{"id":9324,"date":"2017-06-30T11:12:58","date_gmt":"2017-06-30T14:12:58","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=9324"},"modified":"2017-06-30T13:08:06","modified_gmt":"2017-06-30T16:08:06","slug":"a-magia-dos-vitrais-cristaos-versao-ampliada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2017\/06\/30\/a-magia-dos-vitrais-cristaos-versao-ampliada\/","title":{"rendered":"A magia dos vitrais crist\u00e3os"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #993300;\">Vers\u00e3o ampliada do artigo publicado na se\u00e7\u00e3o Arte e cultura, da Ultimato 366.<\/span><\/em><\/p>\n<h6><span style=\"color: #808000;\"><strong>Por Armindo Trevisan<\/strong><\/span><\/h6>\n<div id=\"attachment_9544\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/06\/Vitral_61_Basilica_of_Saint_Denis_Saint_Denis_France_02.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-9324\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-9544\" class=\"wp-image-9544 size-full\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/06\/Vitral_61_Basilica_of_Saint_Denis_Saint_Denis_France_02.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/06\/Vitral_61_Basilica_of_Saint_Denis_Saint_Denis_France_02.jpg 400w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/06\/Vitral_61_Basilica_of_Saint_Denis_Saint_Denis_France_02-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-9544\" class=\"wp-caption-text\">Vista interior dos vitrais na Bas\u00edlica de Saint-Denis<\/p><\/div>\n<p>S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel compreender o surgimento da t\u00e9cnica do vitral, de sua evolu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, e de sua utiliza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a nas catedrais g\u00f3ticas, quando evocamos uma das principais caracter\u00edsticas do imagin\u00e1rio crist\u00e3o: <strong>a obsess\u00e3o pela luz<\/strong>.<\/p>\n<p>Semelhante obsess\u00e3o derivou da B\u00edblia.<\/p>\n<p>No Livro do G\u00eanesis l\u00ea-se:<\/p>\n<p><em>No princ\u00edpio, quando Deus criou o c\u00e9u e a terra, a terra era um caos sem forma nem ordem. Era um mar profundo coberto de escurid\u00e3o; e um vento fort\u00edssimo soprava na superf\u00edcie das \u00e1guas. Ent\u00e3o Deus disse: \u201c<strong>Que a luz exista!\u201d E a luz come\u00e7ou a existir.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p>A luz foi considerada pelos medievais o atributo divino por excel\u00eancia. Francisco de Assis dedicava particular afei\u00e7\u00e3o ao fogo. A luz era, tamb\u00e9m, apreciada pela sociedade medieval por uma raz\u00e3o s\u00f3cio-ambiental: as pessoas viviam literalmente na rua, \u00e0 luz do sol, n\u00e3o conhecendo outra forma de ilumina\u00e7\u00e3o sen\u00e3o a do fogo.<!--more--><\/p>\n<p>O fogo obteve, inclusive. seu lugar nos rituais crist\u00e3os. Um dos mais belos momentos da liturgia crist\u00e3 \u00e9 a liturgia do S\u00e1bado Santo, em cuja noite o fogo \u00e9 \u201c<em>extra\u00eddo da pedra<\/em>\u201d \u2013 para significar a vit\u00f3ria de Jesus sobre a morte, visto que o Salvador saiu vivo do sepulcro, onde o tinha depositado Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia. Nessa mesma noite \u00e9 acendido o C\u00edrio Pascal, s\u00edmbolo de Cristo. Durante sua venera\u00e7\u00e3o unto ao altar, canta-se o texto mais po\u00e9tico da liturgia cat\u00f3lica, o <em>Exultet. <\/em>Os versos finais deste hino s\u00e3o de um lirismo ingenuamente c\u00f3smico: \u201c<em>O c\u00edrio que acendeu as nossas velas\/ possa esta noite fulgurar! Misture sua luz \u00e0 das estrelas, cintile quando o dia despontar.\u201d <\/em><\/p>\n<p>Al\u00e9m do imagin\u00e1rio b\u00edblico derivado do Antigo Testamento, existe um&nbsp; imagin\u00e1rio crist\u00e3o espec\u00edfico, que valorizou, de modo especial, as palavras de Jesus: \u201c<em>Eu sou a luz do mundo<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A simbologia da luz adquiriu relev\u00e2ncia singular nos textos do Pseudo-Dion\u00edsio Areopagita, monge bizantino que viveu entre 482 e 530 d.C., cuja obra <em>Sobre a Hierarquia Celeste<\/em> forneceu as bases de uma \u201c<em>Teologia da Luz<\/em>\u201d, e tamb\u00e9m de uma <em>Est\u00e9tica da Luz<\/em>.<\/p>\n<p>Mais tarde, no s\u00e9culo XII, o grande Abade Suger (1085-1151), monge que dirigia a Abadia Real de Saint-Denis, tornou-se um grande divulgado das teorias m\u00edsticas do Pseudo-Dion\u00edsio. Mandou por isso traduzir a obra anteriormente citada. Suger \u00e9 considerado o \u201cPai da Arquitetura G\u00f3tica\u201d, por ter constru\u00eddo o primeiro exemplo desse estilo, a Bas\u00edlica de Saint-Denis nos arredores de Paris. Notemos que Suger herdara de seus ancestrais b\u00e1rbaros a paix\u00e3o pelos metais preciosos e pelas pedrarias. O que o Abade sentia por elas pode ser intu\u00eddo no seguinte texto de sua autoria: \u201d<em>Pelo efeito do prazer que me causa a beleza da casa do Senhor, o encanto das gemas multicores me faz esquecer as afei\u00e7\u00f5es externas, e uma pura medita\u00e7\u00e3o me induz \u00e0 reflex\u00e3o sobre a variedade das virtudes sagradas,de modo que o material \u00e9 transferido ao imaterial<\/em> (&#8230;) Sob certo sentido, o Abade substituiu o brilho dos metais e das <u>pedrarias<\/u> pelo brilho dos vitrais, com os quais inundou entre 1144-1145,&nbsp; sua Bas\u00edlica. Devido aos seus vitrais, a Bas\u00edlica de Saint-Denis foi at\u00e9 chamada de \u201cgaiola de vidro\u201d. Suger foi o inventor de um tema,que teve grande aceita\u00e7\u00e3o entre os vitralistas, o da <em>\u00c1rvore de Jess\u00e9<\/em>, cujo exemplar mais belo \u00e9 o da Catedral de Chartres ( de 8,40 m alt.x 3,80 m larg).&nbsp; Os vitrais de Suger podem, ainda hoje, ser apreciados na sua Bas\u00edlica em Saint-Denis, cidade que ultimamente se tornou famosa por seu&nbsp; <em>Stade de<\/em> <em>France, <\/em>uma esp\u00e9cie de Maracan\u00e3 franc\u00eas, com capacidade para 80.000 pessoas.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica do vitral preexistia \u00e0 Idade M\u00e9dia. Sup\u00f5e-se que j\u00e1 existiam vitrais na Bas\u00edlica de Santa Sofia, em Constantinopla, hoje Istambul. A mais antiga figura humana, pintada num vitral, \u00e9 uma cabe\u00e7a do s\u00e9culo IX, que pertence ao Museu de Darmstadt, \u00e0 qual segue, cronologicamente, a cabe\u00e7a do Cristo de Wissembourg, do Museu da Strassbourg, anterior provavelmente ao ano 1060. O primeiro <em>conjunto de<\/em> <em>vitrais<\/em> conservado \u00e9 o do Catedral de Augsburg, na Alemanha, constitu\u00eddo de cinco figuras de profetas, datadas aproximadamente de 1100.<\/p>\n<p>A formula b\u00e1sica do vitral foi-nos transmitida pelo Monge Te\u00f3filo no seu \u201c<em>Tratado das Diversas Artes<\/em>\u201d do s\u00e9culo IX. A f\u00f3rmula \u00e9 aparentemente simples um ter\u00e7o de areia de \u00e1gua pura; um ter\u00e7o de cinzas de faia; e um pouco de sal para facilitar a fus\u00e3o. Por causa da madeira e da areia, os ateli\u00eas situavam-se junto \u00e0s florestas, nas proximidades dos regatos.<\/p>\n<p>O vidro era obtido a uma temperatura de 700 ou 800 graus, e reduzido a placas. Para se obterem as cores desejadas, os artes\u00e3o adicionavam \u00e0 massa v\u00edtrea uma s\u00e9rie de \u00f3xidos met\u00e1licos \u00e0 base de cobre (para o vermelho), de ferro e mangan\u00eas (para o amarelo) e de cobalto para o azul. Em Chartres, o azul teria sido obtido mediante safiras mo\u00eddas, e o p\u00farpura com adi\u00e7\u00e3o de ouro puro. A espessura dos vidros variava de 2 a 6 mm. Grande parte da magia dos vitrais \u00e9 devida a imperfei\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e \u00e0 irregularidades da pr\u00f3pria fus\u00e3o, como bolhas de ar, ou \u00e0 presen\u00e7a de min\u00fasculos gr\u00e3os de areia na massa. Cada cor era representada por um s\u00f3 fragmento de vidro colorido. Em cada metro de vitral encaixavam-se de 350 a 450 peda\u00e7os de vidro.<\/p>\n<p>Para se avaliar a import\u00e2ncia art\u00edstica, religiosa e social e social dos vitrais, \u00e9 preciso retroceder oito s\u00e9culos. Nos s\u00e9culos XII e XIII, somente os cl\u00e9rigos sabiam ler. Os fi\u00e9is compensavam o pr\u00f3prio analfabetismo <strong><u>lendo os vitrais, <\/u><\/strong>isto \u00e9, deixando-se orientar mentalmente pelas narrativas representadas neles, ou por sua simbologia aleg\u00f3rica, que era explicada nos p\u00falpitos. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo os vitrais exerceram nas catedrais a mesma fun\u00e7\u00e3o do mosaicos nas igrejas bizantinas, e das pinturas murais nas igrejas rom\u00e2nicas.<\/p>\n<p>Os vitrais pioneiros da Bas\u00edlica de Saint-Denis foram seguidos pelos vitrais das seguintes catedrais: Chartres (de 1200 a 1240; nesta catedral existem atualmente 152 dos vitrais originais do s\u00e9culo XIII), Poitiers, Bourges, Rouen (onde se encontra o \u00fanico vitral assinado da Idade M\u00e9dia: <em>Clemente),<\/em> Sens, Laon, Soissons, Troyes, Notre-Dame e Sainte Chapelle em Paris, Tours, Le Mans, Angers, Beauvais, Reims, Clermont-Ferrand, Strassbourg.<\/p>\n<p>As mais ricas cole\u00e7\u00f5es podem ser contempladas em Chartres, Bourges, Le Mans, Poitiers, Sens, e Paris.<\/p>\n<p><strong>\u2022 Armindo Trevisan<\/strong> \u00e9 professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e autor do livro: <em>O Rosto de Cristo. A Forma\u00e7\u00e3o do Imagin\u00e1rio e da Arte Crist\u00e3<\/em>. Porto Alegre, Editora AGE, 2003.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>G\u00eanesis.1,1-3. B\u00edblia Sagrada. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o Interconfessional&nbsp; do hebraico, do aramaico e do grego em portugu\u00eas corrente. Lisboa,&nbsp; Sociedade B\u00edblica de Portugal, 1993. p.1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vers\u00e3o ampliada do artigo publicado na se\u00e7\u00e3o Arte e cultura, da Ultimato 366.<br \/>\nPor Armindo Trevisan<br \/>\nS\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel compreender o surgimento da t\u00e9cnica do vitral, de sua evolu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, e de sua utiliza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a nas catedrais g\u00f3ticas, quando evocamos uma das principais caracter\u00edsticas do imagin\u00e1rio crist\u00e3o: a obsess\u00e3o pela luz.<br \/>\nSemelhante obsess\u00e3o derivou da B\u00edblia.<br \/>\nNo Livro do [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[9536,22807],"tags":[],"class_list":["post-9324","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-do-editor","category-extras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9324","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9324"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9324\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9546,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9324\/revisions\/9546"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}