{"id":6963,"date":"2015-09-28T11:43:39","date_gmt":"2015-09-28T14:43:39","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=6963"},"modified":"2015-09-28T11:58:14","modified_gmt":"2015-09-28T14:58:14","slug":"banho-no-tanque-jambo-e-mijacao-memorias-de-um-curumim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2015\/09\/28\/banho-no-tanque-jambo-e-mijacao-memorias-de-um-curumim\/","title":{"rendered":"Banho no tanque, jambo e mijac\u00e3o: mem\u00f3rias de um curumim"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6967\" style=\"width: 292px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2015\/09\/V\u00f3-Cam\u00e9.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6967\" class=\"wp-image-6967 size-full\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2015\/09\/V\u00f3-Cam\u00e9.jpg\" alt=\"V\u00f3 Cam\u00e9\" width=\"282\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2015\/09\/V\u00f3-Cam\u00e9.jpg 282w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2015\/09\/V\u00f3-Cam\u00e9-200x300.jpg 200w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2015\/09\/V\u00f3-Cam\u00e9-100x150.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 282px) 100vw, 282px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6967\" class=\"wp-caption-text\">V\u00f3 Cam\u00e9<\/p><\/div>\n<p><em>Por Phelipe M. Reis<\/em><\/p>\n<p>Algumas das minhas melhores lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia s\u00e3o do tempo que passava na casa da minha av\u00f3 paterna \u2013 a vov\u00f3 Cam\u00e9. Embora eu seja p\u00e9ssimo de mem\u00f3ria, tem algumas coisas que a minha av\u00f3 fazia que eu recordo com muita clareza. Lembro que ela pegava o peixe, misturava com farinha, claro, amassava com a m\u00e3o, fazia um \u201cbilotinho\u201d e dava na nossa boca, na minha e dos outros netos. Lembro do rem\u00e9dio que ela fez para curar um \u201cmijac\u00e3o\u201d que deu no meu p\u00e9 (pra quem n\u00e3o sabe, mijac\u00e3o \u00e9 o mesmo que frieira, uma coceira muito gostosa que d\u00e1 no p\u00e9 depois que a gente brinca de rolar na areia \u2013 aquela areia que est\u00e1 cheia daquilo que o gato enterra). O mijac\u00e3o vai subindo pela a perna do curumim at\u00e9 chegar no joelho, a n\u00e3o ser que sua av\u00f3 fa\u00e7a o rem\u00e9dio que a vov\u00f3 Cam\u00e9 fazia. Ela pegava uma por\u00e7\u00e3o de querosene, que a gente comprava no \u201cSeu Demonti\u00ea\u201d \u2013 uma mercearia que fica na esquina da rua 31 de Mar\u00e7o com a rua Armando Prado \u2013, e misturava com um pouco de tabaco que usava para colocar no cachimbo [naquela \u00e9poca ela ainda fumava]. Se tinha mais algum \u201cingrediente\u201d eu n\u00e3o sei, pelo que lembro era isso. Mas isso tamb\u00e9m n\u00e3o vem ao caso, o importante \u00e9 que o rem\u00e9dio fazia efeito e o mijac\u00e3o sumia. Lembro do banho gostoso que a gente tomava na beira do tanque. Mais o melhor mesmo era entrar no tanque, o que s\u00f3 podia acontecer se fosse escondido, claro. E o jambeiro que tinha no quintal? Apanhei e comi muito jambo em cima daquele jambeiro, que ficava perto do galinheiro. Ah! Tamb\u00e9m n\u00e3o tem como esquecer do galinheiro do vov\u00f4 Ernesto. Era l\u00e1 que ele dava uma soneca todo dia depois do almo\u00e7o, na cadeira de pano. Ai daquele que desse um pio na hora da soneca dele. N\u00e3o que ele fosse uma pessoa ruim, ele s\u00f3 n\u00e3o gostava que interrompesse a soneca dele ou atrapalhasse o momento em que rezava o ter\u00e7o. Caso algum dos netos fizesse alguma presepada num destes momentos, ele n\u00e3o segurava a l\u00edngua, era palavr\u00e3o pra todo lado. Mas n\u00e3o fique com uma m\u00e1 impress\u00e3o dele, o vov\u00f4 Ernesto era uma boa pessoa, dormindo. Entre as poucas boas lembran\u00e7as, n\u00e3o esque\u00e7o da m\u00fasica que a vov\u00f3 Cam\u00e9 cantava pra mim. Ali\u00e1s, acho que pra mim e pra todos os netos, bisnetos, etc. Ela sentava na rede dela, no canto da cozinha, perto da janela, me pegava no colo e cantarolava: \u201cEu n\u00e3o sou daqui, sou de Nhamund\u00e1. Eu vim pra c\u00e1 pra arrumar garota. Eu vim pra c\u00e1 pra arrumar garota\u201d. Agora n\u00e3o me pergunte que idade eu tinha pra lembrar disso, pois n\u00e3o sei. S\u00f3 sei que era assim! E como a v\u00f3 Cam\u00e9 cantava, o curumim de Nhamund\u00e1 \u201carrumou garota\u201d, uma soteropolitana, e agora j\u00e1 \u00e9 at\u00e9 pai. E como ele gostaria de ter mais lembran\u00e7as do tempo de curumim, da vov\u00f3 Cam\u00e9, do vov\u00f4 Ernesto, para, futuramente, contar pra cunhantazinha dele, que hoje est\u00e1 com um pouco mais de um m\u00eas de vida. Mas como a\u00a0mem\u00f3ria \u00e9 \u201cfraca\u201d, ent\u00e3o ele escreve. Escreve para que a mem\u00f3ria n\u00e3o se perca no tempo. Escreve porque acredita que vale a pena manter vivas as mem\u00f3rias familiares, dos velhos e velhas. Acredita que vale a pena ouvi-los cantar. Vale a pena sentar com eles no fim da tarde em frente \u00e0 casa para ver o movimento da rua e ouvi-los contar suas hist\u00f3rias, mesmo que seja a hist\u00f3ria repetida da \u00faltima visita. Afinal, eles t\u00eam uma vida toda, cheia de hist\u00f3rias e experi\u00eancias para que deixemos se perder no tempo. \u00c9 preciso olhar para eles, d\u00e1 ouvidos a eles, aprender com eles como viver a vida de forma que se possa deixar aos outros, pelo menos, boas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p><em><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2015\/09\/Img_Ult356_capa_site_menor.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-6963\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6971 alignright\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2015\/09\/Img_Ult356_capa_site_menor.jpg\" alt=\"Img_Ult356_capa_site_menor\" width=\"160\" height=\"211\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2015\/09\/Img_Ult356_capa_site_menor.jpg 160w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2015\/09\/Img_Ult356_capa_site_menor-114x150.jpg 114w\" sizes=\"auto, (max-width: 160px) 100vw, 160px\" \/><\/a><\/em><em>Nota: Estas palavras brotaram ap\u00f3s ler a <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/\" target=\"_blank\">edi\u00e7\u00e3o de set\/out<\/a> da <strong>Revista Ultimato<\/strong>, que aborda a \u201cvelhice\u201d como mat\u00e9ria de capa. Atendendo ao recado de Manfred Grellert (p. 29) que aconselha a compartilhar a hist\u00f3ria da fam\u00edlia com as gera\u00e7\u00f5es mais novas, surgiu este texto em homenagem a av\u00f3 Cam\u00e9, que dia 27 de dezembro de 2015 completar\u00e1 90 anos. Publicado originalmente no <a href=\"https:\/\/luizephelipe.wordpress.com\/2015\/09\/25\/banho-no-tanque-jambo-e-mijacao-memorias-de-um-curumim\/\" target=\"_blank\">Blog No Caminho<\/a>.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>&gt;&gt;<a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/experiencia-e-esperanca-na-velhice-ebook\" target=\"_blank\"> Baixe gratuitamente o E-book Experi\u00eancia e Esperan\u00e7a na Velhice<\/a>&lt;&lt;<\/p>\n<p><strong>\u2022 Phelipe M. Reis<\/strong> \u00e9 amazonense, mission\u00e1rio e jornalista. Casado com Lu\u00edze e pai da Elis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Phelipe M. Reis<br \/>\nAlgumas das minhas melhores lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia s\u00e3o do tempo que passava na casa da minha av\u00f3 paterna \u2013 a vov\u00f3 Cam\u00e9. Embora eu seja p\u00e9ssimo de mem\u00f3ria, tem algumas coisas que a minha av\u00f3 fazia que eu recordo com muita clareza. 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