{"id":9922,"date":"2017-09-01T17:30:03","date_gmt":"2017-09-01T20:30:03","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=9922"},"modified":"2017-09-08T17:26:12","modified_gmt":"2017-09-08T20:26:12","slug":"verdadeiros-cientistas-nao-acreditam-em-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2017\/09\/01\/verdadeiros-cientistas-nao-acreditam-em-deus\/","title":{"rendered":"Verdadeiros cientistas n\u00e3o acreditam em Deus?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/verdadeiros-cientistas-fe-verdadeira\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-9923\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/capa_vcfv.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/capa_vcfv.jpg 395w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/capa_vcfv-212x300.jpg 212w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><\/p>\n<h4><span style=\"color: #808000;\"><strong>Livro da Semana &nbsp; | &nbsp;&nbsp;Verdadeiros Cientistas, F\u00e9 Verdadeira<\/strong><\/span><\/h4>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/verdadeiros-cientistas-fe-verdadeira\/\"><\/a><\/p>\n<p>O livro <strong><a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/verdadeiros-cientistas-fe-verdadeira\">Verdadeiros Cientistas, F\u00e9 Verdadeira<\/a><\/strong> acaba de ganhar o pr\u00eamio Aret\u00e9 2017, de melhor livro do ano, na categoria &#8220;Apolog\u00e9tica&#8221;.<\/p>\n<p>O an\u00fancio aconteceu na quinta-feira \u00e0 noite, dia 31 de agosto, na abertura da Feira Liter\u00e1ria Internacional Crist\u00e3 (FLIC), em S\u00e3o Paulo (SP). O Pr\u00eamio Aret\u00e9, que se destina a reconhecer e premiar a excel\u00eancia em literatura crist\u00e3, \u00e9 promovido pela ASEC (Associa\u00e7\u00e3o de Editores Crist\u00e3os).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/verdadeiros-cientistas-fe-verdadeira\/\"><strong>Verdadeiros Cientistas, F\u00e9 Verdadeira<\/strong><\/a> re\u00fane uma preciosa colet\u00e2nea de hist\u00f3rias de&nbsp;cientistas, como Francis Collins, Alister McGrath, John Houghton, Andrew Briggs, entre outros, que est\u00e3o vinculados a algumas das principais universidades e organiza\u00e7\u00f5es cient\u00edficas europeias e americanas, e t\u00eam suas contribui\u00e7\u00f5es reconhecidas e premiadas pela comunidade cient\u00edfica internacional.<\/p>\n<p>O blog da Ultimato coloca \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do leitor parte da hist\u00f3ria de Alister McGrath, contada por ele mesmo.<\/p>\n<h4>&nbsp;<\/h4>\n<h4>Verdadeiros cientistas n\u00e3o acreditam em Deus!<\/h4>\n<p>Essa frase de efeito soar\u00e1 tristemente familiar para aqueles que tiveram de lutar contra as divaga\u00e7\u00f5es, exageros e mal-entendidos presentes no livro Deus, um Del\u00edrio, de Richard Dawkins (2006). Trata-se de um ponto de vista que se sustenta apenas pelo uso incans\u00e1vel de aten\u00e7\u00e3o seletiva e de uma ret\u00f3rica carregada de ataques-surpresa,* em vez de argumentos baseados em evid\u00eancias. No entanto, \u00e9 uma vis\u00e3o que muitos na cultura ocidental parecem dispostos a aceitar como a sabedoria da nossa era. Como observou Karl Marx, a frequente repeti\u00e7\u00e3o de um postulado fundamentalmente falso gera a impress\u00e3o de que ele \u00e9 correto e confi\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/serie-ciencia-e-fe-crista\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-8989\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/04\/alister_mcgrath_blog.jpg\" alt=\"\" width=\"180\" height=\"143\"><\/a>Dawkins parece enxergar o ate\u00edsmo intr\u00ednseco das ci\u00eancias naturais como uma verdade \u00f3bvia para todos \u00e0 exce\u00e7\u00e3o dos idiotas inatos, ou daqueles que tiveram a mente distorcida e infestada pela no\u00e7\u00e3o debilitante de que h\u00e1 um Deus que se interessa por n\u00f3s e pelo nosso bem-estar. Talvez isso nos ajude a entender sua ira, intoler\u00e2ncia e arrog\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 persist\u00eancia (alguns diriam ressurgimento) da cren\u00e7a em Deus quando os profetas secularizadores do final da d\u00e9cada de 1960 e in\u00edcio de 1970 haviam previsto sua morte inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Dawkins \u00e9 modesto ao fornecer detalhes autobiogr\u00e1ficos. Contudo, se entendi seu relato de sua pr\u00f3pria convers\u00e3o ao ate\u00edsmo, um elemento essencial do processo foi uma cren\u00e7a cada vez maior de que o darwinismo oferecia uma explica\u00e7\u00e3o muito superior da natureza do mundo do qualquer outra que recorresse a Deus. Para Dawkins, a descoberta do darwinismo ocorreu quando ele era estudante na escola de Oundle e consolidou-se durante seus estudos de zoologia na Universidade de Oxford. Assim, as ci\u00eancias naturais atuaram como um catalisador para sua \u201cdesconvers\u00e3o\u201d do que aparenta ter sido uma forma an\u00eamica de um anglicanismo nominal.<\/p>\n<p><!--more-->N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que tendemos a enxergar nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria pessoal como algo revelador de um padr\u00e3o mais abrangente das coisas, ou da estrutura mais profunda da realidade. Cren\u00e7as que consideramos pessoalmente convincentes devem s\u00ea-lo para todos. Sendo assim, n\u00e3o \u00e9 de admirar que aqueles que n\u00e3o se encaixam no padr\u00e3o sejam vistos como perigosos. Eles tendem a ser rejeitados como exc\u00eantricos, idiotas ou loucos. Por qu\u00ea? Precisamente porque s\u00e3o uma amea\u00e7a \u00e0 credibilidade do credo simplista que eles se recusam a aceitar. Isso porque o que Dawkins v\u00ea como um padr\u00e3o universal n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de uma op\u00e7\u00e3o intelectual dentre v\u00e1rias, cada uma das quais tendo encontrado seus apoiadores ao longo dos anos. Neste ensaio, farei um relato da minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria, e deixarei que meus leitores decidam se ela tem ou n\u00e3o um significado mais abrangente.<\/p>\n<p>Minha hist\u00f3ria de amor com as ci\u00eancias naturais come\u00e7ou quando eu tinha 9 ou 10 anos de idade. Eu ficava impressionado com a beleza do c\u00e9u \u00e0 noite e tinha desejo de explor\u00e1-lo ainda mais. Ataquei os livros da biblioteca da minha escola que tratavam de astronomia, e at\u00e9 consegui construir um pequeno telesc\u00f3pio para me ajudar a observar as luas de J\u00fapiter. Nessa mesma \u00e9poca, um tio-av\u00f4, que era o chefe do Departamento de Patologia no Hospital Real Victoria, em Belfast, presenteou-me com um antigo microsc\u00f3pio alem\u00e3o, que me permitiu explorar um novo mundo. Ainda hoje ele est\u00e1 na mesa do meu escrit\u00f3rio lembrando-me do poder que a natureza tem de fascinar, intrigar e provocar perguntas.<\/p>\n<p>Uma dessas perguntas deixou-me profundamente perturbado. Nos meus anos de adolesc\u00eancia, eu havia absorvido um ate\u00edsmo acr\u00edtico de autores como Bertrand Russell. Segundo eu pensava, o ate\u00edsmo seria o lugar natural de uma pessoa cientificamente informada como eu. As ci\u00eancias naturais haviam se expandido para ocupar o espa\u00e7o intelectual outrora ocupado pela ideia abandonada de Deus. N\u00e3o havia sequer a necessidade de propor, quanto menos levar a s\u00e9rio, uma ideia t\u00e3o antiquada. Deus era uma rel\u00edquia amea\u00e7adora do passado que os avan\u00e7os cient\u00edficos revelaram como sendo um del\u00edrio.<\/p>\n<h4>Ent\u00e3o, qual seria o sentido da vida? Qual o seu significado?<\/h4>\n<p>\u00c0 medida que refletia sobre a amplitude e o poder das ci\u00eancias, fui gradualmente adotando a vis\u00e3o de que n\u00e3o havia sentido algum. Eu era nada mais que o resultado acidental de for\u00e7as c\u00f3smicas cegas, o habitante de um universo no qual s\u00f3 se poderia falar de dire\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o de prop\u00f3sito. N\u00e3o era uma ideia muito atraente, mas consolava-me a ideia de que a sua soturnidade e austeridade seriam certos ind\u00edcios da sua veracidade. Afinal, ela era t\u00e3o repulsiva que s\u00f3 poderia ser verdade. Devo confessar certa presun\u00e7\u00e3o da minha parte nesse ponto, bem como um sentimento de superioridade intelectual em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que encontravam consolo e satisfa\u00e7\u00e3o na sua cren\u00e7a em Deus.<\/p>\n<p>No entanto, certas perguntas persistiam. Conquanto continuasse a examinar o c\u00e9u \u00e0 noite, achava seu sil\u00eancio perturbador. Por meio do meu pequeno microsc\u00f3pio, eu gostava de observar a M31, a famosa nebulosa na constela\u00e7\u00e3o de Andr\u00f4meda, que \u00e9 brilhante o suficiente para ser vista a olho nu. Sabia que ela estava t\u00e3o distante que a luz que sa\u00eda da nebulosa levaria 2 milh\u00f5es de anos para chegar \u00e0 terra, momento em que eu j\u00e1 estaria morto. O c\u00e9u noturno ent\u00e3o se tornou um s\u00edmbolo l\u00fagubre da desconcertante brevidade da vida humana. Qual era o sentido disso tudo? Os versos de Tennyson no poema The Brook [O riacho] pareciam resumir a situa\u00e7\u00e3o humana:<br \/>\n<em>Pois os homens v\u00eam e v\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>Mas eu sigo para sempre.<\/em><\/p>\n<p>No entanto, eu permanecia obstinadamente convicto de que a seriedade e a obscuridade dessa posi\u00e7\u00e3o eram confirma\u00e7\u00f5es da sua veracidade. Era axiom\u00e1tico que a ci\u00eancia exigia ate\u00edsmo, e eu estava disposto a ir aonde a ci\u00eancia me levasse.<\/p>\n<p>Assim, continuei trabalhando com a matem\u00e1tica, a f\u00edsica e a qu\u00edmica, e acabei recebendo uma bolsa de estudos para estudar qu\u00edmica na Universidade de Oxford. Naquela \u00e9poca, a maioria das pessoas era aceita em Oxford no final do ensino m\u00e9dio. Soube que havia obtido uma bolsa para estudar em Oxford em dezembro de 1970, mas s\u00f3 iniciaria meus estudos em outubro de 1971. O que faria nesse intervalo? A maioria dos meus amigos havia deixado a escola para viajar ou para ganhar algum dinheiro. Eu decidi ficar e utilizar meu tempo para aprender alem\u00e3o e russo, l\u00ednguas que seriam \u00fateis para meus estudos cient\u00edficos. Tendo-me especializado em ci\u00eancias f\u00edsicas, eu sabia da necessidade de aprofundar meu conhecimento sobre biologia. Assim, preparei-me para iniciar um extenso per\u00edodo de leituras e reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de aproximadamente um m\u00eas de leituras intensivas na biblioteca de ci\u00eancias da escola, depois de ter devorado as obras de biologia, deparei-me com um setor que nunca havia notado; era intitulado \u201cA hist\u00f3ria e a filosofia da ci\u00eancia\u201d e estava bem empoeirado. Eu n\u00e3o tinha tempo para esse tipo de coisas, e tendia a v\u00ea-las como cr\u00edticas desinformadas das certezas e simplicidades das ci\u00eancias naturais por aqueles que se sentiam amea\u00e7ados por elas.<\/p>\n<p>A filosofia, assim como a teologia, seria apenas uma especula\u00e7\u00e3o sem sentido acerca de quest\u00f5es que poderiam ser resolvidas mediante alguns simples experimentos. Qual era o sentido disso? No entanto, ao finalizar a leitura dessas esparsas obras da escola nessa \u00e1rea, percebi que precisava repensar meus conceitos. Longe de ser o obscurantismo ignorante que colocava obst\u00e1culos desnecess\u00e1rios no caminho obstinado do avan\u00e7o cient\u00edfico, a hist\u00f3ria e a filosofia da ci\u00eancia propunham quest\u00f5es leg\u00edtimas acerca da confiabilidade e dos limites do conhecimento cient\u00edfico. E essas eram quest\u00f5es que eu n\u00e3o havia ainda enfrentado. Problemas como a subdetermina\u00e7\u00e3o de teorias pelos dados, altera\u00e7\u00f5es radicais da teoria na hist\u00f3ria da ci\u00eancia, as dificuldades de elaborar um \u201cexperimento crucial\u201d e os problemas complexos relativos a qual seria \u201ca melhor explica\u00e7\u00e3o\u201d para um dado conjunto de observa\u00e7\u00f5es me sufocavam, tornando turvas as \u00e1guas da verdade cient\u00edfica que eu antes considerava claras, pl\u00e1cidas e, acima de tudo, simples.<\/p>\n<p>Observei que as coisas eram mais complicadas do que eu imaginava. Meus olhos se abriram, e percebi que n\u00e3o poderia voltar para a vis\u00e3o simplista das ci\u00eancias que antes conhecera e apreciava. Eu havia valorizado a beleza e a inoc\u00eancia de uma atitude infantil em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ci\u00eancias, e desejava secretamente permanecer naquele lugar seguro. De fato, acho que parte de mim desejava profundamente nunca ter lido aquele livro, nunca ter feito aquelas perguntas, e nunca ter questionado a simplicidade da minha juventude cient\u00edfica. Por\u00e9m, n\u00e3o havia retorno. Eu havia entrado por uma porta, e n\u00e3o poderia fugir do novo mundo em que agora habitava.<\/p>\n<p>Quando cheguei a Oxford em outubro de 1971 percebi que tinha muitas coisas para repensar. At\u00e9 aquele momento minha premissa havia sido que, quando a ci\u00eancia n\u00e3o podia responder a uma pergunta, era porque n\u00e3o havia uma resposta a ser dada. Nesse momento comecei a perceber que poderia haver limites ao m\u00e9todo cient\u00edfico, e que vastas \u00e1reas de territ\u00f3rio intelectual, est\u00e9tico e moral poderiam estar al\u00e9m de suas fronteiras. Posteriormente, essa ideia seria expressa por Peter Medawar no seu excelente Os Limites da Ci\u00eancia (1984). Enfatizando que a \u201cci\u00eancia \u00e9 incomparavelmente o mais bem-sucedido empreendimento realizado pelos seres humanos\u201d, Medawar faz distin\u00e7\u00f5es entre o que ele define como perguntas \u201ctranscendentais\u201d, que devem ser legadas \u00e0 religi\u00e3o e \u00e0 metaf\u00edsica, e perguntas cient\u00edficas acerca da organiza\u00e7\u00e3o e estrutura do universo material. Segundo ele, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00faltimas n\u00e3o haveria limites \u00e0s possibilidades da conquista cient\u00edfica. E em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pergunta sobre Deus? Ou sobre haver um prop\u00f3sito no universo? Medawar deixou bem claro: a ci\u00eancia n\u00e3o pode responder a essas perguntas, embora possa haver respostas a elas:<\/p>\n<p>A exist\u00eancia, de fato, de limites para a ci\u00eancia parece muito prov\u00e1vel em raz\u00e3o de haver perguntas que ela n\u00e3o pode responder, e que nenhum avan\u00e7o cient\u00edfico conceb\u00edvel a autorizaria a responder. [&#8230;] Refiro-me a perguntas do tipo:<\/p>\n<p>\u2022 Como tudo come\u00e7ou?<br \/>\n\u2022 Qual o prop\u00f3sito de estarmos aqui?<br \/>\n\u2022 Qual o sentido da vida?*<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o poderia mais me apegar ao que agora entendo como um positivismo cient\u00edfico ing\u00eanuo; para mim, ficara claro que eu teria de reexaminar uma s\u00e9rie de perguntas que antes havia dispensado como sem import\u00e2ncia e sem sentido \u2013 incluindo a pergunta a respeito de Deus.<\/p>\n<p>Abandonando minha suposi\u00e7\u00e3o bastante dogm\u00e1tica de que a ci\u00eancia implicava necessariamente ate\u00edsmo, comecei a perceber que o mundo natural era conceitualmente male\u00e1vel. A natureza pode ser interpretada de v\u00e1rias maneiras diferentes, sem qualquer perda de integridade intelectual. Alguns \u201cleem\u201d, ou \u201cinterpretam\u201d a natureza de uma maneira ate\u00edsta. Outros a \u201cleem\u201d de uma maneira de\u00edsta, enxergando-a como um ponteiro em dire\u00e7\u00e3o ao Criador-divindade, que n\u00e3o est\u00e1 mais envolvido nas suas quest\u00f5es. Deus havia dado corda ao rel\u00f3gio e depois o deixou funcionando por si mesmo. Outros adotam uma cosmovis\u00e3o crist\u00e3, crendo num Deus que tanto cria quanto sustenta. Qualquer um pode ser um \u201cverdadeiro cientista\u201d sem comprometer-se com qualquer vis\u00e3o de mundo religiosa, espiritual ou antirreligiosa. Devo acrescentar que essa \u00e9 a opini\u00e3o da maior parte dos cientistas com quem falo, incluindo aqueles que se definem como ate\u00edstas. Diferentemente dos seus colegas ate\u00edstas mais dogm\u00e1ticos, eles entendem perfeitamente por que alguns de seus colegas adotam uma vis\u00e3o de mundo crist\u00e3. Eles podem at\u00e9 discordar dessa abordagem, mas ir\u00e3o respeit\u00e1-la.<\/p>\n<p>Stephen Jay Gould, cuja morte lament\u00e1vel em decorr\u00eancia de um c\u00e2ncer em 2002 fez Harvard perder um dos seus melhores professores, bem como um dos autores mais acess\u00edveis da literatura cient\u00edfica, era totalmente claro a esse respeito.1 As ci\u00eancias naturais \u2013 incluindo a teoria evolucion\u00e1ria \u2013 s\u00e3o compat\u00edveis tanto com o ate\u00edsmo quanto com as cren\u00e7as religiosas convencionais. Salvo se metade dos seus colegas cientistas fosse completamente idiota \u2013 uma suposi\u00e7\u00e3o que Gould corretamente dispensou como uma insensatez, em qualquer dos casos \u2013 n\u00e3o haveria nenhuma outra maneira confi\u00e1vel de compreender por que as pessoas inteligentes e informadas que ele conhecia interpretavam a realidade de maneiras t\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>O verdadeiro problema reside no fato de que uma vez que o m\u00e9todo cient\u00edfico claramente n\u00e3o implica ate\u00edsmo, aqueles que querem utilizar a ci\u00eancia em defesa do ate\u00edsmo veem-se for\u00e7ados a valer-se de uma s\u00e9rie de ideias metaf\u00edsicas n\u00e3o emp\u00edricas \u00e0s suas vers\u00f5es de ci\u00eancia, esperando que ningu\u00e9m perceba essa manobra intelectual. Dawkins \u00e9 um mestre nessa arte. No soberbo recente estudo The Music of Life [A m\u00fasica da vida],2 Denis Noble, o bi\u00f3logo de sistemas de Oxford, tomou uma passagem de O Gene Ego\u00edsta,3 de Dawkins, e a reescreveu, retendo o que era empiricamente pass\u00edvel de verifica\u00e7\u00e3o, e invertendo as premissas metaf\u00edsicas um tanto question\u00e1veis de Dawkins. O resultado ilustra de modo dram\u00e1tico a facilidade com que premissas n\u00e3o emp\u00edricas podem ser importadas para o pensamento cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Primeiro, consideremos a passagem original de Dawkins, que faz uma abordagem centrada nos genes \u00e0 biologia evolucion\u00e1ria, que na \u00e9poca estava em plena ascens\u00e3o. Observe como \u00e9 atribu\u00edda uma qualidade de agente aos genes, que s\u00e3o retratados como sendo capazes de controlar ativamente seu destino. Enfatizei o que \u00e9 empiricamente verific\u00e1vel:<br \/>\nAgora eles [os genes] apinham-se em col\u00f4nias imensas, em seguran\u00e7a dentro de rob\u00f4s desajeitados gigantescos, murados do mundo exterior, comunicando-se com ele por meio de vias indiretas e tortuosas, manipulando-o por controle remoto. Eles est\u00e3o em mim e em voc\u00ea. Eles nos criaram, corpo e mente. E sua preserva\u00e7\u00e3o \u00e9 a raz\u00e3o \u00faltima de nossa exist\u00eancia.*<\/p>\n<p>Ao reescrever isso, Noble se afasta da ideia de que os genes possam ser considerados como agentes ativos. Mais uma vez, enfatizei o que \u00e9 empiricamente verific\u00e1vel:<br \/>\nAgora eles [os genes] est\u00e3o presos em col\u00f4nias imensas, guardados dentro de rob\u00f4s desajeitados gigantescos, moldados pelo mundo exterior, comunicando-se com ele por meio de processos complexos, atrav\u00e9s dos quais, cegamente, como por m\u00e1gica, surge a fun\u00e7\u00e3o. Eles est\u00e3o em mim e em voc\u00ea. N\u00f3s somos o sistema que permite que seus c\u00f3digos sejam lidos; e sua preserva\u00e7\u00e3o depende inteiramente da alegria que sentimos em nos reproduzir. Somos a raz\u00e3o \u00faltima de sua exist\u00eancia.**<\/p>\n<p>As perspectivas de Dawkins e de Noble s\u00e3o completamente diferentes. (Recomendo a leitura atenta e vagarosa de ambas as afirma\u00e7\u00f5es para que suas diferen\u00e7as possam ser observadas.) \u00c9 imposs\u00edvel que ambas estejam corretas. Ambas introduzem uma s\u00e9rie de valores e cren\u00e7as bem distintos. E, no entanto, suas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u201cempiricamente equivalentes\u201d. Em outras palavras, ambas possuem fundamentos equivalentes em observa\u00e7\u00e3o e evid\u00eancias experimentais. Ent\u00e3o, qual \u00e9 a verdadeira? Qual \u00e9 a mais cient\u00edfica? Como podemos decidir qual deve ser preferida em bases cient\u00edficas? Como Noble observa \u2013 e Dawkins concorda \u2013 \u201cningu\u00e9m parece ser capaz de propor um experimento que possa detectar uma diferen\u00e7a emp\u00edrica entre elas\u201d.<\/p>\n<p>Quero voltar \u00e0 explica\u00e7\u00e3o da minha pr\u00f3pria reconsidera\u00e7\u00e3o acerca da rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e f\u00e9. Percebendo que um amor \u00e0 ci\u00eancia permitia uma liberdade de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade muito maior do que eu havia sido levado a acreditar, comecei a explorar modos alternativos de considerar essa quest\u00e3o. Embora tenha sido um cr\u00edtico ferrenho do cristianismo quando jovem, eu jamais havia empregado a mesma avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica ao ate\u00edsmo, tendendo a supor que este era uma verdade autoevidente, desse modo n\u00e3o havendo necessidade desse tipo de avalia\u00e7\u00e3o. Nos meses de outubro e novembro de 1971, comecei a ver que a base intelectual do ate\u00edsmo era, na verdade, bem menos robusta do que eu havia pensado. Longe de ser uma verdade autoevidente, ele parecia apoiar-se em bases pouco est\u00e1veis. Por outro lado, o cristianismo provou ser bem mais robusto intelectualmente do que eu havia suposto.<\/p>\n<p>Minhas d\u00favidas acerca dos fundamentos intelectuais do ate\u00edsmo come\u00e7aram a se consolidar at\u00e9 que eu percebesse que o ate\u00edsmo era realmente um sistema de cren\u00e7as, enquanto eu havia suposto, de maneira ing\u00eanua e acr\u00edtica, que ele era uma afirma\u00e7\u00e3o factual da realidade. Descobri tamb\u00e9m que sabia muito menos sobre o cristianismo do que pensava. Ficava cada vez mais claro para mim que o que eu havia rejeitado era um estere\u00f3tipo religioso. Eu tinha muito sobre o que repensar. Ao final de novembro de 1971 eu havia tomado minha decis\u00e3o: abandonei uma f\u00e9 para adotar outra.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou muito para que eu come\u00e7asse a perceber a complexidade intelectual da f\u00e9 crist\u00e3. Ela n\u00e3o era apenas bem fundamentada; era tamb\u00e9m cheia de possibilidades e intelectualmente enriquecedora. Eis ent\u00e3o uma lente que permitia uma focaliza\u00e7\u00e3o n\u00edtida da realidade. A f\u00e9 crist\u00e3 tanto fazia sentido em si mesma quanto trazia sentido das coisas como um todo. \u201cCreio no cristianismo como acredito que o sol raiou, n\u00e3o apenas porque posso v\u00ea-lo, mas porque por meio dele posso ver todo o resto\u201d (C. S. Lewis). Descobri subitamente que todo o empreendimento cient\u00edfico fazia muito mais sentido do eu jamais havia imaginado. Foi como se um sol intelectual raiasse e iluminasse todo o panorama cient\u00edfico, permitindo-me enxergar detalhes e interconex\u00f5es que sem ele eu n\u00e3o teria visto.<\/p>\n<h6>Trecho retirado do cap\u00edtulo &#8220;Ci\u00eancia, f\u00e9 e a compreens\u00e3o do sentido das coisas&#8221;, por&nbsp;Alister McGrath, no livro <strong><a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/verdadeiros-cientistas-fe-verdadeira\">Verdadeiros Cientistas, F\u00e9 Verdadeira<\/a><\/strong>, Editora Ultimato.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro da Semana &nbsp; | &nbsp;&nbsp;Verdadeiros Cientistas, F\u00e9 Verdadeira<\/p>\n<p>O livro Verdadeiros Cientistas, F\u00e9 Verdadeira acaba de ganhar o pr\u00eamio Aret\u00e9 2017, de melhor livro do ano, na categoria &#8220;Apolog\u00e9tica&#8221;.<br \/>\nO an\u00fancio aconteceu na quinta-feira \u00e0 noite, dia 31 de agosto, na abertura da Feira Liter\u00e1ria Internacional Crist\u00e3 (FLIC), em S\u00e3o Paulo (SP). O Pr\u00eamio Aret\u00e9, que [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5153],"tags":[32198],"class_list":["post-9922","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-prateleira","tag-livro-da-semana"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9922","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9922"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9922\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9958,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9922\/revisions\/9958"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9922"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9922"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9922"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}