{"id":2768,"date":"2011-09-09T10:00:44","date_gmt":"2011-09-09T13:00:44","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=2768"},"modified":"2011-09-09T10:17:25","modified_gmt":"2011-09-09T13:17:25","slug":"contemplacoes-de-esperanca-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2011\/09\/09\/contemplacoes-de-esperanca-2\/","title":{"rendered":"Contempla\u00e7\u00f5es de esperan\u00e7a 2"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Esperan\u00e7ar \u00e9 ver a terra ser machucada  pela chuva, mas saber que s\u00e3o aquelas mesmas gotas que lhe revelam os  seus maiores tesouros e brilhos, e que lhe deixam limpa. Esperan\u00e7ar \u00e9  ver o lavrador entregar seu bem mais preciso \u00e0 morte: suas sementes.  Sabe ele que reter tal bem o privaria de tesouros maiores numa futura  colheita. Esperan\u00e7ar \u00e9 ser um sonhador que entrega seu sonho. Pois, do  sonho que n\u00e3o se entrega, do sonho que n\u00e3o se abandona, que n\u00e3o se doa \u00e0  terra e \u00e0s circunst\u00e2ncias e intemp\u00e9ries da vida, n\u00e3o se conhecer\u00e3o seus  frutos. O sonho n\u00e3o entregue \u00e0 morte, tal qual a semente do lavrador,  n\u00e3o gera viva realidade.<!--more--><\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Esperan\u00e7ar \u00e9 crer firmemente que o  tempo n\u00e3o cura nada. Esperan\u00e7ar \u00e9 crer que a cura vem do escorrer da  vida que nos p\u00f5e cara a cara com novos desafios, novos rumos, novos  problemas, novas paix\u00f5es, novos \u00f3dios, novos tra\u00e7ados e diferentes cores  que nos fazem ver que os velhos problemas s\u00e3o apenas uma parte de n\u00f3s,  um verso sem rima em meio a tantos outros versos ritmados, aleg\u00f3ricos,  assonantes, belos, intensos. Esperan\u00e7ar \u00e9 permitir que o nosso cora\u00e7\u00e3o  cres\u00e7a em diferentes dire\u00e7\u00f5es e ardentemente de modo que os problemas de  outrora v\u00e3o sendo fagocitados pelas novas venturas da alma.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Esperan\u00e7ar  \u00e9 conseguir romper a barreira do \u201cser\u201d v\u00edtima e perceber que \u00e9 preciso  tirar a dor do isolamento individualista, m\u00e9trico e ritmado. Esperan\u00e7ar \u00e9  entender que n\u00f3s, sujeitos e co-autores da nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria,  somos maiores que a nossas dores e cicatrizes. Esperan\u00e7ar \u00e9 saber que a  dor \u00e9 minha, e n\u00e3o eu dela. Esperan\u00e7ar \u00e9 entender e viver a verdade de  que a dor n\u00e3o constitui o centro do universo, e isso implica reconhecer e  aceitar que o mundo n\u00e3o p\u00e1ra um momento para me assistir e me velar.  Esperan\u00e7ar \u00e9 acreditar que a vida prossegue e \u00e9 preciso desprender-se de  si mesmo e olhar em volta, e ver o nu, o cansado, o abatido, o  desabrigado, o desesperan\u00e7ado que precisa de alento. Esperan\u00e7ar \u00e9  doar-se.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Esperan\u00e7ar \u00e9 conseguir perdoar a quem mais nos  feriu, e, ao mesmo tempo, ser honesto com o nosso cora\u00e7\u00e3o e permitir-se  chorar. O choro da esperan\u00e7a \u00e9 aquele da dor, o inevit\u00e1vel. O choro do  sofrimento, por\u00e9m, que traz ang\u00fastia, pois esse \u00e9 opcional de quem o  carrega. Esperan\u00e7ar \u00e9 ainda conseguir ir mais longe ao ser capaz de ser  grato pelos ferimentos sofridos, n\u00e3o num sentimento masoquista, mas num  sentimento de conforma\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o. Conforma\u00e7\u00e3o com a verdade de  que em nossas vidas algumas pessoas foram como uma lixa dura que lapidou  a nossa pedra. Contempla\u00e7\u00e3o pela beleza daqueles que foram o pano macio  que poliu essa mesma pedra, e que por diversas outras vezes foram a  \u00e1gua que lavou e revelou-lhe o brilho. Esperan\u00e7ar \u00e9 agradecer \u00e0 quem foi  nosso esteio e porto seguro nos momentos em que a nossa pedra caiu e  quebrou-se no ch\u00e3o, e algu\u00e9m, pacientemente, tomou cada peda\u00e7o e  ajudou-nos a ser um lindo mosaico multifacetado de pedras que v\u00e3o se  quebrando e se achando no caminho da vida.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Esperan\u00e7ar \u00e9  assumir ter errado muitas vezes. Esperan\u00e7ar \u00e9 tentar sempre reparar  aquilo que se fez de errado. Esperan\u00e7ar \u00e9 ser capaz de pedir perd\u00e3o  \u00e0quele contra quem erramos. Esperan\u00e7ar \u00e9 saber que h\u00e1 alguns erros cujos  desdobramentos s\u00e3o revers\u00edveis, reconcili\u00e1veis, rebobin\u00e1veis, passiveis  de corre\u00e7\u00e3o. Esperan\u00e7ar \u00e9 tamb\u00e9m compreender e aceitar que h\u00e1 outros  erros que a vida se encarrega de impermeabiliz\u00e1-los, de sel\u00e1-los com o  verniz do \u201cirretoc\u00e1vel\u201d, e de cingi-los de um car\u00e1ter inoxid\u00e1vel e  inating\u00edvel. Esperan\u00e7ar \u00e9, sobretudo, perdoar-se. Esperan\u00e7ar \u00e9 n\u00e3o  consumir-se em culpa. Esperan\u00e7ar \u00e9 ter a serenidade para aprender a  conviver e a enfrentar e a elaborar, sem murmura\u00e7\u00f5es, comisera\u00e7\u00f5es,  auto-enganos e auto-piedades, as conseq\u00fc\u00eancias das decis\u00f5es erradas que  tomamos, dos caminhos tortuosos e dos atalhos f\u00e1ceis por onde andamos, e  das sementes erradas que plantamos.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Esperan\u00e7ar \u00e9 limpar o  cora\u00e7\u00e3o que vai se empoeirando na estrada da vida e ver e sentir na  janela da alma o vento que sussurra. Esperan\u00e7ar \u00e9 ver, j\u00e1 com o cora\u00e7\u00e3o  limpo, a lua minguante pregui\u00e7osa de sono que se esconde detr\u00e1s dos seus  travesseiros de nuvens. Esperan\u00e7ar \u00e9 crer que, tal como o minguar deste  boi\u00e3o de leite n\u00e3o \u00e9 para sempre e logo logo estar\u00e1 cheia, tampouco os  temporais s\u00e3o eternos. Esperan\u00e7ar \u00e9 ver a madrugada, mas saber que o dia  logo vem.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Esperan\u00e7ar \u00e9, sobretudo, render-se. Render-se  ao pianista e reconhecer-se apenas instrumento. Render-se \u00e0quele que tem  em suas m\u00e3os a partitura de cada uma das nossas vidas. Render-se \u00e0quele  que dedilha as nossas almas na calma de um pian\u00edssimo, ou na braveza de  um mezzo-forte oufort\u00edssimo. Render-se \u00e0quele que comunica \u00e0s teclas do  piano na demora ou na rapidez de umasemibreve ou quartifusa. Render-se  \u00e0quele que \u00e0s vezes se demora numa fermata ou se cala no sil\u00eancio de uma  cesura, mas que faz toda a orquestra cooperar para o bem de um s\u00f3  compasso das nossas vidas.<\/p><\/blockquote>\n<p>__________<\/p>\n<p><strong>\u00c1quila Mazzinghy <\/strong>\u00e9 ex-assistente editorial da Ultimato. \u00c9 professor de Direito Internacional e Direitos Humanos em S\u00e3o Paulo, Belo Horizonte e Porto Velho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esperan\u00e7ar \u00e9 ver a terra ser machucada  pela chuva, mas saber que s\u00e3o aquelas mesmas gotas que lhe revelam os  seus maiores tesouros e brilhos, e que lhe deixam limpa. Esperan\u00e7ar \u00e9  ver o lavrador entregar seu bem mais preciso \u00e0 morte: suas sementes.  Sabe ele que reter tal bem o [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5153],"tags":[],"class_list":["post-2768","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-prateleira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2768"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2768\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2785,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2768\/revisions\/2785"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}