(v.12) Portanto, do mesmo jeito que um ser humano (=Adão) estabeleceu uma enorme falha no eco-sistema (literalmente: cosmos) que levou à morte, e esta morte atingiu todos os seres humanos que continuaram a falhar…. (v.15) porque se muitos morreram pela falha de um, quanto mais a graça de Deus transbordou para muitos pelo único ser humano Jesus Cristo. (tradução minha)

Reflexão

Quando se lê Romanos 5.15 quase sempre vai se pensar na graça superabundante de Cristo para todos nós seres humanos. Só que a nossa salvação é apenas parte da “obra de conserto” de Deus. Ele quer redimir a criação toda. E isso só se torna evidente na passagem acima, quando notamos que o versículo 15 completa a comparação que se iniciou no versículo 12, uma passagem que fala sobre o estrago do “eco-sistema” todo (no original, cosmos). Ou seja, a graça de Deus manifestada pelo sacrifício de Cristo superenriquece não apenas nós humanos mas é uma resposta para o problema todo, um sistema socio-ecológico.

A “enorme falha” tradicionalmente é traduzida como “pecado”. A idéia é de “errar o alvo” e a gente normalmente entende isso em termos morais e pessoais. Só que este último talvez não seja a melhor maneira de imaginar o cosmos sendo atingido pelo pecado. Errar o alvo, neste sentido, teria a ver com o ser humanos não cumprir o seu mandato de cuidar da criação. Então, onde está a lição? Simplesmente aqui…

A graça de Deus “transbordou” no cosmos, no eco-sistema, inclusive entre nós, isto é, superenriqueceu o universo. Não parece? É, de fato, às vezes não parece, mas foi. Por isso, podemos confiar que as boas novas para pessoas são boas novas também para a criação toda. E a tarefa restabelecida de sermos bons mordomos será, de fato, bem-sucedida. Acreditas? Haverá mesmo novo céu e nova terra e isso por meio de graça? E o nosso papel enquanto isso? Evangelizemos. Ecologizemos. Ajamos com sal e luz para as pessoas e para o cosmos.

Oração

Amado Pai. Ajude-nos a cumprir o nosso papel e a não diminui-lo a algo menor do que o que o Senhor estabeleceu. Em nome de Jesus. Amém.

Foi Cristo quem nos deu, por meio da nossa fé, esta vida na graça de Deus. E agora continuamos firmes nessa graça e nos alegramos na esperança de participar da glória de Deus. (NTLH)

Reflexão

Pergolado com Michael & Jenny

Há quase um mês, casei a minha filha em Florianópolis. Casal lindo e feliz, com o mundo inteiro de possibilidades à sua frente. Casaram-se debaixo dum pergolado que construi para a ocasião. Depois do casamento, desmontamos o pergolado e montamos novamente na frente da casinha onde eles moram. E ainda acrescentei, com muito orgulho, dois banquinhos de cada lado para sentar e namorar. Sempre que entram na casa, passam por baixo deste pergolado. Fiz com muito amor e carinho. No momento, este pergolado é a minha “glória”! Agora entendeu onde estou indo?

Qual é a glória de Deus na qual temos a esperança, em Cristo, de participar? Não é para Deus como é para mim, a sua belíssima criação? Duvida desta interpretação? Então, leia novamente Romanos 8 e me diga o que acha…

A “vida na graça de Deus” de Romanos 5.2 inclui muitas coisas…certamente os nossos relacionamentos uns com os outros…nossas famílias, filhos, parentes, amigos, vizinhos… Também, e acima de tudo, nos deu o relacionamento com Deus…paz com Deus. Em tudo isso somos exortados a permanecermos firmes. Mas há mais. Um dia, começando no hoje bíblico, inaugurado por Cristo (Hb 1.1), teremos a alegria de participar na criação de Deus, infinitamente mais ampla e linda que o meu pergolado. E a perspectiva bíblica é que a nossa participação na criação não é passiva e alheia. É ativa como um jardineiro, transformadora e até mesmo redentora. Cuidemos dos “nossos” jardins, parte do grande jardim de Deus e assim participemos da sua glória. Jardins, atualmente abrigam bem ou mal os seus habitantes, mas precisam de redenção. Neste cuidado, já participamos nesta “glória”… às vezes feita ingloriosa. Um dia participaremos mais. O que faremos com ela até lá?

Oração

Graças te damos, magnifico Pai, pela graça e viver na Tua graça e participar na sua glória. Amém.

Romanos  5.1

Declarados justos, então, por meio da fé, temos paz com Deus através do nosso Senhor Jesus Cristo. (tradução minha)

Reflexão

Todo o exemplo de Abraão no capítulo 4 serviu para enfatizar que Deus declara as pessoas justas, porque elas põem a sua fé e a sua confiança nEle. Isto Abraão fez quando, mesmo velho, confiou na promessa de Deus de dar-lhe um filho. E nós fazemos quando cremos que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos. Paulo fala isto em apenas dois versículos antes da passagem da nossa reflexão.

Agora o primeiro efeito desta declaração por Deus de sermos justos é que “temos paz com Deus”. Há muito mais nesta afirmação do que aparece à primeira vista. Primeiro, o óbvio: o conflito anterior, o atrito com Deus que às vezes não conseguimos identificar como tal, acaba. Muitas pessoas, eu inclusive, dão testemunho duma profunda sensação de paz e tranquilidade ao experimentar a salvação. O mesmo ocorre sempre que nos arrependemos em momentos que nos afastamos de Deus. Somos traquilizados por abandonar o fardo que não carregamos mais.

Mas “paz” é mais que tranquilidade. É mais que a falta do conflito. É algo pró-ativo. Por trás a palavra grega, eir?n?, que Paulo usa para “paz” está o conceito hebraico de sh?lôm, também traduzido como “paz”. Shalom inclui a idéia de saúde, bem-estar, integridade e integralidade. Quando Deus nos declara “justos”, Ele restabelece dentro de nós a saúde interior, o bem-estar e a integralidade. Ficamos verdadeiramente “bem”. De passagem, é importante que Paulo está oferecendo uma alternativa, a única autêntica alternativa ao império romano que prometia aos seus cidadãos “paz e segurança”. O que nenhum governante poderá prover, Deus pode e faz. Ele nos dá a paz. E este é o primeiro e fundamental passo em direção ao Seu alvo maior de restabelecer paz sobre toda a sua criação. A nova criação começa em nós (2Co 5.17). Estando nós em paz com Deus podemos lutar por um mundo onde a paz de Deus se torne cada vez mais o padrão.

Oração

Graças te damos, ó Pai, pela paz que temos contigo através de Jesus Cristo. Derrame sobre nós o Teu Espírito, para que possamos andar na Tua imensa graça, como pessoas justas num mundo injusto e injustiçado. Amém.

Como dizem as Escrituras Sagradas: “Eu fiz de você o pai de muitas nações.” Assim a promessa depende de Deus, em quem Abraão creu, O Deus que ressuscita os mortos e faz com que exista o que não existia. (NTLH)

Reflexão

Na semana passada refletimos sobre um pressuposto duma passagem (somos herdeiros do mundo) ao invés do seu ponto principal (somos justificados por meio de fé – Rm 4.13). É um exercício interessante, mas muito diferente do estudo indutivo, onde procura-se seguir o desdobramento das idéias dum autor. Tais idéias são a parte patente da sua comunicação. Os seus pressupostos são a parte latente. A verdade está em ambas as partes. Hoje quero novamente chamar a atenção para um pressuposto, esta vez, de Romanos 4.17.

Na passagem acima, Paulo está afirmando que a promessa de ser pai de muitas nações foi dada para Abraão por causa da sua . E acrescenta que a promessa é tão segura quanto aquele que a fez. Este é o objetivo explícito da sua mensagem, a parte patente. Mas tudo isto depende dum pressuposto latente que Paulo não defende. Apenas afirma: este Deus é poderoso para fazer tais promessas pois ele tem o poder de criar do nada e também o poder de transformar a morte em vida. Este pressuposto distingue os cientistas naturais seculares dos cientistas naturais teístas, inclusive os cristãos, e tem implicações para a estratégia conservacionista… algo que não dá para desenvolver aqui. Mas o que podemos dizer é o seguinte:

A mensagem central dos primeiros onze capítulos de Romanos é que a vida cristã tanto se inicia quanto continua pelo princípio da fé. Isto porque fomos, todos nós, criados para vivermos em relacionamento. Relacionamento com Deus, relacionamento com os outros e relacionamento com a criação de Deus. E para viver em relacionamento precisamos de fé, de confiança, de fidelidade (estes três são sinônimos no sentido bíblico de fé). Podemos realizar tão grande papel? Sim. Como sabemos? Porque ninguém menos que Deus o possibilita e ele, bem, ele cria as coisas do nada e transforma a morte em vida. Assim, os relacionamentos não parecem taaão difíceis.

Oração

Ensina nos a amar. Ensina nos a viver cada momento pela fé. Confiamos em ti, ó Deus, criador de tudo. Amém.

Não foi pela Lei que foi feita a promessa a Abraão e aos seus descendentes de ser o heirdeiro [beneficiário] do mundo, mas foi pela justiça da fé. (tradução minha)

Reflexão

Nesta passagem, mais uma vez, Paulo está martelando a centralidade da fé para estabelecer a justiça de Deus para todos os povos, e isso em contraposição à Lei como o meio pelo qual esta justiça é estabelecida.  É isto que ele está querendo fazer. É o seu objetivo. Entretanto, pela maneira que ele fala, ele acaba estabelecendo outro ponto importante também: que aqueles que gozam a justiça de Deus são beneficiários ou herdeiros do mundo. Que quer dizer? A palavra “herdeiros” é intimamente relacionada com kl?ros, de onde derivamos “clero” ou “ministro”. Ao pé da letra, ser herdeiro é ser ministro. É ter um ministério. Ou seja, não é apenas receber algo, como na idéia de “heirdeiro”. É também dar, como quem tem uma vocação a exercer. No versículo acima, Paulo está dizendo que os justificados pela fé, que são vocacionados como o “clero” da nossa planeta, o são por meio da fé e não pela Lei.

O pressuposto é que os justificados tem uma vocação e que esta vocação se define por um ministério em relação a nossa planeta. Não achas interessante? Pode parecer uma interpretação estranha, mas se confirma pela elaboração da mesma idéia mais adiante no capítulo 8 de Romanos. Veja algo similar em Hebreus 1.2; Gálatas 3.29; 4.7; Tito 3.7; e Tiago 2.5.

Nós, crentes justificados por meio da fé, temos uma vocação “mundial”, mundial em vários sentidos, inclusive no sentido ecológico. Aliás, eu diria que um termo bem apropriado e devidamente abrangente é “sócio-ambiental”. Temos um ministério sócio-ambiental.

Como exercer esta vocação? Em poucas palavras, exercemo-na enfocando a justiça e exercemo-na por meio do princípio da fé. Que quer dizer isto? Bem, esta resposta exige bem mais que uma página. Que tal você meditar nisto e me enviar o seu palpite? Sério.

Oração

Amado Deus. Mostre-nos o nosso papel em relação à sua criação e nos dê inspiração, criatividade e, acima de tudo, a sua unção para cumpri-la. Amém.

Pois que diz a Escritura? que Abraão teve fé em Deus e assim foi considerado como uma pessoa justa. (tradução minha)

Reflexão

Não sei o que você pensa da idéia que a tradução acima transmite. Neste caso, não é uma tradução ao pé da letra, mas acredito que capta seu significado fundamental. Onde começa a justiça socio-ambiental? Começa em nós e começa por Deus. Começa em nós quando adotamos a postura duma vida pela fé, uma vida de confiança em Deus, uma vida de fidelidade a Deus. Começa por Deus porque somente ele pode nos transformar de pessoas essencialmente falhas em quase tudo em pessoas “justas”, pessoas exemplares de justiça! Não acha incrível isso? A nossa parte? Crer, confiar, ser fiel, ter fé. São todos sinônimos da palavra pisteú?. Esta é uma palavra para estudar e cujos significados seria bom sugar. Ter fé. Viver pela fé. Confiar em Deus.

E veja só. Este discurso sobre a fé que Paulo está iniciando, usando o exemplo de Abraão, é o seu resumo e estudo de caso de tudo que falou nos primeiros três capítulos. Portanto, prestemos atenção! Por mais que queiramos uma vida ordenada, ditada, mapeada junto com um manual do que devemos e não devemos fazer, Deus não nos chama para viver simplesmente conforme algum código, mesmo o código que Ele próprio deu (a Lei). Não. Ele é pessoa. E como pessoa, quer se relacionar conosco. E relacionar-se inevitavelmente implica em surpresas. E necessariamente exige confiança, uns nos outros. Quando este “outro” é Deus, esta confiança se chama “fé”. Desde o início até o fim (Rm 1.17).

Promovamos a justiça socio-ambiental…com certeza! Como? Promovendo a vida pela fé.

Oração

Adoramos-te, ó Pai, pela oferta magnífica de vida contigo. Maravilhoso! Confiamos em Ti. Temos fé. Viveremos por Ti. Encha-nos do Teu Espírito para possibilitar isso. Em nome de Jesus.  Amém.

Esgotamos[i], pois, a Lei pela fé? De jeito maneira! Muito pelo contrário, fortalecemos[ii] a Lei. (tradução minha)

Reflexão

Gosto muito da Nova Tradução na Linguagem de Hoje, e também da Nova Versão Internacional. Mas não para Romanos. Tanto a linguagem técnica quanto as sutilezas dos argumentos de Paulo praticamente exigem uma tradução mais “literal”. Assim procurei fazer no versículo que conclui o capítulo 3. As nuanças dos dois prinicpais verbos do versículo nas notas abaixo talvez ajudem mais ainda a entender o que Paulo está dizendo. Ajuda também lembrar do versículo 22 que comentamos na semana passada: “a fé de Jesus (manifesta) a justiça de Deus”. E olhando um pouquinho para frente, em Romanos 10.4, “pois Cristo é o fim da Lei…”. Deu para entender? A fé (primeiro de Jesus que manifesta a justiça de Deus e, em segundo lugar, a nossa fé que a fé de Jesus possibilita) não esgota a Lei porque é para ela (a fé de Jesus e a nossa fé) que a Lei (as Escrituras) aponta. Deste jeito, as Escrituras encontram o seu cumprimento em Jesus e consequentemente na salvação de todas as etnias, judias ou não.

Mas o que não significa? Não significa que a vida cristã é feita um pouco de fé (acreditamos certas coisas) e um pouco de Lei (obedecer a ordem do Antigo Testamento). Certamente Paulo, depois de tudo que falou até aqui a respeito da circuncisão, não está dizendo isso. Entretanto é assim que a maioria dos cristãos vivem e muitos líderes cristãos pregam. Não entenderam a mensagem.

O que tem a ver com o compromisso socio-ambiental? Tem a ver com método e procedimento. Arriscando ser simples demais….as coisas realmente mudam pelo código da Lei ou por transformações afetivas e interiores?

Oração

Precioso Jesus. Inunde-nos da tua graça. Amém.


[i] (1) Inutilizar, gastar, esgotar, nulificar; (2) livrar-se de: (3) abolir, destruir, cessar

[ii] (1) colocar em primeiro lugar, estabelecer, confirmer, colocar em pé; (2) aparecer, ficar em pé, ficar firme, atentar-se