{"id":493,"date":"2014-10-27T14:27:44","date_gmt":"2014-10-27T17:27:44","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/casamentoefamilia\/?p=493"},"modified":"2014-10-27T14:27:44","modified_gmt":"2014-10-27T17:27:44","slug":"timidez-e-doenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/casamentoefamilia\/2014\/10\/27\/timidez-e-doenca\/","title":{"rendered":"TIMIDEZ \u00c9 DOEN\u00c7A?"},"content":{"rendered":"<p>Ana chegou ao consult\u00f3rio acompanhada de sua m\u00e3e. Era uma adolescente de 16 anos, bastante obesa e com muitas espinhas no rosto. Logo que come\u00e7amos a conversar percebi que ela era pouco comunicativa e que todas as perguntas que eu dirigia a ela, a m\u00e3e se encarregava de responder.<\/p>\n<p>&#8211; Ela \u00e9 muito t\u00edmida! \u2013 repetia a m\u00e3e constantemente.<\/p>\n<p>Terminada aquela entrevista, eu pedi que Ana retornasse a uma segunda conversa sozinha. Nesta segunda conversa ela foi aos poucos se soltando e, apesar de estar sempre cabisbaixa e com um riso nervoso constante, conseguimos interagir bem mais. Nos encontros que se sucederam Ana j\u00e1 pode expressar um pouco mais de seus sentimentos e n\u00e3o se mostrou como a m\u00e3e insistia em descreve-la: T\u00cdMIDA!<\/p>\n<p>Podemos pensar um pouquinho no que aconteceu. Timidez \u00e9 doen\u00e7a? Pelo menos este foi o motivo pelo qual a m\u00e3e trouxe Ana ao consult\u00f3rio.<\/p>\n<p>O grande psic\u00f3logo Carl Gustav Jung, no in\u00edcio do s\u00e9culo nos apresentava uma teoria dos temperamentos, na qual descrevia dois tipos b\u00e1sicos: os extrovertidos e os introvertidos, sendo estes \u00faltimos os que reputamos por pessoas t\u00edmidas. A id\u00e9ia embutida em todas as teorias sobre temperamentos \u00e9 que as pessoas j\u00e1 nascem com certas predisposi\u00e7\u00f5es para comportar-se desta ou daquela forma.<\/p>\n<p>No meio crist\u00e3o, o famoso autor Tim la Haye fez muito sucesso na d\u00e9cada de 80 (em alguns lugares faz at\u00e9 hoje), com seus livros sobre temperamento controlado pelo Esp\u00edrito Santo, no qual ele retoma, n\u00e3o a teoria do in\u00edcio do s\u00e9culo de Jung, mas a teoria de Hip\u00f3crates e divide as pessoas em 4 temperamentos. Muito comum ent\u00e3o era, no in\u00edcio dos anos 80, encontrar pessoas que se auto-explicavam (ou auto-escondiam) atrav\u00e9s dos temperamentos de La Haye \/ Hip\u00f3crates, e ainda aqueles que queriam sempre explicar o comportamento dos outros pelos mesmos pressupostos.<\/p>\n<p>O comportamento humano n\u00e3o \u00e9 algo que se esgote em explica\u00e7\u00f5es simplistas, que muitas vezes causam mais danos que benef\u00edcios (um destes \u00e9 a pessoa tentar desculpar-se de todos seus maus comportamentos atrav\u00e9s de teorias deterministas: \u201ceu nasci assim&#8230;\u201d).<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o em jogo \u00e9 saber: nascemos com comportamentos pr\u00e9-determinados ou nossa personalidade \u00e9 resultado de um longo processo de intera\u00e7\u00e3o com diversos sistemas que nos influenciam e s\u00e3o influenciados por nossa presen\u00e7a de forma dial\u00e9tica?<\/p>\n<p>A timidez \u00e9 um bom recurso para respondermos esta quest\u00e3o!<\/p>\n<p>No caso de Ana que eu citei acima, sua \u201ctimidez\u201d era, na verdade, uma resposta equilibrada \u00e0 sua intera\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e. A ansiedade da m\u00e3e fazia com que ela falasse compulsivamente, n\u00e3o dando espa\u00e7o para que a Ana pudesse se expressar, o que causava um desequil\u00edbrio na forma de express\u00e3o desta \u00faltima.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias s\u00e3o um sistema de relacionamentos que busca constantemente um equil\u00edbrio em suas formas de intera\u00e7\u00e3o. Este equil\u00edbrio \u00e9 din\u00e2mico e est\u00e1 sempre buscando novas organiza\u00e7\u00f5es. Gosto de ilustrar sempre a fam\u00edlia como se fosse um \u201cm\u00f3bile\u201d, daqueles que penduramos de enfeite no quarto do beb\u00ea. \u00c9 algo em equil\u00edbrio, mas ao mesmo tempo em constante movimento, com os elementos ligados entre si por meio de fios invis\u00edveis. Quando tocamos em um elemento do m\u00f3bile, todos os outros s\u00e3o afetados.<\/p>\n<p>No caso da timidez o que ocorre \u00e9 o que denominamos de \u2018POLARIZA\u00c7\u00c3O\u2019. Que \u00e9 isto? Explico: uma polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de busca de equil\u00edbrio dentro do sistema no qual elementos distanciam-se em dire\u00e7\u00f5es opostas a fim de que todo o sistema possa continuar harmoniosamente. Seria como de uma pe\u00e7a do m\u00f3bile fosse colocada mais para a ponta da trava que a sustenta e logo a pe\u00e7a que fazia o contra-peso tem que ser afastada tamb\u00e9m para a extremidade para que se alcance novamente o equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Quando um elemento na fam\u00edlia ocupa muito espa\u00e7o social (fala muito, toma muitas iniciativas, etc.) os demais membros, ou pelo menos um membro espec\u00edfico, ter\u00e1 que equilibrar isto apresentando algum tipo de retra\u00e7\u00e3o social \u2013 o que popularmente conhecemos por TIMIDEZ!<\/p>\n<p>Assim, como no caso de Ana, a timidez pode ser provocada, n\u00e3o por fatores biol\u00f3gicos, mas por fatores interacionais. A m\u00e3e de Ana falava por ela, era sua boca \u2013 n\u00e3o havia sentido de Ana ocupar um espa\u00e7o que j\u00e1 estava ocupado. Ela ocupava o espa\u00e7o do sil\u00eancio, que provavelmente n\u00e3o era ocupado por ningu\u00e9m na fam\u00edlia. Assim a m\u00e3e \u201cfalava pelas duas\u201d enquanto Ana \u201ccalava pelas duas\u201d, isto \u00e9 uma polariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se a timidez tivesse apenas componentes biol\u00f3gicos, seria determinista, ou seja, ser\u00edamos t\u00edmidos todo o tempo \u2013 o que na realidade n\u00e3o acontece. Fatores biol\u00f3gicos s\u00e3o imut\u00e1veis (como a cor dos olhos, estatura, etc.), mas fatores condutuais n\u00e3o. Voc\u00ea mesmo(a) caro(a) leitor(a) j\u00e1 deve ter experimentado a sensa\u00e7\u00e3o de ser bastante inibido em uma determinada situa\u00e7\u00e3o social e ser bastante expansivo em outra. Eu, por exemplo, posso enfrentar uma plat\u00e9ia de 1.000 pessoas quando dou palestras e confer\u00eancias, sem nenhum constrangimento, mas algumas vezes fico constrangido de entrar em uma loja e perguntar o pre\u00e7o de uma mercadoria a um vendedor ou de entabular uma conversa\u00e7\u00e3o em uma festa na qual n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m \u2013 nestes momentos sinto-me t\u00edmido. Ent\u00e3o eu pergunto: em qual classifica\u00e7\u00e3o de temperamentos eu me enquadro?<\/p>\n<p>Prefiro entender que a timidez, como qualquer outra conduta social, \u00e9 resultado da intera\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios fatores e que se manifesta nas inter-rela\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o diferentes em cada caso.<\/p>\n<p>Finalmente uma palavra sobre o que fazer para quebrar as polariza\u00e7\u00f5es e re-equilibrar o sistema, evitando que haja \u201ct\u00edmidos\u201d e \u201cexpansivos\u201d, mas que haja um pouco de cada em todos. O primeiro passo \u00e9 renunciar as posi\u00e7\u00f5es polarizadas.<\/p>\n<p>As pessoas expansivas devem dar espa\u00e7o para as menos expansivas de se manifestarem. Isso \u00e0s vezes pode ser dif\u00edcil, ter que ag\u00fcentar o sil\u00eancio do outro em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa ansiedade de falar e resolver r\u00e1pido as coisas. Por outro lado sair do comodismo de ficar quieto e reivindicar seu espa\u00e7o de manifesta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m exige um esfor\u00e7o. S\u00e3o processos longos de aprendizado, mas que conduzem a um melhor ponto de equil\u00edbrio \u2013 pelo menos onde as pessoas v\u00e3o estar mais pr\u00f3ximas umas das outras neste equil\u00edbrio. E no final \u00e9 isto que importa: QUE ESTEJAMOS PROXIMOS UNS DOS OUTROS, solid\u00e1rios e capazes de transmitir afeto e calor humano.<\/p>\n<p>Lembrando sempre que podemos contar com a for\u00e7a sobrenatural do Esp\u00edrito Santo que nos capacita a extrairmos for\u00e7as para as mudan\u00e7as de onde n\u00e3o temos for\u00e7as! Que a gra\u00e7a de Deus nos habilite a mudarmos para termos fam\u00edlias e sermos pessoas mais equilibradas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana chegou ao consult\u00f3rio acompanhada de sua m\u00e3e. Era uma adolescente de 16 anos, bastante obesa e com muitas espinhas no rosto. 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