{"id":8874,"date":"2017-04-26T00:00:17","date_gmt":"2017-04-26T03:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=8874"},"modified":"2017-05-12T14:18:56","modified_gmt":"2017-05-12T17:18:56","slug":"outras-historias-de-fragilidade-e-graca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2017\/04\/26\/outras-historias-de-fragilidade-e-graca\/","title":{"rendered":"Outras hist\u00f3rias de fragilidade e gra\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mais uma de tantas reuni\u00f5es de AA&#8230;<\/strong><\/p>\n<h6><strong><span style=\"color: #808000;\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/04\/fragilidade-gra\u00e7a.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9206 alignright\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/04\/fragilidade-gra\u00e7a.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/04\/fragilidade-gra\u00e7a.jpg 360w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/04\/fragilidade-gra\u00e7a-300x222.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a>Por LC<\/span><\/strong><\/h6>\n<p>Um minuto de sil\u00eancio, ora\u00e7\u00e3o da serenidade e um agradecimento silencioso: \u201cObrigada, Deus, porque o Senhor permitiu que eu chegasse at\u00e9 aqui. At\u00e9 aqui tens me sustentado\u201d.<\/p>\n<p>Eu vinha, como sempre procurando alento em alguma coisa, pois aparentemente Deus n\u00e3o iria me poupar de mais alguns sofrimentos. Tenho andado com a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o devo esperar coisas boas da vida, pois tenho recebido coisas ruins continuamente nos \u00faltimos tempos.<\/p>\n<p>Perdas sucessivas: em um ano enterrei minha irm\u00e3 ca\u00e7ula \u2013 v\u00edtima de um c\u00e2ncer agressivo e incur\u00e1vel, que parecia que n\u00e3o ia passar nunca; quinze dias depois, uma tia com a qual tinha muita afinidade; seis meses depois, outra tia \u2013 tamb\u00e9m v\u00edtima de c\u00e2ncer \u2013 e, um m\u00eas depois, uma terceira tia \u2013 esta j\u00e1 idosa e doente.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m lido com a depend\u00eancia qu\u00edmica de um filho e me sinto mais uma vez amea\u00e7ada de perder algu\u00e9m que amo. Parece que as dificuldades n\u00e3o v\u00e3o passar nunca.<\/p>\n<p>Naquele momento, admiti minha impot\u00eancia perante a morte e outras circunst\u00e2ncias da vida. Lembrada pelos companheiros de recupera\u00e7\u00e3o do Deus que cuida da gente n\u00e3o importa qual a situa\u00e7\u00e3o, constatei: \u201cGrandes coisas tem feito o Senhor por n\u00f3s, por isso estamos alegres\u201d (Sl 126.3).<\/p>\n<p>Por fim, o Deus que cuida, lembrou-me de que, apesar de tudo, eu havia completado catorze anos de sobriedade cont\u00ednua. Fiquei envergonhada, como eu pude esquecer?<\/p>\n<p>Em meio a tantas coisas ruins e prova\u00e7\u00f5es, eu n\u00e3o reca\u00ed e nem por um momento fui tentada pela bebida, porque grandes coisas Ele tem feito, apesar de mim.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, com a cabe\u00e7a no travesseiro, agradeci a este Deus que atendendo \u00e0s minhas \u00faltimas ora\u00e7\u00f5es trouxe \u00e0 minha mem\u00f3ria aquilo que me d\u00e1 esperan\u00e7a.<!--more--><\/p>\n<p>S\u00f3, por hoje.<\/p>\n<p>*****<\/p>\n<p><strong>Facas escondidas<\/strong><\/p>\n<h6><span style=\"color: #808000;\">Da Reda\u00e7\u00e3o<\/span><\/h6>\n<p>Voltava de um tempo fora do pa\u00eds. A fam\u00edlia reunida celebrava a chegada do novo ano. A ceia estava ao seu encargo. Precisou de uma faca grande e pediu-a ao irm\u00e3o. Ele foi at\u00e9 \u00e0 gaveta, pegou uma faca afiada e lhe entregou. Aquela cena a transportou para 35 anos antes, tempo em que facas eram inexistentes ou guardadas a sete chaves na casa da fam\u00edlia. O irm\u00e3o, esquizofr\u00eanico, tinha crises de viol\u00eancia. Depois de sorrir para ele, ela interrompeu o preparo e refugiou-se no banheiro para chorar e orar. Quanta coisa Deus fez na vida deste irm\u00e3o, que hoje tem um papel relevante para tantas pessoas e vive uma vida normal, apesar das limita\u00e7\u00f5es. Lembrou-se tamb\u00e9m de como Deus sustentou a seus pais nos tempos complicados.<\/p>\n<p>*****<\/p>\n<p><strong>Dona Aparecida, 22 anos depois da decis\u00e3o \u201cEu vou frequentar esta igreja!\u201d<\/strong><\/p>\n<h6><span style=\"color: #808000;\"><strong>Por Uriel Heckert<\/strong><\/span><\/h6>\n<p>Foi num domingo de 1990, quando ela veio espontaneamente \u00e0 nossa 4\u00aa Igreja Presbiteriana. Recebera um impresso das m\u00e3os da irm\u00e3 Izabel, que cultivava o minist\u00e9rio de visitar hospitais e distribuir literatura. Ao ver o endere\u00e7o no final do pequeno folheto, Dona Aparecida tomou a decis\u00e3o consigo: \u201cEu vou frequentar esta Igreja!\u201d<br \/>\nObtendo licen\u00e7a para passar o final de semana com parentes, n\u00e3o mais retornou a cl\u00ednica. Veio, sim, \u00e0 Igreja, com a firme convic\u00e7\u00e3o de que seria curada e que, a partir da\u00ed, reestruturaria sua vida.<\/p>\n<p>As pessoas ficaram assustadas ao ouvir sua hist\u00f3ria e logo recorreram a mim, sugerindo uma avalia\u00e7\u00e3o do seu estado de sa\u00fade. De fato, os relatos eram preocupantes: oito anos de interna\u00e7\u00e3o ininterrupta, motivada por grave iniciativa contra a pr\u00f3pria vida. Durante a longa hospitaliza\u00e7\u00e3o, mais uma autoagress\u00e3o violenta acontecera; tudo a indicar risco acentuado.<\/p>\n<p>O estado ps\u00edquico naquele momento, por\u00e9m, era est\u00e1vel. Combinamos, ent\u00e3o, que ter\u00edamos um seguimento criterioso, com a aten\u00e7\u00e3o constante de todos, consultas peri\u00f3dicas e uso regular de medica\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica. Ela estava disposta, desde que n\u00e3o retornasse ao hospital.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca eu estava muito envolvido na reformula\u00e7\u00e3o do modelo de assist\u00eancia em sa\u00fade mental. Participava da Comiss\u00e3o Interinstitucional de Sa\u00fade Mental, representando a Universidade. Pretendia-se promover mudan\u00e7as no sistema at\u00e9 ent\u00e3o vigente, centrado no atendimento hospitalar. A \u00eanfase era que as pessoas podem permanecer integradas a comunidade, desde que tenham uma rede de suporte social, al\u00e9m de acompanhamento e tratamento adequados.<\/p>\n<p>Meu papel em tais iniciativas era t\u00e9cnico e profissional; mas a motiva\u00e7\u00e3o \u00edntima baseava-se no Evangelho de Jesus Cristo, que aponta para a dignidade da pessoa humana, mesmo estando doente mental. Respeito e igualdade de oportunidades tamb\u00e9m s\u00e3o premissas crist\u00e3s que nos moviam. A cren\u00e7a de que as Igrejas constituem-se, al\u00e9m de tudo que representam, em excelentes comunidades terap\u00eauticas motivou-me ainda mais na aten\u00e7\u00e3o a D. Aparecida.<\/p>\n<p>Igualmente desafiadora foi a solicita\u00e7\u00e3o que ela nos trouxe logo depois. Como m\u00e3e, desejava recuperar a tutela dos tr\u00eas filhos: a mais velha, ent\u00e3o com 12, Luciana com 11 e o ca\u00e7ula com 9 anos. Desde sua interna\u00e7\u00e3o, no curso da grave depress\u00e3o emocional que lhe acometeu ap\u00f3s o \u00faltimo parto, eles ficaram ao l\u00e9u. Passaram por diversas institui\u00e7\u00f5es, pelas casas de diferentes parentes e conhecidos, por vezes juntos e outras n\u00e3o. Sua inten\u00e7\u00e3o era reuni-los num lar, sob seus cuidados.<\/p>\n<p>O pai j\u00e1 falecera quatro anos antes. Na verdade, ele nunca pode oferecer a aten\u00e7\u00e3o que todos mereciam. Al\u00e9m de estar sempre viajando, como caminhoneiro que era, excedia-se tamb\u00e9m na bebida, mostrando-se incapaz para as obriga\u00e7\u00f5es requeridas.<\/p>\n<p>Pelas mesmas raz\u00f5es, o pr\u00f3prio casamento j\u00e1 fora alvo de reservas. Ainda com seus 17 anos, D. Aparecida encantou-se com o jovem que era disputado no Bairro de S\u00e3o Mateus. A fam\u00edlia n\u00e3o teve meios de dissuadi-la. Decidida a deixar os estudos, recebeu palavras de advert\u00eancia da jovem professora Maria Mathilde, que a acompanhava na Escola Estadual Fernando Lobo. Tudo em v\u00e3o: o arroubo do cora\u00e7\u00e3o foi mais forte.<\/p>\n<p>As dificuldades n\u00e3o tardaram, pois o esposo nunca abriu m\u00e3o da vida bo\u00eamia. Sucedendo-se os tr\u00eas filhos, todo o \u00f4nus dos cuidados recaiu sobre a jovem m\u00e3e. Assim, estando sempre s\u00f3 diante dos embara\u00e7os do cotidiano, sem os recursos necess\u00e1rios, n\u00e3o foi dif\u00edcil que ela adoecesse. Da\u00ed para frente, D. Aparecida ficou a merc\u00ea da assist\u00eancia psiqui\u00e1trica oferecida na rede p\u00fablica de sa\u00fade: interna\u00e7\u00f5es prolongadas, sem respaldo de uma rede de ambulat\u00f3rios organizada e eficiente. Em consequ\u00eancia, a fam\u00edlia dissolveu-se, com preju\u00edzos sens\u00edveis para todos.<\/p>\n<p>J\u00e1 se passaram 22 anos desde aquela manh\u00e3 de domingo. D. Aparecida tornou-se um dos membros mais presentes e dedicados da nossa igreja. Ela participa com entusiasmo das reuni\u00f5es gerais, dos grupos de ora\u00e7\u00e3o, da sociedade de mulheres&#8230; Sua simpatia e seu sorriso sereno contagiam a todos, fazendo-a bem conhecida e estimada. Mesmo agora que reside mais distante, seu lugar no templo est\u00e1 sempre ocupado.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia recomp\u00f4s-se progressivamente, passando pelas dificuldades que seriam de se esperar. A heran\u00e7a do dist\u00farbio do humor foi acrescida dos traumas, pelas vicissitudes que a vida imp\u00f4s a cada um. Ao se reunirem, enfrentaram o estranhamento m\u00fatuo, os estigmas acumulados, as desconfian\u00e7as dos circunstantes, as limita\u00e7\u00f5es dos recursos. Tudo favoreceu a que os filhos passassem por crises e descaminhos peculiares. As dificuldades, por\u00e9m, t\u00eam sido vencidas com a dedica\u00e7\u00e3o e as ora\u00e7\u00f5es da m\u00e3e zelosa, contando sempre com o apoio dos irm\u00e3os da igreja.<br \/>\nHoje a filha mais velha \u00e9 uma senhora madura, esposa dedicada, m\u00e3e de dois filhos. O ca\u00e7ula busca seu caminho, lutando consigo mesmo, debatendo-se com as ofertas tentadoras que o rodeiam e desafiando os embara\u00e7os para sua estabilidade.<\/p>\n<p>Luciana deu ao filho o sugestivo nome de Isaque, aquele do personagem b\u00edblico destacado como \u201cfilho da promessa\u201d; e est\u00e1 sempre ao lado da m\u00e3e. Os tr\u00eas s\u00e3o presen\u00e7a constante nas reuni\u00f5es da nossa comunidade. Agora, para alegria de todos n\u00f3s, tornou-se tamb\u00e9m membro da Igreja. Ap\u00f3s muitas idas e vindas, cumpriu o per\u00edodo de prepara\u00e7\u00e3o e fez sua Profiss\u00e3o de F\u00e9. Com seus 33 anos de idade, ela n\u00e3o evita a compara\u00e7\u00e3o: \u201cEstou me entregando a Jesus com a idade que Ele tinha quando se entregou na cruz por mim!\u201d<\/p>\n<p>Somos testemunhas dos milagres que Deus vem operando. Nada foi obtido por m\u00e1gica ou efeito espetacular. Ao contr\u00e1rio, os anos t\u00eam sido de desafios e lutas, durante os quais muitas pessoas voluntariamente se envolveram. Em tudo temos a satisfa\u00e7\u00e3o de perceber a m\u00e3o de Deus agindo na vida desta fam\u00edlia e, atrav\u00e9s dela, na vida de todos n\u00f3s. Damos muitas gra\u00e7as ao Senhor, de quem prov\u00e9m todo o bem.<\/p>\n<p><strong>\u2022 Uriel Heckert<\/strong>, doutor em psiquiatria pela Universidade de S\u00e3o Paulo, professor aposentado da Universidade Federal de Juiz de Fora e um dos fundadores do Corpo de Psic\u00f3logos e Psiquiatras Crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Texto originalmente publicado na se\u00e7\u00e3o \u201cOpini\u00e3o\u201d do portal Ultimato, em 4\/3\/2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma de tantas reuni\u00f5es de AA&#8230;<br \/>\nPor LC<br \/>\nUm minuto de sil\u00eancio, ora\u00e7\u00e3o da serenidade e um agradecimento silencioso: \u201cObrigada, Deus, porque o Senhor permitiu que eu chegasse at\u00e9 aqui. At\u00e9 aqui tens me sustentado\u201d.<br \/>\nEu vinha, como sempre procurando alento em alguma coisa, pois aparentemente Deus n\u00e3o iria me poupar de mais alguns sofrimentos. Tenho andado [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[9536,5153],"tags":[8441,7614,32231,32244],"class_list":["post-8874","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-do-editor","category-prateleira","tag-familia","tag-graca","tag-mais-na-internet","tag-ult-365"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8874","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8874"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8874\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9258,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8874\/revisions\/9258"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}