{"id":2025,"date":"2025-06-04T12:53:01","date_gmt":"2025-06-04T15:53:01","guid":{"rendered":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/?p=2025"},"modified":"2025-06-04T12:53:01","modified_gmt":"2025-06-04T15:53:01","slug":"os-jardins-do-eden-e-a-sombra-de-abel-uma-jornada-pela-aposentadoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/2025\/06\/04\/os-jardins-do-eden-e-a-sombra-de-abel-uma-jornada-pela-aposentadoria\/","title":{"rendered":"Os Jardins do \u00c9den e a Sombra de Abel: uma jornada pela aposentadoria"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2025\/06\/Os-Jardins-do-Eden_pt1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2027\" src=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2025\/06\/Os-Jardins-do-Eden_pt1-300x222.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"222\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2025\/06\/Os-Jardins-do-Eden_pt1-300x222.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2025\/06\/Os-Jardins-do-Eden_pt1.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Anos se passaram desde que a decis\u00e3o crucial foi tomada. Lembro-me vividamente daquele per\u00edodo, marcado pela leitura de &#8220;Aprender a Envelhecer&#8221;, de Paul Tournier. N\u00e3o era uma leitura comum; era um di\u00e1logo profundo, uma conversa lenta onde eu pedia licen\u00e7a ao autor para parar, pensar e voltar com perguntas e inquieta\u00e7\u00f5es. \u00c9ramos companheiros de jornada, Paul um pouco \u00e0 frente, j\u00e1 na fase de s\u00ednteses existenciais, que ele compartilhava generosamente em seu livro, abordando as alegrias, inquieta\u00e7\u00f5es e temores da aposentadoria.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, rec\u00e9m-chegado a essa nova &#8220;esta\u00e7\u00e3o da vida&#8221;, as hist\u00f3rias que Paul relatava, e as que eu ouvia ao meu redor, ecoavam em minha alma. Havia o relato de amigos que se perderam ao se aposentar. Um deles descreveu a experi\u00eancia como &#8220;terr\u00edvel&#8221;, confessando que nunca imaginou que seria &#8220;t\u00e3o duro&#8221;. Sua reflex\u00e3o me tocou profundamente: &#8220;Nada \u00e9 pior para o homem do que perder a possibilidade de brilhar!&#8221;. Conversamos sobre essa condi\u00e7\u00e3o humana, essa necessidade intr\u00ednseca de sentir-se \u00fatil, relevante. Aquele amigo, rapidamente, encontrou um jeito de &#8220;voltar \u00e0 ativa&#8221;, um &#8220;trabalhinho de classifica\u00e7\u00e3o&#8221; que o fez reviver, resplandecente, encontrando em uma modesta possibilidade de brilho o suficiente para se transfigurar. Mas, mesmo assim, pairava a sensa\u00e7\u00e3o de que o problema estava apenas adiado, sem uma solu\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n<p>E havia o fantasma do &#8220;pijama assassino&#8221;. Tr\u00eas anos antes de assinar minha &#8220;Lei \u00c1urea&#8221;, como eu carinhosamente apelidei a decis\u00e3o de me aposentar, ouvi muita gente falar sobre ele. A recomenda\u00e7\u00e3o generalizada era clara: &#8220;n\u00e3o pare&#8221;. Vestir o pijama assassino significava marcar um encontro indesejado com enfermidades, solid\u00e3o, senilidade e, por fim, a morte. A lista de ex-colegas que se aposentaram &#8220;totalmente&#8221;, passando a viver em casa, assistindo &#8220;sess\u00e3o da tarde&#8221; e lendo livros, e que muitos j\u00e1 haviam morrido, alimentava esse temor.<\/p>\n<p>Mas Paul Tournier tamb\u00e9m apresentava casos de quem n\u00e3o se deu t\u00e3o mal. Lembro-me da hist\u00f3ria de outro amigo, vibrante, que declarou: &#8220;Aposentadoria? Nunca estive t\u00e3o ocupado como estou desde que me aposentei!&#8221;. Sua reflex\u00e3o complementar, que ressoou com meus pr\u00f3prios pensamentos enquanto lia, era manter a rotina de se levantar cedo, &#8220;na mesma hora em que se levantava para ir ao escrit\u00f3rio&#8221;. Perfeito, de certa forma, mas o coment\u00e1rio de Tournier, com o qual eu concordava, sublinhava que, mesmo nesse caso, tratava-se de um &#8220;adiamento&#8221;. Um adiamento mais v\u00e1lido, sim, mas ainda assim um adiamento. Esse homem, embora administrativamente aposentado, continuava produtivo, trocando a fun\u00e7\u00e3o de diretor por outras responsabilidades. Quem sabe, pens\u00e1vamos, a aposentadoria real, de fato, ainda chegaria para ele.<\/p>\n<p>Aquilo me fez pensar: era exatamente o que meus amigos e colegas me sugeriam h\u00e1 tr\u00eas anos: aposentar-se sem se aposentar. E eu me perguntava, e ainda me pergunto, se isso realmente &#8220;vale&#8221;. Aposentar-se para seguir fazendo a mesma coisa&#8230; isso seria sinal de um amor profundo pelo que se fazia, ou de uma total falta de ideia do que mais poderia ser feito? A met\u00e1fora que me vinha \u00e0 mente era a do escravo rec\u00e9m-alforriado. Com sua liberdade rec\u00e9m-conquistada, o que faria ele? Pediria ao antigo dono para ser recontratado como trabalhador?<\/p>\n<p>Como servidor p\u00fablico, eu poderia ter postergado a assinatura da minha pr\u00f3pria &#8220;Lei \u00c1urea&#8221; at\u00e9 a aposentadoria compuls\u00f3ria, a &#8220;expuls\u00f3ria&#8221; dos setenta anos. Mas decidi encarar a decis\u00e3o logo. Meu receio maior era que, por medo, eu permanecesse no trabalho apenas para ser varrido &#8220;na pazinha de lixo&#8221; quando a idade me alcan\u00e7asse. Naquele momento futuro, eu teria menos condi\u00e7\u00f5es de aproveitar o tempo de aposentadoria, t\u00e3o esperado por uns e t\u00e3o temido por tantos. Sairia a contragosto, sem nenhum &#8220;projeto de vida&#8221; e, pior, sem a energia dos sessenta anos. Isso, sim, seria ter um encontro marcado, e inevit\u00e1vel, com o tem\u00edvel &#8220;pijama assassino&#8221;, apenas que mais tarde. Naquelas conversas imagin\u00e1rias com Paul Tournier, eu me convencia de que havia tomado a decis\u00e3o correta ao sair enquanto ainda tinha energia. O lamento era n\u00e3o ter planejado esse momento antes, a partir dos quarenta e cinco ou cinquenta. J\u00e1 era, mas a oportunidade de correr atr\u00e1s do preju\u00edzo ainda existia, planejando a partir de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquele in\u00edcio, uma ideia martelava em minha cabe\u00e7a, estranha e instigante: o \u00c9den. Eu via meus amigos, que sempre sonharam com a aposentadoria, agora morrendo de medo dela. Eles sonhavam com o dia em que voltariam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as em f\u00e9rias escolares. E eu, concordando em parte, pensava que a aposentadoria era como Deus me trazendo de volta ao \u00c9den. E a pergunta divina ecoava: &#8220;como voc\u00ea vai viver, agora, neste jardim que lhe preparei?&#8221;. Finalmente, eu havia chegado ali. N\u00e3o era mais preciso &#8220;lutar pela vida&#8221;, estava livre das exig\u00eancias do &#8220;suor do seu rosto&#8221;. Agora, a chance de viver no jardim, do jeito que eu quisesse. Mas como fazer isso? Deixar o mato crescer? Viver num eterno parque de divers\u00f5es? Sentar-se \u00e0 beira de um riacho e simplesmente deixar o tempo passar at\u00e9 ser recolhido aos meus pais?<\/p>\n<p>Essa era a dificuldade para algu\u00e9m com uma personalidade que eu reconheci como &#8220;orientada por objetivos&#8221;. Vontades e sonhos raramente tiveram prioridade; o que contava eram os embates imediatos e os projetos. Essa configura\u00e7\u00e3o, embora fizesse de mim um realizador no mundo do trabalho, gerava um impasse no \u00c9den. Diante da pergunta sobre o que eu desejava fazer, eu respondia, quase instintivamente, &#8220;O que h\u00e1 para fazer? Quais s\u00e3o as op\u00e7\u00f5es?&#8221;. Fugia do verbo &#8220;desejar&#8221;, sempre problem\u00e1tico para quem foi &#8220;soldado a vida toda&#8221;. A oferta de liberdade plena \u2013 &#8220;Qualquer coisa. Voc\u00ea \u00e9 livre para escolher o que mais desejar. Agora poder\u00e1 realizar seus sonhos&#8221; \u2013 soava quase alien\u00edgena. Desejar? Sonhos? Como assim?<\/p>\n<p>Diante dessa dificuldade, a solu\u00e7\u00e3o mais \u00f3bvia parecia ser continuar a fazer o que fazia antes. Mas nem isso era simples, pois a motiva\u00e7\u00e3o havia mudado. Na batalha pela vida, na busca por sustento, seguran\u00e7a, realiza\u00e7\u00e3o, reconhecimento, a motiva\u00e7\u00e3o estava embutida na necessidade. Havia coisas a realizar, sacrif\u00edcios a enfrentar, avalia\u00e7\u00f5es de utilidade e custo\/benef\u00edcio. Mas e agora, no \u00c9den, onde o &#8220;n\u00e3o fazer nada&#8221; era uma possibilidade real? Seria desej\u00e1vel? Seria bom?<\/p>\n<p>Lembrei-me de colegas que sonharam a vida toda com uma casinha na praia, sossego total, e voltaram em menos de um ano, com grandes preju\u00edzos. Disseram que era uma ilus\u00e3o, que a realidade era mais dura e menos rom\u00e2ntica. Ficou claro que, a partir de ent\u00e3o, seriam necess\u00e1rias novas raz\u00f5es para fazer as coisas. Antes, aprender uma nova l\u00edngua era impulsionado por valoriza\u00e7\u00e3o curricular, carreira, sal\u00e1rio, promo\u00e7\u00f5es, oportunidades. Agora, por que me lan\u00e7ar a isso? Talvez por aprimoramento pessoal? Pelo simples prazer de aprender? Para viabilizar viagens ou cursos no exterior? A pergunta utilit\u00e1ria persistia, mas com um drama existencial adicionado: isso \u00e9 o melhor que posso conceber para ocupar o tempo que me resta? Havia uma sensa\u00e7\u00e3o de que, agora, voc\u00ea n\u00e3o podia mais errar. \u00c9 como o investidor que deseja poupar para sua velhice, mas que j\u00e1 n\u00e3o tem \u201ctempo para juros compostos\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo o ato simples de ler, que eu nunca amei particularmente, era antes movido pela necessidade do resultado: aprender e saber para garantir sal\u00e1rio, rela\u00e7\u00f5es sociais, identidade. Tudo muito pr\u00e1tico, ligado \u00e0 seguran\u00e7a e sobreviv\u00eancia. Mas agora que a depend\u00eancia desses mecanismos diminu\u00edra, por que continuar lendo livros t\u00e9cnicos ou cient\u00edficos? Adotei uma nova m\u00e1xima: &#8220;livro \u00e9 como namorado(a): se come\u00e7ar a dar muito trabalho, fecha e sai para outro&#8221; (que pensamento horr\u00edvel!). Essa mentalidade, orientada por objetivos e refor\u00e7ada pela busca constante por resultados (para o chefe, a esposa, a fam\u00edlia, o pastor), confrontava-se com a consci\u00eancia no \u00c9den de que eu n\u00e3o precisava mais fazer essas coisas. A quest\u00e3o persistia: o que fazer ent\u00e3o? Seria preciso, finalmente, enfrentar a pergunta sobre o que eu desejava, sobre meus sonhos, para evitar que o mato crescesse no meu peda\u00e7o do jardim? A verdade era que os fatores de motiva\u00e7\u00e3o precisavam, e j\u00e1 haviam em parte mudado, pois os antigos motivadores n\u00e3o moviam mais o moinho. Era crucial encontrar novas inspira\u00e7\u00f5es e desafios, que realmente me inspirassem e desafiassem. Caso contr\u00e1rio, o pijama assassino continuaria \u00e0 espreita. Essa reflex\u00e3o, t\u00e3o pessoal, parecia quase incomunic\u00e1vel. Como dormir com um barulho desses?<\/p>\n<p>(Concluirei toda esta hist\u00f3ria em novo texto, que intitularei: Abel e Zacarias: encontrando miss\u00e3o na aposentadoria avan\u00e7ada, onde falarei do meu presente, da minha \u201caposentadoria avan\u00e7ada\u201d)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora, a chance de viver no jardim, do jeito que eu quisesse. 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