{"id":2767,"date":"2011-09-08T15:00:19","date_gmt":"2011-09-08T18:00:19","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=2767"},"modified":"2011-09-09T10:17:01","modified_gmt":"2011-09-09T13:17:01","slug":"contemplacoes-de-esperanca-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2011\/09\/08\/contemplacoes-de-esperanca-1\/","title":{"rendered":"Contempla\u00e7\u00f5es de esperan\u00e7a 1"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2011\/09\/08_09_orquideas_blogULT.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-2767\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\" data-lightview-title=\"Foto: Pabline Felix\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2769\" title=\"Foto: Pabline Felix\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2011\/09\/08_09_orquideas_blogULT.jpg\" alt=\"\" width=\"336\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2011\/09\/08_09_orquideas_blogULT.jpg 336w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2011\/09\/08_09_orquideas_blogULT-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2011\/09\/08_09_orquideas_blogULT-150x100.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2011\/09\/08_09_orquideas_blogULT.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-2767\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><\/a>N\u00e3o que eu tenha j\u00e1 encontrado a chave dos sonhos, mas a vida vai ensinando que sem espera n\u00e3o h\u00e1 felicidade que se encontre, bem que se ache, valor que dure, significado com significante. A espera \u00e9 esta linha de a\u00e7o que vai costurando os retalhos do caminho e fazendo da vida um artesanato, e de n\u00f3s, aprendizes de artes\u00e3o. A espera nos convida \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o dos moinhos. Entra \u00e1gua, bate o pil\u00e3o, m\u00f3i o milho, faz-se o mingau, e s\u00f3 ent\u00e3o nutre-se a alma. Muita \u00e1gua quebra o pil\u00e3o e n\u00e3o se faz a maisena. Pouca \u00e1gua anestesia o pil\u00e3o, anestesia a vida, pois n\u00e3o h\u00e1 p\u00e3o. Espera \u00e9 const\u00e2ncia, nem muito, nem pouco.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Espera \u00e9 contemplar as galinhas no terreiro. Galinha \u201cbotadeira\u201d p\u00f5e seus ovos cuidadosamente em seu ninho, dia ap\u00f3s dia. Depois, exila-se de tudo por 21 dias. 21 dias sem comida, sem bebida, sem as amigas do \u201cpuleiro\u201d. 21 dias de prote\u00e7\u00e3o constante aos seus bens mais preciosos. 21 dias de calor terno. 21 dias que separam meras clara e gema de uma vida aut\u00f4noma. Contemplar galinhas \u201cbotadeiras\u201d \u00e9 aprender const\u00e2ncia, paci\u00eancia, ren\u00fancia, prote\u00e7\u00e3o. O sonho n\u00e3o se faz na agita\u00e7\u00e3o e no barulho de um galinheiro. Contemplar galinhas nos faz ver que \u00e9 a const\u00e2ncia do calor da m\u00e3e, nem muito nem pouco, que gera os pintinhos. Quando eu era crian\u00e7a, roubei um ovo de um ninho e o coloquei dentro do forno ligado do fog\u00e3o. N\u00e3o deu certo. O ovo cozinhou. Muito calor mata a vida. Pouco calor n\u00e3o gera a vida que sonhamos. O que vai gerando a vida n\u00e3o \u00e9 a pressa, mas o suor do dia-a-dia, a ren\u00fancia de estar entre amigos, de sentar-se sozinho e chorar, de sentar-se sozinho e estudar e trabalhar, a ren\u00fancia do imediato, a ren\u00fancia dos holofotes, a prote\u00e7\u00e3o dos sonhos contra chuva, vento e calor, contra inveja, gan\u00e2ncia e competi\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A espera nos ensina a desconfiar de muito barulho. Milh\u00f5es de \u00e1rvores crescendo n\u00e3o emitem som algum. Uma s\u00f3 \u00e1rvore caindo pode-se ouvir de longe. A espera \u00e9 que, no final, mostra que as muitas palavras e pirotecnias de algu\u00e9m n\u00e3o passavam de barulho de um motosserra.<!--more--><\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A espera e o escorrer da vida separam colegas de amigos. O tempo separa os amigos daqueles que s\u00e3o uma s\u00f3 alma vivendo em corpos separados. No final, descobre-se que estamos cercados de muitos colegas, poucos amigos, e rar\u00edssimos amigos de alma. No viver da vida podemos nos ferir, mas podemos tamb\u00e9m ser a cura.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Espera \u00e9 ter ovos, trigo, a\u00e7\u00facar, sal, \u00f3leo e fermento \u00e0 m\u00e3o e n\u00e3o poder comer o p\u00e3o agora, simplesmente porque o fermento ainda n\u00e3o levedou a massa e a lenha ainda n\u00e3o est\u00e1 quente o suficiente. Para certas coisas, o tempo parece n\u00e3o passar. \u00c0s vezes, d\u00e1 vontade de comer p\u00e3o asmo (mats\u00e1).<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Espera \u00e9 viver feliz enquanto o p\u00e3o n\u00e3o fermenta e aproveitar para limpar a casa, esvaziar as gavetas de coisas antigas e sem mais import\u00e2ncia, abrir as janelas, colocar o lixo para fora, trocar os panos-de-prato da cozinha, regar as plantinhas do jardim da sacada, levantar o sof\u00e1 e tirar os ciscos debaixo, trocar as fotos dos pain\u00e9is, ler uma p\u00e1gina de um livro bom, tagarelar com o vizinho de janela, parar um segundo para contemplar o aguaceiro que cai l\u00e1 fora e v\u00ea-lo arrancar da terra o &#8220;cheiro de chuva&#8221;. O mesmo cheiro que revelar\u00e1 o novo broto da samambaia j\u00e1 dada por quase morta.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A espera vai virando esperan\u00e7a e esperar vai virando  esperan\u00e7ar.  Quando nos dermos conta, o p\u00e3o ter\u00e1 crescido, ter\u00e1 sido  assado e o  poderemos saborear com a casa limpa, a janela limpa, o ch\u00e3o  limpo, com a  chuva chovendo, as samambaias brotando&#8230;<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Esperan\u00e7ar \u00e9  ver novos dias em cor, inda que a matiz \u00e0  frente se nos afigure como  cinza. Esperan\u00e7a \u00e9 quando faz-se can\u00e7\u00e3o no  sil\u00eancio. Esperan\u00e7a \u00e9 ver,  inesperadamente, paz em meio \u00e0s nossas  guerras e ver o c\u00e9u, como um  p\u00e1lio aberto, se encher de estrelas.  Esperan\u00e7a \u00e9 transbordar em meio \u00e0s  contrariedades e render-se \u00e0 doce  poesia da vida que nos ensina que at\u00e9  mesmo o sal ressalta-lhe o sabor.  Esperan\u00e7a \u00e9 ver at\u00e9 mesmo nas linhas  n\u00e3o escritas da nossa vida um  motivo para agradecer e recome\u00e7ar.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Esperan\u00e7ar  \u00e9 aprender a conjugar a esperan\u00e7a: Eu  esperan\u00e7o. Tu esperan\u00e7as. Ele  esperan\u00e7a. N\u00f3s esperan\u00e7amos. V\u00f3s  esperan\u00e7ais. Eles esperan\u00e7am.  Esperan\u00e7ar \u00e9 esse verbo intransitivo,  que, como tal, independe de  objeto. Esperan\u00e7ar \u00e9 ser imperme\u00e1vel \u00e0s  vicissitudes e revezes da vida.  Quem \u201cesperan\u00e7a\u201d, nunca \u201cesperan\u00e7a\u201d num  objeto, pois quem \u201cesperan\u00e7a\u201d  nisso, na verdade, n\u00e3o \u201cesperan\u00e7a\u201d,  apenas \u201cespera\u201d. A \u201cespera\u201d, por\u00e9m, \u00e9  perme\u00e1vel \u00e0s ondas altas e mar\u00e9s  intempestivas.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A  esperan\u00e7a nos faz fortes, ainda que fracos;  enxergando, ainda que cegos;  ouvindo a m\u00fasica da vida, ainda que  surdos; crendo, ainda que n\u00e3o  querendo crer&#8230; Esperan\u00e7a que incomoda  como um zumbido ou como aquele  mosquitinho chato que lhe perturba pela  manh\u00e3, quando j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais  motivos aparentes para levantar da cama e  abrir as janelas do quarto e  da alma. Esperan\u00e7ar \u00e9 querer e decidir  recome\u00e7ar, ainda que tudo em  volta mostre suas contrariedades.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Dizem que \u201cquem acredita  sempre alcan\u00e7a\u201d. Pode at\u00e9 ser,  mas quem \u201cesperan\u00e7a\u201d n\u00e3o se desespera,  mesmo quando n\u00e3o alcan\u00e7a. Quem  \u201cesperan\u00e7a\u201d avan\u00e7a, mesmo quando n\u00e3o h\u00e1  mais confian\u00e7a.<\/p><\/blockquote>\n<p>__________<\/p>\n<p><strong>\u00c1quila Mazzinghy <\/strong>\u00e9 ex-assistente editorial da Ultimato. \u00c9 professor de Direito Internacional e Direitos Humanos em S\u00e3o Paulo, Belo Horizonte e Porto Velho<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o que eu tenha j\u00e1 encontrado a chave dos sonhos, mas a vida vai ensinando que sem espera n\u00e3o h\u00e1 felicidade que se encontre, bem que se ache, valor que dure, significado com significante. A espera \u00e9 esta linha de a\u00e7o que vai costurando os retalhos do caminho e fazendo da vida um artesanato, e [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5153],"tags":[],"class_list":["post-2767","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-prateleira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2767","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2767"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2767\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2784,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2767\/revisions\/2784"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}