{"id":10708,"date":"2018-02-22T10:00:35","date_gmt":"2018-02-22T12:00:35","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/?p=10708"},"modified":"2018-03-02T17:19:24","modified_gmt":"2018-03-02T19:19:24","slug":"iconografia-na-igreja-oriental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/2018\/02\/22\/iconografia-na-igreja-oriental\/","title":{"rendered":"Iconografia na Igreja Oriental"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #993300;\">Vers\u00e3o ampliada do artigo publicado na sess\u00e3o Arte e Cultura, da revista Ultimato #370.<\/span><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_10760\" style=\"width: 269px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10760\" class=\"wp-image-10760\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/Arte_cultura_370_Iconografia_pantocrator_sta_catarina-530x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"259\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/Arte_cultura_370_Iconografia_pantocrator_sta_catarina-530x1024.jpg 530w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/Arte_cultura_370_Iconografia_pantocrator_sta_catarina-155x300.jpg 155w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/Arte_cultura_370_Iconografia_pantocrator_sta_catarina-768x1485.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/Arte_cultura_370_Iconografia_pantocrator_sta_catarina-732x1415.jpg 732w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/files\/Arte_cultura_370_Iconografia_pantocrator_sta_catarina.jpg 1100w\" sizes=\"auto, (max-width: 259px) 100vw, 259px\" \/><p id=\"caption-attachment-10760\" class=\"wp-caption-text\">Iconografia Pantocrator Santa Catarina<\/p><\/div>\n<h6><span style=\"color: #808000;\"><strong>Por Carlos Caldas<\/strong><\/span><\/h6>\n<p>O cristianismo tem, <em>grosso modo<\/em>, tr\u00eas grandes ramos: a ortodoxia oriental, o catolicismo romano e o protestantismo (incluindo aqui evangelicalismos e pentecostalismos em geral). No Brasil, o protestantismo, por motivos \u00f3bvios, tem muita proximidade com a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica. Mas a tradi\u00e7\u00e3o ortodoxa oriental, numericamente muito pequena no pa\u00eds, \u00e9, em grande parte, totalmente desconhecida da maioria absoluta dos protestantes e evang\u00e9licos brasileiros. Da\u00ed que o presente texto, mesmo com sua limita\u00e7\u00e3o de tamanho, pretende ser uma introdu\u00e7\u00e3o sucinta a um importante aspecto da teologia e da liturgia da tradi\u00e7\u00e3o ortodoxa oriental: a iconografia, isto \u00e9, a tradi\u00e7\u00e3o ortodoxa oriental de confeccionar \u00edcones, quase sempre de Cristo.<\/p>\n<p>A primeira rea\u00e7\u00e3o de um protestante brasileiro ao vir um \u00edcone de qualquer das igrejas da tradi\u00e7\u00e3o oriental vai ser pensar que se trata de \u201cidolatria\u201d ou \u201ccoisa de cat\u00f3lico\u201d. Isto faz lembrar que a rela\u00e7\u00e3o do protestantismo com as artes, notadamente no Brasil, segue em busca de entendimento. O protestantismo tupiniquim desenvolveu uma rela\u00e7\u00e3o tranquila com as manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de natureza auditiva. A import\u00e2ncia da prega\u00e7\u00e3o e da m\u00fasica na liturgia protestante comprova a afirma\u00e7\u00e3o feita. Mas no que diz respeito \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de natureza visual, a hist\u00f3ria \u00e9 outra. A tradi\u00e7\u00e3o protestante\/evang\u00e9lica no Brasil tem tradicionalmente uma resist\u00eancia muito grande a toda e qualquer express\u00e3o est\u00e9tica visual. H\u00e1 raz\u00f5es hist\u00f3ricas que explicam o desconforto protestante brasileiro com artes visuais. Igrejas protestantes de outras latitudes n\u00e3o t\u00eam crise em, por exemplo, vitrais com ilustra\u00e7\u00f5es de cenas b\u00edblicas em seus templos. Mas a hist\u00f3ria do protestantismo no Brasil tem algumas peculiaridades: a Constitui\u00e7\u00e3o de 1824 determinava a Igreja Romana como oficial do Imp\u00e9rio, e permitia que grupos n\u00e3o cat\u00f3licos s\u00f3 tivessem cultos dom\u00e9sticos, sendo-lhes vedado que tivessem constru\u00e7\u00f5es com apar\u00eancia de templo. Isto gerou no imagin\u00e1rio protestante brasileiro um ran\u00e7o contra qualquer coisa que tivesse qualquer semelhan\u00e7a com seja o que for que tivesse semelhan\u00e7a com o que lembrasse minimamente algum elemento do catolicismo. Isto explica a dificuldade brasileira com as artes visuais em geral. Estas s\u00e3o, de maneira muito r\u00e1pida e at\u00e9 mesmo descuidada, identificadas com \u201cidolatria\u201d e quebra do segundo mandamento.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Se o protestante mediano brasileiro tem dificuldade com a est\u00e9tica lit\u00fargica cat\u00f3lica, da qual est\u00e1 hist\u00f3rica e geograficamente pr\u00f3ximo, muito mais estranhamento ter\u00e1 diante da tradi\u00e7\u00e3o ortodoxa, distante em todos os sentidos. Da\u00ed o objetivo do presente artigo: apresentar, posto que resumidamente, uma explica\u00e7\u00e3o para protestantes brasileiros, do significado da iconografia ortodoxa oriental.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o ortodoxa entende que Deus est\u00e1 presente na beleza. A perspectiva oriental entende que a beleza revela e aponta para Deus, e por isso, deve se manifestar na liturgia. O ortodoxo entende que a liturgia \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o sensorial da teologia, o que faz com que todos os sentidos estejam presentes: a audi\u00e7\u00e3o (os c\u00e2nticos), o olfato (o incenso), o tato e o paladar (na recep\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o, nas duas esp\u00e9cies, isto \u00e9, o p\u00e3o e o vinho) e, por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, na vis\u00e3o (a contempla\u00e7\u00e3o dos \u00edcones). Eis a\u00ed contraste com a tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica protestante tradicional, com sua virtual nega\u00e7\u00e3o dos sentidos do olfato e da vis\u00e3o, uma quase nega\u00e7\u00e3o do tato e uma m\u00ednima utiliza\u00e7\u00e3o do paladar. No protestantismo, o sentido mais usado \u00e9 a audi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um esclarecimento: a palavra \u00edcone vem do grego <em>eikon<\/em>, que significa <em>imagem<\/em>. A palavra aparece no Novo Testamento em Cl 1.15, onde \u00e9 dito que Cristo \u00e9 a \u201cimagem\u201d (\u00edcone) do Deus invis\u00edvel. Para o ortodoxo oriental, o \u00edcone n\u00e3o \u00e9 uma quebra do segundo mandamento, pois n\u00e3o se presta culto \u00e0 imagem em si. A adora\u00e7\u00e3o \u00e9 dirigida a quem a pintura representa, n\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria pintura em si. Na ortodoxia oriental, a compreens\u00e3o \u00e9 que o \u00edcone \u00e9 para os olhos o que a prega\u00e7\u00e3o da Palavra \u00e9 para os ouvidos. O \u00edcone pretende ser um aux\u00edlio \u00e0 medita\u00e7\u00e3o crist\u00e3, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios divinos, notadamente os que t\u00eam a ver com a vida, morte, ressurrei\u00e7\u00e3o e ascens\u00e3o de Cristo, e a esperan\u00e7a de sua segunda vinda. Na perspectiva oriental, o \u00edcone \u00e9 uma esp\u00e9cie de janela para a dimens\u00e3o espiritual\/celestial da realidade. A \u201cbeleza\u201d do \u00edcone n\u00e3o est\u00e1 nas suas caracter\u00edsticas est\u00e9ticas em si, mas na verdade teol\u00f3gica que este veicula. Portanto, os crist\u00e3os orientais compreendem os \u00edcones como tendo valor sacramental: estes n\u00e3o s\u00e3o sacramentos em si, mas de alguma maneira, s\u00e3o sinais vis\u00edveis de uma gra\u00e7a invis\u00edvel. O crist\u00e3o ortodoxo oriental entende o \u00edcone como uma realidade espiritual, que n\u00e3o pode ser explicada de maneira l\u00f3gica, conceitual e racional. Antes, \u00e9 uma realidade suprarracional. Por isso, os icon\u00f3grafos, isto \u00e9, os se dedicam \u00e0 confec\u00e7\u00e3o de \u00edcones, s\u00f3 poder\u00e3o faz\u00ea-lo se receberem um treinamento para tal, uma autoriza\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica, e ter\u00e3o que tomar uma s\u00e9rie de cuidados. A pintura de um \u00edcone jamais ser\u00e1 iniciada se n\u00e3o for precedida de um tempo preparat\u00f3rio de ora\u00e7\u00e3o, leitura b\u00edblica, medita\u00e7\u00e3o e jejum, al\u00e9m de banhos rituais, porque espera-se que o pintor de uma imagem tida como sagrada esteja purificado, espiritual e corporalmente. As prescri\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas para os icon\u00f3grafos incluem ainda crit\u00e9rios de natureza \u00e9tica: um pintor de \u00edcones tem que demonstrar humildade e mansid\u00e3o em sua vida di\u00e1ria. Em outras palavras: para produzir um \u00edcone, n\u00e3o basta ter capacidade t\u00e9cnica. Mais importante que a t\u00e9cnica \u00e9 a virtude.<\/p>\n<p>Concluindo: o protestantismo tem seus motivos para tecer suas cr\u00edticas \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o iconogr\u00e1fica da ortodoxia oriental. E o ortodoxo oriental tem seus motivos para cultivar a mais que secular tradi\u00e7\u00e3o do \u00edcone. O objetivo deste texto n\u00e3o \u00e9 discutir a quest\u00e3o te\u00f3rica da teologia por detr\u00e1s da tradi\u00e7\u00e3o dos \u00edcones. O que se pretende \u00e9 t\u00e3o somente apresentar uma palavra introdut\u00f3ria ao tema, para que o leitor brasileiro de origem protestante\/evang\u00e9lica tenha uma no\u00e7\u00e3o m\u00ednima do significado do \u00edcone para o crist\u00e3o ortodoxo oriental.<\/p>\n<p><strong>\u2022 Carlos Caldas<\/strong>, doutor em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o pela Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, \u00e9 professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o da PUC Minas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vers\u00e3o ampliada do artigo publicado na sess\u00e3o Arte e Cultura, da revista Ultimato #370.<br \/>\nPor Carlos Caldas<br \/>\nO cristianismo tem, grosso modo, tr\u00eas grandes ramos: a ortodoxia oriental, o catolicismo romano e o protestantismo (incluindo aqui evangelicalismos e pentecostalismos em geral). No Brasil, o protestantismo, por motivos \u00f3bvios, tem muita proximidade com a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica. 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