{"id":1404,"date":"2014-08-25T07:57:59","date_gmt":"2014-08-25T10:57:59","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/?p=1404"},"modified":"2014-08-26T16:12:42","modified_gmt":"2014-08-26T19:12:42","slug":"me-aposentei-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/2014\/08\/25\/me-aposentei-e-agora\/","title":{"rendered":"Me aposentei. E agora?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2014\/08\/Rubem_25_08_14_Arvore_outono.jpg\"><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1405\" alt=\"Rubem_25_08_14_Arvore_outono\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2014\/08\/Rubem_25_08_14_Arvore_outono.jpg\" width=\"454\" height=\"303\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2014\/08\/Rubem_25_08_14_Arvore_outono.jpg 454w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2014\/08\/Rubem_25_08_14_Arvore_outono-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2014\/08\/Rubem_25_08_14_Arvore_outono-150x100.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 454px) 100vw, 454px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estou lendo o livro <a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/preciso-saber-envelhecer\/\">\u00c9 Preciso Saber Envelhecer<\/a>, de Paul Tournier (Editora Ultimato). Talvez seja uma das leituras mais dialogadas que j\u00e1 fiz. A leitura segue lenta, por causa desse di\u00e1logo. De tempos em tempos eu pe\u00e7o licen\u00e7a ao autor para dar uma volta. Fecho o livro e vou pensar. Quando volto, tenho algumas perguntas e inquieta\u00e7\u00f5es na cabe\u00e7a, e come\u00e7o a ler como quem procura respostas nas experi\u00eancias dele.<\/p>\n<p>\u00c9 que estou vivendo a mesma esta\u00e7\u00e3o da vida que o Paul. Talvez um pouquinho atr\u00e1s, o que me d\u00e1 a vantagem de encontr\u00e1-lo j\u00e1 em fase de s\u00ednteses existenciais. E uma delas ele re\u00fane em seu livro, pensando, basicamente, sobre a experi\u00eancia da aposentadoria, com suas alegrias, inquieta\u00e7\u00f5es e temores.<\/p>\n<p>At\u00e9 onde j\u00e1 li, ele relata experi\u00eancias de quem se perdeu, ao se aposentar.<\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"left\">\u201c\u00c9 terr\u00edvel\u201d \u2014 responde \u2014, \u201cestou aposentado h\u00e1 tr\u00eas meses! Nunca pensei que fosse t\u00e3o duro.\u201d E acrescentou uma reflex\u00e3o que me tocou profundamente, porque eu estava escrevendo este livro: \u201cNada \u00e9 pior para o homem do que perder a possibilidade de brilhar!\u201d E conversamos um pouco sobre a condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Esse amigo rapidamente deu um jeito de voltar \u00e0 ativa.<\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"left\">Algumas semanas depois eu o encontrei no mesmo lugar: \u201cE ent\u00e3o, como v\u00e3o as coisas?\u201d. Vivaz, resplandecente, respondeu-me: \u201cMuito bem! O banco onde eu trabalhava precisa organizar um trabalhinho de classifica\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o me pediram para ir algumas horas por dia. \u00c9 uma grande sorte\u201d. Cumprimentei-o, naturalmente, e alegrei-me por ele. Tamb\u00e9m experimentei admira\u00e7\u00e3o por esse homem, capaz de encontrar t\u00e3o facilmente novo impulso para um trabalho que, h\u00e1 pouco, deixara para outro mais jovem; na verdade, contentava-se com uma modesta possibilidade de brilho; pouca coisa bastava para transfigur\u00e1-lo. Mas, por quanto tempo? O problema estava adiado, \u00e9 verdade, mas sem verdadeira solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Estou aposentado h\u00e1 tr\u00eas anos. \u00c0s v\u00e9speras da decis\u00e3o, ouvi muita gente falar do \u201cpijama assassino\u201d. Recomendam a voc\u00ea que n\u00e3o pare, porque vestir esse pijama \u00e9 marcar um encontro com enfermidades, solid\u00e3o, senilidade e, finalmente, a morte. E l\u00e1 vem a lista de ex-colegas que se aposentaram &#8220;totalmente&#8221;: passaram a viver em casa, assistindo &#8220;sess\u00e3o da tarde&#8221; e lendo livros. Muitos j\u00e1 morreram.<\/p>\n<p>Mas Paul Tournier conta tamb\u00e9m de gente que n\u00e3o se deu t\u00e3o mal:<\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"left\">\u201cAposentadoria? Nunca estive t\u00e3o ocupado como estou desde que me aposentei!\u201d \u2014 disse-me. E acrescentou, ele tamb\u00e9m, uma reflex\u00e3o: \u201cO fundamental \u00e9 continuar se levantando pela manh\u00e3 na mesma hora em que se levantava para ir ao escrit\u00f3rio\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Entretanto, o coment\u00e1rio que ele faz sobre esse caso, bate com o que eu pensava, enquanto lia:<\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"left\">Perfeito, mas tamb\u00e9m neste caso h\u00e1 um adiamento; certamente mais v\u00e1lido do que o anterior, mas um adiamento: esse homem t\u00e3o ativo e feliz est\u00e1 aposentado apenas do ponto de vista administrativo, porque na verdade continua produtivo; deixou o seu cargo de diretor, mas assumiu outras responsabilidades. Quem sabe algum dia a aposentadoria chegue, de fato, para ele.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>E eu pensei: \u00e9 o que meus amigos e colegas me sugeriam h\u00e1 tr\u00eas anos: aposentar-se sem se aposentar. E acho que assim n\u00e3o vale. Ou vale? Aposentar-se para continuar fazendo a mesma coisa \u00e9 sinal de que gostava muito do que fazia ou de que n\u00e3o tem a menor ideia do que gostaria de fazer? Fica para mim meio que como um escravo rec\u00e9m-alforriado. O que ele vai fazer com sua liberdade? Pedir ao antigo dono para aceit\u00e1-lo como trabalhador?<\/p>\n<p>Como servidor p\u00fablico, eu poderia ter postergado a assinatura da minha \u201cLei \u00c1urea\u201d at\u00e9 a famosa \u201cexpuls\u00f3ria\u201d; a aposentadoria obrigat\u00f3ria, que acontece aos setenta anos. Mas decidi encar\u00e1-la logo. Meu receio era de, por medo, permanecer no trabalho, para sair \u201cna pazinha de lixo\u201d, quando algu\u00e9m varresse a minha sala. Estou querendo dizer que, naquele momento, eu terei menos condi\u00e7\u00f5es de aproveitar o tempo de aposentadoria. T\u00e3o esperada por alguns e t\u00e3o temida por tantos. Sairia do servi\u00e7o a contragosto e sem nenhum \u201cprojeto de vida\u201d e, pior, sem as energias que tinha aos sessenta anos. Ou seja, teria um encontro marcado com o tem\u00edvel \u201cpijama assassino\u201d. S\u00f3 que mais tarde.<\/p>\n<p>A essas alturas das minhas conversas imagin\u00e1rias com o Paul Tournier, estou convencido de que tomei a decis\u00e3o correta. \u00c9 melhor agora, enquanto tenho energia. No entanto, o autor me sugere o que j\u00e1 n\u00e3o posso fazer: planejar esse momento, a partir dos quarenta e cinco, cinquenta. J\u00e1 era. Mas posso faz\u00ea-lo agora. Posso correr atr\u00e1s do preju\u00edzo.<\/p>\n<p>Considero, tamb\u00e9m, que minha condi\u00e7\u00e3o de crente de igreja me d\u00e1 muito das condi\u00e7\u00f5es que o autor sugere para essa nova fase da vida. Para algu\u00e9m que vive em comunidade, com toda a sua din\u00e2mica, exig\u00eancias, car\u00eancias e necessidades, sempre haver\u00e1 uma <b>miss\u00e3o<\/b>. Na verdade, a seara \u00e9 imensa, maior do que tudo o que pudermos fazer. Se eu quiser me envolver com a \u201cmiss\u00e3o Jerusal\u00e9m\u201d, pensando somente em minha fam\u00edlia e na igreja local, n\u00e3o me sobrar\u00e1 tempo para pensar no pijama novo. E sem quebra de continuidade. Talvez, sim, eu possa pensar em ajustes.<\/p>\n<p>Ajustes? Neste ponto, coloquei o marcador no livro e o fechei. Penso nisso, com calma, e volto mais tarde.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o volto \u00e0 leitura, uma ideia me martela a cabe\u00e7a: o \u00c9den. Parece que meus amigos que sempre sonharam com a aposentadoria, agora morrem de medo dela. Sempre sonharam com aquele dia em que voltariam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as. Crian\u00e7as de f\u00e9rias escolares. E eu, concordando, penso que Deus me trouxe de volta ao \u00c9den. E me pergunta: como voc\u00ea vai viver, agora, neste jardim que lhe preparei? Finalmente, voc\u00ea chegou aqui. Agora voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o precisa mais \u201clutar pela vida\u201d, est\u00e1 livre das exig\u00eancias do \u201csuor do seu rosto\u201d. Agora voc\u00ea tem a chance de viver no meu jardim, do jeito que quiser. Como vai fazer isso? Vai deixar o mato crescer? Vai viver num eterno parque de divers\u00f5es? Vai se sentar \u00e0 beira de um riacho e deixar o tempo passar?<\/p>\n<p>Bem, deixe-me voltar \u00e0 leitura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\nEstou lendo o livro \u00c9 Preciso Saber Envelhecer, de Paul Tournier (Editora Ultimato). Talvez seja uma das leituras mais dialogadas que j\u00e1 fiz. A leitura segue lenta, por causa desse di\u00e1logo. De tempos em tempos eu pe\u00e7o licen\u00e7a ao autor para dar uma volta. Fecho o livro e vou pensar. 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