{"id":558,"date":"2010-10-20T07:56:25","date_gmt":"2010-10-20T10:56:25","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/?p=558"},"modified":"2010-10-20T19:10:24","modified_gmt":"2010-10-20T22:10:24","slug":"vencer-na-vida-%e2%80%94-aluno-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/2010\/10\/20\/vencer-na-vida-%e2%80%94-aluno-passado\/","title":{"rendered":"Vencer na vida \u2014 aluno &#8220;passado&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/10\/Vencedor.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-559\" title=\"Vencedor\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/10\/Vencedor.jpg\" alt=\"\" width=\"80\" height=\"80\" \/><\/a>Voc\u00ea se lembra dos tempos de col\u00e9gio? Tipo primeiro grau? A \u00e9poca que eu mais gostava dessa fase infantil era o finzinho de novembro, in\u00edcio de dezembro. Mas n\u00e3o era por causa do Natal, n\u00e3o. Era por causa da escola.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, a gente j\u00e1 sabia se havia passado de ano ou n\u00e3o. Quando estava pendurado em alguma mat\u00e9ria era um sufoco. Mas quando a gente chegava ao final do ano j\u00e1 com as notas garantidas, &#8220;passado&#8221;, era uma del\u00edcia. Era uma del\u00edcia ir \u00e0 escola.<br \/>\nSim, a gente ia com uma leveza, com uma satisfa\u00e7\u00e3o imensa. Alguns colegas, ainda pendurados, chegavam cheios de livros e cadernos (sem falar em r\u00e9gua, compasso, l\u00e1pis e borracha), ansiosos para tirar d\u00favidas com a professora. Mas os &#8220;passados&#8221;\u00a0podiam se dar ao luxo de esquecer cadernos e livros, concentrando-se no mais importante: o recreio.<\/p>\n<p>Havia dias, nesse per\u00edodo, em que mam\u00e3e deixava a gente matar aula para ir \u00e0 praia. Claro, quando a gente estava passado. Mas a sensa\u00e7\u00e3o que quero descrever, aqui, \u00e9 mais percept\u00edvel na lembran\u00e7a dos dias em que ainda \u00edamos \u00e0 aula. Quando entr\u00e1vamos em f\u00e9rias o clima mudava e a sensa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. N\u00e3o era a mesma coisa. O que ficou marcado em minha mem\u00f3ria foram esses poucos dias de aula sem aulas; de professora sem professora; de mat\u00e9ria \u2014 para os coleguinhas pendurados.<\/p>\n<p>De repente, passados tantos anos, me vejo indo trabalhar tomado pelo mesmo sentimento. O que \u00e9 isso que estou sentindo? Pensei um pouco e logo identifiquei o sentimento de &#8220;aluno passado&#8221;. Olho \u00e0 minha volta e vejo os colegas mais jovens correndo, lutando, planejando, tirando atrasos, brigando com o chefe, pedindo aumento, fazendo cursos de capacita\u00e7\u00e3o e tantas outras coisas comuns ao cotidiano de qualquer trabalhador que deseje &#8220;vencer na vida&#8221;. Claro, isso ainda faz parte do meu dia-a-dia. Ainda &#8220;dou expediente&#8221;, exatamente como todos os outros. Mas eis que surge um novo, todavia antigo, sentimento l\u00e1 dentro: eu estou passado. Talvez por estarmos no fim do ano, e minha aposentadoria estar planejada para o in\u00edcio do ano que vem. E eu vou para o trabalho como ia para a escola, naqueles velhos tempos. Naquele tempo, eu ia de bicicleta para a escola p\u00fablica do bairro; hoje dirijo meu carro. Afinal, passei de ano.<\/p>\n<p>J\u00e1 tenho tempo para a aposentadoria integral. Cumpri todos os requisitos das emendas constitucionais que atrasaram esse momento em alguns anos. Uma do FHC e outra do Lula. Mas o tempo passou e agora n\u00e3o tenho mais <em>expectativa de direito<\/em>; tenho <em>direito adquirido<\/em> \u00e0 aposentadoria integral. Cumpri todas as <em>regras de transi\u00e7\u00e3o<\/em> que me colocaram no caminho. Foi como se, nos metros finais de uma maratona, a organiza\u00e7\u00e3o da prova tivesse armado aqueles cavaletes dos cem metros com barreiras. Mas, bem ou mal, pulei as barreiras e agora o &#8220;fim do ano&#8221; est\u00e1 a\u00ed, e j\u00e1 sinto o cheirinho de praia.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante pensar que esse sentimento esteve sumido por muitos anos. Na faculdade ele j\u00e1 n\u00e3o existia mais. Por certo, cheg\u00e1vamos ao fim do ano e entr\u00e1vamos em f\u00e9rias; mas j\u00e1 n\u00e3o era a mesma coisa. Continu\u00e1vamos estudando ou pensando no futuro, planejando, fazendo cursos de ver\u00e3o, trabalhando para pagar os estudos etc. Com isso, o ver\u00e3o ficou curtinho. J\u00e1 n\u00e3o durava aquela eternidade.<\/p>\n<p>Lembro-me de que, nos tempos de escola, era poss\u00edvel se esquecer do pr\u00f3ximo ano letivo, das mat\u00e9rias novas que ter\u00edamos de enfrentar, dos desafios, dos novos colegas e professores etc. Essas coisas desagrad\u00e1veis estavam t\u00e3o longe que era poss\u00edvel viver muito tempo sem sequer lembrar de sua exist\u00eancia. Era muito gostoso ir \u00e0s aulas passado, sabendo que, \u00e0 frente, existia uma eternidade de alegrias, chamada de f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que agora conseguirei esquecer que a vida continua? Ser\u00e1 que conseguirei gozar esse momento de aluno passado, que est\u00e1 prestes a entrar de f\u00e9rias, sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com o semestre que vem? Queira Deus. O &#8220;pr\u00f3ximo semestre&#8221;, lembro-me bem, quando era evocado por um adulto sem gra\u00e7a, apagava todo aquele sentimento. Era como acordar de um sonho gostoso.<\/p>\n<p>Fico pensando se, quando chegar perto da hora de minha entrada no descanso de Deus, voltarei a experimentar esse mesmo sentimento; essa mesma alegria de ainda estar trabalhando, mas j\u00e1 estar passado.<\/p>\n<p>Se daqui a alguns anos a sensa\u00e7\u00e3o voltar, saberei que quando ela me visitou pela primeira vez, n\u00e3o passava de sombra de coisas superiores e futuras. Mas essa j\u00e1 \u00e9 outra conversa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea se lembra dos tempos de col\u00e9gio? Tipo primeiro grau? A \u00e9poca que eu mais gostava dessa fase infantil era o finzinho de novembro, in\u00edcio de dezembro. Mas n\u00e3o era por causa do Natal, n\u00e3o. Era por causa da escola.<br \/>\nNesse per\u00edodo, a gente j\u00e1 sabia se havia passado de ano ou n\u00e3o. Quando estava pendurado [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[116],"tags":[],"class_list":["post-558","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/558","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=558"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/558\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":569,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/558\/revisions\/569"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=558"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=558"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=558"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}