{"id":2310,"date":"2011-02-07T13:02:54","date_gmt":"2011-02-07T16:02:54","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=2310"},"modified":"2011-02-07T13:02:54","modified_gmt":"2011-02-07T16:02:54","slug":"oitenta-bujoes-de-gas-e-setenta-corpos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2011\/02\/07\/oitenta-bujoes-de-gas-e-setenta-corpos\/","title":{"rendered":"Oitenta buj\u00f5es de g\u00e1s e setenta corpos"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #808000;\">Por D\u00e9lnia Bastos<\/span><br \/>\nMeia-noite. Depois de jantar na casa de um primo, no centro da cidade, J\u00fania e seu filho de 18 anos voltam para casa. Debaixo de chuva.<br \/>\nA casa n\u00e3o \u00e9 deles \u2013 est\u00e3o passando f\u00e9rias na casa da irm\u00e3 e cunhado no bairro de Conselheiro Paulino, em Nova Friburgo, RJ. A fam\u00edlia viajou e deixou a casa com J\u00fania, seu esposo e seu filho.<br \/>\nJ\u00fania tenta dormir, mas n\u00e3o consegue. \u00c0s 2 horas da manh\u00e3 a chuva fica forte.<!--more--><\/p>\n<p>Quando parece que uma grossa nuvem acabou de descarregar tudo o que tinha, outra nuvem come\u00e7a a jorrar \u2013 e assim, repetidamente. Madrugada adentro. L\u00e1 pelas 4 da manh\u00e3, a luz vai embora \u2013 e por muitos dias (o que ningu\u00e9m poderia prever, naquele momento). Escurid\u00e3o. Falta o sono. Preocupa\u00e7\u00e3o: \u201cTanta \u00e1gua, meu Pai!\u201d<br \/>\nA\u00ed come\u00e7am os gritos. \u201cDe onde ser\u00e1 que eles v\u00eam? T\u00e1 t\u00e3o escuro&#8230; Parece que tem gente pedindo socorro. Nossa&#8230; Outro estrondo! Quanta trovoada! E que breu&#8230;\u201d<br \/>\nNascem os primeiros raios de sol mais ou menos \u00e0s 5 da manh\u00e3 daquele dia que J\u00fania jamais vai esquecer \u2013 12 de janeiro de 2011 (seria o 11 de setembro brasileiro, em termos de trag\u00e9dia?). A casa onde est\u00e1 fica no segundo andar e possui algo como um varand\u00e3o (lugar de se alegrar com a fam\u00edlia, nas festinhas e churrascos que fizemos por ali&#8230;). Ela vai at\u00e9 a mureta pra ver a rua. N\u00e3o acredita no que v\u00ea. O rio, antes distante e baixo, agora est\u00e1 largu\u00edssimo, barrento, alto. Uma correnteza, na verdade. At\u00f4nita, ela v\u00ea corpos humanos, buj\u00f5es de g\u00e1s, m\u00f3veis, geladeiras (ou parte delas) \u2013 tudo sendo arrastado violentamente correnteza abaixo. Correnteza que n\u00e3o existia! Embaixo da casa, na cal\u00e7ada, um formigueiro de gente em frente \u00e0 igreja \u2013 igreja ainda \u00e9 refer\u00eancia de ajuda, de porto seguro. Est\u00e3o desesperados, batendo na porta&#8230;<br \/>\nDepois do susto da vis\u00e3o na varanda da casa pastoral, ela desce e abre as portas da igreja. Gente ferida. Fraturas expostas. Hospital? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Um grande rio (agora) os separa de qualquer acesso aos hospitais da cidade.<br \/>\nJ\u00fania n\u00e3o sabe explicar de onde veio, mas, de repente, ali est\u00e1: uma enfermeira! \u201cOu seria um anjo? E que experi\u00eancia ela parece ter!\u201d Rapidamente come\u00e7a a atender os feridos, um atr\u00e1s do outro. \u201cAtadura!\u201d \u201cGaze!\u201d \u201cRifocina!\u201d J\u00fania perambula pela vizinhan\u00e7a, ecoando os gritos da enfermeira. A solidariedade \u00e9 grande e a nova e desconhecida dupla atende muita gente, por horas. Homens ajudam a carregar outros feridos.<br \/>\nMais tarde, o rio come\u00e7a a baixar \u2013 mas n\u00e3o a tristeza.<br \/>\nAlgumas pessoas s\u00f3 fazem aumentar esta tristeza. Em vez de ajudarem a recolher os corpos na correnteza (como a maioria faz), recolhem buj\u00f5es de g\u00e1s \u2013 \u201ccom certeza, ter\u00e3o um bom pre\u00e7o com esta calamidade\u201d. Uma pessoa recolhe 80 buj\u00f5es de g\u00e1s, enquanto os vizinhos recolhem 70 corpos. \u201cMeu Pai! O que \u00e9 isso?! At\u00e9 aqui, esta diab\u00f3lica natureza humana!\u201d<br \/>\nSetenta corpos empilhados com pressa no caminh\u00e3o. De tudo, isso \u00e9 o que mais choca a J\u00fania nesse dia. Ela se emociona quando conta esta parte.<br \/>\nSentada ali, no final do dia, ela n\u00e3o faz ideia de que o mesmo cen\u00e1rio est\u00e1 se repetindo em mais de cem pontos da cidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por D\u00e9lnia Bastos<br \/>\nMeia-noite. Depois de jantar na casa de um primo, no centro da cidade, J\u00fania e seu filho de 18 anos voltam para casa. Debaixo de chuva.<br \/>\nA casa n\u00e3o \u00e9 deles \u2013 est\u00e3o passando f\u00e9rias na casa da irm\u00e3 e cunhado no bairro de Conselheiro Paulino, em Nova Friburgo, RJ. 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