{"id":8555,"date":"2017-02-10T14:12:12","date_gmt":"2017-02-10T17:12:12","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=8555"},"modified":"2017-02-10T14:18:25","modified_gmt":"2017-02-10T17:18:25","slug":"um-cientista-pode-acreditar-na-ressurreicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2017\/02\/10\/um-cientista-pode-acreditar-na-ressurreicao\/","title":{"rendered":"Um cientista pode acreditar na ressurrei\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #808000;\">[Livro da Semana]<\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #808000;\">Por N. T. Wright<\/span><\/strong><\/p>\n<h4>Qual a diferen\u00e7a de perguntar: \u201cUm cientista pode acreditar que a m\u00fasica de Schubert \u00e9 bonita?\u201d<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, \u00e9 poss\u00edvel dar uma resposta curta e trivial para a pergunta \u201cUm cientista pode acreditar na ressurrei\u00e7\u00e3o?\u201d, mais ou menos como o homem que, quando perguntado se acreditava no batismo de crian\u00e7as, respondeu: \u201cClaro! Eu j\u00e1 vi um!\u201d.<\/p>\n<p>Isso exp\u00f5e um dos problemas com a express\u00e3o acreditar em: ela pode significar \u201ccrer que algo pode ser feito\u201d ou \u201ccrer que algo deveria ser feito\u201d ou in\u00fameras outras possibilidades. Portanto, algu\u00e9m poderia simplesmente responder \u00e0 pergunta \u201cUm cientista pode acreditar na ressurrei\u00e7\u00e3o?\u201d desta forma: \u201cClaro! Eu j\u00e1 vi um!\u201d. Conhe\u00e7o muitos cientistas que, forte e declaradamente, acreditam na ressurrei\u00e7\u00e3o, e alguns, de fato, deram um relato s\u00f3lido e coerente do motivo de o fazerem. Eu os cumprimento, mas n\u00e3o pretendo abordar as diferentes formas pelas quais apresentaram seus argumentos.<!--more--><\/p>\n<p>Quero, em vez disso, examinar as discrep\u00e2ncias \u2013 se essa \u00e9 a palavra correta \u2013 entre as diferentes formas de conhecimento, principalmente entre o que podemos vagamente classificar como cient\u00edfico e hist\u00f3rico, e entre esses dois e aquelas outras formas de conhecimento que chamamos, muito livremente, de f\u00e9, esperan\u00e7a e amor.<\/p>\n<p>Meu argumento, e voc\u00ea n\u00e3o se surpreender\u00e1 ao descobrir, \u00e9 que essas formas de conhecimento se sobrep\u00f5em e se integram muito mais do que normalmente imaginamos.<\/p>\n<h4>Eu acredito<\/h4>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/surpreendido-pelas-escrituras\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-8556\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/02\/capa_surp_escrituras.jpg\" width=\"200\" height=\"297\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/02\/capa_surp_escrituras.jpg 160w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2017\/02\/capa_surp_escrituras-101x150.jpg 101w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a>[&#8230;] Contudo, a pergunta, ent\u00e3o, concentra-se na palavra acreditar \u2013 e aqui tamb\u00e9m h\u00e1 desafios a serem explorados. Plat\u00e3o declarou que a cren\u00e7a era uma esp\u00e9cie de conhecimento inferior, ficando entre saber e n\u00e3o saber, de modo que os objetos da cren\u00e7a possu\u00edam uma ontologia intermedi\u00e1ria, no meio do caminho entre a exist\u00eancia e a n\u00e3o exist\u00eancia. Esse modo de pensar manifestou-se no uso popular. Assim, quando dizemos: \u201cEu acredito que esteja chovendo\u201d, estamos nos protegendo da possibilidade de estarmos errados; quando, por\u00e9m, dizemos: \u201cEu sei que est\u00e1 chovendo\u201d, estamos abertos \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o direta. No entanto, esse uso chegou, nos \u00faltimos s\u00e9culos, ao ponto em que, com um tipo de positivismo impl\u00edcito, usamos saber e conhecer para o que julgamos poder provar de alguma forma e acreditar e seus cognatos para o que percebemos estar se degenerando em mera opini\u00e3o pessoal, sem muito apoio no mundo mais amplo.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 foi, desde o in\u00edcio, de que a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus n\u00e3o foi uma quest\u00e3o de estado mental interior e espiritual de seus seguidores alguns dias ap\u00f3s sua crucifica\u00e7\u00e3o, mas de algo que aconteceu no mundo p\u00fablico real, deixando entre suas lembran\u00e7as f\u00edsicas um t\u00famulo vazio, um p\u00e3o partido em Ema\u00fas e pegadas na areia \u00e0 beira do lago. Al\u00e9m disso, deixou os seguidores de Cristo com uma s\u00e9rie de explica\u00e7\u00f5es para dar, mas com uma vis\u00e3o de mundo completamente transformada cuja \u00fanica explica\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que algo realmente aconteceu, mesmo que tenha expandido a vis\u00e3o de mundo deles a ponto de romp\u00ea-la. Falaremos mais sobre isso adiante. O que temos de fazer agora \u00e9 examinar essa antiga afirma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 mais a fundo, perguntar o que pode ser dito historicamente sobre ela e investigar, principalmente, a que tipo de conhecimento ou cren\u00e7a estamos nos referindo quando perguntamos se um cientista pode acreditar naquilo \u00e0 que, ao que parece, a palavra \u201cressurrei\u00e7\u00e3o\u201d realmente se refere.<\/p>\n<h4>Diferentes tipos de conhecimento<\/h4>\n<p>Para come\u00e7ar, algumas reflex\u00f5es \u2013 na verdade, medita\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas \u2013 sobre os tipos de conhecimento. Imagino que quando perguntamos se um cientista pode acreditar em algo, estamos fazendo uma pergunta de dois n\u00edveis. O primeiro questiona que tipo de coisas o m\u00e9todo cient\u00edfico pode explorar e como ele pode saber ou acreditar em algo. O segundo questiona que tipo de compromisso algu\u00e9m dedicado ao conhecimento cient\u00edfico deve ter em todas as outras \u00e1reas da vida. Espera-se, por exemplo, que um cientista tenha uma abordagem cient\u00edfica para ouvir m\u00fasica? Para assistir a um jogo de futebol? Para se apaixonar?<\/p>\n<h4>Um cientista pode acreditar que a m\u00fasica de Schubert \u00e9 bonita?<\/h4>\n<p>Penso que a quest\u00e3o pressup\u00f5e que a ressurrei\u00e7\u00e3o \u2013 e talvez a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, especificamente \u2013 seja algo que afete a \u00e1rea de interesse do cientista, mais ou menos como se algu\u00e9m perguntasse: \u201cUm cientista pode acreditar que o Sol pode nascer duas vezes no mesmo dia?\u201d ou \u201cUm cientista pode acreditar que uma mariposa pode voar at\u00e9 a Lua?\u201d. (Eu realmente j\u00e1 vi o Sol se p\u00f4r duas vezes no mesmo dia; decolei de Aberdeen em uma tarde de inverno, pouco depois do p\u00f4r do Sol, e o Sol nasceu novamente \u00e0 medida que sub\u00edamos e, pouco depois, se p\u00f4s gloriosamente, pela segunda vez. \u00c9 claro que isso foi uma ilus\u00e3o.) \u00c9 diferente de perguntar: \u201cUm cientista pode acreditar que a m\u00fasica de Schubert \u00e9 bonita?\u201d ou \u201cUm cientista pode acreditar que sua esposa o ama?\u201d. H\u00e1 aqueles, sem d\u00favida, que, ao redefinirem a ressurrei\u00e7\u00e3o com o intuito de transform\u00e1-la em uma simples experi\u00eancia espiritual no \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o e da mente dos disc\u00edpulos, levaram-na para as duas \u00faltimas e afastaram-na das duas primeiras. Todavia, rejeitamos esta hip\u00f3tese pelo significado que, como veremos, todos os que usavam a palavra ressurrei\u00e7\u00e3o no primeiro s\u00e9culo lhe deram. Ressurrei\u00e7\u00e3o referia-se \u00e0s pessoas que estavam f\u00edsica e completamente mortas e que voltaram a viver com o corpo f\u00edsico, e n\u00e3o simplesmente sobreviveram ou entraram em um mundo puramente espiritual, o que quer que isso possa ser. Portanto, a ressurrei\u00e7\u00e3o necessariamente afeta o mundo p\u00fablico.<\/p>\n<h4>O cientista e o historiador<\/h4>\n<p>Contudo, analisar o mundo p\u00fablico \u00e9 tarefa n\u00e3o do cientista natural, mas do historiador. Em termos gerais \u2013 e, mais uma vez, sem todas as notas de rodap\u00e9 e nuan\u00e7as necess\u00e1rias \u2013 a ci\u00eancia estuda o que pode se repetir, enquanto a hist\u00f3ria estuda o que n\u00e3o pode se repetir. C\u00e9sar s\u00f3 atravessou o rio Rubic\u00e3o uma vez e, se o tivesse feito de novo, teria um significado diferente. Houve, e p\u00f4de haver, s\u00f3 um primeiro pouso na Lua. O segundo templo de Jerusal\u00e9m caiu no ano 70 depois de Cristo e nunca mais caiu novamente. \u00c9 claro que os historiadores n\u00e3o veem isso como um problema e, normalmente, n\u00e3o t\u00eam vergonha de declarar que esses eventos com certeza ocorreram, embora n\u00e3o possamos repeti-los em laborat\u00f3rio. Contudo, quando as pessoas dizem: \u201cMas isso n\u00e3o pode ter acontecido, porque sabemos que esse tipo de coisa realmente n\u00e3o acontece\u201d, elas est\u00e3o apelando a uma esp\u00e9cie de suposto princ\u00edpio cient\u00edfico da hist\u00f3ria, ou seja, o princ\u00edpio da analogia.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a analogia nunca nos leva muito longe, precisamente porque a hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de situa\u00e7\u00f5es improv\u00e1veis que aconteceram uma \u2013 e somente uma \u2013 vez. Por isso, muitas vezes, as analogias s\u00e3o parciais (na melhor das hip\u00f3teses) e dependem da pergunta \u201cQuem disse?\u201d diante da obje\u00e7\u00e3o a algo que normalmente n\u00e3o acontece. De fato, no caso em quest\u00e3o, devemos notar como um ponto claro, mas muitas vezes ignorado, o fato de que os primeiros crist\u00e3os n\u00e3o pensaram que a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus fosse um exemplo de algo que acontecia de tempos em tempos em outro lugar. A verdade \u00e9 que eles a viram como o primeiro exemplo antecipado de algo que, no final, aconteceria com todas as outras pessoas, sem usarem essa esperan\u00e7a futura como uma analogia com a qual pudessem argumentar que isso j\u00e1 havia acontecido neste exemplo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como o historiador trabalha quando a evid\u00eancia aponta para o que normalmente n\u00e3o esperamos? A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 um exemplo t\u00e3o fundamental disso que \u00e9 dif\u00edcil produzir, neste metan\u00edvel, exemplos similares. Contudo, mais cedo ou mais tarde, as quest\u00f5es de vis\u00e3o de mundo come\u00e7am a aparecer no segundo plano, e o que o historiador permitir\u00e1 na cena \u00e9, inevitavelmente, afetado pela vis\u00e3o do mundo em que ele vive. Neste ponto, voltamos ao cientista que, diante de repetidas experi\u00eancias do que acontece com corpos mortos, do que parece ter sempre acontecido e do que \u00e9prov\u00e1vel que sempre continuar\u00e1 a acontecer, declara que a evid\u00eancia \u00e9 t\u00e3o grande que \u00e9 imposs\u00edvel acreditar na ressurrei\u00e7\u00e3o sem deixar de ser totalmente um cientista.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o ponto em que devemos mudar o rumo da discuss\u00e3o e ir para a evid\u00eancia propriamente dita. O que pode ser dito, dentro do que chamamos de historiografia cient\u00edfica, sobre a proposi\u00e7\u00e3o de que Jesus de Nazar\u00e9 ressuscitou fisicamente dentre os mortos?<\/p>\n<p><strong>#LivrodaSemana<\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #000080;\">\u2022 Trecho retirado de <a style=\"color: #000080;\" href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/surpreendido-pelas-escrituras\">Surpreendido Pelas Escrituras<\/a>, de N. T. Wright.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[Livro da Semana]<br \/>\nPor N. T. Wright<br \/>\nQual a diferen\u00e7a de perguntar: \u201cUm cientista pode acreditar que a m\u00fasica de Schubert \u00e9 bonita?\u201d<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nSem d\u00favida, \u00e9 poss\u00edvel dar uma resposta curta e trivial para a pergunta \u201cUm cientista pode acreditar na ressurrei\u00e7\u00e3o?\u201d, mais ou menos como o homem que, quando perguntado se acreditava no batismo de crian\u00e7as, respondeu: [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5153],"tags":[],"class_list":["post-8555","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-prateleira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8555","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8555"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8555\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8558,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8555\/revisions\/8558"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8555"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8555"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8555"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}