{"id":8408,"date":"2016-12-13T08:47:00","date_gmt":"2016-12-13T11:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=8408"},"modified":"2016-12-13T08:47:00","modified_gmt":"2016-12-13T11:47:00","slug":"uma-nacao-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2016\/12\/13\/uma-nacao-invisivel\/","title":{"rendered":"Uma na\u00e7\u00e3o invis\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Carlos Fernandes<\/em><\/p>\n<p><strong>Reportagem &#8211; Surdos s\u00e3o quase 10 milh\u00f5es de brasileiros, mas a Igreja n\u00e3o os tem alcan\u00e7ado como deveria<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/Blog_Ult_13_12_16_reportagem-ult363.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-8408\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-8409 alignright\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/Blog_Ult_13_12_16_reportagem-ult363-300x222.jpg\" alt=\"blog_ult_13_12_16_reportagem-ult363\" height=\"222\" width=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/Blog_Ult_13_12_16_reportagem-ult363-300x222.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/Blog_Ult_13_12_16_reportagem-ult363-150x111.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/Blog_Ult_13_12_16_reportagem-ult363.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A f\u00e9 vem pelo ouvir a Palavra de Deus, diz a Escritura, mas, para Nelson Peixoto Santos, hoje com 44 anos, o evangelho entrou em seu cora\u00e7\u00e3o por outros caminhos. Surdo de nascen\u00e7a devido a uma rub\u00e9ola mal tratada que acometeu sua m\u00e3e na gesta\u00e7\u00e3o, ele entrou pela primeira vez em uma igreja evang\u00e9lica aos 14 anos de idade. N\u00e3o entendeu quase nada do que era pregado, claro &#8212; por\u00e9m, o ambiente de alegria o deixou interessado. Por meio de leitura labial, Nelson foi instru\u00eddo nos fundamentos da f\u00e9, recebeu a Cristo e foi batizado. Por\u00e9m, nos cultos, ficava, naturalmente, meio isolado, com os olhos atentos \u00e0 boca dos outros. Na \u00e9poca, ele j\u00e1 sabia boa parte do gestual da L\u00edngua Brasileira de Sinais &#8212; Libras e divertia-se mostrando aos outros adolescentes da comunidade como seriam representados alguns vers\u00edculos b\u00edblicos e express\u00f5es como \u201cJesus\u201d &#8212; com os dedos m\u00e9dios de uma m\u00e3o tocando a palma da outra, como que imitando os cravos da cruz &#8211;, \u201caleluia\u201d, \u201cgl\u00f3ria a Deus\u201d etc.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, v\u00e1rios jovens j\u00e1 estavam reproduzindo os sinais, e at\u00e9 \u201ccantando\u201d os hinos em Libras. Ent\u00e3o, o que era quase uma brincadeira entre amigos se transformou em um minist\u00e9rio que, durante mais de vinte anos, alcan\u00e7ou dezenas de deficientes auditivos para o Senhor. \u201cCom o tempo, aquele grupo acabou desfeito porque muitos surdos se transferiram de igreja, mas foi \u00f3timo enquanto durou\u201d, lembra o hoje servidor p\u00fablico Nelson. Assim como ele, e em diferentes graus de comprometimento auditivo &#8212; da incapacidade parcial de ouvir \u00e0 surdez absoluta &#8211;, cerca de 10 milh\u00f5es de brasileiros convivem com essa defici\u00eancia f\u00edsica. Destes, cerca de 2 milh\u00f5es incluem-se nas categorias dos severamente afetados ou de surdos totais. Trata-se de um enorme grupo de pessoas para quem as pol\u00edticas oficiais de inclus\u00e3o social, educa\u00e7\u00e3o e acesso ao mercado de trabalho ainda s\u00e3o incipientes. No que se refere ao aspecto espiritual, s\u00e3o igualmente exclu\u00eddos, j\u00e1 que relativamente poucas igrejas e organiza\u00e7\u00f5es crist\u00e3s desenvolvem minist\u00e9rios espec\u00edficos e eficientes. \u201cOs surdos brasileiros podem ser considerados um grupo n\u00e3o alcan\u00e7ado pelo evangelho\u201d, aponta o jornalista e professor Saulo Xavier. &nbsp;\u201cEles constituem um dos segmentos socioculturais e sociolingu\u00edsticos menos evangelizados do pa\u00eds.\u201d.<\/p>\n<p>Saulo, que \u00e9 baiano de nascimento e cresceu no Cear\u00e1, onde se converteu ao evangelho aos 18 anos, fala com conhecimento de causa. Envolvido com o que chama de \u201ccausa da pessoa surda\u201d h\u00e1 mais de quinze anos, ele n\u00e3o tem casos de defici\u00eancia auditiva na fam\u00edlia. No entanto, sentiu um direcionamento divino para esse tipo de minist\u00e9rio a partir de uma situa\u00e7\u00e3o prosaica. \u201cNa Santa Ceia, naquela hora de comunh\u00e3o em que trocamos os elementos com os irm\u00e3os, havia um crente surdo e eu n\u00e3o sabia o que falar, e nem como dizer algo, a ele\u201d, lembra. Mais tarde, interessou-se tanto pelo tema que o incluiu em seus trabalhos no curso de comunica\u00e7\u00e3o social. \u201cMeu estudo de conclus\u00e3o de curso foi a produ\u00e7\u00e3o de um telejornal na linguagem dos surdos\u201d, conta Saulo. Em 2002, participou do Encontro Nacional de Obreiros com Surdos, em Guarapari, ES, com mais de seiscentas pessoas, entre ouvintes e deficientes auditivos. \u00c0quela altura, j\u00e1 estava totalmente envolvido. \u201cQuando voltei, organizei um encontro no Cear\u00e1 para int\u00e9rpretes de Libras.\u201d O passo seguinte foi buscar a especializa\u00e7\u00e3o profissional que ele sabia ser essencial ao minist\u00e9rio que abra\u00e7ara. \u201cTornei-me int\u00e9rprete profissional em escolas e fui para o campo mission\u00e1rio acompanhando surdos vocacionados de minha igreja.\u201d Logo vieram o mestrado em tradu\u00e7\u00e3o de Libras e o doutorado. Hoje, Saulo tem no curr\u00edculo o t\u00edtulo de professor e pesquisador especializado e \u00e9 um dos maiores experts do pa\u00eds, atuando, entre outras atividades docentes, na capacita\u00e7\u00e3o de estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o lato sensu na \u00e1rea de tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o de Libras.<!--more--><\/p>\n<p><strong>\u201cEnxergar a pessoa\u201d<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO Senhor foi trabalhando no meu cora\u00e7\u00e3o para eu enxergar a pessoa, e n\u00e3o a defici\u00eancia.\u201d&nbsp; Com essa certeza no cora\u00e7\u00e3o, Saulo diz que n\u00e3o tem trabalhado para os surdos, mas sim, com eles. \u201cEles s\u00e3o participantes do reino de Deus tanto quanto eu, e a gente n\u00e3o pode negar o acesso ao evangelho que salva a uma pessoa por falta de acessibilidade lingu\u00edstica\u201d, pontifica. Hoje congregando na Igreja Maranatha, de Goi\u00e2nia &#8212; ligada \u00e0 Igreja Presbiteriana do Brasil &#8211;, comunidade que tem entre seus membros cerca de quarenta deficientes auditivos, ele entende que ainda h\u00e1 muito a fazer. Por isso mesmo, tem desenvolvido uma s\u00e9rie de iniciativas em benef\u00edcio desse segmento, inclusive o est\u00edmulo para que haja pequenos cursos de Libras para os membros das igrejas. \u201cAssim, o surdo que chega como convidado pode ser recebido por pessoas capazes de se comunicar com ele, ainda que no n\u00edvel b\u00e1sico, para dar as boas-vindas e prestar informa\u00e7\u00f5es\u201d, explica. Tal acolhimento, garante, traz excelentes resultados. \u201c\u00c9 mais f\u00e1cil, assim, que a pessoa surda sinta-se alvo do amor de Deus.\u201d &nbsp;<\/p>\n<p>Apesar de certa efervesc\u00eancia nos anos 1980, quando v\u00e1rios grupos se formaram nas igrejas e surgiram minist\u00e9rios especializados, Saulo reconhece que houve um refluxo. Al\u00e9m da falta de conscientiza\u00e7\u00e3o e apoio por parte da lideran\u00e7a, diz, houve certa perda de foco. \u201cHouve maior concentra\u00e7\u00e3o na realiza\u00e7\u00e3o de eventos e nas tarefas e demandas dos minist\u00e9rios, o que \u00e9 importante, sem d\u00favida. Mas n\u00e3o se pode perder a prioridade do an\u00fancio do evangelho de Cristo.\u201d Al\u00e9m disso, destaca, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil pregar para o surdo quando se domina o b\u00e1sico. O desafio \u00e9 discipul\u00e1-lo, capacit\u00e1-lo no conhecimento da Palavra e no envolvimento efetivo com a Igreja e o reino de Deus. Falta de obreiros e de investimento e prioridade por parte das igrejas, al\u00e9m do momento de questionamento \u00e0s institui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas, s\u00e3o alguns dos motivos. Mas Saulo est\u00e1 otimista com novas abordagens. \u201cMuitos surdos evang\u00e9licos est\u00e3o galgando posi\u00e7\u00f5es importantes, inclusive nas universidades, o que abre a visibilidade sobre as necessidades da pessoa com defici\u00eancia auditiva. J\u00e1 existem cursos teol\u00f3gicos e de forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a espec\u00edficos. H\u00e1 estrat\u00e9gias novas, e creio que cada um vai encontrar o seu lugar de a\u00e7\u00e3o\u201d, avalia.<\/p>\n<p>\u201cUm dos problemas desse grupo \u00e9 n\u00e3o ter \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o a B\u00edblia Sagrada na l\u00edngua que fala ao cora\u00e7\u00e3o deles, a l\u00edngua de sinais\u201d, aponta o pastor Ern\u00ed Seibert, diretor de comunica\u00e7\u00e3o social da Sociedade B\u00edblica do Brasil (SBB), uma das maiores publicadoras das Sagradas Escrituras no mundo. A Casa desenvolve o programa \u201cA B\u00edblia para pessoas com defici\u00eancia auditiva\u201d, inspirado em iniciativas anteriores da SBB em favor de portadores de cegueira. A ideia, claro, \u00e9 prover a acessibilidade total. \u201cOs primeiros movimentos nesse sentido aconteceram na d\u00e9cada de 1990. Mas somente nos \u00faltimos anos conseguimos produzir as primeiras publica\u00e7\u00f5es em Libras\u201d, continua Seibert. Segundo ele, a tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia em Libras tem toda a complexidade da tradu\u00e7\u00e3o para uma l\u00edngua nova. \u201cGra\u00e7as a Deus, este trabalho est\u00e1 em andamento. Precisamos orar e contribuir com nossas ofertas para que ele possa ser acelerado\u201d, comenta.<\/p>\n<div id=\"attachment_8410\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_2.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-8408\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8410\" class=\"wp-image-8410 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_2-300x172.jpg\" alt=\"ult_363_reportagem_2\" height=\"172\" width=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_2-300x172.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_2-150x86.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_2.jpg 504w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8410\" class=\"wp-caption-text\">Frame do v\u00eddeo &#8220;Daniel&#8221; dispon\u00edvel no DVD da s\u00e9rie Aventuras da B\u00edblia em libras, volume 2, da SBB<\/p><\/div>\n<p>Com larga tradi\u00e7\u00e3o na \u00e1rea social, a SBB trabalha em parceria com organiza\u00e7\u00f5es especializadas em diversos p\u00fablicos. \u201cQuando se leva a B\u00edblia Sagrada, a Palavra de Deus, para a comunidade surda, temos um programa que transmite amor e orienta\u00e7\u00e3o para a sua vida, que os inclui tanto na comunidade de f\u00e9, a igreja, como na comunidade social.\u201d Por enquanto, a entidade disponibiliza materiais em v\u00eddeo para o p\u00fablico infantojuvenil, como a s\u00e9rie <strong>Aventuras da B\u00edblia em Libras<\/strong>, que \u00e9 distribu\u00edda mediante cadastro pr\u00e9vio. Al\u00e9m disso, a SBB realiza dois encontros anuais para pessoas com defici\u00eancia auditiva. \u201cO objetivo dos encontros \u00e9 promover a inclus\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o dos surdos e seus familiares, possibilitando o contato com a mensagem b\u00edblica e a participa\u00e7\u00e3o em um evento cultural e interativo\u201d, conclui Ern\u00ed Seibert.<\/p>\n<p><strong>O legado de Peterson <\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o \u00e9 de hoje que a Igreja enceta esfor\u00e7os para levar \u00e0 pessoa surda os conte\u00fados essenciais da f\u00e9 crist\u00e3. Acredita-se que o primeiro professor de surdos tenha sido o espanhol Ponce de Leon, religioso beneditino, respons\u00e1vel pela instru\u00e7\u00e3o dos surdos filhos da nobreza no s\u00e9culo 16. Consta, at\u00e9, que alguns de seus ex-alunos foram pessoas de destaque como historiadores, astr\u00f4nomos e fil\u00f3sofos da \u00e9poca Renascentista. J\u00e1 em 1755, o abade Charles Michel De L\u2019Ep\u00e9e recolheu os surdos pobres que vagavam nas ruas de Paris e, aprendendo a linguagem de sinais com eles, deu in\u00edcio a um trabalho revolucion\u00e1rio para a \u00e9poca. Segundo alguns historiadores, a partir do conhecimento da L\u00edngua de Sinais Francesa, o abade catalogou um n\u00famero significativo de sinais, dando origem a um vocabul\u00e1rio que associava gestos com palavras escritas e imagens.<\/p>\n<p>Aqui no Brasil, o pioneirismo coube ao padre Eug\u00eanio Oates, que, nos anos 1940, percorreu o pa\u00eds expandindo a assist\u00eancia religiosa cat\u00f3lica entre os surdos brasileiros. Dez anos depois, era ordenado ao sacerd\u00f3cio o primeiro padre deficiente auditivo, Vicente Burnier. Os dois religiosos organizaram diversos encontros no pa\u00eds. O primeiro Encontro Nacional de Ensino Religioso para Pessoas Surdas foi realizado no ano de 1975. Al\u00e9m da publica\u00e7\u00e3o de diversas obras, Oates destacou-se pela catequiza\u00e7\u00e3o de deficientes auditivos. Com o tempo, diversas pastorais de surdos e programas religiosos voltados para essa parcela da sociedade foram desenvolvidos. J\u00e1 o pastor americano John Everett Peterson, enviado ao Brasil pela Associa\u00e7\u00e3o de Batistas para a Evangeliza\u00e7\u00e3o do Mundo (ABWE, sigla em ingl\u00eas), iniciou seu minist\u00e9rio entre os surdos brasileiros em 1979. &nbsp;De acordo com o trabalho \u201cComunicando com as M\u00e3os em LSB &#8212; contribui\u00e7\u00f5es do doutor John E. Peterson para a l\u00edngua de sinais do Brasil\u201d, apresentado por Jos\u00e9 Edmilson Felipe da Silva e Ivan Jean Peterson no 1\u00ba Encontro Cient\u00edfico de Educadores do Rio Grande do Norte, foi enorme a contribui\u00e7\u00e3o do mission\u00e1rio para a consolida\u00e7\u00e3o dos direitos da pessoa surda no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cPastor Jo\u00e3o\u201d, como era carinhosamente conhecido pelos brasileiros, aprendeu a Libras &#8212; na \u00e9poca, chamada comumente de \u201cm\u00edmica\u201d &#8212; com os pr\u00f3prios surdos, em um tempo no qual a linguagem era desprezada at\u00e9 pelos educadores. Al\u00e9m das a\u00e7\u00f5es de evangelismo e discipulado, Peterson desenvolveu o <strong>Vocabul\u00e1rio de M\u00edmica para Surdos<\/strong>, catalogando mais de quinhentos sinais que, ainda hoje, s\u00e3o de uso comum entre os surdos brasileiros. Outra contribui\u00e7\u00e3o muito importante do pastor &#8212; esta voltada mais diretamente para a atividade espiritual &#8212; foram os acampamentos e retiros espirituais. Nesses eventos, al\u00e9m da programa\u00e7\u00e3o religiosa, eram comuns os cursos de l\u00edngua de sinais para ouvintes. \u201cSessenta semanas de acampamentos\u201d foi o alvo inicial, e os encontros se realizaram de norte a sul do pa\u00eds. \u201cSurdos e ouvintes que participaram destes primeiros encontros s\u00e3o hoje fluentes em Libras, l\u00edderes, instrutores e int\u00e9rpretes espalhados por todo o territ\u00f3rio nacional\u201d, dizem os pesquisadores em seu trabalho. As sementes lan\u00e7adas por Peterson e sua equipe frutificam at\u00e9 hoje.<\/p>\n<div id=\"attachment_8411\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_3.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-8408\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8411\" class=\"wp-image-8411 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_3-300x196.jpg\" alt=\"ult_363_reportagem_3\" height=\"196\" width=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_3-300x196.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_3-150x98.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_3.jpg 504w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8411\" class=\"wp-caption-text\">Silas Andrade, pastor na Igreja Batista Boas Novas, Hortol\u00e2ndia, SP, onde todos os cultos s\u00e3o interpretados em Libras<\/p><\/div>\n<p>O pastor Silas Andrade conviveu com Peterson e foi bastante influenciado por ele. \u201cNasci num lar crist\u00e3o, muito comprometido com o evangelho e especialmente com miss\u00f5es. Minha fam\u00edlia era membro de uma Igreja Batista Regular, em Campinas, SP, e meu pastor era o doutor John Everet Peterson\u201d, lembra. O mission\u00e1rio estimulou a igreja a iniciar um minist\u00e9rio com surdos, \u00e1rea que at\u00e9 ent\u00e3o era praticamente inexplorada pelos evang\u00e9licos. Logo havia oito surdos congregando. Outro mission\u00e1rio americano, Donald Cabbage, pregava em ingl\u00eas e fazia sinais em portugu\u00eas. \u201cNuma dessas mensagens, o Senhor tocou o meu cora\u00e7\u00e3o e me dediquei ao minist\u00e9rio com surdos\u201d, lembra Silas.<\/p>\n<p>Depois de liderar ou colaborar com diversas congrega\u00e7\u00f5es, inclusive a Primeira Igreja Batista de Surdos do Brasil, o pastor Silas hoje est\u00e1 ligado \u00e0 Igreja Batista Boas Novas, em Hortol\u00e2ndia, SP. Ali, todos os cultos s\u00e3o interpretados em Libras e todo \u00faltimo s\u00e1bado de cada m\u00eas \u00e9 realizada uma reuni\u00e3o totalmente direcionada aos surdos. \u201cRecebemos, em m\u00e9dia, cerca de oitenta deficientes auditivos\u201d, acrescenta. H\u00e1, ainda, uma classe especial de Escola B\u00edblica Dominical para surdos.<\/p>\n<p><strong>Discipulado efetivo<\/strong><\/p>\n<p>Silas concorda que a maior dificuldade para os ouvintes entrarem em contato com os surdos \u00e9 ter flu\u00eancia em Libras. Segundo ele, o evangelismo para os surdos, vencida a barreira da comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito simples, e os surdos s\u00e3o bastante receptivos ao evangelho. \u201cO problema vem depois\u201d, pondera. \u201cGanhar a alma do surdo \u00e9 razoavelmente f\u00e1cil; dif\u00edcil \u00e9 ganhar a sua vida. Um agravante \u00e9 que os surdos que s\u00e3o alfabetizados podem ler a B\u00edblia, mas n\u00e3o entendem o que est\u00e3o lendo, porque n\u00e3o conhecem as palavras em portugu\u00eas.\u201d<\/p>\n<p>O pastor \u00e9 um dos organizadores do Encontro Nacional de Surdos e Int\u00e9rpretes, que acontece h\u00e1 quatro anos em Hortol\u00e2ndia. \u201cTivemos a presen\u00e7a de setecentas pessoas na edi\u00e7\u00e3o passada, oriundas de v\u00e1rias cidades\u201d. Apesar do entusiasmo com os resultados, Silas sabe que h\u00e1 um imenso caminho a percorrer. \u201cAs igrejas, em geral, n\u00e3o t\u00eam interesse nesse trabalho e, mesmo dentre aquelas que j\u00e1 tiveram um minist\u00e9rio espec\u00edfico, muitas est\u00e3o parando por falta de envolvimento, interesse e amor por este grupo\u201d, lamenta. Por outro lado, destaca, boas iniciativas t\u00eam surgido profissionalmente. \u201cOs int\u00e9rpretes t\u00eam migrado para a profissionaliza\u00e7\u00e3o do seu trabalho, uma vez que a remunera\u00e7\u00e3o tem sido razoavelmente boa.\u201d<\/p>\n<p>Apesar das grandes lacunas e dificuldades que os minist\u00e9rios evang\u00e9licos voltados \u00e0s pessoas surdas enfrentam, em muitas comunidades o trabalho tem crescido e se multiplicado, como diz a B\u00edblia, a trinta, a sessenta e a cem por um. \u00c9 o caso da Igreja Batista Gets\u00eamani, de Belo Horizonte, MG, cujo trabalho com deficientes auditivos conta com uma equipe de cinco pastores (sendo dois deles, surdos) e dez int\u00e9rpretes de Libras. Al\u00e9m dos 160 membros portadores de surdez, h\u00e1 sete di\u00e1conos e dois conselheiros nesta condi\u00e7\u00e3o. \u201cTemos, ainda, o culto em Libras, todo s\u00e1bado, um acampamento e um congresso anual\u201d, enumera o pastor Rainer da Silva Nonato, que perdeu a audi\u00e7\u00e3o aos 3 anos de idade devido a uma meningite. O trabalho vai al\u00e9m da esfera religiosa e presta tamb\u00e9m assist\u00eancia aos deficientes da comunidade, como o SOS Surdos. \u201cPromovemos, gratuitamente, acessibilidade em consultas m\u00e9dicas, psicol\u00f3gicas, casamento civil, audi\u00eancias etc.\u201d, continua Rainer.<\/p>\n<div id=\"attachment_8412\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_4.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-8408\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8412\" class=\"wp-image-8412 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_4-300x186.jpg\" height=\"186\" width=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_4-300x186.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_4-150x93.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/12\/ult_363_reportagem_4.jpg 535w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8412\" class=\"wp-caption-text\">Rainer Nonato, pastor entre surdos na Igreja Batista Gets\u00eamani, Belo Horizonte, MG<\/p><\/div>\n<p>Amplo e diversificado, o minist\u00e9rio da Gets\u00eamani voltado aos portadores de surdez investe nas fam\u00edlias, com cursos para noivos e assist\u00eancia aos casais, e na forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica. \u201cDesde o ano passado, temos investido na forma\u00e7\u00e3o de oito alunos surdos seminaristas que cursam o Semin\u00e1rio Koinonia\u201d, diz Rainer. As aulas s\u00e3o ministradas em portugu\u00eas por professores ouvintes e traduzidas para Libras por dois int\u00e9rpretes. Casado com a tamb\u00e9m pastora Gislaine e pai de Daniel, de 18 anos &#8212; ambos, ouvintes &#8211;, Rainer Nonato recebe convites para participar de v\u00e1rios acampamentos e encontros pelo pa\u00eds e at\u00e9 no exterior. \u201cTive a oportunidade de fazer uma viagem mission\u00e1ria, em que ministrei por doze dias em diversas igrejas evang\u00e9licas com trabalhos direcionados aos deficientes auditivos na Holanda e ainda visitei escolas, asilos e um centro mission\u00e1rio para surdos em Am\u00e3, na Jord\u00e2nia\u201d, conta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de instrutor de Libras h\u00e1 dezoito anos, Rainer ministra palestras sobre inclus\u00e3o da pessoa com surdez em escolas, faculdades e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. \u201cTemos trabalhado para conscientizar as igrejas da necessidade desse tipo de trabalho, pois os surdos s\u00e3o um povo marginalizado\u201d, assevera. Segundo ele, muitas denomina\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas t\u00eam despertado para esta necessidade, sobretudo nas grandes cidades. \u201cPor\u00e9m, no interior e nas regi\u00f5es mais carentes, a situa\u00e7\u00e3o deixa muito a desejar\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>\u201cComo Igreja, precisamos enxergar que o discipulado tamb\u00e9m deve acontecer com as pessoas com defici\u00eancia\u201d, avalia Saulo Xavier. Mas, prossegue, n\u00e3o basta oferecer ferramentas de inclus\u00e3o e acessibilidade apenas nos momentos de culto e outras programa\u00e7\u00f5es locais. \u201c\u00c9 preciso ir al\u00e9m, promovendo um discipulado efetivo. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio incluir intercess\u00e3o, aconselhamento pastoral mediado por int\u00e9rpretes de Libras, entre outras medidas inclusivas.\u201d Isso, sem falar no preparo adequado para os diversos casos de pessoas que t\u00eam sua voca\u00e7\u00e3o despertada para atuar com esse segmento &#8212; \u201ctanto os que se sentir\u00e3o chamados a servir \u00e0 comunidade local quanto aqueles que percebem o direcionamento do Senhor ao campo transcultural, entre outros exemplos. Tudo isso, tratando com dignidade, incluindo com acessibilidade, acompanhando com dilig\u00eancia e discipulando com responsabilidade.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u2022 Carlos Fernandes<\/strong> \u00e9 jornalista, editor e redator e membro da Igreja Mission\u00e1ria Evang\u00e9lica Maranata, no Rio de Janeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carlos Fernandes<br \/>\nReportagem &#8211; Surdos s\u00e3o quase 10 milh\u00f5es de brasileiros, mas a Igreja n\u00e3o os tem alcan\u00e7ado como deveria<br \/>\nA f\u00e9 vem pelo ouvir a Palavra de Deus, diz a Escritura, mas, para Nelson Peixoto Santos, hoje com 44 anos, o evangelho entrou em seu cora\u00e7\u00e3o por outros caminhos. 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