{"id":756,"date":"2020-07-14T19:01:18","date_gmt":"2020-07-14T22:01:18","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/caminhosdamissao\/?p=756"},"modified":"2020-07-15T14:15:30","modified_gmt":"2020-07-15T17:15:30","slug":"racismo-so-e-velado-para-aqueles-que-nao-o-sofrem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/caminhosdamissao\/2020\/07\/14\/racismo-so-e-velado-para-aqueles-que-nao-o-sofrem\/","title":{"rendered":"Racismo s\u00f3 \u00e9 velado para aqueles que n\u00e3o o sofrem"},"content":{"rendered":"<p><em>* Por Lea Ferreira<\/em><\/p>\n<p>O racismo voltou a ser pauta desde que um homem negro foi morto por um policial branco alguns dias atr\u00e1s, numa cidade dos Estados Unidos. A bandeira \u00e9 novamente levantada, protestos s\u00e3o organizados e ressurgem discuss\u00f5es sobre ter sido ou n\u00e3o um ato racista. Outros casos apareceram na m\u00eddia e em quest\u00f5es de segundos estamos novamente envoltos nesse tema.<\/p>\n<p>O assunto incomoda, provoca, assusta e nos faz refletir sobre o lado em que estamos: contra, a favor ou neutros. Quando o racismo entra em pauta, a pergunta paira diante de n\u00f3s e muitos n\u00e3o sabem como responder. Ca\u00edmos no conforto das nossas consci\u00eancias quando pensamos que n\u00e3o somos racistas porque temos amigos negros ou casamentos inter-raciais na minha fam\u00edlia. Ou que vivemos num pa\u00eds multirracial e aqui os negros n\u00e3o sofrem tanta discrimina\u00e7\u00e3o assim.<\/p>\n<p>Dizemos ainda que os negros na verdade s\u00e3o os mais racistas ou que j\u00e1 existia escravid\u00e3o na \u00c1frica antes da chegada dos europeus. Alguns n\u00e3o sabem responder porque o assunto n\u00e3o \u00e9 abordado ou quando \u00e9, \u00e9 tratado como \u201cmimimi\u201d. S\u00e3o muitas justificativas que damos como resposta. Tenho aprendido que toda hist\u00f3ria tem tr\u00eas lados: o de quem conta, o de quem ouve e o lado da pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Quero contar o meu lado na hist\u00f3ria como negra, crist\u00e3 e mission\u00e1ria.<\/p>\n<h3>Crescendo como uma mulher negra<\/h3>\n<p>Quando uma crian\u00e7a negra come\u00e7a a perceber que seu tom de pele \u00e9 diferente das que est\u00e3o ao redor, ela fica tentando imaginar como isso foi acontecer. Alguns pais n\u00e3o sabem explicar muito bem como seus ancestrais vieram parar no Brasil e falam pouco sobre a escravid\u00e3o. E o que aprendemos na escola tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda muito.<\/p>\n<p>As perguntas v\u00e3o ficando sem respostas e vai surgindo uma inquieta\u00e7\u00e3o, um v\u00e1cuo. Ao sermos confrontados com os primeiros adjetivos pejorativos, tais como neguinha, cabelo duro ou bombril, n\u00e3o sabemos como responder. Duas coisas podem acontecer: ou voc\u00ea ataca para se defender, com palavras tamb\u00e9m pejorativas, ou voc\u00ea cria uma \u201ccasca\u201d que tamb\u00e9m serve para se defender. E \u00e9 por a\u00ed que realmente come\u00e7a a caminhada do preto no ch\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos a criar defesas para continuar vivendo e sobrevivendo neste mundo ca\u00eddo, onde s\u00f3 teremos a reden\u00e7\u00e3o total e completa quando Cristo voltar. E ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1 mais dor nem pranto (Ap 21.4). At\u00e9 l\u00e1, entretanto, os negros, e outros que sofrem qualquer tipo de preconceito, continuar\u00e3o lutando.<\/p>\n<h3>O escancarar das diferen\u00e7as<\/h3>\n<p>A adolesc\u00eancia \u00e9 uma das fases mais dif\u00edceis da vida, porque voc\u00ea est\u00e1 tentando se encaixar numa sociedade em que o belo tem um estere\u00f3tipo e come\u00e7a a perceber que mesmo vivendo num pa\u00eds que se diz crist\u00e3o e multirracial, o racismo ainda impera e n\u00e3o \u00e9 velado, como muitos costumam dizer. Pode ser velado para aqueles que n\u00e3o o sofrem, mas ele est\u00e1 l\u00e1. Vivo, sentido, pungente.<\/p>\n<p>Ainda na adolesc\u00eancia, voc\u00ea come\u00e7a a perceber que, ao entrar numa loja, o seguran\u00e7a (mesmo que seja negro como voc\u00ea), come\u00e7a a te seguir. Ou a vendedora n\u00e3o presta muita aten\u00e7\u00e3o em voc\u00ea. Nessa fase os meninos aprendem que sair de casa sem documentos pode ser um risco. No seu c\u00edrculo de amigos, voc\u00ea \u00e9 uma das poucas negras. No m\u00e1ximo tr\u00eas; o restante tem outros tons de pele. Nem \u00e9 preciso mencionar o per\u00edodo da faculdade, pois as estat\u00edsticas falam por si mesmas, mesmo diante das pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voc\u00ea come\u00e7a a contar quantos iguais a voc\u00ea existem nos lugares que vai. Come\u00e7a a olhar para os lados para ver se h\u00e1 algu\u00e9m ao menos com tons de pele pr\u00f3ximos. Seus amigos te chamam de neguinha ou na hora de tirar uma foto dizem: \u201cperto de voc\u00ea vou ficar mais claro ainda!\u201d. O racismo existe realmente no Brasil? Pergunte aos pretos e as pretas que o vivenciam no dia-a-dia.<\/p>\n<h3>A ra\u00e7a influencia a viv\u00eancia mission\u00e1ria<\/h3>\n<p>Como mission\u00e1ria, nas turmas de semin\u00e1rios por onde passei havia poucos pretos se comparado ao n\u00famero de brancos. Nas viagens nacionais e internacionais que fiz a minoria \u00e9 negra. J\u00e1 fui barrada na imigra\u00e7\u00e3o de um aeroporto no sudeste asi\u00e1tico por conta do meu tom de pele; j\u00e1 procurei por produtos nessa mesma regi\u00e3o e n\u00e3o encontrei muita coisa al\u00e9m de produtos para \u201clightning\u201d (uma combina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica para clarear a pele). Ao entrar em um \u00f4nibus e sentar ao lado de uma mo\u00e7a asi\u00e1tica, ela imediatamente se levantou e ficou em p\u00e9, olhando fixamente para frente, j\u00e1 que n\u00e3o havia mais lugares vagos. N\u00e3o preciso falar do n\u00famero de t\u00e1xis que recusaram a corrida. Talvez voc\u00ea se pergunte: \u201cMas todos esses atos s\u00e3o mesmo racistas? Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sendo exagerada?\u201d. Sigamos com a minha hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>Insatisfeita com as perguntas n\u00e3o respondidas na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, fui tentar entender a raz\u00e3o do tom de pele incomodar alguns. Comecei a buscar livros que falam sobre o assunto, tentando compreender porque dizemos que cremos em um Deus que \u201cn\u00e3o faz acep\u00e7\u00e3o de pessoas\u201d (At 10.34)<i>,<\/i> mas na vida pr\u00e1tica, fazemos. Onde est\u00e1 a discrep\u00e2ncia?<\/p>\n<p>Alguns livros come\u00e7aram a me responder. A come\u00e7ar pela B\u00edblia, percebi que a escravid\u00e3o sempre existiu e foi um ato permitido pelo pr\u00f3prio Deus. Seria um motivo para come\u00e7armos a duvidar de sua bondade? N\u00e3o. Deus sempre foi e sempre ser\u00e1 bom. Faz parte da sua natureza. E como explicar por que Deus permitiu a escravid\u00e3o? A resposta est\u00e1 na maneira como Deus instituiu que os servos deveriam ser tratados com justi\u00e7a! Ao ler passagens b\u00edblicas que tratam sobre o tema aprendemos muito mais do car\u00e1ter de Deus. E ao ler livros sobre a escravid\u00e3o percebemos o quanto o homem est\u00e1 distanciado dele (Cf Dt 15.12-18; Cl 4.1).<\/p>\n<h3>Consultando a Hist\u00f3ria<\/h3>\n<p>Descobri em outros livros que o continente africano, de onde v\u00eam os negros brasileiros, estava envolvido com o com\u00e9rcio de escravos muito antes da chegada dos europeus. Pelos navios portugueses, que trouxeram os africanos para o Brasil, passaram mais de 4 milh\u00f5es de negros. O que fez os africanos escravizarem seus iguais antes da chegada dos europeus? A resposta que faz mais sentido \u00e9: poder! O poder de subjugar o outro, de ter o controle, os fez pensar que podiam controlar, machucar e vender a quem julgavam inferiores. Um pensamento provocado pela mente ca\u00edda. Um pensamento diferente daquele que tem verdadeiramente o controle de todas as coisas e que age com justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Ironicamente, o Brasil dos colonizadores europeus foi constru\u00eddo por negros, mas sempre teve como sonho ser um pa\u00eds branco, segundo o escritor Laurentino Gomes. Citando o historiador Eric Williams, ele diz que \u201ca escravid\u00e3o n\u00e3o nasceu do racismo; mas o racismo foi consequ\u00eancia da escravid\u00e3o\u201d, a partir do momento em que come\u00e7aram a ver os negros como uma ra\u00e7a inferior. Pelo fato de os portugueses serem de origem \u201ccrist\u00e3\u201d, essa vis\u00e3o err\u00f4nea e discrepante penetrou-se na sociedade civil e religiosa brasileira estruturando-se nas profundezas do pensamento e das a\u00e7\u00f5es. At\u00e9 o pr\u00f3prio negro se confunde e tem lutado para desmitificar essa ideologia.<\/p>\n<h3>Em busca de respostas<\/h3>\n<p>O que \u00e9 preciso ent\u00e3o para encontrar respostas para perguntas inquietantes? Sabemos que, para algumas perguntas, n\u00e3o teremos respostas. Contudo, falar sobre o assunto, ainda que seja tenso e doloroso, ou mesmo que provoque rea\u00e7\u00f5es desconfort\u00e1veis para ambos os lados, \u00e9 necess\u00e1rio especialmente neste tempo em que estamos vivendo. Essa tem\u00e1tica precisa entrar em pauta nas fam\u00edlias, nos semin\u00e1rios e nas igrejas. \u00c9 preciso ler sobre o assunto, estud\u00e1-lo e encar\u00e1-lo de frente, sabendo que \u201cse em algum aspecto voc\u00eas pensam de modo diferente, isso tamb\u00e9m Deus lhes esclarecer\u00e1. T\u00e3o-somente vivamos de acordo com o que j\u00e1 alcan\u00e7amos\u201d (Fp 3.15-16, NVI).<\/p>\n<p>Talvez, a partir da morte tr\u00e1gica do norte-americano, seja o momento das vozes dos que sofrem qualquer tipo de preconceito serem ouvidas e quem sabe, de algumas perguntas serem respondidas. Finalizo com uma frase de Martin Luther King, que em um dos seus discursos mencionou um dos hinos antigos de sua gera\u00e7\u00e3o, expressando o desejo ardente de ser \u201clivre\u00a0finalmente,\u00a0livre\u00a0finalmente,\u00a0obrigado Deus\u00a0Onipotente, eu estou livre finalmente\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>* Lea Ferreira \u00e9 ligada \u00e0 AMIDE (Associa\u00e7\u00e3o Mission\u00e1ria para Difus\u00e3o do Evangelho). J\u00e1 serviu <\/em><em>como secret\u00e1ria na base da organiza\u00e7\u00e3o, em Bras\u00edlia, e<\/em><em> em um projeto na \u00c1sia. Atualmente, \u00e9 secret\u00e1ria do CIM &#8211; AMTB (Departamento de Cuidado Integral do Mission\u00e1rio da Associa\u00e7\u00e3o de Miss\u00f5es Transculturais Brasileiras) e uma das l\u00edderes do grupo Irm\u00e3s Amigas, que organiza retiros para mission\u00e1rias.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* Por Lea Ferreira O racismo voltou a ser pauta desde que um homem negro foi morto por um policial branco alguns dias atr\u00e1s, numa cidade dos Estados Unidos. A bandeira \u00e9 novamente levantada, protestos s\u00e3o organizados e ressurgem discuss\u00f5es sobre ter sido ou n\u00e3o um ato racista. 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