revisions\/1029"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1002"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1002"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cslewis\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1002"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}