{"id":2698,"date":"2011-08-11T11:54:15","date_gmt":"2011-08-11T14:54:15","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=2698"},"modified":"2011-08-11T11:54:15","modified_gmt":"2011-08-11T14:54:15","slug":"tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2011\/08\/11\/tempo\/","title":{"rendered":"Tempo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2011\/08\/11_08_dias_contagem1.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-2698\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2700\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2011\/08\/11_08_dias_contagem1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"160\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2011\/08\/11_08_dias_contagem1-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2011\/08\/11_08_dias_contagem1-150x100.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/2011\/08\/11_08_dias_contagem1.jpg 396w\" sizes=\"auto, (max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a>O\u00a0bem mais valioso de nossa \u00e9poca n\u00e3o \u00e9 o diamante nem o petr\u00f3leo, a f\u00f3rmula da Coca-cola ou o sorriso da Natalie Portman: \u00e9 o <strong>tempo<\/strong>. Obedecendo \u00e0 lei da oferta e da procura, quanto mais escasso ele fica, mais caro nos \u00e9. A seca temporal \u00e9 geral e irrestrita, t\u00e3o democr\u00e1tica quanto a calv\u00edcie, a saudade e a morte: eu n\u00e3o tenho tempo, voc\u00ea n\u00e3o tem tempo, o Eike Batista n\u00e3o tem tempo, o cara que est\u00e1 vendendo bala no farol, em ag\u00f4nica marcha atl\u00e9tica para recolher os saquinhos dos retrovisores, antes que abra o sinal, tamb\u00e9m n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Como voc\u00eas devem saber, o principal sintoma desta doen\u00e7a cr\u00f4nica \u2013 sem trocadilho \u2013 \u00e9 a ansiedade. Toda manh\u00e3, flagro-me aflito, escovando os dentes, com pressa. Vejo-me batendo os p\u00e9s no hall, enquanto o elevador n\u00e3o chega. At\u00e9 o segundo que o cursor do celular leva para piscar, num SMS, permitindo-me digitar outra letra da mesma tecla, deixa-me exasperado.<!--more--><\/p>\n<p>Antigamente, n\u00e3o era assim. Na minha inf\u00e2ncia, os dias tinham trinta horas, alguns chegando mesmo a quarenta, se bem me lembro. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 que eu fa\u00e7a hoje mais coisas do que antes. J\u00e1 pensei nisso, mas veja s\u00f3 quantas obriga\u00e7\u00f5es eu tinha no passado: cinco horas na escola, li\u00e7\u00e3o de casa, ingl\u00eas, bateria, nata\u00e7\u00e3o, jantar com os pais, toda noite, sem contar os s\u00e9culos ao vivo ou ao telefone tentando convencer alguma menina a beijar-me na boca&#8230; E, mesmo assim, ainda sobravam infinitos latif\u00fandios improdutivos, imposs\u00edveis de se ocupar, por mais que assistisse televis\u00e3o, tirasse cochilos vespertinos, lesse livros, fosse \u00e0s casas dos amigos jogar videogame, falar mal dos outros ou simplesmente juntar nossos t\u00e9dios, olhar as paredes e escutar o tic-tac dos rel\u00f3gios.<\/p>\n<p>Das duas, uma: ou as horas eram mais abundantes do que hoje, ou, ent\u00e3o, tinham uma incr\u00edvel capacidade regenerativa, que perderam. A cada duas ou tr\u00eas horas mortas, uma nova hora nascia, fresquinha, como as c\u00e9lulas de uma pele jovem.<\/p>\n<p>Acho que foi l\u00e1 pelo ano dois mil que o dia come\u00e7ou a encolher, chegando a essas m\u00edseras vinte quatro horas \u2013 com sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de dezesseis. Talvez tenha sido esse o verdadeiro bug do mil\u00eanio: na virada de noventa e nove para o zero zero, todos os ponteiros, vendo-se livres do velho mil\u00eanio e admirando o vazio que se abria adiante, como um ret\u00e3o num circuito de f\u00f3rmula um, resolveram meter os p\u00e9s no acelerador, de modo que acabamos assim, espremidos entre prazeres e obriga\u00e7\u00f5es, aflitos, escovando os dentes com pressa, andando em c\u00edrculos, no hall do elevador.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que a culpa \u00e9 da melhora das comunica\u00e7\u00f5es e, consequentemente, do envio de dados. Com a informa\u00e7\u00e3o viajando t\u00e3o r\u00e1pido, desaprendemos a arte da espera. Antigamente, aguardar era normal. Est\u00e1vamos sempre esperando alguma coisa chegar. Uma carta, pelo correio. Um disco, do exterior. Uma foto, um texto ou um documento, via portador. Esses hiatos eram tidos como normais, uma brecha saud\u00e1vel, pausa para o cigarro ou o caf\u00e9, a prosa, a leitura de uma revista, o devaneio, a conversa na janela, a morte de bezerra. Hoje, n\u00e3o. T\u00e1 tudo aqui, e, se n\u00e3o est\u00e1, nos afligimos. Queremos o p\u00e1ssaro na m\u00e3o <strong><em>E <\/em><\/strong>os dois voando. Por que \u00e9 que ainda n\u00e3o trouxeram esses dois que t\u00e3o no c\u00e9u, diabo?! J\u00e1 n\u00e3o era melhor ter pego logo os tr\u00eas, de uma vez, otimizando custos e esfor\u00e7os?<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o descobrimos a cura para este mal, a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 aprender a lidar com ele. H\u00e1 que cercar com muros altos certas horas do rel\u00f3gio, para que nada as possa roubar de n\u00f3s. Fazer diques de pedra em torno da hora de ficar com nosso amor, da hora de trabalhar no projeto pessoal, da hora do esporte, de ler um livro, encontrar um amigo. Mesmo assim, vira e mexe, v\u00eam as obriga\u00e7\u00f5es, como um tsunami, ou os eventos sociais, como meteoros, e derrubam as barragens. N\u00e3o h\u00e1 nada a fazer, sen\u00e3o reconstruir os muros, ainda mais fortes do que antes.<\/p>\n<p>Voc\u00ea sente a mesma coisa, ou sou s\u00f3 eu? Talvez seja s\u00f3 eu. Quem sabe, numa manh\u00e3 de ter\u00e7a-feira, l\u00e1 por 1998, eu tenha perdido a hora, para nunca mais a encontr\u00e1-la? Ficarei assim, trinta minutos atr\u00e1s do resto do mundo, tentando alcan\u00e7\u00e1-lo, ininterruptamente, como quem corre atr\u00e1s de um trem, at\u00e9 o fim dos tempos. Ser\u00e1 que foi isso?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>[Texto publicado originalmente na revista <a href=\"http:\/\/wishreport.com.br\/\" target=\"_blank\">Wish<\/a> e republicado no <a href=\"http:\/\/antonioprata.folha.blog.uol.com.br\/arch2011-08-07_2011-08-13.html#2011_08-10_04_33_19-159487429-0\" target=\"_blank\">blog do autor<\/a>]<\/em><\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Prata<\/strong> \u00e9 escritor e colunista da Folha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O\u00a0bem mais valioso de nossa \u00e9poca n\u00e3o \u00e9 o diamante nem o petr\u00f3leo, a f\u00f3rmula da Coca-cola ou o sorriso da Natalie Portman: \u00e9 o tempo. Obedecendo \u00e0 lei da oferta e da procura, quanto mais escasso ele fica, mais caro nos \u00e9. 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