{"id":1690,"date":"2010-03-10T09:10:07","date_gmt":"2010-03-10T12:10:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ultimato.com.br\/blog\/?p=1690"},"modified":"2010-11-19T08:39:18","modified_gmt":"2010-11-19T11:39:18","slug":"1960-%e2%80%94-um-ano-explosivo-na-historia-de-vicosa-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2010\/03\/10\/1960-%e2%80%94-um-ano-explosivo-na-historia-de-vicosa-i\/","title":{"rendered":"1960 \u2014 um ano explosivo na hist\u00f3ria de Vi\u00e7osa I"},"content":{"rendered":"<p><strong><span>1960 \u2013 Quando Vi\u00e7osa tinha dez mil habitantes<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Sou obrigado a comemorar, pois a data \u00e9 muito importante para mim e minha esposa. Hoje, 12 de fevereiro, faz 50 anos que chegamos em Vi\u00e7osa, depois de uma longa viagem de trem, com uma crian\u00e7a de um ano no meu colo e outra de menos de um m\u00eas no colo de Djanira. Descemos \u2014 eu com 30 anos e ela com 28 \u2014 de madrugada na esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria e fomos a p\u00e9 para a casa que hav\u00edamos alugado na rua dos Passos, esquina com a travessa Simonini. Ali perto morava o padre Antonio Mendes, 16 anos mais velho do que eu, capel\u00e3o da Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (UREMG, hoje Universidade Federal de Vi\u00e7osa). N\u00e3o demorei muito a ir \u00e0 casa dele e levar-lhe de presente um Novo Testamento bil\u00edngue (portugu\u00eas\/ingl\u00eas). A m\u00e3e dele, dona B\u00e1rbara Simonini Mendes, era muito am\u00e1vel conosco. <!--more--><\/p>\n<p>Fui o primeiro pastor protestante a fixar resid\u00eancia em Vi\u00e7osa. Juntei-me a uns quinze estudantes da UREMG que eram evang\u00e9licos e j\u00e1 se reuniam em uma casa na rua Benjamim Ara\u00fajo, esquina com o Hospital S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Alguns deles s\u00e3o hoje professores aposentados da UFV e ainda moram em Vi\u00e7osa: Osmar Ribeiro (ex-diretor do Centro de Ensino e Extens\u00e3o), Daison Olzany Silva (do Departamento de Microbiologia), Paulo Afonso Ferreira (do Departamento de Engenharia Agr\u00edcola) e Ieda Lobo da Silveira (do Departamento de Economia Dom\u00e9stica). Al\u00e9m destes, encontrei aqui a senhora Maria Jos\u00e9 Pinto de Andrade (casada com o advogado Pl\u00ednio Dias de Andrade) e seus filhos, a professora S\u00f4nia da Silva (do Departamento de Economia Dom\u00e9stica), bem como a fam\u00edlia de Jacy Ferreira de Sousa, gerente do antigo Banco de Cr\u00e9dito Real de Minas Gerais, que havia chegado aqui um m\u00eas antes de mim e, por coincid\u00eancia, havia sido batizada por meu pai, pastor, em Campos dos Goytacazes, RJ.<\/p>\n<p>Em 1960, Vi\u00e7osa tinha 10 mil habitantes. Oitenta por cento da popula\u00e7\u00e3o dos bairros Concei\u00e7\u00e3o e Lourdes tinham vindo da zona rural. Era uma das regi\u00f5es com menor renda per capita do Brasil . Na UREMG, os sal\u00e1rios dos professores eram pagos com alguns meses de atraso. O com\u00e9rcio cooperava vendendo tudo a prazo. S\u00f3 havia dois pr\u00e9dios (o chamado pr\u00e9dio principal e o alojamento masculino), a casa que hospedava as poucas alunas \u00e9 a atual Reitoria. Poucas ruas eram cal\u00e7adas. Havia muita poeira e muito frio. A energia el\u00e9trica era p\u00e9ssima. O telefone funcionava com o aux\u00edlio da telefonista e na base de manivela. As estradas eram de terra, intransit\u00e1veis na \u00e9poca das chuvas. Em termos de moradia, o que havia de melhor eram as 52 casas de professores da Vila Gianetti.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia separa\u00e7\u00f5es conjugais, nem amor livre (salvo, quem sabe, um e outro caso muito na surdina), nem mot\u00e9is nem esposas ad\u00falteras. Por\u00e9m, havia o prost\u00edbulo chamado Muzung\u00fa. Havia tamb\u00e9m, eventualmente, maridos ad\u00falteros, como aquele dentista que separava os dias pares (segundas, quartas e sextas) para a esposa e o consult\u00f3rio em Vi\u00e7osa, e os dias \u00edmpares (ter\u00e7as, quintas e s\u00e1bados) para a amante e o consult\u00f3rio em Teixeiras. Os domingos ele reservava para o seu lazer predileto (pescaria). Os homens chegavam do trabalho, tomavam banho, jantavam e iam para a rua ou para os bares, deixando a esposa e os filhos em casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia igrejas evang\u00e9licas (exceto o grupo que se reunia na rua Benjamim Ara\u00fajo), nem centros esp\u00edritas, nem terreiros, nem ma\u00e7onaria, nem clubes de servi\u00e7o (Lions, Rotary). A cidade era extremamente cat\u00f3lica e o partido pol\u00edtico dominante era o Republicano. Dizia-se que quem n\u00e3o fosse cat\u00f3lico nem do PR teria dificuldade de conseguir emprego at\u00e9 mesmo na universidade. O catolicismo de ent\u00e3o era acentuadamente conservador e tridentino. Isso tem muito a ver com o hist\u00f3rico Semin\u00e1rio de Mariana, o terceiro mais antigo do Brasil, aberto em dezembro de 1750. Na ocasi\u00e3o, o pr\u00f3prio papa Bento 14 solicitou ao frei Dom Manuel da Cruz, primeiro bispo de Mariana, que pusesse \u201cparticular empenho em lotar sua diocese de um semin\u00e1rio, como exige o Sagrado Conc\u00edlio de Trento\u201d. Ora, ao decretar a institui\u00e7\u00e3o na sess\u00e3o de 14 de julho de 1563, um dos objetivos do Conc\u00edlio de Trento era promover a chamada Contra-Reforma. Embora realizado quase 400 anos antes, as resolu\u00e7\u00f5es de Trento ainda estavam em vigor.<\/p>\n<p>Na primeira Sexta-feira Santa que passei em Vi\u00e7osa (abril de 1960), assisti a organiza\u00e7\u00e3o da Prociss\u00e3o do Enterro do terra\u00e7o do pr\u00e9dio que fica na esquina da pra\u00e7a Silviano Band\u00e3o com a rua dos Passos. Vi o padre Carlos dos Reis Ba\u00eata Neves com o microfone na m\u00e3o exortando um casal de namorados a entrar na prociss\u00e3o. Ouvi a banda de m\u00fasica tocar a Marcha F\u00fanebre e vi os que carregavam o caix\u00e3o do Senhor morto. Senti-me mal com aquela \u00eanfase demasiada \u00e0 morte de Jesus, comum em todo catolicismo ib\u00e9rico. Na Sexta-feira Santa ningu\u00e9m ficava em casa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1960 \u2013 Quando Vi\u00e7osa tinha dez mil habitantes<br \/>\nSou obrigado a comemorar, pois a data \u00e9 muito importante para mim e minha esposa. 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