{"id":8949,"date":"2017-04-07T23:50:10","date_gmt":"2017-04-08T02:50:10","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=8949"},"modified":"2017-04-06T18:18:40","modified_gmt":"2017-04-06T21:18:40","slug":"a-libertacao-dos-tabus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2017\/04\/07\/a-libertacao-dos-tabus\/","title":{"rendered":"A liberta\u00e7\u00e3o dos tabus"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #808000;\"><strong>Livro da Semana &nbsp; | &nbsp;&nbsp;<\/strong><\/span><span style=\"color: #808000;\"><strong>Por&nbsp;Paul Tournier<\/strong><\/span><\/p>\n<h4><strong>A maior parte das pessoas l\u00ea a B\u00edblia como se ela fosse um conjunto de proibi\u00e7\u00f5es e prescri\u00e7\u00f5es cuja observ\u00e2ncia deveria nos assegurar uma exist\u00eancia sem culpa<\/strong><\/h4>\n<p>Essa oposi\u00e7\u00e3o entre a culpa do fazer e a culpa do ser nos ajudar\u00e1 agora a compreender melhor a B\u00edblia e a dissipar alguns tr\u00e1gicos mal-entendidos que muitas vezes parecem contrapor a experi\u00eancia dos psicoterapeutas \u00e0 mensagem b\u00edblica, mas que, na realidade, elas est\u00e3o plenamente concordes entre si.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/culpa-e-graca-2\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-8950\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/04\/capa_culpa_graca.jpg\" alt=\"\" width=\"160\" height=\"229\"><\/a><\/p>\n<p>A culpa do fazer est\u00e1 ligada aos tabus e a toda atitude moralista, cujos efeitos patog\u00eanicos s\u00e3o denunciados pela psicologia moderna. O tabu \u00e9 uma proibi\u00e7\u00e3o m\u00e1gica: \u201cIsto \u00e9 impuro, n\u00e3o toque; isto \u00e9 proibido, n\u00e3o fa\u00e7a\u201d. Tabus s\u00e3o proibi\u00e7\u00f5es carregadas de ang\u00fastia amea\u00e7adora. O moralismo procede disso, \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um c\u00f3digo rigoroso de proibi\u00e7\u00f5es, de um c\u00f3digo moral. J\u00e1 mencionamos o coment\u00e1rio de um jovem, que o doutor Bovet nos relatou: \u201cReligi\u00e3o \u00e9 o que n\u00e3o se deve fazer!\u201d.<\/p>\n<p>A maior parte das pessoas l\u00ea a B\u00edblia com esse esp\u00edrito, como se ela fosse um c\u00f3digo moral revestido de autoridade sagrada, um conjunto de proibi\u00e7\u00f5es e prescri\u00e7\u00f5es cuja estrita observ\u00e2ncia deveria nos assegurar uma exist\u00eancia isenta de culpa. Bela utopia, na verdade! Por\u00e9m, como a B\u00edblia n\u00e3o pode ser obedecida em todos os seus detalhes nasce um desespero, uma ang\u00fastia neur\u00f3tica de ter cometido algum sacril\u00e9gio, uma culpa que n\u00e3o encontra solu\u00e7\u00e3o.<!--more--><\/p>\n<p>Vimos, por exemplo, que a ordem de Cristo: \u201cA ningu\u00e9m julgueis\u201d, n\u00e3o pode ser observada rigorosamente, pelo menos numa base permanente. O mesmo acontece com todas as ordens de Cristo. Veja o Serm\u00e3o do Monte: nenhuma de suas exig\u00eancias \u00e9 plenamente realiz\u00e1vel. Tome a mais simples, a de fazer aos outros n\u00e3o apenas o que eles nos pedem, mas o dobro (Mt 5.41). Pense no problema do emprego do tempo, j\u00e1 mencionado; o problema tornar-se-ia ainda mais insol\u00favel. E a exig\u00eancia suprema \u00e9: \u201cSede v\u00f3s perfeitos como perfeito \u00e9 o vosso Pai celeste\u201d (Mt 5.48). Ent\u00e3o, me parece que \u00e9 errado apresentar o Serm\u00e3o do Monte como um esbo\u00e7o da \u00e9tica de Jesus Cristo, como \u00e9 feito com frequ\u00eancia. Uma \u00e9tica pretende justamente ser aplic\u00e1vel. Ela \u00e9 limitada. Define certo n\u00famero de exig\u00eancias precisas (tabus, para usar a linguagem dos psic\u00f3logos) de tal modo que se pudesse ter a consci\u00eancia tranquila ao segui-las cuidadosamente. No entanto, diante de Jesus Cristo e do seu apelo est\u00e1 sempre faltando alguma coisa, e muito, em nossa justi\u00e7a. Esse \u00e9 o sentido, por exemplo, da hist\u00f3ria do jovem rico que perguntou o que deveria fazer para herdar a vida eterna (Mc 10.17-22). Jesus lembrou-lhe a lei de Mois\u00e9s, o Dec\u00e1logo, e esse jovem respondeu com consci\u00eancia tranquila: \u201cMestre, tudo isto tenho observado desde a minha juventude\u201d. E Jesus, olhando-o, o amou. Por\u00e9m, com uma s\u00f3 palavra, Jesus mostrou imediata e justamente o que lhe faltava: \u201cVai, vende tudo o que tens [&#8230;]\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer que a lei mosaica dos primeiros livros do Antigo Testamento tem um car\u00e1ter moralista, o de um c\u00f3digo limitado, aplic\u00e1vel, cujo obedi\u00eancia meticulosa deve assegurar a consci\u00eancia tranquila. \u201cOs meus estatutos e os meus ju\u00edzos guardareis; cumprindo-os, o homem viver\u00e1 por eles\u201d (Lv 18.5). Em consequ\u00eancia, essa lei \u00e9 facilmente investida pelas caracter\u00edsticas arcaicas, infantis e m\u00e1gicas da moral dos tabus, fonte de culpas patol\u00f3gicas. A pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de impureza, de objetos impuros que n\u00e3o se deve tocar, que tem um grande lugar na legisla\u00e7\u00e3o mosaica, tem algo muito parecido com o sentido formalista e m\u00e1gico do tabu.<\/p>\n<p>Outro resultado \u00e9 uma ang\u00fastia neur\u00f3tica, porque se pode cometer um pecado sem saber, sem m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o: \u201c[&#8230;] quando algu\u00e9m tocar em alguma coisa imunda, seja corpo morto de besta-fera imunda, [&#8230;] ainda que lhe fosse oculto, e tornar-se imundo, ent\u00e3o ser\u00e1 culpado\u201d (Lv 5.2). Assim, o que devia dispersar a culpa, uma defini\u00e7\u00e3o expl\u00edcita e exaustiva, pr\u00f3pria para garantir a consci\u00eancia tranquila, suscita uma culpa nova, infinitamente mais angustiante porque, por ser inconsciente, \u00e9 imposs\u00edvel de se prever. Vejam outro exemplo: a arca de Deus tinha, aos olhos dos israelitas, esse car\u00e1ter m\u00e1gico do tabu; n\u00e3o se podia toc\u00e1-la. Deus ordenou a Davi que a transportasse a Jerusal\u00e9m. Colocaram-na, para isso, num carro de bois. Mas em Nacom o carro amea\u00e7ou tombar, ent\u00e3o \u201cestendeu Uz\u00e1 a m\u00e3o \u00e0 arca de Deus, e a segurou porque os bois trope\u00e7aram\u201d. Uz\u00e1 morreu na mesma hora! O que n\u00f3s sabemos sobre o poder dos tabus nos permite compreender que a ideia de ter tocado numa coisa t\u00e3o santa pode bem ter sido a causa da sua morte. Mas as testemunhas oculares reconheceram uma puni\u00e7\u00e3o de Deus que atingiu Uz\u00e1 pelo pecado de que se tornou culpado numa inten\u00e7\u00e3o em si mesma t\u00e3o louv\u00e1vel. E todo o povo e o rei foram tomados de ang\u00fastia (2Sm 6.6-9).<\/p>\n<p>De acordo com a palavra de Bergson, adotada por Ricoeur, a B\u00edblia toda nos mostra o choque entre duas mentalidades: a mentalidade infantil, formalista, moralista, a dos tabus, e a mentalidade prof\u00e9tica. A primeira oferece uma moral limitada, definida, expl\u00edcita, que localiza o pecado numa a\u00e7\u00e3o, numa coisa impura. Ela pretende apresentar ao homem uma salva\u00e7\u00e3o que ele possa assegurar a si mesmo observando cuidadosamente todas as suas leis rigorosamente, e ela o conduz, na realidade, a uma ang\u00fastia sem limite. A segunda situa a culpa no cora\u00e7\u00e3o do homem e n\u00e3o nas coisas, na inten\u00e7\u00e3o, no ser e n\u00e3o no fazer. Ela proclama o car\u00e1ter ilimitado das exig\u00eancias de Deus, a impossibilidade, por conseguinte, de o homem eliminar a sua culpa pela perfei\u00e7\u00e3o da sua conduta moral. Ent\u00e3o, a resposta vem de Deus e n\u00e3o do homem; no perd\u00e3o que Deus d\u00e1 precisamente \u00e0quele que confessa a sua culpa inevit\u00e1vel, em vez de justific\u00e1-la.<br \/>\nO choque dessas duas mentalidades culmina nos debates que travam Jesus Cristo e os fariseus, e leva ao drama da cruz. Os fariseus encarnam esse esp\u00edrito moralista, infinitamente sincero e escrupuloso, que \u201ccoa o mosquito\u201d (Mt 23.24), tal \u00e9 o seu cuidado em proteger-se contra a culpa. Eles s\u00e3o os herdeiros, como tantos crentes escrupulosos dos nossos dias, do aspecto mais primitivo da lei de Mois\u00e9s, que eles ampliaram at\u00e9 chegar a um casu\u00edsmo esmagador.<\/p>\n<h6><span style=\"color: #ff0000;\">\u2022 Trecho retirado do cap\u00edtulo 14 de <span style=\"color: #333300;\"><a style=\"color: #333300;\" href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/culpa-e-graca-2\">Culpa e Gra\u00e7a:&nbsp;Uma an\u00e1lise do sentimento de culpa e o ensino do evangelho<\/a><\/span>, de Paul Tournier (Editora Ultimato)<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro da Semana &nbsp; | &nbsp;&nbsp;Por&nbsp;Paul Tournier<br \/>\nA maior parte das pessoas l\u00ea a B\u00edblia como se ela fosse um conjunto de proibi\u00e7\u00f5es e prescri\u00e7\u00f5es cuja observ\u00e2ncia deveria nos assegurar uma exist\u00eancia sem culpa<br \/>\nEssa oposi\u00e7\u00e3o entre a culpa do fazer e a culpa do ser nos ajudar\u00e1 agora a compreender melhor a B\u00edblia e a dissipar [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5153],"tags":[],"class_list":["post-8949","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-prateleira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8949","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8949"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8949\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8953,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8949\/revisions\/8953"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8949"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8949"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8949"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}