{"id":7,"date":"2009-06-08T09:03:55","date_gmt":"2009-06-08T12:03:55","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/blogs\/cartas_freud_pfister\/?page_id=7"},"modified":"2009-06-09T12:29:50","modified_gmt":"2009-06-09T15:29:50","slug":"o-que-disseram","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/cartas_freud_pfister\/o-que-disseram\/","title":{"rendered":"O que disseram"},"content":{"rendered":"<h3>O amigo discreto de Freud<\/h3>\n<p><em>C&eacute;lia de Gouv&ecirc;a Franco<br \/>\nFolha de S&atilde;o Paulo, Caderno Mais!<\/em><\/p>\n<p>Durante quase 30 anos, entre 1909 e 1938, Sigmund Freud manteve estreita amizade com um personagem &mdash; hoje pouco conhecido mesmo entre psic&oacute;logos e psiquiatras &mdash; que destoava do perfil do c&iacute;rculo de amigos e seguidores do &quot;pai da psican&aacute;lise&quot;.<\/p>\n<p>O su&iacute;&ccedil;o Oskar Pfister era diferente de Freud em muitos aspectos, a come&ccedil;ar pela religi&atilde;o. Enquanto Freud se definia como &quot;um herege incur&aacute;vel&quot;, Pfister n&atilde;o apenas era religioso, mas tamb&eacute;m te&oacute;logo e pastor da Igreja Reformada Su&iacute;&ccedil;a, al&eacute;m de professor e psicanalista &mdash; por influ&ecirc;ncia de Freud.<\/p>\n<p>Apesar das diferen&ccedil;as na quest&atilde;o religiosa, os dois se corresponderam durante quase tr&ecirc;s d&eacute;cadas e se tornaram amigos, visitando um a casa do outro e trocando presentes e confid&ecirc;ncias sobre a fam&iacute;lia, os amigos e mesmo os pacientes. Um exemplo da intimidade que se estabeleceu entre os dois: numa carta, Freud escreveu que conhecia, sim, L., um tradutor sobre o qual Pfister queria informa&ccedil;&otilde;es, e depois o descrevia como &quot;um sujeito bastante limitado e rude, na verdade um completo burro&quot;.<\/p>\n<p>As cartas tratam de tudo, das v&aacute;rias correntes de ideias sobre psican&aacute;lise e &eacute;tica at&eacute; os fatos rotineiros, como as f&eacute;rias em fam&iacute;lia e a doen&ccedil;a &mdash; eczema &mdash; do cachorro da filha de Freud.<\/p>\n<p>Talvez por causa do seu temperamento cordato, Pfister acabou sendo um dos poucos seguidores de Freud a n&atilde;o ter atrito s&eacute;rio com ele ou que n&atilde;o romperam a amizade &mdash; como ocorreu, por exemplo, com Carl Jung.<\/p>\n<p>Ele se tornou, gradualmente, amigo de toda a fam&iacute;lia Freud.<\/p>\n<p>&quot;No ambiente dom&eacute;stico dos Freud, alheio a toda vida religiosa, Pfister, com seus trajes religiosos e apar&ecirc;ncia e atitude de um pastor, era uma apari&ccedil;&atilde;o de um mundo estranho. No seu modo de ser n&atilde;o havia nada da atitude cient&iacute;fica quase apaixonada e impaciente com a qual outros pioneiros da an&aacute;lise encaravam o tempo passado &agrave; mesa com a fam&iacute;lia como uma mal-vinda interrup&ccedil;&atilde;o das suas discuss&otilde;es te&oacute;ricas e cl&iacute;nicas&quot;, recorda-se a filha de Freud, Anna, num depoimento de 1962.<\/p>\n<p>Pfister se aproximou de Freud por interm&eacute;dio de Jung, que foi seu supervisor quando Pfister come&ccedil;ou a estudar seriamente os princ&iacute;pios da psican&aacute;lise.<\/p>\n<p>Pfister come&ccedil;ou a escrever para Freud e a partir da&iacute; passaram a trocar cartas regularmente. Sobreviveram 134 manuscritos de Freud &mdash; cartas, bilhetes, cart&otilde;es-postais.<\/p>\n<p>A maior parte dessa correspond&ecirc;ncia e algumas cartas de Pfister foram publicadas em v&aacute;rios pa&iacute;ses na d&eacute;cada de 60, mas s&oacute; agora aparecem em portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p>A obra foi lan&ccedil;ada na Bienal do Livro como &quot;Cartas entre Freud e Pfister (1909-1939) &mdash; Um Di&aacute;logo entre a Psican&aacute;lise e a F&eacute; Crist&atilde;&quot;, traduzido pela psicanalista Karin Hellen Kepler Wondracek, numa edi&ccedil;&atilde;o conjunta do Corpo de Psic&oacute;logos e Psiquiatras Crist&atilde;os e da Editora Ultimato.<\/p>\n<p>Algumas das cartas tratam da possibilidade de conciliar religi&atilde;o e psican&aacute;lise. Em 1927, Freud publica seu livro &quot;O Futuro de uma Ilus&atilde;o&quot;, em que trata &quot;da minha posi&ccedil;&atilde;o totalmente contr&aacute;ria &agrave; religi&atilde;o &#8211; em todas as formas e dilui&ccedil;&otilde;es&quot;.<\/p>\n<p>Na carta em que anuncia o livro, Freud confessa que adiou o m&aacute;ximo que p&ocirc;de o seu lan&ccedil;amento exatamente por causa do amigo &mdash; temia que a situa&ccedil;&atilde;o fosse constrangedora para Pfister.<\/p>\n<p>Da Su&iacute;&ccedil;a, Pfister responde que &quot;sua rejei&ccedil;&atilde;o da religi&atilde;o n&atilde;o me traz nada de novo. Um advers&aacute;rio de grande capacidade intelectual &eacute; mais &uacute;til &agrave; religi&atilde;o que mil adeptos in&uacute;teis&quot;. E, no ano seguinte, escreve um livro &mdash; &quot;A Ilus&atilde;o de um Futuro&quot; &mdash; para rebater as ideias de Freud.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<h3>Psican&aacute;lise e f&eacute;<\/h3>\n<p><em>Estado de Minas, Recomendamos, 20\/05\/1998<\/em><\/p>\n<p>Com 200 p&aacute;ginas, &quot;Cartas entre Freud e Pfister &mdash; Um di&aacute;logo entre a psican&aacute;lise e a f&eacute; crist&atilde;&quot; traz a correspond&ecirc;ncia entre Freud e Pfister no per&iacute;odo de 1909 a 1939. A troca de cartas se d&aacute; em clima de amizade e, pouco a pouco, trocam ideias e textos. Oskar Pfister nasceu em Zurique, Su&iacute;&ccedil;a. Estudou teologia e filosofia em Zurique, Basileia e Berlim, tendo trabalhado na educa&ccedil;&atilde;o e orienta&ccedil;&atilde;o de jovens. Na obra, lan&ccedil;amento da Ultimato, s&atilde;o tratadas com simplicidade e profundidade surpreendentes quest&otilde;es da t&eacute;cnica psicanal&iacute;tica, al&eacute;m do registro de coment&aacute;rios sobre quest&otilde;es pedag&oacute;gicas e educacionais. O aspecto religioso tamb&eacute;m &eacute; abordado. Freud &eacute; judeu e ateu. Pfister, um pastor protestante que se refere a Freud como o &quot;amado advers&aacute;rio&quot;. &quot;Cartas&quot; &eacute; de grande import&acirc;ncia para profissionais-de-ajuda, como psicanalistas, psic&oacute;logos, sacerdotes e educadores.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<h3>D&uacute;vidas de um ateu e certezas de um pastor<\/h3>\n<p>Editora evang&eacute;lica publica cartas trocadas durante 30 anos entre Sigmund Freud e o te&oacute;logo protestante Oskar Pfister<br \/>\n<em>Waldo C&eacute;sar<br \/>\nJornal do Brasil, Caderno Ideias, 04\/07\/1998<\/em><\/p>\n<p>Biografias e autobiografias, mem&oacute;rias e romances hist&oacute;ricos periodicamente voltam &agrave;s editoras. Chegou-se a falar, entre n&oacute;s em boom da hist&oacute;ria romanceada, onde realidade e fic&ccedil;&atilde;o, fonte documental e inven&ccedil;&atilde;o, se atropelam numa intrincada correla&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o importa qu&atilde;o deliberada ou o quanto possam confundir o leitor &#8211; pois, afinal, n&atilde;o depende a &ldquo;verdade hist&oacute;rica&rdquo; da posi&ccedil;&atilde;o dos que a escreveram, e dos. que a interpretam? O fen&ocirc;meno n&atilde;o &eacute; apenas nosso. Indianos que pretendiam reaver a hist&oacute;ria do seu pa&iacute;s a partir do ponto vista nativo, tiveram uma dificuldade primordial: eram brit&acirc;nicos os que haviam redigido os documentos, como lembra o historiador ingl&ecirc;s Peter Burke (Ideias\/Livros, 14\/l\/95). E a&iacute;, certamente, o terreno &eacute; f&eacute;rtil para uma constru&ccedil;&atilde;o narrativa onde ficcional e real se interp&otilde;em e se cruzam indistintamente.<\/p>\n<p>Estas considera&ccedil;&otilde;es v&ecirc;m a prop&oacute;sito de outra fonte documental extraordin&aacute;ria: a troca de cartas em v&aacute;rios campos do conhecimento, como um legado cheio de implica&ccedil;&otilde;es pessoais, familiares, profissionais, hist&oacute;ricas &mdash; por certo menos voltadas para a fic&ccedil;&atilde;o e mais, como nos di&aacute;rios, inseridas no mundo turbulento e fascinante da confiss&atilde;o. E ainda a refer&ecirc;ncia a outros, amigos ou inimigos &#8211; revela&ccedil;&atilde;o ou confirma&ccedil;&atilde;o daquilo que mal se sabia ou jamais chegado ao conhecimento p&uacute;blico. De repente o v&eacute;u se rasga, a intimidade e a verdade (de cada um) transmuda-se num cen&aacute;rio aberto &agrave; curiosidade ou &agrave; reprova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ultimameme muita correspond&ecirc;ncia, completa ou incompleta, est&aacute; ampliando a pesquisa sobre o pensamento e obra de importantes nomes da literatura ou das ci&ecirc;ncias. Como as &quot;Cartas entre Freud e Pfister, 1909-1939&quot;, produ&ccedil;&atilde;o primorosa de uma editora evang&eacute;lica. A elegante tradu&ccedil;&atilde;o do original alem&atilde;o nos p&otilde;e diante de mais uma significativa contribui&ccedil;&atilde;o no campo da psican&aacute;lise &mdash; e da religi&atilde;o &mdash; complementando outras cole&ccedil;&otilde;es, como cerca das 1.500 cartas trocadas entre Freud e seu disc&iacute;pulo h&uacute;ngaro Sandor Ferenczi (1908-1933), nas quais se exp&otilde;em as complicadas rela&ccedil;&otilde;es afetivas entre ambos (no Brasil em edi&ccedil;&otilde;es pela Imago). Ou as 350 cartas trocadas com Jung, como entre &ldquo;pai&rdquo; e &ldquo;filho&rdquo;, desde 1906 at&eacute; o conhecido rompimento em 1913. Ou ainda com Einstein, publicadas em alem&atilde;o, franc&ecirc;s e ingl&ecirc;s, cuja venda foi oa &eacute;poca proibida na Alemanha. A novidade, de certa forma, da correspond&ecirc;ncia entre Freud e o su&iacute;&ccedil;o Oskar Pfister est&aacute; no fato de ser este um pastor protestante (e igualmente analista), na qual se destaca interessante (e cordial) debate sobre a &quot;cura secular de almas&quot; no campo &ldquo;religioso-espiritual&rdquo; trabalhadas por um ateu e por um te&oacute;logo. O subt&iacute;tulo da obra, talvez mais amplo do que sugere a sua leitura, fala de &ldquo;Um di&aacute;logo entre a psican&aacute;lise e a f&eacute; crist&atilde;&rdquo;.<\/p>\n<p>Mas os assuntos abordados durante 30 anos, em quase 100 cartas, n&atilde;o ficam por a&iacute;. Sem nenhuma ordem precisa, como acontece na espontaneidade de uma correspond&ecirc;ncia entre amigos, h&aacute; muitos outros temas, que bem poderiam constituir um rico &iacute;ndice remissivo; teologia e te&oacute;logos, milagres, Deus, Cristo, o diabo, glossolalia, ate&iacute;smo. sexo, velhice e morte, sofrimento, guerra (1914-1918). E, claro, psican&aacute;lise. Nomes conhecidos da &eacute;poca, quando as teorias de Freud despertavam curiosidade e acalorados debates, aparecem com frequ&ecirc;ncia. Carl Jung, que levou Pfister a Freud, &eacute; o mais citado (cerca de 35 vezes), ora com certo carinho, ora com ironia e desprezo. A correspond&ecirc;ncia, intensa, por vezes tocante, revela amizade profunda e m&uacute;tuo respeito apesar das marcantes diferen&ccedil;as sobre o sentido da vida e o destino humano. O interc&acirc;mbio de artigos e livros entre um e outro eram comentados com a maior franqueza. Pfister est&aacute; convicto de que a psican&aacute;lise oferecia melhor instrumenta&ccedil;&atilde;o para entender a alma, enquanto Freud dizia invejar o pastor &ldquo;quanto &agrave; possibilidade de sublima&ccedil;&atilde;o em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; religi&atilde;o&rdquo;. Por&eacute;m complementa: &ldquo;Mas a beleza da religi&atilde;o certamente n&atilde;o pertence &agrave; psican&aacute;lise. &Eacute; natural e pode permanecer assim que, na terapia, nossos caminhos se separem. Bem &agrave; parte, por que nenhum de todos estes devotos criou a psican&aacute;lise, por que foi necess&aacute;rio esperar por um judeu completamente ateu?&quot; Ao que Pfister replica&#8230; &ldquo;o senhor n&atilde;o &eacute; ateu, pois quem vive para a verdade vive com Deus, e quem luta pela liberta&ccedil;&atilde;o, segundo 1 Jo&atilde;o 4, 16. permanece em Deus.&rdquo; Freud, a cena altura, chega a classificar-se como um &quot;mau ateu&quot;. E Pfister, no belo estilo que ambos cultivavam, conclama Freud a experimentar uma inser&ccedil;&atilde;o em processos mais amplos, o que seria como &ldquo;a s&iacute;ntese das notas de uma sinfonia bethoveniana para formar a tonalidade musical&rdquo; &mdash; e assim poderia dizer que &ldquo;jamais houve crist&atilde;o melhor&rdquo;. E enquanto um lamenta que &ldquo;os te&oacute;logos permane&ccedil;am atrasados e fracassem de modo t&atilde;o lament&aacute;vel&rdquo;, envolvendo-se &ldquo;demais numa tola disputa por princ&iacute;pios&rdquo;, a resposta insiste na abertura de sua teologia para o mundo, para a qual &ldquo;um advers&aacute;rio de grande capacidade intelectual &eacute; mais &uacute;til &agrave; religi&atilde;o do que mil adeptos in&uacute;teis&rdquo;. A pol&ecirc;mica toma corpo com o famoso livro de Freud sobre a religi&atilde;o &mdash; 0 Futuro de uma Ilus&atilde;o &mdash;, ao qual Pfister rebate com A ilus&atilde;o de futuro, e tamb&eacute;m ao discutirem a contribui&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia e da t&eacute;cnica na solu&ccedil;&atilde;o dos problemas da vida; ou sobre a vis&atilde;o pessimista de Freud em confronto com uma interpreta&ccedil;&atilde;o &eacute;tico-otimista do mundo, quando o pastor cita Nietzsche e seu amigo te&oacute;logo e fil&oacute;sofo Albett Schweitzer (tamb&eacute;m m&eacute;dico e organista not&aacute;vel).<\/p>\n<p>Freud queixa-se, logo nas primeiras curtam, que &ldquo;os tempos est&atilde;o muito inquietos&rdquo;; e mais tarde reclama da velhice e da morte. O pastor tenta reanim&aacute;-lo assinalando sua concep&ccedil;&atilde;o &ldquo;progressista&rdquo; da &ldquo;puls&atilde;o da morte&rdquo;, para ele apenas um decl&iacute;nio da &ldquo;for&ccedil;a vital&rdquo; (&#8230; &ldquo;mesmo a morte dos indiv&iacute;duos n&atilde;o pode deter o desenrolar da vontade universal, mas apenas foment&aacute;-la&rdquo;). A intensidade da &eacute;poca em que viveram, presente incerto e futuro duvidoso, est&aacute; fortemente dimensionada numa incans&aacute;vel correspond&ecirc;ncia, fruto de voca&ccedil;&otilde;es inequ&iacute;vocas voltadas para uma vida mais plena, apesar de diverg&ecirc;ncias t&atilde;o marcantes. Freud diz a certa altura: &ldquo;Somente gosto de ler suas cartas; tudo nelas &eacute; vida. calor, &ecirc;xito.&rdquo; E mais uma vez termina com palavras de afeto e respeito, &ldquo;na esperan&ccedil;a de que o senhor permane&ccedil;a fiel.&rdquo;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>O interesse do psicopat&oacute;logo, do psicanalista e do psicoterapeuta nas pesquisas de Freud e de Pfister iniciadas e mantidas em suas cartas<\/h3>\n<p><em>Prof. Jos&eacute; Luiz Caon<\/em><\/p>\n<p>Uma primeira leitura das cartas trocadas entre Freud e Pfister n&atilde;o permite ao leitor ordenar exaustivamente os m&uacute;ltiplos temas contemplados por esses dois grandes pesquisadores psicanal&iacute;ticos. Mas, acredito que os psicanalistas e os psicoterapeutas, psicopat&oacute;logos ou n&atilde;o, n&atilde;o podem n&atilde;o ficar surpresos com a simplicidade e a profundidade com que s&atilde;o tratadas as quest&otilde;es da t&eacute;cnica psicanal&iacute;tica. S&atilde;o quest&otilde;es de aprendizagem.<\/p>\n<p>Outrossim, entremeando coment&aacute;rios sobre quest&otilde;es pedag&oacute;gicas e educacionais, nas quais Pfister &eacute; ex&iacute;mio pesquisador, Freud situa o processo de transfer&ecirc;ncia, processo inconsciente ou do inconsciente, com que o inconsciente &eacute; aprendente e ensinante. Ent&atilde;o, s&atilde;o novamente quest&otilde;es de aprendizagem.<\/p>\n<p>A aprendizagem equivale nos seres humanos &agrave;quilo que o instinto &eacute; nos animais. Aquela sempre construindo-se e deslocando os sujeitos humanos; esse sempre mantendo-se e retendo os sujeitos animais. Aquela, uma paix&atilde;o sem destino final; esse um destino final&iacute;stico irrevers&iacute;vel.<\/p>\n<p>&quot;Amar e trabalhar&quot; era lema desses pesquisadores. Mas, o que fizeram eles durante todo o tempo de suas vidas sen&atilde;o aprender e aprender? As cartas de Freud a Pfister revelam suas pesquisas &quot;in statu nascendi&quot;, como quando escrevia a Fliess. Essas que Freud e Pfister trocaram ao longo de muitos anos s&atilde;o cartas de pesquisas em andamento, de descobertas compartidas e de um amor parecido &agrave;quele amor dificilmente concebido, pois que n&atilde;o busca recompensa, pois que ele j&aacute; &eacute; a pr&oacute;pria recompensa.<\/p>\n<p>O enamoramento de alguns psic&oacute;logos, psiquiatras e pastores crist&atilde;os pela psican&aacute;lise produz agora a apari&ccedil;&atilde;o, em luso-brasileiro, da correspond&ecirc;ncia completa entre Freud e Pfister. Se, para eles, esse enamoramento &eacute; a pr&oacute;pria recompensa, o que n&atilde;o ser&aacute; o efeito desse enamoramento que, como chama e chamado, pode se acender em outras mentes? Era isso que Freud provocou em Pfister, e vice-versa. E &eacute; isso que as cartas provocaram nesses correspondentes, de tal forma que cartas de pesquisas, tornaram-se, como todas, ou quase todas, cartas de amor.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<h3>Cartas entre Freud &amp; Pfister 1909 &#8211; 1939<\/h3>\n<p><em>Karin Wondracek<br \/>\nEstudos de Psicologia, vol. 15, n&ordm; 1, 67-68.<\/em><\/p>\n<p>Foram lan&ccedil;adas, na Bienal de S&atilde;o Paulo, as &quot;Cartas entre Freud e Pfister 1909-1939 &mdash; Um di&aacute;logo entre psican&aacute;lise e f&eacute; religiosa&quot;. Compiladas por Ernst Freud e Heinrich Meng, com pref&aacute;cio de ambos e de Arina Freud.<\/p>\n<p>Iniciando no apogeu da rela&ccedil;&atilde;o Freud &mdash; Jung, as Cartas constituem um tocante registro da hist&oacute;ria da psican&aacute;lise e dos &uacute;ltimos 30 anos da vida de Freud. Pfister, pastor e pedagogo em Zurique, chega a Freud por interm&eacute;dio de Jung, e mostra-se fascinado com o potencial da psican&aacute;lise para a cura de almas.<\/p>\n<p>A correspond&ecirc;ncia inicia com Pfister enviando um trabalho sobre Alucina&ccedil;&atilde;o e suic&iacute;dio de alunos. Desde as primeiras linhas das Cartas percebemos a ternura com que o criador da psican&aacute;lise acolhe o religioso que busca entender a alma. E acompanhamos como, pouco a pouco, os dois trocam ideias, textos e, acima de tudo, compartilham a vida. Visitam-se, presenteiam-se, fazem confidencias e influenciam-se mutuamente. &quot;Nenhuma outra visita, desde a de Jung, fez-me tanto bem&quot;, escreve Freud. &quot;O lugar mais apraz&iacute;vel da terra? Informem-se na casa do Professor Freud&quot; indica Pfister. O cotidiano da fam&iacute;lia Freud &eacute; delineado em tons r&oacute;seos pelo amigo pastor; cenas dom&eacute;sticas partilham do conte&uacute;do das Cartas ao lado de interessantes temas da teoria e t&eacute;cnica psicanal&iacute;tica.<\/p>\n<p>Pfister, membro fundador da Se&ccedil;&atilde;o Zurique da Associa&ccedil;&atilde;o Psicanal&iacute;tica Internacional, toma parte ativa no movimento psicanal&iacute;tico. Na calidez da amizade s&atilde;o compartilhadas situa&ccedil;&otilde;es que envolvem Jung, Adler, Abraham, Rank e outros pioneiros. Os primeiros passos da psican&aacute;lise tingem-se dos tons vivos das alegrias e mazelas humanas. Ap&oacute;s a cis&atilde;o com Jung, Pfister permanece como &uacute;nico freudiano em Zurique. Em 1919, &eacute; co-fundador da Sociedade Psicanal&iacute;tica Su&iacute;&ccedil;a.<\/p>\n<p>As Cartas relatam de que forma a singular combina&ccedil;&atilde;o dos campos de atua&ccedil;&atilde;o de Pfister vai produzindo impacto nos c&iacute;rculos atingidos. Revelam a abertura de pedagogos e te&oacute;logos para com a psican&aacute;lise e tamb&eacute;m as discuss&otilde;es enfrentadas nestes campos. Como um dos primeiros analistas laicos e de crian&ccedil;as, Pfister enfrenta as pol&ecirc;micas sobre estas quest&otilde;es, e, encorajado por Freud, produz textos e palestras.<\/p>\n<p>O fato de ambos serem escritores tamb&eacute;m propiciou que comentassem muitos aspectos da produ&ccedil;&atilde;o textual em psican&aacute;lise. Assim, podemos acompanhar a gesta&ccedil;&atilde;o e o nascimento de v&aacute;rias obras, os bastidores da editora psicanal&iacute;tica, e apreciar o est&iacute;mulo m&uacute;tuo e os coment&aacute;rios cr&iacute;ticos que a amizade franca proporcionava.<\/p>\n<p>O auge da discuss&atilde;o te&oacute;rica aparece nas cartas dos anos 1927 e 1928, em tomo do lan&ccedil;amento de O Futuro de uma Ilus&atilde;o. Justamente a h&aacute;bil combina&ccedil;&atilde;o do relacionamento fecundo com a discuss&atilde;o de ideias proporciona uma vis&atilde;o mais abrangente do tema. &Eacute; fascinante acompanhar o pol&ecirc;mico di&aacute;logo sobre o livro de Freud e o processo de gera&ccedil;&atilde;o do texto-resposta que Pfister denominou A Ilus&atilde;o de um Futuro. &quot;Eu o fiz com grande alegria, pois luto por uma atuada causa com um amado advers&aacute;rio&quot; (Pfister, carta de 20.2.28). &Eacute; comovente sentir a abertura e, mais, ainda, o desejo de Freud em escutar o amigo que pensa diferente: &quot;&#8230;Alegro-me diretamente pelo seu posicionamento p&uacute;blico contra minha brochura, vai ser um refrig&eacute;rio em meio ao coro desafinado de cr&iacute;ticas, para o qual estou preparado. N&oacute;s sabemos que por caminhos diferentes lutamos pelas mesmas coisas para os pobres homens,&quot; (Freud, carta 81). Caminhos diferentes, mas entremeados de consistentes pontes, que propiciaram este longo di&aacute;logo sobre psican&aacute;lise e vis&atilde;o de mundo, &eacute;tica e religi&atilde;o. Troca fecunda que revitaliza quest&otilde;es novamente atuais.<\/p>\n<p>O livro finaliza com a carta &agrave; vi&uacute;va Martha Freud, na qual Pfister saudosamente discorre sobre a longa amizade e revela um desejo expressado por Freud a respeito do final da vida:<\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos anos eu pensava com frequ&ecirc;ncia num trecho emocionante da carta de 6.3.1910. Creio que &eacute; meu dever compartilh&aacute;-lo com a senhora. Ele&eacute;assim: &quot;N&atilde;o consigo imaginar como algo agrad&aacute;vel viver sem trabalhar. Fantasiar e trabalhar coincidem para mim; nenhuma outra coisa me agrada tanto. Este seria um indicio de felicidade, se n&atilde;o se interpusesse o pensamento assustador de que a produtividade depende totalmente de uma disposi&ccedil;&atilde;o muito delicada. Que se pode fazer num dia ou num tempo em que os pensamentos falham e as palavras n&atilde;o querem comparecer? N&atilde;o consigo livrar-me de um tremor diante desta possibilidade. Por isso mesmo rendendo-me inteiramente ao destino como conv&eacute;m a uma pessoa honesta, tenho um pedido secreto: de modo algum uma enfermidade prolongada, nenhuma paralisia da capacidade produtiva por um sofrimento corporal. Morramos dentro da armadura, como diz o rei Macbeth.&quot; Realizou-se, pois, pelo menos o desejo de acuidade intelectual, de uma morte no capacete r&eacute;gio do pensador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amigo discreto de Freud C&eacute;lia de Gouv&ecirc;a Franco Folha de S&atilde;o Paulo, Caderno Mais! 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