No processo de estudar e ponderar alguma passagem bíblica costumo consultar alguns comentários. Favoreço especialmente N. T. Wright tanto pelo seu conhecimento técnico da língua e cultura antigas e a sua perspicácia teológica mais abrangente quanto pela sua facilidade de comunicação. Normalmente procuro sintetizar as suas ideias com as contribuições de outros para chegar às minhas, mas quando li o comentário de Wright sobre Atos 1.9-14 achei que valia à pena, especialmente pela sua explicação de “céus” e “terra”, simplesmente traduzir e passar adiante. O que se segue, portanto, é a minha tradução do seu comentário sobre a passagem unto com a minha tradução da tradução dele da passagem…

9Quando Jesus falou isto, ele foi elevado enquanto eles estavam olhando, e uma nuvem o encobriu da sua vista. 10Eles estavam olhando para o céu quando ele desapareceu. Então, bem aí, dois homens apareceram, vestidos de branco, em pé ao lado deles.

11“Galileus”, eles falaram, “por que vocês estão aqui olhando para o céu? Este Jesus, que foi levado de vocês para o céu, voltará do mesmo jeito que vocês o viram indo para o céu.”

12Então eles voltaram para Jerusalém do monte chamado Monte das Oliveiras, que era perto de Jerusalém, mais ou menos a distância você iria viajar num sábado. 13Eles então (“eles” aqui significa Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago o filho de Alfeu, Simão o nacionalista, e Judas o filho de Tiago) entraram na cidade e foram para a sala no andar superior onde estavam hospedados. 14Eles todos se dedicaram de todo o coração à oração, com as mulheres, inclusive Maria, a mãe de Jesus, e os seus irmãos.

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A nova Encíclica Papal Laudato Sì («Louvado sejas»), comunicada na semana passada, no dia 18 de junho, é uma contribuição muito importante não só para católicos romanos e até mesmo para todos os cristãos, mas é dirijida e relevante para pessoas de qualquer religião, a comunidade científica e todas as organizações governamentais,  todos os que vivem debaixo do mesmo teto… este teto que denominamos “Planeta Terra”. Aliás, o Papa Francisco toma o devido cuidado de convidar todos a refletir e se engajar novamente em um debate, justamente por causa da importantíssima reunião das Nações Unidas em dezembro de 2015 para negociar ações concretas a nível mundial. Claro que  já aconteceram muitos debates nas últimas décadas em escolas, governos, indústrias e insitituições religiosas em todos os níveis, e assim, este é mais um entre muitos a nível mundial. E é justamente porque as ações em cooperação entre os países, especialmente os mais ricos, ainda estão muito aquém de deter a deterioração do meio ambiente, que o papa vem com um apelo tão forte.

Trata-se de 191 páginas bem elaboradas de apelo, reflexão e propostas, e por isso mesmo prefiro me abster de uma análise mais detalhada, pois a minha própria conclusão é que o documento merece primeiro sua própria leitura e estudo demorados. Apenas reparo a sequência das suas ideias… Continue lendo →

Um dia, quando estava com os apóstolos, Jesus deu esta ordem:

— Fiquem em Jerusalém e esperem até que o Pai lhes dê o que prometeu, conforme eu disse a vocês.   Pois, de fato, João batizou com água, mas daqui a poucos dias vocês serão batizados com o Espírito Santo.

Certa vez, os apóstolos estavam reunidos com Jesus. Então lhe perguntaram:

— É agora que o senhor vai devolver o Reino para o povo de Israel?

Jesus respondeu:

— Não cabe a vocês saber a ocasião ou o dia que o Pai marcou com a sua própria autoridade.   Porém, quando o Espírito Santo descer sobre vocês, vocês receberão poder e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até nos lugares mais distantes da terra. — Atos 1.4-8

Na última reflexão observamos que Lucas inicia o seu relato com o aparecimento de Jesus para os discípulos durante 40 dias, em que ele lhes ensinava sobre o projeto do governo de Deus. Fizemos a comparação deste tempo com os nossos congressos atuais. Coloquei a palavra “congresso” entre aspas de propósito pois obviamente não havia congresso algum, e sim, vários encontros. Antes de prosseguir com o nosso estudo de Atos, convém esclarecer a cronologia de eventos, pois lendo Atos na sequência do Evangelho de João, ou até mesmo como um segundo volume das obras de Lucas (o primeiro sendo o seu Evangelho), é fácil entender que os eventos de Atos simplesmente seguem os eventos dos Evangelhos. Mas não é exatamente assim. O início de Atos relata parte do final dos Evangelhos também, da seguinte forma: Continue lendo →

Opi_03_16_15_matoHá diversas referências na Bíblia para mundo criado por Deus. As mais notórias incluem as palavras hebraicas do Antigo Testamento shāmim e ’erets para “céus” e “terra”; e as palavras gregas do Novo Testamento ktisis para a “criação/criatura”, kosmos para o “mundo”, e ouranos kai para “céu e terra”. Às vezes estes termos são qualificados com a palavra kainos para “novo” (Gl 6.15; 2Co 5.17; Ap 21.1): “novo céu e nova terra” ou “nova criação/criatura”.

Quando alguém procura dizer algo a respeito da perspectiva bíblica sobre o mundo, normalmente procura fazê-lo a partir destes termos. Veja, por exemplo, o excelente estudo de Juan Stam, As boas novas da criação ou o meu mais resumido e-book, Teologia da Criação: passado, presente e futuro. Assim é possível elaborar uma perspectiva bíblica a respeito da criação como essencialmente boa (mesmo atingida e “tingida” pelo pecado) e alvo da redenção de Deus.1 Esta perspectiva já é uma grande correção da perspectiva popular, com base em uma leitura equivocada de 2 Pedro 3.6-10. Digo “equivocada” porque em 2 Pedro a destruição do mundo pelo fogo no futuro é explicitamente comparada com a destruição do mundo pelas águas (o dilúvio) no passado. Ora, o mundo na época de Noé foi “destruído” sim, no sentido de ser varrido por uma calamidade catastrófica. Mas o que surgiu depois não foi um outro mundo, e sim, o mesmo mundo renovado. Semelhantemente quando alguém se converte, se torna “nova criatura”, mas com os mesmos corpo, mente e coração. Somos transformados, e não aniquilados. O “velho homem” morreu para que nasça um homem novo, mas de novo, isto não implica trocar de corpo. Continue lendo →

Prezado Teófilo,

No primeiro livro que escrevi, contei tudo o que Jesus fez e ensinou, desde o começo do seu trabalho  até o dia em que ele foi levado para o céu. Antes de ir para o céu, ele deu ordens, pelo poder do Espírito Santo, aos homens que ele havia escolhido como apóstolos.  Depois da sua morte, Jesus apareceu a eles de muitas maneiras, durante quarenta dias, provando, sem deixar dúvida nenhuma, que estava vivo. Os apóstolos viram Jesus, e ele conversava com eles a respeito do Reino de Deus.


Atos 1.1-3 (NTLH)

Há cinco anos escrevo pequenas reflexões bíblicas do estilo mais devocional. Primeiro, em 2010, usei como base a Carta aos Romanos. Depois, em 2011 escrevi sobre o Livro de Jó e nos anos 2012 até 2014, o Evangelho segundo Lucas. Achei que havia encerrado, mas alguns amigos tem me encorajado a continuar. Nos últimos meses tenho pensado sobre isto e resolvi dar continuidade aos estudos no Evangelho de Lucas com uma nova série de reflexões no Livro de Atos. Por que Atos? Parte da resposta é óbvia: o Livro de Atos é a continuação do Evangelho de Lucas. Lucas escreveu o seu Evangelho para relatar a história  de Jesus e sua significância, culminando com a promessa da vinda do Espírito Santo.  Escreveu Atos para relatar como esta promessa se cumpriu na vida da igreja. Mas há pelo menos mais dois motivos… Continue lendo →