{"id":8853,"date":"2017-03-24T16:11:04","date_gmt":"2017-03-24T19:11:04","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=8853"},"modified":"2017-03-24T16:20:30","modified_gmt":"2017-03-24T19:20:30","slug":"no-que-o-senhor-acredita-doutor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2017\/03\/24\/no-que-o-senhor-acredita-doutor\/","title":{"rendered":"No que o senhor acredita, doutor?"},"content":{"rendered":"<h4><span style=\"color: #808000;\"><strong>Por Francis Collins<\/strong><\/span><\/h4>\n<p><strong><span style=\"color: #808000;\">[Livro da Semana]<\/span><\/strong><\/p>\n<h4>Nada que eu havia aprendido sobre a ci\u00eancia poderia explicar aquela experi\u00eancia.<\/h4>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/verdadeiros-cientistas-fe-verdadeira\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-8854\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/03\/francis_collins_blog_ult.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"175\"><\/a>Em 1989 passei alguns meses num pequeno hospital em Eku, no delta do N\u00edger. Aquilo era diferente de qualquer coisa que eu j\u00e1 havia conhecido. Nunca havia leitos suficientes, de modo que pacientes muitas vezes precisavam dormir no ch\u00e3o. Suas fam\u00edlias muitas vezes viajavam com eles e assumiam a responsabilidade de aliment\u00e1-los. Com frequ\u00eancia os pacientes s\u00f3 iam ao hospital quando a doen\u00e7a j\u00e1 estava avan\u00e7ada. Sobrecarregado com a enormidade desses problemas, exausto pelo fluxo constante de pacientes com doen\u00e7as as quais eu n\u00e3o tinha grande preparo para diagnosticar, frustrado pela falta de apoio laboratorial e de raio X fui ficando cada vez mais desmotivado e me perguntando por que eu havia pensado que aquela viagem seria uma boa ideia.<\/p>\n<p><!--more-->Uma tarde, na cl\u00ednica, um jovem trabalhador rural com uma fraqueza progressiva e um grande incha\u00e7o nas pernas foi trazido pela sua fam\u00edlia. Tomando seu pulso, fiquei assustado ao perceber que este praticamente desaparecia todas as vezes que ele inspirava. Embora eu jamais tivesse visto esse sinal f\u00edsico t\u00edpico (referido como \u201cpulso paradoxal\u201d) de uma maneira t\u00e3o dram\u00e1tica, parecia bastante prov\u00e1vel que isso significava que o rapaz havia acumulado uma grande quantidade de fluido no saco peric\u00e1rdico ao redor do cora\u00e7\u00e3o. Esse fluido amea\u00e7ava cortar sua circula\u00e7\u00e3o e tirar sua vida. O \u00fanico modo de salv\u00e1-lo seria fazer um procedimento de alto risco de extrair o fluido com uma seringa de agulha bem grossa inserida no seu peito. Num pa\u00eds desenvolvido, esse procedimento seria feito somente por um cardiologista altamente experiente, guiado por um aparelho de ultrassom, de modo a evitar lacerar o cora\u00e7\u00e3o e causar morte imediata.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia ultrassom. Nenhum outro m\u00e9dico ali naquele pequeno hospital nigeriano havia realizado esse tipo de procedimento. Eu tinha de escolher entre fazer uma aspira\u00e7\u00e3o extremamente invasiva e arriscada ou simplesmente assistir ao trabalhador rural morrer. Expliquei a situa\u00e7\u00e3o ao jovem, que ent\u00e3o se deu conta da sua prec\u00e1ria condi\u00e7\u00e3o. Ele calmamente pediu-me para fazer o procedimento. Com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o e uma ora\u00e7\u00e3o nos l\u00e1bios, inseri uma enorme agulha logo abaixo do seu externo e a direcionei para seu ombro esquerdo, o tempo todo temendo ter feito um diagn\u00f3stico errado, em cujo caso eu quase certamente o mataria.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisei esperar muito. Um jato de fluido avermelhado na seringa trouxe-me um p\u00e2nico inicial de que houvesse penetrado uma das c\u00e2maras card\u00edacas, mas logo tornou-se claro que aquilo n\u00e3o era sangue. Era uma enorme quantidade de uma efus\u00e3o tuberculosa do saco peric\u00e1rdico. O jovem respondeu ao tratamento de maneira dram\u00e1tica. Seu pulso paradoxal desapareceu quase instantaneamente, e nas 24 horas seguintes o incha\u00e7o de suas pernas melhorou rapidamente.<\/p>\n<p>Por algumas horas depois dessa experi\u00eancia senti uma enorme sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio, at\u00e9 mesmo exulta\u00e7\u00e3o pelo que havia ocorrido. Por\u00e9m, na manh\u00e3 seguinte a tristeza com a qual j\u00e1 estava familiarizado come\u00e7ou a me dominar. Afinal de contas, as circunst\u00e2ncias que haviam levado aquele rapaz a contrair tuberculose n\u00e3o iriam mudar. Mesmo se ele sobrevivesse \u00e0 doen\u00e7a, algum outro mal evit\u00e1vel devido \u00e0 \u00e1gua n\u00e3o tratada, nutri\u00e7\u00e3o inadequada e ambiente perigoso provavelmente n\u00e3o estava muito distante no futuro dele. As chances de um trabalhador rural nigeriano viver muito tempo n\u00e3o s\u00e3o muito grandes.<\/p>\n<p>Com esses pensamentos desencorajadores na mente, aproximei-me do seu leito, onde ele lia a sua B\u00edblia. Ele olhou-me intrigado e perguntou-me se eu trabalhava h\u00e1 muito tempo naquele hospital. Admiti que era novato, sentindo-me irritado e envergonhado pelo fato de isso ser t\u00e3o patente para ele. Mas foi ent\u00e3o que aquele jovem trabalhador rural nigeriano, t\u00e3o diferente de mim no tocante a cultura, experi\u00eancia e ancestralidade quanto poss\u00edvel a dois seres humanos, proferiu as palavras que ficar\u00e3o para sempre gravadas na minha mente: \u201cTenho a impress\u00e3o de que o senhor est\u00e1 se perguntando o que veio fazer aqui\u201d, ele disse. \u201cTenho uma resposta para o senhor. O senhor veio aqui por uma raz\u00e3o; veio aqui por minha causa\u201d.<\/p>\n<p>Fiquei aturdido. Aturdido por ele poder enxergar t\u00e3o claramente meu cora\u00e7\u00e3o, mas ainda mais aturdido pelas palavras que ele disse. Eu havia inserido uma agulha perto do seu cora\u00e7\u00e3o; ele traspassou o meu diretamente. Com algumas palavras singelas, ele havia envergonhado meus sonhos megaloman\u00edacos de ser o grande m\u00e9dico branco curando milh\u00f5es de africanos. Ele estava certo. Somos todos chamados para alcan\u00e7ar outras pessoas. Em algumas raras ocasi\u00f5es isso pode ocorrer em grande escala. Mas na maior parte do tempo isso ocorre por meio de simples atos de bondade de uma pessoa para a outra. Esses s\u00e3o os acontecimentos realmente importantes.<\/p>\n<p>As l\u00e1grimas de al\u00edvio que anuviavam minha vis\u00e3o enquanto eu digeria suas palavras provinham de uma seguran\u00e7a indescrit\u00edvel. A seguran\u00e7a de que ali, naquele lugar estranho, e somente naquele instante, eu estava em harmonia com a vontade de Deus, unido a aquele rapaz da maneira mais incomum, mas maravilhosa.<\/p>\n<p>Nada que eu havia aprendido sobre a ci\u00eancia poderia explicar aquela experi\u00eancia. Nada acerca das explica\u00e7\u00f5es evolucion\u00e1rias para o comportamento humano poderia explicar por que parecia t\u00e3o perfeito \u00e0quele privilegiado m\u00e9dico branco estar ao lado daquele jovem trabalhador rural africano, ambos recebendo algo excepcional. Isso era o que C. S. Lewis havia chamado de amor \u00e1gape. \u00c9 o amor que n\u00e3o busca recompensa. \u00c9 uma afronta ao materialismo e ao naturalismo. E \u00e9 a alegria mais doce que qualquer pessoa pode sentir.<\/p>\n<h6><span style=\"color: #ff0000;\">\u2022 Trecho retirado do cap\u00edtulo 7 \u2013 \u201cNo que o senhor acredita, doutor?\u201d \u2013, de Francis Collins, do livro <strong><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/verdadeiros-cientistas-fe-verdadeira\">Verdadeiros Cientistas, F\u00e9 Verdadeira<\/a>,<\/strong>&nbsp;Editora Ultimato.<\/span><\/h6>\n<h6><strong>Francis Collins<\/strong>, autor de \u201cA Linguagem de Deus\u201d, \u00e9 membro da Academia Nacional de Ci\u00eancias dos Estados Unidos, m\u00e9dico e doutor em qu\u00edmica. Desde 2009 \u00e9 diretor dos Institutos Nacionais de Sa\u00fade em Bethesda, Maryland, depois de ter dirigido o Projeto Genoma Humano dos Estados Unidos. Antes de assumir este \u00faltimo cargo, ele desenvolveu a t\u00e9cnica de \u201cclonagem posicional\u201d de genes no DNA e liderou uma equipe de pesquisa na Universidade de Michigan que foi respons\u00e1vel pela identifica\u00e7\u00e3o dos genes que causam a fibrose c\u00edstica, a doen\u00e7a de Huntington, a neurofibromatose e outras doen\u00e7as.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Francis Collins<br \/>\n[Livro da Semana]<br \/>\nNada que eu havia aprendido sobre a ci\u00eancia poderia explicar aquela experi\u00eancia.<br \/>\nEm 1989 passei alguns meses num pequeno hospital em Eku, no delta do N\u00edger. Aquilo era diferente de qualquer coisa que eu j\u00e1 havia conhecido. Nunca havia leitos suficientes, de modo que pacientes muitas vezes precisavam dormir no ch\u00e3o. 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