{"id":1821,"date":"2020-07-28T08:00:24","date_gmt":"2020-07-28T11:00:24","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/?p=1821"},"modified":"2020-07-28T08:02:21","modified_gmt":"2020-07-28T11:02:21","slug":"a-gente-somos-inutil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/2020\/07\/28\/a-gente-somos-inutil\/","title":{"rendered":"A gente somos in\u00fatil"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2020\/07\/Plantinha.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1822\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2020\/07\/Plantinha-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"511\" height=\"383\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2020\/07\/Plantinha-300x225.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2020\/07\/Plantinha-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2020\/07\/Plantinha-768x576.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2020\/07\/Plantinha-732x549.jpg 732w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2020\/07\/Plantinha-1140x855.jpg 1140w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2020\/07\/Plantinha.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 511px) 100vw, 511px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minha conversa com meu pai, hoje (24\/7), foi sobre nossa inutilidade para Deus.<\/p>\n<p>Tenho conversado com ele todos os dias, desde 2013, quando minha m\u00e3e morreu. Bras\u00edlia-Curitiba, videoconfer\u00eancias, via FaceTime.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que temos conversado sobre nossa velhice. V\u00ea se pode, n\u00f3s dois idosos, conversando sobre audi\u00e7\u00e3o, zumbido, limita\u00e7\u00f5es, dores, exerc\u00edcios, alimenta\u00e7\u00e3o, \u201ccuidado com o tombo na banheira\u201d e coisas assim.<\/p>\n<p>Hoje ele disse que est\u00e1 cansado. Pudera, a pandemia agrava qualquer quadro de idade e solid\u00e3o. E como o isolamento vai se estendendo al\u00e9m do imaginado, surge o des\u00e2nimo com a vida.<\/p>\n<p>Mas o ponto dele era mais profundo. Perguntou por que Deus n\u00e3o nos leva, assim que paramos de produzir. Usou essas palavras.<\/p>\n<p>Com naturalidade, eu lhe perguntei se ele se sentia in\u00fatil. Ele respondeu que sim; que, aos 91 anos, pouco poder\u00e1 fazer por Deus, e ser\u00e1 cada vez mais pesado para os filhos e amigos.<\/p>\n<p>Nesse momento, ocorreu-me que n\u00f3s \u00e9ramos, ele e eu, in\u00fateis um para o outro. E s\u00f3 t\u00ednhamos a sustentar essa longa s\u00e9rie de conversas matinais nossa vontade de estar um com o outro. Mas tamb\u00e9m, de repente, demo-nos conta de que, de um modo diferente, agora somos amigos.<\/p>\n<p>Acho interessante como as utilidades que um dia existiram, de parte a parte, foram desaparecendo com as limita\u00e7\u00f5es da idade; foram sendo vencidas pelo tempo. Antigamente, ele era meu pai; e eu talvez o amasse porque ele era provedor, juiz e premiador. Eu tinha interesse, certamente inconsciente, em agrad\u00e1-lo, em deix\u00e1-lo orgulhoso de mim, ao chegar em casa com boas notas, em lavar o carro, recolher o lixo e coisas assim. Em ser um bom filho, enfim. Talvez eu agisse como o salmista: \u201cAmo o Senhor, porque ele ouve a minha voz e as minhas s\u00faplicas. Porque inclinou para mim os seus ouvidos, invoc\u00e1-lo-ei enquanto eu viver\u201d (Sl 116: 1, 2). E se ele deixar de ouvir minha voz, eu deixo de am\u00e1-lo? E se ele deixar de inclinar para mim os seus ouvidos, deixo de invoca-lo? Quest\u00f5es impertinentes para o salmista.<\/p>\n<p>Por outro lado, a rela\u00e7\u00e3o de meu pai comigo tamb\u00e9m tinha a ver com utilidade: \u201co que voc\u00ea vai ser, quando crescer?\u201d. N\u00e3o sei o quanto do seu amor por mim estava ligado a essa perspectiva futura de eu poder orgulh\u00e1-lo com uma carreira profissional de destaque, com realiza\u00e7\u00f5es pessoais que fizessem justi\u00e7a ao seu esfor\u00e7o para me prover alimenta\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o e estudos. Ou talvez ainda de poder assisti-lo na sua velhice. Em tempos passados, um pai festejava quando lhe nascia um filho, porque significava mais um bra\u00e7o para segurar uma enxada ou uma espada. J\u00e1 uma filha, em muitos casos, era motivo de desapontamento.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, quando meu pai me abordou teologicamente, hoje cedo, sobre a raz\u00e3o por que Deus n\u00e3o nos leva, \u201cquando deixamos de lhe ser \u00fateis\u201d, todos esses pensamentos me vieram \u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Entretanto, ali est\u00e1vamos, encontrando-nos, virtualmente, e conversando um com o outro. Seria por causa de algum compromisso? Ou porque um filho n\u00e3o abandona o pai? Porque deve honrar pai e m\u00e3e? Bem, esses pensamentos nos levaram a considerar que ainda que sejamos in\u00fateis para Deus, sabemos que ainda assim ele nos ama. Sua palavra nos ensina que ele nos amou quando ainda lhe \u00e9ramos inimigos! E isso faz sentido, porque n\u00e3o h\u00e1 nada que possamos lhe oferecer que ele j\u00e1 n\u00e3o tenha. Nossa utilidade pessoal para ele talvez consista em participarmos, como cooperadores, de seu projeto de reconcilia\u00e7\u00e3o. (2Co 5,20-6,1). Mas at\u00e9 nisso sabemos que se de todo nos calarmos, ele pode fazer as pedras falarem. Logo, essa coopera\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser a raz\u00e3o de seu interesse por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por que ele ainda nos ama? Ser\u00e1 que, se todas as perspectivas interesseiras e utilit\u00e1rias nos fossem tiradas \u2014 e tamb\u00e9m o medo que eventualmente tenhamos dele \u2014 nosso amor desapareceria?<\/p>\n<p>N\u00e3o precisei recorrer ao livro de J\u00f3, onde esse desafio aparece na boca de Satan\u00e1s, em forma de acusa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, bastou olhar para n\u00f3s mesmos, naquele momento, diante da tela do computador. Est\u00e1vamos ali, como temos estado h\u00e1 anos, dia ap\u00f3s dia, por um \u00fanico motivo: porque somos amigos. Porque eu gosto dele e ele gosta de mim. Queremos estar um com o outro; gostamos dessa visita matinal. Sen\u00e3o j\u00e1 ter\u00edamos encontrado uma desculpa socialmente aceit\u00e1vel para interromper, ou, pelo menos, \u201cespa\u00e7ar\u201d as chamadas. H\u00e1 dias, inclusive, em que ele n\u00e3o consegue ouvir bem o que estou dizendo. Seu aparelho de surdez fica desregulado. Desligamos? N\u00e3o. Se combinamos meia hora, ficamos ali meia hora. A conversa fica mais para silenciosa.<\/p>\n<p>Tem crescido entre n\u00f3s uma plantinha que n\u00e3o existia quando \u00e9ramos pai e filho. Uma plantinha p\u00f3s-utilidade. Com sua flor de afeto.<\/p>\n<p>Posso nem saber do que estou falando, mas, olhando para isso tudo, respondi a ele assim: papai, Deus n\u00e3o o levou, at\u00e9 agora, porque h\u00e1 uma plantinha que ainda falta florescer entre voc\u00eas dois. E ela n\u00e3o tem nada a ver com sua capacidade de produzir, nem com as b\u00ean\u00e7\u00e3os que ele possa lhe dar, em troca. Tem a ver com amizade. Uma amizade que se inicia aqui e, quem sabe, se desenvolver\u00e1 e se tornar\u00e1 plena no porvir. Mas acho que ela precisa come\u00e7ar aqui. Ela precisa nascer e crescer neste tempo, debaixo do sol. E agora voc\u00ea est\u00e1 sozinho; e n\u00e3o tem ningu\u00e9m que possa ser amigo dele, em seu lugar. Agora \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea e ele. \u00c9 hora de am\u00e1-lo e de se deixar amar por ele de um modo novo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem crescido entre n\u00f3s uma plantinha que n\u00e3o existia quando \u00e9ramos pai e filho. Uma plantinha p\u00f3s-utilidade. 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