{"id":1202,"date":"2013-01-23T09:45:55","date_gmt":"2013-01-23T12:45:55","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/?p=1202"},"modified":"2013-01-23T11:36:13","modified_gmt":"2013-01-23T14:36:13","slug":"marionetes-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/2013\/01\/23\/marionetes-de-deus\/","title":{"rendered":"Marionetes de Deus?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2013\/01\/Crack2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1213\" title=\"Crack2\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2013\/01\/Crack2-300x185.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"185\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2013\/01\/Crack2-300x185.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2013\/01\/Crack2-150x92.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/files\/2013\/01\/Crack2.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Aproveitando a pol\u00eamica decis\u00e3o do governo paulista de internar usu\u00e1rios de <em>crack<\/em> \u00e0 for\u00e7a, gostaria de voltar a pensar sobre um problema que j\u00e1 travessa s\u00e9culos \u2014 uma disputa entre os arminianos e os calvinistas. Correndo todos os riscos da simplifica\u00e7\u00e3o, descrevo-a assim: se Deus \u00e9 soberano (como afirmam os calvinistas), o homem n\u00e3o tem livre-arb\u00edtrio; \u00e9 marionete de Deus. Se, por outro lado, o homem pode rejeitar a Deus, e inclusive perder sua salva\u00e7\u00e3o (como afirmam os arminianos), ent\u00e3o, como fica Sua soberania? A disputa vai longe, uma vez que os dois lados (arminianos e calvinistas) est\u00e3o munidos de versos b\u00edblicos perfeitamente contextualizados.<\/p>\n<p>Louis Berckhof nos sugere que <em>se duas afirma\u00e7\u00f5es b\u00edblicas, em seus contextos, parecerem contradit\u00f3rias entre si, afirme as duas, pois elas se resolvem em plano superior<\/em>. Um exemplo \u00e9 o texto de Paulo aos Romanos, 9 a 11, onde ele contrap\u00f5e a responsabilidade de Israel \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de sua soberania aplicada ao caso de Esa\u00fa e Jac\u00f3.<\/p>\n<p>Os arminianos e calvinistas mais combativos n\u00e3o seguem o conselho de Berckhof. Escolhem um lado e lutam por ele, apaixonadamente. Talvez essa paix\u00e3o explique o fato de ainda n\u00e3o termos chegado a uma melhor compreens\u00e3o do tema, tachando-o, quando muito, de paradoxal, ou de insol\u00favel. A Confiss\u00e3o de F\u00e9 de Westminster afirma, em uma mesma frase, que o homem est\u00e1 morto para escolher, mas tem livre-arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>Assim, \u00e0 busca do referido \u201cplano superior\u201d, compartilho meu modo de ver esse problema. E j\u00e1 pergunto: e se Deus, em sua miseric\u00f3rdia e soberania, determinasse que o homem poderia decidir sobre am\u00e1-lo ou rejeit\u00e1-lo? E se Deus nos tivesse feito assim, considerando isso o cerne da \u201cimagem e semelhan\u00e7a\u201d? Uma criatura absolutamente livre, no que concerne \u00e0 sua possibilidade de am\u00e1-lo ou n\u00e3o? Nesse caso, qualquer que fosse a resposta humana, estaria dentro das possibilidades previstas (e determinadas) pelo Criador. Pois bem, entendo que o G\u00eanesis nos relata exatamente isso. E essa compreens\u00e3o se reflete na pr\u00f3pria Confiss\u00e3o de Westminster, cap\u00edtulo III: <em>&#8220;de modo que nem Deus \u00e9 o autor do pecado, nem violentada \u00e9 a vontade da criatura, nem \u00e9 tirada a liberdade ou conting\u00eancia das causas secund\u00e1rias, antes estabelecidas&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p>Resta, no entanto, um embara\u00e7o b\u00edblico: Ef\u00e9sios 2 nos diz que o uso que fizemos (em Ad\u00e3o) da liberdade nos levou a uma escravid\u00e3o tal que, se Ad\u00e3o foi livre um dia, o mesmo n\u00e3o ocorre conosco. O homem natural \u00e9 escravo do pecado, de forma que sua vontade est\u00e1 aprisionada.<\/p>\n<p>Bem, \u00e9 a\u00ed que eu vejo a liga\u00e7\u00e3o entre a soberania de Deus e a liberdade humana. Ao inv\u00e9s de uma se contrapor \u00e0 outra, harmonizam-se na mente e nos projetos do Alt\u00edssimo. Deixe-me explicar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A balan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Imagine a situa\u00e7\u00e3o humana como um <em>fiel de balan\u00e7a<\/em>. Ad\u00e3o foi feito com seu ponteiro no ponto zero, no prumo. N\u00e3o pendia nem para a direita nem para a esquerda. \u00c9 o que chamar\u00edamos de livre-arb\u00edtrio. Mas Satan\u00e1s se valeu de sua escolha desastrada e nos aprisionou a todos do lado esquerdo. Com cadeado. De forma que Ef\u00e9sios 2:1-3 fica retratado nessa situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o temos mais escolhas livres. Nosso <em>\u201cescolhedor\u201d<\/em>\u00a0 est\u00e1 viciado, amarrado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Deus, &#8220;por causa do grande amor com que nos amou&#8221;, e ap\u00f3s nos ter revelado essa nossa condi\u00e7\u00e3o desesperadora, encerrando-nos todos debaixo da desobedi\u00eancia (Rm 11:32), usa de miseric\u00f3rdia para com todos. Como?<\/p>\n<p>Num determinado momento (ou per\u00edodo, ou fase, sei l\u00e1) de nossa vida, chamado pelo autor de Hebreus de <em>Hoje<\/em> , o Alt\u00edssimo se vale de seu poder e soberania e atua em nossas vidas, colocando nosso &#8220;fiel da balan\u00e7a&#8221; no centro de novo. Ent\u00e3o, ele me diz: &#8220;escolhe livremente&#8221;. E a principados e potestades, diz: &#8220;ningu\u00e9m interfere!&#8221; Nesse momento, <strong><em>por causa da soberania e do poder de Deus<\/em><\/strong>, e pela atua\u00e7\u00e3o de seu Esp\u00edrito, somos livres; para aceit\u00e1-lo ou rejeit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que, diferentemente do diabo, ele n\u00e3o leva nosso <em>fiel <\/em>para a direita total. Nem o amarra l\u00e1. N\u00e3o. Ele \u00e9 Senhor gentil: leva-o ao meio, onde exercitamos o &#8220;pendor do Esp\u00edrito&#8221; ou o &#8220;pendor da carne&#8221; (cf. Rm. 8:5). E nos avisa que o pendor da carne \u00e9 inimizade contra Deus (Rm 8:7).<\/p>\n<p>Criei uma imagem, inspirado em C.S. Lewis. <em>Qual das l\u00e2minas da tesoura corta o pano?<\/em> Pois bem, aprouve a Deus que nossa salva\u00e7\u00e3o se fizesse por meio de uma &#8220;tesoura&#8221;. Deus se faz uma das l\u00e2minas, e nos atribui o papel da outra. Sem ele, estamos no inferno. Sem a nossa, estamos no inferno. Isso n\u00e3o nos iguala a Deus, pois jamais poder\u00edamos, n\u00f3s mesmos, construir essa tesoura e &#8220;cortar o pano&#8221;. Ele permanece no seu santo trono. Soberano. Justo, reto&#8230; e misericordioso.<\/p>\n<p>Terminando o argumento, acho que \u00e9 por isso que Jesus ensina a mulher samaritana que Deus <em>procura<\/em> alguma coisa. Procura verdadeiros adoradores. Criou a tesoura e espera que ofere\u00e7amos nossa l\u00e2mina, para nosso bem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma Par\u00e1bola<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na em 1996, a televis\u00e3o levou ao ar uma reportagem sobre o uso de <em>crack<\/em> pelos adolescentes (e o assunto, hoje, virou epidemia).<\/p>\n<p>Ao ver, na reportagem, o sofrimento dos pais e a luta ingente do drogado, lutando para se livrar das garras tir\u00e2nicas da depend\u00eancia, me ocorreu a seguinte par\u00e1bola sobre esta quest\u00e3o da soberania divina e da liberdade humana. Ei-la.<\/p>\n<p>Certo dia, um pai descobre que seu filho \u00e9 um drogado, dependente de <em>crack<\/em>. Faz de tudo para ajudar o rapaz, mas este, ainda que lute para se desvencilhar, n\u00e3o tem mais for\u00e7as para larg\u00e1-la, e tenta se matar, inclusive para se livrar do complexo de culpa, pelo desgosto causado aos pais. O pai o acha a tempo (estava meio de olho), socorre-o e o salva.<\/p>\n<p>Alguns dias depois, em conversa com o filho j\u00e1 convalesceste, prop\u00f5e-lhe uma solu\u00e7\u00e3o extrema. O pai tem uma id\u00e9ia para devolver ao filho a for\u00e7a (o livre-arb\u00edtrio) para sair daquela situa\u00e7\u00e3o. Prop\u00f5e ao filho e este aceita.<\/p>\n<p>Pegam um carro e v\u00e3o, somente os dois, para um s\u00edtio isolado. Longe de tudo e de todos. Ali, tentar\u00e3o lutar contra a droga, cortando lenha, subindo corredeiras, trabalhando pesado at\u00e9 ca\u00edrem mortos de cansa\u00e7o. O pai est\u00e1 atento e determinado a aguentar mais que o fragilizado rapaz.<\/p>\n<p>No segundo dia, o jovem come\u00e7a a mudar: a mostrar-se ind\u00f3cil, agitado, impaciente, nervoso, irado, truculento, violento. Ele precisa daquela droga. Seu organismo exige (seu &#8220;senhor&#8221; o est\u00e1 chamando de volta). O pai vai contemporizando, conversando, distraindo, sabendo que precisa ganhar tempo. Precisa, pelo menos, de uma semana (este \u00e9 o tempo que os m\u00e9dicos estabelecem para a desintoxica\u00e7\u00e3o qu\u00edmica do organismo).<\/p>\n<p>No terceiro dia, o filho tenta fugir de noite, mas o pai, que a estas alturas est\u00e1 dormindo com um olho s\u00f3, o intercepta. O garoto est\u00e1 transtornado. O pai o agarra. Este, cego por dores internas fort\u00edssimas, agride o pai com f\u00faria, e tenta correr. O pai se levanta e o alcan\u00e7a. Est\u00e1 determinado a ajudar o filho. Uma semana, \u00e9 a meta. Faltam 4 dias ainda. Agarra o garoto, que tenta agredi-lo novamente. Mas desta vez o pai \u00e9 quem o soca violentamente. O garoto cai desacordado.<\/p>\n<p>O pai o leva de volta para a casa e o amarra na cama. Quando o rapaz acorda, come\u00e7a a gritar, gemer, xingar, blasfemar, contorcer-se, desafiar o pai, dizer os piores desaforos. O pai tenta abra\u00e7\u00e1-lo, mas \u00e9 recebido com cusparadas e palavr\u00f5es. Uma noite de c\u00e3o.<\/p>\n<p>A estas alturas, imagino um calvinista dizendo: &#8220;aqui, o pai retirou o livre-arb\u00edtrio do menino&#8221;. E eu responderia: &#8220;que livre-arb\u00edtrio?&#8221;<\/p>\n<p>Amarrado, o rapaz fica ali por mais quatro dias. Reclama de dores nas costas, de mau-jeito, de dores nas m\u00e3os, nos tornozelos, por causa das cordas. O pai, algumas vezes, tentou afroux\u00e1-las, para aliviar o desconforto, para lev\u00e1-lo ao banheiro, etc., mas ele tentou escapar. Foi preciso lutar, agarrar, bater de novo.<\/p>\n<p>Bem, n\u00e3o vou me alongar nos detalhes deste transe medonho. O fato \u00e9 que a semana se passa, e, ao raiar do oitavo dia, o garoto j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais suando, nem com c\u00f3licas, nem tr\u00eamulo, nem com dores na barriga. Passou. A depend\u00eancia qu\u00edmica est\u00e1 cedendo.<\/p>\n<p>Nesse dia, logo pela manh\u00e3, o rapaz acorda com um cheiro de caf\u00e9 coado na hora, broas de milho, p\u00e3o, manteiga e outras guloseimas. Uma mesa posta. Ele estava quase de jejum, e se mostra faminto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o pai o surpreende: chega na sua cama com um sorriso e desata-lhe as cordas. Solta-o e convida-o para o caf\u00e9. Ele toma um banho quente e se assenta \u00e0 mesa. Est\u00e1 mais animado, e chega a balbuciar algumas palavras monossil\u00e1bicas, em resposta \u00e0s tentativas de conversa do pai. Est\u00e1 despertando de um pesadelo.<\/p>\n<p>No meio do caf\u00e9, num gesto brusco, levanta-se e corre para a porta. Num segundo, j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1 na porteira. Mas estranha que seu pai n\u00e3o esteja ao seu encal\u00e7o. Olha para tr\u00e1s e constata que ele ficou parado, na porta da casa. Desconcertado e curioso, ele para e arrisca uma olhada, como que a perguntar: voc\u00ea n\u00e3o vai me prender?<\/p>\n<p>O pai, entendendo a perplexidade do filho, grita de l\u00e1: &#8220;filho, Hoje voc\u00ea \u00e9 um rapaz livre. Das drogas e de mim. Voc\u00ea volta para elas se quiser; volta para mim se quiser. Filho, n\u00e3o quer terminar o caf\u00e9?&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aproveitando a pol\u00eamica decis\u00e3o do governo paulista de internar usu\u00e1rios de crack \u00e0 for\u00e7a, gostaria de voltar a pensar sobre o problema da liberdade humana em tens\u00e3o com a soberania divina.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":1213,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[116],"tags":[],"class_list":["post-1202","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1202","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1202"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1202\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1214,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1202\/revisions\/1214"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1213"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/amorese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}