Se nós, seres humanos (o significado da palavra hebraica “ādām”) somos criados à imagem e à semelhança de Deus, e “homem (da palavra hebraica זכר ou “zācār”, literalmente “macho” ou “ser afiado”) e mulher (נְקֵבָה ou “nequēbar”, literalmente “fêmea” ou “ponto”) os criou” (Gênesis 1.27). Pois bem, então tanto as qualidades de macho quanto de fêmea espelham o Criador e os dois coabitando juntos e unidos enquanto cuidam do restante da criação, mais ainda (Gênesis 1.28; veja também a passagem paralela de Gênesis 2.15). Portanto, não nos surpreendemos quando Deus é descrito, ao longo das Escrituras, tanto com traços e figuras femininos quanto masculinos. Por exemplo…

  • Deus Jahvé conforta o seu povo como uma mãe conforta seu filho ou sua filha (Isaías 66.13)
  • Como uma mulher que jamais esquece de amamentar seu nenê, Deus Jahvé não esquecerá dos seus filhos e filhas (Isaías 49.15)
  • Deus Jahvé é como uma águia mãe protegendo os seus filhotes (Deuteronômio 32.11)
  • Deus bisca o perdido como uma mulher procurando uma moeda perdida (Lucas 15.8-10)
  • Deus El cuida do seu povo como uma parteira cuida da criança que acaba de nascer (Salmo 22.9-10; 71.6; Iaías 66.9)
  • Deus sente a fúria como uma ursa-mãe privada do seus filhotes (Oséias 13.8)
  • Jesus anseia pelo povo de Jerusalém, como uma galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas (Lucas 13.34)

As figuras masculinas de pai, guerreiro, etc. são mais conhecidas, sem necessidade de ilustrar. Fascinante que somente juntos, macho e fêmea, refletimos, mesmo que em parte, o Criador. Por isso, o respeito mútuo e o intuito de reconhecer e realizar o potencial do outro gênero está no cerne da espiritualidade.

  1. Foi muito bom ler seu texto, pois tenho algumas inquietações e agradeceria se você me ajudasse nesse sentido. Me incomoda e eu não sei qual a postura mais coerente diante da percepção de que nenhuma mulher escreveu livros da bíblia, não eram contadas (exemplo no livro de Números e a explicação das bíblias de estudo é porque elas eram dependentes), não estavam entre os 12 escolhidos por Jesus (apesar que elas estavam sempre ouvindo, conversando e até uma o “financiava”) e também não atuaram diretamente ou publicamente no anúncio da palavra.

    • Sua pergunta é muito apropriada. Provavelmente eu não consiga responder de um jeito que pacifique todas as suas inquietações. Mas quero deixar duas observações que possam ajudar.

      Primeiro, no início do Evangelho Segundo João, encontramos o relato da encarnação: Deus se fez carne e habitou entre nós. Isto explicita o que as Escrituras ilustram ao longo das suas diversas narrações. Deus se manifesta no nosso meio de um jeito que possamos compreendê-lo pelo menos parcialmente, dentro dos nossos padrões culturais. Os profetas que ouviram Deus falar, ouviram na língua hebraica, uma língua humana. Jesus se revelou como um judeu simples, comia a comida da época e seguia, grosso modo, os costumes da época. Não se manifestou como um “ET”. Digo “grosso modo” porque Jesus quebrava alguns paradigmas também, da mesma forma que a revelação de Deus no Antigo Testamento não só seguia mas frequentemente desafiava as convenções sociais. Portanto, em um mundo extremamente patriarchal, é de esperar o destaque nos homens. Assim era o mundo de então. Isto explica em parte muitas das observações que você fez.

      Entretanto, e esta é a minha segunda observação, outro princípio da revelação nas Escrituras é o que se chama de “revelação progressiva”. Isto significa que a vontade de Deus não se revela, por inteiro, de vez, e sim, gradativamente e ao longo das Escrituras. Isto se deve à própria natureza do tempo que se desdobra de forma linear e para “frente”. De qualquer maneira, a revelação mais significativa se deu no ministério, na morte e na ressurreição de Jesus onde as promessas de Deus encontram o seu maior cumprimento. E em Cristo, aprendemos mais do propósito de Deus sobre justamente as convenções sociais que se dizem a respeito de gênero, “raça” e posição social:

      “Pois, por meio da fé em Cristo Jesus, todos vocês são filhos de Deus.  Porque vocês foram batizados para ficarem unidos com Cristo e assim se revestiram com as qualidades do próprio Cristo.  Desse modo não existe diferença entre judeus e não judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus.” (Gálatas 3.26-28).

      E de fato, começamos a perceber gradativamente esta mudança a partir de Cristo. As mulheres recebem mais destaque nos Evangelhos, especialmente o Evangelho segundo Lucas onde elas sustentam o ministério de Jesus. O primeiro missionário da história (!), quem anuncia as boas novas da ressurreição, era uma mulher. E lemos nas epístolas que, não só Priscila junto com o seu marido Áquila, mas muitas outras mulheres eram co-obreiras de Paulo (veja a lista em Romanos 16), inclusive literalmente uma ministra (este é o termo técnico usado no original para a função da Febe, embora traduzam geralmente como “serva”) que tomava conta da igreja de Cencreia e uma apóstola de grande nota chamada Júnia. Quanto a esta última, ainda popularmente se debate se era mulher ou homem (chamado Junias) mas há quase consenso total entre os estudiosos que só poderia ter sido uma mulher. De qualquer maneira várias outras são mencionadas aqui, na Carta aos Filipenses e em outros lugares.

      Enfim, a partir de Cristo e em Cristo as distinções humanas como critério de valor ou até mesmo de liderança, de fato, mudam. E de novo, a história confirma. Basta ver a história da expansão missionária da igreja através dos séculos e verá o destaque que as mulheres tiveram e continuam a ter.

  2. Seus apontamentos me ajudaram muito, mas vou fazer mais uma pergunta (kkkk). Posso concluir com base na sua reflexão e em Gn 1.27 em que observamos que tanto o homem quanto a mulher são criados a imagem de Deus (que é trabalhador como você descreve no seu livro “Trabalho, descanso e dinheiro” e dotado de qualidades que capacitam a nós seres humanos) que não há impedimentos para a mulher ter uma profissão?

    • Claro. Não há impedimentos bíblicos para a mulher exercer qualquer profissão, inclusive dentro do ministério. Tendo dito isto, é importante esclarecer que cada gênero, masculino e feminino, poderá, de modo geral mas não específico, se sobressair com mais facilidade do que o outro gênero em uma ou outra atividade. Mas isto não impede que cada um persegue a profissão para qual se acha vocacionado.

  3. Timóteo, gostaria de saber sobre o ministério pastoral feminino, pois alguns cristãos usam 1 Timóteo capítulo 3, por exemplo para dizer que não é possível, além da “fala” de Paulo sobre a ordem na criação: primeiro o homem e depois a mulher também na carta a Timóteo e 1 Coríntios 11 e 14.

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