{"id":7267,"date":"2016-02-01T14:08:38","date_gmt":"2016-02-01T17:08:38","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=7267"},"modified":"2016-03-14T09:49:06","modified_gmt":"2016-03-14T12:49:06","slug":"um-grito-de-esperanca-no-meio-da-dor-completo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2016\/02\/01\/um-grito-de-esperanca-no-meio-da-dor-completo\/","title":{"rendered":"Um grito de esperan\u00e7a no meio da dor! (completo)"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_7345\" style=\"width: 613px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/02\/Caminhos_missao_359_2.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-7267\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\" rel=\"attachment wp-att-7345\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7345\" class=\"wp-image-7345 size-full\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/02\/Caminhos_missao_359_2.jpg\" alt=\"Zaz\u00e1 em um campo de refugiados\" width=\"603\" height=\"232\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/02\/Caminhos_missao_359_2.jpg 603w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/02\/Caminhos_missao_359_2-300x115.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2016\/02\/Caminhos_missao_359_2-150x58.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 603px) 100vw, 603px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7345\" class=\"wp-caption-text\">Zaz\u00e1 em um campo de refugiados na \u00c1frica<\/p><\/div>\n<p>Leia, a seguir, a vers\u00e3o completa do artigo <strong>&#8220;Um grito de esperan\u00e7a no meio da dor!&#8221;<\/strong>, de Zaz\u00e1 Lima, publicado na se\u00e7\u00e3o &#8220;Caminhos da Miss\u00e3o&#8221;, da revista <strong>Ultimato<\/strong> 359.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Niko muhanga, niko mushindi! (<em>Sou sobrevivente, sou vencedor<\/em>, em swahili). O grito ecoava entre as mangueiras em flor e o milharal j\u00e1 quase seco, num acampamento no oeste de Uganda.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos em Rwamwanja, um campo de refugiados habitado por mais de 50 mil pessoas.\u00a0Elas tiveram de deixar a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, amea\u00e7adas pela guerra gerada pelos intermin\u00e1veis conflitos entre for\u00e7as do governo e grupos rebeldes.<\/p>\n<p>A guerra civil do Congo se arrasta por quase vinte anos alimentada por constantes conflitos que surgem, e como\u00a0ferida aberta n\u00e3o para de sangrar, deixa milhares de pessoas sem lar, sem esperan\u00e7a e profundamente marcadas pelas cicatrizes e traumas do abuso e da viol\u00eancia que atingem grande parte da popula\u00e7\u00e3o, principalmente\u00a0as mulheres.<\/p>\n<p>Rwamwanja parece viver em constante movimento, a cada dia chega mais gente, crian\u00e7as famintas e \u00f3rf\u00e3s, adultos e idosos cansados e desesperados, pais feridos e impotentes diante das necessidades gritantes e do futuro incerto dos seus filhos, jovens desorientados, multid\u00f5es dilaceradas pela dor de terem sido for\u00e7adas a fugir do seu pr\u00f3prio pa\u00eds deixando para tr\u00e1s familiares que se perderam ou morreram no caminho, ou que n\u00e3o tiveram for\u00e7as para fugir.<\/p>\n<p>Eles\u00a0guardam na mem\u00f3ria lembran\u00e7as de um tempo diferente, em que a colheita era farta e a vida mais esperan\u00e7osa. Com nostalgia e tristeza lamentam a abund\u00e2ncia de recursos e a riqueza\u00a0que parece ter transformado uma regi\u00e3o conhecida pela qualidade dos seus diamantes, pelo valor do seu cobalto\u00a0e pela imensid\u00e3o das suas terras f\u00e9rteis em um\u00a0verdadeiro campo de guerra.<\/p>\n<p>Ali, mais uma vez, fomos expostos \u00e0 dura realidade das contradi\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o humano e da crueldade da guerra, do dilema do sofrimento humano&#8230; Em meio a esse contexto t\u00e3o dif\u00edcil e triste foi surpreendente e inspirador ver as mulheres dan\u00e7ando e rompendo cadeias de sil\u00eancio, vergonha e medo com um grito emblem\u00e1tico: <em>Somos vencedoras, somos sobreviventes!<\/em> Um grito que come\u00e7ou como um sussurro fr\u00e1gil e que foi tomando for\u00e7a e transformando-se em uma verdadeira declara\u00e7\u00e3o de f\u00e9 e afirma\u00e7\u00e3o de dignidade naquele grupo bonito. N\u00e3o sei ao certo quantas eram, sei que eram muitas \u2013 talvez 120 ou 150 mulheres. Sei que eram belas com seus vestidos e len\u00e7os coloridos e que ainda sabiam sorrir e bailar ao ritmo harmonioso de can\u00e7\u00f5es contagiantes que nos convidavam a olhar para a cruz de Cristo e a receber o amor ali revelado.<\/p>\n<p>Passamos duas semanas em Rwamwanja reunidos em encontros de aprendizagem, cura e reconcilia\u00e7\u00e3o por meio de uma bonita parceria entre algumas organiza\u00e7\u00f5es internacionais (Refugee Aliance, CIBI, MAIS, PMI, Retalhos de Esperan\u00e7a e outras) e muitas igrejas locais, que nos\u00a0permitiu aprender uns com os outros e experimentar a generosidade e a diversidade dos dons presentes no corpo de Cristo. Est\u00e1vamos participando de um curso sobre resili\u00eancia e terapia p\u00f3s-trauma e nos sent\u00edamos imensamente privilegiados em vermos o tesouro da gra\u00e7a de Deus se revelar na vulnerabilidade de nossos vasos de barro.<\/p>\n<p>Foram muitas reuni\u00f5es, encontros, celebra\u00e7\u00f5es, l\u00e1grimas e risos. Tivemos a oportunidade de conhecer muitas crian\u00e7as e mulheres, pastores e l\u00edderes do acampamento, e cada um deles nos ofertou parte da sua hist\u00f3ria e muito dos seus cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A cada dia eles chegavam de todos os lados, apressados, cansados, esperan\u00e7osos, alguns moravam em lugares distantes, outros eram da vizinhan\u00e7a. P\u00e9s empoeirados acostumados a desbravar caminhos espinhosos e \u00edngremes, olhos cansados e sofridos, acostumados com as noites escuras e os dias ensolarados,\u00a0m\u00e3os calejadas e feridas pelo trabalho duro e intermin\u00e1vel, ombros doloridos encurvados ante o peso dos feixes de lenha, dos filhos pequenos, das latas de \u00e1gua, do medo, da vergonha\u2026 Cada parte dos seus corpos parecia revelar um percurso de dor e de sofrimento e teimava em sinalizar uma esperan\u00e7a maior, resistindo \u00e0quelas duras circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Por mais que eu me esforce, n\u00e3o conseguiria\u00a0expressar o quanto esses encontros movem o meu cora\u00e7\u00e3o e me ensinam sobre a bondade de Deus, mostrando-me um caminho mais excelente, talvez mais simples, por meio do qual as nossas feridas e rachaduras s\u00e3o expostas ao b\u00e1lsamo sanador da gra\u00e7a de Deus e do seu infinito amor.<\/p>\n<p>Os encontros com pessoas refugiadas come\u00e7aram de forma espont\u00e2nea, quando h\u00e1 seis anos visitei pela primeira vez um campo de refugiados no Sud\u00e3o. Diante das perdas e sofrimento daquele povo, vislumbrei o amor de Deus e a sua generosidade desconcertante, onde eu nunca teria imaginado.<\/p>\n<p>Depois do Sud\u00e3o\u00a0tivemos a alegria de\u00a0viajar para o Qu\u00eania e participar\u00a0de\u00a0uma confer\u00eancia com irm\u00e3os sudaneses. Ali, no\u00a0meio da celebra\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o, ouvi testemunhos impactantes de hist\u00f3rias de sofrimento, tortura e morte e testemunhei maravilhada a disposi\u00e7\u00e3o\u00a0deles em\u00a0perdoar e se reconciliar com aqueles que abusaram das suas filhas e esposas, queimaram as suas casas e ro\u00e7as e os expulsaram do seu peda\u00e7o de ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Estive em outros campos de refugiados, em diferentes ocasi\u00f5es: na Tun\u00edsia, na Jord\u00e2nia, no Qu\u00eania e\u00a0em Uganda \u2013 onde tive a oportunidade de participar do acompanhamento educativo e psicol\u00f3gico de crian\u00e7as, da forma\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o de volunt\u00e1rios, da distribui\u00e7\u00e3o de alimento e roupas, do apoio \u00e0\u00a0log\u00edstica e documenta\u00e7\u00e3o;\u00a0na maioria das vezes me senti impotente e desajeitada, mas sempre surpreendida e maravilhada\u00a0pela grandeza do amor de Deus e a resili\u00eancia e\u00a0beleza do ser humano. Tamb\u00e9m vi pessoas desesperadas, sem for\u00e7as para perdoar, sem \u00e2nimo para continuar, acabrunhadas e sufocadas pela sua dor, marcadas por hist\u00f3rias de desmedida crueldade e desespero.<\/p>\n<p>Nesses contextos, mais do que realizar projetos\u00a0ou\u00a0executar programas,\u00a0 senti- me convidada a participar de verdadeiros encontros e descobertas profundas.\u00a0Em cada um deles recebi muito e fui imensamente impactada e inspirada pelo testemunho de companheiros e colegas que me ensinaram preciosas li\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de suas vidas e entrega\u00a0e pela generosidade sem medida daqueles que nos convidavam para repartir o seu \u00faltimo peda\u00e7o de p\u00e3o e copo de ch\u00e1, com desprendimento e alegria. Aprendi que a hospitalidade n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio de quem tem muito a oferecer, mas de quem se atreve a convidar o outro para entrar em sua barraca e compartilhar a sua vida.<\/p>\n<p>As guerras continuam explodindo em v\u00e1rios pa\u00edses. Muitas pessoas continuam sendo for\u00e7adas a deixar a sua p\u00e1tria e as suas casas, muitas crian\u00e7as continuam sendo expostas \u00e0 viol\u00eancia e crueldade, muitas fam\u00edlias continuam sendo marcadas por perdas e traumas profundos. Diante desse contexto, qual deve ser a nossa atitude? A indiferen\u00e7a, a piedade vazia, os medos? Ficaremos acomodados em nossas previs\u00f5es pol\u00edticas bem elaboradas,\u00a0em nossas preocupa\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas, em posturas polarizadoras e preconceituosas, em previs\u00f5es inteligentes e racionais,\u00a0em temores justificados?<\/p>\n<p>N\u00e3o quero simplificar o que \u00e9 complexo, nem banalizar o que \u00e9 complicado. Tampouco quero sugerir solu\u00e7\u00f5es simplistas e m\u00e1gicas ou ing\u00eanuas. S\u00f3 gostaria que escut\u00e1ssemos o grito daquelas mulheres de Rwamwanja e o seu convite para olharmos para a cruz e nos identificarmos com aquele que se esvaziou a si mesmo para que pud\u00e9ssemos\u00a0ter acesso \u00e0s boas not\u00edcias do seu amor e a declarar a vit\u00f3ria que n\u00e3o\u00a0se mede pelo que temos, mas pelo que somos nele!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2022 <strong>Elizete \u201cZaz\u00e1\u201d Lima<\/strong>, trabalha em diferentes pa\u00edses do Norte da \u00c1frica e Oriente M\u00e9dio\u00a0e atualmente tamb\u00e9m serve como diretora internacional da miss\u00e3o PMI e colabora com outras miss\u00f5es em outras regi\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leia, a seguir, a vers\u00e3o completa do artigo &#8220;Um grito de esperan\u00e7a no meio da dor!&#8221;, de Zaz\u00e1 Lima, publicado na se\u00e7\u00e3o &#8220;Caminhos da Miss\u00e3o&#8221;, da revista Ultimato 359.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n***<br \/>\nNiko muhanga, niko mushindi! (Sou sobrevivente, sou vencedor, em swahili). O grito ecoava entre as mangueiras em flor e o milharal j\u00e1 quase seco, num acampamento no [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[9536,22807],"tags":[9833,28481,28482,22787],"class_list":["post-7267","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-do-editor","category-extras","tag-africa","tag-caminhos-da-missao","tag-oriente-medio","tag-refugiados"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7267","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7267"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7267\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7346,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7267\/revisions\/7346"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}