{"id":5175,"date":"2013-11-22T12:41:27","date_gmt":"2013-11-22T15:41:27","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=5175"},"modified":"2014-01-16T14:16:26","modified_gmt":"2014-01-16T17:16:26","slug":"o-reino-de-deus-e-maior-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2013\/11\/22\/o-reino-de-deus-e-maior-que\/","title":{"rendered":"O reino de Deus \u00e9 maior que a Igreja Cat\u00f3lica Romana, maior que as Igrejas Ortodoxas e maior que a Igreja Protestante"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00a0Publicado originalmente\u00a0em 1996 na revista <strong>Ultimato<\/strong> 241.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2013\/11\/Capa-Ult241.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-5175\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-5296\" alt=\"Capa-Ult241\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2013\/11\/Capa-Ult241.jpg\" width=\"298\" height=\"391\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2013\/11\/Capa-Ult241.jpg 298w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2013\/11\/Capa-Ult241-228x300.jpg 228w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2013\/11\/Capa-Ult241-114x150.jpg 114w\" sizes=\"auto, (max-width: 298px) 100vw, 298px\" \/><\/a>O t\u00edtulo desta mat\u00e9ria \u00e9 grande demais. Parece com os t\u00edtulos que os autores do s\u00e9culo XVI davam aos seus livros. Mas ele \u00e9 leg\u00edtimo e oportuno. N\u00e3o h\u00e1 como levantar a voz contra a supremacia do Reino de Deus sobre as tr\u00eas principais express\u00f5es do cristianismo mundial.<\/p>\n<p>O presente texto n\u00e3o foi escrito para acirrar os \u00e2nimos e colocar cat\u00f3licos contra protestantes e protestantes contra cat\u00f3licos. Nem t\u00e3o pouco para encorajar uma ut\u00f3pica uni\u00e3o de igrejas crist\u00e3s. Antes tem o prop\u00f3sito de promover o Reino de Deus, focalizando a centralidade de Jesus Cristo e de sua obra vic\u00e1ria no pensamento e na vida dos crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Para produzir esta mat\u00e9ria, <strong>Ultimato<\/strong> preparou uma s\u00e9rie de perguntas muito s\u00e9rias e as enviou a l\u00edderes de seis diferentes denomina\u00e7\u00f5es protestantes (batistas, congregacionais, episcopais, luteranos, pentecostais e presbiterianos) e a membros do clero cat\u00f3lico romano (um padre, cinco bispos e dois arcebispos), todos igualmente respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>Nem sempre as respostas coincidem entre si, o que enriquece extraordinariamente o texto final. Todos foram honestos, educados e leais \u00e0s suas convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O contato com os bispos cat\u00f3licos deu-se atrav\u00e9s de Dom Ivo Lorscheiter, responsa\u00e1vel pela Dimens\u00e3o Ecum\u00eanica e do Di\u00e1logo Inter-Religioso da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Dom Ivo aproveitou o encontro anual dos respons\u00e1veis nacionais e regionais dessa Dimens\u00e3o Ecum\u00eanica, realizado em S\u00e3o Paulo, de 14 a 16 de maio, e distribuiu entre eles as quest\u00f5es levantadas pela revista.<\/p>\n<p>Nas linhas e nas entrelinhas deixa-se transparecer que o pecador brasileiro continua precisando de convic\u00e7\u00e3o de pecado, arrependimento, convers\u00e3o e de um \u00fanico e suficiente Salvador, que \u00e9 Jesus Cristo, morto e ressucitado. E que este recado b\u00e1sico tem que ser entregue a ele por todas as correntes crist\u00e3s com aboluta precis\u00e3o. Sem chantagem, sem permuta, sem concess\u00f5es, sem medo, sem rodeios e sem auxiliares, pois o sacrif\u00edcio de Jesus foi suficiente para rasgar de alto a baixo o v\u00e9u do templo (Mt 27.51), dando-nos a oportunidade e a intrepidez de entrar diretamente na presen\u00e7a de Deus pelo sangue de Jesus (Hb 10.19-22).<!--more--><\/p>\n<p>Eis em ordem alfab\u00e9tica os nomes e a apresenta\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria dos cat\u00f3licos e protestantes que participaram da mat\u00e9ria que se acha nas p\u00e1ginas seguintes.<\/p>\n<p>Alan Pieratt &#8211; Presidente de Edi\u00e7\u00f5es Vida Nova, em S\u00e3o Paulo, SP.<\/p>\n<p>Amaury Castanho &#8211; Bispo coadjutor de Jundia\u00ed, SP.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia Leonora van der Meer &#8211; Coordenadora do Programa de Missiologia e Minist\u00e9rio Transcultural do Centro Evang\u00e9lico de Miss\u00f5es (CEM), em Vi\u00e7osa, MG.<\/p>\n<p>Augustus Nicodemus Lopes &#8211; Professor do Semin\u00e1rio Presbiteriano Jos\u00e9 Manoel da Concei\u00e7\u00e3o, em S\u00e3o Paulo, SP.<\/p>\n<p>Bertil Ekstr\u00f6m &#8211; Professor do Semin\u00e1rio Batista, em Campinas, SP.<\/p>\n<p>Boanerges Ribeiro &#8211; Pesquisador da Hist\u00f3ria Social da Igreja Presbiteriana do Brasil, em S\u00e3o Paulo, SP.<\/p>\n<p>Bonif\u00e1cio Piccinini &#8211; Arcebispo de Cuiab\u00e1, MT.<\/p>\n<p>Caio F\u00e1bio d&#8217;Araujo Filho &#8211; Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Evang\u00e9lica Brasileira (AEVB) e da Vis\u00e3o Nacional de Evangeliza\u00e7\u00e3o (VINDE), em Niter\u00f3i, RJ.<\/p>\n<p>Carlos James dos Santos &#8211; Padre jesu\u00edta, membro do Centro Jo\u00e3o XXIII, no Rio de Janeiro, RJ.<\/p>\n<p>Eben\u00e9zer Soares Ferreira &#8211; Reitor do Semin\u00e1rio Teol\u00f3gico Batista do Sul do Brasil e membro do Conselho de Alian\u00e7a Batista Mundial, no Rio de Janeiro, RJ.<\/p>\n<p>Frank Arnold &#8211; Professor do Semin\u00e1rio Teol\u00f3gico Presbiteriano Independente, em Fortaleza, CE.<\/p>\n<p>Guilhermino Cunha &#8211; Presidente do Supremo Conc\u00edlio da Igreja Presbiteriana do Brasil, no Rio de Janeiro, RJ.<\/p>\n<p>Harry Bacon &#8211; Mission\u00e1rio ingl\u00eas aposentado da Latin Link, em Guarapari, ES.<\/p>\n<p>Hugolino de Sena Batista &#8211; Diretor da Biblioteca de Recortes, em Jundia\u00ed, SP.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Elias Chaves &#8211; Bispo Prelado de Camat\u00e1, PA.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ivo Lorscheiter &#8211; Bispo de Santa Maria, RS, respons\u00e1vel pelo Ecumenismo na Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).<\/p>\n<p>L\u00facio Ign\u00e1cio Baumgaertner &#8211; Arcebispo de Cascavel, PR.<\/p>\n<p>Marcelino Correr &#8211; Bispo de Carolina, MA.<\/p>\n<p>Moacyr Grechi &#8211; Bispo de Rio Branco, AC.<\/p>\n<p>Nephtali Vieira J\u00fanior &#8211; Ministro jubilado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Rio Claro, SP.<\/p>\n<p>Paulo Leite &#8211; Presidente da Uni\u00e3o das Igrejas Evang\u00e9licas Congregacionais do Brasil, no Rio de Janeiro, RJ.<\/p>\n<p>Ricardo Barbosa &#8211; Pastor da Igreja Presbiteriana de Planalto, em Bras\u00edlia, DF.<\/p>\n<p>Ricardo Gondim &#8211; Pastor da Assembl\u00e9ia de Deus Betesda, em S\u00e3o Paulo, SP.<\/p>\n<p>Robinson Cavalcanti &#8211; Ministro da Igreja Episcopal do Brasil, em Recife, PE.<\/p>\n<p>Valdir Steuernagel &#8211; Pastor da Igreja de Confiss\u00e3o Luterana do Brasil e presidente da Fraternidade Teol\u00f3gica Latino-Americana.<\/p>\n<p>Valdyr Carvalho Luz &#8211; Ministro jubilado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Campinas, SP.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>PERGUNTAS E RESPOSTAS<\/strong><\/p>\n<p><b>1. A Igreja Cat\u00f3lica Romana \u00e9 a mesma de 50 anos atr\u00e1s?<\/b><\/p>\n<p><b>Ricardo Gondim<\/b> &#8211; A resposta deve ser amb\u00edgua. Sim, no que tange sua estrutura de poder (a hierarquia, o poder papal) e seus dogmas (transubstancia\u00e7\u00e3o, a imaculada concei\u00e7\u00e3o de Maria). N\u00e3o, no que diz respeito especialmente a liturgia (missas na l\u00edngua do povo). A Igreja Cat\u00f3lica Romana n\u00e3o \u00e9 a mesma. Tudo mudou depois do II Conc\u00edlio Vaticano. A partir de ent\u00e3o, passou a valorizar os leigos e a dialogar com outras vertentes crist\u00e3s (ortodoxas e protestantes).<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Sim e n\u00e3o. No que tange ao arcabou\u00e7o doutrin\u00e1rio, \u00e0 estrutura dogm\u00e1tica, ao sistema administrativo, \u00e0 quest\u00e3o da autoridade e do absolutismo eclesi\u00e1stico, a Igreja Romana continua praticamente a mesma. Em decorr\u00eancia da vis\u00e3o mais liberal de Jo\u00e3o XXIII, houve sens\u00edveis mudan\u00e7as na esfera lit\u00fargica, na atitude para com outras correntes crist\u00e3s, e at\u00e9 para religi\u00f5es n\u00e3o-crist\u00e3s, permitindo relacionamento mais fraterno, na valoriza\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o do laicato, na a\u00e7\u00e3o social, na populariza\u00e7\u00e3o da B\u00edblia, na distancia\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica secular, em que pesem os desencontros de tradicionais e progressistas. Nesse aspecto, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 bem a mesma.<\/p>\n<p><b>Guilhermino Cunha<\/b> &#8211; Em ess\u00eancia, sim. Mas, em forma de expressar a f\u00e9, n\u00e3o. Os erros e distor\u00e7\u00f5es doutrin\u00e1rias hist\u00f3ricas v\u00eam de longe. Em especial do Conc\u00edlio de Trento. Vale mencionar algumas, isto na \u00f3tica de um calvinista hist\u00f3rico, de um protestante: uso de velas e rezas pelos mortos (320 d.C.); doutrina do purgat\u00f3rio (403); canoniza\u00e7\u00e3o de &#8220;santos&#8221; e imagens como objeto auxiliar do culto (890); elimina\u00e7\u00e3o do vinho na comunh\u00e3o (1316); introdu\u00e7\u00e3o dos livros ap\u00f3crifos no canon do Antigo Testamento (1546); dogma da infabilidade papal (1870); e, em 1950, dogma da presen\u00e7a real e corporal de Maria no c\u00e9u &#8211; assun\u00e7\u00e3o de Maria. Vejo mudan\u00e7as na liturgia. Vejo abertura para leitura da B\u00edblia e ora\u00e7\u00f5es. Vejo o surgimento dos cat\u00f3licos carism\u00e1ticos-crentes. H\u00e1 esperan\u00e7a. A B\u00edblia, a Palavra de Deus, n\u00e3o volta vazia (Is 55.10-11).<\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; De certo ponto de vista, n\u00e3o, embora a Igreja Cat\u00f3lica Romana diga que <i>Roma semper eadem<\/i> (Roma \u00e9 sempre a mesma).<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; N\u00e3o. A Igreja Romana tem sofrido profundas transforma\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos anos. Em 1963-65, o Vaticano II mudou, entre outros aspectos, a estrat\u00e9gia mission\u00e1ria e introduziu o di\u00e1logo com outros grupos crist\u00e3os de outras religi\u00f5es. A estrat\u00e9gia do di\u00e1logo significa uma nova abertura no relacionamento com as chamadas &#8220;seitas&#8221; protestantes, com o prop\u00f3sito de reintegrar os dissidentes da Igreja M\u00e3e. Somos irm\u00e3os, diz a leitura do di\u00e1logo, mas queremos v\u00ea-los de volta \u00e0 verdadeira Igreja. Parece que muito da antiga avers\u00e3o e at\u00e9 persegui\u00e7\u00e3o aos grupos evang\u00e9licos desapareceu, pelo menos a n\u00edvel oficial. No aspecto teol\u00f3gico, a Igreja Romana foi obrigada a levar em considera\u00e7\u00e3o a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, que conseguiu muitos adeptos, n\u00e3o s\u00f3 na Am\u00e9rica Latina, como em outras partes do mundo. O pobre \u00e9 alvo obrigat\u00f3rio da Igreja hoje em todas as suas atividades. Uma participa\u00e7\u00e3o mais cr\u00edtica e pol\u00edtica tamb\u00e9m se nota ap\u00f3s esta nova \u00eanfase a favor dos pobres.<\/p>\n<p><b>Dom Jos\u00e9 Ivo Lorscheiter<\/b> &#8211; Nas coisas fundamentais ou essenciais, sim. Porque estas v\u00eam do seu fundador Jesus Cristo. Penso nas verdades da f\u00e9, nos sacramentos, nos preceitos morais, na estrutura b\u00e1sica. O que mudou e deve mudar com os tempos, s\u00e3o aspectos secund\u00e1rios, culturais, de linguagem, de m\u00e9todos pastorais. Penso no maior lugar para os leigos, nas liturgias mais vivas, no maior engajamento social.<\/p>\n<p><b>Caio F\u00e1bio d&#8217;Araujo Filho<\/b> &#8211; N\u00e3o. Ap\u00f3s o Vaticano II, a Igreja Cat\u00f3lica mudou radicalmente. Ganhou uma cor mais latino americana, o que foi aprofundado pela Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Isso os tornou mais ecum\u00eanicos e mais aguerridos pol\u00edtico-socialmente. Outra mudan\u00e7a dr\u00e1stica foi o surgimento do movimento carism\u00e1tico, que, curiosamente, os aproximou da tese da Reforma. Entretanto com a ascens\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo II, os ventos conservadores voltaram a soprar. Estes ventos deram, em parte, conta dos libertacionistas. Por\u00e9m, gra\u00e7as ao crescimento evang\u00e9lico, a Igreja teve de engolir o movimento carism\u00e1tico. Por enquanto, estamos assim no Brasil.<\/p>\n<p><b>Valdir Steuernagel<\/b> &#8211; A Igreja Cat\u00f3lica Romana tem a virtude ou o defeito de mudar sem mudar. No decorrer dos s\u00e9culos, ela tem mostrado uma incr\u00edvel capacidade de sobreviver e de absorver as mais variadas crises, desafios e \u00eanfases. Nas d\u00e9cadas recentes, especialmente a partir do Conc\u00edlio Vaticano II e de Medelin 68, onde ocorreu a II Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano, a Igreja Cat\u00f3lica mudou significativamente, desencadeando um arrojado processo de moderniza\u00e7\u00e3o, reevangeliza\u00e7\u00e3o e redefini\u00e7\u00e3o das suas alian\u00e7as e do seu papel no mundo presente. Foi nesse contexto que nasceu a conhecida e importante op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres. Mais recentemente e sob a inspira\u00e7\u00e3o do Papa Jo\u00e3o Paulo II, no entanto, tem se registrado um ac\u00famulo de sinais indicando que o esp\u00edrito do Vaticano II est\u00e1 sendo empurrado para a sombra, e um tipo de catolicismo mais fechado, conservador, ritualista e hier\u00e1rquico come\u00e7a a ocupar espa\u00e7os predominantes na estrutura dessa igreja. Numa perspectiva cr\u00edtica, at\u00e9 se poderia dizer que, ao mudar, o catolicismo est\u00e1 voltando para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong> <strong>A Igreja Protestante hoje \u00e9 a mesma de 50 anos atr\u00e1s?<\/strong><\/p>\n<p><b>Dom Jos\u00e9 Ivo Lorscheiter<\/b> &#8211; Devo e quero ser muito discreto em responder, porque n\u00e3o conhe\u00e7o suficientemente a sua realidade. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil agrupar sob uma denomina\u00e7\u00e3o todas as Igrejas da Reforma. Estou pensando em dizer s\u00f3 isto, e com alegria: vejo diversas Igrejas Protestantes muito abertas ao di\u00e1logo ecum\u00eanico.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; N\u00e3o muito. A despeito da larga variedade denominacional, pode-se dizer do protestantismo brasileiro, em tese, que, embora no aspecto doutrin\u00e1rio n\u00e3o haja assinaladas mudan\u00e7as, o esp\u00edrito e a atitude para com a gente cat\u00f3lica s\u00e3o muito mais abertos, amistosos, compreensivos, abandonada a postura pol\u00eamica do passado, sem os recalques e complexos ent\u00e3o evidentes.<\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; A Igreja Protestante tem, tamb\u00e9m, sofrido modifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b>Guilhermino Cunha<\/b> &#8211; Em ess\u00eancia, sim. Em express\u00e3o de f\u00e9, n\u00e3o. A Igreja Protestante compreenderia, basicamente, os grupos hist\u00f3ricos. Nos \u00faltimos 50 anos tem acontecido uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o espiritual. Com o evento do carismatismo, a maioria das denomina\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas experimentaram divis\u00f5es e deram origem a outras denomina\u00e7\u00f5es pentecostais, neo-pentecostais e igrejas independentes. Vemos o meio \u201cevang\u00e9lico\u201d hoje desde uma \u00f3tica \u201cprotestante\u201d. \u00c9 poss\u00edvel perceber, pelo menos, quatro grupos distintos: os protestantes hist\u00f3ricos, os pentecostais hist\u00f3ricos, os neo-pentecostais e as igrejas independentes.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; Tamb\u00e9m a Igreja Protestante tem sofrido mudan\u00e7as ao longo destes \u00faltimos anos. \u00c9 dif\u00edcil definir uma tend\u00eancia uniforme j\u00e1 que os grupos evang\u00e9licos t\u00eam se multiplicado enormemente ap\u00f3s a II Guerra Mundial. O movimento carism\u00e1tico, j\u00e1 presente nos anos 60 e 70 atrav\u00e9s, por exemplo, do <i>Jesus People<\/i>, e nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas atrav\u00e9s do movimento neo-carism\u00e1tico, \u00e9 outra mudan\u00e7a dentro da Igreja Protestante que n\u00e3o tem respeitado as barreiras denominacionais ou de tradi\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica. Inclusive dentro do movimento carism\u00e1tico, protestantes e cat\u00f3licos muitas vezes t\u00eam se encontrado e achado valores comuns. Vejo ainda uma Igreja Protestante que mais e mais se envolve com a sociedade, participando tanto a n\u00edvel comunit\u00e1rio como a n\u00edvel nacional. Falta muito em termos de maturidade, mas tem havido um despertamento para a responsabilidade social e pol\u00edtica da Igreja. No aspecto teol\u00f3gico e mission\u00e1rio\u00a0 a Confer\u00eancia de Lausanne (Su\u00ed\u00e7a) em 1974 parece ter trazido uma tend\u00eancia ao entendimento, coopera\u00e7\u00e3o e abertura ao ecumenismo que n\u00e3o se via antes.<\/p>\n<p><b>Valdir Steuernagel<\/b> &#8211; H\u00e1, hoje, uma evidente dificuldade de se falar da \u201cIgreja Protestante\u201d, uma vez que essa, do ponto de vista institucional, se encontra em profunda crise. Uma crise que est\u00e1 levando o protestantismo, em suas express\u00e3o cl\u00e1ssica a desaparecer do cen\u00e1rio eclesial brasileiro que hoje se chama de evang\u00e9lico. Eis, pois, uma mudan\u00e7a profunda. Se no passado a Igreja Evang\u00e9lica era composta basicamente, exclu\u00eddo o fen\u00f4meno pentecostal, das igrejas protestantes, hoje estas representam uma minoria dessa crescente Igreja Evang\u00e9lica, especialmente quando os grupos carism\u00e1ticos e pentecostais s\u00e3o inclu\u00eddos em tal designa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 50 anos, a ent\u00e3o chamada \u201cIgreja Protestante\u201d era uma minoria escondida e perdida em meio a um grande universo cat\u00f3lico. Hoje, a Igreja Evang\u00e9lica \u00e9 uma realidade incontest\u00e1vel num pa\u00eds que \u00e9 menos cat\u00f3lico e mais sincr\u00e9tico, uma vez que a presen\u00e7a dos cultos afro-brasileiros \u00e9 claramente percept\u00edvel em v\u00e1rios segmentos da vida nacional. A realidade da Igreja Evang\u00e9lica se deixa medir n\u00e3o apenas em termos num\u00e9ricos, onde os dados estat\u00edsticos s\u00e3o de dif\u00edcil verifica\u00e7\u00e3o, mas se poderia falar de 15% da popula\u00e7\u00e3o total do Brasil. Mas essa presen\u00e7a se faz sentir tamb\u00e9m em outros segmentos da vida p\u00fablica brasileira. Os Atletas de Cristo e os pr\u00f3prios pol\u00edticos evang\u00e9licos seriam sinal desta mudan\u00e7a na presen\u00e7a evang\u00e9lica no cen\u00e1rio nacional. Numa perspectiva cr\u00edtica se poderia dizer que a perda de conte\u00fado e de presen\u00e7a cr\u00edtica (afinal, ser protestante significa saber protestar) da Igreja Evang\u00e9lica tem sido proporcional ao \u00edndice do seu crescimento. Hoje, a grande Igreja Evang\u00e9lica tem se rendido \u00e0s press\u00f5es e tenta\u00e7\u00f5es do mercado religioso, produzindo uma igreja teologicamente superficial, pastoralmente vulner\u00e1vel, eclesiasticamente encantada consigo mesma e profundamente voltada para o m\u00edstico e o espetacular. A Igreja Evang\u00e9lica carece de ser uma igreja que resgate os valores fundamentais do protestantismo hist\u00f3rico, onde o Cristo e a Palavra s\u00e3o as colunas da f\u00e9 e onde a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 somente uma quest\u00e3o da gra\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>3. Na Teologia Cat\u00f3lica Romana a obra vic\u00e1ria de Cristo \u00e9 t\u00e3o central como na teologia Protestante?<\/b><\/p>\n<p><b>Guilhermino Cunha<\/b> &#8211; A teologia crist\u00e3 na sua profundidade n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o d\u00edspare. As grandes defini\u00e7\u00f5es cristol\u00f3gicas foram anteriores \u00e0 Reforma Protestante. Basta lembrar o Credo Apost\u00f3lico e o Credo de Nic\u00e9ia, nos s\u00e9culos III e IV. O que o catolicismo popular passa para n\u00f3s \u00e9 um papel de co-redentora atribu\u00eddo a Maria. O que n\u00e3o deixa de ser uma distor\u00e7\u00e3o da verdade b\u00edblica, uma heresia. Assim, a minha resposta \u00e9 que a obra vic\u00e1ria de Cristo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o central para a Igreja Cat\u00f3lica, quanto o \u00e9 para a Igreja Protestante. Temos que evangelizar os cat\u00f3licos, os esp\u00edritas e os protestantes n\u00e3o crentes em Jesus. Hoje h\u00e1 um n\u00famero espantoso de ex-crentes, de desviados, que chega perto de 40% da membresia protestante atual.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Teoricamente, sim, mas na pr\u00e1tica, realmente n\u00e3o. Na extens\u00e3o em que sanciona a mariolatria, a efic\u00e1cia do <i>ex opere operato<\/i> sacramentol\u00f3gico, o m\u00e9rito salv\u00edfico das boas obras, a fun\u00e7\u00e3o remissiva da missa, a a\u00e7\u00e3o cat\u00e1rtica do purgat\u00f3rio, o saldo superrogat\u00f3rio dos santos, a teologia cat\u00f3lica tolda, obumbra, marginaliza a obra vic\u00e1ria de Cristo.<\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; N\u00e3o, porque a Igreja Cat\u00f3lica Romana elevou Maria \u00e0 categoria de co-redentora com Cristo.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; Sim, na teologia oficial da Igreja Cat\u00f3lica a obra vic\u00e1ria de Cristo \u00e9 central. O problema est\u00e1 com a interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica feita pela Igreja em termos da aplicabilidade da obra de Cristo. Al\u00e9m de colocar as obras no mesmo n\u00edvel da f\u00e9 (sen\u00e3o na teologia, pelo menos na pr\u00e1tica) tamb\u00e9m o universalismo da salva\u00e7\u00e3o traz problemas para uma coer\u00eancia b\u00edblica. Por exemplo, todos ser\u00e3o salvos atrav\u00e9s do purgat\u00f3rio, independente de sua aceita\u00e7\u00e3o de Cristo. Na teologia protestante enfatizamos que somente a f\u00e9 salva. Por\u00e9m, na pr\u00e1tica, muitas outras exig\u00eancias s\u00e3o colocadas para que uma pessoa seja, por nossas igrejas, considerada crente. Outra vez, precisamos diferenciar a teoria da pr\u00e1tica, onde tanto a Igreja Cat\u00f3lica quanto a Igreja Protestante assina a Confiss\u00e3o de Nic\u00e9ia, mas nem sempre se contenta com isto.<\/p>\n<p><b>Dom Bonif\u00e1cio Piccinini<\/b> &#8211; Sim, na teologia cat\u00f3lica a obra vic\u00e1ria de Cristo \u00e9 absolutamente central. N\u00f3s nos salvamos n\u00e3o por nossas obras mas por Jesus Cristo.<\/p>\n<p><b>Caio F\u00e1bio d&#8217;\u00c1ra\u00fajo Filho<\/b> &#8211; N\u00e3o, embora toda \u00eanfase da Igreja Cat\u00f3lica nas obras est\u00e1 baseada no fato de que gra\u00e7as ao sacrif\u00edcio vic\u00e1rio de Cristo a boa obra ganha efic\u00e1cia.<\/p>\n<p><b>Augustus Nicodemus Lopes<\/b> &#8211; Infelizmente n\u00e3o, no meu parecer. Existe uma ambig\u00fcidade na teoria e na pr\u00e1tica cat\u00f3licas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de Cristo, que acaba por obscurecer a obra do Salvador. Por exemplo: a enc\u00edclica <i>Mediador Dei<\/i> de Pio XII (1947) come\u00e7a reconhecendo o sacrif\u00edcio redentor de Cristo nos par\u00e1grafos iniciais, mas logo em seguida, postula que o pr\u00f3prio Cristo quis que sua obra vic\u00e1ria (sacerdotal) continuasse sem interrup\u00e7\u00e3o no seu corpo m\u00edstico, a igreja, atrav\u00e9s do minist\u00e9rio dos sacerdotes (padres), na celebra\u00e7\u00e3o da missa. Outro exemplo: a enc\u00edclica <i>Marialis Cultus<\/i> de Paulo VI (1974), ao final, reconhece que Cristo \u00e9 o \u00fanico caminho para o Pai (par\u00e1grafo 57) &#8211; e isto ap\u00f3s empregar os demais par\u00e1grafos para defender a doutrina de que Maria coopera na reden\u00e7\u00e3o dos pecadores. E neste mesmo par\u00e1grafo, defende a participa\u00e7\u00e3o de Maria na obra de reden\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, os m\u00e9ritos obtidos por Cristo na cruz n\u00e3o chegam de forma direta aos pecadores. A teologia cat\u00f3lica interp\u00f5e a Igreja Romana entre a obra de Cristo e o pecador. Os m\u00e9ritos de Cristo s\u00e3o infundidos sob a forma de gra\u00e7a aos fi\u00e9is atrav\u00e9s de <i>sacramentos<\/i>. A Igreja passa a ser a mediadora da presen\u00e7a e da a\u00e7\u00e3o de Cristo, atrav\u00e9s do batismo, confirma\u00e7\u00e3o, eucaristia, penit\u00eancia, casamento, extrema un\u00e7\u00e3o e ordens religiosas. Assim, a obra vic\u00e1ria de Cristo tende a ser ofuscada pelas doutrinas da media\u00e7\u00e3o da Igreja e dos sacramentos; e tamb\u00e9m (conscientemente ou n\u00e3o) pela \u00eanfase dada no Catoliscimo brasileiro \u00e0 media\u00e7\u00e3o e as m\u00e9ritos dos santos e de Maria para\u00a0 salvar e redimir, \u00e0 doutrina do purgat\u00f3rio (onde, segundo a teologia cat\u00f3lica, ocorre tamb\u00e9m expia\u00e7\u00e3o de pecados) e particularmente \u00e0 \u201cmissa\u201d. Segundo o Catecismo Cat\u00f3lico Romano de Doutrina Crist\u00e3 (pergunta 278), a missa \u00e9 o mesmo sacrif\u00edcio que Cristo ofereceu no Calv\u00e1rio; nela Cristo continua a oferecer-se a si mesmo sobre o altar (agora sem sangue) atrav\u00e9s do sacerdote. N\u00e3o \u00e9 de estranhar que a participa\u00e7\u00e3o na missa, para os cat\u00f3licos, diminui a pena temporal dos seus pecados leves (veniais), sufraga as almas do purgat\u00f3rio, etc. Esse conceito certamente tende a enfraquecer a obra vic\u00e1ria de Cristo no Calv\u00e1rio. Assim, embora reconhecendo algumas vezes a centralidade da obra de Cristo pela introdu\u00e7\u00e3o e a pr\u00e1tica cat\u00f3licas, ao meu ver, ofuscam este conceito b\u00edblico central pela introdu\u00e7\u00e3o de dogmas provindos da tradi\u00e7\u00e3o e do ensino da Igreja Romana.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>4. Quais s\u00e3o hoje as principais diferen\u00e7as entre cat\u00f3licos e protestantes?<\/b><\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; Para mim, s\u00e3o as mesmas de h\u00e1 s\u00e9culos atr\u00e1s. Roma ainda n\u00e3o abriu m\u00e3o de nenhum dos seus dogmas. As principais doutrinas cat\u00f3licas rejeitadas pelos protestantes s\u00e3o: 1) A B\u00edblia n\u00e3o \u00e9 autoridade suficiente em mat\u00e9ria de f\u00e9. Deve-se ouvir tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o. 2) O Papa \u00e9 o soberano. Considerado sucessor de Pedro, \u00e9 o cabe\u00e7a da Igreja. Foi-lhe atribu\u00edda tamb\u00e9m a infalibilidade. 3) A missa \u00e9 o sacrif\u00edcio incruento (sem sangue) de Cristo no altar. Ali opera-se o que se denomina <i>transubstancia\u00e7\u00e3o<\/i>, que \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o das subst\u00e2ncias do p\u00e3o e vinho nas subst\u00e2ncias do corpo e do sangue de Cristo pela consagra\u00e7\u00e3o da Eucaristia. 4) Os santos t\u00eam poder de intercess\u00e3o a favor dos homens. 5) A adora\u00e7\u00e3o de imagens. 6) A confiss\u00e3o auricular. 7) A exist\u00eancia do purgat\u00f3rio. 8) Os sete sacramentos.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; Depende de que protestantes e de que cat\u00f3licos estamos falando. Se, em ambos os casos, pensamos em fi\u00e9is ativos coerentes com a doutrina oficial, creio que as principais diferen\u00e7as s\u00e3o (dependendo tamb\u00e9m da tradi\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica): 1) A hierarquia da Igreja. 2) O universalismo da obra redentora na Igreja Romana comparado com o particularismo na Igreja Protestante, onde cada pessoa \u00e9 respons\u00e1vel e livre para aceitar ou n\u00e3o. 3) A posi\u00e7\u00e3o dos santos da Igreja. 4) A forte posi\u00e7\u00e3o da Virgem Maria na Igreja Romana. 5) A exig\u00eancia de testemunho e participa\u00e7\u00e3o ativa que a Igreja Protestante faz aos seus membros. 6) A vis\u00e3o dos sacramentos<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Dif\u00edcil \u00e9 catalogar minuciosamente as diferen\u00e7as atuais que distinguem cat\u00f3licos de protestantes. Em suma, residem elas na autoridade da B\u00edblia, na unicidade redentora de Cristo, na forma e teor do culto, nas concep\u00e7\u00f5es mariol\u00f3gicas e hagiol\u00f3gicas, na atitude para com crendices e supersti\u00e7\u00f5es, na consci\u00eancia \u00e9tica, na atitude pessoal para com os costumes e pr\u00e1ticas da sociedade, na experi\u00eancia pessoal de f\u00e9 e na piedade crist\u00e3.<\/p>\n<p><b>Dom Moacyr Grechi<\/b> &#8211; Minist\u00e9rios, sacramentos, organismos de decis\u00e3o dentro da Igreja (por exemplo, o \u201cS\u00ednodo\u201d tem um valor e um significado particular para cada denomina\u00e7\u00e3o) e a participa\u00e7\u00e3o de leigos nas decis\u00f5es. Certos aspectos da Mariologia cat\u00f3lica ainda constituem problemas para os protestantes: por exemplo, os dogmas da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o e da Assun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>5. Na rela\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as entre cat\u00f3licos e protestantes quais s\u00e3o as que mais dificultam a conviv\u00eancia entre os dois grupos crist\u00e3os?<\/strong><\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; A autoridade e infalibilidade do Papa, a pretens\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica de ser a \u00fanica verdadeira, a devocionalidade mariana e hagiol\u00f3gica e a quest\u00e3o do culto, mormente a missa e as rezas.<\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; Parece-me que s\u00e3o a n\u00e3o sufici\u00eancia da B\u00edblia em mat\u00e9ria de f\u00e9, a institui\u00e7\u00e3o do papado e a quest\u00e3o da missa.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; Para mim os maiores problemas est\u00e3o no aspecto teol\u00f3gico das doutrinas fundamentais, conforme interpretamos a B\u00edblia. No conv\u00edvio di\u00e1rio, creio, s\u00e3o os aspectos lit\u00fargicos que mais incomodam. Como, por exemplo, o culto \u00e0 Virgem Maria.<\/p>\n<p><b>Dom Moacyr Grechi<\/b> &#8211; Talvez seja essa impossibilidade de celebrar a Eucaristia (a Ceia do Senhor) em comum. Tamb\u00e9m o problema do reconhecimento dos minist\u00e9rios das outras igrejas por parte da Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p><b>Ricardo Gondim<\/b> &#8211; Sem uma ordem de prioridades, os principais obst\u00e1culos s\u00e3o a venera\u00e7\u00e3o dos santos e das imagens de escultura, a doutrina do purgat\u00f3rio e as missas pelos mortos, a mariologia, a institui\u00e7\u00e3o papal, a coloca\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o em p\u00e9 de igualdade com as Escrituras, a condescend\u00eancia do clero com a religiosidade popular pag\u00e3 e a doutrina de que a Igreja que Jesus construiu \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica romana e n\u00e3o sua Igreja m\u00edstica, composta por todos os que branquejaram suas vestes no sangue do Cordeiro.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>6. Sob o ponto de vista protestante, quais s\u00e3o as diverg\u00eancias doutrin\u00e1rias mais s\u00e9rias entre cat\u00f3licos e protestantes?<\/b><\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; Julgo que sejam a missa, a posi\u00e7\u00e3o do Papa como vig\u00e1rio de Cristo e a confiss\u00e3o auricular.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; A maior cr\u00edtica do ponto de vista protestante \u00e9 a declara\u00e7\u00e3o aberta da Igreja Cat\u00f3lica de que a tradi\u00e7\u00e3o da Igreja (conforme sua interpreta\u00e7\u00e3o ao longo da hist\u00f3ria) \u00e9 t\u00e3o normativa quanto as Sagradas Escrituras. A\u00ed entram as quest\u00f5es da hierarquia da Igreja, o papado, a posi\u00e7\u00e3o de Maria, etc.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; S\u00e3o os que se relacionam com os pontos a que me referi no \u00edtem anterior &#8211; a autoridade e infalibilidade do Papa, a pretens\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica de ser a \u00fanica verdadeira, a devocionalidade mariana e hagiol\u00f3gica e a missa &#8211; e seus corol\u00e1rios e aplica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b>Dom Moacyr Grechi<\/b> &#8211; Depende muito de igreja e igreja. Mas, certamente, o conceito cat\u00f3lico de Eucaristia como sacrif\u00edcio e alguns aspectos da mariologia. O problema da justifica\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo estudado e se prev\u00ea em breve uma compreens\u00e3o comum.<\/p>\n<p><b>Augustus Nicodemus Lopes<\/b> &#8211; Seria injusto dizer que a Igreja Cat\u00f3lica Romana de hoje \u00e9 exatamente a mesma da \u00e9poca da Reforma, quando Lutero afixou as 95 teses na porta do Castelo de Wittemberg. Algumas modifica\u00e7\u00f5es doutrin\u00e1rias aconteceram, especialmente ap\u00f3s o Conc\u00edlio Vaticano II. Creio que algumas foram para melhor. Entretanto, alguns dos principais pontos da teologia cat\u00f3lica medieval que provocaram a pol\u00eamica de Lutero, e posteriormente a sa\u00edda (ou foi exclus\u00e3o?) dos protestantes aparentemente n\u00e3o sofreram, durante estes \u00faltimos cinco s\u00e9culos, altera\u00e7\u00f5es substanciais ou significativas. No meu entender, as diverg\u00eancias mais s\u00e9rias foram (e continuam sendo) na \u00e1rea de autoridade religiosa, na doutrina da igreja (eclesiologia), e na doutrina da salva\u00e7\u00e3o (soteriologia). Quanto \u00e0 primeira \u00e1rea, protestantes conservadores continuam discordando de que possa haver outra fonte de autoridade em mat\u00e9rias de f\u00e9 e de pr\u00e1tica que n\u00e3o as Escrituras. \u00c9 verdade que o Conc\u00edlio Vaticano II procurou suavizar as implica\u00e7\u00f5es da declara\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio de Trento, de que a tradi\u00e7\u00e3o da Igreja tinha a mesma autoridade que as Escrituras. Mas a posi\u00e7\u00e3o final do Vaticano II ainda n\u00e3o parece suficiente para muitos protestantes, pois afirma que \u201ca tradi\u00e7\u00e3o sagrada, as Escrituras Sagradas, e o ensino autoritativo da Igreja&#8230; est\u00e3o t\u00e3o intimamente ligados, que um n\u00e3o pode subsistir sem o outro\u201d. Muitos protestantes desconfiam que esta posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o fechou totalmente a porta atrav\u00e9s da qual entram na Igreja Cat\u00f3lica ensinos como a transubstancia\u00e7\u00e3o (1215), adora\u00e7\u00e3o da h\u00f3stia (1220), a imaculada concei\u00e7\u00e3o de Maria (1854), o dogma da infalibilidade papal (1870), e da ascens\u00e3o de Maria (1950). Quanto ao conceito do que seja a Igreja, aparentemente houve algumas modifica\u00e7\u00f5es no ensino da Igreja Cat\u00f3lica desde o Vaticano II. Falou-se da Igreja, n\u00e3o tanto como meio de salva\u00e7\u00e3o, mas como um sacramento e um mist\u00e9rio (embora a distin\u00e7\u00e3o nos pare\u00e7a apenas sem\u00e2ntica). Procurou-se diminuir a dist\u00e2ncia entre os leigos e a hierarquia, embora as ordens continuem a ser vistas como um sacramento. Admitiu-se que o reino de Deus \u00e9 maior que a Igreja Cat\u00f3lica, e os protestantes passaram a ser chamados de \u201cirm\u00e3os separados\u201d (entretanto, o Conc\u00edlio continua afirmando que \u00e9 a \u00fanica igreja). E mesmo o papel do papa foi revisto, embora, ao fim, o dogma do Conc\u00edlio Vaticano I permanecesse basicamente inalterado: o papa \u00e9 infal\u00edvel (imune de erro) quando fala <i>ex catedra<\/i> (da cadeira) sobre mat\u00e9rias de f\u00e9 e moral, com o prop\u00f3sito de juntar a Igreja Cat\u00f3lica como um todo. Portanto, j\u00e1 que n\u00e3o houve modifica\u00e7\u00f5es substanciais, o conceito cat\u00f3lico de Igreja (e do papa) continua representando uma s\u00e9ria diverg\u00eancia doutrin\u00e1ria entre protestantes e cat\u00f3licos hoje, como foi no s\u00e9culo XVI. E finalmente, a controv\u00e9rsia sobre o caminho da salva\u00e7\u00e3o permanece s\u00e9ria, j\u00e1 que a Igreja Cat\u00f3lica (mesmo ap\u00f3s Vaticano II) ainda ensina a coopera\u00e7\u00e3o de Maria na obra da salva\u00e7\u00e3o dos pecadores, conforme mencionado acima. Segundo Jo\u00e3o Paulo II em sua carta enc\u00edclica <i>Redemtoris Mater <\/i>(1987), Maria &#8220;&#8230; como serva do Senhor,coopera sem cessar na obra da salva\u00e7\u00e3o realizada por Cristo, seu Filho.&#8221; A despeito de todas as nega\u00e7\u00f5es em contr\u00e1rio, os protestantes temem que este ensino (que n\u00e3o se encontra na B\u00edblia) acaba por ofuscar (e mesmo anular) o ensino b\u00edblico da sufici\u00eancia da obra de Cristo para salvar o pecador.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>7. Sob o ponto de vista cat\u00f3lico romano, quais s\u00e3o as diverg\u00eancias mais s\u00e9rias entre cat\u00f3licos e protestantes?<\/b><\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; N\u00e3o posso dizer nada a esse respeito.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; Do ponto de vista cat\u00f3lico, parece que a maior preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 justamente em que os protestantes n\u00e3o se enquadram debaixo da autoridade da Igreja M\u00e3e. Em muitos aspectos, a Igreja Romana vem imitando a Protestante, por exemplo, na forma do culto: c\u00e2nticos, ora\u00e7\u00e3o intercess\u00f3ria, participa\u00e7\u00e3o leiga, etc. Mas a aparente superficialidade protestante no tratamento dos sacramentos (incluindo as fun\u00e7\u00f5es sacerdotais) certamente s\u00e3o motivos de preocupa\u00e7\u00e3o da parte dos cat\u00f3licos.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Cabe a um cat\u00f3lico esclarecido responder a esta quest\u00e3o. Contudo creio que ser\u00e3o os mesmos que mencionei nos dois \u00edtens anteriores, mudada a perspectiva e revertido o teor.<\/p>\n<p><b>Dom Bonif\u00e1cio Piccinini<\/b> &#8211; A quest\u00e3o do minist\u00e9rio ordenado, o minist\u00e9rio universal do Papa, o n\u00famero de sacramentos institu\u00eddos por Jesus e a interpreta\u00e7\u00e3o das Escrituras.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>8. O relacionamento entre cat\u00f3licos e protestantes em pa\u00edses n\u00e3o crist\u00e3os \u00e9 o mesmo que em pa\u00edses crist\u00e3os?<\/b><\/p>\n<p><b>Dom Jos\u00e9 Ivo Lorscheiter<\/b> &#8211; N\u00e3o me parece poss\u00edvel responder com uma avalia\u00e7\u00e3o geral. Por exemplo: conhe\u00e7o um pouco o Jap\u00e3o, onde os crist\u00e3os s\u00e3o uma pequena minoria. N\u00e3o creio que l\u00e1 o relacionamento entre cat\u00f3licos e protestantes seja melhor do que na Alemanha, na Inglaterra, no Brasil. A realidade e suas causas devem ser procuradas em outras fontes ou raz\u00f5es.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; N\u00e3o, em geral, porquanto em atmosfera desfavor\u00e1vel \u00e9 de mister apresentar o m\u00ednimo fact\u00edvel de atrito, sob pena de t\u00e1cita ou expl\u00edcita rejei\u00e7\u00e3o dos \u201cbriguentos\u201d&#8230; que se dizem todos crist\u00e3os.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; Em pa\u00edses crist\u00e3os a toler\u00e2ncia entre protestantes e cat\u00f3licos \u00e9 menor. Em pa\u00edses onde ambos s\u00e3o minoria, existe uma abertura para di\u00e1logo, coopera\u00e7\u00e3o e at\u00e9 ajuda m\u00fatua. (Ver o terceiro par\u00e1grafo do artigo <i>Evangelismo ou Proselitismo<\/i>, na p.40.)<\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; Pelo que conhe\u00e7o, o relacionamento \u00e9 bem melhor.<\/p>\n<p><b>Antonia Leonora van der Meer<\/b> &#8211; Trabalhei em Angola de 1984 a 1995. Entre mission\u00e1rios cat\u00f3licos e protestantes existem relacionamentos amistosos. Entre as igrejas cat\u00f3licas e protestantes h\u00e1 muito pouco contato. Mas \u00e9 preciso diferenciar as igrejas protestantes: as que pertencem \u00e0 Alian\u00e7a de Evang\u00e9licos de Angola (AEA) t\u00eam muitas reservas em rela\u00e7\u00e3o a qualquer forma de ecumenismo; e as que pertencem ao Conselho de Igrejas Crist\u00e3s de Angola (CICA) abertamente apoiam e promovem o ecumenismo. Creio que a explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 no fato de que os mission\u00e1rios no passado preferiram desencorajar tais contatos para manter o controle do rebanho, em vez de permitir e ensinar uma maturidade capaz de avaliar tudo e reter o que \u00e9 bom (1 Ts 5.21). Devo, contudo, esclarecer que, segundo as estat\u00edsticas, 60% dos angolanos s\u00e3o cat\u00f3licos e 20% protestantes. Em muitos cat\u00f3licos e em muitos protestantes, existe uma depend\u00eancia espiritual-emocional de pr\u00e1ticas religiosas tradicionais.<\/p>\n<p><b>Valdir Steuernagel<\/b> &#8211; Esta \u00e9 uma pergunta dif\u00edcil de ser respondida, uma vez que n\u00e3o vivemos esta experi\u00eancia em nosso contexto. O conhecimento que tenho, no entanto, \u00e9 que em situa\u00e7\u00f5es tais onde os crist\u00e3os s\u00e3o absolutamente minorit\u00e1rios, a tend\u00eancia \u00e9 que haja uma maior propens\u00e3o para que as diferen\u00e7as sejam menos ressaltadas e caminhos de aproxima\u00e7\u00e3o sejam, onde poss\u00edveis, buscados.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>9. O relacionamento entre cat\u00f3licos e protestantes em pa\u00edses de predomin\u00e2ncia protestante \u00e9 o mesmo que em pa\u00edses de predomin\u00e2ncia cat\u00f3lica?<\/b><\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; N\u00e3o. H\u00e1 toler\u00e2ncia para cat\u00f3licos.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; N\u00e3o, porque em pa\u00edses de predomin\u00e2ncia protestante, dado o seu esp\u00edrito mais tolerante, mais democr\u00e1tico, mais ecum\u00eanico, n\u00e3o s\u00e3o os cat\u00f3licos vistos como advers\u00e1rios ou inimigos, mas antes, como adeptos de uma corrente religiosa d\u00edspar, com iguais direitos e privil\u00e9gios que os protestantes arrogam para si. Nos pa\u00edses de predomin\u00e2ncia cat\u00f3lica o clima \u00e9 outro e os protestantes s\u00e3o vistos como her\u00e9ticos e inimigos da religi\u00e3o verdadeira, n\u00e3o muito de tolerar-se, jamais de aceitar-se.<\/p>\n<p><b>Dom L\u00facio Ign\u00e1cio Baumgaertner<\/b> &#8211; Historicamente, em pa\u00edses de predomin\u00e2ncia protestante, iniciou-se antes o relacionamento ecum\u00eanico, fraterno, enquanto que em pa\u00edses de predomin\u00e2ncia cat\u00f3lica, o movimento ecum\u00eanico come\u00e7ou mais tarde.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; \u00c9 dif\u00edcil ser gen\u00e9rico. Se compararmos pa\u00edses onde as duas igrejas s\u00e3o antigas e possuem n\u00famero significativo de adeptos nacionais, parece que n\u00e3o h\u00e1 muita diferen\u00e7a no relacionamento se a Igreja Cat\u00f3lica ou a Igreja Protestante domina. Onde a Igreja Protestante \u00e9 mais antiga e a Igreja Cat\u00f3lica consta quase que exclusivamente de imigrantes de pa\u00edses cat\u00f3licos (o caso da Escandin\u00e1via), o relacionamento \u00e9 fraternal e muito aberto. Inclusive a Igreja Cat\u00f3lica integra os \u00f3rg\u00e3os ecum\u00eanicos. Pode ser que haja uma mudan\u00e7a de atitude \u00e0 medida que a Igreja Cat\u00f3lica conquista o povo do pa\u00eds para o seu rol de membros. Onde a Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 mais antiga, a tend\u00eancia parece ser a mesma. Enquanto a Igreja Protestante fica entre as col\u00f4nia de imigrantes n\u00e3o h\u00e1 maiores problemas, por\u00e9m, \u00e0 medida que avan\u00e7a entre os cat\u00f3licos e se torna uma amea\u00e7a, a rea\u00e7\u00e3o tende a aumentar.<\/p>\n<p><b>Valdir Steuernagel<\/b> &#8211; Quando eu fui estudar nos Estados Unidos, tive a oportunidade de fazer alguns cursos num semin\u00e1rio cat\u00f3lico. Ao ouvir alguns dos meus colegas de classe conversarem, eu os percebia usando uma linguagem que me era familiar. Ou seja, eles falavam no estudo da B\u00edblia e no grupo de estudo b\u00edblico como eu estava acostumado a faz\u00ea-lo. A\u00a0 minha percep\u00e7\u00e3o, pois, foi a de que num pa\u00eds de forte influ\u00eancia protestante, como os EUA, a Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 bastante diferente do que na Am\u00e9rica Latina. Afinal, neste contexto ela precisa trabalhar a evangeliza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pode contar com um mercado \u201ccativo\u201d natural, como tem sido o caso por muito tempo no Brasil.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>10. Para ter o perd\u00e3o de pecados e a salva\u00e7\u00e3o eterna, o cat\u00f3lico que cr\u00ea no sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio de Jesus tem que abandonar o catolicismo e passar para a Igreja Protestante?<\/b><\/p>\n<p><b>Guilhermino Cunha<\/b> &#8211; Sim, tem. Pelas raz\u00f5es que mencionei ao responder duas perguntas anteriores a esta. Creio que um cat\u00f3lico nascido de novo que passe a examinar a B\u00edblia com profundidade e compromisso de adot\u00e1-la como \u00fanica regra de f\u00e9 e pr\u00e1tica, n\u00e3o tem como permanecer na Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p><b>Ricardo Gondim<\/b> &#8211; N\u00e3o. Entretanto, deve se preparar para enfrentar preconceitos e ostracismos. Conhe\u00e7o diversas pessoas que tentam viver algumas verdades fundamentais do cristianismo (na \u00f3tica protestante) na Igreja Cat\u00f3lica e sofrem tremendamente. Eles perdem espa\u00e7o e passam a receber apelidos de \u201cprotestantes\u201d no sentido pejorativo da palavra.<\/p>\n<p><b>Caio F\u00e1bio d&#8217;\u00c1ra\u00fajo Filho<\/b> &#8211;\u00a0 N\u00e3o, mas certamente ter\u00e1 grande dificuldade em crescer nesse caminho. Por\u00e9m, a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto da correta rela\u00e7\u00e3o com o Senhor Jesus e n\u00e3o com a Igreja Protestante.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; N\u00e3o, mas ser\u00e1 dif\u00edcil manter uma posi\u00e7\u00e3o coerente com sua f\u00e9 em Cristo e, ao mesmo tempo, conviver com o culto a Maria dentro do catolicismo popular brasileiro. Creio que existem muitos dentro do catolicismo que tiveram uma genu\u00edna experi\u00eancia de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; N\u00e3o \u00e9 a igreja que salva. Se o pecador se arrepende de seus pecados, pede perd\u00e3o e cr\u00ea no sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio de Cristo Jesus, ser\u00e1 salvo. Ir\u00e1, logo em seguida, ou aos poucos, buscar um ambiente que esteja mais em sintonia com os ensinos b\u00edblicos.<\/p>\n<p><b>Dom L\u00facio Ign\u00e1cio Baumgaertner<\/b> &#8211; N\u00e3o, porque a Igreja Cat\u00f3lica cr\u00ea no sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio de Jesus para o perd\u00e3o dos pecados.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; N\u00e3o necessariamente. A cren\u00e7a \u00e9 mat\u00e9ria de foro \u00edntimo e pode um cat\u00f3lico perfeitamente crer s\u00f3 no sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio de Cristo para sua plena salva\u00e7\u00e3o, sem ter de filiar-se a uma Igreja Protestante. O problema \u00e9 que sentir-se-\u00e1 desambientado na \u00f3rbita da Igreja Romana e, dada a natural afinidade de cren\u00e7a com a f\u00e9 evang\u00e9lica, melhor haver\u00e1 de sentir-se no ambiente de uma Igreja Protestante. \u00c9 uma conseq\u00fc\u00eancia natural, n\u00e3o um fim prec\u00edpuo.<\/p>\n<p><b>Hugolino de Sena Batista<\/b> &#8211; Para ter o perd\u00e3o de pecados e a salva\u00e7\u00e3o, qualquer pessoa (cat\u00f3lico, protestante ou esp\u00edrita) precisa t\u00e3o somente crer que Cristo levou a culpa dos seus pecados na cruz. Quanto ao sair ou n\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica, vejo isso mais como conseq\u00fc\u00eancia do que como condi\u00e7\u00e3o. Creio que isso \u00e9 uma decis\u00e3o pessoal e, pelo que tenho notado, na maioria esmagadora dos casos, as pessoas saem da Igreja Cat\u00f3lica e v\u00e3o para a Protestante mais por afinidade de id\u00e9ias do que por imposi\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m.<\/p>\n<p><b>Nephtali Vieira J\u00fanior<\/b> &#8211; Entendo que a seguran\u00e7a do perd\u00e3o de pecados e da salva\u00e7\u00e3o eterna n\u00e3o est\u00e1 nesta ou naquela organiza\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica, mas no sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio de Jesus. H\u00e1 sempre o perigo de pensarmos e agirmos como os disc\u00edpulos de Jesus, que tolheram a liberdade de um expulsador de dem\u00f4nios sob a alega\u00e7\u00e3o de que ele \u201cn\u00e3o segue conosco\u201d (Lc 9.49).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>11. A Igreja Evang\u00e9lica brasileira ainda \u00e9 acentuadamente anticat\u00f3lica? Deve continuar assim?<\/b><\/p>\n<p><b>Harry Bacon<\/b> &#8211; N\u00e3o acho que a Igreja Evang\u00e9lica tem sido anticat\u00f3lica. \u00c9 a Igreja Cat\u00f3lica que tem sido anti-evang\u00e9lica, atitude hoje menos acentuada.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; A Igreja Evang\u00e9lica tem sido anticat\u00f3lica em muitos aspectos. Parece existir hoje uma crescente abertura, mas ainda achamos mais f\u00e1cil aceitar movimentos extremados do pentecostalismo do que os cat\u00f3licos. A Igreja Evang\u00e9lica n\u00e3o deve ser anticat\u00f3lica, e, sim, pr\u00f3-indiv\u00edduos. Isto \u00e9, n\u00e3o ganhamos nada colocando barreiras e enfatizando diferen\u00e7as. Precisamos ser claros\u00a0 em nossa base doutrin\u00e1ria e reafirmar a centralidade e singularidade de Cristo como \u00fanico caminho de salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vejo a Igreja Cat\u00f3lica como o nosso grande inimigo. Este tem outro nome!<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Exce\u00e7\u00e3o feita de certos c\u00edrculos mais estreitos e fechados, apesar de muita experi\u00eancia negativa do passado, a Igreja Evang\u00e9lica brasileira n\u00e3o \u00e9 anticat\u00f3lica, uma atitude negativa. \u00c9 assinaladamente pr\u00f3-b\u00edblica, uma postura positiva. Em outros termos, a genu\u00edna Igreja Evang\u00e9lica n\u00e3o estar\u00e1 preocupada em atacar ou combater a Igreja Cat\u00f3lica, mas em semear o evangelho, proclamar a Cristo, a reden\u00e7\u00e3o na cruz do Calv\u00e1rio, a ensinar a verdade das Escrituras a todos sem distin\u00e7\u00e3o, esfor\u00e7ando-se sinceramente por que seu irm\u00e3o cat\u00f3lico venha a gozar da mesma liberdade vitoriosa em Cristo de que goza todo verdadeiro crente em Jesus. N\u00e3o creio que deva a Igreja Evang\u00e9lica mudar de atitude e rumo.<\/p>\n<p><b>Dom L\u00facio Ign\u00e1cio Baumgaertner<\/b> &#8211; O quadro das Igrejas Evang\u00e9licas no Brasil \u00e9 muito complexo. H\u00e1 no Brasil v\u00e1rias Igrejas Evang\u00e9licas que t\u00eam uma abertura ecum\u00eanica e n\u00e3o s\u00e3o anticat\u00f3licas.<\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; Em parte \u00e9, e deve continuar assim, em virtude da sua responsabilidade e miss\u00e3o de manter intang\u00edveis os princ\u00edpios b\u00edblicos.<\/p>\n<p><b>Caio F\u00e1bio d&#8217;Ara\u00fajo Filho<\/b> &#8211; \u00c9 e provavelmente continuar\u00e1 assim, pois a igreja brasileira est\u00e1 cada vez mais neo-pentecostal, que tem um tra\u00e7o nitidamente anticat\u00f3lico.<\/p>\n<p><b>Robinson Cavalcanti<\/b> &#8211; Em raz\u00e3o de vivermos sob a hegemonia religiosa do Catolicismo Romano, a Reforma do S\u00e9culo XVI se mant\u00e9m atual. Por sua fidelidade aos postulados reformados \u00e9 compreens\u00edvel uma certa tens\u00e3o com a Igreja Romana. Lamentavelmente temos visto um certo emocionalismo e irracionalismo, uma certa compuls\u00e3o, n\u00e3o apenas anti-romana, mas tamb\u00e9m anticat\u00f3lica, no sentido da universalidade hist\u00f3rica do cristianismo, de sua heran\u00e7a e dos seus s\u00edmbolos. As diverg\u00eancias &#8211; profundas, at\u00e9 &#8211; n\u00e3o devem ser minimizadas, mas devem se dar em um clima de respeito e bom senso.<\/p>\n<p><b>Ricardo Gondim<\/b> &#8211; A Igreja Evang\u00e9lica n\u00e3o \u00e9 mais acentuadamente anticat\u00f3lica. A apologia contra o catolicismo arrefeceu muito. A \u00eanfase b\u00edblica concentra-se muito mais nos cultos afro-brasileiros. Talvez porque para contest\u00e1-los n\u00e3o se exige maior profundidade de conte\u00fados; basta o zelo. A Igreja Evang\u00e9lica deve continuar caminhando em termos mais amig\u00e1veis com a Igreja Cat\u00f3lica, para ser ouvida e poder evangelizar os \u201ccat\u00f3licos nominais\u201d. A pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica admite que a maioria dos que emigraram para o protestantismo n\u00e3o eram cat\u00f3licos convictos; ela nunca os teve. Se o que importa \u00e9 ganhar vidas para o Reino de Deus, a Igreja Protestante compensa falhas do pr\u00f3prio catolicismo evangelizando os \u201cbatizados\u201d.<\/p>\n<p><b>Valdir Steuernagel<\/b> &#8211; Eu percebo a Igreja Evang\u00e9lica brasileira como sendo, ainda, bastante anticat\u00f3lica. Este, afinal, \u00e9 um componente important\u00edssimo em sua hist\u00f3ria. \u00c9, por\u00e9m, uma tend\u00eancia que deve diminuir. \u00c9 interessante observar, por exemplo, o quanto a Igreja Universal do Reino de Deus usa de uma linguagem e de s\u00edmbolos que s\u00e3o importantes na tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica. Isso, apesar dos \u201cchutes na santa\u201d, que continuam a ser um efetivo instrumento de <i>marketing<\/i>. No entanto, \u00e0 medida que o Brasil deixar de ser um pa\u00eds cat\u00f3lico, os pr\u00f3prios evang\u00e9licos ter\u00e3o de perceber que n\u00e3o basta ser \u201ccontra algo\u201d para ganhar a ades\u00e3o de algu\u00e9m. Para os evang\u00e9licos, eu diria, tem sido at\u00e9 c\u00f4modo afirmar sua identidade em contraposi\u00e7\u00e3o ao ser cat\u00f3lico. Esse tempo, no entanto, est\u00e1 chegando ao fim e os evang\u00e9licos ter\u00e3o de ficar em p\u00e9 em fun\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria proposta, da sua pr\u00f3pria palavra e das suas pr\u00f3prias pernas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_________________<br \/>\n<b>Ultimato<\/b> perguntou ao mission\u00e1rio americano Frank Arnold se o anticatolicismo dos evang\u00e9licos brasileiros \u00e9 algo trazido na bagagem dos mission\u00e1rios estrangeiros que implantaram o protestantismo no pa\u00eds no s\u00e9culo passado e obteve a seguinte resposta: \u201cSem d\u00favida a prega\u00e7\u00e3o do Evangelho por parte dos mission\u00e1rios americanos pioneiros continha uma dimens\u00e3o pol\u00eamica contra a igreja dominante na Am\u00e9rica Latina. N\u00e3o obstante o sentimento pessoal dos mission\u00e1rios quanto a Igreja Cat\u00f3lica (que, por sua vez tinha forte dimens\u00e3o antiprotestante), era inevit\u00e1vel que a Igreja Protestante brasileira nas primeiras d\u00e9cadas tivesse uma caracter\u00edstica distintivamente anticat\u00f3lica. Isto seria o resultado natural da necessidade de quem se converte de uma f\u00e9 para justificar uma a\u00e7\u00e3o. A intensidade desse zelo anticat\u00f3lico dos convertidos foi revelada no Congresso do Panam\u00e1, realizado em 1916. Nessa ocasi\u00e3o, os norte-americanos se mostraram esperan\u00e7osos de uni\u00e3o, inclusive com a Igreja Cat\u00f3lica. Esta tese n\u00e3o foi aceita pelos latino-americanos presentes\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>12. Poderia dar-se o caso de tanto a Igreja Cat\u00f3lica como a Igreja Protestante estarem mais ciosas de suas tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e de sua sobreviv\u00eancia do que de seu zelo e entusiasmo pela pessoa de Jesus?<\/b><\/p>\n<p><b>Dom Bonif\u00e1cio Piccinini<\/b> &#8211; Principalmente em nosso tempo, pode ser uma tenta\u00e7\u00e3o &#8211; para sobreviver &#8211; apegar-se \u00e0s pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es. Mas isso, geralmente acontece, ou pode acontecer, ao interno de certos grupos. Todavia n\u00e3o \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o da Igreja oficial, nem cat\u00f3lica nem protestante. Na verdade as igrejas devem buscar sempre, em primeiro lugar, o seguimento de Jesus Cristo no hoje da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; Sem d\u00favida. Por\u00e9m a Igreja Protestante tem sido mais clara em sua mensagem acerca de Jesus.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Pode, infelizmente, e, em certos casos, tem acontecido. \u00c9 preciso sempre lembrar que a Igreja \u00e9 o instrumento da implanta\u00e7\u00e3o do Reino de Deus, somente Jesus Cristo \u00e9 o Senhor. A lealdade do crist\u00e3o \u00e9 primacialmente a Cristo, n\u00e3o \u00e0 Igreja, por maior respeito que se lhe deva.<\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; Em parte, talvez.<\/p>\n<p><b>Robinson Cavalcanti<\/b> &#8211; Em muitos casos isso \u00e9 verdadeiro. Ambos os lados t\u00eam que rever a sua eclesiologia. No lado protestante, o denominacionalismo e o sectarismo estreito e fragmentador. No lado romano, a reiteirada auto-imagem de ser a Igreja, \u00fanica fundada pelo pr\u00f3prio Cristo, etc. Por outro lado, a onda neo-liberal enfatiza a competi\u00e7\u00e3o e o mercado. As institui\u00e7\u00f5es religiosas n\u00e3o est\u00e3o imunes a esse esp\u00edrito do s\u00e9culo.<\/p>\n<p><b>Ricardo Gondim<\/b> &#8211; Sim, infelizmente esse \u00e9 o caso mais comum nos dois arraiais. Do lado protestante o sectarismo n\u00e3o se d\u00e1 apenas em rela\u00e7\u00e3o ao catolicismo, mas entre eles pr\u00f3prios. Batistas n\u00e3o aceitam o batismo dos presbiterianos; assembleianos proibem casamentos \u201cmistos\u201d com metodistas; pastores pentecostais necessitam voltar ao semin\u00e1rio para terem suas ordena\u00e7\u00f5es reconhecidas em igrejas hist\u00f3ricas. A Igreja deve se preocupar em evangelizar e n\u00e3o em fazer pros\u00e9litos, em fazer disc\u00edpulos e n\u00e3o em perpetuar sua institui\u00e7\u00e3o, em mudar ao mundo e n\u00e3o em gastar suas energias em guerras f\u00fateis. (Veja <i>Evangelismo ou Proselitismo?<\/i>, p.40)<\/p>\n<p><b>Paulo Leite<\/b> &#8211; Este \u00e9 um risco que todo zeloso corre, tanto na Igreja Cat\u00f3lica quanto na Igreja Protestante.<\/p>\n<p><b>Padre Carlos James dos Santos<\/b> &#8211; \u00c9 verdade, sim, que tanto cat\u00f3licos quanto protestantes parecem estar muitas vezes preocupados com suas pr\u00f3prias igrejas e institui\u00e7\u00f5es e n\u00e3o com o Reino de Deus. Isso ocorre toda vez que um acentua contra o outro a diferen\u00e7a em nome n\u00e3o sei de que \u201cidentidade\u201d. A \u201cidentidade\u201d de ambos \u00e9 dada por Cristo e o crit\u00e9rio de verifica\u00e7\u00e3o de sua autenticidade \u00e9 o amor ao pr\u00f3ximo. Acentuar demais as diferen\u00e7as n\u00e3o parece ser uma atitude autenticamente crist\u00e3. Por outro lado, afirmar a unidade n\u00e3o representa perder as diferen\u00e7as. Cat\u00f3licos e protestantes devem encontrar raz\u00f5es para estarem unidos num mundo extremamente materialista e hedonista.<b><\/b><\/p>\n<p><b>Valdir Steuernagel<\/b> &#8211; A Igreja, antes de ser institui\u00e7\u00e3o, \u00e9 e quer ser \u201ccorpo em movimento\u201d. Mas \u00e9 natural que esse corpo se institucionalize. Que crie suas estruturas e estabele\u00e7a os necess\u00e1rios mecanismos para o seu funcionamento. E, no momento seguinte, \u00e9 quase inevit\u00e1vel que a institui\u00e7\u00e3o comece a se preocupar consigo mesma, zelar por suas tradi\u00e7\u00f5es e lutar por sua sobreviv\u00eancia. Este processo e esta experi\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o diferentes com a Igreja, seja ela a Cat\u00f3lica Romana ou uma das m\u00faltiplas Igrejas Evang\u00e9licas.\u00a0 O Evangelho de Cristo, no entanto, n\u00e3o se deixa enquadrar em processos de institucionaliza\u00e7\u00e3o. O Evangelho \u00e9 livre e solto. \u00c9 vitalmente din\u00e2mico. A pr\u00f3pria Igreja nasce com fruto do encontro com esse Evangelho e tem a voca\u00e7\u00e3o de colocar-se a servi\u00e7o deste mesmo Evangelho. Conseq\u00fcentemente, para que o processo de institucionaliza\u00e7\u00e3o da Igreja seja saud\u00e1vel ele precisa ser aberto, critic\u00e1vel e relativiz\u00e1vel. A Igreja, pois, busca por uma institucionaliza\u00e7\u00e3o que se coloque sob a constante avalia\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Evangelho. Historicamente falando, todas as igrejas, cat\u00f3licas ou protestantes t\u00eam dificuldades com estes processos de institucionaliza\u00e7\u00e3o aberta. No caso da Igreja Cat\u00f3lica Romana, este processo acaba sendo mais complicado e dif\u00edcil porque ela \u00e9 mais antiga e a maior igreja institucionalizada. Eu creio, no entanto, que Deus dificilmente desiste de n\u00f3s e das nossas institui\u00e7\u00f5es. Portanto, enquanto o Evangelho encontrar alguma brecha e espa\u00e7o para habitar entre n\u00f3s, Deus insiste em se relacionar conosco na perspectiva de nossa convers\u00e3o e conseq\u00fcentemente, de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>13. O primeiro brasileiro a se ordenar pastor protestante foi o ex-padre Jos\u00e9 Manoel da Concei\u00e7\u00e3o, em 1864. Teria sido melhor para a causa do evangelho que ele continuasse na Igreja Cat\u00f3lica e l\u00e1 desenvolvesse uma reforma religiosa?<\/strong><\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; A pergunta \u00e9 hipot\u00e9tica e dif\u00edcil. Lutero tentou permanecer na Igreja Cat\u00f3lica Romana, mas foi expulso. Outros casos parecidos s\u00e3o encontrados em grande n\u00famero na hist\u00f3ria. Uma reforma de dentro para fora seria melhor. Todavia n\u00e3o se muda facilmente a estrutura de uma igreja milenar.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; N\u00e3o, por certo. Concei\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de desencadear um movimento reformador de impacto. A hist\u00f3ria est\u00e1 pontilhada de casos de cl\u00e9ricos e grupos que, fugindo \u00e0 rigorosa linha de obedi\u00eancia e sujei\u00e7\u00e3o \u00e0s autoridades superiores da Igreja, n\u00e3o tiveram \u00eaxito em sua causa por mais santo que lhes tenha sido o prop\u00f3sito. Um movimento reformador da Igreja Cat\u00f3lica somente se processar\u00e1 se o Esp\u00edrito Santo iluminar o Vaticano, o c\u00e9rebro da Igreja, levando papa e c\u00faria a abra\u00e7ar a verdade do Evangelho, o que humanamente parece improv\u00e1vel.<\/p>\n<p><b>Ricardo Gondim<\/b> &#8211; Dificilmente Concei\u00e7\u00e3o sobreviveria no catolicismo de 1864. Nos idos do s\u00e9culo passado a Igreja detinha o monop\u00f3lio religioso brasileiro e deixava bastante claro que n\u00e3o nutria simpatia pelo protestantismo. Em v\u00e1rias cidades, colportores que vendiam B\u00edblias foram apedrejados. Crentes tiveram dificuldade de enterrar os seus mortos e igrejas foram danificadas. A intoler\u00e2ncia era tamanha que se Jos\u00e9 Manoel da Concei\u00e7\u00e3o permanecesse no catolicismo, ter\u00edamos apenas uma lembran\u00e7a de seu mart\u00edrio.<\/p>\n<p><b>Dom Jos\u00e9 Elias Chaves<\/b> &#8211; A Igreja como realidade divina mas tamb\u00e9m humana necessita constantemente de uma renova\u00e7\u00e3o para permanecer sempre fiel ao Evangelho. No tempo de Jos\u00e9 Manoel da Concei\u00e7\u00e3o certamente tamb\u00e9m era necess\u00e1ria esta renova\u00e7\u00e3o. Por exemplo, uma vida crist\u00e3 mais inspirada na B\u00edblia do que somente em devo\u00e7\u00f5es populares, talvez. Concei\u00e7\u00e3o optou passar para a Igreja Presbiteriana, enquanto tantos outros optaram e optam por permanecer na Igreja Cat\u00f3lica e contribuir permanecendo dentro dela, para essa renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Boanerges Ribeiro<\/b> &#8211; N\u00e3o tenho meios de opinar como teria sido a hist\u00f3ria se, 130 anos atr\u00e1s, um fator tivesse sido alterado. Quanto a Concei\u00e7\u00e3o, ele pr\u00f3prio fala, naquela \u00e9poca. Suas palavras v\u00eam transcritas na p\u00e1gina 121 do livro <i>Jos\u00e9 Manoel da Concei\u00e7\u00e3o e a Reforma Religiosa<\/i>. (Veja o depoimento de Jos\u00e9 Manoel da Concei\u00e7\u00e3o, sobre o t\u00edtulo <i>O que devia eu fazer<\/i>, na p. 30).<\/p>\n<p><b>Frank Arnold<\/b> &#8211; Creio que n\u00e3o. Se Concei\u00e7\u00e3o tivesse permanecido na Igreja de origem, a hierarquia n\u00e3o lhe daria abertura para tal reforma, por causa de suas convic\u00e7\u00f5es sobre a B\u00edblia. N\u00e3o podemos esquecer que Concei\u00e7\u00e3o ganhou o nome de \u201cPadre Protestante\u201d, quando ainda agia como sacerdote romano. Como pastor protestante, ele n\u00e3o foi aquele implantador de igrejas, como queriam os mission\u00e1rios pioneiros. Por demonstrar um estilo mission\u00e1rio e evangelizador que respeitava e valorizava a cultura, Concei\u00e7\u00e3o nos legou um exemplo vivo de miss\u00e3o verdadeiramente \u201cencarnacional\u201d. (Veja uma pequena biografia de Concei\u00e7\u00e3o em <i>O Padre Jos\u00e9<\/i>, na p\u00e1gina seguinte).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>14. Sabe-se de v\u00e1rios padres que se tornaram protestantes. Existem casos conhecidos de pastores que se tornaram cat\u00f3licos?<\/b><\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; N\u00e3o conhe\u00e7o nenhum caso, por\u00e9m deve existir. Sei de evang\u00e9licos ativos que se tornaram cat\u00f3licos ardorosos.<\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; Conhe\u00e7o um \u00fanico caso: o do pastor Eur\u00edpedes Cardoso de Menezes, que se tornou grande l\u00edder cat\u00f3lico.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Uns poucos. No exterior, mormente na Alemanha luterana e na Inglaterra anglicana, casos que tais t\u00eam havido. No Brasil, sei apenas de dois: Eur\u00edpedes Cardoso de Menezes e Salom\u00e3o Ferraz.<\/p>\n<p><b>Dom Jos\u00e9 Elias Chaves<\/b> &#8211; Sim, existem fora do Brasil e no Brasil tamb\u00e9m. Alguns nomes s\u00e3o bem conhecidos: Max Thurian, da Comunidade de Taiz\u00e9, o Cardeal Newman, que era anglicano. Mais recentemente, depois da decis\u00e3o da Igreja da Inglaterra de ordenar mulheres, muitos ministros anglicanos e um bispo pediram para ingressar na Igreja Cat\u00f3lica. No Brasil, entre os pastores convertidos para a Igreja Cat\u00f3lica mais conhecidos, est\u00e3o Er\u00edpedes Cardoso de Menezes e Francisco de Almeida Ara\u00fajo, este com toda a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p><b>Robinson Cavalcanti<\/b> &#8211; N\u00e3o conhe\u00e7o, nem nunca ouvi falar. Simples membros de igreja, sim. Conheci um frade ex-batista e uma novi\u00e7a oriunda de fam\u00edlia assembleiana. S\u00e3o casos muito raros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>15. \u00c9 certo dizer que no Brasil h\u00e1 um catolicismo oficial e outro popular?<\/b><\/p>\n<p><b>Caio F\u00e1bio d&#8217;\u00c1ra\u00fajo Filho<\/b> &#8211; Sim. E \u00e9 bom acrescentar que o catolicismo oficial n\u00e3o tem controle sobre o catolicismo popular.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Talvez n\u00e3o seja bem essa a nomenclatura. Preferia falar de nominal (gente que se diz cat\u00f3lica, entretanto, em completa aliena\u00e7\u00e3o para com a Igreja) e de praticante (a minoria que leva a s\u00e9rio seus deveres religiosos).<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; Sim. O catolicismo popular brasileiro, fortemente sincretista, domina a vida religiosa do &#8220;pov\u00e3o&#8221;cat\u00f3lico.<\/p>\n<p><b>Dom Jos\u00e9 Elias Chaves<\/b> &#8211; Poder\u00edamos dizer que existe sim um catolicismo popular e um catolicismo oficial, mas como duas dimens\u00f5es da mesma f\u00e9 cat\u00f3lica, do modo de viver essa f\u00e9 cat\u00f3lica. O catolicismo popular sem o catolicismo oficial se esvaziaria de sentido e se tornaria pura religiosidade. Enquanto que o catolicismo oficial sem o catolicismo popular, correria o risco de se tornar letra morta, puro intelectualismo.<\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; Sim. Get\u00falio Vargas, quando deputado, j\u00e1 apontava essa diferen\u00e7a: &#8220;A alta sociedade adota um catolicismo um tanto c\u00e9tico e elegante. A grande massa ignorante est\u00e1 na fase fetichista da adora\u00e7\u00e3o dos santos com v\u00e1rias especialidades milagreiras&#8221;. (<i>O Pa\u00eds<\/i>, Rio de Janeiro, 29\/08\/1925.)<\/p>\n<p><b>Padre Carlos James dos Santos<\/b> &#8211; As express\u00f5es &#8220;catolicismo popular&#8221; e &#8220;catolicismo oficial&#8221; tornaram-se muito recorrentes na sociologia religiosa dos anos de 1970. Elas foram e ainda s\u00e3o empregadas para dar conta das diferentes pr\u00e1ticas e representa\u00e7\u00f5es que ocorrem no interior da Igreja Cat\u00f3lica, opondo, de um lado, o sistema erudito e sacerdotal da hierarquia cat\u00f3lica, de outro, os sub-sistemas relativamente aut\u00f4nomos que envolvem diversos tipos de agentes populares religiosos, os quais agem independentemente dos padres e de seus controles sobre as suas cren\u00e7as e pr\u00e1ticas religiosas. \u00c9 necess\u00e1rio reconhecer, entretanto, que essas oposi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o de exclus\u00e3o, mas de complementaridade. No caso do &#8220;catolicismo popular&#8221;, por exemplo, predominam elementos de pr\u00e1ticas devocionais, relacionadas sobretudo aos santos, que j\u00e1 fazem parte do &#8220;catolicismo oficial tradicional&#8221;. Da mesma forma, o &#8220;catolicismo oficial&#8221; \u00e9 obrigado com freq\u00fc\u00eancia a integrar elementos da cultura popular, tornando-as de algum modo oficial. Um exemplo mais recente \u00e9 a autoriza\u00e7\u00e3o oficial para que elementos da cultura afro-brasileira sejam integrados nas celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas. As rela\u00e7\u00f5es entre ambos os &#8220;catolicismos&#8221; variam de acordo com a \u00e9poca e pa\u00eds, ora sendo de maior toler\u00e2ncia, liberdade, respeito e acolhida da parte &#8220;oficial&#8221; em rela\u00e7\u00e3o ao &#8220;popular&#8221;; ora de desmantelamento de suas tradi\u00e7\u00f5es, de enquadramento de suas pr\u00e1ticas e representa\u00e7\u00f5es segundo moldes uniformizantes, sobretudo quando definidos unilateralmente por Roma. O Evangelho de Cristo \u00e9 sempre normativo para todos, tanto para os que se imaginam os mais &#8220;ortodoxos&#8221; e &#8220;oficiais&#8221;, como para os que lutam para preservar sua autonomia e valores.<\/p>\n<p><b>Valdir Steuernagel<\/b> &#8211; H\u00e1, certamente, v\u00e1rios tipos de catolicismo no Brasil. O pr\u00f3prio catolicismo oficial n\u00e3o \u00e9 monol\u00edtico. O catolicismo \u00e9 certamente maior do que o Papa, seu l\u00edder maior. As diferentes ordens religiosas, por exemplo, n\u00e3o deixam de ser oficiais, mas elas podem ser bastante diferentes entre si. Quanto \u00e0 express\u00e3o popular do catolicismo, eu apontaria em duas dire\u00e7\u00f5es. Numa delas, o catolicismo se apropriou de elementos de express\u00f5es religiosas ind\u00edgenas, negras e mesmo esp\u00edritas, num esfor\u00e7o catequizador, gerando uma esp\u00e9cie de catolicismo popular sincr\u00e9tico. Mas o reverso tamb\u00e9m aconteceu. As religi\u00f5es afro-brasileiras, no af\u00e3 de conquistarem espa\u00e7o, aceita\u00e7\u00e3o &#8211; e at\u00e9 mesmo como disfarce &#8211; acabaram incorporando, na sua express\u00e3o religiosa, elementos do catolicismo. \u00c9 por isso que \u00e9 poss\u00edvel encontrar os mesmos santos, mas com nomes diferentes, tanto na Igreja Cat\u00f3lica como na express\u00e3o religiosa afro-brasileira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>16. No Brasil, a toler\u00e2ncia cat\u00f3lica com os cultos afros \u00e9 muito grande e estes s\u00e3o muitas vezes admitidos como manifesta\u00e7\u00f5es &#8220;culturais&#8221;, enquanto no meio protestante em geral tais cultos s\u00e3o fortemente rejeitados e considerados de inspira\u00e7\u00e3o demon\u00edaca. Qual postura lhe parece mais adequada para alcan\u00e7ar os praticantes dos cultos afros?<\/b><\/p>\n<p><b>Dom Amaury Castanho<\/b> &#8211; De fato h\u00e1 muitos cat\u00f3licos que participam de cultos afro-brasileiros sem estarem conscientes da contradi\u00e7\u00e3o que isso representa. Na hist\u00f3ria, a Igreja Cat\u00f3lica nem sempre assumiu uma atitude de toler\u00e2ncia e de respeito quanto aos cultos afro. Hoje em dia, de fato, na Igreja Cat\u00f3lica h\u00e1 uma busca de di\u00e1logo com todas as religi\u00f5es e tamb\u00e9m com os cultos afro. No meio protestante, a rejei\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande, embora entre as Igrejas Protestantes hist\u00f3ricas estejam mais abertas as possibilidades de di\u00e1logo com estes cultos. A postura mais evang\u00e9lica e adequada \u00e9 a atitude de respeito, de di\u00e1logo e de caridade para com todos, o que n\u00e3o implica em aceita\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as afro-brasileiras.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; Uma atitude de toler\u00e2ncia e de abertura sincretista n\u00e3o ajuda o avan\u00e7o da Igreja Crist\u00e3. Cria apenas confus\u00e3o e superficialidade na f\u00e9. Creio que \u00e9 necess\u00e1rio clareza quanto \u00e0 mensagem b\u00edblica e uma clara defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 cultura e do que \u00e9 religi\u00e3o. Por outro lado n\u00e3o existe cultura neutra de influ\u00eancias religiosas, o que torna a aceita\u00e7\u00e3o dos elementos culturais problem\u00e1tica. Mas a tentativa de separar as coisas precisa ser feita, sen\u00e3o nada de cultural pode ser utilizado.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Fiel ao princ\u00edpio de soberania absoluta da B\u00edblia como regra de f\u00e9 e pr\u00e1tica, o protestante esclarecido rejeita influ\u00eancias e tradi\u00e7\u00f5es esp\u00edritas, fugindo a todo e qualquer sincretismo religioso. Por isso, ainda quando n\u00e3o os veja como sat\u00e2nicos, descarta manifesta\u00e7\u00f5es culturais, lit\u00fargicas ou devocionais de cunho afro (ou oriental) como estranhos ao Evangelho puro.<\/p>\n<p><b>Valdir Steuernagel<\/b> &#8211; Qualquer tarefa evangelizadora requer o apurado exerc\u00edcio de discernimento no que se refere \u00e0 assimila\u00e7\u00e3o e \u00e0 ruptura. Dependendo do que se trata, ambos s\u00e3o leg\u00edtimos e necess\u00e1rios. Qualquer exerc\u00edcio evangelizador tamb\u00e9m requer a den\u00fancia e a ruptura no que se refere a cren\u00e7as, pr\u00e1ticas e costumes de um determinado contexto. No caso das religi\u00f5es afro-brasileiras, a f\u00e9 evang\u00e9lica tem dito que a ruptura \u00e9 necess\u00e1ria porque, neste caso, se est\u00e1 tratando de uma pr\u00e1tica religiosa que \u00e9 incompat\u00edvel com o conte\u00fado e os valores da f\u00e9 crist\u00e3. Ou seja, com a idolatria n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compactuar. No caso hist\u00f3rico da Igreja Cat\u00f3lica, ela tentou fazer pontes e se deu mal. N\u00e3o evangelizou devidamente e foi engolida por uma cultura e pr\u00e1tica religiosa e profunda, gerando o que chamamos anteriormente de sincretismo. A postura b\u00edblica requerida neste contexto \u00e9 a ruptura, o que n\u00e3o significa dizer que a cultura tipicamente brasileira \u00e9 per se, demon\u00edaca. A cultura brasileira, como uma express\u00e3o cultural entre tantas outras traz elementos, tanto da m\u00e3o criadora de Deus como da queda humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>17. N\u00e3o poucos cat\u00f3licos brasileiros professam cren\u00e7as esp\u00edritas e continuam oficialmente cat\u00f3licos. O mesmo fen\u00f4meno ocorre no ambiente protestante?<\/b><\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; N\u00e3o, porque o crente em admitindo s\u00f3 o ensino das Escrituras, n\u00e3o pode conciliar sua f\u00e9 na verdade do Evangelho com a filosofia e pr\u00e1tica do espiritismo, completamente d\u00edspares e conflitivos. Ou se mant\u00e9m crente, infenso ao espiritismo, ou deixa de ser crente para seguir o engano do espiritismo.<\/p>\n<p><b>Dom Amaury Castanho<\/b> &#8211; Realmente, n\u00e3o poucos cat\u00f3licos aceitam, por exemplo a reencarna\u00e7\u00e3o e continuam declarando-se cat\u00f3licos. Tal atitude \u00e9 contradit\u00f3ria, explicada pelo infantilismo religioso dos mesmos. H\u00e1 um esfor\u00e7o para o seu esclarecimento. Pode ser que existam protestantes que professem alguma cren\u00e7a esp\u00edrita, por\u00e9m n\u00e3o parece ser um fen\u00f4meno freq\u00fcente. N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas confi\u00e1veis a respeito.<\/p>\n<p><strong>Caio F\u00e1bio d&#8217;Ara\u00fajo Filho<\/strong> &#8211; N\u00e3o creio, pois o protestantismo exige envolvimento pleno. Se acontecer \u00e9 exce\u00e7\u00e3o e, provavelmente, d\u00e1-se entre os protestantes mais pr\u00f3ximos do estilo cat\u00f3lico.<\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; At\u00e9 hoje n\u00e3o soube de nenhum caso.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; N\u00e3o na mesma propor\u00e7\u00e3o, por\u00e9m existe muito de supersti\u00e7\u00e3o e magia no meio protestante.<\/p>\n<p><b>Robinson Cavalcanti<\/b> &#8211; A tradi\u00e7\u00e3o protestante brasileira \u00e9 de milit\u00e2ncia, exclusivismo e doutrina\u00e7\u00e3o. A perman\u00eancia de cren\u00e7a residuais esp\u00edritas pode at\u00e9 ser poss\u00edvel entre ne\u00f3fitos mas de certo nunca entre veteranos.<\/p>\n<p><b>Valdir Steuernagel<\/b> &#8211; A presen\u00e7a de cren\u00e7as e pr\u00e1ticas esp\u00edritas \u00e9 muito profunda no contexto brasileiro, permeando setores enormes e significativos da nossa sociedade. Como a Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o trabalhou com a postura de ruptura, ela acabou gerando uma grande confus\u00e3o, da qual n\u00e3o consegue se libertar. \u00c9 por isso que se pode encontrar tantos \u201ccat\u00f3licos esp\u00edritas\u201d entre n\u00f3s. No ambiente protestante isso n\u00e3o acontece na mesma propor\u00e7\u00e3o, justamente porque o protestantismo em sua grande maioria apregoou a necessidade de ruptura, afirmando a impossibilidade da conviv\u00eancia entre a f\u00e9 crist\u00e3 e as express\u00f5es religiosas de cunho esp\u00edrita. Do ponto de vista de vis\u00e3o do mundo e da pr\u00e1tica cotidiana, no entanto, n\u00e3o se poderia dizer que as Igrejas Evang\u00e9licas est\u00e3o livres de que a sua gente pense e aja em termos esp\u00edritas. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o que o cristianismo vai passando a ser nominal, por exemplo, a B\u00edblia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 aprofundada e estudada e a evangeliza\u00e7\u00e3o passa a ser meramente quantitativa, a influ\u00eancia da cosmovis\u00e3o e das pr\u00e1ticas esp\u00edritas passa a ser uma realidade tamb\u00e9m entre fileiras evang\u00e9licas. Eu diria ainda que \u00e0 medida que a pr\u00e1tica evangelizadora evang\u00e9lica passa a trabalhar simplesmente com a \u00eanfase na cura, nas manifesta\u00e7\u00f5es excepcionais, seja a n\u00edvel de express\u00e3o dos dons ou de batalha espiritual, ela est\u00e1 introduzindo elementos de uma religiosidade de negocia\u00e7\u00e3o e de resultados, de consumo e de m\u00ednimas conseq\u00fc\u00eancias \u00e9ticas, que a pr\u00f3pria Palavra de Deus desconhece. Pois esta pr\u00e1tica religiosa que n\u00e3o conduz nem desafia os seus \u201cconsumidores\u201d a uma ruptura profunda a n\u00edvel de transforma\u00e7\u00e3o de mente e de viv\u00eancia dos frutos do Esp\u00edrito, acaba confundindo e relativizando a pr\u00f3pria natureza e os princ\u00edpios b\u00e1sicos da f\u00e9 crist\u00e3. Este n\u00e3o \u00e9 um caminho, mas apenas um beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>18. Desde 1977, a Editora Ultimato envia a revista <i>Ultimato<\/i> a mais de cinco mil par\u00f3quias cat\u00f3licas do Brasil. Nossa inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ver padres abandonando a Igreja Cat\u00f3lica e ingressando na Igreja Evang\u00e9lica, mas ver padres cat\u00f3licos e pastores protestantes cada vez mais comprometidos com Jesus Cristo e dependentes da instru\u00e7\u00e3o e da edifica\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus, em mat\u00e9ria de f\u00e9 e pr\u00e1tica. Nossa estrat\u00e9gia lhe parece correta?<\/b><\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; A estrat\u00e9gia tem seu m\u00e9rito.<\/p>\n<p><b>Caio F\u00e1bio d&#8217;Ara\u00fajo Filho<\/b> &#8211; Sim, sem d\u00favida. Quanto mais informa\u00e7\u00f5es tiverem sobre a Palavra de Deus melhor para eles tanto como pessoas como enquanto ministros. Al\u00e9m do mais, isso certamente reverberar\u00e1 para as ovelhas.<\/p>\n<p><b>Dom Amaury Castanho<\/b> &#8211; Se esta \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 boa e louv\u00e1vel. Quanto \u00e0 estrat\u00e9gia, n\u00e3o basta enviar a revista para que os padres e pastores fiquem mais comprometidos com Jesus Cristo. Talvez seja mais produtivo estimular mais o di\u00e1logo ecum\u00eanico, o conhecimento e a estima rec\u00edprocos em Cristo, promover a\u00e7\u00f5es comuns e a medita\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus juntos.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6n<\/b> &#8211; Sem d\u00favida. Se os padres cat\u00f3licos tiverem uma experi\u00eancia genu\u00edna com Cristo e descobrirem os fundamentos b\u00edblicos da f\u00e9, haver\u00e1 uma revolu\u00e7\u00e3o dentro da Igreja Romana e da sociedade brasileira. Creio, inclusive, que existem padres que j\u00e1 est\u00e3o neste caminho, escolhendo ficar dentro da Igreja para pregar aos que, quem sabe, nunca ouviram.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Sim. Esse \u00e9 o esp\u00edrito e esse \u00e9 um bom caminho. Prouvera o Esp\u00edrito de Deus iluminasse a tanto padre sincero e dedicado para que visse a verdade do Evangelho, recebesse a Jesus como seu \u00fanico e real Salvador e Senhor e passasse a gozar desta vida abundante de redimido do Senhor.<\/p>\n<p><b>Harry Bacon<\/b> &#8211; Aprecio muito esse esfor\u00e7o de enviar <i>Ultimato<\/i> aos padres. As cartas deles que aparecem na revista t\u00eam sido animadoras e, \u00e0s vezes divertidas. N\u00e3o \u00e9 preciso visar uma finalidade ecum\u00eanica. A rea\u00e7\u00e3o deles e a sua atua\u00e7\u00e3o em seguida fica l\u00e1 com eles.<\/p>\n<p><b>Paulo Leite<\/b> &#8211; A estrat\u00e9gia me parece correta, pois n\u00e3o basta ser chamado de padre ou pastor somente. \u00c9 preciso que ambos tenham compromisso com o Senhor Jesus.<\/p>\n<p><b>Guilhermino Cunha<\/b> &#8211; Entendo que sim. Se <i>Ultimato<\/i> fosse sect\u00e1ria, n\u00e3o seria lida. Falaria apenas a um gueto. A verdade b\u00edblica liberta. Uma revista que veicula a Palavra de Deus e que fala de Jesus com clareza e coragem, abrange e transforma tanto a protestantes, quanto a cat\u00f3licos e esp\u00edritas.<\/p>\n<p><b>Augustus Nicodemus Lopes<\/b> &#8211; Sim. Evidentemente, padres cat\u00f3licos e pastores protestantes que venham a se comprometer com Jesus Cristo, e a depender mais e mais <i>somente<\/i> da instru\u00e7\u00e3o das Escrituras (e n\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas e protestantes), desejar\u00e3o servir a Cristo dentro de estruturas religiosas e doutrin\u00e1rias que reflitam cada vez mais acuradamente o ensino b\u00edblico sobre culto, ora\u00e7\u00e3o, f\u00e9 e pr\u00e1tica pastoral. Neste caso, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que padres cat\u00f3licos decidam passar para igrejas que se aproximem mais do ensino das Escrituras. E certamente pastores protestantes que desejam guiar sua vida e minist\u00e9rio <i>somente<\/i> pela palavra de Deus acabar\u00e3o por perceber que h\u00e1 formas de protestantismo que contradizem o ensino das Escrituras em algumas partes, e possivelmente desejar\u00e3o (se n\u00e3o puderem reform\u00e1-las) servir a Cristo dentro de formas mais puras de igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>19. Apenas 12% dos cat\u00f3licos brasileiros s\u00e3o praticantes. Quem vai levar a Cristo a multid\u00e3o de cat\u00f3licos n\u00e3o praticantes?<\/b><\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; O grande escritor e l\u00edder cat\u00f3lico Gustavo Cor\u00e7\u00e3o dizia que no Brasil s\u00f3 havia 10% de cat\u00f3licos praticantes. Por isso, os evang\u00e9licos devem redobrar seus esfor\u00e7os para levar-lhes o genu\u00edno evangelho de Cristo Jesus.<\/p>\n<p><b>Caio F\u00e1bio d&#8217;Ara\u00fajo Filho<\/b> &#8211; Essa \u00e9 uma tarefa que est\u00e1 sendo levada a cabo por evang\u00e9licos e por cat\u00f3licos carism\u00e1ticos. E essa vai ser a \u201cbriga\u201d pelos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p><b>Dom Marcelino Correr<\/b> &#8211; A Igreja Cat\u00f3lica est\u00e1 assumindo a sua responsabilidade com rela\u00e7\u00e3o aos cat\u00f3licos n\u00e3o praticantes atrav\u00e9s de in\u00fameros meios, tais como: 1) uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o rumo ao terceiro mil\u00eanio; 2) forma\u00e7\u00e3o de agentes pastorais, visando um trabalho de evangeliza\u00e7\u00e3o das \u201cmassas afastadas\u201d; 3) multiplica\u00e7\u00e3o e revitaliza\u00e7\u00e3o das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs); 4) Revaloriza\u00e7\u00e3o da religiosidade popular; e outros meios utilizados nas diversas regi\u00f5es. Ultimamente, um meio de grande import\u00e2ncia na evangeliza\u00e7\u00e3o, e que est\u00e1 sendo utilizado em quase todas as dioceses do Brasil \u00e9 a TV Vida, atrav\u00e9s de antenas parab\u00f3licas (3.500.000), j\u00e1 com trinta repetidoras e 148 novas concess\u00f5es. Al\u00e9m das 170 emissoras cat\u00f3licas de r\u00e1dio, das quais duas cobrem todo o territ\u00f3rio nacional: a R\u00e1dio Aparecida e a R\u00e1dio Can\u00e7\u00e3o Nova.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Essa \u00e9 uma pergunta angustiante, dolorosa, cruciante, que corta o cora\u00e7\u00e3o. Esses milh\u00f5es no Brasil e no mundo, vivendo ou vegetando sem Deus, sem Cristo, sem a experi\u00eancia salv\u00edfica da genu\u00edna convers\u00e3o, desperdi\u00e7ando a vida nos enganos do mundanismo, animalizados e entregues \u00e0s sedu\u00e7\u00f5es do pecado, clamam por mensageiros que lhes levem as boas-novas da salva\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso o que n\u00f3s, evang\u00e9licos, nos propomos a fazer. Entretanto, como seria diferente, se no \u00e2mbito da Igreja Cat\u00f3lica do Brasil soprassem as auras de uma nova era de vis\u00e3o espiritual e todos, em comunh\u00e3o com Cristo, e sob ilumina\u00e7\u00e3o do Santo Esp\u00edrito, se voltassem \u00e0 verdadeira evangeliza\u00e7\u00e3o! Ent\u00e3o, ser\u00edamos uma s\u00f3 Igreja, a fiel Igreja por que Cristo deu a vida. Se outra coisa n\u00e3o podemos fazer, podemos, ao menos, orar instantemente a que venha esse despertamento. Que os anjos digam <b>am\u00e9m<\/b>.<\/p>\n<p><b>Bertil Ekstr\u00f6m<\/b> &#8211; Em parte \u00e9 responsabilidade dos cat\u00f3licos que conhecerem a Cristo como Salvador e Senhor pessoal e resolverem permanecer no meio cat\u00f3lico. Por\u00e9m, temos como Igreja Evang\u00e9lica o enorme desafio de alcan\u00e7ar os secularizados de nossa sociedade. Por isso n\u00e3o precisamos, em primeiro lugar, colocar os cat\u00f3licos praticantes como alvo de nosso trabalho, mas os secularizados, os esp\u00edritas e os de outras religi\u00f5es existentes no pa\u00eds.<\/p>\n<p><b>Nephtali Vieira J\u00fanior<\/b> &#8211; Cat\u00f3licos e protestantes crist\u00e3os praticantes t\u00eam a responsabilidade de levar cat\u00f3licos n\u00e3o praticantes e protestantes frios ao encontro de Cristo, \u201cpois n\u00e3o h\u00e1 sob o c\u00e9u outro nome dado aos homens pelo qual devemos ser salvos\u201d (At 4.12 em a B\u00edblia de Jerusal\u00e9m).<\/p>\n<p><b>Valdir Steuernagel<\/b> &#8211; A tarefa de evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de r\u00f3tulos. N\u00e3o \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o de uma determinada sigla religiosa. \u00c9 tarefa de toda a igreja. Igreja esta que est\u00e1 espalhada entre tantas diferentes igrejas. E, historicamente, se pode dizer at\u00e9 que quando uma determinada igreja n\u00e3o evangeliza mais, o Esp\u00edrito de Deus levanta outra que se disp\u00f5e a faz\u00ea-lo. A multid\u00e3o de brasileiros que n\u00e3o conhecem o Evangelho deve, pois ser evangelizada por aqueles que, tendo conhecido esse mesmo Evangelho, sentem-se desafiados a transmit\u00ed-lo e viv\u00ea-lo, por assim dizer, em tempo e fora de tempo. O mandato de evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o obedece a crit\u00e9rios de mercado. Ou seja, o fato de vivermos num pa\u00eds de mem\u00f3ria cat\u00f3lica n\u00e3o significa nem que este povo de mem\u00f3ria esteja evangelizado e nem que ele j\u00e1 n\u00e3o precise ser evangelizado. Ali\u00e1s, a tarefa evangelizadora nunca acaba. Ela precisa ser uma tarefa cont\u00ednua da igreja. Cada nova gera\u00e7\u00e3o, por exemplo, precisa do seu pr\u00f3prio encontro com a evangeliza\u00e7\u00e3o. Com essa afirma\u00e7\u00e3o, eu estou dizendo duas coisas: 1) A Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o tem o direito de acusar as Igrejas Evang\u00e9licas de estarem \u201croubando\u201d os seus membros, quando estes n\u00e3o t\u00eam a consci\u00eancia e a experi\u00eancia de serem membros de um corpo que, para eles se chame de igreja. 2) E nem os evang\u00e9licos t\u00eam a voca\u00e7\u00e3o para \u201croubar\u201d da Igreja Cat\u00f3lica aquelas pessoas que t\u00eam consci\u00eancia de terem sido vocacionadas por Deus para a tarefa evangelizadora em meio e a partir do seu pr\u00f3prio contexto, por mais dif\u00edcil que isso possa parecer, em determinadas situa\u00e7\u00f5es. A evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 coisa de Deus. Coisa que Deus confia a pessoas como n\u00f3s. Pessoas que precisam e tendem a institucionalizarmos caminhos da confian\u00e7a evangelizadora que Deus nos confiou. E pessoas que tendem a esquecer-se deste ato de confian\u00e7a e come\u00e7am a se preocupar, prioritariamente, com a sobreviv\u00eancia de sua pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o. Mas, como Deus \u00e9 livre para cumprir com o desejo do seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, ele bate a qualquer porta de sua escolha, confiando a quem queira ouvir e ver o privil\u00e9gio de \u201cproclamar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz\u201d (1 Pe 2.10).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>20. H\u00e1 movimentos dentro da Igreja Cat\u00f3lica brasileira esfor\u00e7ando-se pela pr\u00e1tica de um cristianismo aut\u00eantico?<\/b><\/p>\n<p><b>Eben\u00e9zer Soares Ferreira<\/b> &#8211; Sim. Tenho sentido que tem havido grandes esfor\u00e7os por parte de alguns para deixar para tr\u00e1s o grande n\u00famero de inova\u00e7\u00f5es, impurezas, que se lhes apegaram, durante os s\u00e9culos, com o prop\u00f3sito de voltar \u00e0s origens b\u00edblicas.<\/p>\n<p><strong>Caio F\u00e1bio d&#8217;Ara\u00fajo Filho<\/strong> &#8211; Sim, os cat\u00f3licos carism\u00e1ticos por um lado, e, por outro lado, a seu jeito, uma ala libertacionista.<\/p>\n<p><b>Valdyr Carvalho Luz<\/b> &#8211; Certamente os h\u00e1, mas, at\u00e9 onde sei, n\u00e3o assumem propor\u00e7\u00f5es not\u00f3rias, o que \u00e9 muito de lamentar-se.<\/p>\n<p><b>Alan Pieratt<\/b> &#8211; Nunca tive muito contato com o catolicismo praticado no Brasil, nem com os movimentos de renova\u00e7\u00e3o que est\u00e3o despontando hoje. Mas estudei muito os pais cat\u00f3licos da Igreja (Agostinho, Anselmo, Aquino e outros) e, como muitos outros te\u00f3logos protestantes, beneficiei-me grandemente com as obras deles. Esses te\u00f3logos iluminam para n\u00f3s, de modo profundo, a natureza e a obra maravilhosa de Cristo. Somente posso dizer que, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que esses movimentos de renova\u00e7\u00e3o seguirem os ensinos dos te\u00f3logos cat\u00f3licos cl\u00e1ssicos, acredito serem aut\u00eanticos e plenamente crist\u00e3os. Por outro lado, o problemas que n\u00f3s protestantes temos com as institui\u00e7\u00f5es e com os movimentos cat\u00f3licos \u00e9 que eles carregam nos ombros o peso acumulado de vinte s\u00e9culos. Desde a \u00e9poca de Cristo, a Igreja Cat\u00f3lica recusa-se a se reformar e, assim, acumulou uma enorme quantidade de doutrinas, pr\u00e1ticas, costumes e institui\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias e in\u00fateis. Assim, mesmo ao se renovarem, os grupos cat\u00f3licos carregam um peso lament\u00e1vel de ensinos distorcidos.<\/p>\n<p><b>Dom Marcelino Correr<\/b> &#8211; Sem d\u00favida, in\u00fameros s\u00e3o na Igreja Cat\u00f3lica brasileira os Movimentos e as Pastorais que promovem a pr\u00e1tica de um cristianismo aut\u00eantico, principalmente nas periferias, entre os exclu\u00eddos. Pelo Brasil afora as Pastorais (da Fam\u00edlia, da Juventude, C.P.T., Sociais) conscientizam os participantes a respeito de um testemunho crist\u00e3o. Cursos b\u00edblicos, catequese em todos os n\u00edveis, encontros de liturgia e Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) visam formar l\u00edderes para atuar nas massas afastadas. Al\u00e9m disso, aumenta em toda parte o n\u00famero de movimentos de espiritualidade que levam os participantes a assumirem seu compromisso mission\u00e1rio. Assim tempos grupos de Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica Cat\u00f3lica (RCC), grupos de catecumenato, Legi\u00e3o de Maria, Movimento dos Focolares e outros mais tradicionais. Voltam, al\u00e9m disso, as miss\u00f5es populares que arrebanham os mais afastados com os quais realizamos um trabalho cont\u00ednuo de evangeliza\u00e7\u00e3o depois das miss\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Bertil Ekstr\u00f6m<\/strong> &#8211; Vejo partes da Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica Cat\u00f3lica no Brasil indo por este caminho. Quest\u00f5es centrais do Evangelho, como justi\u00e7a e paz, tamb\u00e9m s\u00e3o enfatizadas pelas Comunidades Eclesiais de Base.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>21. A Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica Cat\u00f3lica \u00e9 obra do Esp\u00edrito Santo?<\/b><\/p>\n<p><b>Alan Pieratt<\/b> &#8211; N\u00e3o vejo nenhuma raz\u00e3o para n\u00e3o crer que o Esp\u00edrito encheria um cat\u00f3lico t\u00e3o prontamente quanto um protestante. Somos salvos pela gra\u00e7a, n\u00e3o pela precis\u00e3o doutrin\u00e1ria. Qualquer pessoa que pense o contr\u00e1rio n\u00e3o entendeu bem a natureza de nossa salva\u00e7\u00e3o, que se d\u00e1 <b>sola gratia<\/b>.<\/p>\n<p><b>Robinson Cavalcanti<\/b> &#8211; A obra do Esp\u00edrito Santo \u00e9 sobre o conjunto da Igreja, povo de Deus na segunda Alian\u00e7a. Em cada epis\u00f3dio ou movimento em que o Esp\u00edrito esteja presente, permanece, simultaneamente, a obra da carne e a tenta\u00e7\u00e3o demon\u00edaca. H\u00e1 que discernir com o tempo e pelos frutos. Muitos ex-cat\u00f3licos carism\u00e1ticos t\u00eam se tornado protestantes. Positivamente, na Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica Cat\u00f3lica, registramos o louvor, o estudo b\u00edblico e a santifica\u00e7\u00e3o. E, negativamente, uma certa aliena\u00e7\u00e3o conservadora s\u00f3cio-pol\u00edtica e a perman\u00eancia de cren\u00e7as e doutrinas da tradi\u00e7\u00e3o romana (papado, marianismo, etc).<\/p>\n<p><b>Ricardo Barbosa<\/b> &#8211; Houve um tempo em que responder a uma pergunta como esta era razoavelmente simples. Hoje n\u00e3o \u00e9 mais. Da mesma forma como n\u00e3o \u00e9 simples afirmar se algumas igrejas evang\u00e9licas \u201cneo-pentecostais\u201d s\u00e3o ou n\u00e3o uma obra do Esp\u00edrito. Acredito que a Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica Cat\u00f3lica \u00e9 uma obra do Esp\u00edrito Santo na medida em que promove dentro da igreja uma renova\u00e7\u00e3o na devo\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o pessoal com Deus na media\u00e7\u00e3o de seu Filho Jesus Cristo, e um resgate da centralidade da Palavra de Deus como fundamento para a f\u00e9 e miss\u00e3o. Isto tenho percebido no testemunho de alguns cat\u00f3licos carism\u00e1ticos que conhe\u00e7o pessoalmente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Publicado originalmente\u00a0em 1996 na revista Ultimato 241.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nO t\u00edtulo desta mat\u00e9ria \u00e9 grande demais. Parece com os t\u00edtulos que os autores do s\u00e9culo XVI davam aos seus livros. Mas ele \u00e9 leg\u00edtimo e oportuno. N\u00e3o h\u00e1 como levantar a voz contra a supremacia do Reino de Deus sobre as tr\u00eas principais express\u00f5es do cristianismo mundial.<br \/>\nO presente [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[9536],"tags":[5953],"class_list":["post-5175","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-do-editor","tag-revista-ultimato"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5175","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5175"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5175\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5298,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5175\/revisions\/5298"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5175"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5175"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5175"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}