{"id":226,"date":"2010-06-19T15:10:30","date_gmt":"2010-06-19T15:10:30","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/?p=226"},"modified":"2010-08-26T15:12:24","modified_gmt":"2010-08-26T15:12:24","slug":"falar-e-prata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/2010\/06\/19\/falar-e-prata\/","title":{"rendered":"Falar \u00e9 Prata"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/08\/Conversa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-227\" title=\"Conversa\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/08\/Conversa.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/08\/Conversa.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2010\/08\/Conversa-112x150.jpg 112w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>Este ano pretendo falar menos.<\/p>\n<p>Dizem que precisamos falar  uma cota de quinze mil palavras di\u00e1rias para manter a sanidade. Ser\u00e1 que  precisamos diz\u00ea-las mesmo que ningu\u00e9m esteja ouvindo \u2014 ou gostando? E  se a fam\u00edlia se encontrar \u00e0 noite, todos com suas cotas atrasadas? Ser\u00e1  salutar combinar de todos falarem ao mesmo tempo, s\u00f3 para zerar o saldo  devedor?<\/p>\n<p>Bem, fica decidido tamb\u00e9m  que, se eu sentir que estou entrando em crise de abstin\u00eancia, ent\u00e3o eu  passo a conversar com um gravador. Tipo &#8220;querido di\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>Falando s\u00e9rio, eu gostaria  de evitar aquela sensa\u00e7\u00e3o de \u201cm\u00fasico de churrascaria\u201d, que toca para  ningu\u00e9m (mas se faz um intervalo, o povo reclama, porque est\u00e1 pagando).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 birra, n\u00e3o (do tipo  &#8220;um dia, quando eu faltar, eles v\u00e3o ver o quanto perderam&#8221;). Na verdade,  a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 ser mais relevante no falar. E, para isso, s\u00f3 falar quando  for relevante \u2014 para quem ouve, claro (1). Bem sei que h\u00e1 momentos em  que o simples falar ajuda na descontra\u00e7\u00e3o do ambiente. N\u00e3o importa tanto  o que se est\u00e1 dizendo; a pessoa calada cria um clima dif\u00edcil. Pessoas  mais falantes costumam ser mais simp\u00e1ticas. Mas \u00e0s vezes um sorriso  resolve esse problema, sem necessidade de palavras, pois o grande  problema \u00e9 o silencioso carrancudo. H\u00e1 momentos em que \u00e9 preciso, mesmo,  &#8220;queimar parte da cota&#8221;, paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Entretanto, o prop\u00f3sito permanece, e, para viabiliz\u00e1-lo, fixo algumas metas, no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tentarei me calar quando  algu\u00e9m estiver falando. Falar junto pode trazer um clima de \u201cgrande  fam\u00edlia\u201d \u00e0 conversa, mas cai na categoria \u201cchurrascaria\u201d. Em especial,  se voc\u00ea realmente deseja ser ouvido. Um recurso usado nessa hora \u00e9  elevar a voz (90 decib\u00e9is est\u00e1 bom) para se sobrepor e fazer o outro  calar. Tipo \u201cvencer a parada\u201d (e gozar do raro prazer de completar a  frase).<\/p>\n<p>Nesse mesmo sentido, quero  aprender a me calar quando for atropelado por outros falantes. Isso  porque, mesmo que eu j\u00e1 esteja com o direito adquirido, se outro come\u00e7a a  falar antes de eu terminar a frase, minha fala j\u00e1 estar\u00e1 carimbada de  irrelevante. Tudo o que eu disser da\u00ed em diante ser\u00e1 como se eu  procurasse uma pista para aterrissar o teco-teco avariado.<\/p>\n<p>Quero ficar atento ao  interesse de meus interlocutores. Tenho a tend\u00eancia de continuar falando  s\u00f3 para completar a ideia, quando j\u00e1 est\u00e3o de costas para mim (ou  quando o grupo j\u00e1 desviou a aten\u00e7\u00e3o para outro, ainda com dez mil  palavras de saldo). Especial aten\u00e7\u00e3o aos gestos evasivos. Sou mestre em  come\u00e7ar uma grande frase (que pode se transformar em uma explica\u00e7\u00e3o ou  hist\u00f3ria) exatamente no momento em que meu interlocutor faz men\u00e7\u00e3o de se  retirar. E percebo-o voltar, por educa\u00e7\u00e3o. No caso, preciso aprender a  deix\u00e1-lo ir. Mesmo que n\u00e3o tenha outra v\u00edtima para receber o restante do  par\u00e1grafo. No caso, \u00e9 deixar o teco-teco cair e paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Essa cont\u00ednua avalia\u00e7\u00e3o,  al\u00e9m de me ensinar sobre relev\u00e2ncia, me ajudar\u00e1 a ser interessante no  falar. E a transmitir \u201cgra\u00e7a aos que ouvem\u201d (Ef 4: 29).<\/p>\n<p>Para falar menos, e ainda  assim trazer gra\u00e7a, precisarei ser mais construtivo. S\u00e3o poucos os que  se interessam por cr\u00edticas \u2014 e por cr\u00edticos \u2014, censuras, reprimendas,  exorta\u00e7\u00f5es, admoesta\u00e7\u00f5es e outras \u201cchamadas\u201d. Portanto, an\u00e1lises  impiedosamente s\u00e9rias, s\u00f3 on demand (2). E nunca em grupo, pois podem n\u00e3o interessar a todos.<\/p>\n<p>Outra ideia: linguagem  \u00e1cida ou ir\u00f4nica, s\u00f3 se for para transmitir pensamentos engra\u00e7ados. Como  recurso de veem\u00eancia ela acaba passando a impress\u00e3o de amargura. Falar  mal de pessoas, nem on demand. No caso de fatos ou acontecimentos, \u00e9 menos grave. Mas ainda assim, \u00e9 uma boa \u00e1rea para economizar palavras.<\/p>\n<p>Finalmente, investirei em  di\u00e1logos genu\u00ednos. Aqueles em que a via de m\u00e3o dupla \u00e9 bem pavimentada e  sinalizada. Nessas conversas, ali\u00e1s, os interlocutores preferem ouvir,  pois aprenderam que ganham mais assim. Mas compensarei eventuais  excessos economizando em outras \u00e1reas. Por exemplo, cortarei nas  discuss\u00f5es, em que, normalmente, todos perdem, pois todos acabam dizendo  o que n\u00e3o precisam ou n\u00e3o deveriam. E raramente algu\u00e9m ouve alguma  coisa.<\/p>\n<p>Cortarei tamb\u00e9m nas amea\u00e7as  (aqui, precisarei cuidar tamb\u00e9m do olhar). Em especial, naquelas de  natureza pat\u00e9tica, do tipo: \u201cmenino, se voc\u00ea n\u00e3o comer tudo, eu vou  embora e nunca mais volto\u201d. &#8220;Se voc\u00ea n\u00e3o me der o que eu quero, eu pulo  desta ponte, e voc\u00ea ter\u00e1 que viver o resto da vida com essa culpa&#8221;. Em  vez de amea\u00e7ar, procurarei agir construtivamente. Deus h\u00e1 de me  orientar.<\/p>\n<p>Economizarei tamb\u00e9m em  broncas, desabafos ego\u00edstas e em conselhos n\u00e3o solicitados. Palavras  que, se economizadas, n\u00e3o far\u00e3o falta a ningu\u00e9m, exceto a mim mesmo,  que, por algum mecanismo perverso, preciso diz\u00ea-las (como se me sentisse  melhor, ap\u00f3s o derrame insensato).<\/p>\n<p>Pedirei a Deus que me ensine a encontrar mais prazer no ouvir do que no falar.<\/p>\n<p>Fui convidado a pregar numa  grande igreja. Noite de muita agita\u00e7\u00e3o. Caravanas chegando. Mais de  cinco mil lugares. Comecei o serm\u00e3o e o movimento continuava. Era uma  noite de celebra\u00e7\u00e3o, de reuni\u00e3o de todas as congrega\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Eu ainda saudava a igreja  quando chegou um pol\u00edtico, em campanha eleitoral, com seu s\u00e9quito. Como  eram evang\u00e9licos, foram convidados a subir ao grande p\u00falpito, o que  gerou um movimento muito grande atr\u00e1s de mim. E eu j\u00e1 n\u00e3o sabia se o  povo olhava para mim ou para o candidato e seus ajudantes.<\/p>\n<p>Terminei a leitura b\u00edblica e  ainda havia gente arrastando cadeiras, para acomodar a comitiva  ilustre. Temendo estar falando sozinho, resolvi fazer um teste: ergui a  voz e disse: \u201cE que Deus, assim, nos aben\u00e7oe \u2014 am\u00e9m, irm\u00e3os?!\u201d. E ouvi  um grande am\u00e9m. Fechei minha B\u00edblia e passei a palavra ao pastor.  Ningu\u00e9m estranhou. Acho que fui construtivo.<\/p>\n<p>O que guarda a boca e a l\u00edngua guarda a sua alma das ang\u00fastias (Pv 21:23).<br \/>\n&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<br \/>\n1 &#8230;calar \u00e9 ouro.<br \/>\n2 a pedido.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este ano pretendo falar menos.<br \/>\nDizem que precisamos falar  uma cota de quinze mil palavras di\u00e1rias para manter a sanidade. Ser\u00e1 que  precisamos diz\u00ea-las mesmo que ningu\u00e9m esteja ouvindo \u2014 ou gostando? E  se a fam\u00edlia se encontrar \u00e0 noite, todos com suas cotas atrasadas? 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