Tendemos a ter uma visão bem estática da nossa vocação “geral”, a vocação de nos assemelharmos a Cristo. Tendemos a pensar, ou pelo menos agir, como se a conversão ocorre de uma só vez e de maneira quase total, a ideia da transformação de vil pecador em santo discípulo de Jesus. Certamente este é o nosso alvo, mas a Bíblia fala do desenvolvimento da nossa salvação, ou podemos pensar igualmente na nossa vocação nestes termos (Filipenses 2.12), o que os teólogos chamam de “santificação”, algo que tendemos a separar da conversão, bem contrário da passagem de Paulo citada. Um famoso biblista sueco, Krister Stendahl, chamou atenção para esta mania em 1963 na sua reflexão, “O apóstolo Paulo e a consciência introspectiva do Ocidente”, hoje parte do seu livro, Paul among Jews and Gentiles (1976, em português: “Paulo entre judeus e gentios”). Ele reparou que o Ocidente deriva seu paradigma de conversão do encontro de Saulo/Paulo com Jesus no caminho para Damasco, a ideia sendo que ele a conversão veio como um relâmpago que derrubou Paulo do seu cavalo (não há cavalo no relato bíblico) e ele foi transformado uma vez para sempre. Esta visão não é o que lemos nas Escrituras, nem tampouco dos escritos de Paulo e nem tampouco do exemplo de Paulo. As suas cartas demonstram desenvolvimento da sua vocação/salvação. As passagens chaves são: Atos 8.1-3; 9.1-6; 22.3-21; 26.11-18; Gálatas 1.13-24; 1 Coríntios 9.1; 15.9; Filipenses 3.6; 1 Timóteo 1.12-17. Vejamos…

Saulo era um judeu modelo, um fiel piedoso em quem ninguém, mas ninguém mesmo, poderia botar defeito. Saulo exerceu a sua piedade através da sua dedicação ao estudo e à obediência às Escrituras. E não adianta a gente protestar dizendo que esta obediência era à Lei, pois na cabeça de todos os judeus fiéis até então, a Lei e as Escrituras eram uma e a mesma coisa. Paulo levava a sério a sua dedicação às Escrituras. Conhecê-la sem praticá-la era simplesmente incompreensível para este fariseus dos fariseus. Praticava mesmo, até aos mínimos detalhes. Tanto que, como discípulo de Jesus, mais que 30 anos depois da sua conversão, ele pode olhar para trás e considerar a sua dedicação à piedade como uma vida “irrepreensível” (Filipenses 3.6). Mas depois da sua conversão é possível detectar quatro fases de desenvolvimento da sua salvação/vocação. Nesta reflexão, consideraremos a primeira fase. Mas adiante, publicaremos as outras três fases.

Fase da salvação inicial: de perseguidor para propagandista (At 9.9; 22.11)

Paulo tinha cerca de 25-30 anos quando se converteu. Era entre o ano 31 a 33 d.C. Esta era a fase da sua transformação inicial. Não era uma conversão do mal para o bem, pois antes de conhecer Jesus na estrada para Damasco, Paulo já era um sujeito muito bom. Inclusive pelos padrões do judaísmo antigo, ele era perfeito, o que significa que ele não havia quebrado qualquer lei nas Escrituras. Em termos morais, e sei que isto é difícil acreditar, Paulo não era melhor depois da sua conversão que ele era antes. O nosso problema é que concebemos a conversão nestes termos de moralidade. E por isto, na hora do testemunho, privilegiamos mais as pessoas que tiveram uma vida mais cabeluda possível porque pensamos que isto ilustra melhor o poder de Deus. A conversão de Paulo não era assim. A transformação não era em termos de moral, mas em termos de direção e se a gente concebe reformular a nossa ideia de conversão para uma ideia de mudança de direção vamos entender melhor o que Deus fez para Paulo e o que Ele quer fazer para você e para mim. Lógico, para algumas pessoas, muitas aliás, uma mudança de direção exige uma mudança radical de moralidade também. Mas este não é o ponto principal. O ponto principal é uma mudança de direção. Paulo, então Saulo, estava literalmente a caminho para Damasco para acabar com o movimento cristão. Jesus o derrubou e o colocou em um novo caminho (neste caso, o mesmo caminho geográfico) para reforçar e aumentar o movimento cristão. De perseguidor, se transformou em um dos maiores promotores da fé cristã.

E como Paulo se avaliava nesta fase? A princípio, Paulo ficou imobilizado. Mas uma vez que a ficha caiu, não havia nada que poderia detê-lo (Atos 9.9, 19-22)

A conversão é, antes de mais nada, uma mudança de direção, e é esta mudança de direção que possa mudar os seus hábitos e transformá-lo em servo eficaz de Deus. Muitas pessoas pensam que precisam mudar de moral antes de se converter. Precisam largar algum vício ou que detesta ou que ama. Mas não é bem assim. Sim, precisamos nos arrepender, mas o arrependimento significa literalmente virar as costas e ir em direção contrária que antes. Depois, confiar em Jesus. É isto que significa ter fé. Ter fé é simplesmente, como criança, confiar em Jesus. Uma vez feita isto, as mudanças interiores podem e vão acontecer. Mas antes de mais nada é preciso decidir: “eu não vou mais andar na direção que estou andando agora…”