Romanos  5.1

Declarados justos, então, por meio da fé, temos paz com Deus através do nosso Senhor Jesus Cristo. (tradução minha)

Reflexão

Todo o exemplo de Abraão no capítulo 4 serviu para enfatizar que Deus declara as pessoas justas, porque elas põem a sua fé e a sua confiança nEle. Isto Abraão fez quando, mesmo velho, confiou na promessa de Deus de dar-lhe um filho. E nós fazemos quando cremos que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos. Paulo fala isto em apenas dois versículos antes da passagem da nossa reflexão.

Agora o primeiro efeito desta declaração por Deus de sermos justos é que “temos paz com Deus”. Há muito mais nesta afirmação do que aparece à primeira vista. Primeiro, o óbvio: o conflito anterior, o atrito com Deus que às vezes não conseguimos identificar como tal, acaba. Muitas pessoas, eu inclusive, dão testemunho duma profunda sensação de paz e tranquilidade ao experimentar a salvação. O mesmo ocorre sempre que nos arrependemos em momentos que nos afastamos de Deus. Somos traquilizados por abandonar o fardo que não carregamos mais.

Mas “paz” é mais que tranquilidade. É mais que a falta do conflito. É algo pró-ativo. Por trás a palavra grega, eir?n?, que Paulo usa para “paz” está o conceito hebraico de sh?lôm, também traduzido como “paz”. Shalom inclui a idéia de saúde, bem-estar, integridade e integralidade. Quando Deus nos declara “justos”, Ele restabelece dentro de nós a saúde interior, o bem-estar e a integralidade. Ficamos verdadeiramente “bem”. De passagem, é importante que Paulo está oferecendo uma alternativa, a única autêntica alternativa ao império romano que prometia aos seus cidadãos “paz e segurança”. O que nenhum governante poderá prover, Deus pode e faz. Ele nos dá a paz. E este é o primeiro e fundamental passo em direção ao Seu alvo maior de restabelecer paz sobre toda a sua criação. A nova criação começa em nós (2Co 5.17). Estando nós em paz com Deus podemos lutar por um mundo onde a paz de Deus se torne cada vez mais o padrão.

Oração

Graças te damos, ó Pai, pela paz que temos contigo através de Jesus Cristo. Derrame sobre nós o Teu Espírito, para que possamos andar na Tua imensa graça, como pessoas justas num mundo injusto e injustiçado. Amém.

Como dizem as Escrituras Sagradas: “Eu fiz de você o pai de muitas nações.” Assim a promessa depende de Deus, em quem Abraão creu, O Deus que ressuscita os mortos e faz com que exista o que não existia. (NTLH)

Reflexão

Na semana passada refletimos sobre um pressuposto duma passagem (somos herdeiros do mundo) ao invés do seu ponto principal (somos justificados por meio de fé – Rm 4.13). É um exercício interessante, mas muito diferente do estudo indutivo, onde procura-se seguir o desdobramento das idéias dum autor. Tais idéias são a parte patente da sua comunicação. Os seus pressupostos são a parte latente. A verdade está em ambas as partes. Hoje quero novamente chamar a atenção para um pressuposto, esta vez, de Romanos 4.17.

Na passagem acima, Paulo está afirmando que a promessa de ser pai de muitas nações foi dada para Abraão por causa da sua . E acrescenta que a promessa é tão segura quanto aquele que a fez. Este é o objetivo explícito da sua mensagem, a parte patente. Mas tudo isto depende dum pressuposto latente que Paulo não defende. Apenas afirma: este Deus é poderoso para fazer tais promessas pois ele tem o poder de criar do nada e também o poder de transformar a morte em vida. Este pressuposto distingue os cientistas naturais seculares dos cientistas naturais teístas, inclusive os cristãos, e tem implicações para a estratégia conservacionista… algo que não dá para desenvolver aqui. Mas o que podemos dizer é o seguinte:

A mensagem central dos primeiros onze capítulos de Romanos é que a vida cristã tanto se inicia quanto continua pelo princípio da fé. Isto porque fomos, todos nós, criados para vivermos em relacionamento. Relacionamento com Deus, relacionamento com os outros e relacionamento com a criação de Deus. E para viver em relacionamento precisamos de fé, de confiança, de fidelidade (estes três são sinônimos no sentido bíblico de fé). Podemos realizar tão grande papel? Sim. Como sabemos? Porque ninguém menos que Deus o possibilita e ele, bem, ele cria as coisas do nada e transforma a morte em vida. Assim, os relacionamentos não parecem taaão difíceis.

Oração

Ensina nos a amar. Ensina nos a viver cada momento pela fé. Confiamos em ti, ó Deus, criador de tudo. Amém.

Não foi pela Lei que foi feita a promessa a Abraão e aos seus descendentes de ser o heirdeiro [beneficiário] do mundo, mas foi pela justiça da fé. (tradução minha)

Reflexão

Nesta passagem, mais uma vez, Paulo está martelando a centralidade da fé para estabelecer a justiça de Deus para todos os povos, e isso em contraposição à Lei como o meio pelo qual esta justiça é estabelecida.  É isto que ele está querendo fazer. É o seu objetivo. Entretanto, pela maneira que ele fala, ele acaba estabelecendo outro ponto importante também: que aqueles que gozam a justiça de Deus são beneficiários ou herdeiros do mundo. Que quer dizer? A palavra “herdeiros” é intimamente relacionada com kl?ros, de onde derivamos “clero” ou “ministro”. Ao pé da letra, ser herdeiro é ser ministro. É ter um ministério. Ou seja, não é apenas receber algo, como na idéia de “heirdeiro”. É também dar, como quem tem uma vocação a exercer. No versículo acima, Paulo está dizendo que os justificados pela fé, que são vocacionados como o “clero” da nossa planeta, o são por meio da fé e não pela Lei.

O pressuposto é que os justificados tem uma vocação e que esta vocação se define por um ministério em relação a nossa planeta. Não achas interessante? Pode parecer uma interpretação estranha, mas se confirma pela elaboração da mesma idéia mais adiante no capítulo 8 de Romanos. Veja algo similar em Hebreus 1.2; Gálatas 3.29; 4.7; Tito 3.7; e Tiago 2.5.

Nós, crentes justificados por meio da fé, temos uma vocação “mundial”, mundial em vários sentidos, inclusive no sentido ecológico. Aliás, eu diria que um termo bem apropriado e devidamente abrangente é “sócio-ambiental”. Temos um ministério sócio-ambiental.

Como exercer esta vocação? Em poucas palavras, exercemo-na enfocando a justiça e exercemo-na por meio do princípio da fé. Que quer dizer isto? Bem, esta resposta exige bem mais que uma página. Que tal você meditar nisto e me enviar o seu palpite? Sério.

Oração

Amado Deus. Mostre-nos o nosso papel em relação à sua criação e nos dê inspiração, criatividade e, acima de tudo, a sua unção para cumpri-la. Amém.

Pois que diz a Escritura? que Abraão teve fé em Deus e assim foi considerado como uma pessoa justa. (tradução minha)

Reflexão

Não sei o que você pensa da idéia que a tradução acima transmite. Neste caso, não é uma tradução ao pé da letra, mas acredito que capta seu significado fundamental. Onde começa a justiça socio-ambiental? Começa em nós e começa por Deus. Começa em nós quando adotamos a postura duma vida pela fé, uma vida de confiança em Deus, uma vida de fidelidade a Deus. Começa por Deus porque somente ele pode nos transformar de pessoas essencialmente falhas em quase tudo em pessoas “justas”, pessoas exemplares de justiça! Não acha incrível isso? A nossa parte? Crer, confiar, ser fiel, ter fé. São todos sinônimos da palavra pisteú?. Esta é uma palavra para estudar e cujos significados seria bom sugar. Ter fé. Viver pela fé. Confiar em Deus.

E veja só. Este discurso sobre a fé que Paulo está iniciando, usando o exemplo de Abraão, é o seu resumo e estudo de caso de tudo que falou nos primeiros três capítulos. Portanto, prestemos atenção! Por mais que queiramos uma vida ordenada, ditada, mapeada junto com um manual do que devemos e não devemos fazer, Deus não nos chama para viver simplesmente conforme algum código, mesmo o código que Ele próprio deu (a Lei). Não. Ele é pessoa. E como pessoa, quer se relacionar conosco. E relacionar-se inevitavelmente implica em surpresas. E necessariamente exige confiança, uns nos outros. Quando este “outro” é Deus, esta confiança se chama “fé”. Desde o início até o fim (Rm 1.17).

Promovamos a justiça socio-ambiental…com certeza! Como? Promovendo a vida pela fé.

Oração

Adoramos-te, ó Pai, pela oferta magnífica de vida contigo. Maravilhoso! Confiamos em Ti. Temos fé. Viveremos por Ti. Encha-nos do Teu Espírito para possibilitar isso. Em nome de Jesus.  Amém.

Esgotamos[i], pois, a Lei pela fé? De jeito maneira! Muito pelo contrário, fortalecemos[ii] a Lei. (tradução minha)

Reflexão

Gosto muito da Nova Tradução na Linguagem de Hoje, e também da Nova Versão Internacional. Mas não para Romanos. Tanto a linguagem técnica quanto as sutilezas dos argumentos de Paulo praticamente exigem uma tradução mais “literal”. Assim procurei fazer no versículo que conclui o capítulo 3. As nuanças dos dois prinicpais verbos do versículo nas notas abaixo talvez ajudem mais ainda a entender o que Paulo está dizendo. Ajuda também lembrar do versículo 22 que comentamos na semana passada: “a fé de Jesus (manifesta) a justiça de Deus”. E olhando um pouquinho para frente, em Romanos 10.4, “pois Cristo é o fim da Lei…”. Deu para entender? A fé (primeiro de Jesus que manifesta a justiça de Deus e, em segundo lugar, a nossa fé que a fé de Jesus possibilita) não esgota a Lei porque é para ela (a fé de Jesus e a nossa fé) que a Lei (as Escrituras) aponta. Deste jeito, as Escrituras encontram o seu cumprimento em Jesus e consequentemente na salvação de todas as etnias, judias ou não.

Mas o que não significa? Não significa que a vida cristã é feita um pouco de fé (acreditamos certas coisas) e um pouco de Lei (obedecer a ordem do Antigo Testamento). Certamente Paulo, depois de tudo que falou até aqui a respeito da circuncisão, não está dizendo isso. Entretanto é assim que a maioria dos cristãos vivem e muitos líderes cristãos pregam. Não entenderam a mensagem.

O que tem a ver com o compromisso socio-ambiental? Tem a ver com método e procedimento. Arriscando ser simples demais….as coisas realmente mudam pelo código da Lei ou por transformações afetivas e interiores?

Oração

Precioso Jesus. Inunde-nos da tua graça. Amém.


[i] (1) Inutilizar, gastar, esgotar, nulificar; (2) livrar-se de: (3) abolir, destruir, cessar

[ii] (1) colocar em primeiro lugar, estabelecer, confirmer, colocar em pé; (2) aparecer, ficar em pé, ficar firme, atentar-se

Mas agora, independentemente da Lei, a justiça de Deus se manifestou, sendo confirmada pela Lei e os Profetas.  Isto é, a justiça de Deus pela fidelidade de Jesus para todos e sobre todos que exercem fidelidade. Porque não há diferença [entre gentio e judeu]. (tradução minha)

Reflexão

Ontem à noite preguei sobre esta passagem. Acho que exagerei. Foi longo demais. Cansei o pessoal! Ainda bem que só tenho uma página aqui! Sério, compare a minha tradução acima com a sua Bíblia. Diferente, não é? De 33 versões em inglês achei 14 que traduziram (corretamente) a frase no versículo 22 como “a fé (ou a fidelidade) de Jesus”. As outras, como todas as 14 versões em português que verifiquei, traduziram como “nossa fé em Jesus”. Na língua original, a forma genitiva do substantivo garante a tradução “de Jesus” em mais que 95% dos casos.

Importante? Pode crer! A minhaem Jesus manifesta a justiça de Deus? A justiça de Deus não só para mim como para toda a criação (o contexto maior)? De jeito maneira! A minha fé em Jesus é a resposta certa para a fidelidade de Jesus na cruz que efetuou a justiça de Deus para o mundo todo. Uma é causa. A outra é consequência.

Claro que somos nós que devemos ter fé em Jesus. Paulo fala isto “n” vezes em outros lugares, mas não aqui. Por que? Primeiro porque ele está falando de algo muito maior que a gente: a justiça de Deus como solução para um mundo cheio de injustiça…o que afeta diretamente a questão do meio ambiente. Temos nós algum papel? Claro que temos. Mas é Jesus, pela SUA fidelidade que inverteu o quadro anterior. Por causa da suaa nossa é possível e há algo sólido ( a fidelidade de Jesus) no qual pode se fundamentar. Queres crescer na fé? Cresça no conhecimento de Jesus. Queremos ser mordomos fiéis da criação. Moldemos a nossa fidelidade com base na fidelidade de Jesus. Enfim, conheçamos Jesus mais e mais.

Oração

Pai amado, mostre-nos cada vez mais o rosto de Jesus para nos apaixionarmos mais e mais por ele. No seu nome santo. Amém.

Mas digamos que a minha mentira faz com que a verdade de Deus fique mais clara, aumentando assim a glória dele. Nesse caso, por que é que devo ainda ser condenado como pecador?  Então por que não dizer: “Façamos o mal para que desse mal venha o bem”? Na verdade alguns têm me caluniado, dizendo que eu afirmo isso. Porém eles serão condenados como merecem. (NTLH)

Reflexão

Fico impressionado com a maneira como Paulo se expressava, especialmente quando penso em como os oradores se expressam na igreja…eu inclusive. No caso acima, Paulo se utiliza duma ironia ferrenha que propõe o ridículo. Quantas vezes eu queria fazer o mesmo numa pregação ou num estudo escrito! Mas pelo medo de ser mal entendido, sempre desisto, a não ser quando dirijo um estudo bíblico mais informal, de vez em quando. Mesmo assim, a ironia não nos parece fazer parte do repertório de técnicas de comunicação aceitáveis no meio da igreja. Por que? Provavelmente porque a ironia é uma forma de mentira e crente não mente!

Mas a ironia é um jeito tão forte de se comunicar e é tão facilmente gravada, que a gente, acredito eu, deveria explorar um pouco mais este jeito de falar, se não por outro motivo, pela razão de ser bem lembrado. Sim, é uma comunicação arriscada, mas vale o risco.

É possível criar ironias a respeito da nossa incumbência de cuidar da criação de Deus? Pode sugerir alguma ironia para destacar a urgência do momento ou a importância do nosso papel? “Já que o mundo vai à descarga, vamos acelerar o processo!” (Não sou muito bom neste negócio de ironia. A casca santa de crente impede a facilidade). Usar a ironia para a educação ambiental é sacrilégio mesmo?

Terias alguma sugestão?

Oração

Pai amado, como pensamos que somos bons. Como pensamos que entendemos bem. Como pensamos que somos a solução! Pai, nos dê a noção apenas do próximo passo a tomar, sem grandes pretenções. Em nome de Jesus. Amém.<!–