{"id":698,"date":"2010-12-06T10:09:23","date_gmt":"2010-12-06T13:09:23","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/?p=698"},"modified":"2011-03-28T11:13:12","modified_gmt":"2011-03-28T14:13:12","slug":"o-livro-da-minha-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/2010\/12\/06\/o-livro-da-minha-vida\/","title":{"rendered":"O livro da minha vida"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/12\/LDMVida.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-706\" title=\"LDMVida\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/12\/LDMVida.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/12\/LDMVida.jpg 200w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/12\/LDMVida-150x146.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>Vi, na m\u00e3o direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos. Vi, tamb\u00e9m, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem \u00e9 digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos? Ora, nem no c\u00e9u, nem sobre a terra, nem debaixo da terra, ningu\u00e9m podia abrir o livro, nem mesmo olhar para ele; e eu chorava muito, porque ningu\u00e9m foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele. Todavia, um dos anci\u00e3os me disse: N\u00e3o chores; eis que o Le\u00e3o da tribo de Jud\u00e1, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anci\u00e3os, de p\u00e9, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que s\u00e3o os sete Esp\u00edritos de Deus enviados por toda a terra. Veio, pois, e tomou o livro da m\u00e3o direita daquele que estava sentado no trono; e, quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anci\u00e3os prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e ta\u00e7as de ouro cheias de incenso, que s\u00e3o as ora\u00e7\u00f5es dos santos, e entoavam novo c\u00e2ntico, dizendo: <strong>Digno \u00e9s de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, l\u00edngua, povo e na\u00e7\u00e3o<\/strong> e para o nosso Deus os constitu\u00edste reino e sacerdotes; e reinar\u00e3o sobre a terra.<\/p>\n<p>Vi e ouvi uma voz de muitos anjos ao redor do trono, dos seres viventes e dos anci\u00e3os, cujo n\u00famero era de milh\u00f5es de milh\u00f5es e milhares de milhares, proclamando em grande voz: Digno \u00e9 o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e for\u00e7a, e honra, e gl\u00f3ria, e louvor. Ent\u00e3o, ouvi que toda criatura que h\u00e1 no c\u00e9u e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles h\u00e1, estava dizendo: \u00c0quele que est\u00e1 sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a gl\u00f3ria, e o dom\u00ednio pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos. E os quatro seres viventes respondiam: Am\u00e9m! Tamb\u00e9m os anci\u00e3os prostraram-se e adoraram. <strong> \u2014Apocalipse 5<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 se perguntou, ao ler essa passagem, por que Jo\u00e3o chora tanto? O que ter\u00e1 percebido que o alarmou t\u00e3o profundamente?<\/p>\n<p>Minha opini\u00e3o \u00e9 que ele entendeu que se o livro n\u00e3o fosse aberto, a Hist\u00f3ria n\u00e3o teria sentido, nem seria poss\u00edvel sua condu\u00e7\u00e3o. Ela seria como uma fruta que cai do p\u00e9 antes de amadurecer. O Verbo, que era a luz dos homens, n\u00e3o resplandeceria nas trevas, sobre as \u00e1guas que cobrem o caos: a terra que se tornara sem forma e vazia.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o contempla um livro que <em>cont\u00e9m<\/em> a hist\u00f3ria passada, presente e futura da humanidade. Como um rolo fechado e lacrado por selos de cera. E abrir seus selos significa fazer-se senhor de seu conte\u00fado; tanto dos seus fatos e eventos quanto dos prop\u00f3sitos e significados destes, como um maestro, a reger uma sinfonia.<\/p>\n<p>Sem Cristo e sua obra de reden\u00e7\u00e3o, a Hist\u00f3ria permanece um enigma, destitu\u00edda de sentido. Uma triste sucess\u00e3o de dias. Como as dores de uma mulher que est\u00e1 para dar \u00e0 luz, e que termina em agonia e morte intra-uterina. Usando uma imagem ainda mais dram\u00e1tica, do pr\u00f3prio Apocalipse: como se a crian\u00e7a, ao nascer, fosse devorada por um drag\u00e3o (12: 4).<\/p>\n<p>\u00c9 o que dizia Bultmann, um te\u00f3logo que abriu m\u00e3o do senhorio de Deus sobre a hist\u00f3ria: &#8220;N\u00e3o podemos dizer que sabemos o fim e o objetivo da hist\u00f3ria. Por isso a quest\u00e3o do seu significado se tornou destitu\u00edda de sentido.&#8221; Rudolf Bultmann (<em>History and Eschatology<\/em>).<\/p>\n<p>Quero fazer uma analogia entre esse Livro da Vida e um outro livro. Talvez um dos livros a que se refere Ap 20: 12. Parece que juntamente com o grande Livro encontram-se pequenos livros individuais, formando os tomos de uma grande obra.<\/p>\n<blockquote><p>Vi tamb\u00e9m os mortos, os grandes e os pequenos, postos em p\u00e9 diante do trono. Ent\u00e3o, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros.<\/p><\/blockquote>\n<p>Contemplo al\u00e9m do Livro da Vida, e vejo entre esses muitos livros um pequeno rolo de pergaminho velho, quase esquecido; modesto, mesmo: <strong>o livro da minha vida<\/strong>. &#8220;E eu chorava muito, porque ningu\u00e9m foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele&#8221;. Fechado esse livro, minha vida era vazia, confusa e sem prop\u00f3sito; e eu andava em trevas, tateando a minha exist\u00eancia.<\/p>\n<p>De fato, fechado o meu livro, n\u00e3o posso discernir a presen\u00e7a de Deus no meu passado, pois n\u00e3o tenho a perspectiva de sua atua\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o sei, hoje, quem sou, pois n\u00e3o me \u00e9 dada a perspectiva do meu lugar na hist\u00f3ria. E n\u00e3o vejo prop\u00f3sito em minha presen\u00e7a no mundo. S\u00f3 enxergo uma teia de mecanismos de afirma\u00e7\u00e3o do que n\u00e3o sou ou oculta\u00e7\u00e3o daquilo que realmente sou. Sem a leitura das p\u00e1ginas do meu livrinho, minha trajet\u00f3ria acaba por se resumir a um conjunto de enganos, desacertos, desencontros. Numa palavra, descaminho.<\/p>\n<p>Talvez por isso haja motivo para tanto choro, para tanto sentimento de desamparo entre homens e mulheres cujos livros est\u00e3o fechados. Muitos deles foram traumaticamente selados por terceiros; por meio de viol\u00eancias e abusos de toda sorte. Ou ent\u00e3o, lacrados por n\u00f3s mesmos, como forma de prote\u00e7\u00e3o contra as amea\u00e7as da vida. As tartaruguinhas que conseguiram sobreviver tornaram-se cascudas, herm\u00e9ticas e&#8230; ca\u00f3ticas. P\u00e1ginas indecifr\u00e1veis, inclusive para n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>E olhamos para nossos livros e os pranteamos com o choro mudo da noite. Solu\u00e7os inexprim\u00edveis, por sinal, porque esse pranto \u00e9 do tipo que se extravasa em sil\u00eancios. Pranteamos nossa desdita, diante da desesperan\u00e7a de dar sentido \u00e0 pr\u00f3pria vida e de v\u00ea-la, de alguma forma, redimida. Vemo-nos como uma engrenagem num universo impessoal (e isso j\u00e1 \u00e9 muita presun\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Se o livro da minha vida n\u00e3o puder ser aberto e <em>conduzido<\/em>, estou perdido na escurid\u00e3o de dias e noites sem prop\u00f3sito, sem utilidade, sem significado. Mas assim como o Livro da Vida foi aberto, o livro da minha vida pode ser aberto e visitado por Jesus. Se t\u00e3o-somente eu tiver ouvidos, ouvirei o anci\u00e3o dizer algo assim: &#8220;n\u00e3o chores; eis que o Le\u00e3o da tribo de Jud\u00e1, a Raiz de Davi, venceu para abrir o seu livro e os seus selos&#8221;. Ent\u00e3o, quando o Cordeiro for e tomar o meu min\u00fasculo livro da m\u00e3o direita daquele que est\u00e1 sentado no trono, eu me prostrarei diante dele e lhe apresentarei a minha pequena ta\u00e7a, cheia de incenso, que s\u00e3o as minhas ora\u00e7\u00f5es. Nessas ta\u00e7as estar\u00e3o tamb\u00e9m minhas confiss\u00f5es, minhas aberturas para Deus e para o pr\u00f3ximo. Gestos eloq\u00fcentes de busca de luz. Gestos que n\u00e3o ca\u00edram no esquecimento. Ao contr\u00e1rio, foram coletados em ta\u00e7as de ouro e registrados no meu pequeno livro.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, <em>cada selo<\/em> passa a ser aberto e soberanamente visitado por aquele que foi morto e que, por seu sangue, <em>comprou cada um dos meus dias para Deus<\/em>.<\/p>\n<p>As minhas inconsci\u00eancias e os meus mist\u00e9rios \u00edntimos me s\u00e3o revelados; os segredos do meu cora\u00e7\u00e3o v\u00e3o sendo visitados e sarados (1Co 14: 25). Da minha parte, disponho-me a oferecer cada dia \u00e0quele que tem o livro nas m\u00e3os. E desse modo as trevas s\u00e3o iluminadas e o caos das minhas dores \u00e9 reordenado.<\/p>\n<p>Agora, a met\u00e1fora da abertura dos selos passa a me ajudar na compreens\u00e3o dessa &#8220;tomada de poder&#8221; pelo Cordeiro sobre o livro que foi buscar nas m\u00e3os do pr\u00f3prio Deus.<\/p>\n<p>Ao retirar o primeiro selo, perceberei um cavalo branco e seu cavaleiro real que sai vencendo e para vencer (6: 1,2), e lhe direi, em prece \u2014 vem e vence em minha vida! O segundo selo revelar\u00e1 o cavalo vermelho: a falta de paz, os conflitos e flagelos pelos quais passei (6: 3,4); o terceiro selo, e seu cavalo preto, visitar\u00e1 minhas fomes, frustra\u00e7\u00f5es e estiagens; necessidades, car\u00eancias, solid\u00f5es e abandonos (6: 5,6); o quarto selo, e seu cavaleiro amarelo, revelar\u00e1 a morte e o inferno, ceifando em minha vida, pela espada, por fome, por mortandade e por meio das feras que encontrei; feras nas quais eventualmente me tornei eu mesmo (6: 7,8); o quinto selo responder\u00e1 aos clamores e sofrimentos relacionados ao testemunho do evangelho e \u00e0 espera (at\u00e9 quando?) pela justi\u00e7a de Deus (6: 9-11); o sexto selo desencadear\u00e1 as grandes transforma\u00e7\u00f5es em minha hist\u00f3ria; conduzir\u00e1 seguramente todos os seus eventos, at\u00e9 o desenlace final: a gl\u00f3ria que me est\u00e1 reservada por aquele mesmo que hoje restaura minhas p\u00e1ginas em frangalhos.<\/p>\n<p>Quando, finalmente, abrir-se o s\u00e9timo selo do meu pequeno rolo, ent\u00e3o eu ouvirei: &#8220;eis que fa\u00e7o novas todas as coisas&#8230;&#8221; (21: 5). E tudo era muito bom, pois a vida deste que chorava encheu-se do conhecimento da gl\u00f3ria do Senhor, como as \u00e1guas cobrem o mar (Hc 2: 14). Com efeito, passadas as primeiras coisas, passarei a conhecer como sou conhecido. E j\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1 l\u00e1grimas em meus olhos.<\/p>\n<p>____________________________<br \/>\nEste texto foi resumido no meu Ponto Final da <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/artigos\/314\/o-livro-da-minha-vida\">edi\u00e7\u00e3o 314<\/a>.<br \/>\nOu\u00e7a Toninho Zemuner cantar<strong> N\u00e3o Chores Mais<\/strong>, m\u00fasica inspirada nessa passagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando, finalmente, abrir-se o s\u00e9timo selo do meu pequeno rolo, ent\u00e3o eu ouvirei: &#8220;eis que fa\u00e7o novas todas as coisas&#8230;&#8221;. 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