{"id":774,"date":"2010-12-27T07:29:58","date_gmt":"2010-12-27T10:29:58","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/?p=774"},"modified":"2010-12-27T07:29:58","modified_gmt":"2010-12-27T10:29:58","slug":"o-veterinario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/2010\/12\/27\/o-veterinario\/","title":{"rendered":"O Veterin\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/12\/veterinario.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-775\" title=\"veterinario\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/12\/veterinario.jpg\" alt=\"\" width=\"245\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/12\/veterinario.jpg 321w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/12\/veterinario-245x300.jpg 245w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/12\/veterinario-122x150.jpg 122w\" sizes=\"auto, (max-width: 245px) 100vw, 245px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando pequeno, eu sonhava ser tratado por um veterin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na minha vis\u00e3o infantil, esse era um super m\u00e9dico: um m\u00e9dico muito especial que conseguia descobrir e curar as doen\u00e7as dos animais; enfermos que n\u00e3o podiam dizer uma s\u00f3 palavra; muitas vezes, o m\u00e1ximo que conseguiam fazer era dar um ganido quando apalpados no local machucado. Imagine! Um m\u00e9dico que descobre sozinho o que h\u00e1 de errado com o paciente! Ah, que sonho!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tinha consci\u00eancia da dificuldade de dizer o que havia de errado comigo. Mesmo para meus pais. Sabia apenas que havia coisas doentes e doendo. Mas n\u00e3o se tratavam de ferimentos externos, como um joelho ralado, ou um bra\u00e7o quebrado. Esses casos eram f\u00e1ceis. Mas eram dores para mim indescrit\u00edveis.  Como explic\u00e1-las? Com que palavras? Como descrever ang\u00fastias, ansiedades e medos com o vocabul\u00e1rio de um menino de oito anos? Melhor era subir numa \u00e1rvore bem alta e ficar l\u00e1. Ou nadar para minha Ilha Rasa e passar boa parte do dia &#8220;longe dos problemas&#8221;, em meio \u00e0s gaivotas. Fuga, claro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo, percebi que aquelas dores iam comigo para a ilha. Mas a felicidade da solid\u00e3o e do calor do sol ajudavam, como hoje ajuda um banho quente em meio a problemas no trabalho. Acho que Freud explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu sonho era que um dia eu seria apresentado a um adulto bondoso, vestido de branco e com um estetosc\u00f3pio especial. Com olhar profundo, ele se colocaria de joelhos e, com toda a calma, me olharia bondosamente nos olhos. Sem necessidade de palavras, me examinaria o corpo, como os veterin\u00e1rios examinam os animais. Talvez, ent\u00e3o, esse veterin\u00e1rio entrasse na minha alma (uma palavra que aprendi mais tarde) e seu estetosc\u00f3pio gentilmente revelaria meus segredos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele me ajudaria a compreender meus pr\u00f3prios sentimentos. S\u00f3 o compreender j\u00e1 seria bom. Mas se ele pudesse explic\u00e1-los para mim, numa linguagem acess\u00edvel&#8230; Para isso, talvez come\u00e7\u00e1ssemos uma longa e profunda conversa. Ele me ensinaria as palavras certas para nomear e descrever meus problemas. Elas me permitiriam &#8220;olhar&#8221; para eles e falar deles para meus pais e pessoas de confian\u00e7a. Eu iniciaria um bom per\u00edodo de convalescen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, o doutor me daria algumas receitas que abrandariam meus desconfortos, sanariam minhas culpas, meus medos, minhas ang\u00fastias infantis. Sim, ele me prescreveria rem\u00e9dios para o cora\u00e7\u00e3o (ou alma).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teria sido t\u00e3o bom se tivesse sido alvo de um lava-p\u00e9s infantil, executado por um mission\u00e1rio com chamado, un\u00e7\u00e3o e poder de Deus para exercer a delicada miss\u00e3o emocional com a qual eu sonhava, mesmo sem saber, ao pensar no veterin\u00e1rio de meninos. Eu n\u00e3o teria esperado cinquenta anos para conseguir (mal) discernir minhas pr\u00f3prias faltas, dores e necessidades; invariavelmente traduzidas por culpa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje eu contemplo a encarna\u00e7\u00e3o do Verbo e vejo ali a origem dessa ordem sacerdotal &#8220;veterin\u00e1ria&#8221;. Descubro que Deus, em Cristo, se ajoelhou e nos olhou bondosamente nos olhos. E nomeou nossos pecados e dores; e iluminou nossos cora\u00e7\u00f5es; e nos trouxe esperan\u00e7a. E nos prescreveu a receita do arrependimento e do perd\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, mesmo j\u00e1 adultos, continuamos em grande dificuldade. Ainda n\u00e3o sabemos discernir muito bem nossos males; ainda vivemos na obscuridade dos nossos delitos e pecados; ainda somos varridos por ventos de desorienta\u00e7\u00e3o, provenientes de acidentes da vida, acontecimentos fortuitos, desencontros, separa\u00e7\u00f5es, perdas, descaminhos. Ainda precisamos dele. Mais do que nunca, precisamos do veterin\u00e1rio celestial, que, caminhando conosco, fa\u00e7a a anamnese de nossas dores e nos prescreva um tratamento seguro. Aquela receita de sangue que nos curar\u00e1 definitivamente. Porque nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. Luz que resplandece nas trevas (Jo 1:4, 5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais que isso, ao nos trazer cura divina, deixou-nos o modelo para esse minist\u00e9rio que reconcilia os cacos da alma e pacifica os cora\u00e7\u00f5es internamente conflagrados. Um minist\u00e9rio que nasce do (e no) amor de Deus; que v\u00ea e se compadece; que para e, dadivosamente, despende o tempo necess\u00e1rio para compreender, junto com o &#8220;paciente&#8221;, o que, at\u00e9 ent\u00e3o, s\u00f3 se expressava por sil\u00eancios e solid\u00e3o (Lc 10:33-35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao restabelecer o di\u00e1logo vital, esse minist\u00e9rio lan\u00e7a luz sobre as almas em trevas. Aleluia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE nos deu o minist\u00e9rio da reconcilia\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 entre as crian\u00e7as e tamb\u00e9m entre aqueles que se fizerem como elas.<\/p>\n<p>________________________<br \/>\nEste texto \u00e9 uma vers\u00e3o levemente ampliada do texto publicado no Ponto Final da Ultimato <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/artigos\/327\/o-veterinario\">327<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje eu contemplo a encarna\u00e7\u00e3o do Verbo e vejo ali a origem dessa ordem sacerdotal &#8220;veterin\u00e1ria&#8221;. 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