{"id":11874,"date":"2018-10-17T12:49:00","date_gmt":"2018-10-17T14:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=11874"},"modified":"2018-11-21T08:27:19","modified_gmt":"2018-11-21T10:27:19","slug":"oracao-de-guerra-um-conto-de-mark-twain","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2018\/10\/17\/oracao-de-guerra-um-conto-de-mark-twain\/","title":{"rendered":"\u201cOra\u00e7\u00e3o de Guerra\u201d, um conto de Mark Twain"},"content":{"rendered":"<div id=\"js_5\" class=\"_5pbx userContent _3576\" data-ad-preview=\"message\" data-ft=\"{&quot;tn&quot;:&quot;K&quot;}\">\n<h5><span style=\"color: #808000;\"><strong>Por Gladir Cabral<\/strong><\/span><\/h5>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-11889\" title=\"Foto: unsplash.com\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/Blog_Ult_17_10_18_guerra.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"234\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/Blog_Ult_17_10_18_guerra.jpg 583w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/Blog_Ult_17_10_18_guerra-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/>Era um tempo de forte e exaltada excita\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds estava armado at\u00e9 os dentes, a guerra acontecia, em cada peito ardia a chama sagrada do patriotismo; os tambores estavam rufando, as bandas tocando, as armas de brinquedo disparando, fogos de artif\u00edcio assobiando e explodindo aos montes; em cada lado das ruas, em telhados e sacadas, uma selva agitada de bandeiras brilhava ao sol. Diariamente os jovens volunt\u00e1rios marchavam pela larga avenida, alegres e vistosos em seus uniformes, os orgulhosos pais e m\u00e3es e irm\u00e3s e namoradas os saudavam com vozes embargadas de alegre emo\u00e7\u00e3o enquanto eles desfilavam; todas as noites multid\u00f5es compactas se reuniam para ouvir e se emocionar com a orat\u00f3ria patri\u00f3tica, que mexia com as profundezas dos seus cora\u00e7\u00f5es, cortada por breves intervalos de aplausos cicl\u00f4nicos, as l\u00e1grimas rolando por suas bochechas; nas igrejas os pastores pregavam a devo\u00e7\u00e3o \u00e0 bandeira e ao pa\u00eds, e invocavam o Deus das Batalhas, implorando Sua ajuda em nossa nobre causa em um derramamento de fervorosa eloqu\u00eancia, que comovia todo e qualquer ouvinte. Foi verdadeiramente uma \u00e9poca feliz e generosa, e a meia-d\u00fazia de esp\u00edritos imprudentes que se arriscaram a desaprovar a guerra e a questionar a sua legitimidade receberam imediatamente um aviso s\u00e9rio e furioso de que para o seu pr\u00f3prio bem sumissem de nossas vistas e nunca mais fizessem algo t\u00e3o absurdo.<\/p>\n<p>Chegou a manh\u00e3 de domingo \u2013 no dia seguinte os batalh\u00f5es partiriam para o front; a igreja estava repleta; os volunt\u00e1rios l\u00e1 estavam, suas faces joviais iluminadas por sonhos de guerra \u2013 vis\u00f5es do firme avan\u00e7o, da for\u00e7a coletiva, o r\u00e1pido ataque, os sabres reluzentes, a fuga do inimigo, o tumulto, a fuma\u00e7a envolvente, a persegui\u00e7\u00e3o ferrenha, a rendi\u00e7\u00e3o! Ent\u00e3o a volta da guerra para casa, her\u00f3is de bronze, bem-vindos, adorados, submersos em mares dourados de gl\u00f3ria! Com os volunt\u00e1rios sentavam-se seus seres queridos, orgulhosos, felizes, invejados pelos vizinhos e amigos que n\u00e3o tinham filhos ou irm\u00e3os para enviar ao campo de honra, para l\u00e1 vencer pela bandeira, ou, ao falhar, morrer a mais nobre das mortes. O servi\u00e7o prosseguia; um cap\u00edtulo de guerra do Velho Testamento foi lido; a primeira ora\u00e7\u00e3o foi dita; ela foi seguida por um forte acorde do \u00f3rg\u00e3o que fez tremer o pr\u00e9dio, e num s\u00f3 impulso a casa se ergueu, com olhos brilhantes e cora\u00e7\u00f5es pulsantes, e professou aquela tremenda invoca\u00e7\u00e3o:&nbsp;<br \/>\n\u201cDeus todo-poderoso! V\u00f3s que tudo dominais! Trov\u00e3o \u00e9 o vosso clarim e rel\u00e2mpago a vossa espada!\u201d<\/p>\n<p><!--more-->Veio ent\u00e3o a \u201clonga\u201d ora\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m poderia se lembrar de nada parecido com aquela prece apaixonada e comovente e sua bela linguagem. O conte\u00fado daquela s\u00faplica era que um Pai de todos n\u00f3s t\u00e3o piedoso e benigno olhasse por nossos nobres jovens soldados, e os ajudasse, confortasse e encorajasse em seu trabalho patri\u00f3tico; que os aben\u00e7oasse, fosse seu escudo no dia da batalha e na hora do perigo, que os pusesse em Suas m\u00e3os poderosas, e os fizesse fortes e confiantes, invenc\u00edveis no combate sangrento; que os ajudasse a esmagar o inimigo, que lhes desse e \u00e0 sua bandeira e pa\u00eds, honra e gl\u00f3ria imortais.<\/p>\n<p>Um idoso estranho entrou e se moveu em passos lentos e silenciosos pelo v\u00e3o central, seus olhos fixos no ministro, seu corpo esguio vestido numa t\u00fanica que alcan\u00e7ava seus p\u00e9s, sua cabe\u00e7a descoberta, seu cabelo branco caindo como uma catarata espumante sobre seus ombros, seu rosto marcado artificialmente p\u00e1lido, assustadoramente p\u00e1lido. Com todos os olhos seguindo-o com curiosidade, ele fez o seu trajeto silencioso; sem parar, subiu at\u00e9 ao lado do pregador e ficou esperando. Com os olhos fechados o pregador, sem perceber a sua presen\u00e7a, continuou com a sua comovente prece, e ao final arrematou com essas palavras, pronunciadas em apelo fervoroso: \u201cAben\u00e7oe nossas armas, d\u00ea-nos a vit\u00f3ria, \u00f3 Senhor nosso Deus, Pai e Protetor da nossa terra e da nossa bandeira!\u201d<\/p>\n<p>O estranho tocou em seu bra\u00e7o, fazendo-o mover para o lado \u2013 o que o assustado ministro aceitou \u2013 e tomou o seu lugar. Por alguns momentos ele examinou o enfeiti\u00e7ado p\u00fablico com olhar solene, onde brilhava uma luz misteriosa; ent\u00e3o numa voz profunda ele disse: \u201cEu venho do Trono \u2013 trazendo uma mensagem do Deus Todo-Poderoso!\u201d As palavras deixaram a casa em choque; e se o estranho percebeu isso, n\u00e3o deu a m\u00ednima aten\u00e7\u00e3o. \u201cEle ouviu as preces deste pastor Seu servo, e lhes atender\u00e1 o desejo depois que eu, Seu mensageiro, tiver explicado a voc\u00eas o seu significado \u2013 ou melhor, seu significado completo. Pois ela \u00e9 como muitas das preces dos homens, em que se pede coisas de que aquele que faz a ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem conhecimento \u2013 a menos que ele pare e pense.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO servo de Deus e de voc\u00eas fez sua ora\u00e7\u00e3o. Ele parou para pensar? \u00c9 uma \u00fanica prece? N\u00e3o, s\u00e3o duas \u2013 uma proferida e outra n\u00e3o. Ambas chegaram aos ouvidos d\u2019Aquele que ouve todas as s\u00faplicas, as ditas e as n\u00e3o ditas. Ponderem isto \u2013 tenham isto em mente. Se voc\u00eas suplicam uma ben\u00e7\u00e3o sobre voc\u00eas mesmos, tenham cuidado para que mesmo sem inten\u00e7\u00e3o voc\u00eas n\u00e3o invoquem uma praga sobre seu vizinho ao mesmo tempo. Se voc\u00eas oram pela ben\u00e7\u00e3o da chuva sobre sua planta\u00e7\u00e3o que precisa dela, por este ato voc\u00eas possivelmente est\u00e3o rogando uma praga sobre a planta\u00e7\u00e3o de algum vizinho que pode n\u00e3o precisar daquela chuva e pode ser prejudicado por ela.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00eas ouviram a prece do seu servo \u2013 a parte proferida. Fui encarregado por Deus de p\u00f4r em palavras a outra parte dela \u2013 aquela parte que o pastor \u2013 e tamb\u00e9m voc\u00eas em seus cora\u00e7\u00f5es \u2013 fervorosamente disseram em sil\u00eancio. Ter\u00e1 isso ocorrido de forma ignorante ou impensada? Deus pensou que sim! Voc\u00eas ouviram estas palavras: \u2018D\u00ea-nos a vit\u00f3ria, \u00f3 Senhor nosso Deus!\u2019 Isto \u00e9 suficiente, toda a prece pronunciada foi compactada nessas palavras intensas. N\u00e3o \u00e9 preciso elaborar muito. Ao rogarem pela vit\u00f3ria voc\u00eas rogaram por muitos outros resultados n\u00e3o mencionados, decorrentes da vit\u00f3ria \u2013 que t\u00eam que se seguir a ela, irremediavelmente. Sobre o acolhedor esp\u00edrito de Deus caiu tamb\u00e9m a parte n\u00e3o proferida da prece. Ele me incumbiu de p\u00f4-la em palavras. Ou\u00e7am!\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 Senhor nosso Pai, nossos jovens patriotas, \u00eddolos dos nossos cora\u00e7\u00f5es, avan\u00e7am para a batalha \u2013 estejais V\u00f3s perto deles! Com eles \u2013 em esp\u00edrito \u2013 tamb\u00e9m n\u00f3s avan\u00e7amos da doce paz de nossos amados lares para atacar o inimigo. \u00d3 Senhor nosso Deus, ajudai-nos a fazer dos soldados deles peda\u00e7os sangrentos de corpos, gra\u00e7as \u00e0s nossas bombas; ajudai-nos a cobrir seus alegres campos com as p\u00e1lidas formas de seus patriotas mortos; ajudai-nos a sufocar o trovejar das armas com os gritos dos seus feridos contorcendo-se de dor; ajudai-nos a arrasar seus lares humildes com um furac\u00e3o de fogo; ajudai-nos a esmagar os cora\u00e7\u00f5es de suas vi\u00favas inocentes com irremedi\u00e1vel pesar; ajudai-nos a torn\u00e1-los desabrigados com criancinhas solit\u00e1rias a vagar pelos restos de sua desolada terra em farrapos, com fome e com sede, \u00e0 merc\u00ea do sol flamejante de ver\u00e3o e dos ventos gelados do inverno, desolados, acabados pelo trabalho duro, implorando a V\u00f3s pelo ref\u00fagio do t\u00famulo e n\u00e3o sendo atendidos. Por n\u00f3s, que Vos adoramos, Senhor, arrasai suas esperan\u00e7as, deteriorai suas vidas, prolongai sua amarga peregrina\u00e7\u00e3o, fa\u00e7ais pesados os seus passos, molheis o seu caminho com suas l\u00e1grimas, manchai a neve alva com o sangue dos seus p\u00e9s feridos! Isto n\u00f3s pedimos, no esp\u00edrito do amor, d\u2019Ele que \u00e9 a Fonte do Amor, e que \u00e9 o sempre fiel ref\u00fagio e amigo de todos os que est\u00e3o aflitos e sofrendo e buscam a Sua ajuda, de cora\u00e7\u00f5es humildes e contritos. Am\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>(Ap\u00f3s uma pausa)<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00eas assim rogaram. Se ainda desejam isto, falem! O mensageiro do Mais Alto aguarda!\u201d<\/p>\n<p>Acreditou-se, depois, que aquele homem era apenas um doido, porque suas palavras n\u00e3o faziam sentido.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<h6><strong>Nota do editor norte-americano<\/strong>: Revoltado com a interven\u00e7\u00e3o militar norte-americana americana nas Filipinas, Mark Twain escreveu este texto e o enviou \u00e0 revista Harper\u2019s Bazaar em 1905. Esta revista feminina rejeitou o artigo por ser radical demais. O texto s\u00f3 foi publicado depois da morte de Mark Twain, quando a I Guerra Mundial tornou-o ainda mais oportuno. Apareceu na revista Harper\u2019s Monthly, de novembro de 1916.<\/h6>\n<h6><strong>Fonte:<\/strong> \u201cMark Twain\u2019s Weapons of Satire\u201d, Jim Zwick (ed.), Syracuse University Press, 1992, p. 156-160. Essa \u201cora\u00e7\u00e3o\u201d tamb\u00e9m est\u00e1 mencionada, brevemente, na biografia de Mark Twain que faz parte do livro Vidas de Grandes Romancistas, de Henry Thomas e Dana Lee Thomas, Editora Globo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, S\u00e3o Paulo, 1954, p. 228-229.<\/h6>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> Ney Barrozo<\/h6>\n<\/div>\n<pre><strong>\u2022 Mark Twain<\/strong>&nbsp;foi um escritor e humorista norte-americano.\r\n\r\n<strong>\u2022 Gladir Cabral<\/strong> \u00e9 pastor, m\u00fasico e professor de letras na Unesc. Acompanhe o seu <a href=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">blog pessoal<\/a>.<\/pre>\n<p><strong>Leia mais<br \/>\n<\/strong>\u00bb&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/conteudo\/para-orar-pelo-pais-em-tempo-de-eleicao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Para orar pelo pa\u00eds em tempo de elei\u00e7\u00e3o<\/a><br \/>\n\u00bb <a href=\"https:\/\/www.ultimato.com.br\/conteudo\/c-s-lewis-em-tempo-de-eleicao-os-cristaos-e-a-moralidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">C. S. Lewis em tempo de elei\u00e7\u00e3o: Os crist\u00e3os e a moralidade<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gladir Cabral<br \/>\nEra um tempo de forte e exaltada excita\u00e7\u00e3o. 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