1960 — Uma Viçosa amiga e compreensiva

Fiquei sabendo que o piloto-missionário Gordon Trew, residente em Montes Claros, norte de Minas, estava precisando voar para amaciar o motor recondicionado do avião da Missão Presbiteriana do Brasil Central. Como não teríamos nenhuma despesa com combustível, convidei-o para vir a Viçosa. No primeiro domingo de abril de 1960, realizamos uma reunião ao ar livre na praça Silviano Brandão. José Simeão, o delegado, tomou algumas medidas discretas para impedir algum tumulto, como o que tinha acontecido menos de um mês antes, no Pau de Paina. Mesmo assim, alguns meninos fizeram uma algazarra contra nós.

No final desse mesmo mês, convidamos a conhecida equipe evangelística da organização Palavra de Vida, de Atibaia, SP, para estar em Viçosa e realizar uma série de reuniões no antigo Cine Odeon, na praça Silviano Brandão. Era uma equipe de alto nível: Ari tocava órgão elétrico (o precursor do teclado) e Haroldo tocava trombone de vara. O pregador era o conhecido Walter Kaschell. Foi um sucesso quanto à qualidade do evento, ao número de pessoas presentes e ao testemunho dado.

Paralelamente começamos a receber manifestações espontâneas de apoio. O muito conhecido Geraldo Lopes de Faria, em nome da Associação Comercial de Viçosa (da qual era secretário), da Companhia Telefônica de Viçosa (da qual era diretor superintendente) e de uma empresa que comerciava café e cereais (da qual era diretor-gerente) e como tabelião do Cartório do 2° Ofício da Comarca de Viçosa, enviou uma carta a dr. Joel de Paiva Cortes, presidente do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, com um protesto contra a remoção do gerente da agência do banco em Viçosa só porque ele era protestante. Lá pelas tantas, Geraldo Faria fez questão de frisar: “Somos entusiastas da liberdade social, política e religiosa do homem, e, mesmo sendo católicos, não gostaríamos de ver sofrer uma pessoa pela culpa de não o ser.” No final, Faria explica que “ao contrário do que se poderia supor, não ocupamos o banco para empréstimo ou transações para nós vantajosas, fazendo nele apenas movimento de depósito de alguns milhões de cruzeiros das organizações que dirigimos e mais alguns cruzeiros nossos”. O banco recebeu também um pedido de revogação da transferência do tal gerente, assinado por 119 comerciantes. A primeira assinatura foi de Elias Ibrahim, um simpatizante dos protestantes, que, mais tarde, filiou-se à Igreja Presbiteriana de Viçosa (IPV) e foi seu tesoureiro.

No dia 30 de abril, realizou-se a tradicional festa do calouro. Para surpresa geral, o programa incluía, além da missa católica e da Marcha Nico Lopes, um culto protestante em ação de graças. Uma semana depois, “O Bonde”, órgão oficial dos estudantes de Agronomia, publicava um editorial defendendo a liberdade de culto e protestando contra “o espetáculo injusto e deprimente desferido contra os presbiterianos na praça Silviano Brandão” (uma referência à já mencionada algazarra).

Naquele tempo, a Marcha Nico Lopes criticava certos acontecimentos de maneira humorística. Para se referir à transferência do gerente do Banco de Crédito Real de Viçosa para Três Corações, os estudantes vestiram um calouro de padre, que, com uma corda, puxava outro calouro (parecido fisicamente com o gerente) para Três Corações…

Um dos novos membros da IPV, recebido em maio de 1960, era o padeiro Geraldo Rezende, que começou a se interessar pelo evangelho ao assistir aquela reunião que acabou não acontecendo no Pau de Paina!

Surpresas maiores aconteceram no segundo semestre de 1960.

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