1960 — Uma Viçosa de fato tridentina

No primeiro trimestre de 1960, para dar início às reuniões da igreja presbiteriana, precisávamos alugar um imóvel apropriado e mais ou menos no centro da cidade. Logo apareceu um salão enorme na praça Silviano Brandão, onde hoje está o Lojão das Fábricas. O proprietário concordou em nos alugar e me deu duas vias para eu preencher e devolver a ele no dia seguinte, quando então eu receberia as chaves. Como eu era um recém-chegado a Viçosa, ele exigiu um avalista. Procurei imediatamente o sr. Jacy Ferreira, gerente do Banco de Crédito Real de Minas Gerais e membro da congregação presbiteriana. Ele assinou o documento e, no dia, hora e local aprazados, procurei o dono do imóvel para acertarmos tudo. Mas quem estava à minha espera era a esposa dele, simplesmente para dizer que o marido havia mudado de ideia.

Comecei a “namorar” um outro salão, pertinho da praça, na rua Virgílio Val, que estava para desocupar. O proprietário era um fazendeiro, soube do nosso interesse e disse que o alugaria para nós. Pouco depois, porém, mandou-nos uma carta voltando atrás a pedido veemente da mãe. Para comprovar o motivo da recusa, anexou a carta da progenitora, na qual se lê: “Durante a missa o padre falou sobre o aluguel de casas para os protestantes. Logo lembrei de lhe pedir para não alugar a sua casa para esse fim. Este é um pedido da sua mãe. Conto certo de que serei atendida. Atenda-me, sim, meu filho!” (Estas cartas estão arquivadas bem como as duas vias do contrato de locação do imóvel anterior).
Na mesma época, tentei comprar um horário na Rádio Montanhesa de Viçosa, mas o diretor, um advogado, achou por bem não me atender. Pouco depois, o dono da casa da rua dos Passos onde eu morava me procurou e me pediu que a desocupasse porque precisaria dela. Mudei-me então para uma casa recém-construída, na rua Papa João XXIII, de propriedade do sr. Nazário, açougueiro e coveiro.

No dia 10 de março, na companhia de quatro estudantes de agronomia (Osmar Ribeiro, Américo José da Silveira, Daison Silva e Otto Mozzer), fomos fazer a projeção de um “filmstrip” religioso ao ar livre no bairro Pau de Paina. Previamente, eu havia conseguido permissão de um comerciante para projetar os quadros na parede externa de sua padaria (ou bar, não me lembro com certeza). Ele também permitiu que nós usássemos sua energia elétrica. Fomos de bicicleta. Havia lama no local por causa de uma chuva anterior. Reunimos um bom grupo de pessoas. De repente, uma mulher (disseram-me que ela era professora primária) alertou o povo que éramos protestantes. Todos começaram a rasgar os folhetos que havíamos distribuído, a nos vaiar e a jogar lama em nós. Nesse ínterim, alguém havia esvaziado os pneus de nossas bicicletas. Tivemos que interromper a reunião e ir embora. Surpresos, fomos todos para minha casa, onde oramos e tomamos um lanche qualquer. Na ida, paramos na casa do delegado José Simeão, também na rua dos Passos, contamos o ocorrido e nos mostramos sujos de lama a ele.

Nesse mesmo tempo, aconteceu outra coisa inusitada. Alguém procurou em Belo Horizonte o dr. Joel de Paiva Cortes, presidente do Banco do Crédito Real de Minas Gerais, e solicitou a ele a transferência do gerente de Viçosa para outra agência, embora estivesse na cidade por um curto período de tempo. O banco atendeu o pedido e o sr. Jacy Ferreira foi para Três Corações, MG. Perdemos a companhia de uma família inteira, muito querida, que não se envergonhava do evangelho, mesmo quando éramos uma minoria em Viçosa.

Diante de tanta e surpreendente adversidade, tomamos a decisão de não cedermos de forma alguma às pressões de uma cidade tridentina, isto é, uma cidade disposta a impedir a presença e a pregação de qualquer igreja filha da Reforma Protestante do século 16. Mas resistiríamos de forma ética, com o temor do Senhor, e valendo-nos do recurso da oração. De fato, desde o início das aulas, começamos a orar uma semana por mês, de manhã bem cedo num lugar aprazível da UREMG, naquele ponto onde havia uma represa e muitos pinheiros, na direção do atual Recanto das Cigarras, mas na parte baixa. Renovamos a nossa confiança na promessa de que Deus faz com que todas as coisas concorram para o bem daqueles que o amam (Rm 8.28). Além disso, adotamos como regra de conduta aquele conselho bíblico: “‘Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito’, diz o Senhor do Exércitos” (Zc 4.6).

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